11 de março de 2008

Contradições ou sem elas?

É curioso: muita gente vê a forma de escrever a língua como indissociável da própria língua. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Uma maneira de escrever é puramente convencional e nada impede que se escreva português de uma maneira diferente daquela que conhecemos e a que estamos habituados. É por isso, aliás, que há, de vez em quando, reformas ortográficas, que vêm modificar a maneira de escrever uma língua sem que a língua mude por causa disso. (Aliás, a língua não se pode mudar assim por decreto...)

O que acontece é que as pessoas estabelecem uma relação tão íntima entre a sua língua e o sistema convencional que se usa para a escrever que reagem quase sempre mal a qualquer tentativa de mudança da ortografia. Agora, a nós, que nos habituámos a escrever desta maneira, parece‑nos natural escrever assim, mas eu, que aprendi a escrever ainda com outras regras (e não é preciso ser muito velho para isso), lembro‑me que me custou muito a habituar‑me a deixar de marcar com acento grave as sílabas átonas abertas de certas palavras derivadas, como rapidamente, que eu aprendi a escrever ràpidamente. Não me parecia lógica a nova maneira de escrever e resisti a ela durante muito tempo – se eu não puser o acento, tem de se pronunciar [râpidamente], não pode ser, pensava eu. É claro, nunca pensei nessa altura que uma palavra como possivelmente não mudava absolutamente nada por deixar de ter o acento grave no i, pelo que ele devia já ser escusado na ortografia anterior; nem que palavras como mestria ou esquecer tinham já vogais átonas abertas sem nunca se terem escrito mèstria ou esquècer...

Enfim, era uma reacção normal, sei‑o agora. Aquando da grande reforma ortográfica que se seguiu à implantação da república, que fez desaparecer os yy, os th, os ph, as duplas consoantes como tt, mm, etc., houve muita gente que se indignou. O poeta e ensaísta Teixeira de Pascoaes, por exemplo, recusava a nova grafia por razões puramente afectivas. Como é que abismo pode alguma vez representar a a profundidade, a escuridão e o mistério de abysmo?, argumentava ele**. Há quem ache, portanto, que um y representa a profundidade ou o mistério melhor que um i, mas não sei se também em cyclone, dyspepsia ou syphilis... Notem que as últimas discussões sobre a proposta de reformas ortográfica unificada do português têm sido do mesmo tipo das que houve em 1911. Mas não vou agora discutir isso aqui porque não tenho nada de interessante a acrescentar ao muito que tem sido dito e escrito sobre o assunto…

Mas então, onde é que eu quero chegar? Quero então dizer que qualquer ortografia serve, que não há maneiras melhores que outras de escrever uma língua? Melhores, como tal, não parece que haja, nem parece que nenhum língua sofra muito pela sua maneira de escrever. O inglês ou o francês, por exemplo, escrevem-se de maneiras que muitos acharão bastante complicadas, sobretudo se as compararem com escritas mais fonéticas, como a do finlandês ou do castelhano, ou mesmo do português: para escrever o som [š] (como em ou chá), há em inglês 13 maneiras possíveis (e utilizadas de facto)*. Mas o inglês fica ainda muito longe do francês em que há pelo menos 40 maneiras possíveis (o que não significa que sejam todas utilizadas...) de escrever o som [ô], a mais simples das quais é o e as mais complicadas coisas como heaux ou heaults. Ora isso não parece ter constituído nenhum obstáculo à expansão destas línguas, que são das mais internacionais...

No entanto, se não há maneiras de escrever uma língua de que se possa dizer que são melhores que outras, há certos critérios, relativamente coerentes, que são defendidos por certos sectores de opinião.

