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13/05/15

Passar de é a deve ser

Pode ser que uma parte de valores e comportamentos sociais que temos tendência a considerar essencialmente culturais tenha origem em estruturas primitivas inatas, em lugares fundo das pessoas. Pode ser ou pode não ser, as discussões sobre o tema estão muito longe de ser conclusivas. E isto aplica-se tanto às atitudes que louvamos (a solidariedade, por exemplo) como às que criticamos (por exemplo, a discriminação). Talvez algumas das discriminações tenham até origem nos mecanismos que fundam também a solidariedade. O reconhecimento de parentesco, por exemplo, se de facto existir, é um mecanismo egoísta para os nossos genes se protegerem a si próprios em que pode assentar originalmente a criação de círculos de identidade e pertença («sou deste grupo»), que resulta forçosamente no reconhecimento simples da diferença («X não é deste grupo») que modela a discriminação. Tor Nørretranders (de quem já aqui falei) explora muito a noção de egoísmo como base do altruísmo e defende que é a vontade de se valorizar para seduzir os outros que nos leva a fazer coisas por eles, para eles. Pode dizer-se que, nesta perspetiva, há uma profunda relação entre dois sentidos comuns da expressão ser bom: «ser capaz, habilidoso, competente» e «ser bondoso».

Tirando a elegante formulação da questão que proponho na frase anterior, acabadinha de descobrir, não disse ainda, neste texto, nada que não tenha já dito noutros textos deste blogue. Não é, porém, para apresentar a minha descoberta retórica que escrevo, mas para sublinhar que, mesmo que acreditemos que estão assim fundamente ancorados em nós, que são tão naturais como inevitáveis, os vários mecanismos que fundam provavelmente todas as morais, não devemos perder de vista que esses mecanismos são moralmente contraditórios e nem por obsessão de realismo, portanto, a discussão ética se pode centrar na constatação do que é, do como somos – a constatação duma pretensa natureza humana. É que do que é, mesmo havendo sobre ele um consenso que atualmente não há, não pode fazer derivar-se direta e univocamente um deve ser – mas antes muitos, muitos!...

28/09/14

O princípio da desvantagem e a in/utilidade da arte

Não é invulgar a ideia de que a inutilidade é uma característica essencial da arte. Oscar Wilde, por exemplo, afirma-o perentoriamente no fim do famoso prefácio ao Retrato de Dorian Gray (traduzo eu):
…
Podemos perdoar a um homem fazer uma coisa útil, contanto que a não admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é admirá-la intensamente.
Toda a arte é bastante inútil. 
Mas eis um enquadramento diferente da ideia: há quem alargue o alcance do chamado princípio da desvantagem, aplicando-o também, entre outras coisas, à criação artística*. Muito resumidamente, a ideia é que um solo de trompete é um sinal como a cauda de um pavão, que se ostenta como quem diz: “vejam, sou tão bom que, além das capacidades que me asseguram o essencial para a sobrevivência, até tenho capacidades desnecessárias e difíceis de adquirir!”

Um handicap tem, por definição, de ser inútil do ponto de vista adaptativo. Ao servir para a seleção sexual, porém, ganha uma utilidade considerável. Agora, parece-me que, embora sem a referência à teoria do handicap e sem as suas complexidades, a ideia de que uma das motivações da arte (ou a sua motivação essencial) é impressionar potenciais parceiros sexuais é tão antiga e tão comum como a ideia da sua inutilidade: sempre ouvi dizer que é para seduzir que se aprende a tocar guitarra e que o domínio do metro e da rima vale tanto para esse mesmo fim como um rosto bonito, dentes saudáveis ou um corpo bem feitinho.
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* A ideia, que conheci através de Tor Nørretranders em O homem generoso (2005) (de que já aqui falei uma vez), vem de Geoffrey Miller em Mating Mind (2000), que vê a seleção sexual como origem e finalidade da mente humana.

07/03/10

O funeral de Yogi Berra e a natureza humana

É importante ter consciência de que não há nada de intrínseco ao ser humano na democracia, na justiça social, na solidariedade, na tolerância, etc. – são apenas ideias morais que vão contra uma grande parte (a maior parte?) de tudo o que conhecemos em qualquer lugar e período da História, o que não poderia, por definição, acontecer se fossem naturais no Homo sapiens.

Isto já o devo ter dito aqui, de outras maneiras, mas, se o fiz, não faz mal, porque é algo que acho que vale a pena repetir. Agora, não há tão-pouco razões para ter uma ideia demasiado pessimista da natureza humana – o que implicaria, em última análise, a impossibilidade de democracia e justiça social. Nas últimas décadas, a velhíssima discussão entre visões essencialmente negativas e visões essencialmente positivas da natureza humana tem sido muito enriquecida com resultados experimentais (da teoria dos jogos, mas não só) que mostram que alguns constituintes das ideias de igualdade e justiça social (altruísmo e reciprocidade, sob várias formas) estão profundamente ancorados em todos nós. Dito de outra maneira: Muito provavelmente, na velha discussão entre o pessimismo hobbesiano e o optimismo naturalista-primitivista de que se costuma (não sei se um pouco apressadamente) dar Rousseau como exemplo primeiro, não há forçosamente que tomar uma ou outra posição, porque as instituições sociais tanto servem, conforme os casos, para “perverter” como para “moralizar” a pessoa humana e a pessoa humana, que é quem cria essas instituições sociais, é tão naturalmente “bruta” e “egoísta” como “sensível” e “generosa”. Aliás, talvez se deva transformar, diria eu, a mais comum relação adversativa entre egoísmo e generosidade numa relação causal: em vez de “As pessoas são generosas, apesar de serem também egoístas”, talvez se deva antes dizer “As pessoas são generosas, porque são egoístas”.

Tor Nørretranders, em Det generøse menneske (“A pessoa generosa”), um livro que se apresenta como sendo sobre “cerveja, gajas* e música de cornetas”, defende fundamentalmente que é a selecção sexual, um conceito frequentemente esquecido da teoria darwiniana, que justifica muito do que há de louvável na acção humana: ser bom (tanto no sentido moral como no sentido de ser competente) dá parceiros sexuais! A ideia não é só dele, claro está, mas ele di-lo de uma forma atraente. O livro acaba com uma listagem de aparentes paradoxos que, segundo Nørretranders, não o são. Eis quatro deles:

Defende os teus próprios interesses: sê generoso
Sê egoísta: divide tudo
Mostra a tua individualidade: cria comunidade
Sê voluptuoso: dá o melhor de ti

A maneira mais eficaz, porém, de explicar sinteticamente como é que a satisfação dos seus próprios interesses se transforma em solidariedade ainda é capaz de ser a do jogador de beisebol Yogi Berra, que diz que devemos ir ao funeral das outras pessoas se quisermos que elas também venham ao nosso funeral**.

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* A tradução de fisse por “gajas” não é muito literal, mas é porque a palavra portuguesa que corresponde de facto à dinamarquesa, a minha mãe proibiu-me de a utilizar, como diria Brassens.

** O seu a seu dono: não é minha a ideia de relacionar a famosa frase de Yogi Berra com a chamada “reciprocidade indirecta”, mas sim de Karl Sigmund, no seu artigo “Indirect Reciprocity, Assessment Hardwiring and Reputation”.