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11/04/14

Por que razão faz ão-ão a palavra cão?

Tenho com a minha cadela Saskia um desentendimento: às vezes digo-lhe Kom!, pedindo-lhe que venha, e ela põe-se a comer; outras vezes, é ao contrário – aponto-lhe um grão de comida de cão que lhe atiro para o chão (tanto ão!) e mando-a comer, Come!, e ela vem na minha direção, pensando que estou a chamá-la. Evidentemente, como pode a pobre bicha distinguir português de dinamarquês? Nem os elefantes do Parque Nacional de Amboseli, no Quénia, que dizem que conseguem distinguir massai de quicamba, conseguiriam tal proeza.

Mas enfim, faz-me isto lembrar um poema famoso de Robert Desnos: 
Come, diz o inglês ao inglês e o inglês vem.
Còmm, diz o chefe da estação e o viajante que vai a essa cidade desce do comboio, de mala na mão.
Come, diz o outro, e ele come.
Comme, digo comme e tudo se metamorfoseia, o mármore em água, o céu em laranja, o vinho em planície, o fio em seis, o coração em pesar, o medo em chinchorro[1]…
A reflexão mais imediata, perante este problema de incomunicacão, que é como se chama ao fracasso do diálogo com canídeos, é que o signo linguístico é, Deus meu!, tão arbitrário, não é? – qualquer som pode querer dizer qualquer coisa, se assim se o convencionou. Ora, por evidente e trivial que possa parecer, esta ideia tem sido muito debatida, umas vezes com argumentos mais convincentes que outras.

Uma das mais famosas defesas da ideia de que não é por pura convenção que a uma determinada sequência de sons corresponde um determinado significado é a que Platão põe na boca de Sócrates, em defesa de Crátilo e contra Hermógenes. É tão famosa, aliás, que se chama às vezes cratilismo à crença num relação de motivação entre o significado e a sua forma linguística. Sócrates segue os seguintes passos no seu raciocínio: primeiro, é possível encontrar motivação nas palavras a partir de unidades significantes mais pequenas – outras palavras (por exemplo, Astynax seria asty-anax, "senhor da cidade" ou anthrôpôs,"homem", seria anathrôn-ha-opôpé, "que faz o estudo do que viu", etc., etc.); em seguida, é possível encontrar motivação para as formas mais simples, primárias e irredutíveis, pela adequação das características articulatórias do som ao conceito (por exemplo, os sons d e t, que resultam de uma "compressão da língua, que se apoia nos dentes" são os indicados para descrever desmos, "ligação" e statis, "imobilização"...).

O cratilismo ressurge de várias maneiras ao longo dos séculos e, para dar um exemplo num género que conheço melhor, a adequação do som ao conceito que exprime é uma característica às vezes louvada em certas línguas imaginadas e ideais das também imaginadas viagens a sociedades ideias que genericamente se costumam designar pelo nome de utopias (ver alguma coisa sobre o tema neste texto da Travessa). Há 85 anos, porém, que se defende de forma menos impressionista uma relação simbólica entre os conceitos e os sons que os dizem.

Esta defesa de um simbolismo sonoro natural na nossa espécie e que se refletiria nas línguas humanas tem seguido principalmente duas linhas de investigação:

Em 1929, Wolfgang Köhler pediu a vários falantes do castelhano que associassem duas formas abstratas, uma de contornos redondos e outra de contornos rectilíneos, com bicos, às palavras inventadas baluba e takete e verificou que a maior parte das pessoas associava baluba à forma redonda e takete à forma com bicos.

No mesmo ano, Edward Sapir (cujo nome talvez conheçam da chamada hipótese Sapir-Whorf) fez um teste a cerca de 500 falantes de inglês e sete falantes de chinês, pedindo-lhe que, em pares de palavras que se distinguiam por uma vogal (uma com [i] outra com [a], como milha e malha, por exemplo), indicassem qual indicava maior ou menor tamanho e concluiu que, em 80% dos casos, as pessoas associavam [a] a maiores dimensões.

Eram trabalhos de metodologia muito duvidosa e feitos praticamente só com falantes de uma língua, mas deram origem a uma série de experiências metodologicamente satisfatórias, muitas vezes com resultados semelhantes, que se poderiam resumir da seguinte maneira: quando, perante palavras desconhecidas, as pessoas têm de avaliar tamanho – ou outros significados – baseiam-se no som para o fazer e, curiosamente, acertam em percentagens mais altas do que seria possível apenas por acaso, quando as palavras desconhecidas correspondem mesmo às suas intuições.

