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01/12/23

Sinais de desincentivo sem muita espessura

Uma campanha dinamarquesa engraçada:  a faz-de-conta-que-acidentada tabuleta diz «Diminua a velocidade. Só um bocadinho.» Imagino que, antes de a lançarem, tenham feito um estudo sobre se a tabuleta não distrairia os condutores... 

A propósito de estudos e de velocidade, já vi vários estudos que concluem uma relação direta entre velocidade permitida e número e gravidade de acidentes rodoviários. Baixar os limites de velocidade é uma maneira simples de evitar acidentes e salvar vidas, mas é uma medida impopular, não é?

Já agora, e a propósito de coisas recortadas à beira da estrada: na Turquia, vi muitas vezes carros da polícia de contraplacado ou algum material semelhante, para ver se os condutores desaceleravam um bocadinho quando os viam. Li algures que funcionam. 

É de notar, a propósito, que a função da polícia deve ser desincentivar a infração mais do que caçar infratores. Em França, por exemplo, são normalmente anunciadas as zonas com radares para medir a velocidade. E de certeza que salva mais vidas levar as pessoas a reduzir a velocidade em zonas perigosas que passar multas aos que já ultrapassaram a velocidade permitida – embora isso, claro, também tenha de se fazer, porque a punição do incumprimento é condição essencial para a existência duma regra, mesmo que esta se queira fundamentalmente dissuasora. 

Mudando um bocadinho de tema, mas continuando no contraplacado e no desincentivo, aqui em Troense houve um ano em que se viam nos campos raposas recortadas a servir de espantalho, mas não deve ter funcionado bem, porque há anos que as não vejo. Não vejo na net nenhuma raposa igual às que aqui vi, mas encontro uma de borracha, com rabo de pelo que esvoaça ao vento e um lobo e coiotes usados para esse mesmo fim.


26/08/22

Histórias de ilhas [Crónicas de Svendborg #44]

Placa na ilha de Strynø indicando
direções e distâncias de outras ilhas. 

A Dinamarca é um país pequeno, mas tem uma linha de costa muito comprida: 8.750 km de litoral para um país de 43.000 km2 é obra! Tem também muitas ilhas: mais de 400 com nome e, segundo dados de 2013, 75 habitadas (aqui têm uma lista ordenada por número de habitantes). 

Algumas ilhas são privadas. Agora, quando pensamos em ilhas privadas, temos tendência a associá-las a gente de muito dinheiro, mas nem todas as ilhas privadas da Dinamarca pertencem a milionários que as compraram para lá passarem uns diazinhos de férias. Passo a contar-vos um bocadinho da história de Halmø, uma ilha do Arquipélago Meridional da Fiónia. Traduzo, para começar, um artigo do canal 2 da televisão dinamarquesa datado de 9 de março de 2019: 

«Há mais de quatro décadas que Peter e Gitte Didrichsen são proprietários da ilha de Halmø no Arquipélago Meridional da Fiónia, entre a Fiónia propriamente dita e Ærø. Mas o casal optou agora por pôr a ilha à venda. A ilha tem 43 hectares e a casa de 200 metros quadrados [a única casa da ilha] está incluída na venda.

– A minha esposa e eu temos ambos 82 anos. Tratar disto exige muito tempo, era mais fácil quando comprámos a ilha há 40/50 anos – diz Peter Didrichsen. (…) 

Os Didrichsen tinham anteriormente afirmado que (…), quando já não pudessem tratar da propriedade, prefeririam não vender a ilha e queriam antes que continuasse a ser da família. Mas (…) os quatro filhos do casal não estão muito interessados em ficar com a ilha.

– Acho que tudo tem o seu fim, mas estamos tristes por termos de nos desfazer da ilha, devo dizer. Gostámos muito de aqui viver desde o início dos anos 70 (…).»

A ilha de Halmø vista de outra ilha, Ærø. 
Foto de Erik Christiansen, 2004, daqui. Atribuição Creative Commons.
É assim a vida, já ninguém quer ser agricultor, e menos ainda numa ilha pequena. Halmø não é a única ilha que era propriedade agrícola habitada até há pouco tempo e está agora desabitada.

