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08/12/19

De pé, como as árvores [Crónicas de Svendborg #33]

Quando eu era miúdo, vi várias vezes (?) na televisão uma peça de teatro chamada As árvores morrem de pé, com Palmira Bastos no papel principal. Também vos recordais? As coisas que nos vêm à cabeça…. Fui agora ver ao Google e fiquei a saber que a peça é de um dramaturgo espanhol chamado Alejandro Casona e que Palmira Bastos tinha 90 anos quando a gravou para a RTP, um ano antes da sua morte. Não sei nada de Palmira Bastos nem me lembro nada da peça, a não ser que tinha um final trágico que impressionou muito os oito aninhos que eu tinha, em que a atriz declamava (também vi isto agora no Google): «Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores!».

Agora, isto de as árvores morrerem de pé, enfim, é conforme… Há de facto árvores que morrem de pé, como o castanheiro da primeira foto. Este morreu à míngua de luz, rai’s parta’ os abetos que o rodeavam, que o atabafaram, antes de terem desbastado, tarde demais, o espaço à sua volta.

E há outras que caem mortas, como a faia da segunda foto. Diz que ar e vento é meio sustento, mas ela, com o ar em tanto movimento, não se sustentou. (Também deve haver árvores que não têm onde cair mortas, mas isso é outra história…)

Já agora, continuando a avaliar como se enraízam no real as metáforas vegetais, pode constatar-se que morrer ou não de pé é independente de se ter ou não raízes no local onde se morre: o castanheiro da foto, que mantém intactas as suas raízes, é árvore imigrante, ao passo que a desenraizada faia é árvore com raízes locais.

23/11/19

Nørreskov [Crónicas de Svendborg #32]


A Nørreskov, a «mata norte», é uma das matas da ilha de Tåsinge.
Escreveram-se em casca de bétula textos religiosos, tratados de matemática, medicina e gramática, provérbios, fórmulas encantatórias, trabalhos escolares e, com toda a certeza, cartas comerciais e de amor, entre muitas outras coisas. Mas não foi em casca destas bétulas, claro está.
Este é um exemplo extremo, mas na Nørreskov dobram-se as árvores para o mar que a ladeia. Estamos habituados a que sopre o vento do mar para a terra, mas aqui é ao contrário, o vento empurra as árvores para a praia: «Vão, vão, vão, ali em frente há mais terra, mais terras, lugares para novas raízes.»
Há pessoas que vão passear para centros comerciais ao fim de semana. (E porque não?)
Na Dinamarca, não há rios. Há regatos e ribeiras, mas rios não. «Muitos riachozinhos fazem uma grande ribeira», diz um provérbio dinamarquês que é primo do nosso «grão a grão enche a galinha o papo». A palavra å, que significa «ribeira», é com certeza um dos mais curtos nomes do mundo, pelo se nos guiarmos pelo critério do número de letras com que se escreve — juntamente com ø, que significa «ilha». (Sobretudo se não contarmos o nome das letras do alfabeto.)
Faias. A folhagem esconde uma parte da beleza das árvores.
Não deixa de ser curioso que o latim silva-, «mata, bosque, floresta», tenha dado em português duas coisas tão diferentes como selva e silva. Já agora, que falamos de silvas, também não deixa de ser curioso que em português se dê o mesmo nome de amoras aos frutos das silvas (arbustos do género Rubus) e das amoreiras (árvores do género Morus).
«De Santos a Natal, é inverno natural», diz o provérbio português. E mais aqui. Pouco já resta das cores outonais e vai-se esgaçando o tapete de folhas.

20/08/18

Enfim...

Quatro excertos de textos que encontrei na Internet (traduzo e sublinho eu):
A famosa sequência de Fibonacci cativou matemáticos, artistas, designers e cientistas por séculos. Também conhecida como Proporção Áurea, a sua omnipresença e a sua surpreendente funcionalidade na natureza sugere a sua importância como característica fundamental do universo. (Daqui.) 
Os números de Fibonacci são o sistema numérico da natureza. Aparecem em toda parte na natureza, desde a organização de folhas nas plantas até ao padrão das flores reduzidas no capítulo de uma flor composta, as escamas de uma pinha ou de um ananás. (Daqui) 
A Proporção Áurea manifesta-se em muitos lugares do universo, incluindo a Terra, faz parte da natureza da Terra e faz parte de nós. (Daqui)
Não seria estranho se precisamente o mesmo padrão fosse encontrado em diversas formas de vida em todo o universo? Bem, esse padrão existe e chama-se Proporção Áurea. (Daqui) 
São exemplos de afirmações que se fazem sobre duas coisas relacionadas, a progressão de Fibonacci e a Proporção de Ouro. Podia falar da muita batota que há no fazer coincidir formas naturais e formas geométricas, podia dizer que pretender conhecer os padrões de formas de vida em todo o universo (ena!) me parece algo exagerado, mas não, deixo isso tudo de lado. digo só que me parece muito estranho pressupor que a taxa de ocorrência na natureza de formas geradas por uma determinada sequência numérica seja superior à das formas geradas por outras sequências geométricas. Hmmm…

