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07/10/14

O sex appeal do relativismo linguístico (continuação de vários capítulos anteriores…)

Nos artigos sobre língua e linguística que vão aparecendo na comunicação social, a influência da língua na maneira de ver o mundo é um tema muito sexy. Os jornais não são, nesse aspeto, muito diferentes das conversas de café: pelo que vejo, é sempre sexy afirmar que “as categorias linguísticas influenciam o pensamento e algum comportamento não linguístico” ou qualquer coisa desse estilo. Evidentemente, os pressupostos e conclusões desta escola de pensamento são discutíveis – e efetivamente discutidos –, mas, embora a perspetiva contrária não esteja completamente ausente dos meios comunicação social, é-lhe dado menos espaço mediático. É muito menos sexy dizer, por exemplo, que a língua dá conta de como a mente funciona do que dizer que ela modela a maneira como a mente percebe o mundo.

Já aqui falei muito desta questão e, por muito que sobre ela haja muito mais a dizer, hoje falo antes de outra ideia relacionada com esta, também muito sexy e, por isso, também muito divulgada, que é a das palavras e construções muito, muito idiossincráticas, intimamente ligadas à cultura e à mundividência de um povo – tão idiossincráticas que chegam a ser intraduzíveis. É que há muito quem goste de empolar o idiomático e o intraduzível. E há também quem, como eu, goste de chamar a atenção para o muito que assim se exagera – quando não se dizem, pura e simplesmente, disparates atrás de disparates.

Fazendo uma recolha ao acaso de oito das muitas listas de palavras “intraduzíveis” que por aí circulam[1], as mais referidas (em seis dessas listas) são a família francesa dépayser/dépaysement e o checo prozvonit. Se, no caso dos termos dépayser/dépaysement/dépaysant, posso imaginar dificuldades de tradução de frases em que eles entrem (embora, em muitos contextos, exótico, por exemplo, traduza exatamente dépaysant), já prozvonit (creio que é um verbo, esquecem-se sempre de classificar morfologicamente os “intraduzíveis”) parece ser facilmente traduzível para muitos falantes do português ou do espanhol, já que há nas duas línguas uma expressão que traduz diretamente o termo checo: dar um toque é a expressão que usam para referir um telefonema que se desliga antes de o destinatário ter atendido, para o informar de alguma coisa previamente combinada sem ter de pagar uma chamada – ou para que ele ligue a quem ligou[2].

Em seguida, com cinco ocorrências nas oito listas, vêm hygge/hyggeligt em dinamarquês, mamihlapinatapai em iagane da Terra do Fogo, saudade em português, Schadenfreude em alemão e wabi-sabi em japonês. De hygge/hyggelig e de saudade já aqui falei e, em vez de me repetir, remeto-vos para o texto em que analiso a pretensa intraduzibilidade dessas e outras palavras, e a própria ideia de in/traduzibilidade. O que se traduz, explico eu nesse texto, não são palavras mas frases (para simplificar), pelo que a ideia de palavras intraduzíveis não faz grande sentido. Mas adiante. É-me completamente impossível saber de que elementos se compõem mamihlapinatapai e wabi-sabi e se há ou não marosca na definição dos termos. Se mamihlapinatapai significa de facto “um olhar trocado entre duas pessoas que querem ambas que a outra inicie algo que ambas desejam, mas não querem ser elas a começar”, um olhar cúmplice cobre provavelmente muito do uso do termo sem grande perda de informação, se não quisermos recorrer a, sei lá, “uma troca de olhares hesitantes de desejo”, qualquer coisa assim. Já a definição de wabi-sabi é tão estranha que gostaria que, além de explicarem de que categoria morfológica é o termo, me apresentassem a palavra em contexto: a definição de “encontrar beleza na imperfeição e aceitar o ciclo natural de crescimento e declínio” parece-me tão fantasiosa, que ou se trata do aproveitamento filosófico de um termo que não tem nada a ver com o seu uso línguístico comum[3] ou então imagino mal uma frase como “Ana amiúde wabi-sabi”, com o significado de “Ana encontra amiúde beleza na imperfeição e aceita o ciclo natural de crescimento e declínio”. Vocês não? Schadenfreude é, claro está, uma das palavras alemãs que muitas vezes se usa em enunciados de outras línguas sem a traduzir (como Blitzkrieg, Weltanschauung, Zeitgeist, etc., etc.), mas é por hábito que isso se faz (uma moda, de facto) e não por impossibilidade de dizer o mesmo com palavras que não sejam alemãs. Um nome não é, em princípio, predicador e é preciso, para propor uma tradução, ver as frases concretas em que a palavra aparece; mas se for de sentir Schadenfreude que se trate, deixo a tradução à minha avó, que falava de “ter gosto na desgraça alheia”. Num registo menos familiar, comprazer-se no sofrimento alheio resolve bem o problema, ou não?

E depois, em quatro das oito listas aparecem o cafuné do português, o espanhol duende (Spaniards got soul!), o inuíta iktsuarpok, que é “ir lá for a ver se lá vem alguém”; o jayus indonésio, “uma anedota tão má que dá vontade de rir”; o kyoikumama japonês, essa “mãe educativa”, que obriga o filho a ter boas notas na escola; o lítost checo, definido como “o estado de agonia ou tormento resultante pela súbita constatação da sua própria desgraça” (discutido no parágrafo seguinte); o pochemuchka russo, que é o Spørge Jørgen dinamarquês, aquele perguntador cujas línguas se comiam ao jantar quando eu perguntava à minha avó o que era o comer; o tartle escocês, que é “hesitar ao apresentar alguém porque, ups!, se esqueceu o seu nome”; um surpreendente tingo do rapanui, que é “pedir emprestado até deixar sem nada quem nos empresta” (esta cheira mesmo a esturro, não cheira?), o Torschlusspanik alemão, que é “a angústia de ter cada vez menos oportunidades à medida que o tempo passa”, mas que, de facto, é apenas uma metáfora compreensível por falantes de qualquer língua em cuja cultura existam portas, o “pânico d(e encontrar) a porta fechada”; e depois e depois e depois…

A verdade é que, como diz David Shariatmadari, num artigo no Guardian (traduzo eu) “todos gostaríamos de acreditar em palavras intraduzíveis. É uma ideia tão romântica: que existem aí algures, como ilhas desertas por descobrir, ideias que nunca concebemos. Cuidadosamente guardadas por estrangeiros ao longo dos séculos, joias de cultura ignoradas pelo resto do mundo”. Shariatmadari é, como eu, crítico deste romantizar da intraduzibilidade. Ainda bem que o Guardian, que costuma divulgar tanto a perspetiva oposta, dá também voz ao menos sexy: “Há alguns pressupostos linguísticos e não linguísticos ligados a este romance, a maior parte dos quais é decididamente duvidosa”, continua Shariatmadari, acrescentando que os exemplos comummente citados são “quase todos ridículos, quando se analisam em pormenor”. Além da saudade e do hyggelig já referidos, ou do mito das palavras inuítas para neve (de que também já aqui falei uma vez), Shariatmadari passa em revista várias palavras “intraduzíveis”, como a utepils norueguesa, o aware japonês, a Schnapsidee e a Waldeinsamkeit alemãs, a toska e o razbliuto russos e a goya do urdu. Do lítost checo, de que prometi desenvolvimento no parágrafo anterior, diz ele o seguinte:
Milan Kundera não conseguiu traduzir esta palavra checa para inglês. NO Livro do Riso e do Esquecimento, definia-a como “um estado de tormento criado pela repentina constatação da sua própria desgraça”. As línguas dividem de forma diferente o espectro do sofrimento humano. Mas o inglês tem com certeza uma quantidade de candidatos a equivalente aproximado: self-pity, remorse, regret, anguish, shame [autocomiseração, remorso, arrependimento, angústia, vergonha].
Pode ser que Shariatmadari tenha razão e pode ser que não. Não sei checo, não o posso discutir. Não parece haver dúvidas de que o verbo litovat significa “arrepender-se, ter remorsos” e que lítost significa “arrependimento” em certos contexto, mas a explicação de Kundera na obra referida parece dizer mais respeito a vergonha que a arrependimento. O que tenho por certo é não há nenhuma razão para crer que os checos conseguem fazer frases para descrever um sentimento que ninguém além deles consegue fazer. Isso implicaria uma de duas explicações: ou os checos sentem coisas que mais ninguém sente ou a língua checa tem uma capacidade de representação do mental diferente das outras. Ambas me parecem altamente improváveis…

Como Shariatmadari também explica, pode ainda acontecer que, por exemplo ao considerar intraduzível a “palavra” turca çekoslovakyalılaştıramadıklarımızdanmışsınız, se alargue tanto o conceito de palavra que se faz a batota de comparar “palavras” de certas línguas com “palavras” de outras línguas em que cabem numa “palavra” muitas “palavras”. Trata-se, de facto de um artifício fundamental no discurso do intraduzível: não especificar o que se entende por palavra, uma categoria muito vaga, sobretudo quando há línguas e tradições ortográficas em que se juntam palavras para formar novas palavras e outras em que as palavras mantém sempre, no som e/ou na escrita, alguma autonomia entre elas. Enfim…

E então? Palavras intraduzíveis são, com rigor, todas as palavras, porque não são, insisto, palavras que se traduzem. Mas, para não ir tão longe, palavras intraduzíveis são simplesmente as palavras que as pessoas que defendem a sua intraduzibilidade não sabem traduzir para nenhuma das outras línguas (entre 3.000 e 7.000, conforme se façam as contas), o mais das vezes porque nunca se deram a muito trabalho para encontrar uma tradução…; ou as palavras estrangeiras que não sabem traduzir para a sua própria língua, porque não compreendem o que elas querem dizer e aceitam explicações delirantes do seu significado[4]...

Mas passemos agora das “palavras” às expressões. Para voltar ao já referido artigo do Guardian sobre “vocabulários culturais”, é preciso, sinceramente, uma enorme dose de boa vontade e muitas voltas à retórica para dizer que “a individualidade nacional se exprime saudavelmente em expressões idiomáticas como o mesmo significado mas usos (???) amplamente diferentes e localmente inspirados” e dar como exemplo o contraste entre carrying coal to Newcastle (“levar carvão para Newcastle”), Eulen nach Athen tragen (“levar mochos para Atenas”), vendere ghiaccio agli eschimesi (“vender gelo aos esquimós”), llevar naranjas a Valencia (“levar laranjas a Valência”) e vizet hord a Dunába (“levar água ao Danúbio”)”[5]. Que o Danúbio não seja em Espanha e que as laranjas de Valência não possam fazer parte de um provérbio inglês parece relevar mais da geografia que da língua e, se se pode encontrar “individualidade nacional” no carvão em Newscastle, já se vê mal o que têm de especialmente alemão os dracmas atenienses ou o que há de especialmente italiano no gelo dos esquimós. Sejamos razoáveis: Não há nada na língua portuguesa (nem na cultura portuguesa, sequer) que determine ou justifique uma expressão como “ensinar a missa ao padre”[6] – houve apenas, por acaso, um falante do português que criou essa frase (mesmo que tenha sido traduzida) e ela teve fortuna entre os falantes da língua, voilà! Evidentemente (por razões que nada têm a ver com a língua!), seriam precisas algumas alterações para que a tradução de “ensinar a missa ao padre” fosse entendida por pessoas de países onde não há missa nem padres, mas é, em princípio, adaptável para qualquer língua do mundo.

São famosas as brincadeiras com traduções “literais” de expressões ditas idiomáticas, incluindo provérbios. Também já aqui falei uma vez disso.  Dizia que “muitas das expressões ditas idiomáticas (…) são figuras de estilo que só se tornaram populares numa determinada região e que, por isso, só se usam na língua dessa região, mas que nada impediria de terem tido a mesma fortuna noutra regiões e noutras línguas”. Agora, claro, “o que não se pode é traduzir [as expressões de cada país ou região] de uma maneira parva, como se faz normalmente nas anedotas para aumentar o efeito cómico”, escrevia eu nesse outro texto desta Travessa.

Não se pode dizer, por exemplo, “Tens uma descida que eu não gostava de subir de bicicleta!” por razões efetivamente linguísticas, mas é apenas porque é impossível traduzir assim para português um jogo de palavras francês. A frase é uma tradução “literal”, e por isso idiota, de uma expressão, que se diz a alguém que bebe muito: Tu as une descente que j’aimerais pas remonter à vélo ! Evidentemente, descente em francês não é só “descida”, mas também “capacidade de emborcar” e, se não houver, na língua alvo, uma palavra que tenha esses dois significados (não fui ver nas línguas todas do mundo, mas parece-me provável que essa coincidência se dê só em francês…), o jogo de palavras não funciona.

Também é óbvio que há que ter cuidado com a tradução “literal” de uma expressão como dia de São Nunca à tarde, mas, se a tradução for sensata, ela compreender-se-á mesmo nas línguas em que não se usa. Aliás, há em inglês uma expressão com a palavra never (“nunca”), twelfth of never, que significa o mesmo, e há noutras línguas europeias expressões com o mesmo significado com nomes de santos… inexistentes (ver aqui e aqui). Mesmo uma expressão como o olho da rua, em que a tradução direta de olho causaria sem dúvida muita estranheza e incompreensão, não é assim tão “idiomática” como pode parecer, porque olho também se usa noutras línguas para dizer “meio” , por exemplo quando se trata do centro de um furacão – e não só!

Eu uso muitas vezes, numa determinada língua, expressões que costumam usar-se noutra língua e toda a gente me compreende, se digo, por exemplo, que não vale a pena procurar o meio-dia às duas da tarde ou que não vale a pena procurar pulgas onde não há pulgas (expressões francesas, il ne faut pas chercher midi à catorze heures e il ne faut pas chercher des puces où il n'y en a pas). Agora vou passar também a dizer, para situar um acontecimento num passado muito distante, que isso foi no tempo em que o rei de ouros ainda era valete. É uma expressão dinamarquesa, dengang ruder kongen var knægt, que aprendi no outro dia. Por outro lado, há frases idiomáticas cujo significado não se compreende apenas por falar a língua em que elas ocorrem – tem de se aprender o seu significado, como se aprende o significado de uma palavra. Um exemplo óbvio é quem quer vai, quem não quer manda. A frase propriamente dita não significa, em português, o que significa o provérbio que ela constitui, pelo que ser falante do português não basta para adquirir esta parte do seu “vocabulário cultural”…

Conclusão (mais uma vez): um bocadinho de bom senso, sim?

Ah, e outra coisa que não tem nada a ver com isto, mas com o título do texto: há palavras inglesas que entram no português e outras que vão saindo – sex appeal era muito mais comum na geração do meu pai que na minha e tenho a impressão que está a cair em desuso, não está?

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[1] A lista original está reduzida da seis a 23.7.2023: http://www.boredpanda.com/untranslatable-words-found-in-translation-anjana-iyer/; http://boingboing.net/2014/09/22/ten-untranslatable-words.html; http://europeisnotdead.com/disco/words-of-europe/137-2/; http://travel.allwomenstalk.com/fantastic-untranslatable-words; http://matadornetwork.com/abroad/20-awesomely-untranslatable-words-from-around-the-world/; http://www.babbel.com/magazine/untranslatable-01

[2] Encontrei na Internet vários comentários de brasileiros e espanhóis propondo dar um/un toque como tradução direta de prozvonit. Os meus amigos portugueses que consultei sobre o tema parecem acordar que dar um toque, sem mais, é ambíguo e que acrescentariam qualquer coisa: dar um toque e desligar, por exemplo.