Uma experiência famosa da linha de testes iniciada por Sapir é a que foi feita pela equipa de Roger William Brown em 1955: Perante uma lista de 21 pares de palavras referindo extremos opostos do espetro sensorial (como bonito e feio, claro e escuro, seco e molhado, etc.), na sua língua materna, inglês, e em três línguas desconhecidas, chinês, checo e hindi, as pessoas concordavam, numa média bem acima do acaso, sobre quais as palavras desconhecidas que deveriam corresponder às palavras inglesas. Nem sempre este alto índice de acordo as levava a adivinhar as traduções corretas (às vezes, concordavam numa falsa suposição), mas, no geral, a taxa de êxito na tarefa é bem acima da que resultaria apenas do acaso.

Na linha de experiências iniciada por Khöler, um trabalho conhecido é o de Vilayanur Ramachandran e Edward Hubbard, no âmbito de um estudo sobre sinestesia, em que, mostrando figuras semelhantes às utilizadas por Khöler em 1929 e pedindo agora para as relacionarem com as palavras bouba e kiki, se obtêm impressionantes taxas de acordo da ordem dos 95%, tanto com falantes do inglês como com falantes do tamil.

Há uma quantidade muito grande de estudos sobre a questão do chamado simbolismo sonoro, ou seja, da hipotética motivação natural dos signos linguísticos, e não quero – nem posso, nem sei –fazer aqui um resumo do que foi dito sobre a questão[3]. O certo é que, por muito que nem todos os trabalho confirmem a hipótese de haver alguma relação universal entre certos sons e certos significados, há um número grande de estudos que parece confirmar essa hipótese. Mas… O que motivaria então essa motivação, se se pode dizer assim?

Para Ramachandran e Hubbard, a resposta é a relação (sinestésica, em sentido lato) que existe entre movimento e som. Segundo eles, “a representação de certos movimentos dos lábios e da língua em mapas motores no cérebro pode ser mapeada de forma não arbitrária em certas inflexões sonoras e representações fonémicas em regiões auditivas e estas podem, por sua vez, ter ligações não arbitrárias com a aparência visual de um objeto”. Por outras palavras, “pronunciadas mudanças de direção visual das linhas na figura [com bicos] imitam as pronunciadas inflexões fonémicas do som kiki, bem como a pronunciada inflexão da língua no palato. (…) Pode haver uma ligação sinestésica mais estreita do que normalmente supomos entre os movimento dos lábios e da língua, e outras vocalizações, e os objectos e eventos a que se referem. Isto é: palavras que referem algo pequeno muitas vezes implicam a produção de um /i/ sinestesicamente pequeno com os lábio e o estreitamento do trato vocal (por exemplo, palavras como ‘little’, ‘petite’, ‘teeny’ and ‘diminutive’) e o contrário aplica-se a palavras que significam grande ou enorme”[4].

À esquerda, takete e baluba de Köhler; à direita, kiki e bouba de Hubbard e Ramachandran 

Outra maneira bem diferente de tentar explicar uma eventual motivação das palavras que referem tamanhos, e não só, é a chamada hipótese do código de frequências, desenvolvida sobretudo nos trabalho de Eugene Morton e John Ohala em 1994. A hipótese assenta também na biologia evolutiva, postulando que as pessoas, como muitos outros animais, desenvolveram uma associação instintiva de sons mais graves com tamanhos maiores. Há, de facto, uma relação direta entre frequências mais baixas dos sons e maior tamanho do animal que os produz, e pode-se também verificar a mesma relação entre maiores dimensões e som mais grave nos objetos de um determinado material. Para muitos animais, é vantajoso saber reconhecer o tamanho e a agressividade (também ela expressa quase sempre com frequências mais graves) dos outros animais que se aproximam, donde o desenvolvimento desta associação entre frequências sonoras e categorias do mundo real[5].