Quando o artigo foi publicado, a casa de Halmø estava avaliada em 3,8 milhões de coroas dinamarquesas (≈510.000 €) e o terreno em cerca de 1,2 milhões de coroas dinamarquesas ((≈161.000 €) e. Mas a agência imobiliária pedia no mínimo 15 milhões (dois milhões de euros). Os dez milhões extras deviam ser o valor de ter uma ilha só para si. Não há obrigatoriedade de residência, como há normalmente na Dinamarca para uma casa deste tamanho, de maneira que se pode usar a casa só como casa de férias. Em 2020, a ilha foi comprada por uma firma, por 9,8 milhões de coroas. Não faço ideia do que querem lá fazer ou do que lá já tenham feito, mas sei que se pode visitar a ilha – se se tiver um barco para lá chegar.  

Aqui muito perto de nós, a ilha de Siø também foi vendida há quatro anos. É uma ilha pequenina que está ligada à nossa por uma ponte que não se nota que o é, de maneira que não se dá forçosamente pela sua existência. Esteve à venda dois anos e meio e o preço foi baixando de 39 milhões de coroas (≈ 5.245.000€) para seis milhões e meio (≈870.000€). Não é muito dinheiro, sobretudo quando há várias construções em bom estado na ilha. Há casas (casarões!) aqui na aldeia que custam mais que isso.

E depois têm sido vendidas vários outras nas últimas décadas, de tamanhos e preços variáveis. A mais barata foi pelos vistos Peberholm, no fiorde de Roskilde, que foi vendida por menos de dois milhões de coroas. Também não é muito grande…


17/02/20

Nomes velhos para coisas novas: milho e feijão

Já aqui falei uma vez de coelhos e do nome Hispania. Uma das propostas etimológicas para Hispania é que os fenícios, ao encontrarem aí um bicho novo, os coelhos, lhe deram o nome do bicho mais parecido que conheciam, os damões, e chamaram então à Ibéria i-shapan, «ilha de damões». Ora, independentemente de ser ou não esta a verdadeira origem de Hispania, o processo que ela implica é comum e compreensível: inventar um nome novo para um animal ou uma planta que se descobre é mais trabalhoso que reciclar um nome já existente.
Por exemplo: o milho (Zea mays), que é um cereal americano, recebeu em português o nome de um outro tipo de cereais da família Poaceae, hoje conhecidos como milho miúdo ou painço, originários de várias partes do mundo e que os portugueses conheciam há muito. Em francês, mantém-se no Canadá a designação de blé d’Inde, «trigo da Índia» (entendendo-se aqui Índia como Américas, «as Índias Ocidentais»).

Também é curioso pensar que o facto de se usar um nome de um animal ou planta que se conhece para outro animal ou planta «semelhante» que se descobre pode afetar a designação original, se o novo animal ou planta se tornar mais popular que o original. O milho antigo passou a designar-se como miúdo ou painço, quando se divulgou o novo milho, que lhe usurpou o nome[1]. O mesmo se passou com o peru, animal também americano, a que os espanhóis deram o nome do pavão, pavo, por com este se parecer, e que passou a ser ele o pavo propriamente dito, tendo-se acrescentado ao desgraçado do pavo original o termo real para o distinguir do usurpador do seu nome.


Outro bom exemplo deste fenómeno é o feijão. O chamado feijão comum, esse com que se fazem feijoadas, dobradas e sopas de feijão, é o Phaseolus vulgaris, uma espécie de um género que inclui também a feijoca, Phaseolus lunatus. Todos os tipos de feijão – branco, encarnado, catarino, preto, manteiga, etc. – são variedades diferentes da mesma espécie e os diversos tipos de feijão verde são também o mesmo legume: as suas vagens antes de se desenvolverem as sementes[2]. O feijão comum é originário da América Central e do Sul, pelo que só começou a ser consumido na Europa no séc. XVI. Já aqui vos falei de feijão e disse que alguns dos nomes que se lhe dão hoje se usavam antes de os europeus o conhecerem, mas para designar outras leguminosas. De facto, ao passar em revista os nomes do feijão na nossa língua e nalgumas línguas mais próximas da nossa, chegamos à conclusão que, dos muitos nomes que o feijão tem, apenas poucos são importados das línguas dos povos que originalmente o cultivavam. Senão vejamos:

Feijão, em português (e feijoca, claro), fagiolo, em italiano, flageolet e fayot, em francês, e frijol, fríjol, frejol e fréjol[3], em castelhano, vêm todos do latim faseŏlus ou phaseŏlus, que dá o nome botânico ao género, como já referido, e que vem, por sua vez, do grego φάσηλος (phásēlos), que designa o feijão-frade (Vigna ungiculata, um legume sem relação com o Phaseolus). Também o termo alubia, outro nome do feijão em Espanha, vem de uma palavra persa, لوبیا‎ (lubeyā)[4], que designa o feijão-frade.

Faba, termo galego e asturiano, vem obviamente do termo latino faba, que designa a fava[5] (Vicia faba, outro legume sem relação com o Phaseolus). Habichuela[6] é, claro, um diminutivo de fava, tenha ele sido formado já da haba castelhana, ou venha de formas anteriores, como uma hipotética fabichuela moçárabe ou uma fabicella latina.

O inglês bean e os seus parentes germânicos, como o neerlandês boon, alemão Bohne e o dinamarquês bønne, estão também etimologicamente relacionados com o latim faba, «fava», o grego phakos, «lentilha», e o albanês bathë, «fava», e vários outros termos indo-europeus que designam leguminosas euroasiáticas.

Quanto ao termo judía, que se usa em Espanha, vem provavelmente do etnónimo judío, mas como e porquê não se sabe… Também ninguém parece saber a origem de caraota, o nome venezuelano do feijão, nem ter a certeza sobre a origem do francês haricot. Quer dizer, conhece-se a história de haricot no sentido de «guisado»[7], e pensa-se que se deu o nome da preparação culinária ao feijão, por este ser assim preparado, mas há outras propostas[8].

De maneira que são uma minoria os nomes do feijão nas línguas europeias que foram importados das línguas faladas pelos povos que o domesticaram e cultivavam: poroto (Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai Perú, Uruguai), que vem do quéchua purutu; ejote, que se usa para o feijão verde (América Central e México) e que vem do nauatle exōtl, «feijoca»; e chaucha (Argentina, Paraguai, Uruguai), que parece vir de um termo quéchua que significa «verde, por amadurecer»[9]. Pois, porque, como eu dizia, é mais fácil dar-se a uma coisa nova um nome de uma coisa que já se conhece…




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Notas

[1] Evidentemente, isto não se passa de repente, longe disso. Durante muito tempo, usaram-se expressões várias para distinguir o novo milho do milho antigo, até que o milho americano passou a ser simplesmente milho, sem mais. Lê-se na entrada Milhom (p. 134) do Elucidario das palavras, termos, e frases, que em Portugal antiguamente se usárão, e que hoje regularmente se ignorão: obra indispensavel para entender sem erro os documentos mais raros, e preciosos, que entre nós se conservão, de Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo (Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1798)
Em hum Testam. De S. Simão da Junqueira de 1289 se diz: It : a Stevão Joannes de Pera fita, ou a seos heréés, hum quarteiro de milhom. Daqui se poderia inferir, que já então havia em Portugal milho Maíz, ou grosso, a que hoje chamão naquella terra Milhão. Mas a verdade he, que os Antigos punhão muitas vezes m sobre o o ultimo de algumas palavras sem necessidade alguma : v. g. juriom por jurio, &c. E da mesma sorte se disse ali Milhom por Milho, pelo qual se entendeo sempre o milho branco, ou miudo , até que no Sec. XVII. hum certo Paulo de Braga o trouxe á sua terra, vindo da India. Ao principio, dizem, se prohibio o semeallo, e só alguns cultivárão poucos pés nas suas hortas, e jardins. Hoje hé o mais frequente pão naquella Provincia, e lhe chamão Milho Zaburro, Milho grande, Milho graúdo, Milho Maíz, Milhão, ou Milho grosso, e Milho de Maçaroca.
Na entrada Maçaroca (p. 47 do Suplemento ao Eluciário), lê-se o seguinte:
Milho de maçaroca, milho grósso. V. Milhom. No tempo d'El Rei D. João II., e no descubrimento de Guiné, dizem alguns descubrírão os Portuguezes o Milho grosso de maçaroca, donde o trouxerão a Portugal; e que se principiou a cultivar nos campos de Coimbra.
Joaquim de Viterbo não sabia, pois, da origem americana do milho.

[2] Apesar de ser a mesma planta, o feijão verde tem, por vezes, designações diferentes do feijão maduro. Às vezes, acrescenta-se apenas verde ao nome do feijão, como se faz em feijão verde, haricots verts, judías verdes ou porotos verdes; às vezes, designam-se como o que de facto são, vagens (norte de Portugal), vainitas (Peru); mas às vezes têm a sua palavra própria, como ejote, habichuela ou chaucha.

[3] Frijol e as suas variantes usam-se principalmente no México, na América Central e no Peru. A estranha forma com -r- e terminada em -ol resultaria da contaminação do termo diretamente derivado do faseolus latino pelo moçárabe brísol ou gríjol, «ervilha». O termo francês flageolet tem origem na palavra italiana e fayot chega ao francês pelo provençal faiol ou fayol.

[4] A palavra chega ao castelhano pelo árabe andaluz اللُوبِيَا‎ (allúbya), variação do árabe لُوبِيَاء ‎ (lūbiyā).

[5] A palavra latina vem do proto-itálico *fafā, do protoindo-europeu *bʰabʰ-, que, além da palavra latina, dá muitas palavras germânicas e eslavas.

No francês canadiano ainda se usa, como em francês antigo, a palavra fève para designar o feijão comum – palavra que, nas outras variantes do francês moderno, designa apenas a fava.

[6] O termo é usado em Castilla La Mancha, Múrcia, República Dominicana e Porto Rico para designar o feijão comum maduro e na Andaluzia, Canárias, Cuba, Colômbia, Panamá e Venezuela para designar o feijão verde.

[7] O nome haricot é formado a partir de um verbo antigo, harigoter, «desfazer, partir ou cortar aos bocados», que viria do frâncico *hariōn e está relacionado com vários termos germânicos com a ideia de «desfazer, destruir, dar cabo de».

[8] Segundo o dicionário do Centre Nationale de Ressources Textuelles et Lexicales (um excelente dicionário para quem trabalhe com francês) o mais provável é o nome do legume vir do termo que significa guisado. Considera-se improvável a hipótese da etimologia mexicana (ayacotli) e recusa-se outra proposta, a de ter origem no topónimo Calicut.

[9] Sobre a etimologia de Chaucha, diz Valentín Anders no seu site algo que parece razoável (e bastante curioso), para explicar os diversos significados da palavra na América latina (traduzo eu):
É provável que o sentido de chaucha na América do Sul se tenha indo alterando semanticamente à medida que se deslocava para norte, mais ou menos da seguinte forma:
No DRAE, diz-se que vem de um termo quéchua que significa «verde, não amadurecido» e daí que, na Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, signifique «feijão verde» (por amadurecer) e no Chile, «batatas pequenas que não valem a pena comer e são deixadas para semente» (também por amadurecer). Daí, passa ser «algo de pouco valor» no Chile e no Uruguai, «pouco dinheiro» no Chile e, na Argentina, «moedas pequenas, trocos». Mais um passo e já temos o significado do Equador, «um trabalho de pouca importância, um biscate», para completar o salário. E daí que, nas Antilhas, se tenha tornado sinónimo de sustento diário, a comida de cada dia (…).
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Ilustrações: em cima, uma maçaroca de milho. Bernardino de Sahagun, 1577 (Wikimedia Commons, daqui); em baixo: Phaseolus vulgaris no Libri picturati de Carolus Clusius et al., ca. 1600 (Wikimedia Commons, daqui)

27/11/13

Ideais de campo, ideias da cidade

Labor omnia vicit / Improbus, et duris urguens in rebus egestas: “tudo venceu o trabalho ímprobo e a necessidade premente em duras condições”. Não é certamente a melhor tradução, mas dá uma ideia dos versos célebres de Virgílio* – que falam do trabalho agrícola em tempos anteriores ao do seu autor, mas que podiam falar da maior parte do trabalho agrícola de todos os tempos.

Nas Bucólicas e nas Geórgicas, Virgílio faz o louvor do trabalho e dos pequenos proprietários e pretende secundar a política de retorno à terra do imperador Augusto. Eça de Queirós, 19 séculos mais tarde, cita algumas vezes Virgílio no conto “Civilização” e na sua versão desenvolvida, o romance A Cidade e as Serras, que fazem, também eles, a apologia do retorno à terra. Se se manteve atual durante dezanove séculos, não era nos 100 anos seguintes que havia de perder atualidade: a ideia de retorno à terra continua, sob várias formas, a ser muito atual. E nós também decidimos que não queríamos viver mais na cidade e viemos viver para o campo. Agora, agricultura não fazemos. Temos um hortazita no quintal – e chega bem.