[3] Da mesma forma que, na boa tradição de Teixeira de Pascoaes, algumas definições de saudade que se encontram nestas listas de palavras intraduzíveis não têm nada a ver com a palavra saudade usada nas frases efetivamente produzidas por falantes do português: “vago e constante desejo de qualquer coisa que não existe e provavelmente não pode existir (…), que indica que nos viramos mentalmente para o passado ou para o futuro [!!!]”, que “não é um descontentamento ativo ou uma pungente tristeza mas sim uma melancolia indolente e sonhadora.” Desculpe, importa-se de repetir? Mas, mesmo que não se vá por tão fantasiosa definição e nos fiquemos pela (também completamente incorreta) “nostalgia de uma pessoa ou coisa que se perdeu e que já não volta”, como se aplica isso a, por exemplo “Bom, saudades de Portugal propriamente não tenho, mas tenho, claro, saudades dos amigos e da família – e de bom peixe fresco. Uma boa postinha de garoupa, ena, que saudades!” ou a “Ena, já tinha saudades de vir aqui dar uma volta à tarde, há mais de três meses que cá não vínhamos”. Enfim, quem não sabe é como quem não vê, diz o outro e com razão. Parece-me provável que a longa dissertação de Milan Kundera nO Livro do Riso e do Esquecimento sobre o termo lítost, que se discute neste texto, seja um devaneio do mesmo tipo que ignore completamente o uso real da palavra em checo, mas, claro, não posso disso ter a certeza…

[4] Ou até porque o seu vocabulário na sua própria língua é extremamente limitado. No blogue Better Than English (entretanto desparecido), que era um exemplo acabado do disparate linguístico no que toca a palavras intraduzíveis, chegava a afirmar-se que a palavra espanhola tocayo (o xará do português brasileiro) não tem tradução para inglês – mas então e a palavra namesake?

[5] Também não se percebe o que vem fazer no meio de tudo isto a constatação simples de que a expressão de dor é diferente em diferentes línguas. Em princípio, o que seria estranho é que o não fosse – tão estranho como uma mesa ser referida pela mesma palavra em todas as línguas. Não deixa de ser curioso, porém, que haja tanta semelhança entre a expressão da dor em línguas tão diferentes como o português e o mandarim – e talvez alguma razão para tal –, e é também muito curioso que este artigo se esqueça de o referir para acentuar o contrário…

[6] “Ensinar a missa ao padre” pode ter uma nuance de sentido que implique restrições no uso relativamente às frases referidas antes, que significam apenas “fazer algo inútil”. A Wikipedia em alemão, porém, inclui no seu artigo “Eulen nach Athen tragen” (uma variação dieletal d)a expressão meiner Großmutter das Beten lernen, “ensinar a minha avó a rezar” como sinónimo de levar mochos para Atenas – e esta parece corresponder de uma forma muito direta a “ensinar a missa ao padre”. Além de uma longa lista de expressões sinónimas em alemão, o artigo tem também uma lista de expressões equivalentes noutra línguas, estre as quais “levar bananas para a Madeira” e “vender mel ao colmeeiro” em português.

[Atualizado a 23 de julho de 2023]

07/03/08

Todos muito iguais e um tudo-nada diferentes: breve elogio da igualdade

Há quem pense que, para definir uma cultura, temos saber o que a distingue de todas as outras: a(s) sua(s) especificidade(s). Mas não sei se isso existirá. Ou melhor: creio ter boas razões para duvidar de que exista. A questão é, obviamente, complexa e não é um blogue o sítio apropriado para a discutir mais a fundo, pelo que aqui fica a versão mais resumida que consigo da minha maneira de ver a questão: Um traço que distingue, suponhamos, a cultura A da cultura Φ, Ø e Y não é exclusivo dessa cultura A, mas comum também às culturas Ж e Ð; e Ж tem, por sua vez, traços que a distinguem de A e que a aproximam de Ø, etc., etc. Dito de outra maneira, a sensação de estarmos perante algo de único resulta apenas do desconhecimento do resto da realidade humana. Isto quer se trate dos ritos funerários andinos ou da importância da ideia de saudade na cultura portuguesa. Não são fenómenos exclusivos dessas culturas, mas podem facilmente parecê‑lo a quem não conheça ritos funerários em culturas em que eles são semelhantes aos da cultura andina ou a quem não conheça uma cultura em que o conceito de saudade mereceu também destaque especial por parte dos intelectuais.

