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23/10/26

Chuva de granito


Por causa de uma conversa sobre granizo e lembrei-me de um poema que escrevi há quase 40 anos, em janeiro de 1987, e que está incluído em Seis poemas de inverno e outros textos em prosa: 

A chuva de pedra

Granizo granito grito
torrencial aliteração
ponte de líquida pedra
de um céu até outro céu

Aguaceiro desconforto
(Vou pôr a alma a secar) 

Não me lembro se, quando fiz o poema, alguma vez tinha já ouvido falar dos famoso poema que Vladimir Maiakóvski dedicou a Serguei Iessenine e que inclui os versos  

Вам
  и памятник еще не слит,—
где он,
  бронзы звон
       или гранита грань?—
,

algo como (a tradução que consigo…)

Tu
  monumento ainda não te ergueram 
—
onde estão
  o ruído do bronze
       ou as arestas de granito? 
—

Herbert Marshall conseguiu preservar, na tradução para inglês, a aliteração em [gr] de гранита грань [granita gran]: 

A monument for you hasn't yet been cast —
where is it, bronze reverberant or granite grand? —

Dorian Rottenberg também o consegue, embora não de forma tão limpa como Marshall:

Although the monument
      that you deserve
        has not been cast —
where is it,
      ringing bronze
        and hard-grained granite? —

Tentei em português «granito grave» e «grave granito», mas não gosto. Não sei porquê, mas não gosto...

Se já conhecia, quando escrevi o meu poema, este granita gran, digamos que há ali um piscar de olho a Maikóvski, para sermos delicados; ou então, que a «torrencial aliteração» é um plagiozinho pueril, para chamarmos as coisas pelo seu nome... Agora, se não conhecia o granita gran de Maiakóvski, tive sorte nesse dia de granizo.


11/06/25

Duas notas sobre tradução, mais ou menos a propósito do conto «Guayaquil», de Jorge Luis Borges

 

Mais ou menos a propósito do conto de Borges, digo eu. Bom, na realidade, nestas duas notas falo sobretudo da tradução de duas passagens do conto: um excerto de um verso de António Machado citado pelo narrador do conto e uma expressão francesa que aparece duas vezes. 

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Guayaquil é a maior cidade do Equador e foi lá que, a 26 e 27 de julho de 1822, se deu, entre José de San Martín e Simón Bolívar, um encontro tão famoso como misterioso (já que dele não se conhecem pormenores) em que (diz Borges no conto) «o general San Martín renunciou à mera ambição e deixou o destino da América nas mãos de Bolívar».

O conto é sobre outro encontro, este entre dois historiadores: o narrador, argentino e não nomeado, e Eduardo Zimmermann, judeu checo fugido do Terceiro Reich e naturalizado argentino. O enredo, se é que de enredo se pode falar, é que teriam sido descobertas algumas cartas de Simón Bolívar, numa das quais «o Libertador dá detalhes sobre a sua entrevista com o general San Martín», e Zimmermann convence o narrador, que fora encarregado de transcrever e prologar a edição das cartas na Argentina, que é ele, Zimmerman, que o deve fazer. 

Se qualquer resumo de um conto é crime, este ainda mais, por omitir tudo o que de facto nele interessa. Espero, pelo menos, que, se não o conhecem, fiquem com vontade de o ler. Aconselho-vos a leitura do original em castelhano (aqui ou aqui), que não vos deve ser difícil — de preferência, antes de lerem o resto deste texto. É um conto breve, não chega a 2.500 palavras.  


1. Torpe aliño indumentario: um tipo especial de localização

Palavra puxa palavra, é bem verdade; e mais ainda se se fala de Jorge Luis Borges e das palavras que ele puxa com as suas palavras. Neste caso, as palavras de Antonio Machado. Diz o narrador do conto, ao descrever a personagem Eduardo Zimmermann:  

Soy poco o nada observador, pero recuerdo lo que cierto poeta ha llamado, con fealdad que corresponde a lo que define, su torpe aliño indumentario. 

A passagem citada chamou-me atenção, como me chamou a atenção a maneira como o narrador do conto a qualificava: é elogio dizer que uma descrição feia se adequa ao descrito? Descobri em segundos, na Internet, que era António Machado o citado, e mais concretamente o seu poema «Retrato», de 1912 (que podem ler aqui). É, ao que vejo, um poema conhecido; e eu, vejam lá, que gosto de Machado e o li bastante, não me lembrava dele…  

Na mesma busca, surgiu-me também uma curiosa discussão no fórum da WordReference.com. Perguntava alguém, referindo uma passagem de Un Milagro En Equilibrio, de Lucia Etxebarria, como poderia traduzir para inglês aliño indumentario.  

Lucia Etxebarria, ao contrario de Borges, cita diretamente Machado. A passagem é a seguinte: 

El tipo en cuestión llevaba una pinta que llamaba la atención incluso en aquel bar donde hasta el más extravagante aliño indumentario (que diría Machado) resultaba poco vistoso habida cuenta de la infinidad de crestas, pelos de colores, piercings, peinados rastas, minifaldas cinturón, maxifaldas jipiosas, pantalones de comando y monos de pintor que por allí se veían.  

Alguns utentes do fórum sugerem traduções para aliño indumentario: «clothing» ou «apparel», por exemplo. E torna o inquiridor:   

Então a minha pregunta é se a expressão aliño indumentario é algo que, para os espanhóis, imediatamente evoca Machado. Se foi ele o único, ou quase o único, a usá-la, não se pode traduzir apenas como «clothing», porque clothing é uma palavra comum, e não se compreende a referência «(que diría Machado)»…  

Tem, evidentemente, toda a razão. Não é uma simples questão de tradução, trata-se antes de tentar dar a entender uma determinada relação cultural com uma expressão. Das vezes que se me deparou esse problema na minha atividade de tradutor, sempre o tentei resolver da forma proposta por outro membro do fórum:  

O que eu faria seria procurar a tradução do poema de Machado «Retrato», conhecido [em inglês] como «Self-portrait».  

Procurando a frase «ya conocéis mi torpe aliño indumentario», vejo que se traduz como «my poor accoutrement» (Juan Ribó Chalmeta e Irina Urumova), «my rough and ready style of dress» (Patrick H. Sheerin), «my slovenly apparel» (A Z Foreman), «my plain, almost monkish dress» (K Dick), etc.  

Depois, é escolher uma das traduções, de preferência de uma edição não muito obscura — e deixar claro algures (há edições que aguentam mal notas de rodapé…) onde se a foi buscar. 

«E então», pensei eu mais tarde, «como traduziria eu isto para português?» A tradução «torpe alinho indumentário», que encontro na internet, tem um problema: torpe não parece ter, em português, a ideia de «tosco, rude, feio», que tem em castelhano. Mas rude e tosco, precisamente, ficam bem ao lado de alinho indumentário; e mantém-se o ritmo e pouco se altera a sonoridade do original. Que vos parece? 


2. «Mon siège est fait»: das camadas de significado do uso de um provérbio já desusado 

A 26 de junho de 2022, o jornal em linha Infobae publicava um artigo de Patricio Zunini sobre o conto de Borges: «Borges y la Historia: el cuento sobre Guayaquil que tardó 17 años en escribir», que vos aconselho. O artigo, de resto muito interessante, na minha opinião, sofre de um pequeno deslize. Em «Guayaquil», aparece uma vez a frase Votre siège est fait, dita por Zimmerman ao narrador, e como última frase do conto, Mon siège est fait, pensada pelo narrador. E esta última frase é traduzida no artigo como «Mi asedio está hecho». É uma tradução que encaixa muito bem na sensata interpretação do conto que Zunini faz e que, por isso, não se pode dizer que esteja errada... Mas não é isso que a frase quer dizer.  

Qualquer dicionário razoável vos confirmará que asedio é uma das muitas palavras que podem traduzir siège para o castelhano. Em português, siège, com o significado militar de asedio em espanhol, diz-se «cerco». Mas siège também pode ser «assento; banco» (por exemplo, de um carro ou de um comboio, mas não só), pode ser «sede» (de uma instituição ou empresa, etc.), pode ser «lugar; mandato» (por exemplo, de um partido num parlamento), pode ser «centro» (por exemplo, se se diz algo como «o cerebelo é o centro da coordenação do movimento»), pode às vezes ser «Sé» (em, por exemplo, a Sé Episcopal ou a Santa Sé), e pode até ser «nádegas», em contextos muito formais... Pelo menos! — porque siège ainda tem mais significados...  

Mas mon siège est fait não é uma frase criada por Borges, é uma expressão fixa. De facto, é uma frase célebre que se tornou uma expressão fixa. Atualmente praticamente caída em desuso (ah, as antiguidades de Borges...), a expressão significa de facto «a minha opinião está formada e não a alterarei».  

Não deixa de ser verdade, porém, que o siège de mon siège est fait refere originalmente um cerco a uma cidade. O historiador René Aubert de Vertot, conhecido como Abade de Vertot, escreveu, entre outras obras, uma História dos Cavaleiros Hospitalários de S. João de Jerusalém, depois chamados Cavaleiros de Rodes e hoje Cavaleiros de Malta, que foi publicada em 1726. Conta-se que, quando lhe quiseram apresentar documentos novos sobre o cerco de Rodes pelos Otomanos, se recusou a tê-los em conta e a rever a sua versão desse cerco em função da nova informação. «O meu cerco está feito», teria respondido. E a sua frase passou a significar inflexível teimosia. (No fundo, concordarão, não há nada de muito extraordinário na atitude de Vertot, que é, infelizmente, mais comum que a atitude contrária de predisposição a mudar de opinião perante dados factuais ou bons argumentos…) 

Agora, no caso concreto do conto de Borges, a frase de Vertot ganha uma dimensão especial: não apenas porque é um historiador que a diz de outro historiador que acaba por assumi-la, dizendo-a ele próprio, mas também porque um elemento central do conto é, precisamente, o surgimento de um novo documento sobre um episódio histórico. O melhor, neste caso, é mesmo nunca traduzir mon siège est fait, seja para que língua for. Nos textos de Borges, há muitas vezes um deslumbramento acrescido para quem conhecer — ou estiver disposto a pesquisar — as suas frequentes referências literárias, filosóficas, históricas, etc. Pelos vistos, o significado e a história desta expressão francesa fazem parte dos conhecimentos pressupostos no seu leitor ideal.  