De maneira que, cara leitora ou caro leitor, se lhe vier à cabeça que uma pessoa que acaba de se apresentar como Júlia tem antes cara de Mariana, é capaz de haver para essa estranha ideia alguma razão mais lógica do que consegue imaginar…











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[1] Isto sou a traduzir do francês original, que é assim:
Come, dit l’Anglais à l’Anglais, et l’Anglais vient.
Côme, dit le chef de gare, et le voyageur qui vient dans cette ville descend du train sa valise à la main.
Come, dit l’autre, et il mange.
Comme, je dis comme et tout se métamorphose, le marbre en eau, le ciel en orange, le vin en plaine, le fil en six, le cœur en peine, la peur en seine.
Aborrece-me ter de pôr o nome da cidade italiana no lombardo que lá se fala, só para preservar o jogo sonoro em que assenta esta parte do poema… Ficava melhor o nome italiano, Como, que é igual ao português. Além disso, podia pôr o como comparativo também em português, na língua do poema, como no original, sem itálico nenhum. Mas, o que faço então ao come que o inglês diz quando chama alguém? Até arranjar um como, ou commo, ou kommo, ou komo, sei lá eu, que exista noutras língua qualquer, tenho de me ficar pelo comme. Vale a pena ler o poema todo (de Sans cou, 1932) e podem fazê-lo aqui, por exemplo.

[2] Às vezes, encontra-se também uma versão gráfica do cratilismo, em que não é o som, mas sim a grafia, que exprime tão adequadamente o conteúdo que é impensável que possa resultar apenas de arbitrária convenção. Num texto de que têm sido muito divulgadas certas passagens no âmbito da discussão da reforma ortográfica («A fisionomia das palavras», in A Águia, ano 1, I.ª série, n.º 5, de 1 Fevereiro 1911), escreve Teixeira de Pascoaes:
Olhemos a palavra escrita das duas maneiras – Peccado e Pecado: logo ressalta aos olhos o enigma penal que os dois cc revelam e que esta palavra, na verdade, contém, querendo traduzir o acto que ofende as misteriosas leis divinas. Nos dois cc existe, por assim dizer, a própria criminalidade da palavra.
Deve escrever-se, pelos mesmos motivos, afflicto e não aflito, bocca e não boca, espectro e não espetro, occulto e não oculto, etc., etc.
Todavia, palavras há que têm um sentido misterioso e se escrevem como se pronunciam, o que não quer dizer que a sua forma gráfica contradiga o seu espírito. Nestas palavras, a verdadeira harmonia existe entre o seu sentido e a sua expressão sónica. Por exemplo, nevoeiro; o sebastianismo da palavra está na surdez das suas primeiras sílabas e no prolongamento mais alto e nubloso da terminação.
Na palavra luar, a ideia que traduz, casa-se perfeitamente com a primeira sílaba muda e a segunda sílaba aberta; aquela é feita de sombra, esta é feita de luz; reunidas dão realmente a luz difusa, o luar…”
[3] Para um excelente resumo crítico da investigação sobre o assunto, ver, por exemplo, a tese de Sarah Hunter-Smith (2007) Understanding without Babblefish: Reviewing the Evidence for Universal Sound Symbolism in Natural Languages.

[4] Acrescentam Hubbard e Ramachandran:
Isto seria um exemplo de sincinésia entre os mapas motores para a boca e a mão, que estão mesmo ao lado um do outro no homúnculo motor de Penfield do giro pós-central. No exemplo referido, a forma da boca para petite, teeny e diminutive poderiam imitar sincinesicamente a oposição em forma de pinça do polegar e do indicador para indicar tamanho reduzido. Da mesma forma, ao apontar, uso o indicador para indicar a pessoa com quem falo. Também faço um “beicinho” parcial com os lábios (como no inglês you, no francês tu ou vous e no tamil thoo), ao passo que, quando aponto para mim próprio, os meus lábios e a língua se movem para dentro (como no inglês me, francês moi e tamil naan). 
É importante sublinhar que, embora afirmem que se podem observar ainda resquícios dele, os autores não defendem que este mecanismo primitivo funciona de facto nas línguas atuais, mas antes que “pode aplicar-se sobretudo aos estágios iniciais da evolução da protolinguagem dos hominídeos ancestrais”, que depois se teria desenvolvido de acordo com esquemas evolutivos mais complexos: “Desta forma, um vocabulário primitivo de gestos e pantomina poderia evoluir (…) para um vocabulário correspondente de movimentos da língua/palato/lábios (causando vocalizações, sobretudo se acompanhados de produção de sons guturais)”. Como o resumo que aqui faço desta proposta é demasiado breve (não é de modo algum minha intenção discutir aqui esta hipótese) e, sem mais explicações, a hipótese pode parecer mais especulativa, se não mais delirante, que o que é na realidade, sugiro que consultem, na obra de Ramachandran e Hubbard (disponível aqui), sobretudo a secção “Evolution of language” (pág. 19-23), onde se desenvolve a argumentação.