Retorno à terra, trabalho ímprobo… Duas ou três horas a cavar a terra são suficientes, creio eu, para fazer qualquer pessoa repensar a idealização da vida rural. Ímprobo labor, de facto, nisso Virgílio tinha toda a razão. Estava ali a virar a terra na horta e a tentar imaginar o que será fazer esse trabalho – e outros tão ingratos como ele, por exemplo, mondar – várias horas por dia, durante muitos dias dos anos todos de uma vida. Mas não tenho imaginação que chegue para tal. Está bem que agora no mundo rico já não há trabalho agrícola feito à mão. Mas há noutros lugares do mundo, em muitos lugares do mundo. Em Moçambique, as mulheres começam a trabalhar às 4 da manhã, para poderem parar quando o sol já não se aguenta mesmo, por essas 10 ou 11 da manhã. E era assim a vida de muitos camponeses, também aqui, no tempo de Virgílio e no tempo de Eça de Queirós…

Não deve haver muitos camponeses a quem passe pela ideia considerar invejável a vida que têm e muito menos propô-la como modelo… Das Geórgicas e das Bucólicas a A Cidade e as Serras e aos modernos ideais de retorno à terra, o ideal bucólico sempre foi um ideal de gente da cidade, creio eu. Como os outros ideais todos – foi sempre a gente da cidade a imaginar ideais, não foi? Trabalho menos ímprobo, talvez, mas, bem vistas as coisas, não menos importante, porque é outra forma de cuidar da terra… perdão, da Terra.
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* Célebres sobretudo sob uma forma adulterada, labor omnia vincit, “o trabalho vence tudo”, uma frase que Virgílio não escreveu.

25/11/13

Enxadas e pás [Crónicas de Svendborg #16]

É impossível encontrar uma enxada na Dinamarca. Não há mesmo em lado nenhum! Por acaso, tenho uma no quintal, que me emprestou um amigo meu, mas comprou-a… em Portugal.

Se cavam a terra à mão, os dinamarqueses usam estes dois instrumentos: a pá de cavar (spade) e o cultivador (kultivator).

Quer dizer, fui buscar um cognato para traduzir kultivator, mas não sei se é assim que se chama em português este pequeno arado manual, não lhe encontro o nome em lado nenhum. E é curioso, a página da Wikipédia em dinamarquês que refere o instrumento, corresponde sempre, em páginas noutras línguas, a motocultivadores. Notem que também não há página da Wikipédia em português que corresponda à de spade em dinamarquês e noutras línguas. Aliás, o português usa a mesma palavra pá para designar dois conjuntos de ferramentas com funções muitos distintas: esta, que serve para revolver a terra, e outra, que é um contentor e serve para tirar terra, areia, gravilha, lixo, etc. de um lugar para outro.

Uma questão interessante é: porque é que não há enxadas na Dinamarca? É claro, podia perguntar antes porque é que há enxadas em Portugal ou porque se usa tanto a enxada para cavar em Portugal, mas a verdade é que, se já tenho pouca resposta para a primeira pergunta, menos ainda tenho para a segunda, de maneira que, para já, me fico pela primeira.

Quando experimentei usar a enxada para cavar o quintal, e tive de a abandonar logo de seguida e voltar à pá, surgiu-me uma possibilidade de explicação: se calhar, a maioria dos solos é muito argilosa, como este aqui, e, quando assim é, a julgar pelo meu quintal, é muito mais fácil trabalhar com a pá de cavar. Mas eu não percebo nada de solos nem de ferramentas, de maneira que perguntei ao meu amigo Stefaan Dondeyne que é especialista de ciência dos solos, precisamente. E disse-me ele:
Isso dos solos e das enxadas é interessante... Não sei muito sobre os solos da Dinamarca, nem sobre os solos em Portugal, de facto; mas, pelo que vi na Noruega, muitos solos são depósitos relativamente recente de argilas marítimas – na verdade, quase todas as áreas a menos de 100 metros acima do nível do mar. Desde o fim da idade do gelo e do derretimento da calota glaciar, a Noruega – e com certeza também a Dinamarca – tem sofrido um levantamento isostático e muita terra que era submarina está agora ao ar livre. Esse tipo de argilas é de facto difícil de trabalhar. Em Portugal, os solos resultam de decomposição de materiais rochosos mais antigos (e, nos vales, também de depósitos aluviais e coluviais, claro), mas, assim, mesmo quando são argilosos, serão de outro tipo e mais fáceis de trabalhar. Que as enxadas não existam na Dinamarca, sim, pode ser por causa da natureza dos solos.
Pois, pode ser. Ou não, claro. Pode haver milhares de outras razões. A minha mulher, que também é agrónoma, embora não especialista em solos, sugeriu que a quantidade de pedras também pode ter influência na escolha da ferramenta. Talvez – ou talvez não…. Mas, bem veem, para mim, faz sempre sentido procurar no meio físico alguma eventual explicação para os fenómenos culturais.

