10/09/26

De mapas, escalas e territórios


«O mapa não é o território» é um conhecido aforismo de Alfred Korzybski, que se usa às vezes para resumir os princípios da sua Semântica Geral — que não pode, claro, ser resumida numa frase. Já agora, a teoria são as palavras que a formam ou estas apenas a representam?

As palavras representam, tal como os mapas, mas as palavras não representam como os mapas. As palavras representam conceitos, os mapas não. Quer dizer, talvez possamos considerar que um mapa possa remeter para vários conceitos, até porque inclui palavras, mas o que eu quero dizer é que o mapa de Portugal não remete para o conceito «Portugal» como a palavra Portugal remete. 

Não me aventuro mais longe na discussão das diferenças entre várias formas de representação. Acrescento só que a fidelidade da representação é graduável: há mapas que, mesmo não sendo nada parecidos com o território, o representam melhor que outros mapas. Um mapa-mundo baseado na projeção Terra Igual representa melhor a terra que um mapa-mundo baseado na projeção de Mercator. Mas é possível fazer mapas ainda mais rigorosos. Em Sylvie and Bruno Concluded, de Lewis Carroll, encontramos este interessante diálogo (traduzo eu):

− Essa é outra coisa que aprendemos com a vossa nação − disse Mein Herr, − Aprendemos a fazer mapas. Mas levámos essa arte muito mais longe do que vocês. Qual é que vocês acham que seria a escala do maior mapa útil?

− Cerca de seis polegadas por milha.

− Só seis polegadas! — exclamou Mein Herr. – Nós depressa chegámos a seis jardas por milha. Depois tentámos cem jardas por milha. E então surgiu-nos a mais grandiosa ideia! Fizemos um mapa do país, à escala de uma milha por milha!

− Têm-no usado muito? − perguntei.

- Ainda não o desenrolámos — disse Mein Herr. − Os agricultores foram contra: disseram que ia cobrir o país todo.

Jorge Luis Borges, que era admirador de Carroll e que provavelmente conhecia o mapa referido por Mein Herr, refere um mapa à mesma escala num miniconto constituído por uma citação de uma obra imaginária e que, por ser mini, aqui cito à escala 1:1 — e na língua original, que, presumo, os meus leitores não terão dificuldade em compreender. 

Del Rigor en la Ciencia

En aquel Imperio, el Arte de la Cartografía logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, estos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él.

Menos Adictas al Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y los Inviernos. En los desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográficas.

Suárez Miranda, Viajes de Varones Prudentes, Libro Cuarto, Cap. XLV, Lérida, 1658.

Ainda a propósito de escalas, uma curiosidade. Temos numa parede da casa de jantar um grande mapa escolar alemão de 1964. Foi um amigo que no-lo deu. Tinha-o encontrado algures numa arrecadação de uma escola primária onde trabalhava e era para deitar fora. É um mapa de África, com o título África da colonização à independência. Além do mapa principal, um mapa político do ano da edição, inclui outros mapas mais pequenos que dão conta da evolução da partilha colonial de África. O mapa tem, no canto inferior direito, um pormenor curioso: para o público a que se destinava ter uma ideia da magnitude das distâncias, dá o exemplo dos 800 km do Lago Constança a Flensburg e dos 1000 km de Colónia a –– surpresa! –– Königsberg. Ora, em 1964, Königsberg já não era alemã há 19 anos e há 18 anos que se chamava Calininegrado.

Sem comentários: