Mostrar mensagens com a etiqueta Humor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Humor. Mostrar todas as mensagens

16/06/22

Há línguas em que é mais fácil brincar com as palavras?

[!!! Este texto pode ser muito difícil de entender para pessoas que não dominem muito bem a língua francesa. Dada a natureza dos textos franceses referidos e citados, é perfeitamente vã a tentativa de os traduzir.]

Já aqui fiz no blogue alguns comentários à tão popularizada ideia de que a língua determina a nossa perceção do mundo e à alegre falta de rigor com que muitas vezes se faz o escrutínio desta ideia. E hoje venho, vejam lá, sugerir que talvez a língua possa de facto interferir na nossa relação com o mundo. Mais concretamente, venho sugerir que bem pode haver línguas em que é mais fácil que noutras «brincar» com a própria língua: fazer humor e literariedade. E, mais concretamente ainda, sugiro que é provável que em francês seja mais fácil fazer trocadilhos e rimar [pelo menos, no sentido em que entendemos rima hoje em dia na nossa cultura] que nas outras línguas que conheço. E isto porque
  • o francês é uma língua de acento fixo, o que torna as coisas muito mais fáceis; e
  • a evolução fonética do francês foi, antes de mais, no sentido de um vocalismo muito forte, e portanto uma perda de muitos sons consonânticos, gerando assim
    • um número muito grande de palavras e sequências homófonas (fundamental para os trocadilhos) e
    • menos sons possíveis em final de palavra (fundamental para a rima).
Convém esclarecer que não estou de modo algum a apresentar a conclusão de algum estudo que tenha feito, longe disso, mas sim a propor um projeto de investigação, a mim próprio ou a quem nele queira pegar, que se baseia num observável simples: há mais formas [foneticamente] convergentes em francês que nas outras línguas que conheço.

Para dar dois exemplos muito simples [mas há muitos, muitos!], a forma /vɛ̃/ pode provir de vários étimos diferentes: de vinum [vin], de vi[gi]nti [vingt], de vanus[vain], de vēnī [vins], de vēnistī [vins] e de vēnit [vint]), da mesma forma que /po/ pode derivar de pellis ou de potus e /depo/ tanto pode corresponder a des pots como a des peaux como a dépôt.

É certo que, se que esta convergência de formas se deu, é porque não causa ambiguidades, senão ela não podia existir. Mas, existindo no discurso comum sem causar ambiguidades, está disponível para ativamente se construírem, a partir dela, trocadilhos e jogos de palavras ou com as palavras. Não deve ser por acaso que são em francês os exemplos mais famosos de holorrimas, isto é, rimas em que não rima só o fim do verso, mas sim o verso inteiro. Creio que a holorrima mais famosa é de Marc Monnier, nos célebres versos
Gall, amant de la Reine, alla, tour magnanime ! ,
Galamment de l'Arène à la Tour Magne, à Nîmes.
que se pronunciam exatamente da mesma maneira. Outros exemplos são
Par les bois du Djinn, où s'entasse de l'effroi,
Parle et bois du gin !… ou cent tasses de lait froid.
de Alphonse Allais, ou
Dans ces bois automnaux, graves et romantiques,
Danse et bois aux tonneaux, graves et rhums antiques
de Jacques Prévert. Mas há muitas mais. Vejam por exemplo, aqui, aqui ou aqui.

Transcrevo abaixo a letra da canção « Saucisson de Cheval », de Boby Lapointe, um exemplo radical do que é brincar com as palavras em francês — como aliás todas as canções de Boby Lapointe, o maior mestre dos jogos de palavras, que aconselho a explorar, se não conhecerem.

Um jogo de palavras assenta sempre numa relação entre um segmento sonoro pronunciado e um outro evocado na mente do ouvinte. Pode haver semelhança fonética ou total homofonia dos dois segmentos que constituem o trocadilho, com ou sem coincidência sintática. Por vezes o segmento não dito pode ser uma expressão fixa, o que facilita a sua evocação na mente do ouvinte; e por vezes a evocação do segmento pode também ser facilitada pela introdução prévia de um elemento no texto – ou pode mesmo haver, como no caso da canção transcrita abaixo, uma delimitação à partida de um determinado campo semântico [neste caso, o cavalo]. Como alguns jogos de palavras da canção podem não ser óbvios, mesmo para quem domine relativamente bem o francês, sublinho em cada verso a parte que deveria evocar outra coisa no ouvinte e deixo entre parênteses retos o segmento evocado. Não transcrevo os onomatopaicos refrães nem as breves passagens faladas, que, contribuindo sem dúvida para o humor e para o ambiente geral da canção, não são relevantes para o tema aqui discutido.

Se existem, em países de língua latinas ou germânicas, alguém que faça jogos de palavras como Boby Lapointe, não conheço. Mas será mesmo possível fazer canções como « Saucisson de cheval » noutras línguas? A pergunta não é de modo algum retórica: línguas há muitas e eu conheço muito poucas. Digam-me, pois: que sabem e opinam sobre o assunto? 
  
« Saucisson de cheval », 1966

C'est un saucisson de cheval, un saucisson que... (de cheval) [queue]
que je viens de faire, (à cheval) [fer]
c'est une chanson de saillies
Ah, chanson de saillies, (de cheval) [saillie]
moi qui suis esthète, (de cheval) [tête]
ah, je trouve ça beau (de cheval) [sabot]
génial, admirable, (de lapin) [râble]

Moi, qui viens de Grèce, (de cheval) [graisse]
je m'appelle au reste (de cheval) [Oreste] 
Tapaboufélos. (de cheval) [t’as pas bouffé l’os]
je débarque à Paris (de veau) [ris],
Oh, oh, quel régal, oh, (de cheval) [galop]
de prendre le métro. (de cheval) [trot]
Quand on ne connaît pas, (de cheval) [pas]
oh, ce qu'on s'amuse, oh ! (de bœuf) [museau]

Mes enfants, ma foi, [foie] (de cheval) [foie]
sont de vilains grognons. (de cheval) [rognons]
Quand ils pleurent en chœur, (de cheval) [cœur]
j'essaie de les distraire (les vaches) [traire]
Je viens à bout d'un, (de cheval) [boudin]
mais les autres aussi sont (de cheval) [saucisson]
toujours dans le besoin, (de cheval) [soin (?)]
ça ne peut pas être pis. (de chèvre) [pis]

Quel est cet aztèque (de cheval) [steak]
qu'on vient de voir filer (de cheval) [filet]
du haut de la côte (de cheval) [côte]
dans le précipice, en moto ?
Peut-être bien est-ce Thomas (de cheval) [estomac]
qui vient de me vendre (de cheval) [ventre]
un complet à carreaux (de cheval) [garrot]
et un gilet pied de poule.

Je désirais m'assoir (de cheval) [mâchoire]
et tu m'amenas au (de cheval) [naseaux]
canapé en rotin (de cheval) [crottin]
et mon cœur, vous fumiez mes cigares. [fumier]
N'étais-je pas l'affreux niais, (de cheval) [palefrenier]
qui fourbu s'affaisse (de cheval)? [fesse]
Ça fait rire les groupes (de cheval) [croupe]
ah, comme l'écurie est gaie ! [les culs rient] (aqui, inverte-se a lógica: o segmento relacionado com cavalo é o dito e não o evocado)



P. S.: Boby Lapointe desenvolveu o tema dos trocadilhos equestres, se se pode dizer assim, numa segunda canção com o mesmo fundo musical, « Saucisson de Cheval nº 2 ». O segundo salsichão de cavalo não é em nada inferior ao primeiro, mas não quero abusar da paciência dos meus leitores, pelo que não o transcrevo. A letra é fácil de encontrar na Internet.




04/10/21

Elogio da boa vida em forma de fado

 

Ele era um bom rapaz, trabalhador, 
Um operário leal cumprindo o bem. 
Vint'anos de ilusões brotando em flor 
E uma terna afeição por sua mãe. 
Mas um dia fatal, os companheiros 
Levaram-no à taberna onde parava 
A malta dos vadios e desordeiros, 
Dos quais um à guitarra assim cantava: 

Um fadinho a soluçar 
Faz de nós afugentar 
A ideia da própria morte; 
Mata a dor, mata a tristeza, 
Jacques Alfred Van Muyden (1918–1998): Três músicos romanos numa taberna, s. d.
O fado é bendita reza 
Dos desgraçados sem sorte, 
Tem tal dor e mágoa tanta,
Quando canta uma garganta
De quem vive amargurado,
Que o refúgio preferido
P’ra quem viver dolorido
Está na doçura do fado 

Esta triste canção foi mau agoiro 
Que a vida lhe viesse transtornar 
Tomou gosto à taberna, o matadoiro, 
E em breve deixou de trabalhar (…) 

Parecerá normal a equivalência que se estabelece neste «Fado maldito[1]» entre ser «um bom rapaz» e «cumprir o bem» e ser «trabalhador» e «um operário leal». O louvor — quando não o culto — do trabalho é transversal a quase todas as camadas e grupos sociais, e, pelo menos no mundo em que cresci, só nos estratos sociais mais baixas é que o louvor do trabalho convivia com a apologia da recusa de se deixar aprisionar no mercado laboral e tentar sobreviver doutra maneira, o mais das vezes dedicando-se a alguma atividade ilegal. 
A questão dá pano para mangas. Mas, se não se pode —pelo menos na praça pública — aceitar o elogio do não fazer nada como modo de vida, que vergonha!, pode-se certamente aceitá-lo como tema humorístico — até porque o humor resulta, em geral, de uma perturbação na normalidade das coisas, não é verdade? E então, se há fados como o que cito acima, que fazem corresponder à perdição a vida de boémia e o não querer trabalhar, também há outros em que desfilam simpáticos mandriões que suscitam no ouvinte mais simpatia que reprovação. 
Preguiça é a palavra que costuma definir este topos humorístico. Evidentemente, nestes fados, não há nunca uma tomada de posição política[2]: a recusa do trabalho é sempre apresentada como um (simpático) defeito de carácter. Um traço de personalidade, enfim. Pelo que nos canta Joaquim Cordeiro, em «Trabalho, vai-te embora[3]», a preguiça é até hereditária. Mas o mais curioso neste fado é que sugere que a profissão ideal para quem não quer fazer nada é a de ator — uma profissão, ainda assim, demasiado trabalhosa para um mandrião que se preze, como a personagem da canção.
Vejo pás e picaretas
Nos buracos da Avenida; 
E vejo a Rua das Pretas
Cada vez mais encardida;
Vejo a malta a protestar,
Porque o Benfica perdeu; 
Vejo tudo a trabalhar, 
Quem não trabalha sou eu

Trabalho, vai-te embora, 
Ai de mim, estou tão cansado. 
Isto de ser calão já é meu fado 
Ficou escrito no vento este dilema: 
Nem que me levem para o cinema 
 P’ra ser galã dos mais catitas, 
Ser um bijou bonito e fazer fitas... 
Ai de mim que não consigo fazer coisas tão esquisitas! 

Oiço gritos, correrias, 
Quando aparece um emprego.
Acordo todos os dias
E ainda não fui ao prego.
Já dizia a minha mãe: 
«Filho, não te dê cuidado, 
Que o teu paizinho também
Tinha nascido cansado». 
Outro fado de Joaquim Cordeiro sobre este tema da preguiça é «Bendito seja o descanso[4]». Trata-se aqui de uma anedota em verso, com um desfecho bem achado. Acho curioso que o Chico Malhado ponha a questão do trabalho em termos de gosto. Quase se pode descortinar nos dois patuscos mandriões uma postura aristocrática.
De corpinho estiraçado,
À sombra de uma figueira, 
Estava o Chico Malhado 
Mais o Baltazar Pintado 
Dois campeões da lazeira, 
O Malhado a bocejar, 
Passando as mãos pelo rosto.
Perguntou. «Ó Baltazar,
Quem gosta de trabalhar,
Não achas que tem mau gosto?»
«Camarada mandrião», 
Diz-lhe o outro com ripanço,
«Tens muita e muita razão,
Sou da tua opinião,
Bendito seja o descanso!!... 
Trago um projecto na mente 
Carrega-se unicamente 
Num botão e, de repente, 
Aparece tudo feito.»  
Diz o Malhado: «Isso, amigo,
É uma grande invenção,
Mas escuta o que te digo:
Não deves contar comigo
P'ra carregar no botão!»
Um outro fado que é também uma anedota versificada sobre o mesmo tema é «Os Preguiçosos[5]». Na minha opinião, o fado é notável pela frase «com dotes colossais p’ra descansar», um verdadeiro achado retórico, mas o desfecho da história assenta num jogo de palavras simples e conhecido.
Stock image. Autor, título e data desconhecidos.

O Chico Barnabé e o Zé Ramalho, 
Com dotes colossais p’ra descansar, 
Se um não gostava nada do trabalho, 
O outro tinha raiva em trabalhar.
E assim andavam neste rodopio, 
Dois amigos leais da boa vida
E, p’ra não aturarem senhorio, 
Pernoitavam nos bancos na Avenida.
Mas certa noite em que pernoitavam,
Um polícia de giro ali passou.
Por fim, enquanto os dois se espreguiçavam, 
O guarda ao Barnabé assim falou: 
«Diga-me qual a sua profissão 
E responda-me já, sem fantasia!» 
«Pois saiba que trabalho, pois então, 
Na firma Boavida & Companhia.» 
«E você?», diz o guarda ao Zé Ramalho,
«Diga-me sem mentir, responda já!» 
«Pois bem, fique sabendo que trabalho 
E estou na mesma casa onde este está!» 
A expressão boa vida é a chave deste meu breve devaneio. Geralmente, a anteposição do adjetivo ao nome fá-lo perder a sua função qualificativa: um grande homem não é um homem que é grande e por aí adiante. Não vou entrar aqui em pormenores — mais por preguiça que por outra razão qualquer. Uma vida boa pode significar uma vida sem problemas de saúde ou de dinheiro, uma vida interessante, folgada, com boas condições… de vida, precisamente, uma vida… boa, enfim; e uma vida má é o contrário disso: doença, miséria, problemas de toda a sorte. Já a boa vida não é o contrário da má vida. Muitas vezes, as expressões são quase sinónimas. A má vida é a vida da personagem decaída do primeiro fado deste texto. Mas essa má vida é, afinal — e pelo menos no que diz respeito a não trabalhar – a boa vida. Talvez não seja esse o caso do protagonista do «Fado maldito», não sei, mas, com alguma sorte, esta (má/boa) vida pode ser até ser uma vida boa.

______________
[1] Raúl Ferrão, sobre versos de Pedro Bandeira e Álvaro Leal. Mais aqui
[2] Quando digo «tomada de posição política », estou a pensar no célebre «direito à preguiça«, defendido por Paul Lafargue, na obra com esse nome de 1880, em que se defende que o natural da espécie humana é a procura do prazer e não o amor ao trabalho, que ele considera «um dogma desastroso» e uma «estranha loucura», quando vindo da classe trabalhadora, e que é, segundo ele, «a causa de toda a degenerescência intelectual e de toda a deformação orgânica». Ora, preguiça é uma palavra curiosa, porque não define, em princípio, a recusa de um trabalho formal, apenas o excesso de inércia e de falta de iniciativa. Na realidade, muitas das atividades dos «malandros« que vivem fora do trabalho formal não se prestam em absoluto para preguiçosos, mas isso é outra história. Note-se, a propósito, que a expressão «mulheres de vida fácil» que antigamente se usava para se designar as trabalhadoras sexuais — e que remete também para a «boa vida» que se discute neste texto — dá-nos conta de que o trabalho sexual estava também incluído no «não (querer) trabalhar». 
[3] Uma versão do célebre “Saudade, vai-te embora”, de Júlio de Sousa. Desconheço o autor da letra da versão humorística.
[4] Com versos de Armando Coutinho Dias e música do «Fado Patolas» (de Alcídia Rodrigues, ao que consigo descobrir).
[5] Com letra de Aureliano Lima da Silva e música do «Fado Margaridas», dos irmãos Casimiro e Miguel Ramos

08/01/15

Je suis Charlie moi aussi

Acompanhei as notícias sobre o ataque ao Charlie Hebdo desde o início e nunca mais me decidia a escrever um texto sobre ele. Como acontece muitas vezes, houve muito quem dissesse mais depressa e melhor que eu o que eu queria dizer: a monstruosidade do ataque, de todos os ataques assassinos; o horror das motivações e os perigos das consequências; a necessidade de distinguir a religião do crime, porque os deuses, por cruéis que possam ser, nunca puxam gatilhos reais, só as pessoas sabem ser desumanas dessa maneira; o circo ridículo das teorias da conspiração; a importância de não sucumbir ao medo, mesmo sabendo que do medo ninguém decide; tudo isso. Vi muita gente que nunca gostou do Charlie Hebdo e que com certeza não se revia na sua sátira, referir agora como heróis os seus jornalistas e caricaturistas; vi outros tentarem desimportantizar o horror, «assassinatos há tantos… de tantos tipos…», como se algum horror se possa desimportantizar por haver outros horrores; e vi a explosão da revolta em centenas de solidários e irreverentes cartunes.

Teria ficado abalado pela morte de Wolinski e Cabu, nem que tivesse sido natural e pacífica. «Se tivesse sido feito por um louco e não por islamistas, não se falava tanto do ataque” é um dos muitas provocações que me puseram à frente. Todos sabemos que a importância de uma morte não depende só da causa, mas também de quem morre e, às vezes, como. As vidas de Wolinski e Cabu valiam exatamente o mesmo que as vidas dos outros assassinados e as de qualquer outro ser humano, mas eles eram, para muitos, também símbolos importantes. Daniel Cohn-Bendit disse numa entrevista ao Libération que foi “uma das últimas formas do espírito de Maio de 68 que foi assassinada.” Também é isso. “O que é aqui atacado”, continuou ele, “é o direito à crítica radical de todas as religiões. Charlie Hebdo é o radicalismo anticlerical, foi por isso que foram mortos.” Conheci muito mal o Charlie Hebdo da nova geração, de 1992 para cá. Aliás, nem posso dizer que conhecia o trabalho de Charb, Tignous e Honoré. Mas a irreverência radical de Wolinski e Cabu (como a de Cavanna, Reiser ou Willem, por exemplo) fizeram sempre parte do meu mundo natural, desde os tempos da revista Hara-Kiri.

Dizia-me ontem um amigo que os cartunistas e os outros assassinados tinham morrido em combate. Uma das coisas que o fanatismo religioso faz, seja ele qual for, é literalizar metáforas. Na interpretação dos textos sagrados, mas não só. Muitos cartunes que surgiram na onda de pesar e solidariedade que se seguiu ao crime assentam na ideia do cartune como arma – a que se opõem as armas reais – e é a literalização dessa ideia que justifica, na mente dos assassinos, o ato criminoso. É muito difícil jogar com o segundo sentido, se tudo for compreendido literalmente”, disse uma vez Charb. “Não tenho a impressão de degolar ninguém com uma caneta de feltro”. A arma do cartune não tira vidas nem se destrói com balas. É ao contrário: neste caso, o terror vem dar novas munições ao humor desenhado. O combate dos que foram ontem assassinados há de continuar nos cartunes, mas é importante que continue cada vez mais fora deles. Não queremos nem este nem nenhum terror, nem este nem nenhum fascismo. E ignoremos, para nos unirmos nesta recusa, a divergência das razões que há para dizer “je suis Charlie”: Je suis Charlie moi aussi.

18/11/13

Uma injustiça… ou O que se diz, quem o diz e quando…

É difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. 
A frase é conhecida em múltiplas traduções e atribuída a muita gente, mas parece provável que tenha origem escandinava. O autor, não se sabe ao certo quem tenha sido…

A frase dinamarquesa é Det er svært at spå, især om fremtiden e o verbo spå descreve, na origem, o que fazem bruxos, adivinhos e videntes: “adivinhar o futuro” (atualmente, significa também fazer profetizar sem auxílio de artes mágicas de tipo nenhum…). Uma tradução mais literal da frase seria “É difícil profetizar, sobretudo o futuro.”

Muitas vezes, a frase é atribuída ao físico Niels Bohr ou ao humorista Storm P. (Robert Storm Petersen), mas eles parecem não ter feito mais que repetir o brincalhão aforismo, que era já conhecido na altura. O político K. K. Steincke refere a expressão num livro de memórias de 1948, dizendo que ela tinha aparecido no parlamento dinamarquês entre 1935 e 1939. Há, porém, um registo mais antigo de uma frase semelhante, que poderia estar na origem da piada dinamarquesa: o norueguês Fredrik Paasche teria escrito em 1918, num artigo no jornal Samtiden, “Det er en vanskelig sak å spå om fremtiden”, “É coisa difícil profetizar o futuro”. Talvez a tradução portuguesa soe apenas a redundância, mas, a julgar pela maneira como a frase é referida na discussão da origem da expressão, parece que, em “escandinavo”, soa claramente a dito espirituoso e não a erro.

Nem imaginam o que se tem escrito sobre a origem desta frase*… Agora, o que eu quero com esta conversa toda é dar conta de uma injustiça: se for Niels Bohr ou Storm P. a dizer uma coisa assim, acham todos muita graça à boutade (pois, pois, boutade, para ser mais fino); se for o João Pinto a dizer que só faz prognósticos no fim do jogo, a reação é logo outra… Já viram como vocês são?
______________
* Para não vos mandar para páginas em dinamarquês ou norueguês, eis um resumo da discussão em inglês (com uma incorreção pelo meio, felizmente notada nos comentários). Este texto tem um bónus no fim, um delicioso excerto de um discurso de Michael Berry sobre a atribuição de ideias científicas.