Outra questão é a da proporção de invariabilidade e de especificidade em cada cultura  — e, por conseguinte, em cada ser humano. O que é que é comum a todas as culturas, universalmente humano, e o que é que varia de um sítio para o outro? E, na totalidade dos comportamentos, dos saberes e dos sentimentos de uma pessoa, o que é determinado pela especificidade cultural e o que é determinado por invariáveis de humanidade? Que peso relativo têm os dois aspectos? Bom, à medida que vou conhecendo mais gentes e mais lugares, vou-me também convencendo cada vez mais de que as diferenças entre os povos e as culturas são superficiais. A ideia que tenho é que são como a parte de cima de um icebergue, que é obviamente muito mais visível que a parte submersa, mas também incomparavelmente mais pequena!

Isto é como eu acho que as coisas são. Agora, dou um salto para o plano de como eu acho que se deve agir. Chamemos-lhe o plano político. A ideia de pôr em relevo as diferenças e de as louvar foi importante num determinado período histórico como forma de as pessoas tomarem consciência dos muitos preconceitos etnocêntricos que moldavam a sua visão dos outros. Mas tem lá dentro qualquer coisa bastante perigosa, que pode ir dar, por exemplo, ao facto, talvez imprevisível há trinta anos (seria?), de o relativismo cultural se ter tornado a ideologia oficial de uma parte da extrema-direita europeia... É claro, também há gente que não é racista nem xenófoba que continua a insistir em adoptar perspectivas relativistas e em colocar a diferença acima da igualdade. Para mim, no entanto, é o louvor da igualdade que, no contexto actual, é importante retomar. Desapareceram as razões de ordem estratégica para exaltar o particular. A minha proposta é que investiguemos antes, com atenção redobrada, a parte submersa do icebergue — porque é aí, no que somos todos, que está o fundamental de cada um de nós.

26/01/08

Alpondras, saudosismo e traduzibilidade: como é que se diz châssis em francês?

As palavras portuguesas que traduzem stepping stone (“uma pedra elevada, normalmente fazendo parte de uma fileira de pedras semelhantes, para ajudar a travessia de um riacho, de uma área lamacenta, etc.”), aprendi eu noutro dia, são alpondra, pondra e poldra. Pouco tempo depois de aprender isto, apareceu-me numa tradução a frase “The awareness building deriving from poor people’s participation in local consultations will act as a stepping stone for sustainable empowerment” e eu fiquei desiludido com o meu novo conhecimento: “A consciencialização resultante da participação das pessoas pobres nas consultas ao nível local servirá de alpondra a um empoderamento sustentável” [desculpem o empoderamento, sim?, de que eu também não gosto, mas é a palavra que se usa em Moçambique neste jargão da cooperação para o desenvolvimento…]? Parece que alpondra não serve bem quando a expressão stepping stone não é usada no seu sentido “primeiro”, mas antes no seu sentido “abstracto” ou “metafórico”. Uma busca simples em Google, no entanto, usando o sintagma “a stepping stone” (com artigo, para evitar nomes de instituições, livros, etc.), mostra que esse sentido “metafórico” é que é, afinal, o seu sentido primeiro – e o outro é relativamente marginal. Acontece...

