27 de dezembro de 2019

Três pequenas notas sobre charro, insumo e sótão

Charro

Há um caso conhecido de contribuição do híndi para o vocabulário dos amadores de Cannabis sativa em Portugal. Ganza vem obviamente do híndi ganja, गांजा, termo cujo uso nas línguas europeias está documentado há séculos, com o seu significado original, isto é, referindo apenas o produto. Os outros usos em português moderno, para significar «uma dose de Cannabis» («fumar uma ganza») ou o seu efeito («estar com uma grande ganza») surgem, obviamente, por extensão do significado original.

Menos óbvia é a etimologia de charro, mas parece-me provável que também tenha origem indiana — embora, como ganja, deva ter chegado ao português pelo inglês, língua de comunicação na Índia e língua franca do quem, nos anos sessenta, a divulgou no Ocidente—e à Cannabis... Muitos amadores de Cannabis anglófonos conhecem—sobretudo se tiverem viajado na Índia, mas não só—o termo inglês churrus (pronunciado [tchâras], mais ou menos), ou as suas variantes charras ou charas, que designa um tipo de haxixe (do híndi चरस, urdu چرس). É bem possível que o termo, originalmente um nome não contável como haxixe, imediatamente se tenha tornado contável em português, passando a designar não o produto, mas os cigarros em que ele se consome — possivelmente por analogia com cigarro, precisamente, a que também pode ter ido buscar o rr «longo».

Insumo

Quando faz falta uma palavra, a língua arranja-a logo. Ou se cunha uma palavra nova ou se importa uma palavra de outra língua. Acho que muitos falantes do português sentiam e sentem muitas vezes dificuldades em traduzir o inglês input. É certo que, quando se traduz, não é em palavras isoladas que se deve pensar, e sim em frases completas, mas todos, mesmo os melhores tradutores, se deixam apanhar na armadilha de emperrar em palavras concretas.

Traduzo as definições de input do Cambridge em linha: «aquilo que se introduz num sistema, organização ou máquina (como energia, dinheiro ou informação) para que este/a possa funcionar; ajuda, ideias ou conhecimento que alguém fornece a um projeto, organização, etc.; um recurso, como sejam materiais ou mão-de-obra, que entra na produção de qualquer coisa e cujo custo tem influência nos lucros».

Se procurarem no dicionário técnico da União Europeia, depois de escolher EN como língua de partida e PT como língua de chegada, obterão 513 entradas com a palavra e as suas correspondentes em português em cada caso. Input pode traduzir-se por entrada, fluxo, meio, fator de produção, aporte, contributo e seguramente muito mais, consoante o contexto em que ocorra. Ah, e por insumo, claro!

Lido muito com a palavra insumo há cerca de 20 anos. Em agricultura, por exemplo, fala-se muito de insumos agrícolas para referir sementes, adubos pesticidas e herbicidas, alfaias e maquinaria, tudo aquilo que é necessário para produzir. Mas pode falar-se de insumos para qualquer atividade produtiva. Pessoalmente, uso a palavra apenas para referir coisas materiais, mas há quem lhe dê um uso mais vasto. Por exemplo, eu nunca diria “insumos para a elaboração de um relatório” (nesse caso, usaria contributos), mas há quem o faça.

Tenho quase de certeza de que o termo surgiu simplesmente para traduzir o inglês input. Tenho também quase a certeza de que surgiu no Brasil e que foi importado do castelhano, onde se terá formado já há mais tempo como deverbal de insumir, palavra que não importámos (ver aqui). Depois, do português brasileiro, a palavra espalhou-se rapidamente, sendo agora comum também noutras variantes. Eu conheço-a sobretudo de Moçambique, mas o Porto Editora, por exemplo, acolhe a palavra como termo de economia, sem indicar que é brasileirismo ou moçambicanismo. O mesmo o Priberam

Uma coisa é certa: gostemos ou não dela, é, como se costuma dizer, uma palavra bem formada. Podia ter sido cunhada na nossa língua e segue os preceitos clássicos da «boa formação» de palavras: tem origem latina e tem familiares há muito residentes na nossa língua, como consumo, consumir, eximir, prémio, pronto, presunção, redimir, resumo, resumir, subsumir, etc., etc., todas elas com origem no emere latino, «tomar, obter», ou em sumere, variante de subemere.

Sótão

Mostrava-me um amigo meu, no outro dia, uma foto de uma placa anunciando um restaurante chamado O Sótão na cave de um edifício. Eu percebo a piada da foto, claro, mas, pensando bem na palavra, mais surpreendente que um sótão na cave é que sótão não signifique mesmo cave, como se poderia esperar.

Em castelhano, sótano significa «cave» e o cognato italiano, sottano, é expressão regional para designar uma habitação térrea pobre, também conhecida como basso. Não parece haver consenso quanto à etimologia de sótão: uns propõem uma forma latina não atestada, *subtānu-; outros outra forma latina, subtulu-, que teria dado uma forma intermédia sótalo em castelhano. Mas, seja como for, o significado etimológico é sempre «o que está debaixo; a parte de baixo»—o que é patente nos cognatos castelhano e italiano. A explicação que se costuma dar para a deriva de sentido do termo português é que o sótão está debaixo do telhado, mas é uma explicação convincente, sobretudo quando não se aplica aos cognatos nas línguas próximas?