Todas as traduções do castelhano são minhas.
Imagem: Estátua de Bolívar e San Martín no Hemiciclo de la Rotonda, em Guayaquil (foto de iam luisao, de utilização livre, daqui). Curiosamente, a estátua deste dois chefes do movimento independentista sul-americano é de um escultor espanhol, José Antonio Homs.

14/12/23

Tradução automática e inteligência artificial: magia não é, nem uma pessoa a pensar


Sou muitas vezes confrontado com comentários e críticas aos programas de tradução automática que revelam que a maior parte das pessoas não compreende como é que funcionam esses programas. Não falo de compreender a fundo, compreender mesmo, porque isso deve haver muito poucas pessoas que o consigam fazer e eu não sou com certeza uma delas. Falo antes de ter uma ideia da arquitetura de base desses programas, da maneira como funcionam. Isso ajuda a evitar críticas sem grande sentido aos programas de tradução, mas também a servir-se deles de forma a minimizar as suas lacunas e imperfeições várias, que não hão de, por certo, desaparecer já amanhã — embora estejam a desaparecer, devagarinho, dia após dia. 

Houve, de 1978 a 1992, um grande projeto europeu chamado EUROTRA, que visava criar um programa de tradução automática para as línguas da União Europeia. A ideia era criar um programa que desconstruísse as frases da língua de partida de modo a transformá-las em estruturas abstratas que depois se voltavam a materializar com o léxico e a estrutura sintática da língua de chegada. No fundo, fazer aquilo que se acreditava que um ser humano fazia inconscientemente ao traduzir.

O projeto nunca foi concluído: era demasiado difícil. Uma amiga minha trabalhou nesse projeto durante alguns anos, só com as regras de colocação dos pronomes em português e italiano, sem grandes resultados. Era muito difícil criar as regras para o programa e as estruturas abstratas entre a língua de partida e a língua de chegada eram muito pesadas. Agora, os programas de tradução automática melhoram de dia para dia. Há uns melhores que outros, é certo, e também é certo que alguns continuam a fazer muitos disparates, mas os melhores são muitas vezes extremamente eficazes. A principal diferença relativamente ao falhado projeto EUROTRA é estes programas não têm regras para transformar as frases de uma língua em frases da outra. Usam algoritmos que procuram associações em bases de dados muitos grandes. Dito de forma simples, a metodologia destes programas é «enormes quantidades de informação».

Vou dar um exemplo da qualidade da tradução automática: ao contrário do que se possa pensar, este parágrafo não foi escrito originalmente em português. Escrevi-o em inglês e depois utilizei um programa de tradução automática gratuito para o traduzir para português. Não introduzi qualquer alteração na tradução e, embora talvez não seja a tradução mais elegante (mas o meu texto original em inglês também não deve ser assim tão elegante), não há erros significativos, quer na sintaxe, quer na escolha das palavras, embora eu não tenha escolhido, de propósito, as estruturas gramaticais mais fáceis*.

O meu amigo Pedro Malaquias publicou uma vez no Facebook o seguinte texto:

lost in translation

time flies

o tempo moscas

glória glória

ao tradutor automático

É um texto que dá conta de uma certa ideia de um tradutor automático e que talvez seja mesmo uma tradução com um programa (dito)de tradução muito mau (a tradução do Facebook, por exemplo, é muitas vezes exasperante). E pode até obter-se esse divertido resultado em verdadeiros programas de tradução separando as duas linhas:

time

flies

Mas há muito tempo que os programas de tradução, mesmo quando traduzem mal, não fazem frases agramaticais — se o input for uma frase e não palavras isoladas e escrito com uma pontuação standard. Já em janeiro de 2017 eu dava a uma amiga este exemplo de tradução automática, também sem mudar absolutamente nada do proposto pelo programa de tradução:

As políticas nacionais de Gestão de Recursos Humanos são um exemplo disso. Tem-se argumentado que os investimentos no desenvolvimento de capacidades terão um efeito limitado se não forem suportados por mudanças adequadas nas políticas de RH. A questão da retenção de pessoal técnico qualificado e treinado é há muito reconhecida como fundamental para se conseguir melhorias duradouras na prestação de serviços municipais, mas pouco se fez para mudar as políticas, procedimentos e práticas atuais, que também têm dimensões políticas que são difíceis de mudar. Há muitas outras leis e regulamentos que devem ser alterados para chegar a um ambiente mais propício para o desenvolvimento municipal**.

Como é que os programas sabem quando é que flies é o plural de fly, «mosca», quando significa «braguilhas» e quando é a terceira pessoa do presente do verbo fly, «voar»? Bom, ninguém lhes deu regras, apenas foram treinados com muitos milhares ou milhões de exemplos de ocorrências das formas em vários contextos. Disseram-lhe: neste contexto é isto, neste contexto é isto, neste contexto é isto. E, a partir daí, o algoritmo computa as probabilidades. E acerta quase sempre. Não sabemos ao certo como o programa faz, o que é que ele encontra que o faz distinguir as várias aceções dos termos ou levar a cabo tarefas linguísticas ainda mais complicadas. E isso é um bocado irritante, não percebermos ao certo como ele funciona, só sabemos que faz o que deve. 

Por muito irritante que possa ser, esta ignorância de como o programa funciona não difere em nada da nossa ignorância de como funciona o nosso cérebro. Nós também não sabemos como o nosso cérebro cola significados às palavras da língua. Sabemos, por exemplo, que podemos usar uma palavra metaforicamente ou de outra forma «desviante», mas há usos dessa palavra que não reconhecemos como metafóricos ou «desviantes», mas antes como estrangeirismos: os falantes da língua nunca usariam aquela palavra naquela situação. Mas não sabemos porquê. 

Podemos sair um pouco da língua, para um exemplo talvez mais claro para a maior parte das pessoas que não estão habituadas a questões linguísticas. Todos sabemos que, quando vemos uma pessoa ao longe, antes de distinguirmos o corpo e as feições, já sabemos, pelo andar, se é homem ou mulher. Há exceções, claro, mas é assim na esmagadora maioria dos casos. Se interrogarmos alguém — ou nos interrogarmos nós próprios — sobre o que caracteriza um andar masculino ou um andar feminino, porém, não sabemos responder. Os estudos sobre o assunto mostram, por exemplo, que é o movimento de alguns pontos das pernas, e não do tronco ou dos braços, que determinam esse reconhecimento, mas não se sabe exatamente quais e como. Escolhi este exemplo, porque há programas informáticos que fazem esse mesmo reconhecimento de género na marcha humana tão bem como nós, mas também sem saber como ele é feito. É o mesmo princípio: numa base de dados com milhares e milhares de filmes de homens e mulheres, instrui-se um algoritmo sobre quais são homens e quais são mulheres. E ele aprende. Como nós. Sem saber como, sem nós sabermos como.

Não há magia nenhuma na tradução automática. E, como não há magia, os programas não só funcionam melhor com determinando tipos de textos (os tipos mais frequentes nas bases de dados) como podem, através de práticas simples, ser ajudados a traduzir mais corretamente. Palavras isoladas não funcionam. Como há de o programa procurar contexto? Às vezes, nem é preciso muito para contextualizar. Por exemplo, o j.j.amarante, num comentário deste blogue, referia que um programa de tradução automático traduzira João Paulo (o nome de papa de Karol Józef Wojtyła) para latim como John Paul. 

Respondi eu: 

[Este programa] traduz sempre para inglês antes de traduzir para outra língua. Mas funciona com probabilidades de ocorrência e precisa de contexto. Imagino que a base de dados em latim seja muito pequena e, sem mais informação, só com dois nomes próprios, o resultado é mau. Melhor, é nulo... Mas, se escrever "Papa João Paulo", que chega para definir contexto, por ser uma sequência tão específica, já o [programa] dá Ioannes Paulus Pp. em latim, uma tradução correta.

Além disso, a esmagadora maioria os textos que existem nas bases de dados são textos escritos em linguagem standard em frases standard. Por isso, os resultados são muito melhores com frases completas e com ortografia e pontuação padronizada, como disse atrás.

Agora, tudo isto levanta uma questão muito interessante:

Jaron Lanier sublinhava, já há quase dez anos, que, «nos bastidores, [de um tradutor automático baseado em grande quantidades de dados] estão literalmente milhões de tradutores humanos que fornecem os exemplos» e «não estamos a pagar nada a essas pessoas que fornecem os exemplos para os corpora de que precisamos para pôr os algoritmos de inteligência artificial a funcionar. Para criar esta ilusão de uma inteligência artificial autónoma, independente, temos de ignorar as contribuições de toda a gente de cujos dados nos servimos para a fazer funcionar.»   

É bom não nos esquecermos de que estes tradutores automáticos somos nós, eu e outros tradutores, que os alimentamos, ou melhor, que os criamos.

Noam Chomsky diz a mesma coisa quando acusa a inteligência artificial de ser «alta tecnologia de plágio», ou seja, um programa com acesso a uma quantidade enorme de textos ou imagens efetivamente produzidos por pessoas, que depois cola bocados uns aos outros, de modo a que seja impossível saber onde foi buscar a informação. Já houve casos em que os bocados das obras que compõem os textos ou as imagens produzidas pelos programas de inteligência artificial são reconhecíveis e os seus autores levem os proprietários do programa a tribunal. Mas, na maior parte dos casos, é impossível detetar a origem da informação.

O que é curioso, mais uma vez, é que é também assim que funciona o ser humano. Também nós, quando produzimos seja lá o que for, usamos sempre ideias, conhecimentos ou técnicas que nos vêm de outras pessoas. Apenas os reorganizamos como nossos, em algo nunca antes produzido. 


___________________

* I am going to give an example of how good automatic translation has become: unlike you might have thought, this paragraph was not originally written in Portuguese. I wrote in English and then used a free automatic translation programme to translate it into Portuguese. I did not introduce any change in the translation at all and, although perhaps it is not the most elegant translation (but then again, my original English text was probably not that elegant either), there are no significant mistakes to be found, in both syntax or choice of words, although I on purpose did not choose the easiest grammar structures. 