26/10/12

Das fontes inesgotáveis de carne ou Les grands esprits se rencontrent

Traduzo um texto do grande Alphonse Allais [1]:
Quando ouvi a história, veio-me aos lábios um sorriso incrédulo e vieram-me avivar o olhar pequenos lampejos de troça. Cap, o meu interlocutor, não reagiu. Limitou-se a chamar o empregado do bar e a pedir “Two more” que é a maneira americana de dizer: “Pode servir-nos outra vez a mesma coisa” ou, de forma mais clara, “Outra rodada”. O empregado serviu-nos mais dois mint-julep.
Conheço o capitão Cap há já bastante tempo. Aconteceu-me muitas vezes encontrá-lo num desses numerosos american bars que há nas imediações da nossa Opéra nacional e da Igreja da Madaleine. Estou acostumado às suas hipérboles e às suas lérias, mas esta história, sinceramente, ultrapassava os limites do gracejar canadiano. (Os canadianos, encantadoras crianças, aliás, são, por assim dizer, os gascões transatlânticos e Cap tem muito do caráter canadiano.) Contava-me Cap, com toda a serenidade, que tinham acabado de descobrir, a seis milhas de Arthurville (na província do Quebeque) uma mina de carne assada a céu aberto! Eu tinha ouvido bem e é isso mesmo que o leitor acaba de ler: uma mina de carne assada a céu aberto! Uma mina de meat-land (terra de carne), como eles dizem por lá.
Resolvi tirar a coisa a limpo e, na manhã seguinte, dirigi-me ao Consulado Geral do Canadá, no Nº 10 da Rue de Rome. Na ausência do Sr. Fabre, o amável cônsul, fui recebido – com toda a gentileza, há que o dizer – pelo seu filho Paul e pelo ilustre Maurice X ..., um jovem diplomata de grande futuro.
– A meat-land! – exclamaram os dois cavalheiros. – Mas não há nada mais verdadeiro! Como? Não acredita na meat-land?
Tive de confessar o meu ceticismo. Os dois senhores tiveram a amabilidade de me informar sobre o assunto e fiquei a saber que o capitão Cap não tinha de modo algum exagerado.
Nas proximidades de Arthurville, existia, em plena floresta virgem (era virgem nessa altura), uma enorme ravina em forma de arena, formada por rochas íngremes e atapetada (como os nossos Alpes) de milhares de espécies de ervas aromáticas, tomilho, alfazema, louro, etc. Esta floresta era habitada por veados, antílopes, corços, coelhos, lebres, etc. Ora, num dia muito quente e extremamente seco, começaram a arder essas grandes matas e o fogo rapidamente alastrou por toda a região. Assustados, os pobres animais fugiram, procurando abrigo contra a catástrofe. E ali estava o barranco, com suas rochas escarpadas, mas incombustíveis. Os animais acreditaram ter encontrado a salvação! Não tinham contado com a enorme temperatura gerada pelo monumental incêndio. Veados, antílopes, corços, coelhos, lebres, etc., saltaram aos milhares para o que acreditavam ser a salvação e o que encontraram foi a morte por asfixia.
Os animais não só morreram, como também assaram. Enquanto a temperatura não voltou ao normal, toda esta carne ficou a cozer no seu próprio molho (como se faz no processo de cozedura a que se chama estufado). As matérias pesadas – ossos, chifres, pele – foram-se depositando devagar no fundo deste tacho gigante. A gordura, mais leve, veio ao de cima, e solidificou à superfície, formando, assim, uma camada protetora. As ervas aromáticas, por outro lado (como as dos nosso Alpes), temperaram este pâté e fizeram dele um delicioso petisco.
Há que acrescentar que será instalado em breve em Paris, no vasto edifício na esquina da Rue des Martyrs com o Boulevard Saint-Michel, um entreposto de comercialização de meat-land. Está a ser criada uma empresa para exploração desta substância única. Voltaremos a este assunto, uma questão de primeiríssima ordem, para a qual chamamos desde já a atenção das pessoas de economia mais modesta.
Agora, mais carne que uma mina de carne tem um planeta de carne. É muito possível que Carl Sagan nunca tenha lido Allais. Muitas vezes, como diz o provérbio francês, os grandes espíritos encontram-se [2].


Ah, a (des)propósito: como talvez saibam, foi recentemente descoberto um planeta "de diamante". Os trocadilhos sobre como essa descoberta nos veio enriquecer são inevitáveis, mas a verdade é que, como há sempre alguém a recordar-nos, os diamantes não se comem...
______________________

[1]  Alphonse Allais, Le Captain Cap, 1902. Trata-se do Capítulo III. – Em que se descobre a existência de Meat-land: por outras palavras, terra de carne, rica mina de carne assada a céu aberto, localizada perto de Arthurville (província do Quebeque). O original francês está disponível na Wikisource. Podem ler uma biografia de Alphonse Allais na Wikipédia e, se souberem francês, proponho-vos duas páginas com textos do grande humorista, uma com alguns dos seus achados "líricos" e outra com vários contos.
[2] Peço desculpa a quem não saiba inglês, mas não traduzo o vídeo; senão, nunca mais publico este post... Além do filme, existe um site sobre o Planeta de Carne, com toda a sua história.

07/11/11

Livros em segunda mão #2: Storm P. 1940-1948 [Crónicas de Svendborg # 6]

Comprei numa feira da ladra em Svendborg, pela módica quantia de 10 coroas*, um livro chamado Robert Storm Petersen, Desenhos e textos 1939-1949. Ninguém conhece Robert Storm Petersen por este nome – é Storm P. que lhe chamam e era também assim que assinava textos e desenhos. Figura de culto, Storm P. é, para mim, sobretudo uma figura estranha: irregular no traço e nas piadas, tem desde desenhos muito bons a desenhos bastante sofríveis e o mesmo se pode dizer das suas graças, que são às vezes muito engraçadas e outras vezes sem graça por aí além. Mas fez um pouco de tudo e foi às vezes pioneiro nesse um pouco de tudo que fez: banda desenhada, por exemplo, e animação. Há também quem defenda que é ele, e não Yogi Berra, o autor daquela frase célebre que se usa muito em conversas sobre futebol, “É difícil fazer previsões, sobretudo sobre o futuro”. Deixo-vos aqui alguns cartoons que tirei do livro que comprei numa feira da ladra em Svendborg, pela módica quantia de 10 coroas, lembram-se?
O globo tem vindo a tomar uma nova forma, 
mas não foi ainda decidido que forma será ao certo… (1940)

Isto seria mesmo horrível, 
se não fosse por prazer (1940)

– Mas afinal, Péricles, o que é profundidade?
– É quando uma pessoa fica calada e franze o sobrolho. (1941)
– Ouve, Teseu, isto agora já não dá para pedir uma ajuda para um cafezinho.
– Não, o melhor agora é dizer que é para meia dúzia de ostras. (1942)
– Plantam-se todos os anos 50.000 árvores de fruto, 
mas há que esperar 5 anos até começarem a dar fruto.
– Porque não as plantam cinco anos antes, então? (1943)
– Como agora se conseguiu fabricar uma bomba que destrói tudo, 
torna-se, pois, necessário fabricar outra bomba que consiga destruir a primeira.
– E temos finalmente paz.
–  Sim – só falta agora é cerveja (1945).
– Não é fácil, porque, quando se arranja num lado, estraga-se noutro. (1948)
_______________
* No meu tempo, 10 coroas eram 5 escudos, mas isso são outras quinhentas... Outras coroas, seja. E que presunção, no meu tempo, como se eu alguma vez tivesse tido um tempo meu...

21/08/11

Cantar anedotas

Um rei de Espanha, ou então de França tinha um calo num pé. Era no pé esquerdo, penso eu. Coxeava que metia dó. Os cortesãos, gente hábil, esforçaram-se por imitá-lo e, uns com o pé esquerdo, outros com o direito, aprenderam todos a coxear. Depressa se tornaram evidentes os benefícios de uma moda assim e, da antecâmara aos gabinetes, toda a gente coxeava.
Um dia, um nobre da província, esquecendo a seu novo dever, passou diante do rei, firme e direito como fuso. Começou toda a gente a rir, menos o rei que, baixinho, murmurou:
“Senhor, que quer isto dizer? Não vos vejo coxear…”
“Equivocais-vos, Majestade… Tenho os pés repletos de calos, vede! Se caminho mais direito do que os outros, é porque coxeio dos dois pés.”
Contado assim, é uma anedota, não há dúvida nenhuma. Podem achar-lhe graça ou não, mas é óbvio que é uma anedota. O que é curioso é que é, de facto, uma canção, originalmente em quadras, com métrica e rima emparelhada perfeita, mas que eu, para lhe deixar claro o caráter prosaico, resolvi traduzir em prosa [1]. A canção é de Gustave Nadaud, que, segundo uma página do site Dialogus, «foi um cantautor prolífico e muito famoso no seu tempo. Além de romances, ópera e poemas diversos, compôs mais de 300 canções, geralmente ligeiras e divertidas, às vezes sentimentais, muitas das quais foram publicadas em três volumes. Foi o primeiro cantautor a ser condecorado com uma ordem nacional, na altura do Segundo Império. Um dos feitos que lhe trouxe maior fama foi ter feito publicar, em 1884, as obras do communard Eugène Pottier, autor d’“A Internacional”».
Agora, a fama de Nadaud não se manteve até aos nossos dias, e eu nunca teria conhecido esta canção se Brassens não tivesse agarrado na letra (por alguma razão, não quis aproveitar a música…) e a tivesse musicado e cantado.
Georges Brassens, “Le roi boiteux”, 1979

Conheço muitas canções que são verdadeiras anedotas, mas esta é das poucas anedotas cantadas que conheço. Há dezenas de formas relativamente codificadas de canção humorística, mas a anedota cantada é muito rara. Percorram mentalmente o repertório dos cantores ou dos compositores de canções humorísticas que conhecem, e vejam lá se não me dão razão[2]. O que não quer dizer que seja esta a única anedota cantada. Conheço mais umas quantas... 

Em relação a esta do rei coxo, não sei se Nadaud musicou uma anedota que ele conhecia ou se inventou ele a anedota. Há casos, no entanto, em que tenho a certeza de que os autores se limitaram a transformar em canção uma anedota já existente, porque eu já conhecia as anedotas antes de as canções existirem. Um destes casos é o da “Chanson dégueulasse”, de Renaud, que de tão dégueulasse e tão sem graça, me recuso aqui a contar.  Outro é daquela anedota já velha que os Sparks musicaram no álbum Lil’ Beethoven e que eu acho que não produz o devido efeito na minha pobre tradução: Um homem pergunta a um transeunte o caminho para o Carnegie Hall: «Desculpe, como é que eu daqui chego ao Carnegie Hall?» «Pratique, senhor, pratique, é preciso ensaiar muito!», responde o outro. Bom, está bem…

Sparks, “How do I get to Carnegie Hall?”, 2002

Melhor que essas todas é uma canção-anedota nacional de que eu tenho pena de não saber a letra completa para a pôr agora aqui. Era cantada, se a memória me não falha, pelo Duo Humorístico Crispim e é a história de dois grandes mandriões que estão a bater uma sorna à sombra de uma árvore. De repente, um deles acorda excitado e desperta o outro:
«Eh, pá, tive um sonho maravilhoso! Sonhei que tinham inventado uma máquina que, com ela, um gajo já não precisava de fazer nada – era só carregar num botão e aparecia tudo feito!»
«Grande máquina, sim senhor, uma coisa assim dava um jeitão!», responde o outro, ensonado. «Mas ouve lá, não estás a contar comigo para carregar no botão, pois não?»

Há temas de canções mais típicos de certos países que doutros. O louvor da preguiça é, sem dúvida, um tema bem português. Pois, a saudade, pode ser… Mas muita preguiça também. No fundo, a preguiça é também um forma de saudade – saudade daquela Idade de Ouro primordial em que um gajo vivia sem ter de vergar a mola… Ou saudades do futuro, como dizia o outro, do tal futuro perfeito em que terá sido inventada[3] a máquina que faz tudo… carregando-se só num botão!
Pois… Ou, como diz outra canção que há, «O que é que querem? / São os ócios do ofício!»
Agora, para não ficarem a pensar que me levo muito a sério a mim mesmo e que acredito que o louvor da preguiça é mesmo uma particularidade da canção portuguesa, posso dizer-vos que Aristide Bruand, um dos mais importantes cantautores franceses[4], escreveu por volta de 1900 um monólogo chamado Lézard, em que faz a apologia de chular a irmã e o cunhado, em nome do direito a não fazer nenhum: «Uma pessoa ganha hábitos aos quinze anos / depois cresce e já não os perde / E eu gosto é de xonar / e não gramo trabalhar / Trabalhar é uma chatice.»
Tirando isso, houve mais gente boa da chanson, como Henry Salvador (uma vez até em colaboração com Boris Vian) ou Georges Moustaki, a fazer, uns mais a sério  do que os outros a brincar, o elogio do sagrado ripanço…
_______________
[1] Assim mesmo: para lhe deixar claro o caráter prosaico, traduzi-a em prosa. Ou pensavam que era sem querer?
[2] Quando falo de anedotas, não falo de uma piada qualquer, nem sequer de uma letra narrativa humorística, mas sim de uma história com um desfecho que cria um efeito cómico – em princípio, visando provocar a gargalhada, mas, vá lá, no mínimo, um sorrisinho...
[3] Notem que a forma verbal “terá sido inventada” é um futuro perfeito passivo, como convém à conversa…
[4] De Aristide Bruant, muitas pessoas conhecem o retrato feito por Henri de Toulouse-Lautrec, mas desconhecem as centenas de canções que compôs… Pois vale a pena conhecê-las!

12/12/10

O que nem a brincar se diz e o que a brincar nunca se sabe se se diz ou não

Tantas vezes que me tem acontecido: eu achar que uma piada é a troçar de uma coisa e a pessoa a meu lado julgar que é a troçar de outra. Até já vi gente zangar-se, e muito!, por não concordar sobre aonde pretende chegar uma graça: uma pessoa, que interpreta a graça de uma certa maneira, acha que graças assim não têm gracinha nenhuma; a outra, que a interpreta de outra maneira, diz-lhe que é patetice não achar graça à tal graça… Uma das questões que se coloca frequentemente em relação a cartoons, sketches de comédia e outras intervenções de sátira moral, de costumes ou directamente política, é que são, de facto, interpretados de diversas maneiras, algumas antagónicas entre elas...
O que é ao certo o humor, não sei dizer. Uma ideia que me parece produtiva, no entanto, para explicar o que nos faz rir é a de que o humor surge da quebra da ordem de coisas considerada natural pela pessoa que ri – contanto que essa quebra da ordem natural não cause real sofrimento: uma pessoa que escorrega numa casca de banana e cai faz rir, se não ficar desmaiada ou cheia de sangue.
Como a ordem natural de certas coisas não é a mesma para toda a gente, o que é, para alguns, quebrá-la não o é forçosamente para outros. Isto pode estar relacionado com a cultura de cada um, em sentido lato, mas também pode ter que ver exclusivamente com, por exemplo, os conhecimentos, a ideologia e os sentimentos do indivíduo – a cultural no sentido mais pessoal que a palavra possa ter. Um exemplo do que acabo de afirmar: o grupo Les Luthiers fez uma experiência interessante de humor musical: sobrepor, no tema “Concerto grosso alla rustica”, uma peça barroca, tocada com uma orquestra de cordas, e uma música de tipo popular andino, tocada com instrumentos tradicionais (não é, note-se, uma peça de humor em que se pretenda dar uma opinião, mas estou agora a falar de uma característica geral do humor).



As reacções que tenho observado à peça vão desde desatar à gargalhada (reacção de muita pouca gente, com alguma educação musical e que conhece bem os dois tipos de música que ali se fundem) até ficar perfeitamente impassível, sem perceber o que se pretende com aquilo (reacção da grande maioria das pessoas).  
Além disso, não basta que a obra humorística nos provoque estranhamento, temos de reconstruir a ordem pervertida para perceber a piada. Essa reconstrução pode levar também diferentes pessoas a diferentes ideias do que foi destruído, consoante os seus pressupostos ideológicos ou culturais, e a que compreendam, pois, a piada de diversas maneiras. Creio, por exemplo, que a leitura de alguns cartoons de Dan Pararo relacionados com questões religiosas depende da posição de quem vê o cartoon relativamente a estas questões.