[5] Também esta tese é menos simplista – e está mais bem documentada por estudos empíricos – do que se poderia supor. É de notar que ela não se aplica só às frequências fundamentais – à altura do som numa escala –, mas parece poder também aplicar-se às frequências formantes dos sons produzidos pelas pessoas, ou seja, ao timbre das vozes. Uma hipótese que poderia explicar a descida da laringe na puberdade que se dá nos machos humanos é a vantagem seletiva da comunicação de maior tamanho. Encontram-se em linha alguns resumos mais detalhados desta hipótese, nomeadamente um texto de Ohala e outro de Hinton, Nichols e Ohala.



09/02/10

Acordo ortográfico: o mystério do abysmo...

Eu não me queria meter na conversa, não queria, mas acabo por ceder: vou aqui dizer qual é minha posição relativamente ao famigerado acordo ortográfico. Bom, já aqui dei uma vez a minha opinião sobre a questão ortográfica. No texto Contradições ou sem elas? (cuja leitura aconselho, porque complementa este), abordei a questão das diversas opções ortográficas e das vantagens e desvantagens de cada uma. Mas dizia, nesse texto, que não queria discutir o acordo ortográfico proposto, porque não tinha nada interessante a acrescentar ao muito que tinha sido dito e escrito sobre o assunto. E continua a ser verdade: não digo agora nada de novo. O que se alterou não foi a minha capacidade de contribuir para a discussão, mas a vontade de o fazer. «No man is an island entire of itself…», et cetera, et cetera, et cetera…

Mas deixemo-nos de circunlocuções! A minha posição é esta: tanto me faz, sinceramente. Sobrevivi bem à reforma ortográfica de Fevereiro de 73, em que foram «eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se [assinalavam] as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo -mente e com os sufixos iniciados por z», embora, como a toda a gente, ao princípio me tivesse custado. Basicamente, há regras de que discordo na actual maneira de escrever (e não só ao nível da escolha das letras e acentos com que escrever as palavras…) e há de continuar a havê-las na nova ortografia* – e posso, a meu bel-prazer, continuar a violá-las ou não, conforme os apetites e as situações (um texto de blogue ou um requerimento, por exemplo…). Aí têm a minha posição.

Evidentemente, posso, na minha qualidade de cidadão de um país de língua oficial portuguesa, propor e defender uma proposta ortográfica que eu considere mais coerente e mais lógica do que as existentes, pois posso, mas para quê? Não há prova nenhuma de que ortografias coerentes e lógicas dêem mais felicidade a ninguém nem saúde a nenhuma língua, nem tenham implicações no ensino. Vejam o caso do inglês, que se expande sem parar, também como língua de ensino, apesar de ter a ortografia menos lógica que é possível imaginar, que reflecte (quando reflecte alguma coisa…) uma pronúncia de há quinhentos anos, perfeitamente incompreensível para os falantes actuais…

A discussão da questão ortográfica assenta sobretudo na paixão e é por isso que, tanto no blogue como na vida quotidiana, quis – até agora… – manter-me fora dela. Acredito em discussões com convicção, mas não acredito em discussões sobretudo apaixonadas. Reconheço, porém, que a abordagem apaixonada da questão, se é vã, é também inevitável. Sempre assim foi e sempre assim será, e é pena que muitas pessoas não tenham consciência de que a ortografia que querem preservar hoje é apenas uma etapa histórica, que, quando foi introduzida, foi criticada por pessoas que queriam conservar a ortografia que tinham – e de que gostavam! Como eu dizia no post que referia atrás, Teixeira de Pascoaes recusava a reforma ortográfica republicana argumentando que abismo não podia alguma vez representar a profundidade, a escuridão e o mistério de abysmo. Alteraram-se mesmo a profundidade e o mistério da palavra, perdão, a sua capacidade de os referir? Aí está uma questão metafísica demais para o meu gosto. Mas posso garantir-vos que a pronúncia não se alterou desde o tempo de Teixeira de Pascoaes – de uns séculos antes dele, de facto.