** National policies of Human Resources Management are a case in point. It has been argued that investments in capacity development will have limited effect unless supported by adequate changes in HR-policies. The issue of retention of qualified and trained technical staff has long been recognized as key to achieving lasting improvements in municipal service delivery, but little has been done to change current policies, procedures and practices, which also have political dimensions which are difficult to change. There are many other laws and regulations that must be changed to arrive at a more conducive environment for municipal development. 


10/05/20

Lisboa em dois poemas suecos

Erik Axel Karlfeldt (1864–1931) era um poeta sueco, que ganhou postumamente o Prémio Nobel em 1931. Muitos poemas de Karlfeldt foram musicados e um dos poemas que deu uma canção conhecida é “Em Lisboa dançam” (“I Lissabon där dansa de”)*, que foi musicado por Bo Sundblad no início dos anos 30.



Esta versão é interpretada pelo autor. Desconheço a data de gravação e de edição. Outras versões conhecidas da canção são, por exemplo, a de Margareta Kjellberg (1938), a de Sven-Olof Sandberg (1943) e a de Olle Adolphsson (1963).

Por favor, não considerem o que se segue uma tradução do poema de Erik Axel Karlfeldt. O poema é muito difícil de traduzir e é numa língua que não domino, pelo que não sou capaz de fazer uma tradução propriamente dita. O que se segue é só uma versão simplificada e muito livre (e, a espaços, feia), para ficarem com uma ideia de que se trata.
Em Lisboa, dançam
no palácio vermelho do rei,
– coroado, condecorado –
com vivas e salvas de tiros.
Soa o mar como trombone
e violino distantes
e as faces são coradas
da cor do vinho do Porto. 
E cantam os rouxinóis
em escuros bosques de moscada
para os príncipes e as princesas
no sono dorido da noite.
E esvoaçam cupidos
de asas de cristal
entre condes e barões,
que passam o dia a suspirar:
Tu, vento oeste de Salvador,
que sopras forte e suave,
desperta a cerva deitada nos lírios,
que é já tempo de folgar.
Sou um cervo na murta orvalhada,
A minha coroa é de ouro
e trago em cada haste uma rosa
que diz de mim o desejo.
Nas falésias da praia de Munga
que atroada se ouve.
Dançam os pares de mãos dadas
na alegre casa de Pillman.
E cada homem que pula
de regozijo na sala
é um imponente toureiro
e Príncipe de Portugal.
Passa uma nuvem, pesada e baça,
que sopra uma granizada,
mas a rapariga encosta a pele primaveril
aos braços esguios de Pillman.
Do alto do poste curvo, em acento outonal,
canta um galo cata-vento,
mas a rapariga sorri nos braços de Pillman
como maio no vale de Munga.
Baloiça um ramo vermelho de fruta,
contra a parede e a vidraça,
p’lo carreiro, ouve-se cantar
a voz grave do nascente.
Vento de outono, enche os foles amplos
e sopra como quem toca a trombeta!
Sou um alce casamenteiro de alta coroa
entre tramazeiras na charneca de Munga.
Abre-se o colchão pardo da nuvem
com o ribombar de um trovão
e a barca da lua, em traje dourado,
avança em roxo ondular.
Naveguemos com ela, desta
murcha casa outonal
até cidades cobertas de lírios
e castelos no silvo das murtas.
Como veem, não é de Lisboa que o poema fala. Como eu o percebo, o poema diz o cio de bichos e gente como fazendo parte do ciclo da natureza, e contrasta primavera e outono, e o frio norte e um sul idealizado – e usa apenas Lisboa como imagem ideal de gáudio e opulência. É uma imagem sem dúvida surpreendente aos meus olhos – e, arriscaria eu, aos olhos de muitos portugueses. Seria esta a imagem da capital portuguesa que prevalecia há cem anos na Suécia, ou é antes uma criação de Karlfeldt que não assenta em nenhuma ideia feita sobre um pretenso fausto português?

***
Passados 60 anos, é muito diferente a imagem de Lisboa que transparece no poema “Lissabon” de outro poeta sueco que também ganhou o Nobel, Tomas Tranströmer**. Evidentemente, um poema de Tranströmer sobre Lisboa não podia deixar de interessar os literatos portugueses. Vasco Graça Moura traduziu o poema para a coletânea 21 Poetas Suecos (Vega, 1980) (ver aqui), e encontro também uma tradução de Luís Costa no blogue Aventar. O poema de Tranströmer é muito mais fácil de traduzir que o de Karlfeldt. É um poema quase todo de frases narrativas curtas e diretas, sem grandes imagens literárias, e ambas estas traduções dão dele uma boa ideia***. Atrevo-me, ainda assim, a apresentar também a minha tradução:
No bairro de Alfama, cantavam os elétricos nas calçadas íngremes.
Havia duas prisões. Uma era para ladrões
e os ladrões acenavam através das grades.
Gritavam que queriam ser fotografados.
«Mas aqui», disse o condutor, rindo baixinho, inseguro,
«aqui estão políticos». Vi a fachada, a fachada, a fachada
e vi, lá em cima, um homem a uma janela,
com binóculos, a olhar para o mar.
Havia roupa estendida a secar no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma senhora de Lisboa:
«Isto é verdade ou fui eu que sonhei?»

______________________

* In Flora och Pomona, 1906. Texto original em sueco aqui.
** In Klanger och spår, 1966. Texto original em sueco aqui (e traduções em alemão, inglês e português).
*** Um pequeno comentário a alguns pormenores destas traduções:
Na primeira linha da segunda estrofe, está, no original, «som en kluven människa». Graça Moura traduz por «como se cortado ao meio» e Luís Costa por «como um afectado».  É certo que kluven significa «rachado; cortado ao meio» (um toro de lenha, por exemplo), mas en kluven människa é uma expressão fixa e não uma criação individual de Tranströmer e significa «uma pessoa dividida» (entre duas ou mais lealdades, gostos, crenças, etc.).
Graça Moura traduz kikare por «óculo». É verdade que kikare também pode ser um óculo, mas é muito provavelmente de vulgares binóculos que se trata.
É curioso que Vasco Graça Moura acrescente «branca» à roupa estendida a secar. Não é que não fique bem o branco da roupa à cidade branca, mas não há branco no original.
Quanto à «dama» de Luís Costa, acrescenta ao dam sueco uma dimensão que ele não tem: dam é só a palavra comum para «senhora», sem mais.



01/04/20

Dick Annegarn, Li Bo, a lua e as sombras

Dick Annegarn é um cantautor dos Países Baixos que tem vivido e trabalhado sobretudo na Bélgica e em França. Quando o conheci (a música dele, seja…), na segunda metade da década de 70, era muito mal visto gostar de Dick Annegarn nos círculos que eu frequentava, mas eu, mesmo assim, gostei logo das poucas canções dele que ouvi. Na altura, “Sacré géranium” e “Bruxelles” eram as mais conhecidas, acho eu. Depois, perdi o contacto com ele durante muitos anos, até que ouvi uma canção, num CD bónus de uma revista de televisão, e gostei tanto dela que não hesitei em comprar o álbum em que ela vinha, Approche-toi (1997). E não me arrependi. Comprei depois o disco seguinte, Adieu Verdure (1999), e são dois discos que vos aconselho. São álbuns que em que ele percorre todos os estilos possíveis de músicas e de orquestrações, desde o blues à música da Europa Central e do Médio Oriente, desde a pequena orquestra de jazz até ao exclusivamente eletrónico, mas são sobretudo Dick Annegarn e Dick Annegarn é um bocado difícil de explicar o que é, até porque não se parece mesmo com mais nada…

 A canção de 1997 que me veio relembrar que Dick Annegarn existia e fazia boas canções chama-se “Buvant seul” e é mais uma atualização do motivo do bebedor solitário. O que eu vim a descobrir mais tarde, já não me lembro como, é que se baseia num poema famoso de um grande poeta chinês, Li Bai (também Li Po, Li Pai ou Li Bo), que viveu entre 701 e 762. Aliás, em vez de dizer que a letra da canção de Dick Annegarn se baseia no poema de Li Bai, poderia até dizer que é uma tradução muito livre do poema.

Deixo-vos a seguir: a canção de Annegarn, com o respetivo texto em francês; uma tradução portuguesa do poema de Li Bai por António Graça de Abreu; e um link para um página onde, além do poema original de Li Bai se podem ainda ler mais 43 (!!!) traduções em inglês, uma das quais de Ezra Pound. Estão a ver que não exagerei quando escrevi que o poema era famoso...

 

Dick Annegarn, “Buvant seul”, 1997

Je suis solitaire à boire dans les fleurs
Une cruche de balthazar comme consœur
Je me lève et lève mon verre à la lune
Sa silhouette me suit nous sommes trois
La lune ne sait même pas boire que nenni
C'est en vain et sans histoire qu'elle me suit
Il fait vivre avec plaisance au printemps
Quand la lune et la nuit dansent pour un temps
Nous sommes sobres et solidaires camarades
Nous sommes ivres et nos chimères nous baladent
La bonne nuit nous envahit bien trop tôt
Nous vivrons dans d'autres vies d'autres eaux

_______________

“Bebendo ao luar”
Tradução de António Graça de Abreu, in Abreu, António Graça, Poemas de Li Bai, Macau: 1990

Um jarro de vinho entre as flores,
bebo sozinho, sem amigos.
Levanto o copo e convido o luar,
com a minha sombra somos três.
Ah, mas a lua não sabe beber,
a sombra só sabe acompanhar meu corpo.
O luar por amigo, a sombra por escrava,
vamos todos fruir a primavera, festejar.
Eu canto e passeiam no ar
os raios de luar.
Eu danço e volteia no espaço
a sombra de mim.
Lúcidos, nós três desfrutámos prazeres suaves,
bêbados, cada um segue seu caminho.
Que possamos repetir muitas vezes
nosso singular festim
e nos encontremos, por fim,
na Via Láctea.
_______________

 Li Bai bebendo sozinho (com a lua, a sua própria sombra e 43 tradutores) 

花間一壺酒
獨酌無相親
舉杯邀明月
對影成三人
月既不解飲
影徒隨我身
暫伴月將影
行樂須及春
我歌月徘徊
我舞影零亂
醒時同交歡
醉後各分散
永結無情遊
相期邈雲漢

P. S.: Este texto já tinha estado no blogue e foi apagado quando desapareceu do YouTube o vídeo de “Buvant seul”  de Dick Annegarn, sem o qual, pensei eu, perdia o sentido. Ei-lo de volta.