Chama-se às vezes (neo)deterministas geográficos a pessoas com uma atitude semelhante à minha, mas a expressão desagrada-me, porque se presta a uma interpretação errada: não acredito que o meio físico determine a cultura, apenas que a influencie. Aliás, nem é preciso que tenha influência em toda a cultura em todas as épocas para ter uma grande influência, basta que influencie um pormenor cultural numa determinada época para isso, mais tarde, se traduzir num grande leque de características culturais – e todo esse desenvolvimento, a cultura já pode fazê-lo sozinha, sem que ele derive diretamente do meio. Neste caso, parece-me plausível que as características do solo levem ao desenvolvimento de ferramentas com formas ligeiramente diferentes. Mas não digo que têm de ser só as características do solo a modelar os instrumentos para o cavar. Nem nego que, em certos casos, a influência do meio possa ser completamente apagada por fatores de outra ordem – culturais, em sentido lato.

24/03/10

Não mata só as colheitas

A Karen, a minha mulher, chegou ontem desanimada do Dombe. A seca deu cabo de toda a colheita de gergelim. Aquela gente toda (em números redondos, 2000 produtores com 1 hectare cada um), que tinha tido bons resultados com o gergelim como cultura de rendimento na campanha passada e que tinha investido ainda mais em gergelim este ano, vai ter zero, literalmente zero, de produção, porque simplesmente não choveu até meados de Fevereiro. “Imaginas o que é passar um ano todo sem um tostão?”, perguntou-me a Karen quando chegou a casa. Eu não, por acaso não imagino mesmo. E vocês?

Nos países ricos, há seguros agrícolas e há fundos especiais para zonas de calamidade. Talvez os agricultores não vivam tão bem num ano de má ou nenhuma colheita como num ano bom, mas vão vivendo. Aqui, não há nada. É preciso desenvolver a agricultura e é preciso aumentar a produção e a comercialização. Muito bem. Mas, depois de um ano assim, quem se tinha disposto a lançar-se em mais do que mera agricultura de subsistência provavelmente desiste. Volta diversificar mais as culturas e a investir menos trabalho e dinheiro, porque assim, se voltar a perder, é menos trabalho e dinheiro que perde…

No mês passado, em Maputo, estive a ouvir Joseph Hanlon num seminário a que assisti. Não fiquei muito convencido com o grosso da sua palestra, mas houve uma proposta que ele fez que me parece interessante (e que é precisamente a que ele vai desenvolver no seu próximo livro, Just Give Money to the Poor, a ser publicado agora em Abril): Quando tantos modelos de cooperação para o desenvolvimento falharam e continuam a falhar, por que não dar simplesmente dinheiro às pessoas pobres, para activar um pouco as economias das zonas mais remotas, onde o dinheiro é pura e simplesmente inexistente? Até porque os primeiros produtos que as pessoas mais pobres compram quando têm algum dinheiro são, se não mesmo locais, pelo menos feitos no país. Evidentemente, Hanlon não propõe lançar de helicópteros sacos de notas de 20 meticais. O que ele propõe é que o dinheiro da cooperação vá directamente para pagar os diversos subsídios que são comuns nos países europeus e inexistentes em países como Moçambique (ou que, mesmo quando existem na teoria, não funcionam na prática): maternidade, reforma, desemprego, etc. E algum tipo de seguros agrícolas, digo eu. É que uma seca como a deste ano não mata só as colheitas...