Uma outra explicação poderia ser (isto é puramente especulativo, como muitas propostas de explicação de evoluções semânticas—sou só eu a pensar em voz alta, como se costuma dizer) que o termo, originalmente designando a cave, tivesse ganho um sentido de «arrecadação», que passou a aplicar-se independentemente da situação da arrecadação no edifício e que depois de especializou nos espaços usados para esse fim na parte superior das casas.

23 de dezembro de 2019

Feliz Natal

Como todos sabem, a tradição já não é o que era, sobretudo porque, de facto, já não era muito o que era quando ainda era aquilo que já não é... Além disso, o melhor ainda é cada qual arranjar a tradição que lhe convenha, se acaso lhe não convier a tradição que há. De maneira que, cá em casa, a tradição costuma ser peru no Natal, exceto nos Natais em que a tradição foi ganso e nos Natais em que a tradição foi pato, que também os houve. Nos anos em que a tradição foi peru, assou-se o peru no forno, coberto de bacon, a muito baixa temperatura (o dia todo), e aconteceu também acrescentarmos-lhe recheio de ameixas secas e maçãs, que fomos buscar ao primeiro ano em que a tradição foi ganso...

O nome inglês do peru diz que ele que vem da Turquia, mas, na realidade, é bicho originário da América do Norte, tendo sido domesticado mesmo no sul desta parte do mundo, na zona que é atualmente o México. Quanto ao nome português, há que compreender que Peru designava muitas vezes não o Peru atual, mas as colónias americanas de Espanha. Do nome francês, que o diz da Índia, também não se pode dizer que esteja incorreto, porque a América eram as Índias Ocidentais, não é verdade? Aliás, os canadianos francófonos também chamam ao milho trigo da Índia.

Foto: Paulo Guedes, sem data: Venda ambulante de perus na época do Natal, Largo de São Domingos, Lisboa (daqui)

Este ano, para variar, vamos introduzir uma tradição nova, um fiambre glaceado, ou seja, neste caso, barrado com uma mistura de mostarda de Dijon e mel e assado no forno a baixa temperatura, talvez com um bocadinho de calor forte no fim para caramelizar a superfície.

Tradição inalterável no Natal da nossa família, só o gelado caseiro â sobremesa – os sabores é que podem variar, entre chocolate, rum com passas ou caramelo com amêndoas. Bem veem, os nossos filhos tinham dois, quatro e seis anos quando fomos viver para Moçambique, de maneira que foram quentes os Natais mais importantes da vida deles. E nem o inverno dinamarquês lhes tira o gelado natalício.

A todos os leitores habituais do blogue, e também a quem venha por acaso aqui parar, desejo um Feliz Natal, com as iguarias que as tradições de cada um lhes ponham na mesa da consoada.

22 de dezembro de 2019

Importante nunca esquecer


Quer se fale de massa ou de arroz, al dente não significa cru.

Sim?

Solstício de inverno [Crónicas de Svendborg #34]


Anteontem, perguntei a um senhor meu conhecido, natural desta ilha de Tåsinge e que tem agora a bonita idade de 95 anos:
 – E então, tudo a postos para o Natal?
– Não celebro o Natal – respondeu ele. – Mas celebro o solstício. Comprei uma garrafa de vinho branco e uns lagostins e depois de amanhã celebro o solstício, como sempre fiz.

E eu que pensava que isto de celebrar o solstício de inverno em vez do Natal era moda recente de neopagãos new age

8 de dezembro de 2019

De pé, como as árvores [Crónicas de Svendborg #33]

Quando eu era miúdo, vi várias vezes (?) na televisão uma peça de teatro chamada As árvores morrem de pé, com Palmira Bastos no papel principal. Também vos recordais? As coisas que nos vêm à cabeça…. Fui agora ver ao Google e fiquei a saber que a peça é de um dramaturgo espanhol chamado Alejandro Casona e que Palmira Bastos tinha 90 anos quando a gravou para a RTP, um ano antes da sua morte. Não sei nada de Palmira Bastos nem me lembro nada da peça, a não ser que tinha um final trágico que impressionou muito os oito aninhos que eu tinha, em que a atriz declamava (também vi isto agora no Google): «Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores!».

Agora, isto de as árvores morrerem de pé, enfim, é conforme… Há de facto árvores que morrem de pé, como o castanheiro da primeira foto. Este morreu à míngua de luz, rai’s parta’ os abetos que o rodeavam, que o atabafaram, antes de terem desbastado, tarde demais, o espaço à sua volta.

E há outras que caem mortas, como a faia da segunda foto. Diz que ar e vento é meio sustento, mas ela, com o ar em tanto movimento, não se sustentou. (Também deve haver árvores que não têm onde cair mortas, mas isso é outra história…)

Já agora, continuando a avaliar como se enraízam no real as metáforas vegetais, pode constatar-se que morrer ou não de pé é independente de se ter ou não raízes no local onde se morre: o castanheiro da foto, que mantém intactas as suas raízes, é árvore imigrante, ao passo que a desenraizada faia é árvore com raízes locais.