Um é o critério etimológico, que é o que tem prevalecido, por exemplo, na Academia Francesa, que manda na maneira de escrever o francês. Para muitos membros da Academia Francesa é importante mostrar de onde vem a palavra, como se fosse importante para um francês saber que os dois ff nas palavras que começam por eff‑ indicam que são originalmente compostos com uma preposição latina ex- ou es-, que significa “para fora”... E que interesse tem que thym, “tomilho”, se escreva assim em vez de, por exemplo, tin, só porque vem do grego thumom (de thuo, “queimar em sacrifício”), em que o que se transcreve por th é, ainda por cima, uma única letra? Já teint, que se pronuncia exactamente da mesma forma, vem de tintu- (como o nosso tinto!) e o e antes do i não é etimológico... Na realidade, uma boa parte da grafia não reflecte a etimologia, mas antes a maneira de o francês ser pronunciado há muito tempo. Se tomarmos um exemplo simples, como roi, “rei”, vemos que em finais da idade média a palavra se pronunciava exactamente como se escreve (mais ou menos como o português rói, apenas com o r “rolado” no princípio). Depois disso, evidentemente, não parou de evoluir – passou a [roê], depois a [ruê], e depois a [ruá], como se pronuncia agora... Mas, na ortografia, nunca mais ninguém mexeu...

Deixem‑me fazer um aparte: o facto de muitas ortografias serem, por conservadorismo, muito distantes da pronúncia actual e, por isso mesmo, muito pouco lógicas, tem sido muitas vezes pretexto para brincadeiras. Alguém propôs já que, em inglês, a palavra inventada ghoti se pronunciasse [fiš], como a palavra fish: E porque não? gh pode ler‑se [f], por exemplo em laugh; o pode ler-se [i], por exemplo em women; e ti pode ler-se [š] como um sh, por exemplo em nation... Então, ghoti lê‑se [fiš]!

A verdade é que, por exemplo, gh, se pode ler [f]... ou não se ler! Este gh ficou de um tempo em que era pronunciado mais ou menos como o r gutural de Lisboa. Light, “luz” ou “leve”, por exemplo, pronunciava‑se [lirrt], mais ou menos com a palavra que lhe corresponde em neerlandês, licht. Mas a língua evoluiu muito desde essa altura... Só para vos dar um exemplo simples com as letras gh, a sequência de letras -ough- pode ler‑se de 6 (ou 7) maneiras diferentes: [af], como em enough, “suficiente”; [âu], como em though, “apesar disso”; [u:] como em through, “através de”; [óf], como em cough, “tossir”; [au], como eu plough, “arado”; e [ó], como em thought, “pensamento” (e ainda [âp], como em hiccough, “soluços”, que é uma grafia pouco comum, mas possível, do que normalmente se escreve hiccup).

Outro critério possível é o critério da lógica fonética. Há línguas em que se prefere sacrificar as marcas da etimologia a uma grafia que seja um sistema de transcrição lógico de como realmente se fala. Grafias como a do espanhol ou a do português obedecem bastante a este critério, mas não completamente. Mais fonéticas são, por exemplo, a escrita do finlandês ou do indonésio. Línguas com maneiras de escrever muito fonéticas são também as línguas que se escrevem há relativamente pouco tempo, como muitas línguas africanas, precisamente porque não têm atrás de si o peso de uma tradição de escrita.

Uma escrita fonética não é, no entanto, sem complicações. Dou‑vos só alguns exemplos simples: em português europeu, poder-se-iam simplificar muitas palavras segundo o modelo de quer, isto é, deixando de escrever um e final que hoje em dia já não se pronuncia. A escrita tornar-se‑ia assim mais fonética, mais próxima do que realmente se diz: “ele fer as pessoas com a sua maneira de falar”, “par aí quando puder”, “o val do Mondego”, etc., etc. Mas este tipo de alterações não deixaria de levantar outros problemas: por um lado, o português de Portugal passaria a escrever-se de uma forma diferente dos outras variantes do português, porque nessas outras variantes não há e mudo; além disso, deixaria de poder ver‑se na escrita um elemento do sistema que, pronunciado ou não, funciona na língua – e faz com que se diga e escreva quere‑o e não qué‑lo, e que o plural de vale seja vales e não vais... Por isso é que muita gente defende que é melhor que o português não se escreva de uma forma mais fonética, mas que se escreva antes como se escreve, de uma forma mais fonológica – quer dizer, dando conta do sistema mesmo que se afaste, por isso, da pronúncia real (e eu concordo).

