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30/03/17

"Urge for going" – a ânsia de partir.

Joni Mitchell escreveu, provavelmente em 1966, uma canção maravilhosa chamada “Urge for going”. Embora a tenha cantado ao vivo nessa altura*, só em 1972 foi publicada uma gravação de estúdio como lado B do single “You Turn Me On, I'm a Radio”.
 
Nas duas apresentações da canção transcritas na página que lhe é dedicada no site de Joni Mitchell, a autora afirma que se trata de uma canção sobre o inverno da sua terra natal, Saskatoon, Saskatchewan:

Quando chega o inverno, chega mesmo, e a temperatura desce para 10 graus abaixo de zero. e toda a gente se farta de se queixar, mas nunca ninguém faz nada. … Só se queixam e dizem «ah, eu gostava de estar na Flórida» e os agricultores e as pessoas que têm dinheiro para isso vão mesmo até à Flórida ou a alguma ilha para passarem o inverno. Mas, então, os outros, coitados de nós, as pessoas normais, temos de nos sentar e aguentar o inverno até ao fim. E era nisto que eu estava a pensar quando escrevi esta canção, mas acho que significa coisas diferentes para cada pessoa.
É precisamente o que diz a canção (perdoem-me a tradução desajeitada, original aqui):
Quando o sol traidor se torna frio
e as árvores todas tiritam de frio em renques nus,
sinto ânsias de partir.
Mas depois não vou.
Sinto ânsias de partir,
quando a erva de prado começa a ficar castanha,
o verão se esvai e o inverno nos vai cercando. 
Mas diz mais que isso. Há quem fique, mas há quem satisfaça a ânsia de partir.
Tive um homem no verão,
de pele cor de sol quente,
e nenhuma outra moça da terra
lhe soube conquistar o coração. 
Mas quando as folhas se espalharam pelo chão,
vieram ventos fortes
e enterraram-nas na neve.
Veio-lhe a ânsia de partir
e eu tive de o deixar ir.
Veio-lhe a ânsia de partir,
quando a erva de prado começou a ficar castanha,
o verão a esvair-se e o inverno a cercar-nos.
Há um tópico, um motivo recorrente na música popular, uma linhagem de canções, digamos assim, a que chamo ramblin’ man, o «homem errante», o «vagabundo», o «vadio». Nem todas têm exatamente esse título, mas um bom exemplo desta temática é a canção que Ray Pennington gravou em 1967 e que se chama precisamente “I'm a ramblin’ man”:
Deixei uma rapariga na Virgínia Ocidental, / lá onde os campos são verdes, pois deixei. / tenho uma rapariga em Cincinnati, / à espera, ali onde passa o rio Ohio, coitada. / Sou um vadio [ramblin’ man] / Não te apaixones por um vadio. 
O ramblin’ man não pode fixar-se em lado nenhum, tem de seguir viagem. A razão não é clara nem racional, mas é apresentada como imperiosa, uma espécie de fatalidade. Como dizia Hank Williams, no seu clássico “Ramblin’ man” (1951), que gravou com o pseudónimo de Luke the Drifter, «Gosto de ti, miúda, / mas tens de perceber, / que quando Deus me fez, / fez-me vagabundo».

Quando Deus nos faz assim, não podemos ser de outra maneira – a malvada ânsia de partir. Agora, o destino de um ramblin’ man não é apenas seguir sempre em frente, é quase sempre também deixar alguém para trás. No fundo, é como a imagem conhecido dos marinheiros com um amor em cada porto. Aliás, também há canções que falam dessa errância dos marinheiros e que podem incluir-se, creio eu, na mesma grande família temática. Assim traduziu Chico de Buarque a canção “4/3/1943” (1971) de Lucio Dalla:
Ele assim como veio partiu, não se sabe p’ra onde / e deixou minha mãe com o olhar / cada dia mais longe, / esperando, parada, pregada na pedra do porto, / com seu único velho vestido, / cada dia mais curto.
Se não é a ânsia de partir, é o dever. A vida, enfim. E é uma coisa de homens, notem. Se há ramblin’ women, não se veem...

Voltemos à nossa canção. “Urge for going” inscreve-se neste modelo temático concreto, acho eu. Se o aspeto climático da canção, digamos assim, lhe dá alguma originalidade dentro do tópico, não deixa de tratar de um homem que tem de partir, por alguma razão imperiosa, e que deixa atrás de si uma mulher. Mas é uma canção que dá a volta ao tema, alterando-lhe, se não o conteúdo, pelo menos a perspectiva; e dando uma voz à mulher que fica. Ela também sente a ânsia de partir, mas acaba por ficar. As mulheres dos ramblin’ men talvez quisessem partir também, mas não as deixavam, ou elas sentiam que não deviam.

***
Também se pode ver a vadiagem dos ramblin’ men como viagem iniciática. São solitárias, não é verdade? as viagens dos monges (não monjas!) de várias religiões, que deambulam em busca da iluminação. Mas claro, para uns poderem atingir a mais alta e perfeita iluminação, outros há (outras há?) que têm de ficar a tomar conta das crianças. Bom, alguns dirão que o tao também se pode atingir mudando e lavando fraldas, mas porque não escolhem então essa via os santos e os sādhus?…
Yasodharā segura Siddhartha, Museu de Calcutá. Foto: Dharma, Penang, Malásia (daqui) 

No filme Samsara, de Pan Nalin (2001), a personagem principal, Tashi, é um monge que, a dada altura, renuncia à vida monástica, casa-se e tem um filho. Um dia, porém, resolve voltar à procura da iluminação e sai de casa sem dizer nada a ninguém. A sua mulher, Pema, apanha-o no caminho (a cena começa a 2:03:50, em princípio o link aponta já para esse momento):
Yasodharā...», diz-lhe ela, «Conheces Yasodharā? Toda a gente conhece Gautama, Buddha, Siddhartha, mas quantos conhecem Yasodharā? Yasodharā era esposa de Siddhartha e amava-o muito.
Pema lembra a Tashi que, para procurar a Iluminação, Siddhartha Gautama abandonou o lar à noite, quando Yasodharā e Rahul, o filho do casal, estavam a dormir – tal como ele, Tashi, acabava de fazer. E continua:
Quem sabe se Buda não lhe deve a ela [Yasodharā] a sua iluminação? Como podemos saber se ela se sentiu zangada, amargurada e só, quando Sidarta os deixou? … Como podia ela responder à eterna pergunta de Rahul “Onde está o meu pai”?
«Só um homem abandona um filho a meio da noite», diz Pema, mas isto não é de modo algum verdade. O discurso dos instintos maternos sempre foi e continua a ser o discurso dominante e uma maneira eficaz de justificar uma parte dos papéis reservados às mulheres, mas não é verdade. Uma mulher também é capaz de abandonar o filho a meio da noite, milhares, milhões de mulheres o fizeram. E porque não havia de ser capaz? E porque não havia de o fazer, se for o melhor que pode fazer?

Na primavera de 1964, Joni Mitchell ficou grávida de «um artista de Calgari», que, diz ela na canção “Little Green”, de 1971 , «foi a para a Califórnia, porque ouviu dizer que é tudo mais quente por lá». Não se pode saber se é ele o homem que a voz feminina de “Urge for going”. diz ter tido no verão, mas pode especular-se que talvez seja, que podia ser. A história pode ser lida no site de Joni Mitchell, mas também se a pode ler na letra de “Little Green”:
Escreves-lhe uma carta a dizer a dizer que ela [o bebé] tem olhos azuis. Ele manda-te um poema. E ela está perdida para ti. Uma criança com uma criança, a fingir. Estás farta das mentiras que mandas p’ra casa. Assinas todos os papéis em nome da família. Estás triste, lamentas, mas não te envergonhas.
É claro que não tem se envergonhar. Envergonhar-se de quê? De ter cedido ela também à ânsia de partir, quando partir foi o melhor que, nas circunstâncias, podia fazer?
______________________
* Por exemplo na televisão, a 17 de agosto de 66 e a 24 de outubro de 66; e ao vivo no Second Fret, a 6 november 1966. Cliquem nos links e vejam/oiçam os vídeos, porque vale mesmo a pena.

