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23/04/25

De negativas não muito negativas

No aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, há uma escultura de Charles Pétillon chamada Le Phare, «O farol». De um dos lados da obra, há uma placa com uma frase que, presumo eu, o artista ali quis como complemento da escultura: A Paris, il n’y a pas d’heure pour rêver. Como muitos utentes do aeroporto não falam inglês, pode ler-se, por baixo desta frase, a sua tradução para inglês: In Paris, there is always time to dream.
A frase está, parece-me, bem traduzida. À primeira vista, porém, surpreendeu-me que, sendo todos os elementos que constituem as duas frases diretamente correspondentes, a francesa seja negativa e a inglesa não. Depois de refletir um bocadinho, dei-me conta de que são possíveis, em português, duas frases que correspondem, elemento por elemento, à frase francesa e à frase inglesa: «Em Paris, não há hora para sonhar» e «Em Paris, há sempre tempo para sonhar».
Dos muitos significados que hora pode ter, significa aqui – com a preposição para, note-se! – «tempo específico (para); momento destinado (a); período marcado (para)». Curiosamente, na lógica do português e do francês, «não há hora para sonhar» entende-se imediatamente como «pode sonhar-se a qualquer hora» e não como «não existe nenhum período para a ocorrência de sonho». O mesmo, por exemplo, em «não tenho hora para comer», que se compreende como «não como a uma hora certa» e não como «não tenho nenhum período em que coma». Ou seja, «não há hora para x» significa «x pode dar-se a qualquer hora» e não «x não ocorre em nenhuma hora».
Na frase inglesa, tempo significa de facto «tempo suficiente» ou «tempo livre, disponibilidade». Por muito que, como disse, me pareça bem a tradução, as duas frases não são de facto correspondentes: se as juntarmos (ou as proposições que lhes subjazem, seja, aqui «traduzidas» para português), vemos que a inglesa decorre da francesa, mas não ao contrário. Faz sentido a frase «em Paris, sonha-se a qualquer hora, porque há sempre tempo para tal», mas a frase «em Paris, há sempre tempo para sonhar, porque se sonha a qualquer hora» é de uma lógica muito duvidosa...
São duas as morais desta história: uma é que, ao contrário do que muita gente pretende, a língua tem uma lógica que lhe é própria, sem deixar de ser lógica; outra é que Paris tem sorte em se poder lá sonhar a qualquer hora, de lá haver sempre tempo para sonhar – porque há muitos lugares do mundo em que isso não acontece...

27/06/24

No início era o movimento… e o espaço

 

Os sistemas nervosos não surgiram para que, um dia, uma das espécies que os possui concebesse o modelo padrão da física de partículas. É claro, não há nenhum consenso sobre a razão do surgimento dos sistemas nervosos ou do seu desenvolvimento, mas uma das hipóteses mais aceites é que surgiram para controlar movimento, com o que isso implica, claro está, de orientação espacial. Seja como for, e independentemente da razão por que tenham surgido, controlo de movimento e orientação espacial são, sem dúvida, duas das suas funções principais — mesmo em sistemas nervosos tão complexos como o nosso…

Agora, o surgimento e evolução dos sistemas nervosos não é área da minha especialidade e não é bem este tema que quero aqui discutir. A minha intenção é bem mais simples. É sublinhar que a criação de significado na língua — um produto complexíssimo do mais complexo nervoso que conhecemos — parece dar conta do papel primordial do movimento e do que mais diretamente com ele se relaciona, o espaço e a orientação espacial, na nossa atividade conceptual.

«O que é que anda a ler?»
Gravura de JT Smith, 1815. Creative Commons Attribution, daqui
Já alguma vez repararam na quantidade de palavras para designar conceitos abstratos que são de facto metáforas espaciais? Dizemos que a temperatura subiu muito, que o império romano caiu, que alguém anda um pouco em baixo, fazemos planos para as férias, falamos de pessoas retas… Muitas vezes, como nestes dois últimos exemplos, provavelmente nem nos apercebemos de que estamos a usar metáforas espaciais, porque a metáfora foi criada há muito tempo e aprendemos a aceitar o sentido «literal» e o sentido «figurado» como palavras essencialmente diferentes. Avançar, recuar, prosseguir, regredirevoluir, por exemplo, são também termos originalmente espaciais que produziram significados não espaciais, mas talvez não nos apercebamos disso. Há casos, até, em que a ideia de metáfora espacial não nos vem sequer à cabeça, como, por exemplo, supérfluo, que significa originalmente, em latim, «o que transborda, o que vem por fora», significado que nunca chegou até nós. Uma palavra como antes, que hoje tem tantos significados (de tempo, espaço, preferência) tem, no seu étimo indo-europeu, um significado espacial. O mesmo, muito provavelmente, palavras como com ou porém.  É claro, quando digo metáfora espacial, estou a pressupor que o significado primeiro é o espacial, que é dos conceitos espaciais que derivam os outros conceitos — ou, pelo menos a sua expressão. Mas será mesmo assim? Bom, as consultas etimológicas que tenho feito levam-me a crer que sim, que o significado original dos termos referidos é de facto espacial. 

Estas metáforas são especialmente fáceis de observar no domínio do tempo. Não é disparatado pensar que, antes de se «conceberem» a viajar pelo tempo, os sistemas nervosos se conceberam como viajando no espaço. E na língua — e talvez na organização conceptual da mente, se aceitarmos que, possivelmente, a linguagem a reflete — são também metáforas espaciais que se usam para a expressão (para a organização mental?) do tempo. Dizemos: «Vou fazer o jantar», «Ando a ler um livro muito interessante», «Ela tem um percurso de vida fora do vulgar», «Ele entrou nessa altura», «O jogo começa daqui a duas horas», «O tempo passa depressa» e «Passei a manhã a dormir», «Como vai a vida?», «O exame correu-me bem, «A festa prolonga-se pela noite fora (ou dentro)», etc., etc. Aliás, nem estou a ver muitos termos para a passagem do tempo que não tenham simultaneamente um significado espacial… Mesmo decorrer e transcorrer são originalmente verbos de movimento espacial, por muito que tenham perdido esse significado em português atual. Porque será? Bom, muitos conceitos abstratos são referidos com metáforas de coisas materiais: base, cerne, marco, coração, raízes…, a lista é muito extensa… Talvez se possa considerar que tempo, é, para a mente humana, mais abstrato que o espaço, porque não se vê e porque — voltamos ao princípio — a nossa mente não se desenvolveu para o navegarmos como navegamos o espaço: estamos nele, mas não podemos decidir se avançamos ou recuamos e se mais ou menos depressa*. Talvez seja por isso. 

P. S. Há também estudos que apontam para que metáforas espaciais não expressas linguisticamente funcionem também na nossa mente para conceptualizarmos não só o tempo (as linhas temporais são representadas orientadas da esquerda para a direita), mas também a quantidade, a semelhança, a frequência fundamental de um som e o valor afetivo. Alto é bom, por exemplo, e direita também é bom — para os destros…** É, em suma, um domínio fascinante de reflexão e investigação.

________________

* Dedre Gentner resume aqui esta questão, referindo também outros estudos sobre o assunto. O artigo faz também um bom resumo da questão das metáforas espaciais na conceção do tempo.

** Ver resumo da questão e referência bibliográficas por exemplo neste artigo de B. Pitt e D. Casasanto (2021) 


20/04/24

Ser ou não ser, eis a questão

 

to%20be%20or%20not%20to%20be
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles
And by opposing end them. 

 (W. S., 1601)

Como se costuma avisar à entrada de algumas entradas da Wikipédia (a deselegância estilística é aqui propositada), este texto é sobre o verbo ser e é um texto mais para quem se interesse por coisas de língua; se procura algo sobre a frase de Shakespeare, talvez seja melhor dirigir-se, por exemplo, à Wikipédia, precisamente. Isto não é correr com ninguém, note-se, longe de mim tal ideia! Não, não, fique mais um bocadinho e leia o texto, já agora; talvez até ache graça ao pequeno delírio que se segue…

Este texto é uma versão revista de um texto originalmente publicado aqui a 15/12/10, que deixou de me agradar e que decidi que precisava de ser reescrito. Tentei reescrevê-lo sem usar muitos termos técnicos, mas, quando se fala de língua, nem sempre é possível deixar de usar alguns termos gramaticais e/ou linguísticos — que eu creio, aliás, que a maior parte das pessoas compreende. Também não levo muito longe o rigor linguístico, porque isso não é relevante neste texto.

O que significa ser? Talvez isto vos surpreenda, mas há línguas em que não existe um verbo que corresponda diretamente ao nosso ser. E há outras em que, embora existindo um verbo semelhante ao nosso ser, ele é dispensável em certos tipos de frases. De facto, e no que toca apenas ao significado, o verbo ser às vezes não serve para grande coisa. Por exemplo, se quero dizer «Eu sou português» e dispensar o sou, e disser «Eu português», não deito fora nenhum bocado de significado: toda a gente compreende exatamente o que quero dizer e compreende-o como sendo «Eu sou português», precisamente. O que eu deito fora com essa construção é antes a boa formação da frase em português, que é uma coisa diferente. Em português, essa frase exige um verbo e «Eu português», por muito que se perceba, não é uma frase da língua portuguesa. Nenhuma pessoa de língua portuguesa diz uma coisa assim. Há línguas, porém (como, por exemplo, o russo), em que a omissão de verbo que corresponde a ser é gramatical e omiti-lo é uma maneira normal de construir a frase.

Já o mesmo não acontece na frase «Ela tinha sido professora, quando a conheci», porque, sem o tempo verbal expresso pela forma verbo ser, não se distingue esta frase de, por exemplo, «Ela era professora, quando a conheci», que tem um significado muito diferente. Temos aqui, então, um importante significado de verbo ser e dos verbos do mesmo tipo, chamados cópulas ou verbos copulativos: carregar marcas de tempo, modo e outras categorias da língua, por muito que não tenham um significado específico eles próprios, ou sejam, por muito que não contribuam, por si, para dizer alguma coisa de alguém ou de alguma coisa. Nos exemplos dados atrás, o que se diz de mim é <[ser] português> e o que se diz dela é <[ser] professora>. Aliás, muitas vezes, as construções com o verbo ser correspondem diretamente a construções com outros verbos, que, esses, sim, dizem alguma coisa de alguma coisa ou alguém. Por exemplo, «ensino no Barreiro» ou «dou aulas no Barreiro» significam o mesmo e correspondem a «sou professor no Barreiro».

Podemos, então, ser tentados a pensar que, em termos de significado, e deixando de lado as marcas de tempo, modo, etc., o verbo ser é como um sinal de igual apenas (eu=professor; ele=soldado), mas é, de facto, uma maneira pouco rigorosa de o descrever, sobretudo porque x=y ⇒ y=x (xis igual a ípsilon implica ípsilon igual a xis) e é fácil constatar que a frase «o leão é um mamífero» não significa, como toda a gente sabe, que «um mamífero é o leão».

Há apenas um tipo de frases, chamadas equativas, que têm a propriedade especial de se poder nelas trocar livremente o que fica dos dois lados do verbo ser sem alterar em nada o sentido: «a Ana é a professora de português da minha irmã» é o mesmo que «a professora de português da minha irmã é a Ana». Só nestas frases, em que ser liga duas expressões com artigo definido é que o verbo ser funciona como um sinal de igual. (A questão é de facto mais complicada, mas não a desenvolvo aqui.)

Nos outros casos, acho que, a ter de escolher um símbolo simples para representar o significado de base do verbo ser preferia uma flecha a um sinal de igual – o que se diz de alguma coisa ou de alguém tem uma direção (eu <= professor; ele <= soldado). Há um sujeito de quem se diz alguma coisa («eu», «ele», «a Ana»…) e um predicativo que diz (predica) alguma sobre o sujeito («professor», «soldado»…) Este predicativo pode ser um nome («professor»), um adjetivo («bom», «alto»…) ou um sintagma preposicional, ou seja, introduzido por uma preposição: «para brincadeiras», em «Ela não é para brincadeiras», ou «de madeira», em «A mesa é de madeira», por exemplo.

Aparecem na frase anterior dois daqueles termos gramaticais, sujeito e predicativo, que não são fáceis de evitar num texto destes; e a palavra sujeito, que toda a gente conhece, merece aqui uma breve discussão. Não sei se alguma vez pensaram nisso, mas dizer-se, como me diziam os meus professores da primária, que é «quem pratica a ação» é uma definição de sujeito que funciona muito mal. Sujeito significa «submetido» («Estavam sujeitos às intempéries» ou «Eram sujeitos da coroa»); sujeito é o que subjaz, o está por baixo: de facto, na origem, sujeito significa «quem sofre a ação» e não «quem pratica a ação». Mas, claro, como as palavras da gramática deram muitas voltas até chegar ao seu uso atual e, por causa dessas muitas voltas, são muitas vezes enganosas, também se chama agora sujeito ao agente, aquele que faz alguma coisa. Digamos que há muitos tipos de sujeitos, aqueles que fazem coisas, aqueles a quem acontecem coisas, aqueles em que se passam coisas, aqueles a quem os outros fazem coisas, etc.

É bom ter isto em mente quando se fala do verbo ser, porque os sujeitos do verbo ser nunca fazem nada. Às vezes, até parece que fazem, mas não fazem. «Mas ser professor não é fazer alguma coisa?». Sem dúvida que dar aulas é uma atividade — meritória, importante e cansativa —, mas é preciso ver que uma professora é professora mesmo quando está a dormir. O verbo ser usa-se com um predicativo para atribuir qualidade ou características a alguém ou a alguma coisa, não para descrever ações. Quando se quer falar da atividade concreta de dar aulas, não se vai dizer «Ontem, fui professor das 8 às 13».

Voltemos um pouco atrás: o sujeito e o seu predicativo não são, como vimos, intersubstituíveis. Além disso, têm casos gramaticais diferentes. Mais um termo gramatical: os nomes de uma frase estão sempre num caso qualquer, conforme a sua função na frase. Há línguas em que isto é óbvio, porque os nomes têm formas diferentes segundo a sua função. Por exemplo, em finlandês (ou em russo ou em muitas outras línguas), na frase «A Paula viu a Maria», Paula e Maria têm formas diferentes das que têm na frase «A Maria viu a Paula», porque no primeiro caso Paula é sujeito e Maria objeto e, no segundo, passa-se o inverso: a primeira frase é Paula näki Marian e a segunda é Maria näki Paulan. Em línguas como o português, os casos são menos visíveis, mas veem-se no pronome. O pronome que corresponde à pessoa que fala é eu quando é sujeito (caso nominativo), mas é me, quando é objeto direto ou indireto (casos acusativo ou dativo) e mim quando vem depois de uma preposição (caso oblíquo). Quando o sujeito é ela ou ele, porém, já há formas diferentes para o acusativo (o/a) e para o dativo (lhe), mas a forma oblíqua é igual à forma de sujeito (ele, ela): «Ela joga badminton», «Conheço-a bem», «Telefonei-lhe ontem» e «Falei com ela». Estes casos são, em português, iguais para todos os verbos. O sujeito é sempre nominativo, seja ele sujeito de que verbo for: o sujeito de «cortei a lenha» é eu, nesta frase que descreve uma ação minha, exatamente como é eu o sujeito de «apanhei muita chuva», em que eu não ajo absolutamente nada.

Porque é que isto aparece aqui no meio da conversa sobre o verbo ser? Porque as frases com o verbo ser têm algumas características especiais. O predicativo do sujeito é sempre acusativo, como os complementos diretos dos verbos que os têm: «ele é professor» porta-se, neste aspeto, como «ele varre a sala todos os dias», e isto vê-se precisamente no caso: «ele é professor e é-o já há muito tempo» e «ele varre a sala todos os dias e varre-a com uma grande minúcia». Tanto o o como o a destas frases são a forma acusativa do pronome da terceira pessoa do singular. Por isso é que até já houve quem propusesse considerar o verbo ser um verbo transitivo, como varrer, ver ou virar. Mas não funciona, porque este predicativo tem características diferentes dos complementos diretos: quando se transforma em pronome, fica sempre no masculino. Dizemos «a Ana é professora da minha irmã e é-o já há muito tempo» e não «*a Ana é professora da minha irmã e é-a já há muito tempo». Além disso, é com o acusativo que se faz a concordância do verbo, que, noutros tipos de frases, é forçosamente com o sujeito. Como toda a gente sabe, «a vida são dois dias e o Carnaval são três» e não «a vida é dois dias e o Carnaval é três» (por muito que os corretores ortográficos nos queiram às vezes para aí puxar). Como se explicam estas anomalias, não sei. Nem sei se alguém sabe, mas é bem possível que haja explicações que desconheço.


09/02/24

Phrasal verbs, uma coisa inglesa (?)

 

[Este texto não faz sentido para quem não tenha conhecimentos mínimos de inglês, posto que é, precisamente, sobre algum vocabulário dessa língua. Ponho, no entanto, os significados em português das várias expressões e frases, para o caso de o leitor não as conhecer todas.]

Dizia-me há pouco tempo um amigo que uma das coisas que achava mais difíceis em inglês — e que acreditava ser uma das riquezas da língua — eram os chamados phrasal verbs, as combinações de verbos com preposições ou advérbios cujo significado não se pode deduzir do significado dos elementos que as compõem, como put out («apagar», «incomodar», «disponibilizar», «editar», «emitir», «produzir» e mais), put up with («suportar», «aguentar», «aturar») ou put off («adiar», «desencorajar», «desagradar» e mais) — que não se podem deduzir do significado de put, que basicamente significa «pôr». Mas serão os phrasal verbs algo assim tão especial e algo tão idiossincraticamente inglês?  

Quero notar, antes de mais, que phrasal verbs é uma designação muito típica da tradição de ensino de inglês como língua segunda e não tanto da literatura científica, embora haja trabalhos de linguística que abordem o conceito. O dicionário Cambridge define phrasal verb como «um sintagma composto por um verbo com uma preposição ou advérbio ou ambos, cujo significado é diferente do significado das partes separadamente» e dá como exemplos pay for[1] («pagar (por)»), work out («calcular», «resolver», «elaborar», «esgotar», «fazer exercício» e mais) e make up («inventar», «formar», «constituir», «maquilhar», «recuperar», «fazer as pazes» e mais). 

Na secção de gramática que se segue à definição, no entanto, o Cambridge desdiz-se e explica mais em pormenor que (como na sua própria definição acima) a designação se usa muitas vezes para três tipos diferentes de «verbos polilexicais», mas que, com rigor, apenas devia referir um desses tipos, os verbos polilexicais compostos de um verbo principal e uma partícula adverbial, as mais comuns das quais são around, away, down, in, off, on, out, over, round e up[2]. Os verbos preposicionais que selecionam obrigatoriamente uma preposição que os ligue a um objeto não seriam, pois, phrasal verbs em sentido estrito[3]. Exemplos destes «falsos» phrasal verbs são (verbos a itálico e negrito; preposições a itálico e negrito e sublinhadas; e objetos só em itálico) break into (a house), «assaltar (uma casa)»; cope with (a difficult situation), «enfrentar/lidar com (uma situação difícil)»; deal with (a problem), «lidar com (um problema)»; depend on, «depender de», do without, «passar sem», look after (a child), «tomar conta de (uma criança»); look at, «olhar para», look for, «procurar»; look forward to, «ansiar por, aguardar com expetativa», etc. Nestes casos, a preposição vem forçosamente antes do objeto e nunca depois. Tem de se dizer 

Could you look after my bag while I go and buy the tickets? («Pode tomar-me conta da mala enquanto eu vou ali comprar os bilhetes?»)

e nunca

*Could you look my bag after …,

ao passo que os «verdadeiros» phrasal verbs podem ter ou não um objeto e a partícula não verbal do verbo polilexical pode vir antes ou depois do objeto[3]. Eis alguns exemplos, também do Dicionário Cambridge:

She brought up three kids all alone («Criou três filhos sozinha») 

ou 

I brought my children up to be polite («Ensinei os meus filhos a serem bem-educados»).

Normalmente, quando o objeto é longo, vem depois da partícula não verbal:

Many couples do not want to take on the responsibility of bringing up a large family of three or four children. («Muitos casais não querem assumir a responsabilidade de criar uma grande família de três ou quatro filhos»)

Há outras propostas que, seguindo esta ideia, dão definições mais completas e mais restritas de phrasal verb, algumas delas tão completas e tão restritas que excluem da definição uma grande parte das expressões verbais que costumam figurar nas listas comuns destas expressões[4]. A questão não é, pois, nada simples e não tenho vontade nem competência para a desenvolver aqui. Muitas listas de phrasal verbs que por aí circulam, porém, misturam os legítimos e os bastardos sem grande problema — e aceitemos que está muito bem assim…

Agora, o que me parece interessante nas definições mais rigorosas aqui referidas é que são essencialmente morfossintáticas e não semânticas — exceto a definição inicial de que o significado de um phrasal verb «é diferente do significado das partes separadamente». Esta questão interessa-me e quero analisá-la aqui um pouco mais em pormenor, até porque muitos dos exemplos que o Cambridge dá de phrasal verbs não encaixam bem nesta definição. 

Antes de mais quero constatar que o significado de muitos phrasal verbs em sentido estrito decorre muito diretamente do significado do verbo ou do verbo e da preposição ou advérbio que o constitui — mesmo quando isso não possibilita que se os compreenda sem os ter aprendido antes. Mas mesmo esta compreensão é muitas vezes possível. É certo que give up não decorre do sentido de give nem de up, que make out não decorre de make nem de out, mas come out, em qualquer um dos seus sentidos, decorre dos significados de come e de out. O mesmo em relação a go ahead, go after (something), go against (somebody), por exemplo. Take off, no sentido de «despir» decorre também muito naturalmente dos significados dos dois constituintes da expressão – e até no sentido de «descolar» se pode ver uma relação clara do significado da expressão com o significado dos seus elementos constitutivos. Também é duvidoso que o significado de break down, tanto na aceção de «avariar-se» como na aceção de «decompor(-se)», não se possa deduzir do significado dos seus elementos. Na expressão look forward to, embora não se possa deduzir o seu significado dos constituintes, como a definição acima apresentada prescreve, pode claramente ver-se como o seu significado se forma a partir dos seus constituintes. E há muitos mais exemplos. 

A questão é também, obviamente, definir o significado de maneira suficientemente abstrata. Os phrasal verbs nasceram muito provavelmente de um significado inicial abstrato dos elementos que os compõem. Isto, aplica-se, aliás, a todos os sentidos «desviantes» de qualquer verbo: uma definição de comer como «ingerir alimentos sólidos» não explica os muitos usos da palavra, mas uma definição mais abstrata como «ser recipiente de» já pode explicar alguns deles. Se se usar antes uma ideia ainda mais abstrata de incorporação, que implique a posse daquilo de que se é recipiente, mais significados podem ainda ser explicados. Mas isto também não é questão que queira tratar de passagem aqui no meio de um texto sobre phrasal verbs… Voltemos a estes.

Muitas vezes, as partículas não verbais dos phrasal verbs parecem funcionar como marcadores de aspeto e modo de processo: não é o significado que muda, é a «temporalidade» (em sentido lato) que se altera[5]. Alguns deles, sobretudo muitos com up, marcam uma conclusão da ação (perfetividade) e outros, com on, marcam a sua continuação (imperfetividade). Poder-se-ia até argumentar que, em certas situações, certas posposições/advérbios parecem funcionar antes como partícula aspetuais/temporais independentes, livres de se aplicar a certos verbos: como se diz go on ou move on, «continuar, prosseguir»,  também se pode construir livremente jam on, «continuar a improvisar [música]» ou dream on, «continuar a sonhar» e muito mais seguindo este modelo.  Também a partícula around pode ser uma marca iterativa que parece ser independente, usando-se para significar que a ação se repete muitas vezes, normalmente com muitas pessoas, como em call around, «telefonar a um grupo de amigos, clientes, etc., (conforme a situação)», ou sleep around, «ir para a cama com muita gente». É certo que estas palavras não se podem usar livremente com todos os verbos e haveria que definir com rigor quando podem ser usadas desta forma, mas isso é trabalho para especialistas da língua inglesa — uma coisa que eu não sou. 

Até agora, falei só do inglês. Mas é importante notar que, com algumas diferenças estruturais e sem um nome específico, existem também phrasal verbs nas outras línguas germânicas. O dinamarquês, que é a única destas línguas que conheço bem, tem muitos, provavelmente mais que o inglês. Não me vou aqui, porém, adiantar na comparação dos phrasal verbs do inglês com os do dinamarquês ou de outras línguas germânicas que a grande maioria dos leitores do blogue não conhece, por interessante que essa comparação possa ser. Mas podemos assentar nisto: por muito que normalmente só se fale de phrasal verbs quando se fala do inglês, eles estão longe de existir só nesta língua.

Nas línguas latinas, tudo é um bocado diferente. As preposições colaram-se aos verbos ainda em latim e nem nos damos conta de que apreender (e aprender), compreender, depreender e empreender[6] são, originalmente, um mesmo verbo com várias preposições, como admitir, cometer, demitirpermitir, ou consistir, desistir, existir, insistir ou persistir — e dezenas de outros casos. Note-se que o mesmo processo de formação existe nas línguas germânicas, em que a preposição se colou ao verbo que a segue. Nalguns casos, como no inglês outbargain («ficar a ganhar numa negociação ou num contrato») parecerá óbvio aos falantes da língua que se trata de bargain («negociar») antecedido de out, mas ninguém pensa em understand («compreender») como o verbo stand (preposicionado — até porque stand under tem outro significado («erguer-se, estar situado debaixo de»)  — e, evidentemente, estes verbos não são considerados phrasal verbs[7]

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«Comer fora»
James Tissot: La multiplication des pains («A multiplicação dos pães»), 1886-1896. Brooklyn Museum, daqui.
Há, porém, casos de verbos nas línguas latinas que parecem ter as mesmas características que alguns dos ditos phrasal verbs ingleses, na sua definição mais alargada e essencialmente semântica: verbo + partícula => significado não inferível dos dois elementos. Alguns têm até uma construção exatamente igual. Eat out, «comer fora», por exemplo, é igual em inglês, português, castelhano e italiano[8] e count on (something or someone), «contar com (alguma coisa ou alguém)», tem exatamente a mesma forma em francês, compter sur (quelque chose ou quelqu'un), e italiano, contare su (qualcosa ou qualcuno), e formas muito semelhantes em português e castelhano. É claro, pode considerar-se exagerado incluir verbos como eat out nas listas dos phrasal verbs, por muito que ele lá se encontre. A definição de phrasal verb é, como se viu, algo vaga, mas trata-se aqui de mais um exemplo de um verbo com um advérbio cujo sentido decorre bastante diretamente do sentido individual dos elementos que o compõem. É certo que eat out não se refere normalmente a jantar no quintal ou na rua (embora em certas situações até possa referir isso, situações em que, presumo, os dois elementos não são já considerados um phrasal verb…), mas é de comer fora do espaço definido como seu ou como habitual. Se considerarmos eat out um phrasal verb, então comer fora também o é. 

Mas há outros casos mais curiosos, a que parece poder aplicar-se uma definição mais restrita de phrasal verb — desde que não se a limite à presença de um advérbio: correr com («expulsar»), estar para («ter vontade de»), levar com («ser atingido por; ser alvo/vítima de; ter de aturar, aguentar»), olhar por («vigiar, tomar conta de»), passar por («ser tomado por»), poder com («conseguir levantar ou transportar» ou, na negativa, «aguantar»), sair a («herdar características dos progenitores»), para dar alguns exemplos óbvios, mas há mais.   Vejamos o caso de dar, que é, creio, o mais prolífico em português. Assim, (ir/vir) dar a é «conduzir a», dar com é «encontrar, descobrir», dar em é «tornar-se» (restrito a predicações de caráter negativo), dar para pode significar «servir para», «ser suficiente para» ou «ser possível», dar + dativo + com pode significar muitas coisas desde «bater» (deu-lhe com um pau) a «ingerir» (dei-lhe com uma bela feijoada), dar + dativo + para indica o surgimento de uma vontade, estado de espírito ou hábito e dar por significa «notar, aperceber-se de» ou «considerar». 

Mas, mesmo que nos atenhamos à definição restrita de phrasal verb com uma partícula adverbial, ainda somos capazes de encontrar casos em português, além do já referido comer fora: por exemplo (mas há mais), deitar/mandar abaixo, «derrubar» ou «dizer mal de»; ir atrás de, «acreditar em alguém; obedecer a alguém», andar atrás de, «tentar seduzir»; ficar atrás de, «ser de qualidade inferior»; andar em cima de, «vigiar de perto» ou «perseguir, controlar insistente e abusivamente», estar/ficar por dentro, «ficar a saber/saber de algo»; ir dentro, «ser preso», botar/deitar/mandar fora, «desfazer-se de», ir/chegar longe, «ter sucesso»; e ir-se abaixo, «perder forças, físicas ou psíquicas», «deixar de trabalhar (um motor)».

Conclusões? Não há. Isto era mais a gente a conversar como quem conversa à mesa do café, sem preocupações de chegar a algo de muito definitivo… A não ser que os tais phrasal verbs ingleses não parecem ser, afinal, nada de tão idiossincrático como os querem, às vezes, fazer parecer…

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Eis um link para uma lista abrangente de phrasal verbs, uma das muitas que se encontram na Internet.: 

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[1] Se vos parece estranho que pay for seja exemplo de phrasal verb, agradar-vos-á saber que pay for não faz parte da lista de phrasal verbs da entrada pay do dicionário Cambridge. Note-se que a minha intenção não é de modo algum apontar as incoerências deste dicionário, que escolhi ao acaso, mas antes apontar as naturais incoerências de um conceito vago como phrasal verb

[2] A categoria advérbio é difícil de definir. De facto, não conheço nenhuma definição abrangente, a não ser talvez «palavra invariável que não introduza um sintagma» e, mesmo essa, é pouco clara. Alguns dos advérbios que formam phrasal verbs têm as mesma forma que preposições: around, away, down, in, off, on, out, over, round e up (embora a designação de down, off e up como preposições seja muito discutível). 

Outra questão é como definir verbos polilexicais. Se se considerar polilexical um verbo quando seleciona como complemento um sintagma preposicional, o mundo está cheio de verbos polilexicais… Por exemplo: olhar, ao contrário de ver, seleciona sempre um complemento introduzido por uma preposição — embora às vezes ele não seja expresso. Há alguma diferença fundamental das sequências look after a bag e look at a bag, por exemplo, relativamente às sequências correspondentes em português, olhar por uma mala e olhar para uma mala? Devem considerar-se look at/olhar para e look after/olhar por verbos polilexicais? 

[3] Quando o objeto é pronominalizado, porém, vem sempre depois do verbo e antes da preposição/advérbio.

I’ve made some copies. Would you like me to hand them out? («Tirei cópias. Quer que as distribua?»)

e não 

*Would you like me to hand out them?

[4] Numa tese de mestrado de 2004, em que analisa os phrasal verbs em inglês, dinamarquês e alemão, Elisabeth Ingeborg Kaalund lista «as características definidoras de um phrasal verb que se aplicam aos três idiomas», que incluem, entre outras, a possibilidade de nominalização, de passivização e de mobilidade da partícula adverbial, podendo esta ser colocada à direita do verbo (uma questão também referida, como indiquei, na definição mais estrita do dicionário Cambridge). É uma definição de muito maior rigor e que reduz muito o número de phrasal verbs. Redu-lo tanto que, segundo esta definição, algumas combinações normalmente consideradas phrasal verbs não o seriam de facto. 

Vejamos a questão da nominalização. Se analisarmos alguns exemplos de phrasal verbs referidos neste texto, é certo que de bring up se pode fazer upbringing e de put out se pode fazer output apenas num dos muitos sentidos da expressão, tal como make-up só se refere a maquilhagem e nunca a invenção. De make up não se faz *upmaking, nem de take on se faz *ontaking (embora existam intake e outtake). 

Além disso, a possibilidade de passivização não parece ser um bom teste do facto de o phrasal verb ter as mesmas propriedades que um verbo simples, pelo menos em inglês: há verbos, como look after, que embora não sendo, como vimos, «verdadeiros» phrasal verbs, admitem passivização (frase daqui): 

There are a number of reasons why a child may be looked after by the local authority. 

A tese de Kaalund pode ser consultada em linha: Kaalund, E. I. (2004). Phrasal Verbs in English: a comparison with German and Danish. [Candidatus, Copenhagen Business School].   

[5] Uma vez, li num fórum da internet um comentário de alguém que considerava que os chamados prefixos aspetuais das línguas eslavas eram como alguns phrasal verbs. Para explicar de uma forma muito simplificada o que são estes prefixos, dou-vos um exemplo do russo: há dois verbos  читать e прочитать, pronunciados [tchitat] e [pratchitat], para dizer «ler» (muitas vezes, trata-se da mesma forma sem prefixo e com prefixo, como neste exemplo, mas nem sempre), conforme se fale de ocorrência de leitura sem referir o seu completamento («ontem, li/estive a ler depois do jantar») ou completamente de leitura («ontem, li um texto sobre Amelia Earhart»). Ora, de facto, muitas vezes a partícula up do inglês funciona como uma marca de perfectividade, ou seja, completamento: he didn’t eat entende-se como «ele não comeu», ao passo que he didn’t eat up não significa que não tenha comido, mas que não acabou de comer.

[6] Em surpreender, o sur- é o sobre francês, língua de que nos vem a palavra. 

[7] Em dinamarquês, embora um verbo com uma preposição fixa muitas vezes signifique uma coisa completamente diferente do mesmo verbo com uma posposição solta (påtage, «assumir, comprometer-se» vs  tage på, «engordar», ou opstå, «surgir» vs stå op, «levantar-se»), há também muitos verbos que podem ter uma preposição anteposta ao verbo e colada a ele ou a mesma preposição solta depois do verbo sem mudar de significado: underskrive ou skrive under significam ambos «assinar», medtage ou tage med signficam ambos «levar», etc. — podia aqui dar muitos mais exemplos. O único caso de que agora me consigo lembrar nas línguas latinas é o de sobrevoar em português (ou de survoler em francês, igual), que também pode ocorrer como voar sobre

Estamos a sobrevoar Paris 

ou

Estamos a voar sobre Paris

significam a mesma coisa. 

[8] Já em francês não se pode dizer *manger dehors com o mesmo significado.


12/01/19

«Este trabalho está pecável!» – uma pequena curiosidade linguística

Uma vez, no Facebook, alguém propôs um jogo, em inglês: arranjar palavras com um prefixo de negação a que não correspondesse um antónimo sem o prefixo. Por exemplo, há impeccable, mas ninguém ouviu falar de *peccable… Achei graça e propus aos meus amigos facebookianos de língua portuguesa o mesmo jogo na nossa língua. O resultado surpreendeu-me um pouco: há muito mais palavras desse tipo do que eu imaginava.

Antes de mais, conviria talvez explicar que os chamados prefixos de negação ou privação são, em português, os seguintes:
• a/an-, de origem grega, que se encontra em palavras como acrítico, agnóstico, amoral, assexuado, atípico, etc.;
• des-, de origen latina, que se encontra em palavras como desacerto, desonesto, desaconselhável, etc.; e
• in-, o prefixo de negação mais comum, que muda ligeiramente de forma (gráfica e/ou fonética) consoante o som que tem depois: inapto, inviável, insatisfeito; imbatível, impossível; ilógico, imoral; irreconhecível. (É preciso não confundir este prefixo com outro in-, que significa «movimento para dentro», às vezes transformado em em/en-, como em enterrar. Por exemplo, em impropério, que parece ser uma palavra com um im- que negaria algo próprio, no sentido de «apropriado», o im- não é, de facto, um prefixo de negação: vem do verbo latino impropero, que é «entrar de rompante», formado de propero, «apressar-se, acelerar», com a preposição in, «para dentro».)

É complicado se se deve considerar dis- um prefixo de negação/privação. Embora atualmente seja assim entendido, o sentido original grego é «mau»: dispneia, disenteria, dispepsia, disfasia, etc. E pode levantar-se a mesma dúvida relativamente ao dis- de origem latina, que é originalmente mais de separação que de negação e que se encontra, por exemplo, em discordar e discussão. Não considerarei aqui essas palavras.

Quanto às palavras com não, como em tratado de não agressão, o não não é propriamente um prefixo e, com a nova grafia, nem sequer se liga com hífen: não alinhado, não contradição, não intervenção. É interessante notar que há diferença entre prepor não a uma palavra ou usar outro prefixo negativo (pensem em não alinhado e desalinhado, por exemplo), mas, claro está, todas as palavras formadas com não têm uma correspondente sem não [sorriso], pelo que essas palavras também aqui não nos interessam.

Há ainda uma categoria de falsos negativos, em que o aparente prefixo negativo é de facto um elemento de reforço, como em desinfeliz, destrocar, desinquieto. Uma curiosidade, dentro deste tipo de palavras, é a palavra descascar. Na sua origem, creio que o des- de descascar é um prefixo de reforço, já que cascar significa o mesmo que descascar, «tirar a casca». Mas creio que descascar é atualmente sentido como tendo um verdadeiro prefixo de negação, como se cascar fosse pôr uma casca e descascar tirá-la. Não sei se contribuiu para essa perceção o facto de cascar, com o significado de «tirar a casca», ter caído em desuso ou se, pelo contrário, foi essa perceção que contribuiu para o desaparecimento do significado antigo de cascar.

***
Mas vamos então às palavras portuguesas com prefixo negativo de que não há antónimo positivo – normalmente porque só a forma com prefixo de negação evoluiu do latim ou porque só essa forma foi importada de alguma outra língua. Eis uma lista, forçosamente incompleta, de palavras desse tipo, com breves comentários a cada uma:

  • Analgésico é formado de analgesia, termo médico para «supressão da dor», negativo de algesia, «sensibilidade à dor», mas *algésico não existe.
  • Anemia, como o nome de muitas doenças, é de origem grega: haimas é sangue e anaimia é falta de sangue. O temo positivo, *(h)emia, não existe como vocábulo independente, mas -emia ocorre como elemento de formação de palavras como hipoglicemia ou leucemia, por exemplo.
  • Anónimo é «(feito por alguém) de que não se sabe o nome», mas não há *nómino para dizer o contrário. Uma palavra com a mesma raiz é denominar, mas denominado não é antónimo de anónimo.
  • Ateu e ateia são palavras curiosas. Se é claro que não há *teu e *teia para referir quem crê num deus, já ateísta e ateísmo, com a mesma raiz grega (theos, «deus»), têm um antónimo não prefixado, teísta e teísmo.
  • Diz-se descarado de alguém que não é envergonhado ou que não tem pejo em desrespeitar convenções sociais, mas *carado não existe. Os dicionários consagram um verbo descarar de onde teriam derivado o adjetivo, mas nunca o ouvi. É capaz de ter caído em desuso, não sei.
  • *Façatez não existe, só desfaçatez. Trata-se de uma palavra importada já com o prefixo, do castelhano desfachatez, que, por sua fez, a foi buscar ao italiano sfacciatezza. O s- inicial do italiano é um prefixo privativo correspondente aos nosso des/dis- que se junta à palavra faccia, «cara», pelo que a expressão é paralela ao nosso descaramento.
  • Desdenhar é o contrário de um *denhar que não existe, mas que, a ter existido, seria uma forma irmã de dignar. Originalmente, *denhar/dignar devia ser «tratar com dignidade», o que justifica o significado de desdenhar, mas dignar (que, em português moderno, só conheço como verbo reflexo) não é o contrário de desdenhar, é antes «condescender em», «fazer o favor de».
  • Desvirtuar, que tem origem em virtude, usa-se sobretudo no sentido de «trair ou deturpar o [bom] propósito ou sentido de alguma ação ou afirmação», mas *virtuar não existe.
  • Não consigo saber (acho que ninguém sabe) se o im- de imbecil é um prefixo de negação. Existe a teoria de que o latim imbecillus («fraco, débil»), que é o étimo da palavra, derivaria de um *imbacillus formado pelo prefixo privativo im- preposto a bacillus («pau», étimo de bacilo), e que significaria, por isso, «sem bengala», mas há quem considere esta hipótese fantasista.
  • Imberbe é quem não tem barba, mas quem tem não é *berbe. Esperava-se talvez algo como *imbarbe, da família de barba, mas não, aquele estranho -e- já existia em latim e nunca se «regularizou» nas línguas neolatinas.
  • Imune tem uma história curiosa. O latim immunis é «isento de impostos ou serviços públicos» e forma-se de munis, «sujeito a impostos ou serviços públicos», palavra de uma família que dá, entre outras, a palavra município em português. Só o imune sobreviveu e nunca houve *mune nas línguas latinas. Não sei se a palavra imune chegou alguma vez a ser usada em português no sentido de «isento», como foi usada em francês e inglês antigo. O sentido atual é provavelmente importado do francês no séc. XIX.
  • A palavra incólume vem do latim incolŭmis e creio que era uma palavra que só existia com o prefixo de negação. Segundo o que pude encontrar, *colŭmis poderia ser da família de calamitas, «calamidade».
  • Inédito é «não publicado» e não há o adjetivo *édito com o significado de «publicado», só o nome.
  • Inerte vem já prefixado do latim. Significava, ao que vejo, algo como «sem profissão/sem trabalho», porque o prefixo privativo se juntou originalmente a ars, artis, «arte, ofício» e depois o -a- passou a -e-.
  • Injúria também veio já do latim com o in- de negação. Forma-se de ius, que é «lei, direito, dever», da família de jus, justo, justiça...
  • Se não está partida ou dividida, uma coisa está intacta, mas não está *tacta se estiver partida. Na verdade, intacto é originalmente «não tocado», formado do particípio tactus do verbo tangere, «tocar». Da mesma raiz e com o mesmo significado original são as palavras íntegro e inteiro (duas formas divergentes do mesmo étimo latino) e integral, a que não correspondem nenhum *tegro, *teiro ou *tegral. Creio que um falante do português não tem consciência de que o in- inicial é, nestes casos, um prefixo de negação.
  • Comida sem sal é insossa, mas não é *sossa a comida com sal. Em latim, havia sulsus e insulsus, feitos do particípio de salire, «salgar», mas só a palavra com prefixo negativo chegou ao português. E com duas formas diferentes, curiosamente, já que os dicionários acolhem insulso (que eu não conhecia), com o mesmo significado de insosso – mas *sulso não há.
  • Quem sofre de insónia é ínsone. Não há *sónia nem *sone, mas pode discutir-se se sono se pode considerar o contrário de insónia...
  • Inupto é «solteiro, por casar», mas uma pessoa casada não é *nupta. A forma existia em latim, mas, mais uma vez, só a forma prefixada chegou ao português. Temos nubente, da mesma família.


  • ***
    É de notar que algumas palavras têm antónimos não prefixados registados nos dicionários, mas que devem ser palavras raríssimas, algumas talvez arcaísmos (?). Eu, pelo menos, nunca as vi nem ouvi. Sei, por exemplo, que estão dicionarizadas ou fazem partes de corpos lexicais as palavras batível, pávido, pecável, perdível, placável, cansável, cógnito, delével, trépido e usitado mas não me lembro de as ter ouvido. (Aplacável, conheço, claro, com o mesmo sentido de «que se pode acalmar, sossegar, mitigar, aliviar») Algumas delas, nem faço ideia de como se poderão usar (??? «Não viste O marciano? Deixa estar, também é um filme perdível…») Só conheço imbatível, impávido, impecável, imperdível, implacável, incansável, incógnito, indelével, intrépido e inusitado. Como me dizia Helena Galvão Soares, pode-se suspeitar que «há verbetes de dicionários que foram criados só para justificar a estrutura de outras palavras».

    Deste grupo de palavras, de formas não prefixadas que me são desconhecidas, há algumas que me causam mais estranheza do que outras. Negável, por exemplo, que não me lembro de alguma vez ter ouvido, mas parece-me uma palavra normal, digamos assim, daquelas que, quando se ouvem pela primeira vez, se sabe bem que existiam mesmo antes de nos depararmos com elas.

    Há também outros antónimos sem prefixo que, embora já os tenha visto e ouvido, são incomparavelmente mais raros que as formas com prefixo negativo: cauto e sólito são bons exemplos dessas palavras rebuscadíssimas, de ocorrência muito mais escassa que o incauto ou o insólito que dizem o contrário.

    ***
    Há também algumas palavras que, embora não tendo um antónimo positivo direto, têm antónimos formada da mesma raiz. Por exemplo:
    • Não há *alfabeto com o sentido de «que sabe ler e escrever», ou seja, como contrário de analfabeto, mas usa-se para esse conceito a palavra alfabetizado.
    • Se uma coisa não tem cor, é incolor; se a tem, não é *color, porque isso não existe, mas pode ser colorida.
    • Não existe *menso, só imenso, mas existem mensurável e imensurável, com a mesma raiz.
    • Um lugar pode ser inóspito, mas *hóspito não pode ser, só hospitaleiro.
    • Se um crime não fica impune, é punido – mas *pune não há.

    ***
    Agora, interessante também é o caso de palavras em que a forma sem o prefixo negativo não é antónima da forma prefixada:
    • Está afónico quem não consegue falar, mas não está fónico quem o consegue fazer — fónico significa antes «respeitante aos sons da língua».
    • Os termos imobilizar e mobilizar não são, muitas vezes, o contrário um do outro, porque o primeiro tem frequentemente um significado físico de «fazer cessar o movimento», ao passo que o segundo se emprega sobretudo para dizer «recrutar» ou «angariar».
    • Dizemos impassível de alguém que não demonstra emoções – e a palavra passível, que é da família de paixão, significa originalmente «emocionalmente envolvido ou afetado», mas nunca a vi usada com esse significado. Creio que atualmente só se se usa no sentido de «que pode ser objeto»: «O que ele fez é passível de castigo».
    • Nem sempre indiferente é o contrário de diferente. O contrário de diferente é igual e indiferente tem muitas vezes outro significado. Diferente e indiferente podem ser antónimos em frases do tipo «É diferente escrever com ss ou ç, são palavras diferentes» e «É indiferente escrever com acento circunflexo ou não, as duas grafias são aceites», mas diferente não funciona como antónimo do indiferente em, por exemplo, «Ele mostrou-se indiferente às suas lamentações.»
    • Também disposto não é o contrário de indisposto. Indisposto é sinónimo de maldisposto ou não muito bem-disposto. Não é fácil encontrar-lhe um antónimo que funcione sempre. Bem-disposto, por exemplo, só às vezes funciona.
    • O dicionário regista para tratável o significado de «afável; sociável», mas eu só conheço tratável no sentido de «que se pode tratar». Como eu a conheço, a palavra intratável não é antónima de tratável, mas o dicionário não concorda comigo…
    ***
    Finalmente, há algumas palavras que me merecem comentários especiais.

    O grupo desgraça, desgraçar e desgraçado é curioso. Podemos considerar que existe graça como antónimo de desgraça, quando as palavras se usam nas expressões cair em graça e cair em desgraça, por exemplo, mas graça não é o contrário de desgraça no sentido de «infelicidade» ou «catástrofe», etc., como desgraça não é o contrário de graça no sentido de «encanto» ou «piada». O contrário de engraçado, que pode ser quem é «bonito», «simpático» ou «divertido», pode ser desengraçado, embora não me pareça que esta palavra seja o contrário de todas as aceções de engraçado. Já engraçar me parece exatamente o contrário de desengraçar, mas posso não estar a ver todas as situações do seu uso…

    Infame é outra palavra curiosa. Não existe a palavra *fame e infame não é quem não tem fama, mas sim «quem tem má fama». Podia pensar-se que mal-afamado, com a mesma raiz, podia ser um quase-antónimo e originalmente infame devia significar precisamente isso. Mas perdeu-se a consciência da relação com fama, e infame tornou-se um termo de apreciação negativa, sobretudo relativamente ao caráter ou à moral de alguém.

    Em latim, nocere é «causar dano» (de qualquer tipo) e nocuu- ou nocente- o que causa dano. Encontro nocente registado nos dicionários e encontro quem defenda que a palavra nócuo existe em português, embora não a tenha encontrado em nenhum dicionário. Nunca vi nem ouvi nem uma nem outra palavra. Seja como for, inocente tem hoje em dia um significado diferente de inócuo, o que quer dizer que, aceitando que nocente existe, não é o contrário de inocente. Agora, tanto nocente como o pretenso nócuo têm um sinónimo com a mesma raiz, nocivo, pelo que se pode dizer que inócuo também faz parte das palavras com um antónimo com a mesma raiz. Mas inocente não.



    ____________________________________________________________________________

    Alguma da informação veio inicialmente desta página (que a foi buscar a uma fonte que deixou de estar acessível), mas foi depois verificada, dentro do limite dos meios à minha disposição. Uma grande parte da informação etimológica vem do Online Etymology Dictionary, que usa fontes fiáveis. É um dicionário etimológico do inglês, mas, claro, pode também usar-se para a etimologia dos cognatos portugueses de palavras inglesas.
    Os cartazes dos filmes são todos Wikimedia Commons menos um (Les Implacables), mas a sua utilização com baixa resolução para identificação do filme (nesta caso para ilustrar uma palavra) não deve ser problemática. 

30/10/18

De diminutivos e doninhas

...
António Nobre, embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele (ai de mim, coitadinho!)
...
Alexandre O’Neill, em «Autocrítica», in Feira Cabisbaixa, 1965

«Sós: assim somos todos nós». Soa bem, podia ser o título ou a primeira linha de um ensaio ou de um poema. Já «Sozinhos: assim somos todos nós» parece que não soa tão bem. Pode ser apenas uma questão de rima e ritmo, mas creio que é também – e sobretudo – uma questão de significado. e sozinho não são bem a mesma coisa, pois não? E é curioso, ninguém pensa em sozinho como sendo o diminutivo de , mas é isso que é – ou, pelo menos, que começou por ser.

Falemos um pouco de inhos: -inho é o mais comum dos vários sufixos ditos diminutivos que há em português. A designação diminutivo, como muitas expressões antigas de gramática, é um bocadinho enganadora. É certo que o -inho pode significar «pequeno», isto é, ser qualificativo e efetivamente diminutivo: «só um golinho para provar», «uma cadeirinha de brinquedo», «uma coisinha de nada», etc. Mas é capaz de não ser o uso mais comum. Muitas vezes, tem um uso – que não sei se se pode chamar modal, mas é um tipo de modal… – que marca uma apreciação: quase sempre, uma apreciação positiva («na caminha é que se está bem», «um vinhinho de primeira»), mas, às vezes, também pode assinalar depreciação («Eh pá, a carinha que ele tem!...» (os dicionários dão conta desse valor depreciativo, por exemplo, em mulherzinha, que constitui entrada própria).

Este uso afetivo do -inho português pode, nalgumas línguas, construir-se com um adjetivo. Em dinamarquês, por exemplo, «mit lille hus», literalmente «a minha pequena casa», pode corresponder exatamente a «a minha casinha» em frases em que não se descreve o seu tamanho, mas se dá antes conta de uma valoração afetiva da casa. Note-se, a propósito, que, ao contrário do que às vezes oiço dizer, a existência e o uso de diminutivos em português não tem nada de especial: os afixos «diminutivos» existem em muitas línguas (em todas as que conheço…), embora possa variar o que a tradição gramatical de cada língua considera «diminutivo». [Eis uma lista de afixos diminutivos em muitas línguas.]

 E depois, há os diminutivos que mais parecem aumentativos. De facto, não são aumentativos no sentido em que casarão ou canzarrão o são, mas marcam antes uma quantificação que, basicamente, significa «completamente»: «não fiz nadinha», «cheguei a casa encharcadinho», «é uma bestinha», «o depósito estava cheiínho», etc.