Outro exemplo dos problemas que pode levantar uma escrita mais fonética: em dinamarquês e norueguês, há três letras especiais (ø, æ e å), para representar sons que doutra maneira teriam de representar‑se com duas letras ou com sinais auxiliares. A escrita é assim mais fonética, mas estas línguas têm símbolos que mais nenhumas têm, o que dificulta a vida nalguns casos, nomeadamente quando tem de se escrever num teclado sem essas letras... Este é sempre aliás, um dos problemas de uma escrita mais fonética: precisa normalmente de mais símbolos [Embora, provavelmente, não sejam muitas vezes necessárias as 74 letras do alfabeto khmer, do Cambodja... Mas também há poucas línguas que tenham até 35 vogais, como têm as línguas mon‑khmer... Notem que poucas não quer dizer nenhumas: o dinamarquês standard bate de facto as 35 vogais mon-khmer: tem 36!].

E isto leva‑nos a um terceiro critério possível, que é o da facilidade. O italiano tem um sistema ortográfico menos fonético que o português ou o castelhano, porque não tem acentos para marcar as sílabas tónicas. Menos fonético… mas mais simples – porque não tem acentos para marcar as sílabas tónicas! Ora, para um italiano, não constitui problema saber onde estão as sílabas tónicas de cada palavra, porque ele fala a língua. Mas como é que ele faz distinções do tipo das que existem em português entre hábito e habito, por exemplo? Nunca há problema, porque as palavras nunca aparecem no mesmo contexto, e o contexto distingue‑as perfeitamente. Se os portugueses ou os espanhóis estivessem habituados a escrever sem acentos, não sentiriam falta deles. Em inglês, também não há acentos para marcar as tónicas e não se sente a sua falta... A distinção entre, por exemplo, adjectivos e formas verbais que se escrevem da mesma maneira mas que têm pronúncia diferente, como close, “perto” e close, “fechar”, também não é problemática, porque não podem aparecer no mesmo contexto e o contexto logo diz se é close, “perto”, pronunciado [clâusse], ou close, “fechar”, pronunciado [clâuze].

De maneira que critérios ortográficos há muitos, todos eles com alguma validade. O que é que vos parece? Que é então melhor deixar tudo como está? Ou limar algumas con-tradições do sistema?
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* A negrito, as 13 maneiras de escrever o som [š] em inglês: shoe, sugar, ocean, issue, nation, schist, suspicion, nauseous, conscious, chaperone, mansion, pshaw e fuchsia.
** Nota a 9 de maio de 2015: «Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abismo, é transformá-lo numa superfície banal.» “A fisionomia das palavras”, in A Águia, ano 1, I.ª série, n.º 5, de 1 Fevereiro 1911. Na versão anterior deste texto, o exemplo do apego emotivo de Pascoaes à ortografia antiga, que o levava a dar às letras um estranho valor simbólico e a recusar, assim, a reforma ortográfica, era dado com a alegada asserção de que lirio não podia representar a elegância de lyrio. O facto é que, embora tivesse encontrado esta informação em textos em princípio fiáveis, nunca consegui encontrar uma referência exata ao texto de Pascoaes em que ele tivesse feito essa afirmação. Encontrei agora na Internet uma transcrição de um texto de José Lourenço de Oliveira de 1933, em que o autor, a certa altura, “transmit[e] aos estetas o que v[ê] em Álvaro Pinto A nova ortografia e o desacordo reinante (1931)” e onde se vê, no meio de uma citação do texto de Pascoaes que refiro acima, uma nota (não se percebe bem se de José Lourenço de Oliveira se citada por ele de Álvaro Pinto) que diz o seguinte a propósito da afirmação de Pacoaes de que «[n]a palavra lágryma... a forma do y é lacrymal»:
(NOTA - Esqueceu-se Pascoais [sic] (ou não o quis fazer) de citar as palavras lyrio e cysne. Em lyrio, no y é que se concentra toda a grácil e clara beleza daquela flor, na haste! E como o y de cysne imita o longo e recurvo pescoço da ave, nadando no "manso lago azul" do poeta Júlio Salusse!).
Talvez seja esta a origem da ideia de que Pascoaes falou do y de lyrio, quando talvez só tenha falado do y de abysmo e de lagryma. Ou talvez não, mas, pelo sim pelo não, dou antes o exemplo de abysmo, que sei, esse, que Pascoaes deu, e onde; e funciona no meu texto tão bem como o outro.

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