Posso estar a ver mal a coisa, mas parece-me que o valor de verdade da afirmação de que há uma grande taxa de ocorrência na natureza – mesmo que isso queira significar apenas «acima da média» – é claramente inverificável. Para não ser impressão contra impressão, que não leva a lado nenhum, proponho o seguinte: Observem qualquer porção aleatoriamente escolhida da natureza, como a imagem abaixo, e digam-me quantas formas ocorrem; quais ocorrem mais, no caso de haver repetições; e, já agora, que sequência numérica as gera. Repitam a experiência com um número de paisagens que considerem significativo (um bocado de maqui provençal, que sei eu?, de desfiladeiro andino, de floresta de miombo, de deserto indiano, de… de… de…) e digam-me a que conclusões chegaram sobre que formas são mais recorrentes e em que lugar aparece a espiral gerada pela sequência de Fibonacci. Depois, retomamos a conversa.


20/04/14

Águias, sintaxe e água fria [Crónicas de Svendborg #20]

Temos uma amiga que sabe os ninhos todos de águias-rabalvas aqui na ilha de Tåsinge e na ilha vizinha de Langeland.
Foto: Wikimedia Commons
Por estranho que possa parecer quando se começa a reflectir sobre ele (parece que devia ser antes de todos os ninhos”, não era?), é possível este uso transitivo de saber, consagrado, por exemplo, num conhecido poema de Miguel Torga. (O’Neill também sabia transitivamente, mas sabia seios em vez de ninhos. Como uma pessoa pode aninhar-se no(s) seio(s) de outra, é capaz de não haver, bem vistas as coisas, grande diferença entre os objetos do saber de Torga e de O’Neill…)

A amiga que sabe ninhos de águias é banhista de inverno. Temos vários amigos que são banhistas de inverno e alguns deles começaram tarde, já depois dos 60 anos. Quem sabe se, em chegando aos 60, não me vem também a vontade de fazer buracos no gelo, em janeiro, para me enfiar nas águas refrescantes do Estreito de Svendborg? Uma das minhas filhas diz que vai experimentar ser banhista de inverno agora durante o verão e depois logo vê se continua. O meu filho experimentou ontem à tardinha. A experiência não faz dele banhista de inverno, mas banhista de água muito fria já é com certeza: a temperatura da água aqui devia andar pelos 7º.


P. S. Vimos anteontem algumas faias já com folhas. No lago ali em baixo, o barulho é ensurdecedor em todas as épocas do ano: cisnes, patos e gaivotas de vários tipos, galeirões, corvos-marinhos, uma festa.



20/04/12

Crónica dinamarquesa da Primavera


Tanto o sol como o cotão
têm os seus cantos favoritos.
Isso torna-se claro agora
que estão ambos de volta,
saídos da invernosa clandestinidade.