Serve este pequeno delírio para introduzir de maneira descontraída os temas sérios da tradução e da traduzibilidade. O texto que se segue insere-se numa campanha que eu ando a fazer há muito tempo contra os mitos das palavras intraduzíveis. Estes mitos nacionalistas são um fenómeno mais espalhado do que possa pensar-se. Só para ficar pelas línguas mais próximas, há alemães que defendem a intraduzibilidade de Sensucht (“saudade”), finlandeses que dizem que não há tradução para o seu sisu (“resistência, capacidade de aguentar, de suportar”) que traduz a “alma finlandesa”, dinamarqueses que dizem o mesmo do seu hyggelig (“acolhedor, cómodo, aconchegadinho, confortável”), e holandeses do seu gezellig, que, curiosamente, corresponde ao hyggelig dinamarquês... A mim, portuguesinho que sou, agasta-me sobretudo o nosso mito da “intraduzível saudade” e é esse o tema mais imediato do texto panfletário que se segue.

O mito da intraduzibilidade de saudade é um disparate, mas é um disparate de sucesso – provavelmente até de maior sucesso que muitos outros mitos do mesmo tipo. Vejam a página Saudade da Wikipédia em inglês, por exemplo. Que os operadores turísticos e as editoras de novo fado queiram vender a saudade, eu percebo. Mas estas pessoas que fazem estas páginas da Wikipédia, o que é que aquilo lhes deixará? O mais assustador é a (forte) possibilidade que há de eles acreditarem mesmo no que dizem! A questão é esta: a boa-fé desculpa a falta de bom senso? Se sim, estão todos perdoados. Até Teixeira de Pascoaes.

Pascoaes merece aqui um destaque especial porque foi ele, como se sabe, um dos principais obreiros, se não o principal obreiro, do mito da intraduzibilidade de saudade, sobretudo na sua Arte de Ser Português [citações abaixo da edição Delraux, Lisboa: 1978]. Bom, quando saudade, para ele, significa “fusão do princípio naturalista ou ariano e do princípio espiritualista ou semita … sua unidade sentimental … desejo (parte sensual e alegre – ariana, portanto) e lembrança (face espiritual e dolorida – semita), lembrança que inclui ausência de uma coisa ou de um ser amado que adquire presença espiritual entre nós… desejo [que] é esperança assim como é lembrança pela dor” é verdade que é muito difícil de traduzir essa palavra – até para português… Aliás, Pascoaes vai tão longe na sua obsessão de intraduzibilidade que chega até a afirmar que “para além deste aspecto definido e revelado da saudade, existe ainda a sua feição misteriosa, vaga e indefinida, que devemos perscrutar [sublinho eu] em outros vocábulos intraduzíveis como remoto, ermo, oculto, luar, nevoeiro, medo, sombra, etc.”.

Evidentemente, ideias assim tão estapafúrdias não podem deixar de causar alguma indignação em pessoas com menos tendência para o delírio metafísico. António Sérgio, por exemplo, além de desancar no saudosismo pascoaesiano, apresentou logo uma lista de traduções de saudade em sete línguas [“Epístola aos saudosistas”, in A Águia, vol. 4, 1913, p. 97 e seguintes]:
Muito ao contrário do que Pascoaes afirma, a palavra saudade é traduzível. Várias nações a representam por um termo especial: o galego tem soledades, soedades, saudades; o catalão, anyoransa, anyoramento; o italiano, desio, disio; o romeno, doru, ou dor; o sueco, saknad; o dinamarquês, savn; e o islandês, saknaor… Eles, porém, menos iluminados que nós outros, apesar de terem Ibsens, Ardigos, Höffdings, não se lembraram de construir a filosofia definitiva e surprema do anyoranismo, do desiismo, do doruísmo, do saknadismo, do savnismo, do saknaorismo…. Saknaorismo é catita! Meus queridos amigos, meus confrades, meus irmãos da renascença: é o que vocês são em islandês: saknaoristas!
A lista de António Sérgio é capaz de não ser muito rigorosa, pelo menos relativamente a saknaor, mas não tenho a certeza – o verbo sakna pode, de facto, significar “ter saudades de”, mas o meu corrector ortográfico de islandês não reconhece a forma saknaor, além de que uma busca de saknaor em Google em páginas em islandês não me dá nenhum resultado. Algo aqui não bate certo…. Mas enfim, rigorosa ou não, a lista também não é muito completa. É possível acrescentar muito mais termos à lista de Sérgio. A referida página da Wikipedia propõe alguns e eu, com um bocado de trabalho, poderia provavelmente acrescentar centenas – se fosse esse o meu jogo… Sem sair das sete línguas que Sérgio menciona, poderia acrescentar morriña e señerdá em galego, længsel em dinamarquês e, para as saudades da terra, hjemve também em dinamarquês e Heimweh em alemão. Notem, no entanto, que nem todos os termos aqui propostos para traduzir saudade, embora possam perfeitamente servir para tal em determinados contextos, lhe correspondem directamente. É que saudade tem uma restrição semântica que não se aplica a alguns deles: só se pode ter saudades do que se conhece.