Às vezes, este uso parece instável sem uma ajudinha. «Está maluquinho» é possível, mas é mais natural «está mesmo maluquinho» ou «está maluquinho de todo», uma coisa assim. É com adjetivos e advérbios que isto se verifica e verifica-se na maior parte dos casos. Às vezes, a entoação e o contexto podem, com alguns destes adjetivinhos ou adverbiozinhos, determinar qual é a tal apreciação modal tão comum nos nomezinhos, se mais ou menos positiva. Por exemplo, «É mesmo parvinho» pode, com contextos e entoações distintas, variar entre o claro despeito («é um perfeita idiota») e uma valorização afetiva de uma tirada jocosa ou humorística.

Agora, é capaz de ser possível fazer uma descrição geral da forma, suficientemente abstrata para explicar os vários usos, mas, se há, não a conheço. E é com certeza muito, muito difícil. A questão é sempre a mesma: um falante nativo do português sabe quando e como usar um -inho, sem nenhuma consciência do que faz, também em frases que nunca ouviu e em situações novas. Para isso, usa, com certeza, ou uma única regra que tem na mente sem sonhar que a tem e que gera todos os usos; ou então, com a mesma inconsciência, uma série de regras para os diferentes usos para as quais a forma está disponível. Agora, saber quais… Estão a ver que a Linguística é, afinal, uma coisa complicada?

***

Uma curiosidade:

Não é só em sozinho que o diminutivo se lexicaliza, isto é, que passa a constituir outra forma que os falantes não reconhecem como simples diminutivo. Sombrinha é outro exemplo. E carrinha, e doninha… Também doninha não é palavra que um falante do português reconheça como diminutivo, mas é de facto essa a sua origem. Em La creación metafórica en el lenguaje (Montevideu: Universidad de la República, 1956), Eugenio Coseriu explica a história da palavra e dos termos para designar a Mustela nivalis noutras línguas próximas da nossa (traduzo eu):
[Uma] razão que determina substituições de signos e, por conseguinte, facilita a difusão (aceitação) das criações, metafóricas ou não, é o chamado «tabu linguístico», quer dizer, o fenómeno pelo qual se evitam certas palavras relacionadas com superstições e crenças, palavras essas que se substituem por empréstimos, eufemismos, circunlóquios, metáforas, antífrases, etc. (...)
Charles Le Brun: Fisionomias inspiradas pela doninha, cerca de 1670, pena.
Museu do Louvre, Paris (daqui
Um exemplo (…) famoso é o da doninha: o termo próprio latino que a designava, mustela (francês antigo mousteile, catalão mustela, provençal mustelo) desapareceu da maioria dos dialetos romances ou só se encontra esporadicamente em zonas muito limitadas (leonês mostolilla, biscainho mustela e musterle, galego mustela), tendo sido substituído por uma série de nomes metafóricos, diminutivos e carinhoso, que revelam o desejo dos falantes de granjear a simpatia do animalejo. A mustela é hoje, conforme os dialetos, a «bela» ou «bonita» (francês belette, piemontês lombardo bellola e benula, veneziano belita, corso bellula, siciliano beḍḍula e espanhol dialetal bilidilla, bonuca, monuca, bunietsa e munietsa) ou uma «senhora», «menina» ou «esposinha» (italiano donnola, português doninha, romeno nevǎstuicǎ, galego donociña donicela, asturiano donecilla); é uma «bela dama» (pirenaico danabere), ou «comadre» (castelhano comadreja, tolosano kumairelo, campidanês abruzo cummatrella e cummarella, romeno cumetrita), ou «nora» (português dialetal norinha); é «dama ou senhora das paredes» (galego dona das paredes, sardo dona de muru) ou «[a que tem cor de] pão e queijo» (aragonês navarro paniquesa, com variantes ou diminutivos noutras zonas de Espanha; anconitano panakašu e panaccacia). E, mais uma vez, o fenómeno é interidiomático, já que também se encontra noutras línguas europeias não românicas: também para os alemães a doninha é uma «jovem senhora» (Jüngferchen) ou um «formoso bichinho» (Schöntierlein), para os ingleses é uma fada (fairy); para os húngaros é uma «pequena dama» ou «esposinha» (menyét), e para os bascos «pão e queijo» (oguigaztai).

19/10/18

Sobre a ilha de Langeland [Crónicas de Svendborg #29), comprimentos, larguras e alturas


Esta imagem e a última:  Wikimedia Commons
Ninguém pergunta a ninguém por que razão a ilha de Langeland se chama assim, porque a resposta parece demasiado óbvia: det lange land significa «a terra comprida» e Langeland chama-se assim porque é comprida.

É certo, mas este «comprida» tem mais que se lhe diga. Langeland tem 52 km de comprimento e 11 km de largura na parte menos estreita. Se tivesse o mesmo comprimento, mas 36 km de largura, muito provavelmente não se chamava Langeland. Langeland significa então «com um comprimento muito maior que a largura». Até se podia chamar Smalleland, «terra estreita».

É sempre assim? Por definição, é assim com o comprimento e a largura, mas a altura tem um valor absoluto, para que não há que ter em conta as outras dimensões. Uma pessoa é alta quando tem dois metros, independentemente de ser gorda ou magra, como é alta uma montanha de 4000 metros, tenha que forma tiver. Curiosamente, a palavra comprido conserva as mesmas propriedades quando se usa para significar «alto» (o que não é muito frequente, mas pode acontecer). O Manel Comprido, um homem que eu conheci em miúdo, provavelmente não se chamaria assim, se fosse gordo. Era mais provável que lhe chamassem antes Manel Grandalhão ou Manel Gigante, ou qualquer coisa desse tipo.

A razão para isto é, creio eu, que a altura está associada à verticalidade, que é uma categoria não relativa, ao passo que comprimento e largura são categorias puramente relacionais: o comprimento só é comprimento, porque é a dimensão maior de uma superfície, faça ela ou não parte de um objeto.

Em português europeu, pode acontecer usar-se a relação entre a altura e a largura para fazer distinções que não se fazem noutras variantes da língua, ou noutras línguas — estou a pensar em tacho e panela, e maçã e pero, os primeiros mais largos que altos e os segundos mais altos que largos.

Tirando isso, Langeland é uma ilha bem bonita. A zona de Bagenkop, no sul da ilha, é boa para observar pássaros – e cavalos bravos. Se se interessarem mais por física que por animais, podem visitar Rudkøbing, a capital da ilha, que é a cidade natal de Hans Christian Ørsted, e podem ver onde é que ele nasceu e meditar sobre a importância das suas descobertas, enquanto contemplam a sua estátua lá muito perto. Mas, independentemente do interesse que se tenha em Ørsted, Rudkøbing é uma cidade muito bonita, que vale mesmo a pena visitar. Outra localidade muito, muito bonita, a cerca de 12 quilómetros de Rudkøbing, é Tranekær.

Deem-me uma apitadela quando cá vierem, boa viagem e boas férias.


































02/07/16

Meio enchido e meio esvaziado

Há a famosa história do copo meio cheio ou meio vazio, mas, como explica uma pequena filósofa que tenho cá em casa, isto de cheio e vazio não existe no vácuo, perdoem-me a gracinha pateta: o estado do copo depende de alguma ação — que tende para algum fim. Isto sou eu a dizer, que ela não diz assim. O que ela diz é o seguinte:
Se está meio cheio ou meio vazio depende de como estava antes: se estava cheio, agora está meio vazio e daqui a bocado está completamente vazio; se estava vazio, agora está meio cheio e, se não enchermos mais, nunca chega a ficar mesmo cheio.

19/09/13

Tudo muda, nesta dança / exceto, claro, a mudança

Como a vocês, a mim também me aborrece que circulem por aí textos de autores por identificar ou mal identificados; e que se dê por autor de profundos aforismos ou tiradas risonhas gente que nunca os disse nem escreveu. É a facilidade do clique e do còpipeisste, que se há de fazer? Nada a não ser insistir que não, que a senhora nunca escreveu isso, que não foi bem isso que o senhor disse – enquanto vamos tendo paciência, e é certo que às vezes ela nos falha…

Uma frase que tenho visto muito nos últimos tempos é «Without deviation from the norm, progress is not possible» (“Sem desvio da norma, não é possível progresso”), atribuída a Frank Zappa. É claro, a minha reação às citações sem referência é agora como a vossa: é falso até prova em contrário. Desta vez, porém, não é uma falsa citação, apenas um citação pouco rigorosa. A frase é adaptada de uma afirmação de Zappa num documentário neerlandês chamado Frank Zappa, realizado por Roelof Kiers (VPRO, 1971) (min. 40:49, traduzo eu)*:
Acho que não é possível progresso sem desvio e acho que é importante que as pessoas conheçam algumas das maneiras criativas de que algumas outras pessoas estão a desviar-se da norma, porque em alguns casos esses desvios podem inspirá-las e podem sugerir novos desvios, o que pode causar progresso, nunca se sabe.
Agora, o meu propósito não é desvendar a origem da citação nem torná-la mais rigorosa, é discutir a ideia. Ou antes, discutir uma ideia semelhante. Deixemos o progresso, porque progresso tem quase sempre a conotação de evolução positiva e a discussão fica ainda mais complicada. Falemos só de evolução, isto é, mudança para um estado que nunca existiu antes. Tem de se sair da norma – da regra, do modelo, do padrão – para evoluir?

Falo do que conheço melhor, a língua. As línguas evoluem a partir de desvios à norma? Em que sentido? Tem de se passar por alguma fase de agramaticalidade para haver evolução? Esta questão sempre me fascinou. A ideia de que os falantes de uma língua interiorizam ou ativam uma série de regras e produzem, assim, frases bem formadas, gramaticais**, sempre me fez interrogar-me sobre como se processa a evolução da língua. Onde entraria então o desvio que a permite? Porque, se toda a gente produzir frases que seguem as regras que interiorizou, quem vier depois vai interiorizar essas mesmas regras, que são a única coisa a que tem acesso, e vai depois reproduzi-las, e assim sucessivamente – e a língua mantém-se sempre igual… Ora nós sabemos que não é assim e temos até algumas ideias de como se processa a mudança.

Uma das possibilidades de evolução é a expansão de um dialeto ou de um socioleto que vai adquirindo poder e/ou prestígio – por razões não linguísticas. Por exemplo, para hoje ser norma, em português, o mesmo som /ʃ/ em rocha e roxa, houve imposição de uma variante que era antes criticada. Mas a regra interiorizada para muitas pessoas era já essa, mesmo quando não era a pronúncia padrão do português. Quer isto de dizer que coexistem sempre várias normas e há sempre, de facto, um grande grupo de falantes que não tem interiorizada a norma padrão (se me permitem a distinção, que pode parecer paradoxal).

