Mostrar mensagens com a etiqueta Nacionalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nacionalismo. Mostrar todas as mensagens

01/07/26

Dois apontamentos sobre comida tradicional – história, cultura e gastronomia


Como é que uma comida se torna tradicional? 

A ideia de que a cultura material de um povo é, se não completamente determinada, pelo menos grandemente influenciada pelas condições naturais dos lugares que esse povo habita é tão sensata que é difícil pô la em causa. É interessante constatar, porém, que às vezes se observam certos fenómenos culturais, certas tradições, que parecem tão a contrapelo dessa lógica que uma pessoa se sente baralhada com o seu aparente desarrazoado.   

Três exemplos que me vêm imediatamente à cabeça, da área da gastronomia: Se os pratos típicos de uma região se vão desenvolvendo a partir dos ingredientes disponíveis nessa região (nativos ou importados, não importa, contanto que lá existam), porque é que as passas de uva são um produto indispensável nos lares dinamarqueses e de outros países do norte da Europa, e já de muito antes da moderna globalização culinária? E porque é que o maçapão de Lübeck é uma Indicação Geográfica Protegida, quando não há amendoeiras no norte da Alemanha? E porque é os portugueses consomem há tanto tempo tanto bacalhau, quando o importaram sempre quase todo? 

Parece-me muito provável que, algumas vezes, seja precisamente a raridade de um produto — importado, por ser inacessível localmente, e por isso consumido apenas pelas classes mais ricas — que o torna desejado e, por razões nem sempre fáceis de explicar em pormenor, que faz dele um produto necessário à «boa mesa», sobretudo quando passa a ser mais abordável para um maior grupo de pessoas. Creio que é isto que se passa com as passas e o massapão no norte da Europa.  

As passas de uva são consumidas há muito tempo no norte da Europa, principalmente em bolos e inicialmente como especiaria. Foram, durante muito tempo, uma das poucas fontes de açúcar que havia — um produto de luxo reservado à nobreza e algum clero. Depois, como marca de estatuto social, foram também adotadas pela burguesia e depois por toda a gente, à medida que se iam tornando mais acessíveis a todas as bolsas. [1]  

O maçapão de Lübeck tem uma história semelhante. Referido pela primeira vez nos registos da Guilda de Lübeck em 1530, o maçapão era um produto de luxo, com pretensas propriedades medicinais, que só podia ser fabricado e vendido pelos boticários. E, como produto de luxo que era, comia-se sobretudo nas festas dos ricos. Se o de Lübeck se tornou famoso, foi pela sua qualidade: a cidade era um grande centro comercial e era, por isso, possível assegurar aí o fornecimento de pasta de amêndoa, um produto importado do sul e cuja escassez fazia que, em muito outros sítios, o maçapão fosse quase só açúcar sem amêndoa. A partir do início do séc. XIX, com a abolição das corporações, o maçapão passou a ser produzido por pasteleiros e, poucas décadas depois, havia já várias fábricas de maçapão na cidade. O maçapão era agora mais barato, ao mesmo tempo que aumentava o poder de compra dos consumidores; e espalhou-se pelo norte da Europa. [2]    


Já a história do consumo de bacalhau em Portugal não é em nada semelhante. Não se trata, neste caso, de um produto de luxo que se tornou depois mais acessível a todos.  

Muito consumido em Portugal desde o séc. XVI, o bacalhau sempre foi comida do povo, uma situação que não era, aliás, exclusiva de Portugal: o bacalhau foi, durante séculos, um produto de consumo comum em toda a Europa, sobretudo entre as classes mais pobres. Dizem José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues no seu estudo O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa :  

Cremos que a razão da [exaltação do bacalhau] em Portugal radica, em última instância, na celebração pelas classes populares rurais e urbanas de um alimento que enriqueceu uma dieta secular pobríssima feita de pão e de alguns vegetais ou toucinho. 

Agora, se nos séculos XV e XVI os portugueses iam pescar bacalhau no Atlântico Norte, entre o século XVI e fins dos séc. XIX o bacalhau era todo importado; e, mesmo quando a pesca nacional de bacalhau foi aumentando ao longo do século XX e Portugal chegou brevemente a ser, na década de 1950, o maior pescador mundial de bacalhau, continuou a importar-se cerca de um quarto do bacalhau consumido.  

Passados 70 anos, o bacalhau é de novo todo importado, como o foi durante séculos, e continuamos a ser de longe os maiores consumidores de bacalhau do mundo, como já somos pelo menos desde os anos 30 do século XX. Mas não só de bacalhau — de peixe em geral. Todos os dados que encontro sobre o consumo de peixe indicam que, se excetuarmos pequenos territórios insulares, Portugal é atualmente o maior consumidor de peixe per capita. E 80% do peixe que se come em Portugal é, como o bacalhau, importado. [3]  

Não vou desenvolver esta questão, por muito que ela seja interessante. O que me interessa aqui salientar é que não é preciso um produto existir num determinado sítio para fazer parte da gastronomia desse sítio. O preço é com certeza uma condicionante, mas mesmo um preço elevado não parece fazer excluir totalmente um produto que tenha passado a fazer parte de uma tradição — do que se considera normal. E, para isso, pode haver várias razões: por exemplo, pode ter-se tornado um produto alimentar de base por ter sido já considerado de elite ou, no extremo oposto, por ter sido a mais barata fonte de proteína para as classes populares — e talvez por muitas outras possíveis razões entre estes dois extremos… 

E o que é que se pode considerar tradicional?  

Conheci também há pouco tempo um brevíssimo ciclo de quatro canções de Leonard Bernstein , cujos textos são excertos de receitas de La Bonne Cuisine Française , um clássico de Emile Dumont, de 1889 . A receita de plum pudding de Dumont pede, como única gordura, sebo de rim de vaca, de que se devem retirar todas as peles e veios, e picar até ficar reduzido a pó fino. Acho que quem se proponha hoje seguir estas receitas substitui a gordura de rim de vaca por manteiga, não vos parece? Ou banha, vá que seja — ainda há bolos feitos com banha, mesmo industriais. Mas gordura de rim de vaca?

Se uma receita de fins do século XIX nos pode parecer exótica, mais exóticas nos podem parecer receitas mais antigas. Tive um livro chamado Notas de Cozinha , de Leonardo da Vinci, que me serviu de introdução à estranheza da gastronomia do passado. Como já não tenho o livro de notas de Leonardo da Vinci em português, traduzo uma receita d a versão em espanhol a que tenho acesso: 

Sopa de amêndoa 

Fervem-se alguns nabos tenros numa panela onde se pôs uma cabeça de ovelha cozida; depois, desfaz-se tudo com sal, pimenta e sementes de cominho, junta-se-lhes um ovo para ligar esta mistura e com ela fazem-se bolas e outras formas que se cobrem com migas de pão. No centro de cada uma destas bolas e formas coloca-se um testículo de borrego cozido. Põe-se tudo [a fritar] numa frigideira com óleo até ficar duro e castanho e serve-se.   

Leonardo da Vinci acrescenta que desconhece por que razão este «famoso prato milanês» é conhecido como sopa de amêndoas e eu também não faço ideia. Talvez amêndoas fosse um termo eufemístico para testículos. Mas o que me interessa aqui é o facto de ser um prato conhecido. Não se fica a saber quem o comia, é certo, e um problema destes livros de receitas antigos é darem conta apenas do que se comia nas casas dos ricos. Parece-me provável, até pelos ingredientes, que este prato não fosse comido apenas em banquetes de nobres, mas não sei… 

José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues notam, no texto atrás referido, que não há receitas de bacalhau no mais antigo livro de cozinha português, A Arte de Cozinha , de Domingos Rodriguez, de 1680, e esse reparo fez-me revisitar o livro, que eu já conhecia. Domingos Rodriguez foi cozinheiro do Conde de Vimioso e do rei Pedro II, de maneira que aqui não temos dúvidas de que é da cozinha dos ricos que se trata. Há, neste livro, muitas receitas que nos parecem hoje estranhíssimas, algumas com quantidades enormes de ovos, com muito açúcar e fruta em pratos de carne, etc. Deixo aqui uma, que escolhi porque Domingos Rodriguez a descreve como «um prato ordinário» (no sentido de «comum», nota-se, não no sentido pejorativo que muitas vezes tem hoje) e deixo aqui a grafia original, que lhe dá outro… sabor.  [4]   

Sopa de qualquer genero de aßado.  

Feito hum vintem de paõ em fatias, ponhaſe hũa cama dellas em hũa frigideira grande untada de manteiga, cubraõ-ſe de açucar, & de canella, & ſobre eſta cama ponhaſe outra da meſma ſorte, & por cima della hũa pequena de manteiga de vaca lavada, & açafraõ, deitem-lhe hum pouco de caldo de galinha, ou de carneiro, & deixe-ſe eſtofar de vagar em pouco lume; & logo tirandoſe fóra do lume, deitem-lhe huma duſia de ovos por cima (ou menos, conforme for a frigideira) com açucar, & canella : feito iſlo, tomeſe hũa tampa com lume, & ponha-ſe hũ pouco levantada ſobre a ſopa até que tome boa cor ; tirada da frigideira, & poſta no prato, ſe trinchará o aſſado, que podem fer galinhas, ou frangãos, ou põbos, ou perùs. Este he hum prato ordinario.

Chamou-me a atenção o surpreendente requinte técnico do «gratinado» com a tampa a arder colocada por sobre a frigideira. 

Mas não há dúvida de que o passado é um país distante. E as tradições, essas, não são na maioria muito antigas. Também na gastronomia. Quantos anos têm as receitas tradicionais portuguesas, francesas ou italianas que todos conhecemos hoje? De cada vez que me ponho a explorar a história de uma delas, descubro sempre que não são tão antigas como isso. [5]  

De maneira que insisto, espraiando a partir da gastronomia: não tentemos dar aos elementos que se dizem constituir uma identidade nacional um caráter trans-histórico que eles, de cada vez que se investiga, se verifica não terem. O que se come hoje em Portugal é muito mais parecido com o que come hoje na Dinamarca do que com o que se comia em Portugal há 500 anos. E o que se veste. E o que se pensa. Etc.  


Imagens:
[Muitos quilos de passas] Membros da União dos Cozinheiros preparando um plum-pudding gigante, xilogravura para o jornal The Illustrated London News de 3.1.1863, daqui
[Outros maçapães nórdicos] A fábrica de maçapão M. Zappa na Schloßplatz de Königsberg, atual Calininegrado. Carta postal, autor desconhecido, s.d. anterior a 1914. Bildarchiv Ostpreußen, daqui
[Terra nova e Labrador] Barco de pesca com bacalhau (e halibute pendurado), foto de N.B (?) Miller, s.d. (anterior a 1927), Biblioteca do Congresso dos EUA, daqui

____________________

Notas:

[1] Não encontrei nada específico sobre a história das passas de uva no norte da Europa, mas vários sites dizem o mesmo que esta página  ou esta página , por exemplo. Para uma cronologia da história das passas de uva, ver aqui .  

[2] Esta informação é tirada das páginas da Wikipédia sobre o massapão de Lübeck em três línguas diferentes, que se completam: as páginas   em francês, em alemão e em inglês

[3] Toda a informação sobre o bacalhau é tirada de duas fontes, que aconselho: o estudo de José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa (2013) e o episódio «Faina maior, a pesca do bacalhau»  (2015) da série televisiva História a História,  de Fernando Rosas, que inclui uma entrevista a um especialista da história do bacalhau, Álvaro Garrido. Para Informação sobre a importação de peixe, ver aqui ou aqui .

[4] A página em inglês do artigo da Wikipédia sobre Alfred Korzybski inclui um curioso episódio referido num jornal neerlandês, que eu traduzo: 

Um dia, Korzybski estava a dar uma aula e, de repente, interrompeu-a a aula para tirar da pasta um pacote de bolachas, embrulhado em papel branco. Disse que precisava mesmo de comer alguma coisa e perguntou aos alunos da primeira fila se também queriam uma bolachinha. Alguns estudantes aceitaram uma bolacha. «Boas bolachas, não acham?», perguntou Korzybski, e comeu mais uma. [..] Depois, rasgou o papel branco onde as bolachas estavam embrulhadas, mostrando a embalagem original. Via-se uma imagem de um focinho de cão e as palavras «bolachas para cães». Quando os alunos viram a embalagem, ficaram chocados. Dois deles sentiram vómitos, taparam a boca com as mãos e saíram da sala a correr. «Vejam», comentou Korzybski, «acabo de demonstrar que as pessoas não comem só comida, mas também palavras, e que às vezes conta mais o sabor das palavras que o sabor da comida.

Peço desculpa pela excursão, mas gosto muito desta história. 

[5] Como diz Luís Pontes no seu blogue

[a] ideia generalizada de que aquilo que comemos e a que se convencionou chamar «cozinha tradicional portuguesa» é um património que nos acompanha enquanto povo desde tempos imemoriais é um dos mais lamentáveis logros, que nos é vendido por uma certa «gastronomia» que, à falta da criatividade e reinvenção de que a Gastronomia é feita, nos impinge uma cozinha geralmente com meia dúzia de dezenas de anos (a cozinha de infância destes gastrónomos), que tem sido perpetuada numa visão museográfica da cozinha [...] .



07/06/23

De hinos nacionais... e transnacionais

Dos hinos nacionais que conheço, não me lembro de nenhum que me agrade mesmo – nem melodias nem letras... Mas enfim, também conheço poucos. Não deixa de ser curioso, porém, que não haja mais hinos nacionais que sejam canções «tradicionais» ou «folclóricas». Parece que ficaria bem à romântica ideia de nação um símbolo que romanticamente definisse «a alma de um povo», uma capacidade que — muito romanticamente também — se atribui muitas vezes à música «tradicional» ou «folclórica».

«Tradicional» ou «folclórico», quando se refere a autoria (ou ausência dela, seja), significa apenas que não se sabe quem é o autor. Muitas vezes, a canção de autor desconhecido assim referida sofreu várias mutações, ou seja, foi reescrita por várias pessoas anónimas ao longo do tempo, e tem, muitas vezes, várias versões, todas de autor desconhecido. Quando olhamos para a lista dos hinos nacionais, presentes ou passados, e dos seus autores, só os da Eslováquia (música), da Suécia (música) e de Montenegro (letra e música) são «folclóricos»*.

Por mim, proponho a canção tradicional «Segadinhas» para hino português: presta-se a ser cantada em coro por muita gente, até com arranjos sofisticados, é rica em lirismo, que muitos consideram uma qualidade nacional, com uma mensagem bem mais razoável e mais positiva que o apelo bélico e suicida a marchar contra canhões, e inclui o termo larilolé, que é dos mais portugueses que há... Mas receio que não haja muito gente a concordar comigo.

Agora, um caso curioso é «Land of the Rising Sun», o hino da República do Biafra, autoproclamada em 1967 e que durou só até 1970. A letra é de Charles Okereke e a melodia é do hino «Finlândia«, de Jean Sibelius, extraído do poema sinfónico do mesmo nome e transformado em canção com duas letras diferentes, a primeira de Wäinö Sola em 1937 e a segunda de Veikko Antero Koskenniemi em 1941 (além de outras letras noutras línguas). Ora, o hino «Finlândia» não só é uma obra nacionalista, como tem sido muitas vezes proposto para hino nacional da Finlândia, sem que isso se tenha concretizado. Só no Biafra é que «Finlândia» finalmente cumpriu, durante três anos apenas, a sua vocação de hino nacional.

Para terminar, deixo-vos o poema sinfónico Finlandia, de Jean Sibelius, numa excelente versão, por tal sinal muito finlandesa: a Orquestra Filarmónica de Helsínquia conduzida por Leif Segerstam. Não é propriamente um hino nacional, mas é uma obra referida no texto e é mais bonita que os hinos nacionais que conheço. Para mim, claro.


_________________________________

* O hino do Sara Ocidental também é de compositor e letrista desconhecido, mas não me soa nada a tradicional sarauí. A música do hino «God Save The King», que é usada também no hino nacional do Listenstaine, também é de autor desconhecido e decerto suficientemente antiga para poder ser considerada «tradicional»...

12/02/21

As músicas e as nações

Com o aumento das quotas obrigatórias de música portuguesa na rádio, ressurgiu há pouco tempo a discussão dessas quotas. Não é isto, porém, que motiva este meu texto, cujo esboço foi iniciado, aliás, há quase cinco anos (!). Quero deixar claro que não tenho nada contra medidas de apoio aos músicos portugueses, e muito menos no atual contexto de pandemia. O que discuto neste texto, porém, tem um âmbito bem mais vasto que a questão das quotas de rádio. 

Tive várias vezes longas discussões com amigos meus que me diziam que era preciso «defender a música portuguesa». Esta ideia da «defesa da música portuguesa» – às vezes também chamada «a nossa música» – é suficientemente antiga para eu sempre a ter conhecido e é uma ideia que tem a força de ser comum a vários setores ideológicos e musicais. Mas é uma ideia que sempre me pareceu pouco clara ou, por vezes, bastante ilógica, assumindo pressupostos que, para mim, não são de modo algum evidentes. 

Uma interrogação que nos surge imediatamente quando começamos a refletir sobre este tema é porquê defender uma música e que música se deve defender? Satisfaz-me a resposta que cabe ao Estado defender os interesses dos seus cidadãos e que, por isso, o Estado deve defender a música feita por esses cidadãos — embora, como argumentarei mais à frente, nem sempre disso resulte a defesa de uma música que todos considerem portuguesa. Mas, aceitando essa primeira premissa, deve então defender-se toda a música de cidadãos portugueses da mesma maneira? A resposta depende, em grande medida, da ideia política de cada um, do papel que cada um atribui ao Estado na nivelação das assimetrias existentes. A resposta que me surge imediatamente é que se deve defender mais a música que mais precisa de ser defendida: a música de qualidade que não pode defender-se a si própria, porque, pelas suas características, não pode ser nunca suficientemente vendável para que dela alguém possa viver. É esse o critério que, nalguns países, leva à atribuição de subsídios a artistas — músicos, poetas ou outros — que trabalham em géneros artísticos não comerciais que se pretende preservar, porque se considera que, embora marginais, são uma parte importante da produção artística de um país. Evidentemente, estas decisões são também difíceis e às vezes polémicas — porque o grande público vê com maus olhos gastarem-se os dinheiros públicos em coisas de que o grande público não gosta nada; e porque é muito difícil arranjar critérios fiáveis e abrangentes para aferir a qualidade. Mas não é normalmente destas músicas que se fala quando se afirma que é preciso defender a música nacional… 

De que se fala então quando se fala de música portuguesa? Como dizia acima, a única definição que me parece aceitável é «música composta por indivíduos de nacionalidade portuguesa[1]». Há outras definições, assentes, por exemplo, não no autor mas sim na própria música, mas não vejo bem como se possa medir a portugalidade de uma música. 

Só não digo que os nomes maiores da música portuguesa promoveram música essencialmente estrangeira, porque não acredito que haja alguma música essencialmente nacional. Carlos Seixas é, dizem os entendidos, um compositor bastante à italiana; Bomtempo tinha em Haydn a sua principal influência e muitos críticos referem que Joly Braga Santos remete para Respighi e Vaughan Williams. Por exemplo… E podia, sem arriscar muito a que me acusassem de delírio, apontar o «estrangeirismo» de outros nomes maiores da música portuguesa. 