Mas isso importa pouco. O que importa é que, se palavras “intraduzíveis” são palavras sem correspondência biunívoca com um item lexical de outra língua, que é o que parece querer dizer muitas vezes quem postula que essas palavras existem, praticamente todas as palavras de todas as línguas são intraduzíveis – excepto, talvez, nomes de objectos físicos, mas, mesmo o caso dos nomes das coisas não é tão simples como pode parecer à primeira vista. Pé, dar ou comer são altamente intraduzíveis nesta acepção de intraduzibilidade. E ainda que, afrouxando um bocado o conceito de intraduzibilidade, seja considerada intraduzível a palavra que não tem palavras que lhe correspondam directamente (embora não biunivocamente) na mesma categoria lexical noutras línguas, continua a haver em português palavras com muito mais probabilidades de serem intraduzíveis do que saudade – pingarelho, por exemplo. Discutir se as palavras são ou não traduzíveis, porém, é já uma maneira errada de abordar a questão.

Quando se postula a “intraduzibilidade” de um palavra, o que se faz é ignorar a regra de base da tradução: o que se traduz não são palavras, mas frases (uso a palavra frase para simplificar). E uma palavra ou expressão, como vimos na introdução com stepping stone, pode ter de se traduzir, em frases diferentes, por palavras ou expressões diferentes. Além disso, uma ideia que numa língua é expressa só por um verbo, por exemplo, pode ter de ser, noutra língua, dita com um verbo não predicativo mais um nome ou um adjectivo (“I’m freezing” = “Estou cheio de frio”/“Tenho muito frio”). Etc., etc., etc. Deixemo-nos então de palavras (stepping stone é uma palavra ou duas? E couve-flor?) e pensemos em termos de frases. Curiosamente, a tradução de frases com a palavra saudade não costuma colocar ao tradutor problemas por aí além (sobretudo comparando com frases com a palavra pingarelho..). “Tenho saudades da minha tia” (ou “…de ti, meu amor” ou “…da Mari’ Francisca”, é irrelevante) é uma frase que se traduz com uma perna às costas. Um texto como o daquela cantiga que há “ai, que saudades da minha piquena aldeia / ai, que saudades, saudades da luz da candeia” pode facilmente traduzir‑se para qualquer língua, se bem que, sinceramente, não veja bem que interesse isso possa ter (traduzir uma cantiga assim, quero eu dizer)... “Sentiu a saudade devorar-lhe o peito” já é mais difícil, mas, com o contexto a ajudar (é preciso saber de que é a saudade, ou de quem) também se lá vai sem passar muitas noites em claro… Intraduzibilidade? Ora, sejamos sérios!

Para terminar, há uma falta de seriedade indesculpável no postulado da intraduzibilidade de uma determinada palavra, seja de que língua for: é que para afirmar que uma palavra não tem tradução, há que o ter verificado em todas as línguas existentes (entre 3 e 6 mil, depende de como se contam…)!... Que é para ter a certeza, por exemplo, de que hiraezh em bretão ou watukuy em quéchua não são bons candidatos à tradução de saudade... Vale a pena sublinhar que os defensores da intraduzibilidade de uma palavra nunca se dão a esse trabalho?