Embora provavelmente certos cartoons deixem menos espaço para várias interpretações do que outros (não é o caso deste último, relativamente aos quatro anteriores pelo menos na resposta à pergunta: “Este cartoon é contra a religião ou contra o ateísmo?”), a ambiguidade nunca desaparece completamente. Não quero dizer com isto que o humor implique forçosamente, como nestes exemplos, a possibilidade de leituras plurais. Apenas que pode perfeitamente trazer agarrada a ele essa possibilidade – e a traz de facto muitas vezes agarrada.
Outra questão é a do limite da gravidade que bloqueia o humor. Para diferentes pessoas, situa-se em diferentes pontos a fronteira onde a gravidade dessa quebra da ordem natural deixa de fazer rir para provocar vários tipos de reacções negativas, desde o puro estranhamento ao incómodo ou à repulsa. Dito de outra forma, variam também ideológica e culturalmente os limites daquilo com que se pode brincar – ou daquilo que pode fazer parte de brincadeiras, mesmo que não seja o seu objecto central.
Estava no outro dia a ouvir o álbum Beleléu, leléu, eu, de Itamar Assumpção e a pôr-me esta questão relativamente à canção “Luzia”). 

A letra da canção é a seguinte:
[Falado, várias vozes de mulheres:] Olha aqui, Beleleú! Tá limpo coisíssima nenhuma, meu, não tô mais afins de curtir a tua e nem ficar tomando na cara, essa de ficar na de que o Brasil não tem ponta direita, o Brasil não tem isso, o Brasil não tem aquilo, que black navalha é você, Beleléu? Tá mais é parecendo chamariz de turista e isca de polícia, onde tá tua malícia, meu, onde tá tua malícia?
[Voz de homem, cantado:] Deixa de conversa mole Luzia  / Porque senão eu vou desconsertar a sua fisionomia / Porque senão eu vou desconsertar / Você quer harmonia mas que harmonia é essa Luzia? / Só me enche o saco (só chia, só chia) / Me obriga à mais cruel solução / Desço pro porão da vil covardia, mas te meto a mão / Chega de conversa mole, Luzia / Eu sei que tua mãe já dizia, é mais um / Malandro talvez ladrão / Já não chega a sogra e agora a cria, que decepção / Você nem vai ter o prêmio de consolação / Quando eu pintar, trazer a taça de tetracampeão / E uma foto no jornal / Chega pra lá Luzia, ainda vou desfilar / Tetracampeão Luzia, porta estandarte
O tom de música e letra leva nitidamente a/o ouvinte a interpretá-la como humorística. Mas o que diz esse humor? O primeiro problema é o da ambiguidade da sátira. O que é que está a ser satirizado? A personagem feminina da canção, a personagem masculina ou ambas? Em seguida, põe-se o problema dos limites do humor: só pode haver humor se a/o ouvinte não interpretar o machismo – e, principalmente, a violência doméstica – como algo tão grave que suspenda toda a possibilidade de fazer rir ou sorrir.
E onde quero eu chegar, então? Quero com isto dizer que não pode exprimir-se opiniões através de anedotas, cartoons e sketches de comédia? Não, pode. Mas, a não ser que sejam muito especiais, tem de se aceitar à partida que aquilo que se quis dizer pode ser – e vai ser, provavelmente… – interpretado também de outra maneira…
***
Nota final a propósito de uma obra recentemente lida, que de humorístico não tem nada:
O problema da ambiguidade da opinião que se quer fazer passar não é, obviamente, só do humor. Também o discurso literário pode ser interpretado de várias maneiras, possivelmente até muito diferentes umas das outras. A ideia é antiga e banal, e não vou repisá-la aqui; mas descreve, a meu ver, de forma eficaz, uma parte importante do fenómeno literário e artístico em geral. Não é esta, no entanto, a única razão possível para limitar a eficácia da literatura como meio de exprimir opiniões morais, políticas ou outras. Outra razão pode ser que a densidade psicológica das personagens ou das pessoas líricas, quando existe, interfira com a mensagem que se pretende transmitir. Dito doutra maneira, revelar a complexidade profunda dos sentimentos e das acções humanas torna-se muitas vezes incompatível com tomadas de posição sobre determinadas questões, porque dilui a distinção do que se apresenta como certo e errado.
Por exemplo, li recentemente The Power and the Glory, de Graham Greene. A história do livro passa-se no México dos anos trinta, na época das perseguições aos católicos por parte do governo de Plutarco Elías Calles, que foram especialmente violentas no Estado de Tabasco, governado pelo feroz anticlericalista Tomás Garrido Canabal. Não tenho dúvidas de que Graham Green tenha escrito a novela com intenções de denunciar as perseguições aos católicos e os crimes de que foram vítimas muitos padres. Apesar disso, como faz uma caracterização psicológica extremamente densa das personagens, vasculhando em contradições universais da mente humana, sejam quais forem as suas convicções, o livro não se pode usar como instrumento político nem a favor de nada nem contra coisa nenhuma. De facto, conforme esteja para isso predisposto ideologicamente, o leitor pode ler nele desde um panfleto contra o militantismo revolucionário anticlericalista até um panfleto contra a própria religião e, sobretudo, a religião católica.
[Escrevi isto antes de saber que, de facto, o cardeal Bernard Griffin tinha condenado a novela acusando-a de “paradoxal” e exigindo que Greene alterasse partes do texto. Deixo aqui um link para uma página com alguns excertos da autobiografia Ways of Escape, em que Greene fala sobre as personagens da novela.]