Entretanto, a canção foi gravada por várias pessoas e teve algum sucesso na sua primeira gravação, por Tom Rush (1966, uma grande versão, por tal sinal), e na terceira, por George Hamilton IV (1967). O site Second Hand Songs lista apenas 23 versões da canção, mas o site de Joni Mitchel lista 93 versões.

25/01/16

Votos de Dharmakāra

[Não é um texto meu. É um texto feito com bocados de textos de outras pessoas — feitos, dois deles, com base em textos de outras pessoas... A Internet potencia a criação de hipertextos, não é? Ou então é a facilidade de selecionar, clicar à direita e pesquisar em Google que torna mais óbvia a relação entre os textos.]

[Diz a Wikpédia que Amitābha foi, noutro tempo e talvez noutro mundo, um monge chamado Dharmakāra que decidiu obter para si uma Terra Pura, um mundo criado pelo mérito de um buda. Dharmakāra definiu em 48 votos a Terra Pura que queria criar, ou seja, as condições em que os seres vivos renasceriam nessa terra e que tipo de seres seriam quando lá renascessem. Dos votos de Dharmakara*:]
...
Se, depois de eu atingir o Estado de Buda, os humanos e os deuses da minha terra suscitarem pensamentos de apego a si próprio, que eu não atinja a perfeita iluminação.
...
[Em Myths & Texts (1960), Gary Snyder exprime de forma admirável a sua conceção da Terra Pura**:]
...
Se, depois de eu atingir o Estado de Buda, alguém na minha terra alguém ficar sem um dedo a atrelar vagões de carga, que eu não atinja a mais alta e perfeita iluminação
…
[A 28 de outubro de 2010, no seu blogue Sweep the dust, Push the dirt, John Pappas acrescentou os seus votos aos votos anteriores:]
...
Se, depois de eu atingir o Estado de Buda, alguém na minha terra for conspurcado ou desprezado por ser cético ou livre-pensador, que eu não atinja a mais alta e perfeita iluminação
...


 
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* Traduzo eu do inglês. A minha tradução é inspirada na tradução de “Amitabha’s Vow” de Gary Snyder que Manuel de Seabra fez para a Editorial Futura (1973). Os três textos aqui referidos e esquartejado, podem e devem ler-se na sua versão integral na página de blogue de John Pappas que me inspirou. Pode até dizer-se que me limitei a condensá-la.
 ** O meu avô paterno perdeu mais que um dedo a atrelar vagões — perdeu a vida.