30/06/16

Mimi Perrin, tradutora de trompete para francês

Mimi Perrin (1926-2010) foi tradutora. Traduziu de inglês para francês, estes dois livros, por exemplo, e muitos mais. Mas não traduziu só do inglês. Traduziu também do trompete, do saxofone, do trombone e doutros instrumentos — sempre para francês!

Mimi Perrin foi fundadora, mentora e letrista de um dos melhores grupos de vocalese de sempre, os Double Six. Vocalese – é natural que muitos não saibam porque é uma prática com um número relativamente restrito tanto de intérpretes como de ouvintes – é um género de jazz vocal em que se agarra num tema instrumental e se lhe cola uma letra, com a técnica mais normal de quem faz letras para melodias preexistentes, que é uma sílaba para cada nota. Quero chamar a vossa atenção para a diferença que há relativamente a canções de jazz «normais», em que é cantada uma melodia composta para voz, e em relação ao scat, que são solos vocais improvisados sem palavras, só com sons sem significado. No vocalese não há improvisação. A melodia cantada pode ter sido originalmente improvisada (um solo de saxofone, por exemplo…); mas, a partir do momento em que é posta uma letra nessa melodia, nasce um tema de vocalese que vai ser cantado sempre da mesma maneira daí para a frente. É sempre difícil definir uma origem absoluta de um género musical, mas, para simplificar, digamos que o vocalese foi inventado por um senhor chamado Eddie Jefferson, no início da década de 50, e que foi sobretudo Jon Hendricks, o fundador e pivô do grupo Lambert, Hendricks & Ross, que o complexificou e sofisticou, passando das melodias simples às canções com várias vozes e, às vezes, letras sobrepostas.

Apresentado que foi o vocalese, voltemos a Mimi Perrin e às suas traduções. Numa entrevista de 1964 (aqui, até aos 2:11*) Mimi Perrin explica a sua filosofia de letras de vocalese, a tal tradução. Para quem não fale francês ou não esteja para ouvir a entrevista, eis o que ela diz (traduzo eu):
Quando se ouve com atenção um grupo de jazz (…) não me parece que os instrumentos façam o que normalmente se chamam onomatopeias, ou seja, tabadá ou tubudu, mas antes que têm um fraseado, um som específico, que varia conforme os instrumentos e que eu tento, de alguma forma… É como uma tradução de uma língua estrangeira, digamos assim; neste caso é uma tradução da música, do som produzido por estes instrumentos. É por isso que, por exemplo, se se tratar de uma parte de trompete, vou tentar reproduzir o ataque do trompete com tt ou com dd. Posso dar um exemplo da música que cantámos há bocadinho [“Blues in Hoss’ Flat”, de Count Basie]... Não são só trompetes, mas enfim...  O princípio, a introdução desse tema (…) é composta de ataques sucessivos e a frase que, para nós, lhes corresponde é « pour tout vous dire, nous partons tenter le bon d’antan » [«para dizer a verdade, partimos para experimentar o bom de antigamente»]. Se reparar, são saltos de tt, de bb, de dd, que reproduzem esse som. Se fizer só tugudugudu, não tem nada a ver.
Fala-se muito da dificuldade de traduzir poesia e uma das dificuldades da tradução de poesia é transpor para outra língua ritmos e sonoridades. Mas, pelo menos, na tradução de poesia, há algum significado a que o tradutor se pode agarrar. Se for tudo muito vago ou se os sentidos produzidos forem muitos ou muito pouco convencionais, pelo menos cada palavra não deixa de carregar consigo algum significado, imagens que sejam. Traduzir de trompete para francês é bem mais difícil, acho eu.


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 * No vídeo hiperligado (é assim que se diz linkado em bom português?), depois da entrevista, os Double Six interpretam "Four Brothers" de Jimmy Giuffre. Não sei em que versão se baseia esta versão vocalese (não é na original da orquestra de Woody Herman), mas, seja ela qual for, diz na descrição do vídeo que Mimi Perrin canta o solo de sax alto, Hélène Devos e Annie Vassiliu fazem os trompetes, Bernard Lubat canta o solo de sax tenor, Gaëtan Dupenher o de sax barítono e Jef Gilson faz o trombone. A letra é, como todas, de Mimi Perrin.

Deixo-vos também, já agora, uma hiperligação para a primeira versão vocalese do tema, em inglês, de Lambert, Hendricks & Ross (1955), o grupo que inspirou Mimi Ferrin a começar a fazer vocalese; e outra para a versão dos Manhattan Transfer (1978), que creio que é a mais famosa. Para compararem :) Boa audição.

P. S.: Logo depois de publicar este texto, encontrei um ensaio recente sobre este mesmo assunto: How Mimi Perrin Translated Jazz Instrumentals into French Song, de Benjamin Givan, aqui.

10/01/16

Coisas de somenos importância em tradução

Circula por aí (quer dizer, não sei se circula muito, mas eu vi) um fotograma da transmissão do discurso de Ano Novo de Angela Merkel num canal de televisão inglês, em que as legendas dizem: «This New Year’s Eve, I’d like to say one word: Thank you![1]»

Não sei se o erro se deve ao uso de um tradutor automático, como alguns propõem, ou a um automatismo de algum tradutor, mas é um problema antigo este da «tradução» do discurso metalinguístico, ou seja, de quando o que se diz ou escreve se refere, pelo menos em parte, à própria língua em que está a ser dito ou escrito. Imaginem que é preciso traduzir para inglês um texto em que se diz:

«Sim, lembrem-se de que a língua em que leem isto é a língua de Camões, mas também é a língua da minha avó Belmira.»

Posso «traduzir» Camões por Shakespeare, se der ênfase à relação entre as línguas e os seus utentes mais famosos, mas é provável que isso me leve a grandes confusões na continuação do texto... Além disso, se a minha avó Belmira entra na frase como representante do linguajar popular, dificilmente um falante típico do inglês popular se chamará Belmira. Ou posso traduzir tudo «literalmente» e deixar Camões e Belmira na tradução, se quiser dar ênfase ao facto de ser do português que se está a falar, mas crio um semiabsurdo, porque a língua em que a frase está escrita não é a língua de Camões nem da minha avó Belmira. Digo semiabsurdo, porque posso contar com um fator exterior à tradução para me decidir por esta última opção: a consciência do leitor de que está a ler uma tradução, que desfaz relativamente o absurdo[2].

Mas enfim, problemas destes não se põem muitas vezes ao tradutor. Há outros, porém, ainda mais extralinguísticos, que surgem com bastante frequência. Aliás, é por isso que, ao trabalho que eu faço, que antigamente se chamava apenas tradução, se chama agora muitas vezes tradução e localização. Pode parecer picuinhice, mas não sei se será… Um exemplo:

Tenho de traduzir «The Ramas now control the natural resources in an area the size of Funen in Denmark.» Os Ramas são um grupo étnico da Nicarágua, mas isso é explicado antes, e a ilha dinamarquesa de Fyn (Funen em inglês) chama-se Fiónia em português. Por razões que não interessa aqui explicar, o texto original destinava-se a dinamarqueses, mas a tradução é para ser lida por moçambicanos. «Do tamanho da Fiónia?» Se o trabalho do tradutor fosse só traduzir, era obviamente isso que devia escrever, «do tamanho da Fiónia», porque é essa a tradução. Mas, para um moçambicano «normal», isso não faz o sentido que faz o texto original para um dinamarquês. Na realidade, para um moçambicano «normal», «do tamanho da Fiónia» não faz sentido nenhum.

É aqui que começa o trabalho de localização. Tenho de traduzir não o significado da frase, mas o sentido que ela faz para o público-alvo. Mais por brincadeira, ponho a questão a uns amigos.

Um sugere-me usar «a unidade-padrão mais em voga nos jornais»: uma área de cerca de 420.000 estádios de futebol. Bom, é certo que os moçambicanos que vão ler o artigo conhecem estádios de futebol, mas fico com muitas dúvidas sobre esta maneira de dizer as coisa…

Outro propõe-me comparar com um distrito de Moçambique. Também não é má ideia. «O distrito de Sussundenga», diz ele, «tem cerca de 7.000 km²». Podia escrever «um pouco menos de metade do distrito de Sussundenga», mas a maior parte dos moçambicanos não faz ideia nenhuma do tamanho do distrito de Sussundenga. Teria de arranjar uma parte de Moçambique de cujas dimensões os moçambicanos tenham uma ideia tão clara como os dinamarqueses têm do tamanho da Fiónia. Que parte de Moçambique será essa?

Acabo por traduzir «Os Ramas controlam agora os recursos naturais de uma área de cerca de 3.000 km²», mas sem certeza nenhuma de que é a melhor… localização.

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[1] Penso que muitos concordarão que a tradução correta é «I’d like to say two words: Thank you!» Pode traduzir-se Danke por uma palavra apenas, thanks, mas isso muda o registo do enunciado, que se torna mais informal. Thank you fica muito melhor neste contexto e «duas palavras» continua a querer dizer «de forma muito concisa».
[2] Já aqui falei disto uma vez, num texto sobre coisas difíceis de traduzir ou, em última análise, realmente intraduzíveis — que não são de modo nenhum as míticas «palavras intraduzíveis» que fazem correr tanta tinta (mal empregada…).




07/10/14

O sex appeal do relativismo linguístico (continuação de vários capítulos anteriores…)

Nos artigos sobre língua e linguística que vão aparecendo na comunicação social, a influência da língua na maneira de ver o mundo é um tema muito sexy. Os jornais não são, nesse aspeto, muito diferentes das conversas de café: pelo que vejo, é sempre sexy afirmar que “as categorias linguísticas influenciam o pensamento e algum comportamento não linguístico” ou qualquer coisa desse estilo. Evidentemente, os pressupostos e conclusões desta escola de pensamento são discutíveis – e efetivamente discutidos –, mas, embora a perspetiva contrária não esteja completamente ausente dos meios comunicação social, é-lhe dado menos espaço mediático. É muito menos sexy dizer, por exemplo, que a língua dá conta de como a mente funciona do que dizer que ela modela a maneira como a mente percebe o mundo.