E tenho aqui uma deixa para o tema da influência da grafia na pronúncia. Não digo que ela seja impossível, mas só se dá em condições muito especiais e, no geral, essa influência é, simplesmente, tão ínfima que se pode desprezar**. Tenho visto, nomeadamente, que há um medo de que, no português europeu, o desaparecimento de certas letras não pronunciadas, mas que serviriam, segundo alguns, para marcar o timbre da vogal que está antes delas, venha a afectar a pronúncia dessa vogal. É um temor infundado. Desde que desapareceram as marcas de abertura das vogais átonas pretónicas dos advérbios em -mente, não se modificou em nada a sua pronúncia, pois não? Ou alguém passou a pronunciar comodamente [kumuða'mẽt] em vez de [kᴐmuða'mẽt]? Uma palavra como esquecer, que, por razões históricas, tem uma abertura anómala do e átono, resiste há séculos à tendência de redução das vogais átonas sem precisar de marcas gráficas a ajudar (evidentemente, podia propor-se *esqueccer…). E podia dar muitos outros exemplos, mas não me quero alongar muito. Por outro lado, a presença do sinal gráfico não impediu que certas vogais se fechassem, seguindo as regras fonéticas normais da língua, como no caso de actuar, que, em Portugal, ninguém pronuncia [àtuar]. Além disso, se a ideia é marcar consequentemente as vogais átonas abertas, porque não propor uma marca outra que não grafemas (p, c) que têm, noutras situações, outro valor? Recuperar, por exemplo, o acento grave... Enfim, mais paixão do que razão, como eu dizia…

Eu sei que custa a muita gente aceitar que um sistema ortográfico seja puramente convencional, no sentido em que se pode alterar por decreto (ao contrário de uma língua, que não há decretos que alterem), e que há um número virtualmente infinito de maneiras de transcrever graficamente uma língua. Mas, por muito que lhes desagrade, é um facto. Tanto que há línguas que se escrevem (de facto!) com mais do que um sistema de escrita. E se se passasse a escrever português com outro alfabeto, hem? Ερα διβερτιδω! Ou Эра дивертиду? (Para ficar pelos mais parecidos com o nosso…)


[Nota a 9 de maio de 2015: Escreveu Pascoaes:
Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abismo, é transformá-lo numa superfície banal.» (“A fisionomia das palavras”, in A Águia, ano 1, I.ª série, n.º 5, de 1 Fevereiro 1911.) 
Na versão anterior deste texto, o exemplo do apego emotivo de Pascoaes à ortografia antiga, que o levava a dar às letras um estranho valor simbólico e a recusar, assim, a reforma ortográfica, era dado com a alegada asserção de que lirio não podia representar a elegância de lyrio. O facto é que, embora tivesse encontrado esta informação em textos em princípio fiáveis, nunca consegui encontrar uma referência exata ao texto de Pascoaes em que ele tivesse feito essa afirmação. Encontrei agora na Internet uma transcrição de um texto de José Lourenço de Oliveira de 1933, em que o autor, a certa altura, “transmit[e] aos estetas o que v[ê] em Álvaro Pinto A nova ortografia e o desacordo reinante (1931)” e onde se vê, no meio de uma citação do texto de Pascoaes que refiro acima, uma nota (não se percebe bem se de José Lourenço de Oliveira se citada por ele de Álvaro Pinto) que diz o seguinte a propósito da afirmação de Pacoaes de que «[n]a palavra lágryma... a forma do y é lacrymal»:
(NOTA - Esqueceu-se Pascoais [sic] (ou não o quis fazer) de citar as palavras lyrio e cysne. Em lyrio, no y é que se concentra toda a grácil e clara beleza daquela flor, na haste! E como o y de cysne imita o longo e recurvo pescoço da ave, nadando no "manso lago azul" do poeta Júlio Salusse!).
Talvez seja esta a origem da ideia de que Pascoaes falou do y de lyrio, quando talvez só tenha falado do y de abysmo e de lagryma. Ou talvez não, mas, pelo sim pelo não, dou antes o exemplo de abysmo, que sei, esse, que Pascoaes deu, e onde; e funciona no meu texto tão bem como o outro.]

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* Mas a supressão do hífen em há-de, que uso neste texto pela primeira vez, a título experimental!, é com certeza uma melhoria, porque aquele hífen é mesmo disparatado!

