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8 de janeiro de 2015

Je suis Charlie moi aussi

Acompanhei as notícias sobre o ataque ao Charlie Hebdo desde o início e nunca mais me decidia a escrever um texto sobre ele. Como acontece muitas vezes, houve muito quem dissesse mais depressa e melhor que eu o que eu queria dizer: a monstruosidade do ataque, de todos os ataques assassinos; o horror das motivações e os perigos das consequências; a necessidade de distinguir a religião do crime, porque os deuses, por cruéis que possam ser, nunca puxam gatilhos reais, só as pessoas sabem ser desumanas dessa maneira; o circo ridículo das teorias da conspiração; a importância de não sucumbir ao medo, mesmo sabendo que do medo ninguém decide; tudo isso. Vi muita gente que nunca gostou do Charlie Hebdo e que com certeza não se revia na sua sátira, referir agora como heróis os seus jornalistas e caricaturistas; vi outros tentarem desimportantizar o horror, «assassinatos há tantos… de tantos tipos…», como se algum horror se possa desimportantizar por haver outros horrores; e vi a explosão da revolta em centenas de solidários e irreverentes cartunes.

Teria ficado abalado pela morte de Wolinski e Cabu, nem que tivesse sido natural e pacífica. «Se tivesse sido feito por um louco e não por islamistas, não se falava tanto do ataque” é um dos muitas provocações que me puseram à frente. Todos sabemos que a importância de uma morte não depende só da causa, mas também de quem morre e, às vezes, como. As vidas de Wolinski e Cabu valiam exatamente o mesmo que as vidas dos outros assassinados e as de qualquer outro ser humano, mas eles eram, para muitos, também símbolos importantes. Daniel Cohn-Bendit disse numa entrevista ao Libération que foi “uma das últimas formas do espírito de Maio de 68 que foi assassinada.” Também é isso. “O que é aqui atacado”, continuou ele, “é o direito à crítica radical de todas as religiões. Charlie Hebdo é o radicalismo anticlerical, foi por isso que foram mortos.” Conheci muito mal o Charlie Hebdo da nova geração, de 1992 para cá. Aliás, nem posso dizer que conhecia o trabalho de Charb, Tignous e Honoré. Mas a irreverência radical de Wolinski e Cabu (como a de Cavanna, Reiser ou Willem, por exemplo) fizeram sempre parte do meu mundo natural, desde os tempos da revista Hara-Kiri.

Dizia-me ontem um amigo que os cartunistas e os outros assassinados tinham morrido em combate. Uma das coisas que o fanatismo religioso faz, seja ele qual for, é literalizar metáforas. Na interpretação dos textos sagrados, mas não só. Muitos cartunes que surgiram na onda de pesar e solidariedade que se seguiu ao crime assentam na ideia do cartune como arma – a que se opõem as armas reais – e é a literalização dessa ideia que justifica, na mente dos assassinos, o ato criminoso. É muito difícil jogar com o segundo sentido, se tudo for compreendido literalmente”, disse uma vez Charb. “Não tenho a impressão de degolar ninguém com uma caneta de feltro”. A arma do cartune não tira vidas nem se destrói com balas. É ao contrário: neste caso, o terror vem dar novas munições ao humor desenhado. O combate dos que foram ontem assassinados há de continuar nos cartunes, mas é importante que continue cada vez mais fora deles. Não queremos nem este nem nenhum terror, nem este nem nenhum fascismo. E ignoremos, para nos unirmos nesta recusa, a divergência das razões que há para dizer “je suis Charlie”: Je suis Charlie moi aussi.

7 de novembro de 2011

Livros em segunda mão #2: Storm P. 1940-1948 [Crónicas de Svendborg # 6]

Comprei numa feira da ladra em Svendborg, pela módica quantia de 10 coroas*, um livro chamado Robert Storm Petersen, Desenhos e textos 1939-1949. Ninguém conhece Robert Storm Petersen por este nome – é Storm P. que lhe chamam e era também assim que assinava textos e desenhos. Figura de culto, Storm P. é, para mim, sobretudo uma figura estranha: irregular no traço e nas piadas, tem desde desenhos muito bons a desenhos bastante sofríveis e o mesmo se pode dizer das suas graças, que são às vezes muito engraçadas e outras vezes sem graça por aí além. Mas fez um pouco de tudo e foi às vezes pioneiro nesse um pouco de tudo que fez: banda desenhada, por exemplo, e animação. Há também quem defenda que é ele, e não Yogi Berra, o autor daquela frase célebre que se usa muito em conversas sobre futebol, “É difícil fazer previsões, sobretudo sobre o futuro”. Deixo-vos aqui alguns cartoons que tirei do livro que comprei numa feira da ladra em Svendborg, pela módica quantia de 10 coroas, lembram-se?
O globo tem vindo a tomar uma nova forma, 
mas não foi ainda decidido que forma será ao certo… (1940)

Isto seria mesmo horrível, 
se não fosse por prazer (1940)

– Mas afinal, Péricles, o que é profundidade?
– É quando uma pessoa fica calada e franze o sobrolho. (1941)
– Ouve, Teseu, isto agora já não dá para pedir uma ajuda para um cafezinho.
– Não, o melhor agora é dizer que é para meia dúzia de ostras. (1942)
– Plantam-se todos os anos 50.000 árvores de fruto, 
mas há que esperar 5 anos até começarem a dar fruto.
– Porque não as plantam cinco anos antes, então? (1943)
– Como agora se conseguiu fabricar uma bomba que destrói tudo, 
torna-se, pois, necessário fabricar outra bomba que consiga destruir a primeira.
– E temos finalmente paz.
–  Sim – só falta agora é cerveja (1945).
– Não é fácil, porque, quando se arranja num lado, estraga-se noutro. (1948)
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* No meu tempo, 10 coroas eram 5 escudos, mas isso são outras quinhentas... Outras coroas, seja. E que presunção, no meu tempo, como se eu alguma vez tivesse tido um tempo meu...