Já aqui falei muito desta questão e, por muito que sobre ela haja muito mais a dizer, hoje falo antes de outra ideia relacionada com esta, também muito sexy e, por isso, também muito divulgada, que é a das palavras e construções muito, muito idiossincráticas, intimamente ligadas à cultura e à mundividência de um povo – tão idiossincráticas que chegam a ser intraduzíveis. É que há muito quem goste de empolar o idiomático e o intraduzível. E há também quem, como eu, goste de chamar a atenção para o muito que assim se exagera – quando não se dizem, pura e simplesmente, disparates atrás de disparates.

Fazendo uma recolha ao acaso de oito das muitas listas de palavras “intraduzíveis” que por aí circulam[1], as mais referidas (em seis dessas listas) são a família francesa dépayser/dépaysement e o checo prozvonit. Se, no caso dos termos dépayser/dépaysement/dépaysant, posso imaginar dificuldades de tradução de frases em que eles entrem (embora, em muitos contextos, exótico, por exemplo, traduza exatamente dépaysant), já prozvonit (creio que é um verbo, esquecem-se sempre de classificar morfologicamente os “intraduzíveis”) parece ser facilmente traduzível para muitos falantes do português ou do espanhol, já que há nas duas línguas uma expressão que traduz diretamente o termo checo: dar um toque é a expressão que usam para referir um telefonema que se desliga antes de o destinatário ter atendido, para o informar de alguma coisa previamente combinada sem ter de pagar uma chamada – ou para que ele ligue a quem ligou[2].

Em seguida, com cinco ocorrências nas oito listas, vêm hygge/hyggeligt em dinamarquês, mamihlapinatapai em iagane da Terra do Fogo, saudade em português, Schadenfreude em alemão e wabi-sabi em japonês. De hygge/hyggelig e de saudade já aqui falei e, em vez de me repetir, remeto-vos para o texto em que analiso a pretensa intraduzibilidade dessas e outras palavras, e a própria ideia de in/traduzibilidade. O que se traduz, explico eu nesse texto, não são palavras mas frases (para simplificar), pelo que a ideia de palavras intraduzíveis não faz grande sentido. Mas adiante. É-me completamente impossível saber de que elementos se compõem mamihlapinatapai e wabi-sabi e se há ou não marosca na definição dos termos. Se mamihlapinatapai significa de facto “um olhar trocado entre duas pessoas que querem ambas que a outra inicie algo que ambas desejam, mas não querem ser elas a começar”, um olhar cúmplice cobre provavelmente muito do uso do termo sem grande perda de informação, se não quisermos recorrer a, sei lá, “uma troca de olhares hesitantes de desejo”, qualquer coisa assim. Já a definição de wabi-sabi é tão estranha que gostaria que, além de explicarem de que categoria morfológica é o termo, me apresentassem a palavra em contexto: a definição de “encontrar beleza na imperfeição e aceitar o ciclo natural de crescimento e declínio” parece-me tão fantasiosa, que ou se trata do aproveitamento filosófico de um termo que não tem nada a ver com o seu uso línguístico comum[3] ou então imagino mal uma frase como “Ana amiúde wabi-sabi”, com o significado de “Ana encontra amiúde beleza na imperfeição e aceita o ciclo natural de crescimento e declínio”. Vocês não? Schadenfreude é, claro está, uma das palavras alemãs que muitas vezes se usa em enunciados de outras línguas sem a traduzir (como Blitzkrieg, Weltanschauung, Zeitgeist, etc., etc.), mas é por hábito que isso se faz (uma moda, de facto) e não por impossibilidade de dizer o mesmo com palavras que não sejam alemãs. Um nome não é, em princípio, predicador e é preciso, para propor uma tradução, ver as frases concretas em que a palavra aparece; mas se for de sentir Schadenfreude que se trate, deixo a tradução à minha avó, que falava de “ter gosto na desgraça alheia”. Num registo menos familiar, comprazer-se no sofrimento alheio resolve bem o problema, ou não?

E depois, em quatro das oito listas aparecem o cafuné do português, o espanhol duende (Spaniards got soul!), o inuíta iktsuarpok, que é “ir lá for a ver se lá vem alguém”; o jayus indonésio, “uma anedota tão má que dá vontade de rir”; o kyoikumama japonês, essa “mãe educativa”, que obriga o filho a ter boas notas na escola; o lítost checo, definido como “o estado de agonia ou tormento resultante pela súbita constatação da sua própria desgraça” (discutido no parágrafo seguinte); o pochemuchka russo, que é o Spørge Jørgen dinamarquês, aquele perguntador cujas línguas se comiam ao jantar quando eu perguntava à minha avó o que era o comer; o tartle escocês, que é “hesitar ao apresentar alguém porque, ups!, se esqueceu o seu nome”; um surpreendente tingo do rapanui, que é “pedir emprestado até deixar sem nada quem nos empresta” (esta cheira mesmo a esturro, não cheira?), o Torschlusspanik alemão, que é “a angústia de ter cada vez menos oportunidades à medida que o tempo passa”, mas que, de facto, é apenas uma metáfora compreensível por falantes de qualquer língua em cuja cultura existam portas, o “pânico d(e encontrar) a porta fechada”; e depois e depois e depois…

A verdade é que, como diz David Shariatmadari, num artigo no Guardian (traduzo eu) “todos gostaríamos de acreditar em palavras intraduzíveis. É uma ideia tão romântica: que existem aí algures, como ilhas desertas por descobrir, ideias que nunca concebemos. Cuidadosamente guardadas por estrangeiros ao longo dos séculos, joias de cultura ignoradas pelo resto do mundo”. Shariatmadari é, como eu, crítico deste romantizar da intraduzibilidade. Ainda bem que o Guardian, que costuma divulgar tanto a perspetiva oposta, dá também voz ao menos sexy: “Há alguns pressupostos linguísticos e não linguísticos ligados a este romance, a maior parte dos quais é decididamente duvidosa”, continua Shariatmadari, acrescentando que os exemplos comummente citados são “quase todos ridículos, quando se analisam em pormenor”. Além da saudade e do hyggelig já referidos, ou do mito das palavras inuítas para neve (de que também já aqui falei uma vez), Shariatmadari passa em revista várias palavras “intraduzíveis”, como a utepils norueguesa, o aware japonês, a Schnapsidee e a Waldeinsamkeit alemãs, a toska e o razbliuto russos e a goya do urdu. Do lítost checo, de que prometi desenvolvimento no parágrafo anterior, diz ele o seguinte:
Milan Kundera não conseguiu traduzir esta palavra checa para inglês. NO Livro do Riso e do Esquecimento, definia-a como “um estado de tormento criado pela repentina constatação da sua própria desgraça”. As línguas dividem de forma diferente o espectro do sofrimento humano. Mas o inglês tem com certeza uma quantidade de candidatos a equivalente aproximado: self-pity, remorse, regret, anguish, shame [autocomiseração, remorso, arrependimento, angústia, vergonha].
Pode ser que Shariatmadari tenha razão e pode ser que não. Não sei checo, não o posso discutir. Não parece haver dúvidas de que o verbo litovat significa “arrepender-se, ter remorsos” e que lítost significa “arrependimento” em certos contexto, mas a explicação de Kundera na obra referida parece dizer mais respeito a vergonha que a arrependimento. O que tenho por certo é não há nenhuma razão para crer que os checos conseguem fazer frases para descrever um sentimento que ninguém além deles consegue fazer. Isso implicaria uma de duas explicações: ou os checos sentem coisas que mais ninguém sente ou a língua checa tem uma capacidade de representação do mental diferente das outras. Ambas me parecem altamente improváveis…

Como Shariatmadari também explica, pode ainda acontecer que, por exemplo ao considerar intraduzível a “palavra” turca çekoslovakyalılaştıramadıklarımızdanmışsınız, se alargue tanto o conceito de palavra que se faz a batota de comparar “palavras” de certas línguas com “palavras” de outras línguas em que cabem numa “palavra” muitas “palavras”. Trata-se, de facto de um artifício fundamental no discurso do intraduzível: não especificar o que se entende por palavra, uma categoria muito vaga, sobretudo quando há línguas e tradições ortográficas em que se juntam palavras para formar novas palavras e outras em que as palavras mantém sempre, no som e/ou na escrita, alguma autonomia entre elas. Enfim…

E então? Palavras intraduzíveis são, com rigor, todas as palavras, porque não são, insisto, palavras que se traduzem. Mas, para não ir tão longe, palavras intraduzíveis são simplesmente as palavras que as pessoas que defendem a sua intraduzibilidade não sabem traduzir para nenhuma das outras línguas (entre 3.000 e 7.000, conforme se façam as contas), o mais das vezes porque nunca se deram a muito trabalho para encontrar uma tradução…; ou as palavras estrangeiras que não sabem traduzir para a sua própria língua, porque não compreendem o que elas querem dizer e aceitam explicações delirantes do seu significado[4]...

Mas passemos agora das “palavras” às expressões. Para voltar ao já referido artigo do Guardian sobre “vocabulários culturais”, é preciso, sinceramente, uma enorme dose de boa vontade e muitas voltas à retórica para dizer que “a individualidade nacional se exprime saudavelmente em expressões idiomáticas como o mesmo significado mas usos (???) amplamente diferentes e localmente inspirados” e dar como exemplo o contraste entre carrying coal to Newcastle (“levar carvão para Newcastle”), Eulen nach Athen tragen (“levar mochos para Atenas”), vendere ghiaccio agli eschimesi (“vender gelo aos esquimós”), llevar naranjas a Valencia (“levar laranjas a Valência”) e vizet hord a Dunába (“levar água ao Danúbio”)”[5]. Que o Danúbio não seja em Espanha e que as laranjas de Valência não possam fazer parte de um provérbio inglês parece relevar mais da geografia que da língua e, se se pode encontrar “individualidade nacional” no carvão em Newscastle, já se vê mal o que têm de especialmente alemão os dracmas atenienses ou o que há de especialmente italiano no gelo dos esquimós. Sejamos razoáveis: Não há nada na língua portuguesa (nem na cultura portuguesa, sequer) que determine ou justifique uma expressão como “ensinar a missa ao padre”[6] – houve apenas, por acaso, um falante do português que criou essa frase (mesmo que tenha sido traduzida) e ela teve fortuna entre os falantes da língua, voilà! Evidentemente (por razões que nada têm a ver com a língua!), seriam precisas algumas alterações para que a tradução de “ensinar a missa ao padre” fosse entendida por pessoas de países onde não há missa nem padres, mas é, em princípio, adaptável para qualquer língua do mundo.