Muito bem, mas, quando se trata de difusão de uma invenção individual, por ter condições especiais de sucesso (fazer parte de uma obra de arte com êxito, por exemplo) ou por se espalhar inicialmente num grupo de pessoas linguisticamente influentes? Dizem-se mesmo coisas que saem das normas de boa formação que temos interiorizadas, o correspondente linguístico das mutações dos seres vivos? Ou inova-se sem se sair da norma? Há muitas teorias sobre como se processa a evolução linguística, mas a minha ideia é que a norma é bem mais elástica do que muitos pensam, pelo menos no que diz respeito à evolução semântica, e que inclui já, por isso, as potenciais inovações.

Quando explicamos o significado de uma palavra num dicionário, usamos sinónimos e definições. Por exemplo: comer significa muitas coisas: O que é que há para comer?, Não gosto que me comam por parvo, A ferrugem está a comer a parte inferior da porta da mala, etc. No dicionário, o significado de comer pode ser (com variações, claro, de dicionário para dicionário) ingerir (alimento); dissipar; gastar; enganar; consumir; causar comichão a; corroer; roubar; acreditar facilmente; omitir; desfrutar; eliminar uma pedra (xadrez, damas); ter relações sexuais com; apanhar (pancada). Não há acordo nenhum entre teóricos sobre como é a “entrada” comer no nosso dicionário interior. Pode pensar-se que estes diferentes significados estão armazenados como entradas lexicais diferentes na nossa mente; ou que a diferença de sentido nas várias frases resulta de uma interação de um significado de base muito abstrato (definido em termos de propriedades ou operações simples, por exemplo) com o significado de base dos outros elementos da frase e da situação de comunicação; etc.***.

Não vou fazer aqui um resumo das teorias, porque isso seria um grande excurso e, sobretudo, porque não sei o suficiente para o fazer de forma aceitável. O que quero aqui defender, porém, é que qualquer boa teoria sobre evolução linguística deverá dar conta de um facto simples: Normalmente, e por muito que elas nos desagradem, não reconhecemos uma nova construção gramatical ou uma expressão nova como sendo a-normal, no sentido em que são a-normais as construções usadas por um estrangeiro que fale a nossa língua, mas apenas como nova, precisamente. Como falante nativo, tenho a possibilidade de usar comer com um significado (ainda) desconhecido da minha interlocutora [por exemplo, inventei agora: Acho que aquele penteado lhe come demasiado a cara], sem que ela deixe de compreender-me ou que reconheça o uso como sendo um erro. Numa certa perspetiva, pode dizer-se que há desvio relativamente à norma. Noutra perspetiva, porém, estou apenas a aplicar as regras interiorizadas que, em última análise, constituem a minha norma, precisamente.

Mais: Pode não só defender-se que o desvio está já previsto na norma e esta provavelmente o determina, como até que a norma obriga a evolução, já que não se conhece língua sem evolução. Seria de facto estranho que a evolução fosse apenas uma possibilidade que, por acaso, se tem verificado sempre. Parece conveniente considerar antes que a evolução é necessária.

O que vale para a língua não vale fora dela e a evolução obedece, seguramente, a mecanismos diferentes conforme se trate da evolução das artes e técnicas, das normas sociais, etc. Zappa é músico e talvez seja de música apenas que está a falar. Agora, eu sei que Zappa fala só de desvio e não de desvio propositado (embora seja provavelmente nisso que está a pensar), mas deixem-me levar a conversa nessa direção: provavelmente, no caso das artes, que são domínios privilegiados de expressão da individualidade, um desvio desejado, consciente de si próprio e com a finalidade explícita de produzir mudança é importante para a sua evolução – ou para o seu progresso, como diz Zappa. Importante, mas não necessário: a música e todas as artes são, nesse aspeto, como tudo o resto, evoluem quer se queira quer não. É essa a sua norma, digamos assim.
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*I think that progress is not possible without deviation, and I think that it is important that people be aware of some of the creative ways in which some of their fellow men are deviating from the norm, because in some instances they may find these deviations inspiring and might suggest further deviations, which might cause progress, you never know.”
** Ou seja, frases que os outros falantes nativos da língua reconhecem como tendo sido produzidas por um falante nativo da língua. Não parece haver outro critério para julgar se uma frase é gramatical.
*** Uma explicação muito breve e pouco rigorosa do que quero dizer com este charabiá: podemos pensar que, por exemplo, comer é, na origem, basicamente a ação de mastigar e engolir, sendo o sujeito forçosamente um animal e o objeto forçosamente comestível. Se esta definição, por exemplo, interagir com uma construção de frase genérica, em que não se pode entender que haja alguma ação, comer passa a ser entendido como alimentar-se de: O que é que as pessoas comem em Moçambique?; se o sujeito não for animado, entende-se que o objeto é eliminado, mas sem que haja apropriação dele por parte do sujeito; se o sujeito for animado, mas o objeto não for entendido como comestível, o sujeito tira proveito do objeto sem o deglutir, etc.

26/09/12

Filosofia de algibeira #2

Acho que quem cultiva o espírito competitivo o deveria levar às últimas consequências e devia querer ganhar em tudo: ser o mais rápido, mas também o mais lento; o mais rico, mas também o mais pobre; ter as notas mais altas; mas também as mais baixas; ser o mais sabedor, mas também o mais ignorante; e assim sucessivamente.

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[Não é nenhum texto zen, é só uma brincadeira, pouco mais que um disparate. O facto é que ignorar é igual a não saber, não esquecer a lembrar, jejuar a não comer; mas não é por a mesma coisa se poder dizer tanto de uma forma afirmativa como negativa que positivo e negativo passam a ser só uma questão de como as coisas se dizem. Existem mesmo fora das palavras. Ah, e não se consegue fazer uma competição para ver quem chega em último, mas isso talvez seja outra conversa. Os livros de recordes, porém, e várias enciclopédias estão cheios de “o mais pequeno”...]

24/09/12

Palavras, pensamento e perceção, mais uma vez (2) [e um estudo fantástico]

Falava eu no texto anterior do ressurgimento da ideia de que a língua condiciona a nossa perceção do mundo e de como estava disposto a rever a minha posição relativamente a essa ideia: se até há pouco a recusava liminarmente, algum trabalho feito ultimamente leva-me a aceitar, em determinadas casos, essa possibilidade[1].
O que quero agora acrescentar é que, se alguns trabalhos destes novos relativistas linguísticos[2] me impressionam pelo seu rigor, fico também por vezes com a sensação de que nem sempre repensam suficientemente os conceitos linguísticos com que trabalham. No tratamento do tempo linguístico, encontram-se muitas vezes exemplos desta ligeireza teórica, como eu digo[3]. Eis um deles: no artigo “Does Your Language Shape How You Think?”, publicado no New York Times de 29 de agosto de 2010, diz-nos o linguista Guy Deutscher (traduzo eu):
Se quiser contar em inglês um jantar com o meu vizinho ou com a minha vizinha (…), tenho de dizer alguma coisa sobre a localização temporal do evento: tenho de decidir se jantámos, se estivemos a jantar, se estamos a jantar, se havemos de jantar, etc. O chinês, em contrapartida, não obriga a especificar o tempo exato da ação desta maneira, porque se pode usar a mesma forma verbal para ações passadas, presentes ou futuras.
A maneira como Deutscher apresenta a questão, por muito que seja seguramente convincente para a maior parte dos leitores do artigo, é demasiado simplificada, ao ponto de ser incorreta. Em primeiro lugar, mistura – ou confunde – tempo com outras categorias: a diferença entre have eaten e have been eating (que só em contextos específicos, note-se, correspondem às formas portuguesas que usei para as traduzir) não é de caráter temporal, mas aspetual, ou seja, não tem a ver com tempo, mas como a ação nos é apresentada, como vista do exterior ou do interior, como terminada ou em curso, etc. Esta falta de rigor, porém, pode desculpar-se-lhe, admitindo que não queira complicar as coisas para o leitor do New York Times. Já mais grave me parece que chame a exprimir tempo linguístico “especificar o tempo exato da ação”. O tempo linguístico tem muito pouco a ver com o “tempo exato” e o tempo exato exprime-se com recurso a horas, dias e meses, não a formas verbais. Mas, em última análise, também isto se lhe pode desculpar, aceito-o perfeitamente. O que vem a seguir, já não.
O tempo linguístico (ou a combinação de tempo e outras categorias, para ser mais rigoroso) não se exprime só através da forma verbal, longe disso, e eu já vi trabalhos sobre marcações de tempo e aspeto em chinês. Deutscher não refere (porquê?) as teorias linguísticas que consideram, e demonstram com bastante subtileza, que o tempo é uma categoria universal, presente em todas as frases de todas as línguas, independentemente de ser ou não marcado nas formas verbais. Não me quero alongar nesta questão nem entrar em pormenores muito técnicos, mas, quando se fala de tempo, há que ter conta não só o verbo e a sua flexão, mas também as propriedades dos seus sujeitos e complementos, os adverbiais, as relações lógicas entre a frase e as frases anteriores do discurso, etc.
O que é estranho no ressurgir das teses de condicionamento do pensamento e da perceção pela língua é que se parece repetir um erro simples do primeiro whorfianismo, que é identificar categorias linguística e formas da língua: Whorf argumentava que em hopi (a língua ameríndia que descreveu) não havia “tempo” como em inglês, mas antes uma diferença entre “manifestado” e “não manifestado”, mas essa afirmação resulta obviamente de uma incompreensão das categorias tempo e modo. Para dar um exemplo óbvio (que não corresponde de maneira alguma ao das categorias verbais do hopi, quero deixar claro), um dos eixos de organização do sistema verbal nas línguas latinas é a oposição entre indicativo e conjuntivo que, embora suficientemente misteriosa para não haver nenhum tipo de consenso entre estudiosos quanto ao seu significado, não é seguramente do tipo temporal e poderia até definir-se (com alguma boa vontade, eu sei…) como um tipo de oposição entre manifestado e não manifestado, pelo menos se se assumir que manifestado pode significar “assumido como factual pelo locutor”… O facto é que, deixando de lado o poder de sugestão que traz agarrada a ela a referência à língua de um povo distante, com uma mundivisão seguramente muito diferente, não parece haver grande diferença na conceção do tempo, e do mundo em geral, entre uma francófona de alguma povoação do cantão suíço do Valais e uma falante do alemânico de uma povoação próxima no cantão de Berna, que tem um sistema verbal muito “temporal” e que não faz diferença nenhuma entre “ando à procura de um restaurante onde fazem bom rösti” e “ando à procura de um restaurante onde façam bom rösti”. De facto, que as formas verbais reflitam direta e essencialmente o tempo é uma característica das línguas germânicas que não se encontra nas línguas latinas, por exemplo, em que o sistema verbal, embora contenha marcas de tempo, é organizado em torno de noções de aspeto (fez vs fazia, etc.).