Se passarmos da música dita erudita à chamada música popular, a sua portugalidade não é mais fácil de definir. A canção dita ligeira têm óbvias influências estrangeiras. Que haverá de mais popular português que a música pimba que anima de norte a sul o povo português, em bailaricos de verão, patuscadas familiares e jornadas de trabalho? Ora, como outros estilos de canção ligeira anteriores a ele, o pimba e seus congéneres de grande público fizeram adaptações «portuguesas» de música estrangeira — a chamada música schlager internacional[2]. A canção dita «de texto» ou «de autor» tem também influências directas da canção de outros países, talvez sobretudo da canção francesa, como, aliás, os seus autores muitas vezes admitem. O pop-rock português, esse, é frequentemente criticado por ter como modelo a «música anglo-saxónica» (mais uma expressão muito difícil de definir com rigor). Há até dois esquemas clássicos de fado que se chamam o bolero do Machado e o bolero do Zé Inácio… Todos os géneros musicais têm, enfim, muitos modelos estrangeiros e isso é apenas natural: por que razão haveria um músico de recusar absorver o que é feito além-fronteiras? 

É claro que Luís de Freitas Branco tem as Suites Alentejanas Nº 1 e Nº 2, Braga Santos as Variações sobre um tema alentejano, que a música «tradicional rural» influencia também desde a canção ligeira até à canção de intervenção, que o fado de Coimbra é uma das principais influências dalguns dos primeiros e mais influentes cantautores, etc. Mas também a música «tradicional», rural ou urbana (um adjetivo como tradicional cobre coisas muitos diferentes, muitas delas bastante recentes, por tal sinal) é, como todas as outras músicas, o produto de músicas que vêm um pouco de toda a parte, desde a música de origem persa do Califado de Córdoba, provavelmente, até à música litúrgica ou às canções e músicas de dança que, mesmo antes de haver discos, circulavam já com relativa facilidade, por toda a Europa e não só. Toda a música dita tradicional é, pelo menos em parte, fusão de músicas diversas, das melodias às letras e às sonoridades, e vai-se sempre alterando num processo  dinâmico. 

E depois, músicas nacionais são também as músicas nacionalizadas, ou não? Para as pessoas da minha idade e da minha região, a música do canadiano Robert Farnon que abriu durante anos as emissões da RTP é uma música portuguesa, porque é a música da televisão portuguesa; e a música tradicional do Carnaval português... é o samba. 

Músicas puras, enfim, que reflitam de forma inequívoca e trans-histórica a «alma de um povo», desculpem, mas não sei quais sejam, porque essa ideia romântica não corresponde a nada de efetivamente observável. Mas, mesmo sem sabermos bem o que é música portuguesa, podemos voltar ao início da discussão para a concluir com uma constatação simples: se cabe ao Estado proteger os seus cidadãos e, por conseguinte, a música destes cidadãos, são todos os músicos portugueses vivos que o Estado deve proteger, antes de mais — componham ou não «música portuguesa» e em português, e — muito importante — toquem e cantem ou não música portuguesa e em português. Não se garantiria, ainda assim, a resolução do problema atrás referido (apoiar e proteger os que mais precisam de apoio e proteção, por serem menos comerciais), mas já se teria uma definição mais sensata de quem defender: não uma entidade bastante vaga chamada música portuguesa, mas os músicos de nacionalidade portuguesa, mesmo que componham música klezmer ou interpretem Motörhead ou Stravinski.

***

Das peças abaixo, quais refletem o património cultural português e as sonoridades e ambientes tradicionais portugueses? Quais se podem considerar música portuguesa? 

Simone de Oliveira, “Amor à portuguesa”, 1959  

Uma canção composta pelo espanhol Enrique Confiner em 1953. Além do original castelhano, tinham já sido gravadas versões em inglês, francês, alemão e italiano antes da versão portuguesa de Simone Oliveira. 

Iris Rautio:  “Benfica”, 1963  

Não sei nada desta canção finlandesa, mas não há dúvida de que fala de Portugal. Se fala de Benfica ou do Benfica, isso não sei, mas, como Iris Rautio era uma cantora pop conhecida, há de ter contribuído para divulgar Portugal na Finlândia, numa altura em que não havia provavelmente muitos finlandeses que viessem de férias a Portugal. 

Conjunto de João Paulo:  “Hully Gully do Montanhês”, 1965  

Não se trata de uma versão. É uma composição de Sérgio Borges e Carlos Alberto Gomes. Hully Gully não é uma expressão portuguesa, mas acho que se pode dizer que a letra é em português... 

Joly Braga Santos: Sinfonia Nº 6, 1972  

Não se trata de uma obra em português, embora tenha um texto de Camões — mas em castelhano… 

Constança Capdeville: Momento I, 1974  

Música bem portuguesa, esta, na autoria e na interpretação (do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, dirigido por Jorge Peixinho) 

Enza Pagliara:  “Pizzicarella”, 2002  

O folclore salentino tem, como outros tipos de folclore europeu, sonoridades semelhantes às de algum folclore português. Contribui para essa semelhança o uso do acordeão, um instrumento inventado na Alemanha há cerca de 200 anos, com base no sheng asiático, trazido para a Europa nos fins do séc. XVIII, que inspirou a criação de vários aerofones de palheta livre. 

César Viana: Land der Brüderlichkeit, 2020  

Land der Brüderlichkeit significa «terra da fraternidade». Trata-se de um «prelúdio coral», que, em vez de se basear num hino luterano, se baseia em “Grândola, vila morena” de José Afonso.



__________________


[1] É claro, uma pessoa pode perguntar-se se a música de Thilo Krasmann era portuguesa antes de este músico ter obtido a cidadania portuguesa, mas deixemos agora essas picuinhices… 

[2] A música que em Portugal se chama pimba e os seus parentes próximos designam-se em várias línguas pela palavra alemã Schlager. Para dar apenas dois exemplos simples de schlager em português, o “Vinho verde” que é do meu Portugal e que faz seguramente parte da música portuguesa que alguns querem defender, é uma versão de uma canção alemã de Michael Kunze e Udo Jürgens, “Griechischer Wein”, de que há também versões pelo menos em croata, finlandês, neerlandês e polaco – e que alguns croatas, finlandeses, neerlandeses e polacos considerarão provavelmente, música sua; e os dois amores de Marco Paulo são uma versão de um tema do músico grego Giorgios Hatzinassisos... 


12/10/20

Henry J. Garret vs Ursula K. Le Guin (VLindegaard mashup)

– Mãe, como é que sabemos quando passamos de um oceano para outro? 
– Não sabemos. As fronteiras são construções sociais e há que ter cuidado com quem as leva muito a sério. 
Como se odeia um país? Ou como se ama um país? … Conheço pessoas, conheço cidades, quintas, outeiros e rios e rochas, sei como o sol se põe ao lado de um certo terreno arado nas colinas; mas que sentido faz pôr a tudo isso um limite, dar-lhe um nome e deixar de amar um lugar onde o nome deixa de se aplicar? 
Henry J. Garrett, Whales without borders, s. d
Ursula K. Le Guinn, A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), 1969

Rio Acre, que em partes do seu percurso serve de fronteira entre a Bolívia e o Brasil. Foto: Arison Jardim/Secom, Agência de Notícias do Acre (Wikimedia Commons, daqui)

17/10/17

Sobre independências

Este textinho não é especificamente sobre a Catalunha, mas é também sobre a Catalunha – e sobre todas as independências nacionais, passadas e futura.

Independentemente do que se ache da oportunidade e da justeza de uma determinada pretensão independentista[1], não vejo bem que argumentos éticos possa haver a favor da independência de uma determinada nação ou contra ela que não seja a vontade das pessoas que lá vivem[2].

Há quem pareça acreditar que as fronteiras atuais refletem uma ordem suficientemente perfeita para ser conservada para sempre, mas não há nada de especialmente natural nas atuais nações. Parece-me também claro que nunca são suficientemente sólidos, quando chegam a ter alguma solidez, os argumentos etnicistas, incluindo os de um pretenso direito ancestral assente numa ocupação «originária» de um determinado território por um determinado «povo».

A singularidade cultural, linguística ou mesmo genética de um povo é, na maior parte dos casos, extremamente difícil de determinar[3], mas, a aceitar-se que existe, também não é, por si só, justificação para a independência – nem nenhum argumento de natureza étnico-cultural serve para justificar uma recusa de independência.

Para se ser independente, é preciso querer ser-se independente. Numa abordagem racional e democrática, a condição necessária e suficiente para a independência é a vontade expressa da maioria dos habitantes de um território de fazer parte de um determinado estado ou de constituir outro estado[4]. É um direito que decorre naturalmente do direito básico de cada pessoa a decidir sobre a sua vida, já que é apenas o direito de uma comunidade a decidir sobre a sua vida. É que não vejo mesmo como possa ser de outra maneira.

____________________

[1] Pessoalmente, considero prioritário neste momento pôr a funcionar, de forma realmente democrática, as instâncias supranacionais. Descreio em soluções nacionais para a maioria dos problemas das nações e não me agrada a restrição dos círculos de solidariedade nem a proliferação de estados-nação. Se fosse catalão, provavelmente não quereria a independência. Mas digo provavelmente, porque, se fosse catalão, uma parte do meu querer seria determinada por emoções e razões que, como português, desconheço. 

[2] Na minha perspetiva, são, por isso, políticos, no sentido mais essencial do termo, já que considero que a política é a parte da ética e da moral que trata da vida social. Admito que possa haver argumentos de ordem mais prática, incluindo argumentos de ordem económica, mas não é dessa discussão que aqui se trata. 