São famosas as brincadeiras com traduções “literais” de expressões ditas idiomáticas, incluindo provérbios. Também já aqui falei uma vez disso.  Dizia que “muitas das expressões ditas idiomáticas (…) são figuras de estilo que só se tornaram populares numa determinada região e que, por isso, só se usam na língua dessa região, mas que nada impediria de terem tido a mesma fortuna noutra regiões e noutras línguas”. Agora, claro, “o que não se pode é traduzir [as expressões de cada país ou região] de uma maneira parva, como se faz normalmente nas anedotas para aumentar o efeito cómico”, escrevia eu nesse outro texto desta Travessa.

Não se pode dizer, por exemplo, “Tens uma descida que eu não gostava de subir de bicicleta!” por razões efetivamente linguísticas, mas é apenas porque é impossível traduzir assim para português um jogo de palavras francês. A frase é uma tradução “literal”, e por isso idiota, de uma expressão, que se diz a alguém que bebe muito: Tu as une descente que j’aimerais pas remonter à vélo ! Evidentemente, descente em francês não é só “descida”, mas também “capacidade de emborcar” e, se não houver, na língua alvo, uma palavra que tenha esses dois significados (não fui ver nas línguas todas do mundo, mas parece-me provável que essa coincidência se dê só em francês…), o jogo de palavras não funciona.

Também é óbvio que há que ter cuidado com a tradução “literal” de uma expressão como dia de São Nunca à tarde, mas, se a tradução for sensata, ela compreender-se-á mesmo nas línguas em que não se usa. Aliás, há em inglês uma expressão com a palavra never (“nunca”), twelfth of never, que significa o mesmo, e há noutras línguas europeias expressões com o mesmo significado com nomes de santos… inexistentes (ver aqui e aqui). Mesmo uma expressão como o olho da rua, em que a tradução direta de olho causaria sem dúvida muita estranheza e incompreensão, não é assim tão “idiomática” como pode parecer, porque olho também se usa noutras línguas para dizer “meio” , por exemplo quando se trata do centro de um furacão – e não só!

Eu uso muitas vezes, numa determinada língua, expressões que costumam usar-se noutra língua e toda a gente me compreende, se digo, por exemplo, que não vale a pena procurar o meio-dia às duas da tarde ou que não vale a pena procurar pulgas onde não há pulgas (expressões francesas, il ne faut pas chercher midi à catorze heures e il ne faut pas chercher des puces où il n'y en a pas). Agora vou passar também a dizer, para situar um acontecimento num passado muito distante, que isso foi no tempo em que o rei de ouros ainda era valete. É uma expressão dinamarquesa, dengang ruder kongen var knægt, que aprendi no outro dia. Por outro lado, há frases idiomáticas cujo significado não se compreende apenas por falar a língua em que elas ocorrem – tem de se aprender o seu significado, como se aprende o significado de uma palavra. Um exemplo óbvio é quem quer vai, quem não quer manda. A frase propriamente dita não significa, em português, o que significa o provérbio que ela constitui, pelo que ser falante do português não basta para adquirir esta parte do seu “vocabulário cultural”…

Conclusão (mais uma vez): um bocadinho de bom senso, sim?

Ah, e outra coisa que não tem nada a ver com isto, mas com o título do texto: há palavras inglesas que entram no português e outras que vão saindo – sex appeal era muito mais comum na geração do meu pai que na minha e tenho a impressão que está a cair em desuso, não está?

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[1] A lista original está reduzida da seis a 23.7.2023: http://www.boredpanda.com/untranslatable-words-found-in-translation-anjana-iyer/; http://boingboing.net/2014/09/22/ten-untranslatable-words.html; http://europeisnotdead.com/disco/words-of-europe/137-2/; http://travel.allwomenstalk.com/fantastic-untranslatable-words; http://matadornetwork.com/abroad/20-awesomely-untranslatable-words-from-around-the-world/; http://www.babbel.com/magazine/untranslatable-01

[2] Encontrei na Internet vários comentários de brasileiros e espanhóis propondo dar um/un toque como tradução direta de prozvonit. Os meus amigos portugueses que consultei sobre o tema parecem acordar que dar um toque, sem mais, é ambíguo e que acrescentariam qualquer coisa: dar um toque e desligar, por exemplo.

[3] Da mesma forma que, na boa tradição de Teixeira de Pascoaes, algumas definições de saudade que se encontram nestas listas de palavras intraduzíveis não têm nada a ver com a palavra saudade usada nas frases efetivamente produzidas por falantes do português: “vago e constante desejo de qualquer coisa que não existe e provavelmente não pode existir (…), que indica que nos viramos mentalmente para o passado ou para o futuro [!!!]”, que “não é um descontentamento ativo ou uma pungente tristeza mas sim uma melancolia indolente e sonhadora.” Desculpe, importa-se de repetir? Mas, mesmo que não se vá por tão fantasiosa definição e nos fiquemos pela (também completamente incorreta) “nostalgia de uma pessoa ou coisa que se perdeu e que já não volta”, como se aplica isso a, por exemplo “Bom, saudades de Portugal propriamente não tenho, mas tenho, claro, saudades dos amigos e da família – e de bom peixe fresco. Uma boa postinha de garoupa, ena, que saudades!” ou a “Ena, já tinha saudades de vir aqui dar uma volta à tarde, há mais de três meses que cá não vínhamos”. Enfim, quem não sabe é como quem não vê, diz o outro e com razão. Parece-me provável que a longa dissertação de Milan Kundera nO Livro do Riso e do Esquecimento sobre o termo lítost, que se discute neste texto, seja um devaneio do mesmo tipo que ignore completamente o uso real da palavra em checo, mas, claro, não posso disso ter a certeza…

[4] Ou até porque o seu vocabulário na sua própria língua é extremamente limitado. No blogue Better Than English (entretanto desparecido), que era um exemplo acabado do disparate linguístico no que toca a palavras intraduzíveis, chegava a afirmar-se que a palavra espanhola tocayo (o xará do português brasileiro) não tem tradução para inglês – mas então e a palavra namesake?

[5] Também não se percebe o que vem fazer no meio de tudo isto a constatação simples de que a expressão de dor é diferente em diferentes línguas. Em princípio, o que seria estranho é que o não fosse – tão estranho como uma mesa ser referida pela mesma palavra em todas as línguas. Não deixa de ser curioso, porém, que haja tanta semelhança entre a expressão da dor em línguas tão diferentes como o português e o mandarim – e talvez alguma razão para tal –, e é também muito curioso que este artigo se esqueça de o referir para acentuar o contrário…

[6] “Ensinar a missa ao padre” pode ter uma nuance de sentido que implique restrições no uso relativamente às frases referidas antes, que significam apenas “fazer algo inútil”. A Wikipedia em alemão, porém, inclui no seu artigo “Eulen nach Athen tragen” (uma variação dieletal d)a expressão meiner Großmutter das Beten lernen, “ensinar a minha avó a rezar” como sinónimo de levar mochos para Atenas – e esta parece corresponder de uma forma muito direta a “ensinar a missa ao padre”. Além de uma longa lista de expressões sinónimas em alemão, o artigo tem também uma lista de expressões equivalentes noutra línguas, estre as quais “levar bananas para a Madeira” e “vender mel ao colmeeiro” em português.

[Atualizado a 23 de julho de 2023]

11/02/14

Laticínios e mais laticínios e elogio moderado de (alguns) estrangeirismos [Crónicas de Svendborg #18]

Já aqui falei da dificuldade de traduzir para uma língua termos que designam realidades desconhecidas dos falantes dessa língua. A solução costuma ser adotar simplesmente o termo da língua de origem, adaptando-o apenas à estrutura fonética da língua alvo. É um dos mecanismos mais produtivos na criação de neologismos, estou em crer. Se nunca se viu batatas, importa-se com a planta um nome taino; se nunca se viu anoraques, passa a designar-se a peça de vestuário com o seu nome gronelandês; se nunca se viu uma chita, passa a designar-se o animal com o seu nome hindi; se nunca se viu iogurte, importa-se com o produto o seu nome turco, e por aí fora.

Sempre se falou de coisas ainda sem nome na língua em que se fala, mas hoje fala-se mais ainda, porque há muito mais comunicação entre os lugares quase todos do mundo. Os conceitos novos nas áreas técnicas chegam-nos fresquinhos (como sempre chegaram) ainda na língua em que foram criados, sem serem filtrados por propostas de tradução dos especialistas dessas áreas que têm a mesma língua que nós. Em jornais e revistas, são-nos apresentados em línguas exóticas (como sempre foram!) nomes de bichos, plantas e artefactos culturais. E há (como sempre houve) algumas destas palavras estrangeiras que passam a ser usadas com maior ou menor regularidade.

Muitas vezes, há resistência a estas importações, e é natural, porque as pessoas estão fartas do uso desnecessário de palavras estrangeiras. É que também há muito quem use barbarismos que ouviu sem ter o cuidado de verificar como determinada noção, às vezes mais que traduzida, se diz na sua língua. E, como não é fácil decidir quando é ou não preciso recorrer ao empréstimo, acontece então que se vá longe demais nesta recusa do estrangeirismos. Dou a palavra a Cláudio Moreno:
Faço questão de frisar (…) que muitas vezes a caça aos vocábulos estrangeiros é motivada por falta de informação (ou cultura) do caçador, que pensa, erroneamente, ter encontrado um sinônimo idêntico no Português. Não faz muito um jornalista vociferava, no rádio: “Parem com essa mania de usar nome importado para fingir que a coisa é fina! Mas quando se ouviu falar em iogurte? Parem com isso! Iogurte é a nossa velha coalhada!” – e dê-lhe ponto de exclamação! Confesso que fiquei impressionado com a veemência de seu discurso; no entanto, como sempre desconfio daquilo que vem gritado, seja na fala ou na escrita, fui consultar um queijeiro amigo, que me aconselhou a não levar a sério o jornalista, já que os dois – o iogurte e a coalhada – são tão parecidos quanto um porco e uma ovelha...
Também é verdade que as pessoas, lexicólogos e gramáticos incluídos, não têm de ser gastrónomos, nem zoólogos nem botânicos. Podem é ter cuidado. E abrir mão do nacionalismo linguístico, chamemos-lhe assim, quando for caso disso. Notem que a minha intenção aqui é mais lançar a confusão – e mostrar que a realidade é suficientemente complexa para justificar importações, às vezes realmente necessárias. Dou exemplos com nomes de laticínios, porque a outra intenção deste texto é apresentar alguns laticínios destas terras ou que por aqui se encontram e é por isso que faz parte das Crónicas de Svendborg.