Dizem-me que a diferença entre estações do ano é mais marcada aqui no Norte da Europa que aí no Sul – talvez por as árvores serem aqui quase todas de folha caduca e por variar mais ao longo do ano a duração de dias e noites. Pode ser, mas nem por isso as pessoas do Norte conseguem demarcar com facilidade o início da Primavera. Para os portugueses é fácil: a Primavera começa no equinócio de Março, a 20 ou 21, e prolonga-se até ao solstício de 21 ou 22 de Junho. Para os dinamarqueses, que não têm esta tradição de se apoiar na astronomia, é normalmente o desabrochar de certas flores que marca o início da Primavera. O que não há é acordo sobre quais: uns indicam-me erantis, outros galanthus, flores pequeninas que suspeito que não têm nome vernáculo no Sul da Europa; e há quem me assegure que só os amentilhos das aveleiras marcam de facto o advento da Primavera. Todos, porém, celebram com grande alegria a sua imprecisa chegada.
George Orwell diz que o «culto da Primavera» surgiu de «condições físicas» concretas que «agora deixaram de existir»:
Na Idade Média, a Primavera não significava antes de mais andorinhas e flores campestres. Significava legumes frescos, leite e carne fresca ao fim de vários meses a viver de carne de porco salgada em enfumadas cabanas sem janelas. As cantigas da Primavera eram alegres (…), porque havia razão para estar assim tão alegre. Tinha acabado o Inverno, era esse o grande acontecimento*.
É certo que o ser humano sabe adaptar a sua natureza a todas as condições da Natureza. Quando o grande poeta e cantor quebequense Gilles Vigneault diz, numa canção famosa, que o seu país é o inverno e a neve, e que a sua casa é o frio, está a dar conta dum sentimento que não é, com certeza, só dele e da gente do seu país. Mas suspeito que nem o amor que aprendeu a ter pelas paisagens do Norte anula completamente no ser humano a sua origem tropical… Pode ser que, como propõe Orwell, agora que a vida é mais fácil, já não haja as razões que havia para celebrar o fim do Inverno. Mas pode ser que continue a haver, agora e sempre, alguma coisa a celebrar. Vejam: os nórdicos, que passam agora invernos mais quentes que os povos do Sul da Europa, se não celebram o fim do frio, celebram o fim da interminável escuridão. Como diz Henrik Nordbrandt, num famoso poema**,
O ano tem 16 meses: Novembro
Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março, Abril
Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro
Outubro, Novembro, Novembro, Novembro, Novembro.

Mas voltemos a Orwell. Noutro texto***, levanta ele uma questão, propriamente moral, sobre os prazeres da vida natural:
É mau ter prazer na Primavera e noutras mudanças sazonais? Para o dizer de forma mais precisa, é politicamente repreensível, enquanto gememos todos, ou, pelo menos devíamos gemer, sob os grilhões do sistema capitalista, destacar que a vida tem muitas vezes mais valor por causa do canto de um melro, de um ulmeiro amarelo em Outubro ou de outro fenómeno natural que não custa dinheiro e não tem o que os redactores de jornais de esquerda chamam uma perspectiva de classe?
E a quem ache irresponsável ou irrelevante esse prazer, porque incentiva «algum tipo de inércia política» ou porque o gosto da Natureza é «passadista, reaccionário e ligeiramente ridículo», Orwell diz que não. Pelo contrário. Afinal de contas, a sociedade ideal por que lutamos é, precisamente, uma sociedade onde possamos todos, libertos do excesso de trabalho, usufruir dos prazeres simples da Natureza. «Se dermos cabo de todo o prazer no próprio processo da vida», diz ele, «que tipo de futuro estamos a preparar para nós mesmos?» Preservar «o amor da nossa infância por coisas como árvores, peixes, borboletas e sapos» é viabilizar um futuro «pacífico e decente», diz Orwell. «Pregar a doutrina de que não se deve admirar nada a não ser aço e betão» é cultivar o escape último «no ódio e na adoração dos chefes».
É um grande salto retórico que Orwell dá, ao passar do prazer no retorno da Primavera ao prazer em «outras mudanças sazonais» – que acaba, afinal, por ser o prazer no desfrute da Natureza. Mas eu perdoo-lhe o truque e pego-lhe outra vez na palavra para a levar mais longe:
A natureza humana, ninguém sabe bem o que é. Eu compreendo que não se abandone apenas o conceito e que se continue antes a investigá-lo, porque essa natureza há-de existir. Mas do que ela é composta, insisto, ninguém sabe. Ainda assim, arrisco-me a propor que a Natureza, que é aquilo contra o qual se costuma definir o humano, é bem capaz de ocupar, afinal, um lugar fundo dentro de nós. É isso que Orwell quer dizer, não é?, quando diz «o amor da nossa infância por coisas como árvores, peixes, borboletas e sapos». É natural digo eu. Se foi nela que nos hominizámos e que vivemos durante centenas de milhares de anos, é natural que a Natureza faça parte da nossa natureza. É certo que, na formulação e construção de ideais morais e de sociedade, encontramos por vezes boas razões para contrariar o que cremos ser a nossa natureza: há instintos arcaicos, pensamos nós, que nos são inúteis hoje e prejudiciais, por egoístas e violentos; e achamos por bem renegá-los. Está muito bem. Mas não vejo que boa razão pode haver para deitar fora o nosso primitivo gosto pela Natureza – o gosto por algo de que não temos, aliás, alternativa senão cuidar.
Toca a roubar umas horinhas, vá lá então!, às muitas coisas importantes que temos de fazer e a recarregar de luz e verde a vontade de fazer uma vida melhor. Há-de haver não muito longe um pinheiral e algum charco onde mergulhe a rã de Bashô – que talvez, seja, afinal, o sapo de Orwell! Pode-se, como vi proposto, fotografar papoilas ou plantar sardinheiras. Um bucolismo qualquer, de fim-de-semana que seja, em vez de se render ao café ali em baixo. [E nas prateleiras, mais livros, para pequenos e graúdos, desses que ensinam os nomes e os hábitos de pássaros e outros animais vizinhos. Por exemplo.] Não importa muito o quê, conquanto que seja meter-se um bocadinho na vida de plantas, bichos e pedras e deixar que ela se meta em nós. Façamos de abrunheiros, cucos e sapos nossos aliados; e, como não há em Portugal nem erantis nem galanthus, com um bocadinho de imaginação pode fazer-se do cravo de Abril a flor portuguesa da Primavera.