** Se o problema da influência da grafia na pronúncia não se coloca, no geral, nos países onde o português é língua materna, é provável que não seja de desprezar nos casos em que o contacto com a língua se dá sobretudo na escola e pela primeira vez na escola (como aqui em Moçambique). Mas, quanto a isso, não vislumbro bem o que se possa fazer… Uma escrita mais fonética? Valerá a pena, sobretudo quando a lógica da ortografia portuguesa não é fonética mas sim fonológica, isto é, a escrita dá mais conta do sistema abstracto que está por baixo da pronúncia do que da pronúncia propriamente dita? Quer dizer, nos casos onde a escrita pode provavelmente influenciar a pronúncia, vai basicamente dar ao mesmo usar-se a actual norma ortográfica ou a reforma proposta…

11/03/08

Contradições ou sem elas?

É curioso: muita gente vê a forma de escrever a língua como indissociável da própria língua. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Uma maneira de escrever é puramente convencional e nada impede que se escreva português de uma maneira diferente daquela que conhecemos e a que estamos habituados. É por isso, aliás, que há, de vez em quando, reformas ortográficas, que vêm modificar a maneira de escrever uma língua sem que a língua mude por causa disso. (Aliás, a língua não se pode mudar assim por decreto...)

O que acontece é que as pessoas estabelecem uma relação tão íntima entre a sua língua e o sistema convencional que se usa para a escrever que reagem quase sempre mal a qualquer tentativa de mudança da ortografia. Agora, a nós, que nos habituámos a escrever desta maneira, parece‑nos natural escrever assim, mas eu, que aprendi a escrever ainda com outras regras (e não é preciso ser muito velho para isso), lembro‑me que me custou muito a habituar‑me a deixar de marcar com acento grave as sílabas átonas abertas de certas palavras derivadas, como rapidamente, que eu aprendi a escrever ràpidamente. Não me parecia lógica a nova maneira de escrever e resisti a ela durante muito tempo – se eu não puser o acento, tem de se pronunciar [râpidamente], não pode ser, pensava eu. É claro, nunca pensei nessa altura que uma palavra como possivelmente não mudava absolutamente nada por deixar de ter o acento grave no i, pelo que ele devia já ser escusado na ortografia anterior; nem que palavras como mestria ou esquecer tinham já vogais átonas abertas sem nunca se terem escrito mèstria ou esquècer...

Enfim, era uma reacção normal, sei‑o agora. Aquando da grande reforma ortográfica que se seguiu à implantação da república, que fez desaparecer os yy, os th, os ph, as duplas consoantes como tt, mm, etc., houve muita gente que se indignou. O poeta e ensaísta Teixeira de Pascoaes, por exemplo, recusava a nova grafia por razões puramente afectivas. Como é que abismo pode alguma vez representar a a profundidade, a escuridão e o mistério de abysmo?, argumentava ele**. Há quem ache, portanto, que um y representa a profundidade ou o mistério melhor que um i, mas não sei se também em cyclone, dyspepsia ou syphilis... Notem que as últimas discussões sobre a proposta de reformas ortográfica unificada do português têm sido do mesmo tipo das que houve em 1911. Mas não vou agora discutir isso aqui porque não tenho nada de interessante a acrescentar ao muito que tem sido dito e escrito sobre o assunto…

Mas então, onde é que eu quero chegar? Quero então dizer que qualquer ortografia serve, que não há maneiras melhores que outras de escrever uma língua? Melhores, como tal, não parece que haja, nem parece que nenhum língua sofra muito pela sua maneira de escrever. O inglês ou o francês, por exemplo, escrevem-se de maneiras que muitos acharão bastante complicadas, sobretudo se as compararem com escritas mais fonéticas, como a do finlandês ou do castelhano, ou mesmo do português: para escrever o som [š] (como em xá ou chá), há em inglês 13 maneiras possíveis (e utilizadas de facto)*. Mas o inglês fica ainda muito longe do francês em que há pelo menos 40 maneiras possíveis (o que não significa que sejam todas utilizadas...) de escrever o som [ô], a mais simples das quais é o e as mais complicadas coisas como heaux ou heaults. Ora isso não parece ter constituído nenhum obstáculo à expansão destas línguas, que são das mais internacionais...

No entanto, se não há maneiras de escrever uma língua de que se possa dizer que são melhores que outras, há certos critérios, relativamente coerentes, que são defendidos por certos sectores de opinião.