[3] Na maior parte dos casos, grupo étnico significa grupo linguístico. Mas mesmo o critério linguístico raramente é claro. No caso do povo catalão, por exemplo, que nem é dos mais complexos, não há diferença significativa, do ponto de vista linguístico, entre o catalão e o valenciano, embora as pessoas das duas regiões muitas vezes julguem que sim, com base em pequenas diferenças de léxico e pronúncia. Aliás, por ser assim tão difícil delimitar-se objetivamente a identidade étnica que se usa muitas vezes a autoidentificação como critério suficiente.

[4] Admito que há casos complicados, em que é difícil aceitar este princípio na sua forma mais simples, como quando há uma rápida colonização do território com o fim de os colonizadores virem a ser maioria no território, mas a discussão dessas situações não cabe neste minitexto sobre um princípio ético/político de base.

08/05/15

Nacionalismo, mais uma vez

Vejo alguns amigos divulgarem, por e-mail ou no Facebook, textos de Eça de Queirós e Guerra Junqueiro sobre o estado da nação no seu tempo, louvando a atualidade desses textos[1]. É conhecido o processo de engrandecimento das nações que consiste na sua subtração a todas as realidades históricas para as transformar em gloriosos entes fantásticos cujo espírito e valor permanecem inalterados através dos tempos. Nesta reação à consciência sofrida do estado atual de Portugal, porém, já não é o Bem que é a-histórico, mas sim o Mal: a “atualidade” destes textos diz-nos que Portugal sempre sofreu (quase século e meio é um pouco como uma eternidade em ponto pequeno) dos males de que sofre agora. O que se diz, afinal, é que o problema reside no imutável espírito dos (maus) portugueses e não nas condições históricas atuais.

Também começaram a circular, há uns tempos, excertos do “Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX”, de Almada Negreiros (Portugal Futurista, 1917[2]). É um texto estranhíssimo, a espaços assustador[3]. Não é minha intenção analisá-lo aqui, mas quero referi-lo como exemplo daquilo que eu chamo uma apelativa suspensão da racionalidade.
Eu não tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para não ter, como vós outros, a cobardia de deixar apodrecer a pátria. 
A primeira parte da frase está certa, embora se perceba mal o uso da palavra culpa. Espera-se a negação de culpa relativamente a características ou ações consideradas negativas, não é verdade? Se dissermos Ele não tem culpa de ver mal ou Ele não teve culpa de ter deixado entrar a bola, assumimos que ver mal ou deixar entrar a bola são coisas negativas. Como pode Almada Negreiros, em pleno fervor nacionalista, assumir a portugalidade como algo negativo de que não tem a responsabilidade? Não se espera antes, neste tipo de discurso, uma asserção como «Eu sei que não sou português por decisão própria, mas…»? Talvez o uso de culpa tenha implícita uma crítica aos outros portugueses que têm a “cobardia de deixar apodrecer a pátria” – talvez Almada Negreiros pretenda implicar que é assim que esses tais cobardes sentem a sua portugalidade, como uma culpa… Também a ligação lógica entre as duas proposições da frase me surpreendeu: deve esperar-se uma correlação positiva entre a culpa de ser português e a força de não deixar apodrecer a pátria? Pode ser apenas que Almada Negreiros seja bastante descuidado na sua lógica, e que, por isso, não valha a pena tentar encontrar o meio dia às quatro da tarde, como dizem os franceses; ou, neste caso, encontrar lógica e coerência num texto que prima pela emotividade pré-racional e pela incoerência... O certo é que textos como este são altamente apelativos: quando é de apelo ao patriotismo que se trata, suspende-se muitas vezes a racionalidade, pondo-se a dedicação incondicional à pátria como valor a priori (Almada Negreiros, mais adiante no mesmo texto: «[O] patriotismo condicional degenera e suja; o patriotismo desinteressado glorifica e lava.»). Qualquer pessoa, porém, que recuse a infantilidade do adquirido acriticamente como forma de orientar a sua conduta tem, mais que direito, o dever de ser interrogar: que boas razões há para ser nacionalista ou patriota [4][5]?

***
Acompanhando de longe a reação do meu círculo de relações à situação de crise em Portugal, vejo surgir em vários amigos meus que nem considerava especialmente nacionalistas um nacionalismo assertivo, por vezes eivado, ainda por cima, de um confrangedor discurso antialemão e antieuropeu. Agora, por muito que nem sempre seja agradável e chegue, às vezes, a ser aterradora, essa efusão nacionalista não me surpreende por aí além. Tempos de crise exacerbam sempre o nacionalismo. Uma das respostas mais imediatas ao que se sente ser o degradar da nação é a exortação ao patriotismo heroico de salvação nacional – algo em que uma parte da esquerda nunca se distinguiu da direita, aliás… Quero deixar claro que sou também fortemente crítico das políticas do atual governo, das medidas austeritárias em geral e da obsessão da economia neoliberal que domina muitos dirigentes europeus. Mas entristece-me ver as pessoas suspenderem a racionalidade, como o Almada Negreiros do texto acima, ao ponto de se recusarem a analisar a situação atual, reduzindo-a a um mal permanente, intemporal, ou a amalgamarem a CDU alemã com a Alemanha ou o povo alemão, o predomínio da ideologia neoliberal na União Europeia atual com a própria União Europeia. Esta amálgama encerra, aliás, uma contradição fundamental: seguindo a mesma lógica e identificando a nação e o povo portugueses com o seu governo atual, que recusam, deveriam também recusar Portugal… Mais uma vez, para aceitar este tipo de generalizações nacionalistas, é preciso mesmo suspender a racionalidade.

Tudo isto é óbvio e foi já muitas vezes repetido. Também já expliquei aqui que não acredito em conceitos trans-históricos ou a-históricos de identidade nacional, que haja alguma coisa essencial que me faça semelhante aos portugueses de há três, cinco ou sete séculos; e que também não acredito em identidades nacionais em bloco: sou muito mais parecido, mas muito mais!, com muitos alemães que conheço que com outros portugueses da minha geração. Juntando isto tudo, sou, enfim, um português sem vergonha nem orgulho nenhum de o ser. E vejo mal como poderia ter uma atitude diferente se fosse croata, balúchi ou filipino… Mas, por banais que sejam, aqui ficam estas observações, nem que apenas como notas a que possa rapidamente lançar mão para alicerçar futuras discussões sobre o tema.

*** 
Não sei até que ponto o que se segue é menos banal. É, em certa medida, um aparte, mas diz também respeito à discussão do nacionalismo. Quero defender aqui que, seja em que circunstâncias for, não acho correto defender ou criticar um programa de governação por ele favorecer ou desfavorecer uma nação. Um amigo meu defendia uma vez, respondendo a uma crítica minha à atuação do ministério dos negócios estrangeiros de um determinado país, que essa atuação se justificava, porque estavam a defender os interesses do seu país. Ora, para uma pessoa que, como eu, entende a política com uma parte da ética, um programa político só pode ser louvado ou condenado por estar ou não de acordo com os princípios – éticos em sentido lato – que essa pessoa defende. Aceitar que a defesa dos interesses nacionais é fundamento suficiente para a atuação política implica considerar que mal ou bem ou não contam ou não são atributos do que se faz, e que a mesma ação possa ser julgada de duas formas diferentes consoante quem a executa e a favor de quem.

*** 
Não me entendam mal: não tenho nada contra uma pessoa gostar do sítio onde nasceu, como não tenho nada contra uma pessoa gostar de pais e irmãos e amigos de infância. Acho natural que gostemos daquilo com que convivemos há muito tempo, daquilo que conhecemos bem: “familiaridade gera gosto”, dizem, vertendo assim, não sei se da melhor maneira, familiarity pelo seu cognato português… E é assim mesmo, gostamos do que o acaso nos pôs na vida, como havia de ser doutra maneira? Aliás, distinguir entre esses afetos resultantes apenas de uma fortuita proximidade e outros afetos escolhidos (“não se escolhe a família, mas escolhem-se os amigos”, etc.) é provavelmente uma distinção artificial, porque ninguém escolhe de facto gostos nenhuns – em última análise, é sem grande sentido a ideia de haver uma entidade exterior ao eu que gosta a decidir de que gosta esse eu. Mas adiante. Não tenho absolutamente nada contra gostar-se da sua terra em geral, ou de aspetos particulares da sua terra, nem tenho nada contra não gostar dela, ou de alguns dos seus aspetos, ou ser-lhe indiferente; como não tenho nada contra não gostar de pais e irmãos ou ser-lhes indiferente, se isso acaso acontecer… Gosta-se do que se gosta e pronto, não vejo nisso nenhum mal nem nenhum bem. Não é que não haja nada a fazer relativamente aos gostos que temos, porque há sempre algo a fazer quando nos inquieta gostar do que gostamos ou vice-versa (no gosto não há moral; e a moral não deve subjugar-se ao gosto, acho eu), mas, enfim, que se goste do que nos é familiar, repito, isso eu compreendo. Aquilo com que não concordo é que se infiram do gosto deveres e valores. Também compreendo que toda o empenhamento cívico ou político tem de ter um âmbito e que uma das escolhas mais razoáveis é empenhar-nos na comunidade em que mais imediatamente nos inserimos, incluindo, claro está, a nação. Mas essa escolha não implica nenhuma das atitudes nacionalistas que critico neste texto.
_____________________________

[1] Têm tido grande fortuna os excertos de “Uma campanha alegre”, de Eça de Queirós, e do “Balanço patriótico” das “Anotações” a Pátria, de Guerra Junqueiro, que aqui aparecem os dois numa única página da Internet.
[2] Pode ler-se aqui o texto integral.
[3] Assustam-me, por exemplo, os seguintes incitamentos:
Fazei predominar os sentimentos fortes sobre os agradáveis.
Tende a arrogância dos sãos e dos completos.
Fazei a apologia da Força e da Inteligência.
Fazei a apoteose dos Vencedores, seja qual for o sentido, basta que sejam Vencedores. Ajudai a morrer os vencidos.
[4] Fui buscar o termo infantilidade e uma parte da formulação deste parágrafo à discussão proposta aqui por Aires Almeida.
[5] Em rigor, podem distinguir-se estes dois conceitos e até afinar-se ainda mais a distinção entre vários tipos de sentimentos positivos pelo seu país, mas não o farei aqui.