11/04/11

Angelus Silesius, a poesia e a essência desabitada e silenciosa de Deus

Não é nada esotérico, até vem na wikipédia: Numa conferência que deu sobre poesia em 1977, Jorge Luís Borges afirmou que se podia resumir tudo o que acabava de dizer a uma frase de um relativamente obscuro autor seiscentista (traduzo eu, como traduzo, neste texto, tudo o que está em português a castanho):
Vou concluir com um alto verso do poeta que no século dezassete tomou o nome estranhamente poético, real, de Angelus Silesius. Vem a ser o resumo de tudo quanto disse esta noite, com a diferença de que eu o disse por meio de raciocínios ou de simulados raciocínios: di-lo-ei primeiro em espanhol e depois em alemão, para que o oiçam: “La rosa [es] sin porqué, florece porque florece. / Die Rose ist ohne warum; sie blühet weil sie blühet.” [Trata-se do dístico I. 289 da obra O Peregrino Querubínico[1]: “A rosa é sem porquê, floresce porque floresce”]
Quem era este poeta místico daSilésia? Chamava-se Johannes Scheffler de seu nome de baptismo, e nasceu em Breslávia (Wrocław), em 1624. Teve uma educação luterana, e foi cientista e médico, e homem de grande cultura. Convertido ao catolicismo em 1653, tornou-se dois anos mais tarde médico imperial-real da corte do Imperador Fernando III. Abraçou o sacerdócio em 1661, tendo-se tornado coadjutor do Príncipe-Bispo de Breslávia, e foi no mosteiro de S. Matias da sua cidade que veio a falecer em 1677.
Segundo Carlos García[2], Silesius foi um dos místicos alemães que fascinou Borges. E é fácil compreender este fascínio, porque, no poema referido como em muitos outros, parece um poeta à frente do seu tempo. O Peregrino… foi publicado em 1657. Ainda vinha longe
…a rose is a rose is a rose,
que Gertrude Stein escreveu 256 anos mais tarde.
Agora: sabemos, por Carlos García, que a referência a Angelus Silesius que mencionei no início do texto está longe de ser a única na obra de Borges e que «o topos da “rosa sem porquê” é um dos «motivos vindos de Silesius (…) que são recorrentes em Borges». A leitura que Borges faz deste dístico de Angelus Silesius, porém, vai variando ao longo do tempo (ou talvez antes consoante a estratégia favorecida para provocar estranhamento no leitor…). Se, na referida conferência de 1977, o apresenta como resumo do seu próprio pensamento sobre a poesia, em 1933 tinha-o apresentado como o exacto oposto da sua filosofia.
Die Ros ist ohne Warum, a rosa é sem porquê, lemos no livro primeiro de O peregrino… de Silesius. Eu afirmo o contrário, eu afirmo que é imprescindível uma tenaz conspiração de porquês para que a rosa seja rosa.
Num discurso de 1963, o verso de Angelus Silesius não aparece como reflexão sobre a poesia, mas como exemplo da metamorfose que o discurso analítico tem de sofrer para ser ele próprio poesia:
Imaginemos, por exemplo, que um poeta dizia que a beleza é inexplicável. Não teria dito nada. Mas se esse poeta, que seria o grande poeta alemão Angelus Silesius, disser “Die Rose ist ohne warum”, (“A rosa é sem porquê”), já está criando poesia.
No ano seguinte, o mesmo verso serve-lhe de máxima anti-analítica:
Die Rose ist ohne warum (“a rosa é sem porquê”), é a famosa frase de Angelus Silesius no livro primeiro do seu Peregrino…; a sentença do místico adverte-nos da possível profanação que encerra toda a análise do belo.
Não sei, sinceramente, por que fui buscar Borges para introduzir Angelus Silesius. De facto, não me lembro de ter visto alguma vez nos textos de Borges referência ao místico polaco. O meu encontro com Angelus Silesius, que se deu nem há um mês, não tem nada a ver com Borges. Nem sei, aliás, como fui parar a um texto de Angelus Silesius, só sei que texto era: uma tradução em inglês de Stephen Mitchell do dístico 25 do livro I de O peregrino…, que diz assim
God is a pure no-thing, concealed in now and here:
the less you reach for him, the more he will appear.
Soa bem a tradução, como também soa muito bem esta outra de Julia Bilger, que traduziu O peregrino… em 1944 (atente-se na sequência nothingness  – knoweth – now e na aliteração em gr- de grope e grow, além das assonâncias em [o] e [ow] que percorrem todo o dístico):