Um estudo fantástico
Um exemplo extremo, mas muito curioso, da falta de rigor no tratamento do tempo linguístico num trabalho whorfiano é o do estudo de M. Keith Chen “O efeito da língua no comportamento económico[4]”. Assim resume Chen o seu trabalho (traduzo eu):
Testo a hipótese de que as línguas que não distinguem gramaticalmente entre eventos presentes e futuros (o que os linguistas chamam línguas de futuro fraco) levam os seus falantes a realizarem ações mais orientadas para o futuro. Primeiro, mostro como esta previsão decorre naturalmente quando a efeitos bem documentados da língua na cognição se juntam modelos de tomada de decisão ao longo do tempo. Em seguida, mostro que, corroborando esta hipótese, falantes de línguas de futuro fraco poupam mais, guardam mais para a reforma, fumam menos e têm menos probabilidades de ser obesos, e gozam de melhor saúde a longo prazo. 
Nem mais: o estudo “demonstra” que há uma influência tão grande das formas linguística de futuro na maneira como as pessoas concebem e sentem o porvir que quem fale uma língua com formas específicas para o futuro não poupa e complacentemente se lança em comportamentos suicidas. Evidentemente, a primeira coisa que nos vem à cabeça é que há que substituir urgentemente a segurança social por uma reforma linguística que proíba o uso dessas formas verbais altamente nocivas para a sociedade. A tese é suficientemente disparatada para merecer ser ignorada com um sorriso apenas ou uma grande gargalhada, consoante o estado de espírito da altura, mas não é assim que um linguista procede. Como diz Julie Sedivy[5],
[a proposta de Chen] é demasiado intrigante para se resistir a falar nela. Na realidade, lembra-me as palavras de um proeminente linguista que uma vez afirmou durante uma palestra: “A explicação em questão é quase de certeza falsa. Se fosse verdadeira, porém, seria incrivelmente interessante, de maneira que não temos outra escolha que não seja explorá-la.”
E depois não é só isso: pode aproveitar-se para mostrar a fragilidade da classificação de Östen Dahl aqui usada por Chen – mas que pode também ser usada em quaisquer outros estudos menos fantásticos que este…
Há muitas críticas que se podem fazer – e foram feitas – ao trabalho de Chen. Críticas sobre a metodologia do trabalho, sobre inferências forçadas, sobre efeitos estatísticos incontrolados, etc. Todas elas são válidas e podem facilmente encontrá-las online com uma pesquisa simples. Muitas delas, aliás, encontram-se nos textos do Language Log para que vos remeto aqui. Mas, como no-lo recorda Geoffrey K. Pullum[6], todas essas críticas são desnecessárias, se pensarmos que a hipótese inicial de Chen dificilmente se tem de pé [tradução minha]:
Chen usa dados descritivos das línguas que vêm do projeto EUROTYP de Östen Dahl, e adota uma classificação do inglês como tendo futuro forte. Mas o inglês usa constantemente, e de forma notória, o presente para referir o tempo futuro:
Meg's mother arrives tomorrow. [“A mãe da Meg chega amanhã”. Negritos meus.]
If the phone rings, don't answer it. [“Se o telefone tocar, não atendas.”]
My flight takes off at 8:30. [“O meu voo parte às 8:30.”]
IBM is declaring its fourth-quarter profits tomorrow. [“A IBM apresenta amanhã os lucros do último trimestre do ano.”]
No próprio exemplo que Berreby dá, usa-se o inglês I am going to + verbo, alegadamente ilustrando uma marcação gramatical do futuro; mas, claro, am é o presente do verbo, por isso teria de defender-se que o uso do verbo de movimento go no seu sentido idiomático de futuro próximo conta como marcador gramatical de tempo verbal, o que levanta questões sobre se o mesmo se deve dizer de am about to e de am on the point of e por aí fora. Se o inglês tem marcadores do futuro verbal, tem pelo menos uma dúzia; mas o uso simples do presente dos verbos é uma maneira muito comum de referir o tempo futuro, e o que havemos de pensar disso? Pela minha parte, desconfio muito que se possa descrever com rigor o inglês como uma língua de “futuro forte”. Quase todos os gramáticos tradicionais descrevem o inglês como tendo um sistema de tempos verbais que inclui uma forma verbal de futuro, mas isso não é bem verdade; will é um auxiliar modal que também tem diversos outros usos. Se a apresentação dos factos é pouco sólida relativamente ao inglês, que probabilidade tem de ser rigorosa em línguas que não foram estudadas de forma tão intensiva?
Podemos ver o caso do português. Mas, primeiro, há que detalhar mais a perspetiva de Chen. Na sua demasiado ligeira introdução à questão da problemática do futuro, diz-nos ele no estudo referido (traduzo eu):
As línguas diferem no facto de exigirem ou não que os seus falantes marquem eventos futuros. Por exemplo, um falante do alemão que preveja chuva pode, de forma natural, fazê-lo no presente, dizendo: Morgen regnet es o que se traduz por “Chove amanhã”. Em contrapartida, o inglês exigiria a utilização de um marcador do futuro como “will” ou “is going to”, como em “It will rain tomorrow”.(…) Desta forma, o inglês obriga os seus falantes a codificar a distinção entre eventos presentes e futuros, ao passo que o alemão não o faz.
E acrescenta, em nota de rodapé:
É possível em inglês a referência ao futuro sem marcadores de futuro em certos contextos: especificamente com acontecimentos programados ou acontecimentos que resultem de propriedades do mundo que sejam como leis (…). Na minha análise, deixo de lado estes casos, porque, como [Dahl] mostra, “em muitas, se não todas, as línguas, este tipo de frase é tratada de uma forma que não a marca gramaticalmente como tendo referência temporal não presente (...), mesmo em línguas em que a referência ao futuro é, noutras situações, altamente gramaticalizada.” Por outras palavras, a forma como os acontecimentos programados são tratados não reflete o tratamento geral da referência ao futuro numa dada língua.
Ora bem, na classificação de Dahl, o português europeu é classificado como língua de futuro forte e o português do Brasil como língua de futuro fraco. Em português, no registo oral quotidiano, cada vez mais a forma verbal do futuro tem um uso a que chamarei exclusivamente modal para simplificar («Onde andará agora a Rita?») e só é usado temporalmente num registo mais cuidado (situações formais, língua escrita)[7].
Como podem facilmente constatar prestando atenção ao que se diz ao vosso redor, usam-se, para indicar o tempo futuro, além das formas chamadas perifrásticas ir+infinitivo e haver de+infinitivo, o presente do indicativo. Mesmo que consideremos as perifrásticas “marcas gramaticais de futuro”, elas não são sempre obrigatórias, longe disso, e o presente parece até ser a forma mais utilizada em frases em que há uma referência temporal explícita no futuro:
«O que é que fazes hoje à tarde/no Natal?»
«Não faço nada de especial, porquê?»
Não é perfeitamente natural em português, digam-me lá, eu perguntar a uma pessoa «Então, amanhã chove ou não?» e essa pessoa responder-me «Chove, pois, de certeza absoluta»?
Então, aceitando as restrições de Chen de não contar subordinadas (porquê?) nem eventos programados, continua a ser muito duvidoso que o português europeu seja classificado como língua de futuro forte, não é verdade? Mesmo sem analisar como se chegou a esta conclusão, posso constatar, pelo que explico atrás, que é fácil considerá-la de rigor extremamente duvidoso. Como é, aliás, extremamente duvidoso que haja na marcação verbal do futuro diferenças tão grandes entre o português dos dois lados do oceano que o português americano seja, ao contrário do português europeu, uma língua de futuro fraco[8].
Podíamos continuar a analisar a expressão do futuro em muitas línguas, em todas até, muito provavelmente para chegarmos sempre a mais dúvida do que aprovação relativamente aos axiomas de que Chen parte. Tenho uma atitude muito mais radical que Pullum ou menos diplomática, se preferirem: a divisão entre línguas de futuro fraco e de futuro forte é impossível de provar. “Os linguistas” não chamam futuro fraco a nada. Há linguistas que usam esse conceito, mas são, obviamente, uma minoria e o conceito é de produtividade duvidosa. O trabalho que Chen se propõe fazer não pode ser feito. E Chen devia referir muitos outros linguistas além de Östen Dahl, para ficarmos então a saber o que dizem “os linguistas” sobre o futuro linguístico e os seus marcadores.
Quero com isto tudo chegar a uma conclusão simples: quem queira estudar uma relação entre um fenómeno linguístico e um fenómeno percetivo ou social deve ter sempre também o cuidado de pensar e repensar muito bem os aspetos linguísticos da questão a estudar – sobretudo os pressupostos linguísticos em que a hipótese assenta… Que o que acabo de escrever é disparatado, por demasiado óbvio? É certo. Mas a verdade é que nem sempre assim se faz…
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[1] Ver também, sobre o tema, este meu texto,  e este e este, todos aqui na Travessa do Fala-Só.
[2] Ou neowhorfianos, como lhes chamo – de Benjamin Lee Whorf, conhecido por propor esta tese, nos anos 30, juntamente com Edward Sapir. Links para 4 resumos da hipótese de Sapir-Whorf: Wikipédia em português (muito pobre), Wikipedia em castelhano, Wikipedia em inglês e Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês).
[3] O tempo é uma área por que tenho especial interesse e, por isso, reparo mais nas incorreções nessa área e analiso-as com mais facilidade. Já aqui tinha referido a falta de rigor de Lera Boroditsky no tratamento do tempo linguístico: ver a segunda parte deste texto, que começa com “O trabalho de Boroditsky é, repito, um trabalho científico cuidado…”.
[4] Chen, M. Keith. The Effect of Language on Economic Behavior: Evidence from Savings Rates, Health Behaviors, and Retirement Assets, Yale University, School of Management and Cowles Foundation, agosto de 2012. Aqui.  
[5] Em “Thought experiments on language and thought” de no site Language Log. Quem queira aprofundar a discussão do trabalho de Chen pode perfeitamente partir daqui, porque ele foi muito discutido no Language Log.
[6] No seu artigo “Keith Chen, Whorfian economist”, também no Language Log.
[7] Muita gente argumentará que raramente ou nunca se pode isolar o valor “exclusivamente temporal”, mas não quero lançar-me agora nessa discussão.
[8] Pode ser que os brasileiros poupem mais que os portugueses, não sei, mas isso é – pelo menos, para mim – uma questão muito diferente (smile).