07/11/11

Livros em segunda mão #1: Os dois lados de tudo

I – Comprei em Maputo, a um rapaz que estava a vender livros na rua, a obra Expansão da Língua Portuguesa no Oriente nos Séculos XVI, XVII e XVIII (Lisboa: Portucalense Editora, 1969 (1ª ed. 1935)), de David de Melo Lopes. É um livro com informação interessante sobre muitas palavras, de que talvez fale aqui noutra ocasião; e é também um livro que se inscreve no quadro ideológico do louvor da “expansão portuguesa”. O autor, aliás, deixa claro isso bem claro logo de início: 
Descoberto o caminho marítimo da Índia, abriu-se à expansão portuguesa um campo ilimitado de atividade em todo o Oriente: sem falar da costa oriental de África (…), desde os portos da Abissínia e da Arábia até os da China e do Japão (…), as caravelas e naus de Portugal, ou vitoriosas na guerra ou abarrotadas de especiarias, dominaram, certamente, os mares de todo o século XVI. Os escritores estrangeiros que trataram dessa história fazem justiça ao esforço maravilhoso dos Portugueses e não lhes regateiam a sua admiração. «A audácia impetuosa da heroica pequena nação, diz um grande escritor inglês nosso contemporâneo, é pura epopeia, comparado com o qual o nosso primeiro esforço na Índia é prosa chã [Hunter, A History of British India, 1, página 3]». «O Oriente, cheio de mistérios e de riquezas, o Oriente donde vinham as sedas, as pérolas, os perfumes, as especiarias, a Índia e a China, principalmente, exerceram sobre as imaginações vivas e curiosas dos nossos antepassados uma verdadeira fascinação. Encontrar um caminho mais curto ou mais seguro para chegar a essas regiões privilegiadas, fazer concorrência aos Venezianos… era então o alvo dum grande número de espíritos ousados e aventureiros. Daí as tentativas insistentes que os marinheiros portugueses prosseguiram durante quase um século, para eterna honra sua, com uma heroica perseverança. (…) Disse-se com verdade que nenhuma nação fez tão grandes coisas como Portugal, em comparação com a sua superfície e população [Leroy-Beaulieu, De la colonisation chez les peuples modernes, I, páginas 2 e 41]».
Não há nisto nada de muito original: há muito quem tenha tido este tipo de discurso e, por muito que tivéssemos, muitos de nós, chegado a acreditar que ele não sobreviveria a um regime que já passou, ou pelo menos a uma época de nacional-ensimesmamento que, em princípio, também já acabou, há também muito quem continue a tê-lo. Mas eis que, como para deixar claro que há outros mistérios tão misteriosos como os do Oriente, David Lopes continua assim:
Todavia, em França ainda há quem escreva a história assim: «Depois da tomada de Malaca pelo grande Albuquerque, os Portugueses… espalharam-se pelos países da Indochina. Não se pode dizer que os seus atores foram nobres, nem que a sua influência foi feliz: eles comportaram-se em quase toda a parte como verdadeiros piratas… [Lavisse e Rambaud, Histoire Générale, V, pág, 924]».
Porque será que David Lopes, a encerrar a secção dos elogios dos historiadores estrangeiros à épica coragem dos portugueses, referiu uma opinião tão contrária à sua, quando não tinha, aparentemente, nenhuma boa razão para o fazer? Nem sequer, pelos vistos, a ideia de a combater, pois que limita a sua crítica a Lavisse e Rambaud a uma vaga nota de rodapé: “O autor vê o argueiro luso e não vê o cavaleiro cristianíssimo”.
É claro, podia argumentar-se com a mesma ligeireza em sentido contrário: Todos os que insistem no louvor enviesado da épica expansão lusitana veem os detalhes que querem ver, mas não veem o óbvio quadro geral.

II – Como as coisas são: eu que, aspirante a místico, passei anos da minha vida a querer descobrir uma unidade essencial por baixo da corriqueira ilusão do dualismo, digo agora que, tirando as fitas de Möbius, as coisas do mundo têm sempre dois lados e que ilusão, ilusão a sério, é querer ver só um deles. Quando o imperador do Japão expulsou os portugueses em 1587, fê-lo por os considerar propagadores de uma imoralidade fundamental: na boca deles, Deus deixava de ser Tudo para passar a ser apenas o lado bom das coisas, Deus era reduzido a metade[1]. Pois, bem, do mesmo crime contra a sua nação-divindade se pode acusar quem, na tentativa de louvar a expansão lusa, vê só bem nos feitos dos portugueses, fechando os olhos ao mal. Não acho disparate ver-se na expansão portuguesa – ou noutra expansão qualquer – uma epopeia. O que acho disparatado é querer retirar-se a essa epopeia piratarias, crimes hediondos e, no geral, todos os atos menos louváveis. Então as epopeias não são – por natureza, diria eu – relatos de todo o rol de heroicas imoralidades? Não é isso mesmo a Odisseia e a Eneida, em que a valorização positiva dos heróis a priori é que define o valor das suas ações e não uma qualquer perspetiva moral? Quem quiser louvar a pura epopeia e a heroica perseverança dos navegadores portugueses não deite fora, por favor, bocados importantes desses feitos épicos só porque eles são moralmente criticáveis (às vezes até muito).

III – Um problema das identidades é serem alógicas e amorais, como tudo o que é apenas gosto, sentimento fundo. Para se ultrapassar isto, é preciso disciplina. Podemos habituar-nos a ver com olhos outros que não os nossos, um grande exercício de realismo; e podemos forçar-nos para ver daquilo que gostamos também os aspetos negativos. Insisto que as coisas do mundo têm sempre dois lados – e que não há bela sem senão, como se costuma dizer. Estou a falar não só de nacionalismos, regionalismos e bairrismos, mas também de todas as outras paixões, definam elas ou não uma identidade.
Encontrei há dias um blogue duplo[2] interessante: de um lado, as coisas bonitas do Porto; do outro, as feias. Agora, é por apresentar o lado feio do Porto que o seu autor é menos portista? Claro que não. Até, porque, se as coisas bonitas do Porto servem para justificar o amor (não para o causar, note-se, que ele é, em boa regra, anterior a elas e delas independente; apenas para o justificar), as coisas feias podem servir para dar a esse amor uma ética, um sentido de futuro: “Isto está mal, não é assim que o Porto deve ser”. E eu não consigo ver, nem nunca ninguém me apresentou, nenhuma razão para que o amor se limite à aceitação de que o que se ama é como é, como está agora na moda propor, sem passar pelo desejo de melhorar o que se reconhece como negativo naquilo que se ama.

Que já estou longe de onde comecei? De certa maneira, sim… Conversa de blogue é como cesta de cerejas…
Moral
Frederik van Valckenborch, Paisagem com naufrágio,1603, óleo sobre tela, 100 × 199,5 cm, Museu Boijmans Van Beuningen, Roterdão (Wikimedia Commons)
_______________
 [1] Excerto de carta do imperador Toyotomi Hideyoshi ao vice‑rei português das Índias de 1591: «A nossa terra é a terra de Deus, e Deus é espírito. Tudo na natureza existe pelo espírito. Sem Deus, não há espiritualidade. Sem Deus, não há caminho. Deus reina em tempos de prosperidade como em tempos de declínio. Deus é positivo e negativo e incompreensível. Por isso, Deus é a origem de toda a existência.» Traduzi eu de Sources of Japanese Tradition, vol. I. New York: Columbia University Press, 1958. O texto inglês diz “Ours is the land of the Gods”, mas eu, como as frases seguintes do texto inglês têm God no singular, traduzo também no singular esta ocorrência da palavra no plural.
[2] Em inglês, surge-me logo a palavra doublog, mas em português é mais difícil – nem dublogue nem duplogue resultam bem…

18/10/10

O ataque à Mîrî: uma história de outro tempo, o tempo da História e os nacionalismos

Nas últimas férias, li um livro interessante: Corsário e Piratas Portugueses, Aventureiros nos Mares da Ásia, de Alexandra Pelúcia (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2010). Transcrevo a seguir uma história que aí se conta entre as páginas 30 e 32*:
Foi no dia 29 de Setembro [de 1502] que as acções de patrulha marítima [dos portugueses no Norte da costa do Malabar] produziram resultados de monta ao detectar-se a circulação de uma importante e rica presa, a nau Mîrî. Nela se faziam transportar umas poucas centenas de muçulmanos, entre homens, mulheres e crianças, que vinham de cumprir […] o haji, ou seja, a peregrinação à cidade santa de Meca […]. Entre os passageiros da Mîrî achavam-se […] abastados membros da comunidade de mercadores islamitas de Calecut, incluindo um que ali serviria de feitor ao próprio sultão mameluco do Cairo. Houve, pois, interesses de monta a sopesarem na decisão de declarar a rendição logo que os canhões portugueses efectuaram alguns disparos, tanto mais perceptíveis quanto Tomé Lopes [testemunha ocular que registou por escrito o acontecimento] afiança que a vela tacada estava municiada com artilharia.