Tåsinge, 20 de Março de 2012

[Texto publicado no número de Abril de 2012 de Le Monde diplomatique, Edição Portuguesa. Aqui como saiu no jornal, com a ortografia antiga.]
_________
* «Can Socialists Be Happy?», sob o pseudónimo John Freeman, Tribune, Londres, 20 de Dezembro de 1943. Traduzo eu.
** Håndens skælven i november, Gyldendal, Copenhaga, 1986. Traduzo eu.
*** “Some Thoughts on the Common Toad”, Tribune, Londres, 12 de Abril de 1946. Traduzo eu.

18/11/09

Louvor de jardins e parques e dos passeios no campo ao fim-de-semana

Já decidimos que, quando voltarmos à Dinamarca, não vamos viver em Copenhaga. É ponto assente, tanto para a Karen como para mim, que não queremos viver mais numa cidade grande. Não foi uma decisão fácil, porque fora das grandes cidades não há trabalho para nós nas profissões que sempre tivemos, mas estamos convencidos de que o esforço de reciclagem que a mudança implica há-de valer bem o sossego que ganhamos. “Mas é mesmo para o campo que vocês querem ir viver?”, costumam perguntar as pessoas, quando anunciamos o nosso plano. Não, a ideia é ir para uma vilazinha de província. Temos três miúdos pequenos e viver mesmo no campo com três miúdos pequenos, na Dinamarca, dá muito trabalho, porque tem de se passar a vida a levá-los aqui e ali e acolá... Mas eu gostava, mais tarde, de viver mesmo no campo, porque gosto cada vez mais do campo. E, independentemente de gostar ou não, estou convencido de que o verde nos é necessário e nos faz bem.

O verde é o que natural para nós, é a nossa casa. Foi lá que passámos milhares de anos a aperfeiçoar-nos, a tornar-nos humanos. Foi para viver no verde que evoluímos e é por isso mesmo que o achamos bonito e nos sentimos bem nele. “Ui, por onde este vem”, adivinho eu que seja a reacção de muita gente (e boa gente!) à romântica simplicidade do postulado. Basta aceitar, sem refilar, a ditadura da nossa natureza? Bem vistas as coisas, nem tudo o que a natureza pôs em nós é positivo por aí além – e há uma parte da natureza humana que é inútil na vida que levam hoje os seus portadores: sei lá, instintos de violência e de recusa dos forasteiros, por exemplo, que nos ficaram da vida de caçadores em pequenos grupos, ou a atracção por açúcares e gorduras, que nos era útil quando a nossa dieta era naturalmente pobre nisso mesmo e a vida que levávamos nos fazia gastar muita energia… Está bem, mas essas sim, essas são partes da nossa natureza que, não podendo desfazer-nos delas, devemos arranjar maneira de equilibrar com outras partes mais morais de nós, ou simplesmente contrariar ou enganar – para bem de nós próprio e dos outros. Agora, a nossa atracção pelo verde, que implicações negativas é que ela tem? Não é mais fácil, em vez de nos esforçarmos por ir buscar a outras actividades e paisagens a satisfação que o verde naturalmente nos dá, darmos mesmo passeios regulares no campo?

Gosto do verde e estou convencido de que a falta de verde faz mal. É o verde que limpa o cotão e a poeira que se nos vão acumulando na alma. Não é preciso ir viver para o campo, acho eu, mas é preciso ir ao campo. Nem que não seja campo mesmo, mesmo a sério. É como o calor, por exemplo: animais tropicais que somos, precisamos de calor para nos sentirmos bem. Na falta de calor a sério, blusões de penas e aquecimento central também servem. Mas frio é que não. O mesmo com o verde: jardins e parques, pode ser, desde que seja vegetação. Agora, urbanizações sem verde são um crime contra a nossa humanidade e passar o fim-de-semana entre paredes, sejam elas quais forem, é autoinfligir-se um mal. A sério.