Um é o critério etimológico, que é o que tem prevalecido, por exemplo, na Academia Francesa, que manda na maneira de escrever o francês. Para muitos membros da Academia Francesa é importante mostrar de onde vem a palavra, como se fosse importante para um francês saber que os dois ff nas palavras que começam por eff‑ indicam que são originalmente compostos com uma preposição latina ex- ou es-, que significa “para fora”... E que interesse tem que thym, “tomilho”, se escreva assim em vez de, por exemplo, tin, só porque vem do grego thumom (de thuo, “queimar em sacrifício”), em que o que se transcreve por th é, ainda por cima, uma única letra? Já teint, que se pronuncia exactamente da mesma forma, vem de tintu- (como o nosso tinto!) e o e antes do i não é etimológico... Na realidade, uma boa parte da grafia não reflecte a etimologia, mas antes a maneira de o francês ser pronunciado há muito tempo. Se tomarmos um exemplo simples, como roi, “rei”, vemos que em finais da idade média a palavra se pronunciava exactamente como se escreve (mais ou menos como o português rói, apenas com o r “rolado” no princípio). Depois disso, evidentemente, não parou de evoluir – passou a [roê], depois a [ruê], e depois a [ruá], como se pronuncia agora... Mas, na ortografia, nunca mais ninguém mexeu...

Deixem‑me fazer um aparte: o facto de muitas ortografias serem, por conservadorismo, muito distantes da pronúncia actual e, por isso mesmo, muito pouco lógicas, tem sido muitas vezes pretexto para brincadeiras. Alguém propôs já que, em inglês, a palavra inventada ghoti se pronunciasse [fiš], como a palavra fish: E porque não? gh pode ler‑se [f], por exemplo em laugh; o pode ler-se [i], por exemplo em women; e ti pode ler-se [š] como um sh, por exemplo em nation... Então, ghoti lê‑se [fiš]!

A verdade é que, por exemplo, gh, se pode ler [f]... ou não se ler! Este gh ficou de um tempo em que era pronunciado mais ou menos como o r gutural de Lisboa. Light, “luz” ou “leve”, por exemplo, pronunciava‑se [lirrt], mais ou menos com a palavra que lhe corresponde em neerlandês, licht. Mas a língua evoluiu muito desde essa altura... Só para vos dar um exemplo simples com as letras gh, a sequência de letras -ough- pode ler‑se de 6 (ou 7) maneiras diferentes: [af], como em enough, “suficiente”; [âu], como em though, “apesar disso”; [u:] como em through, “através de”; [óf], como em cough, “tossir”; [au], como eu plough, “arado”; e [ó], como em thought, “pensamento” (e ainda [âp], como em hiccough, “soluços”, que é uma grafia pouco comum, mas possível, do que normalmente se escreve hiccup).

Outro critério possível é o critério da lógica fonética. Há línguas em que se prefere sacrificar as marcas da etimologia a uma grafia que seja um sistema de transcrição lógico de como realmente se fala. Grafias como a do espanhol ou a do português obedecem bastante a este critério, mas não completamente. Mais fonéticas são, por exemplo, a escrita do finlandês ou do indonésio. Línguas com maneiras de escrever muito fonéticas são também as línguas que se escrevem há relativamente pouco tempo, como muitas línguas africanas, precisamente porque não têm atrás de si o peso de uma tradição de escrita.

Uma escrita fonética não é, no entanto, sem complicações. Dou‑vos só alguns exemplos simples: em português europeu, poder-se-iam simplificar muitas palavras segundo o modelo de quer, isto é, deixando de escrever um e final que hoje em dia já não se pronuncia. A escrita tornar-se‑ia assim mais fonética, mais próxima do que realmente se diz: “ele fer as pessoas com a sua maneira de falar”, “par aí quando puder”, “o val do Mondego”, etc., etc. Mas este tipo de alterações não deixaria de levantar outros problemas: por um lado, o português de Portugal passaria a escrever-se de uma forma diferente dos outras variantes do português, porque nessas outras variantes não há e mudo; além disso, deixaria de poder ver‑se na escrita um elemento do sistema que, pronunciado ou não, funciona na língua – e faz com que se diga e escreva quere‑o e não qué‑lo, e que o plural de vale seja vales e não vais... Por isso é que muita gente defende que é melhor que o português não se escreva de uma forma mais fonética, mas que se escreva antes como se escreve, de uma forma mais fonológica – quer dizer, dando conta do sistema mesmo que se afaste, por isso, da pronúncia real (e eu concordo).