Adotámos e adaptámos portanto o yoğurt turco em toda a Europa, já há muito tempo, e fizemos bem, mas isso não resolve todos os problemas. Acho que a questão não se porá muito em Portugal, mas pode ser preciso traduzir para outra língua palavras como ymer, por exemplo, filmjölk ou skyr[1] ou muitos outros produtos do mesmo tipo… Muitos pensarão: “Tanto preciosismo para quê? Se é parecido com iogurte, chama-se-lhe iogurte – ou outro nome próximo que se use na língua para que se traduz.” Pode ser. Até ao momento em que alguém tenha de explicar a diferença entre os dois produtos, ou dizer, simplesmente “Que chatice, não há iogurte no frigorífico, só há ymer e eu só gosto de iogurte, detesto ymer”. (Pode ser uma personagem de uma narrativa de ficção, mas também pode ser o meu filho, que adora iogurte e detesta ymer… Já a minha filha mais nova prefere tykmælk[2] e não é grande fã de iogurte.) Uma boa descrição destas dificuldades é a do primeiro parágrafo da entrada “Quark” da Wikipedia em inglês (traduzo eu, deixando por traduzir alguns nomes de laticínios, quando acho que devo):
Quark é um tipo de laticínio fresco. É feito aquecendo leite fermentado até se atingir o grau pretendido de coagulação (desnaturação) de proteínas lácteas e depois é coado. Os dicionários [ingleses] traduzem normalmente o termo como curd cheese ou cottage cheese, embora a maior parte das variedades comerciais de cottage cheese sejam feitas com rennet, ao passo que o quark tradicional não é. É mole, branco e fresco, semelhante a alguns tipos de queijo fresco[3]. É diferente do ricotta porque o ricotta (em italiano: "recozido") é feito de soro de leite aquecido. É semelhante ao chakka indiano.
Usa-se muitas vezes natas azedas para traduzir sour cream. Mas sour cream é um laticínio específico e que quem lê natas azedas pode pensar que é de nata azeda, nata que azedou, que se trata e não é. É nata cuja fermentação foi controlada, com bactérias específicas. Bom, eu conheço uma receita mesmo com natas que azedaram, uma espécie de soupe de chalet[4] que aprendi a fazer na Suíça, mas não é a isso que se referem as receitas que se encontram normalmente. Há vários tipos de sour cream, mais ou menos gordas e mais ou menos azedas, mas, no geral, nem sequer são azedas por aí além, pois não? Na Dinamarca (como noutros países), chama-se à sour cream… crème fraîche! E não deixa de ser curioso: se se traduzir do francês usando a mesma lógica que se usa para traduzir do inglês, temos nata fresca em vez de nata azeda – duas expressões que parecem ter significados bastante diferentes... Mas atenção: a sour cream inglesa é diferente da americana; e, em francês, crème frâiche pode designar dois produtos diferentes – é claro que é a crème fraîche espessa que é sour cream e não a líquida, a fleurette.

É então necessário usar estas palavras estrangeiras? Depende do (con)texto. Em (con)textos em que não é o rigor da descrição do produto que importa, pode adaptar-se tudo ou quase tudo e, às vezes, a tradução só ganha com isso. Pode dizer-se, por exemplo, em português, que “John disse que não queria natas no bolo de maçã, que as natas lhe caíam mal”. Só natas chega, não vale a pena dizer que eram azedas. Até chantili se pode dizer neste contexto, juntando às natas, na tradução, açúcar que não tinham no original. Mas quando se quiser mesmo falar de comida, do sabor, do produto, usem-se os estrangeirismos, explicados se se julgar necessário, só para não enganar ninguém.
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Bónus: Completamente grátis e um bocadinho a despropósito, deixo-vos aqui um link para um quadro muito informativo sobre a percentagem de lactose em diversos laticínios (façam favor) e um mapa da distribuição da intolerância à lactose no mundo (tirado daqui). Os dados variam um pouco conforme as fontes, mas nunca andam muito longe disto.







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[1] Comi ontem skyr pela primeira vez; é muito mais parecido com iogurte que ymer, mas é mais azedo e a consistência também é diferente, muito mais cremosa.
[2] A entrada da Wikipedia em inglês para que o link remete diz que este laticínio é semelhante ao leitelho, o produto lácteo que sobra do fabrico de manteiga, mas a verdade é que, em sabor e, sobretudo, em consistência, os dois produtos são diferentes – leitelho bebe-se, tykmælk não. Não sei porque não há leitelho comercializado em Portugal, uma bebida tão boa.
[3] Traduzi fromage blanc por queijo fresco, para simplificar, mas quem conhece queijo fresco e fromage blanc sabe que não são o mesmo produto…
[4] Deixo soupe de chalet em francês, com as minhas desculpas, porque é uma sopa específica, não apenas uma sopa feita num chalé – quanto mais não seja porque os chalets em questão são cabanas de pastores)

25/11/13

O arroz escandinavo [Crónicas de Svendborg #17]

Num pacote de arroz, encontro, como numa grande parte dos produtos que se vendem na Dinamarca, a descrição e as instruções de uso em quatro das línguas oficiais da Escandinávia: dinamarquês, sueco, norueguês bokmål e finlandês. Agora, traduzir de uma língua escandinava para a outra não é um trabalho linguístico em sentido estrito, é um trabalho bem mais complexo de localização linguística. Senão, vejam:

Em dinamarquês, diz-se que o arroz deve cozer 12 minutos e repousar tapado outros 12, antes de ser servido; em sueco e finlandês, o arroz deve cozer 20 minutos e repousar 5; e em norueguês, deve cozer 15 minutos e repousar 5-6…

26/11/12

Tradução: quando não há palavra, porque não há coisa

À primeira vista, pode parecer pateta não traduzir entrecôte ou rib eye steak – para quê usar palavras estrangeiras quando temos palavras portuguesas para referir uma coisa? Temos? Temos, com certeza!, porque havia de se deixar sem nome, em português, uma parte da carne?
Bom, acho que, normalmente, se chama em português europeu bife da vazia ao que se chama entrecôte em francês e rib eye steak em inglês: um bife da parte do lombo do bovino que, no português do Brasil, se chama capa de filé e, no Reino Unido se chama fore rib. Mas nem sempre… Não há, sobretudo, correspondência biunívoca entre vazia e entrecôte, enquanto termos para designar cortes de carne, e entre cada um destes termos e rib. Segundo a maior parte do que vi sobre o assunto, a vazia cobre a entrecôte (ou uma parte dela…), mas é muito maior. E rib também: designa a entrecôte, mas também a côte, que em português é acém. Já agora, para complicar: parece que o acém designa, além da côte, o que se chama veine grasse e, segundo alguns dicionários, a entrecôte (ou parte dela, pelo menos). Pois, porque há quem diga que é acém que se chama à entrecôte e não vazia… Não é fácil perceber onde acaba a vazia e começa o acém. Nem sempre condizem as designações, é um pouco confuso…
O problema não é linguístico em sentido estrito. As tradições de corte de carne são diferentes nos vários países e, por isso, as pessoas desses países usam palavras que referem partes diferentes do animal. De facto, não é só de uma língua para a outra que os nomes dos cortes de carne são difíceis de traduzir, mas podem sê-lo também de uma para outra variante da mesma língua: encontrei informação de que a palavra francesa entrecôte não designa a mesma parte da carne na tradição de corte francesa e belga, por exemplo. Da mesma forma, rib designa uma parte maior da carne do bovino nos EUA que no Reino Unido. A julgar pela informação contraditória que encontro sobre onde começa e acaba o acém ou a veine grasse, não me admirava nada que as designações de uma mesma parte da carne variassem também dentro do mesmo país. Se calhar, até de cortador para cortador. (Hmm, devo estar a exagerar…)
Como fazer então, quando se tem de traduzir « Une entrecôte maître d’hôtel bleue à la six, et que ça saute! »? Pois… «Sai um bife da vazia – ou do acém, acho que se pode escolher, conforme o bife que se tenha em mente – com manteiga de alho e salsa, e mesmo muito, muito mal passado para a mesa seis! E rápido!» Hmmm… Ok, pronto!
Quem fala de cortes de carne pode também falar de estabelecimentos onde se vendem bebidas alcoólicas. Alguém criticava, no outro dia, usar-se pub num texto em português, quando há, na nossa língua, tantas palavras para designar um estabelecimento desse tipo. É uma crítica justa: também acho que quem escreve em português não se deve limitar a aceitar, assim sem mais, todas as palavras estrangeiras que lhe apareçam à frente. A tradução de termos destes, porém, muitas vezes não é tão fácil como parece – porque, mais uma vez, é o próprio conceito expresso pela palavra na língua de origem que não existe no país ou nos países onde se fala a língua-alvo. É possível traduzir o inglês pub por taberna ou tasca, como já vi propor. Mas nem sempre fica bem. Funciona se a frase for do tipo «passava a vida na tasca com os amigos» ou «bebeu uma cerveja a correr na primeira taberna que encontrou», mas soa muito estranho em frases como «encontraram-se numa tasca vitoriana chamada “A rosa e a coroa”» ou «entrou na taberna, foi buscar ao balcão uma pinta de cerveja preta e um pacote de torresmos e foi refastelar-se numa das poltronas de veludo acastanhado».  
Saudades, toda a gente as tem, das pessoas e dos lugares de que gosta e de que está longe; e não há língua nenhuma em que não haja uma expressão simples para as dizer. Agora, acém e faux-filet, essas é que são as verdadeiras dificuldades culturais da tradução.