A esperança que animava os muçulmanos acossados era a abertura de um processo de diálogo. Se tudo corresse bem garantiriam a sua integridade física em troca do pagamento de um elevado resgate. A abertura verificada por parte do almirante [português] foi, no entanto, nula: declinou todas as ofertas e que lhe foram apresentadas e exigiu, sem quaisquer contemplações, a entrega dos valores transportados. Consumado o acto e porque do seu lado tinha tanto o argumento da superioridade da força como o móbil de ripostar à violência de que os compatriotas tinham sido alvo em Calecut, quase dois anos antes [ataque de 16 de Dezembro de 1500 em que morreu Pêro Vaz de Caminha, quando na região se encontrava a armada de Pedro Álvares Cabral], o capitão-mor determinou que algumas chalupas arrastassem a Mîrî para longe da esquadra portuguesa, retirassem as armas existentes a bordo e lhe deitassem fogo, sem permitir a retirada da esmagadora maioria das pessoas que lá estavam dentro.

Os acontecimentos subsequentes fugiram, em boa parte, ao controlo, e, inclusive, à compreensão dos portugueses envolvidos. Em desespero de causa, os muçulmanos esforçaram-se por apagar os focos de incêndio e investiram contra as chalupas com todas as armas de arremesso que encontraram à mão, obrigando-as mesmo a afastarem-se. A bordo, havia quem continuasse a tentar persuadir os cristãos a serem misericordiosos, sobretudo as mulheres, que gesticulavam fazendo oferta das suas jóias e carregando os filhos para que deles houvesse dó, mas também homens que insistiam nas propostas de resgate. [O comandante português] assistiu a tudo de semblantes imperturbável, ao contrário do que aconteceu a Tomé Lopes, a quem ocorreu a ideia que por aquele meio se poderia ter ganho o suficiente para “remir todos os cristãos que estavam prisioneiros no reino de Fez, e que depois ainda restariam grandes riquezas ao rei nosso senhor”.

Chegara-se, entretanto, ao dia 3 de Outubro, que o mencionado [Tomé Lopes] apontou como “uma data da qual me recordarei todos os dias da minha vida”. Tendo a nau em que ele se encontrava que partir em socorro das chalupas atacadas a partir da Mîrî, os muçulmanos redobraram o ímpeto ofensivo com o alento próprio de quem não tem nada a perder, excepção feita à honra. O objectivo que tinham em mente era conseguir a aproximação ao vaso luso, mais baixo, a fim de cometer uma abordagem, a qual acabou por ser concretizada.

O tinir das armas arrastou-se durante horas a fio, até ao cair da noite. Os adversário causaram fortíssima impressão pela tenacidade e pelo ardor que demonstraram na luta, ignorando até ao limiar do suportável as feridas que lhes iam enchendo os corpos ou indo de encontro à morte com absoluto desdém, único caso em que os gritos emudeciam nas respectivas gargantas. Em face de tamanha ferocidade, os cerca de quinze portugueses que defendiam o castelo da proa, na zona dianteira da nau, viram-se forçados a bater em retirada, todos eles feridos e derramando sangue. A situação estava longe de ser mais brilhante do lado oposto, no castelo de popa, onde havia homens a terem de se lançar à água e a serem recolhidos pelas chalupas, enquanto outros eram golpeados ou mesmo abatidos.

As coisas estavam neste estado periclitante quando interveio a nau Jóia, através de movimentações navais e de tiros de artilharia, que surtiram o efeito de obrigar os muçulmanos sobreviventes a retroceder para dentro da Mîrî. [O comandante português], cuja irritação devia estar ao rubro, resolveu então afectar cerca de um terço da armada à perseguição daquela nau. Ao fim de quatro dias inteiros consumou-se, finalmente, a respectiva destruição. Com bastante ironia à mistura, as labaredas que a devoraram foram ateadas por um desertor muçulmano, que antes nadara até à nau Leonarda de modo a chegar à fala e a acordo com [o capitão-mor da armada portuguesa], o que lhe permitiu salvar a vida. Deveras perturbado, Tomé Lopes registou: “e foi assim, após tantos combates, que com muita crueldade e sem nenhum piedade o Almirante fez queimar esta nau com toda a gente que aí se encontrava”.

Como a Mîrî não era um vaso de guerra e, de qualquer modo, não havia guerra declarada entre Portugal e a nação a que a Mîri pertencia, o ataque é um acto de pirataria e não de corso, por muito que tenha sido perpetrado por uma armada portuguesa e não por um capitão privado. O comandante da armada portuguesa, cujo nome fui omitindo até agora, num artifício retórico primitivo de criação de suspense, era Vasco da Gama, agora na sua segunda viagem à Índia na nova qualidade de Almirante e Dom, que recebera como recompensa da primeira e que viria a ser vice-rei do estado da índia em 1524. Um herói nacional, portanto, um pilar dos mitos nacionalistas portugueses. Mas duvido que haja muitos portugueses actuais, por mais nacionalistas que sejam, que não fiquem surpreendidos com a acção de Gama, e menos ainda que encontrem maneira de a aprovar.

----------

Num conto de ficção científica de cordel que escrevi há alguns anos, a narradora e personagem principal, uma dinamarquesa chamada Rikke, recebe, no dia do seu 29º aniversário, em 1985, uma carta que o seu ex-namorado Ib, agora exilado no passado, lhe escreveu em 1806. O penúltimo parágrafo da carta diz o seguinte:
Finalmente, quero dizer-te que o tempo é uma dimensão tão duramente material como o espaço. Viver noutro tempo é como viver noutro lugar. Não há nada tão estúpido no nacionalismo como procurar no passado uma identidade, porque os nossos ancestrais eram tão diferentes de nós como as gentes de longe. Uma das coisas que me faz querer sair daqui e ir à aventura para as Américas é sentir-me tão pouco à vontade neste país. Nota que nem sequer é por causa das condições de vida concretas, que também são às vezes chocantes para um dinamarquês do futuro – doença, uma falta de higiene enorme, repressão, censura. Isso é o menos. É mesmo a maneira de ser da gente que é estranha. Pensam e agem de uma maneira que eu não compreendo, riem-se de coisas que não percebo – sem exagero absolutamente nenhum, não me sinto em nada mais próximo desta gente do que me sentia da gente local, quando vivi na Índia, ou dos peruanos ou bolivianos, quando andei a dar aquela grande volta pelos Andes.
É uma história de ficção científica de cordel, mas o que neste parágrafo se afirma não é ficção nenhuma. Ficção é o contrário, pretender-se que existe alguma coisa suficientemente estável através da história dos povos de um determinado lugar para justificar uma identidade. É essa a ficção básica em que assenta o mais das vezes o conceito de pátria, ou nação: a ideia de uma história que é nossa, como se a cultura portuguesa, por exemplo (seja lá o que for que isso queira dizer…) e os protagonistas dessa “nossa” História estivessem, afinal, fora da História, e um português do século XV fosse, com a sua cultura portuguesa do séc. XV, um ser mais próximo de um português do séc. XX, do que este é de um indiano ou de um canadiano actuais. Mesmo a língua, que serve muitas vezes de espinha dorsal a essa ficção, era tão diferente da que a agora se fala que muitos portugueses de hoje não a reconheceriam, se a ouvissem falada, como sendo português…

Pelo que observo à minha volta, custa muito à maior parte das pessoas aceitar o que eu acabo de dizer. Das mais variadíssimas formas, a questão da identidade histórica parece inquestionável. Às vezes com um sinal claramente positivo (o orgulho nacional dos “nossos” feitos grandiosos), às vezes com um sinal claramente negativo (o denunciar dos “nossos” crimes históricos), assume-se quase sempre, explícita ou implicitamente, a existência de um nós trans-histórico. Que insisto eu, é ficcional…