Outro exemplo dos problemas que pode levantar uma escrita mais fonética: em dinamarquês e norueguês, há três letras especiais (ø, æ e å), para representar sons que doutra maneira teriam de representar‑se com duas letras ou com sinais auxiliares. A escrita é assim mais fonética, mas estas línguas têm símbolos que mais nenhumas têm, o que dificulta a vida nalguns casos, nomeadamente quando tem de se escrever num teclado sem essas letras... Este é sempre aliás, um dos problemas de uma escrita mais fonética: precisa normalmente de mais símbolos [Embora, provavelmente, não sejam muitas vezes necessárias as 74 letras do alfabeto khmer, do Cambodja... Mas também há poucas línguas que tenham até 35 vogais, como têm as línguas mon‑khmer... Notem que poucas não quer dizer nenhumas: o dinamarquês standard bate de facto as 35 vogais mon-khmer: tem 36!].

E isto leva‑nos a um terceiro critério possível, que é o da facilidade. O italiano tem um sistema ortográfico menos fonético que o português ou o castelhano, porque não tem acentos para marcar as sílabas tónicas. Menos fonético… mas mais simples – porque não tem acentos para marcar as sílabas tónicas! Ora, para um italiano, não constitui problema saber onde estão as sílabas tónicas de cada palavra, porque ele fala a língua. Mas como é que ele faz distinções do tipo das que existem em português entre hábito e habito, por exemplo? Nunca há problema, porque as palavras nunca aparecem no mesmo contexto, e o contexto distingue‑as perfeitamente. Se os portugueses ou os espanhóis estivessem habituados a escrever sem acentos, não sentiriam falta deles. Em inglês, também não há acentos para marcar as tónicas e não se sente a sua falta... A distinção entre, por exemplo, adjectivos e formas verbais que se escrevem da mesma maneira mas que têm pronúncia diferente, como close, “perto” e close, “fechar”, também não é problemática, porque não podem aparecer no mesmo contexto e o contexto logo diz se é close, “perto”, pronunciado [clâusse], ou close, “fechar”, pronunciado [clâuze].

De maneira que critérios ortográficos há muitos, todos eles com alguma validade. O que é que vos parece? Que é então melhor deixar tudo como está? Ou limar algumas con-tradições do sistema?
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* A negrito, as 13 maneiras de escrever o som [š] em inglês: shoe, sugar, ocean, issue, nation, schist, suspicion, nauseous, conscious, chaperone, mansion, pshaw e fuchsia.
** Nota a 9 de maio de 2015: «Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abismo, é transformá-lo numa superfície banal.» “A fisionomia das palavras”, in A Águia, ano 1, I.ª série, n.º 5, de 1 Fevereiro 1911. Na versão anterior deste texto, o exemplo do apego emotivo de Pascoaes à ortografia antiga, que o levava a dar às letras um estranho valor simbólico e a recusar, assim, a reforma ortográfica, era dado com a alegada asserção de que lirio não podia representar a elegância de lyrio. O facto é que, embora tivesse encontrado esta informação em textos em princípio fiáveis, nunca consegui encontrar uma referência exata ao texto de Pascoaes em que ele tivesse feito essa afirmação. Encontrei agora na Internet uma transcrição de um texto de José Lourenço de Oliveira de 1933, em que o autor, a certa altura, “transmit[e] aos estetas o que v[ê] em Álvaro Pinto A nova ortografia e o desacordo reinante (1931)” e onde se vê, no meio de uma citação do texto de Pascoaes que refiro acima, uma nota (não se percebe bem se de José Lourenço de Oliveira se citada por ele de Álvaro Pinto) que diz o seguinte a propósito da afirmação de Pacoaes de que «[n]a palavra lágryma... a forma do y é lacrymal»:
(NOTA - Esqueceu-se Pascoais [sic] (ou não o quis fazer) de citar as palavras lyrio e cysne. Em lyrio, no y é que se concentra toda a grácil e clara beleza daquela flor, na haste! E como o y de cysne imita o longo e recurvo pescoço da ave, nadando no "manso lago azul" do poeta Júlio Salusse!).
Talvez seja esta a origem da ideia de que Pascoaes falou do y de lyrio, quando talvez só tenha falado do y de abysmo e de lagryma. Ou talvez não, mas, pelo sim pelo não, dou antes o exemplo de abysmo, que sei, esse, que Pascoaes deu, e onde; e funciona no meu texto tão bem como o outro.