God is all Nothingness, knoweth not here nor now;
The more we grope the more elusive will he grow.
God is an utter Nothingness, / Beyond the touch of Time and Place:
The more thou graspest after Him, / The more he fleeth thy embrace.
Lauter Nichts, eis como aparece no texto original o mais surpreendente sintagma do poema, este “puro Nada”. Aqui fica a minha pobre tradução (literal que não literária, peço desculpa…), para quem não compreenda o inglês:
Deus é puro Nada, para além do agora e do aqui. / Quando menos O procurares, mais Ele aparecerá.
Muitos poemas de Angelus Silesius soam assim, como se dissessem alguma verdade tão fundamental que só pode ser dita como o é. O que significa, para um cristão, que Deus é puro Nada que se revela quando O não buscamos? Ao ler um poema como
Sei que Deus nem uma hora sem mim pode viver. / Morra eu e o próprio Deus a sua preciosa vida há-de render. (I. 8:JB[3])
parece que estamos diante de uma asserção ateísta, em que se apresenta Deus como uma entidade unicamente existente na mente do crente. Mas tal interpretação só pode resultar de uma incompreensão do misticismo de Angelus Silesius, que pressupõe uma identificação essencial de Deus e do crente.
Nenhum caminho leva à Luz em que Deus vive; / Terá de se tornar essa Luz quem não quiser que dele Deus se esconda. (I.072:JB&CF)
Nada pode nunca em Deus ser conhecido: um e um apenas, / eis o que Ele é. Para O conhecer, o Conhecedor e o Conhecido têm também de ser um. (I.285:CF)
A Enciclopédia Católica insiste que, embora “um pequeno número destas estrofes pareçam ter um travo de quietismo ou de panteísmo”, “devem ser interpretados num sentido ortodoxo, pois Angelus Silesius não era um panteísta. Os seus escritos em prosa são ortodoxos; “O Peregrino Querubínico” foi publicado com o Imprimatur eclesiástico, e, no seu prefácio, o próprio autor explica os seus “paradoxos” num sentido ortodoxo e repudia qualquer interpretação panteísta que dela venha a ser feita.” É bem possível, como é bem possível que o prefácio com a interpretação ortodoxa do autor tenha sido condição para o Imprimatur… Seja como for, panteísmo nem sequer foi o conceito que me veio à mente quando li O peregrino… É certo que, por vezes, os dísticos de Angelus Silesius dão conta de uma reflexão mística que, embora sofisticada, não se afasta sobremaneira da linha de pensamento de outros filósofos cristãos: uma platónica visão de Deus como a eterna matriz de Tudo
A rosa que hoje contemplas com o teu olhar exterior / Floresce e floresce em Deus durante toda a eternidade (I.108:JB&CF).
ou uma visão da eternidade não como um eterno prolongamento do tempo, mas antes como algo que é essencialmente diferente dele
Lá na Eternidade, tudo acontece ao mesmo tempo. / Não há antes nem depois, como aqui no reino do Tempo (V.148:CF)
ou quando propõe, como outros místicos cristãos, que o caminho mais curto para Deus é o amor, não a razão:
O Amor, sem ser anunciado, mais depressa será recebido por Deus. / A Inteligência e o Engenho muito tempo na corte terão de esperar. (5.307:JB)
Outras vezes, trata-se de um misticismo que, sui generis que possa ser,  não parece incompatível com a busca (também cristã, entre outras…) de estados de comunhão com uma divindade transcendente:
Difícil tarefa, a de viver o amor; não devemos / amar apenas, mas sim tornarmo-nos amor, como Deus é. (I.071:JB)
Deus não está aqui nem está ali. Ao procurá-Lo /, que tenhas presas as mãos e os pés, presa a alma e preso o corpo. (I.171:JB&CF)
Vai onde não podes ir, vê onde nada se pode ver, / Ouve onde não há som que se oiça: estarás onde Deus fala. (I.199:JB&CF)
Deus é, mas só como Ele é. Não ama nem vive / como tu ou como eu ou como do mundo os outros seres. (II.055:JB&&CF)
Sai tu — e entrará Deus; morre para ti próprio – começaste assim / A viver para Deus; Não sejas – Ele é; Não faças nada – e estará assim feito o que ele manda. (II.136:CF)
Deus não prevê nada – é o teu senso frouxo e atarantado / Que o veste com o atributo da Providência. (V.92:CF)
Deus não pensa. Pensasse Ele / e poderia hesitar, o que é, para Ele, impensável. (V.173:JB&CF)
Deus – uma força eterna que alcança tudo o que quer, / Nunca deixando de ser como é: sem forma, sem propósito, sem vontade. (5.358:JB&CF)
Outras vezes, porém, Angelus Silesius surpreende por o seu misticismo (ou deve antes dizer-se a sua poesia?) parecer tão pouco ocidental e tão próximo do pensamento oriental. Esta generalização abusiva pensamento oriental, que noutras circunstâncias evitaria, não me parece, no presente contexto, despropositada para referir algumas constantes de vários pensamentos asiáticos: refiro-me, concretamente, a um ideal de suprema objectividade – conhecer, aceitar o mundo como ele é – alcançável pela obliteração de si, pela interrupção ou aniquilação da mente. Não é o único caso em que um místico cristão se aproxima da mística asiática, é certo, e vieram-me à mente, quando li Silesius, alguns versos do “Monte de Perfección” de San Juan de La Cruz (um poeta de que gosto muito) que aqui vos deixo no castelhano original:
1
Para venir a gustarlo todo
no quieras tener gusto en nada.
Para venir a saberlo todo
no quieras saber algo en nada.
Para venir a poseerlo todo
no quieras poseer algo en nada.
Para venir a serlo todo
no quieras ser algo en nada.
2
Para venir a lo que gustas
has de ir por donde no gustas.
Para venir a lo que no sabes
has de ir por donde no sabes.
Para venir a poseer lo que no posees
has de ir por donde no posees.
Para venir a lo que no eres
has de ir por donde no eres.
3
Cuando reparas en algo
dejas de arrojarte al todo.
Para venir del todo al todo
has de dejarte del todo en todo,
y cuando lo vengas del todo a tener
has de tenerlo sin nada querer.
[…]
Mas são, convenhamos, casos raríssimos, muito excepcionais. Além do texto através do qual conheci Angelus Sibelius e que já referi atrás, eis outros fascinantes dísticos aparentemente muito pouco católicos deste budista de Breslávia:
Se algo és para ti próprio, se algo amas e queres, / Se algo sabes e tens, continuas a transportar a tua carga. (I.024:CF).
Sem nada querer nem nada buscar, Deus é paz eterna: / se como ele não desejares nada, será igual à dele a tua paz. (I.076:CF)
Quem se tornar deus deve ser diferente de tudo o resto. / Deve livrar-se se si próprio, libertar-se de toda a queixa. (I.084:JB).
Quem for como se não fosse, nem tivesse chegado a ser, / tornou-se — ó Felicidade!—pura divindade. (I.092:CF).
Quanto mais de ti de ti próprio conseguires verter e deitar fora / tanto mais, cada vez mais, Deus fluirá em ti com a sua mente divina. (I.138:CF).
Pudesse o Diabo abandonar o seu ser-ele, e logo / o Diabo verias sentado no trono de Deus. (I.143:CF).
Oramos: seja feita a Tua vontade. / Mas vede: Deus não tem vontade, ele é apenas imutável quietude. (I.294:JB&CF).
Liberta-te de ti próprio, liberta-te de toda a criação. / Deus enxertará então em ti a sua natureza divina. (II.057:CF).
O nada leva-te além de ti próprio / tão seguramente como a anulação de ti: / Quanto mais te conseguires anular / mais há em ti de divindade. (II.140:CF).
Deus, cujo maior prazer é viver contigo, prefere vir / a tua casa quando tu lá não estás. (V.033:CF).
Se Deus procuras, Homem, deves / perder primeiro a identidade de ti próprio, / e nem nunca voltar a encontrar de novo o rasto do teu Eu em toda a eternidade. (V.220:CF).
E, finalmente, tirado da ordem do livro para lhe dar o lugar de destaque que acho que merece e a que se costuma chamar chave de ouro: 
O abandono leva a Deus: / Mas o supremo abandono, / que poucos há que compreendam, / é abandoná-lo a Ele também. (II.092: CF)
Esta é a mais radical e mais surpreendente de todas as sentenças: dá um sentido novo a todas as outras, ao precisar um fim último da busca mística que implica passar para além de qualquer ideal de perfeição anulando-se assim a própria busca. Zen?
Não sei se arriscaria afirmar que é esta a lição de toda a poesia, pois que há poesia de muitas categorias e de variados intentos; mas é, desculpem repeti-lo, esta a grande lição da poesia de Angelus Silesius: se diz assim o que diz, se não pode fugir ao estranhamento e à (pelo menos aparente) contradição, é porque o que diz não tem outra forma de ser dito. Silesius vai até onde as palavras o deixam, digamos assim. Depois disso, o que há a (não) dizer é só silêncio, já não palavras. Podermos considerar que diz isto mesmo várias vezes ao longo da obra, e de várias maneiras, mas di-lo mais explicitamente, de uma forma mais conclusiva, mais brutal, no último dístico do texto: A conclusão que tanto fascinou Borges e que tanto fascina, sem dúvida, todos os que se aventurarem na sua invulgar visão mística, só pode ser a que apresenta no último dístico de O Peregrino (VI.263), é a seguinte, no alemão original:
Freund, es ist auch genug. Im Fall du mehr willst lesen,
So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen.
JB dá-nos do dístico a tradução
Friend, I have said enough. If thou wouldst read still more,
Then go thou and thyself become the script and lore.,
e CF uma tradução ligeiramente diferente,
Friend, it is now enough. Wouldst thou read more, go hence,
Become thyself the Writing and thyself the Sense.
Borges também traduziu o dístico. Em 1960 (e desta vez não é certo que tenha sido ele, pode ter sido Bioy Casares, o co-autor do Livro do Céus e do Inferno, onde a tradução aparece, ou podem ter sido os dois em conjunto), traduziu-o da seguinte forma (destaque meu):
Ya basta amigo. Si quieres seguir leyendo, transfórmate tú mismo en el libro y en la doctrina.
Em 78, porém (agora sem dúvida Borges, só ele), já propõe outra tradução (de novo o meu destaque):
Amigo, ya basta. En caso de que quieras seguir leyendo, sé tú mismo el libro y tú mismo la esencia.
É melhor, esencia traduz mais directamente que doctrina o Wesen original. E, se tenho razão na minha proposta de que se trata aqui de versos que muitas vezes nos soam estranhos – paradoxais, ou até incómodos – porque são a única maneira de dizer certas coisas, só uma tradução literal faz sentido. Carlos García, que nos conta a história, propõe ele a sua própria tradução ainda «mais literal» (destaque meu), que é a que prefiro e que escuso de traduzir, por óbvia para qualquer falante do português:
Amigo, ya es bastante. Si quieres más leer / Ve y transfórmate en el libro y en el ser.
_______________
[1] A obra publicada pela primeira vez em 1657, chamava-se originalmente Geistreiche Sinn- und Schluss-Reime, que não me atrevo a traduzir. Em 1674, foi publicada uma segunda edição com o título Cherubinischer Wandersmann, "O Peregrino Querubínico". Neste texto, para simplificar a referência, o livro será sempre referido como O Peregrino….
[2] Ver o ensaio de Carlos García Borges y el misticismo alemán, de onde foi retirada muita da informação necessária para escrever este texto. Na minha opinião, trata-se de um ensaio de leitura obrigatória para todos os amantes de Borges. Todas as referências de Borges a Angelus Silesius são retiradas do texto de García.
[3] A indicação entre parênteses no fim das minhas traduções dos dísticos de Angelus Silesius indicam: em númeração romana, o livro – a obra divide-se em 6 livros; em algarismos árabes, o número do dístico no livro; as iniciais JB ou CF indicam de que traduções inglesas traduzi para português, se das de Julia Bilger ou das de J. E. Crawford Flitch (em http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/alex/index.htm e http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/scw/index.htm, respectivamente) – ou se usei traduções de ambos, quando assinalo JB&CF.

07/03/11

A música em si ou O mundo sem mi…m

Vou para ouvir um disco de Laurindo Almeida com o Modern Jazz Quartet e reparo nos temas: “Samba de uma nota só”… “Concierto de Aranjuez”… Hmmm… O disco é de 1964 e, se eu o ouvisse nessa altura, ouvi-lo-ia provavelmente com outros ouvidos, mas agora, estou desgraçado!, nunca me será possível ouvir a música sem os preconceitos que tenho sobre estes temas. A minha audição do disco está viciada à partida...
Se fosse budistamente optimista, diria que, treinando-me para parar o meu diálogo interno, poderia chegar a ouvir a música como ela é (o ideal do budismo é um ideal de objectivismo radical, como o de Alberto Caeiro…), sem o filtro da minha limitadora mente. A pergunta que me surge de imediato – e a que parece que nenhum filósofo budista soube ainda responder – é a seguinte: QUEM ouviria essa música, se eu tivesse conseguido dar cabo da armadilha do meu Eu, hem?