----------

Há outro conto meu que acaba assim:
Enquanto não vinha o autocarro, que só devia chegar lá para a meia noite, Niklas foi beber umas cervejas num bar que havia mesmo ao lado da paragem.
O bar estava quase vazio. Havia um tipo sentado ao balcão, que mirou Niklas de alto a baixo quando ele entrou, e um casal numa mesa ao fundo, a namorar. Niklas sentou se a uma mesa em frente ao balcão e pediu uma cerveja.
O homem que estava sentado ao balcão levantou-se e veio sentar-se à mesa dele.
“Posso?”, perguntou ele, já depois de se ter sentado.
“Esteja à sua vontade”, respondeu Niklas, um bocado contrariado, porque não estava com muita disposição para conversas.
“Você não é daqui, pois não?”
“Não, sou de muito longe. Estou aqui só de passagem. Aliás, estou só à espera do autocarro?”
“Donde é que você é?”
“Da Suécia. Sabe onde é que isso fica?”
“Na Europa. Você é europeu...”
“Exactamente....”
“E o que é que veio fazer aqui?”
“Ora, passear, dar uma volta...”
“Eu estive na Europa, sabe... Estive em Espanha e em França. Trataram-me como se eu fosse merda, só por eu ser assim como sou... Eu sou índio, não vê?”
“Há muita estupidez dessa na Europa. É triste.”
“É triste? Então você é europeu e está-me a dizer que é triste?”
Havia agora uma nítida agressividade na fala e na postura do homem, que se tinha chegado à frente, antebraços e peito apoiados na mesa.
“É o que eu acho...”, respondeu Niklas, que tentava acalmar-se.
“Os europeus vieram aqui e tiraram-nos tudo. Tudo! E agora dizem que querem ajudar-nos... Vêm com programas de auxílio, que vontade de rir...”
“Mas não foram os europeus todos que colonizaram a América...”, contestou Niklas, não sem algum orgulho nacionalista.
“Não foram todos? Foram todos, meu amigo, todos – espanhóis, portugueses, franceses, holandeses, alemães, diga lá quem é que não foi?”
“A Suécia nunca teve colónias na América.”
“Ora, vá contar isso a outro! Levaram-nos tudo e agora tratam-nos como merda nos países deles. Vocês, europeus, enquanto houver um índio vivo, não descansam enquanto não lhe tirarem tudo. Tudo!”
Niklas não se conteve mais. Chegou-se ele também à frente e começou a falar mais baixinho, mais pausadamente, num tom ameaçador.
“Oiça uma coisa, meu amigo. Eu estava aqui muito sossegadinho a beber a minha cerveja, não me meti consigo nem com ninguém. Eu não sou os europeus, ‘tá a ouvir? Eu sou uma pessoa que é diferente de todas as outras pessoas e eu, eu, nunca lhe fiz mal nenhum a si nem a ninguém nesta terra, e não lhe admito, ‘tá a perceber?, não lhe admito que me venha agora acusar do que fizeram outras pessoas que eu não conheço e não sei quem são! Por isso, conversa acabada! A mim, você só me pode acusar do que eu tiver feito, eu, mais nada!”
Parou um momento, e continuou, já mais calmo:
“Diga lá, se o seu avô tiver cometido algum crime, você acha que pode pagar por isso?”
O outro levantou-se.
“Pois está claro que posso! Porque é que não hei-de poder?”
“Ora, você está mas é com os copos, deixe-me lá sossegado! Além disso, se lhe interessa saber, também nenhum avô meu veio para a América do Sul...”
“Os europeus são todos ladrões...”, murmurou o outro enquanto se sentava outra vez ao balcão, ainda virado para o Niklas, “roubaram-nos o ouro, a prata, tudo...”
Niklas pagou e saiu. E teve de ficar muito tempo cá fora à espera: o autocarro, nessa noite, chegou atrasado quase duas horas.
A questão da responsabilidade histórica é complexa e não a vou discutir agora. Em princípio, porém, creio que cada um é culpado dos seus actos apenas, mesmo que admitamos que existem responsabilidades colectivas; porque essas responsabilidades colectivas, a existirem, só podem ser assumidas pelo colectivo, o que é muito diferente de uma assunção individual multiplicada pelos indivíduos que formam esse colectivo. A conversa do parágrafo anterior baseia-se em acontecimentos reais e, das várias vezes que fui acusado de “colonizador” nunca consegui descobrir em mim nem o mais pequeno sentimento de culpa – pela simples razão de que eu não tenho, de facto, culpa nenhuma de nenhuma colonização.

Além disso, se todas as colonizações que conheço são altamente condenáveis, é porque são sistemas ditatoriais e normalmente racistas de imposição do domínio de uma minoria. Toda a tentativa de fazer assentar a recusa do colonialismo e a defesa do direito à autodeterminação em conceitos de tipo nacionalista (a partir de critérios de identidade histórica, étnicos ou de anterioridade na ocupação de um território) em vez de a fazer depender de conceitos morais está, a meu ver, sujeito às contradições de todo o nacionalismo. Ora de facto, o direito à autodeterminação não precisa de nenhuma justificação daquele tipo – é apenas uma extensão natural do direito básico de cada pessoa a decidir sobre a sua vida, já que é apenas o direito de uma comunidade a decidir sobre a sua vida.

----------

Quanto mais penso no assunto, mais chego à conclusão de que a única solução para as contradições dos conceitos de identidade nacional, étnica e afins é uma versão radical (radical significa que vai à raiz da questão!) do conceito republicano de cidadania: o nós da cidadania é “as pessoas que vivem no mesmo espaço que eu”.

Pode haver, naturalmente, haver diferentes círculos de identidade, concêntricos ou não, e é claro, que pode haver outros tipos de identidade. As ideológicas, por exemplo: posso, a esse nível, identificar-me com todos os materialistas, cépticos e ateus em todos os períodos da História e todos os lugares da Terra. Mas dessa conversa não fazem parte essencial topónimos e gentílicos…

_______________

* Sobre as fontes, diz a obra referida: «Os eventos […] foram registados a posteriori pela pena de cronistas de referência [V. Ásia, I, vi, 4; História, I, I, xlv, e Damião de Góis, Crónica d’El-Rei D. Manuel, vol. I, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1949, I, lxviii], mas a narrativa que se destaca pelos pormenores discriminados e pela eloquência das palavras foi assinada por uma testemunha ocular, Tomé Lopes, escrivão da nau capitaneada pelo florentino Giovanni Buonagrazia [Perdeu-se o rasto ao texto original redigido em língua portuguesa. O conhecimento do respectivo teor ficou assegurado para a posterioridade através de uma tradução italiana, dada pela primeira vez à estampa, em Veneza, no ano de 1550, a qual integrava a famosa colectânea das Navigagazioni e Viaggi, organizada por Giambattista Ramusio. Reporto-me, todavia, à edição francesa contemporânea, subordinada ao título “Le récit de Tomé Lopes” e publicada no livro Voyages de Vasco da Gama: Relation des Expéditions de 1497-1499 et 1502-1503, eds. Paul Teyssier e Paul Valentin, com prefácios de Jean Aubin, Paris, Éditions Chandeigne, 1995, em particular aos capítulos vii a ix, pp. 222-231.].»

20/02/10

3 notazinhas principalmente sobre a liberdade individual

1. Tínhamos, quando morávamos na Dinamarca, uma vizinha que, por causa de uma crença que ela lá tinha, não vacinava as filhas. «E então?» Muita gente achará que não há problema nenhum em permitir que quem não queira vacinar os filhos não o faça. No caso concreto que refiro, não havia, em princípio, grande problema, porque todas as outras crianças com quem as filhas da tal senhora contactavam estavam imunizadas. A questão é que, havendo apenas uma percentagem pequena de crianças não imunizadas contra uma determinada doença, essas crianças não a apanham porque ela não existe no meio. Estão a receber uma “vacina indirecta”, digamos assim, a apanhar uma boleia. Mas, e se houvesse muita gente que, como ela, em nome das suas convicções, e com base no seu diz que inalienável direito a decidir sobre a sua própria vida (que inclui, neste caso, outras vidas), não vacinasse os filhos? Bom, se as crianças não vacinadas ultrapassarem uma determinada percentagem, começa a haver um risco grande de que todas apanhem a doença. Trata-se aqui da velha discussão (complicada, mas das mais interessantes que há, na minha opinião) do equilíbrio, ou das fronteiras, se quiserem, entre a liberdade individual e a liberdade do grupo. Quando a liberdade individual de uns pode resultar numa privação da liberdade de outros, o colectivo tem ou não direito a impor as vacinas aos que não querem ser vacinados? E é preciso ser maioria para o fazer? Aceita-se que, por hipótese, 60% de pessoas que não querem vacinar os filhos imponham o risco de doença aos filhos dos 40% restantes?

2. “Aceitem, por favor, a minha demissão. Não quero pertencer a um clube que me aceite como sócio.” A frase de Groucho Marx é famosa, se calhar por ser tão ambígua, mas a discussão que mais interessa, e que está relacionada com a questão anterior, não é se devemos aceitar ser sócios dos clubes que nos querem como sócios, mas antes se devemos ou não ser sócios dos clubes que nos querem obrigar a ser sócios; ou, dito doutra maneira, se se pode obrigar alguém a fazer parte de um clube. Creio que, de acordo com o espírito dos tempos, é relativamente fácil, para a maior parte das pessoas, aceitar, como eu, em abstracto, o aceito, que não se deve obrigar ninguém a fazer parte de nenhum clube, mesmo que o clube seja uma associação de classe. Há, inclusive, decisões de tribunais, nacionais e internacionais contra a prática, relativamente normal em certos países de, seguindo acordos formais ou informais entre patronato e sindicatos, fazer depender a contratação dos trabalhadores da adesão ao sindicato único ou ao sindicato que tenha o monopólio da negociação com o empregador. Mas continua a haver gente que não concorda com o princípio; e a questão, que parece simples à primeira vista, é de facto mais complicada do que parece, sobretudo porque, por exemplo no caso dos sindicatos ou de outras organizações de defesa de interesses de colectivos, os benefícios que essas associações conseguem são sempre para as todas pessoas que fazem parte desses colectivos, queiram ou não fazer parte da associação, sejam efectivamente membros dela ou não…

3. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação? Bom, há uma excepção fundamental que a esmagadora maioria – se não a totalidade – das pessoas aceita sem protestar: ser cidadão de uma nação. E quando vejo as posições radicais de muitos ultraliberais, surpreendo-me que nunca cheguem ao ponto de propor que deva ser cada um a decidir se quer ou não ser cidadão do país. É curioso, parece que nunca chega aí a defesa da liberdade individual de escolha. Até à recusa da obrigatoriedade das vacinas, não sei, mas é provável que sim; até à recusa da obrigatoriedade de pertencer a sindicatos, de certeza absoluta; mas até à recusa da obrigatoriedade de cidadania, acho que não. Ora quem considera a liberdade individual um valor de base, o valor de base, não deveria propor que cada pessoa possa escolher o Estado que mais jeito lhe dê?…

19/02/10

Língua, identidade e empréstimos

[Nota prévia: Este texto não foi escrito para fazer publicidade ao meu glossário de moçambicanismos, mas tenho de aconselhar, a quem não conhecer os muitos moçambicanismos que nele aparecem, que o consulte, pois então…]

Normalmente, vamos buscar uma palavra a outra língua, quando ela descreve algo que não sabemos descrever com a nossa língua (ou que não sabemos descrever bem com a nossa língua) ou quando há uma pressão linguística muito grande à nossa volta: de facto, uma minoria linguística acaba sempre por incorporar palavras da língua da maioria circundante. No primeiro caso, cabem subcasos: a palavra que tomamos emprestada pode designar um objecto ou um ser cuja designação não existe na nossa língua, como uma matchessa ou um alacavuma; ou pode ser que designe um tipo especial de coisa que nós podemos designar na nossa língua, mas que, numa realidade cultural diferente, sentimos que não designamos adequadamente. Por exemplo, quando vivia na Bolívia, conhecia alguns jovens americanos do Peace Corps e constatei que, falando entre eles no seu inglês materno, diziam sempre mercado em vez de market, porque, obviamente os mercados bolivianos eram tão diferentes dos americanos que lhes soava falso referir os mercados bolivianos com o termo market.

O que fica dito atrás justifica bem o uso, no português de Moçambique, de palavras como ocanho, cacana, quizumba ou macaiaia, e mesmo banja, madala ou muquero, se se pensar que uma banja é outra coisa que não exactamente uma assembleia, ou se se sentir que há no termo madala uma carga cultural que ultrapassa a da referência à idade ou que o vaivém para a Suázi não é exactamente contrabando. Mas há outros factores além da necessidade de designar ou de designar com mais rigor que podem ter influência na incorporação de termos doutras línguas no português falado em Moçambique*. Um desses factores é a criação de identidade.

Diria que uma parte da adopção de léxico banto pelos falantes nativos do português em Moçambique (ou que o usavam como sua principal língua de comunicação ou como língua literária) é ideológica, no sentido em que visa, conscientemente ou não, contribuir para estabelecer uma identidade distinta através da criação de uma maneira de falar sua, ligada à terra com que se querem identificar por palavras que eles consideram como sendo realmente dessa terra. Quero esclarecer que uso aqui ideológico sem qualquer valorização positiva ou negativa e num sentido lato, cobrindo um leque amplo de espaço ideológico no sentido mais comum do termo – não só o relacionado com as ideias africanistas, autonomistas, nacionalistas, mas provavelmente também, por exemplo, com a criação de identidade colonial moçambicana.

Não conheço suficientemente bem o assunto para poder ter uma opinião muito firme, mas parece-me óbvio que, nas últimas décadas, se alterou muito a relação do português com as línguas bantas. Se houve um tempo em que uma grande percentagem dos utilizadores do português em Moçambique eram pessoas que o tinham como língua materna, que o dominavam muito bem ou que, não o dominando tão bem, o utilizavam sobretudo para contactar com falantes nativos da língua, hoje há uma muito maior percentagem dos seus utilizadores que o tem como língua segunda, e que o aprendeu e o fala sobretudo com pessoas que o têm também como língua segunda. O que resulta desta situação é a normal influência das línguas bantas no português, uma influência de substrato canónica, digamos assim. Se no falar destas pessoas continua a haver, naturalmente (em qualquer sentido da palavra naturalmente…), empréstimos às línguas bantas, o valor simbólico desses empréstimos como afirmação de identidade parece ter dominuído ou até desaparecido. Curiosamente, para as novas gerações de moçambicanos, a criação da sua identidade linguística parece já não passar tanto pelo cultivar da inclusão de termos bantos no seu discurso.

É interessante comparar dois textos, ambos relativamente recentes, de autores não identificados, que circulam pela net (do segundo que aqui transcrevo, conheço até várias versões) e que talvez já tenham recebido na vossa caixa de correio electrónico: um sobre o acordo ortográfico, escrito quase de certeza por alguém que conheceu o português de Moçambique noutra era e que se esforçou muito por bantizar o seu texto como forma de afirmar a sua moçambicanidade; e outro em que a moçambicanidade se afirma cotejando o português de Moçambique com o que o/a autor/a assume como sendo português (europeu) standard.

Texto 1
Eh Oena, Lhe Can,

Nós aqui em Moçambique sabemos que os mulungos de Lisboa fizeram um acordo ortográfico com aquele tocolocma do Brasil que tem nome de peixe. A minha resposta é: naila. Os mulungos não pensem que chegam aqui e buissa saguate sem milando, porque pensam que o moçambicano é bongolo. O moçambicano não é bongolo não; o moçambicano estiva xilande. Essa bulabula de acordo ortográfico é como babalaza de chope: quando a gente acorda manguana, se vai ticumzar a mamana já não tem estaleca e nem sequer sabe onde é o xitombo, e a gente arranja timaca com a nossa família.

E como pode o mufana moçambicano falar com um madala? Em português, naturalmente. A língua portuguesa é de todos, incluindo o mulato, o balabasso e os baneanes. Por exemplo: em Portugal dizem “autocarro” e está no dicionário; no Brasil falam “bus” e está no dicionário; aqui em Moçambique falamos “machimbombo” e não está no dicionário. Porquê? O moçambicano é machimba? Machimba é aquele congoaca do Sócrates que pensa que é chibante e que fuma nos tape, junto com o chiconhoca ministro da economia de Lisboa. O Sócrates não pensa, só faz tchócótchá com o th’xouco dele e aquilo que sai é só matope.

Este acordo ortográfico é canganhiça, chicuembo chanhaca! Aqui na minha terra a gente fez uma banja e decidiu que não podemos aceitar.

Bayete Moçambique!

Hambanine.
Texto 2
São 6 da manhã. Moçambicano não dorme, ferra. O despertador toca. Ele não se levanta cedo, madruga. E não vai tomar duche, vai duchar. E não se arranja, grifa-se bem. Depois, não toma pequeno-almoço, mata-bicha. E não bebe café solúvel e pão com doce, toma café batido e bread com jam.

Não sai de casa para ir trabalhar, vai no serviço. E quando chega ao local de trabalho não pede desculpa por ter atrasado, diz sorry lá, que tive problema de transporte. E não trabalha até ao meio dia, djoba até àquela hora das 12. E aí não pede ementa, pede menu. E não come, tacha. Não come batata frita, come chips. Não come salsichas, come vorse. Não come costeleta, come t-bone. E não bebe uma laurentina preta, toma uma escura.E não fala com o amigo sobre a namorada, bate papo "brada, minha dama". E não gosta muito, grama maningue. E na saída do restaurante não vê as mulheres que passam, aprecia as damas. E não seduz, paquera. E não faz convite, pede contacto. E não a segue, vai à sua trás. E não encontra um conhecido mais velho, apanha um jon cota. Na rua não compra cajú, compra castanha. E não tira fotografias, fota.

No escritório, a empregada não despeja o lixo, no ofice trabalhadora vai deitar. E não traz o jornal, leva. E não põe insecticida, baygona. E não tem reuniões, tem meetings. E no computador ele não escreve, taipa. E depois não faz impressão, printa. E não trabalha as fotografias em Photoshop, fotoshopa. E para fazer um intervalo não vê o patrão, tcheka o boisse. E não sai para dar uma volta, dá um djiko. E não escreve sms para a amiga colorida, manda mensagem para a pita. E não mente dizendo que está ocupado, mafia que tá bizi.

Moçambicano não trai, cornea. Não caminha, estila. Não se faz de difícil, jinga. Não acaba uma tarefa, ultima. E no fim do trabalho não vai, baza. E com os amigos não tem negócios, tem bizne com bro. E ao fim do dia não vai ao ginásio, djima. E não está musculoso, tá big. E não tem bicicleta, tem bikla. E não faz saudação batendo na mão do amigo, deketa. E não gosta de aproveitar a vida, enjoya laifa.

De tarde não bebe chá e come pão com manteiga e queijos, toma chá. E não vai buscar a namorada que está num cabeleireiro distante, a arranjar as unhas e a fazer tranças no cabelo, vai apanhar dama que faz unha e entrança láaaaaaa no salão. E não bebem um refrigerante, tomam refresco. E a namorada não usa mini-saia e saltos altos e anda descapotável, põe sainha e uns saltos e tá descartável. E não lhe diz que é bonita, diz "tens boas". Isto é o verdadeiro moçambicano!
Dois breves comentários:

No comentário ao primeiro texto, como ele aqui está por causa da forma e não do conteúdo, passo por cima do que ele diz com o comentário apenas de que para recusar o acordo ortográfico não é preciso chamar nomes a ninguém. Quanto a como diz o que diz, é de notar que, se a intenção do texto é, muito provavelmente, ser difícil de compreender para não-moçambicanos, o facto é que são nele utilizadas várias expressões que são também incompreensíveis para a maioria dos moçambicanos (já fiz a experiência…). Mas tem também algumas que são efectivamente de uso corrente e atestado no discurso em português desde pelo menos o início do séc. XX, como canganhiça, milando e mufana, por exemplo.

O segundo texto, se bem que dê uma imagem mais realista do português de Moçambique actual, apresenta como moçambicanismos muitas palavras que o não são. É sempre assim, aliás: a consciência da nossa identidade é sempre distorcida e é normal pensarmos que são exclusivamente nossas determinadas características que partilhamos com outros. De facto, neste último texto, há angolanismos, como cota e bazar (incorporados também pelo português europeu e muito provavelmente chegados a Moçambique através dele), há brasileirismos, como paquerar, há calão do português europeu, como ferrar ou tachar, e há expressões cuja origem desconheço, mas que sei serem comuns a várias variantes do português, como mafiar e bicla. E há até português muito canónico, como madrugar e menu… («Menu, português canónico, xô Santos? Então mas menu não é francês?»)
_______________

* E noutros lugares, evidentemente, mas aqui é de Moçambique que se trata. Também os empréstimos às línguas moçambicanas não são a única maneira de criar identidade linguística. Sempre houve e continua a haver outros processos de moçambicanização do português, como a criação de moçambicanismos de raiz portuguesa, para não referir inovações de pronúncia e de sintaxe, mas deixo agora de lado essas questões.