[Adenda a 19 de junho de 2015, revista a 23 de fevereiro de 2024]
Bacon é outro bom exemplo de uma palavra estrangeira que se adota com um produto novo. A minha avó conheceu o produto bacon na mesma altura em que eu o conheci e aceitou o nome inglês, que pronunciava beique. À pergunta “É mesmo necessária a palavra inglesa?”, a resposta é que não, como nunca é, nem que tenha de se criar uma palavra nova. Como se diz então bacon em português?
Em abstrato, creio que não se pode mesmo traduzir diretamente sempre da mesma maneira, porque a palavra inglesa não refere um produto apenas, mas vários e, ao que sei, não temos nenhum termo ou expressão que cubra os mesmos significados. A tradução toucinho fumado, que já vi proposta, pode funcionar às vezes, se for de smoked bacon que se está a falar, mas nem todo o bacon é fumado, e nem sequer curado, porque há bacon fresco (green bacon). O bacon do ombro e outros cortes de bacon não têm mesmo nada de toucinho.
Mas é certo que isto são produtos mais raros, não precisam tanto de tradução... Atenhamo-nos então ao bacon mais comum, o chamado streaky bacon, vá, para não nos perdermos em complexidades gastronómicas. Como a palavra toucinho é muito abrangente (fumado ou não, é às vezes fat, às vezes lard e às vezes bacon), para o streaky o melhor seria, provavelmente, usar entremeada, que é como se costuma chamar a esse toucinho entremeado. Até porque toucinho fumado só, sem mais, faz-me antes vir à mente um tipo específico de bacon com pouca ou nenhuma carne – que se encontra, sob várias designações, em vários países (como o que se vê nesta imagem). Posso, aliás, querer dizer que no outro dia (é verdade), o supermercado tinha bacon fumado (røget bacon) mais caro que (arrisco…) toucinho fumado (røget spæk). Não sei se se tinham enganado a pôr os preços, porque normalmente é ao contrário…
Entremeada curada, ou salgada e defumada, ou algo assim, tem poucas possibilidades de vingar e é mais realista aceitar, estou eu em crer, que bacon é palavra importada que veio para ficar em português e em muitas outras línguas. Talvez se possa começar antes a pensar numa maneira de aportuguesar a grafia, mas bêicone, hmmm, não me cheira… (E depois, em resolvendo isto do bacon, a ver se começamos a pensar em como chamar em português às costeletas kasseler…)

11/04/11

Angelus Silesius, a poesia e a essência desabitada e silenciosa de Deus

Não é nada esotérico, até vem na wikipédia: Numa conferência que deu sobre poesia em 1977, Jorge Luís Borges afirmou que se podia resumir tudo o que acabava de dizer a uma frase de um relativamente obscuro autor seiscentista (traduzo eu, como traduzo, neste texto, tudo o que está em português a castanho):
Vou concluir com um alto verso do poeta que no século dezassete tomou o nome estranhamente poético, real, de Angelus Silesius. Vem a ser o resumo de tudo quanto disse esta noite, com a diferença de que eu o disse por meio de raciocínios ou de simulados raciocínios: di-lo-ei primeiro em espanhol e depois em alemão, para que o oiçam: “La rosa [es] sin porqué, florece porque florece. / Die Rose ist ohne warum; sie blühet weil sie blühet.” [Trata-se do dístico I. 289 da obra O Peregrino Querubínico[1]: “A rosa é sem porquê, floresce porque floresce”]
Quem era este poeta místico daSilésia? Chamava-se Johannes Scheffler de seu nome de baptismo, e nasceu em Breslávia (Wrocław), em 1624. Teve uma educação luterana, e foi cientista e médico, e homem de grande cultura. Convertido ao catolicismo em 1653, tornou-se dois anos mais tarde médico imperial-real da corte do Imperador Fernando III. Abraçou o sacerdócio em 1661, tendo-se tornado coadjutor do Príncipe-Bispo de Breslávia, e foi no mosteiro de S. Matias da sua cidade que veio a falecer em 1677.
Segundo Carlos García[2], Silesius foi um dos místicos alemães que fascinou Borges. E é fácil compreender este fascínio, porque, no poema referido como em muitos outros, parece um poeta à frente do seu tempo. O Peregrino… foi publicado em 1657. Ainda vinha longe
…a rose is a rose is a rose,
que Gertrude Stein escreveu 256 anos mais tarde.
Agora: sabemos, por Carlos García, que a referência a Angelus Silesius que mencionei no início do texto está longe de ser a única na obra de Borges e que «o topos da “rosa sem porquê” é um dos «motivos vindos de Silesius (…) que são recorrentes em Borges». A leitura que Borges faz deste dístico de Angelus Silesius, porém, vai variando ao longo do tempo (ou talvez antes consoante a estratégia favorecida para provocar estranhamento no leitor…). Se, na referida conferência de 1977, o apresenta como resumo do seu próprio pensamento sobre a poesia, em 1933 tinha-o apresentado como o exacto oposto da sua filosofia.
Die Ros ist ohne Warum, a rosa é sem porquê, lemos no livro primeiro de O peregrino… de Silesius. Eu afirmo o contrário, eu afirmo que é imprescindível uma tenaz conspiração de porquês para que a rosa seja rosa.
Num discurso de 1963, o verso de Angelus Silesius não aparece como reflexão sobre a poesia, mas como exemplo da metamorfose que o discurso analítico tem de sofrer para ser ele próprio poesia:
Imaginemos, por exemplo, que um poeta dizia que a beleza é inexplicável. Não teria dito nada. Mas se esse poeta, que seria o grande poeta alemão Angelus Silesius, disser “Die Rose ist ohne warum”, (“A rosa é sem porquê”), já está criando poesia.
No ano seguinte, o mesmo verso serve-lhe de máxima anti-analítica:
Die Rose ist ohne warum (“a rosa é sem porquê”), é a famosa frase de Angelus Silesius no livro primeiro do seu Peregrino…; a sentença do místico adverte-nos da possível profanação que encerra toda a análise do belo.
Não sei, sinceramente, por que fui buscar Borges para introduzir Angelus Silesius. De facto, não me lembro de ter visto alguma vez nos textos de Borges referência ao místico polaco. O meu encontro com Angelus Silesius, que se deu nem há um mês, não tem nada a ver com Borges. Nem sei, aliás, como fui parar a um texto de Angelus Silesius, só sei que texto era: uma tradução em inglês de Stephen Mitchell do dístico 25 do livro I de O peregrino…, que diz assim
God is a pure no-thing, concealed in now and here:
the less you reach for him, the more he will appear.
Soa bem a tradução, como também soa muito bem esta outra de Julia Bilger, que traduziu O peregrino… em 1944 (atente-se na sequência nothingness  – knoweth – now e na aliteração em gr- de grope e grow, além das assonâncias em [o] e [ow] que percorrem todo o dístico):
God is all Nothingness, knoweth not here nor now;
The more we grope the more elusive will he grow.
God is an utter Nothingness, / Beyond the touch of Time and Place:
The more thou graspest after Him, / The more he fleeth thy embrace.
Lauter Nichts, eis como aparece no texto original o mais surpreendente sintagma do poema, este “puro Nada”. Aqui fica a minha pobre tradução (literal que não literária, peço desculpa…), para quem não compreenda o inglês:
Deus é puro Nada, para além do agora e do aqui. / Quando menos O procurares, mais Ele aparecerá.
Muitos poemas de Angelus Silesius soam assim, como se dissessem alguma verdade tão fundamental que só pode ser dita como o é. O que significa, para um cristão, que Deus é puro Nada que se revela quando O não buscamos? Ao ler um poema como
Sei que Deus nem uma hora sem mim pode viver. / Morra eu e o próprio Deus a sua preciosa vida há-de render. (I. 8:JB[3])
parece que estamos diante de uma asserção ateísta, em que se apresenta Deus como uma entidade unicamente existente na mente do crente. Mas tal interpretação só pode resultar de uma incompreensão do misticismo de Angelus Silesius, que pressupõe uma identificação essencial de Deus e do crente.
Nenhum caminho leva à Luz em que Deus vive; / Terá de se tornar essa Luz quem não quiser que dele Deus se esconda. (I.072:JB&CF)
Nada pode nunca em Deus ser conhecido: um e um apenas, / eis o que Ele é. Para O conhecer, o Conhecedor e o Conhecido têm também de ser um. (I.285:CF)
A Enciclopédia Católica insiste que, embora “um pequeno número destas estrofes pareçam ter um travo de quietismo ou de panteísmo”, “devem ser interpretados num sentido ortodoxo, pois Angelus Silesius não era um panteísta. Os seus escritos em prosa são ortodoxos; “O Peregrino Querubínico” foi publicado com o Imprimatur eclesiástico, e, no seu prefácio, o próprio autor explica os seus “paradoxos” num sentido ortodoxo e repudia qualquer interpretação panteísta que dela venha a ser feita.” É bem possível, como é bem possível que o prefácio com a interpretação ortodoxa do autor tenha sido condição para o Imprimatur… Seja como for, panteísmo nem sequer foi o conceito que me veio à mente quando li O peregrino… É certo que, por vezes, os dísticos de Angelus Silesius dão conta de uma reflexão mística que, embora sofisticada, não se afasta sobremaneira da linha de pensamento de outros filósofos cristãos: uma platónica visão de Deus como a eterna matriz de Tudo
A rosa que hoje contemplas com o teu olhar exterior / Floresce e floresce em Deus durante toda a eternidade (I.108:JB&CF).
ou uma visão da eternidade não como um eterno prolongamento do tempo, mas antes como algo que é essencialmente diferente dele
Lá na Eternidade, tudo acontece ao mesmo tempo. / Não há antes nem depois, como aqui no reino do Tempo (V.148:CF)
ou quando propõe, como outros místicos cristãos, que o caminho mais curto para Deus é o amor, não a razão:
O Amor, sem ser anunciado, mais depressa será recebido por Deus. / A Inteligência e o Engenho muito tempo na corte terão de esperar. (5.307:JB)
Outras vezes, trata-se de um misticismo que, sui generis que possa ser,  não parece incompatível com a busca (também cristã, entre outras…) de estados de comunhão com uma divindade transcendente:
Difícil tarefa, a de viver o amor; não devemos / amar apenas, mas sim tornarmo-nos amor, como Deus é. (I.071:JB)
Deus não está aqui nem está ali. Ao procurá-Lo /, que tenhas presas as mãos e os pés, presa a alma e preso o corpo. (I.171:JB&CF)
Vai onde não podes ir, vê onde nada se pode ver, / Ouve onde não há som que se oiça: estarás onde Deus fala. (I.199:JB&CF)
Deus é, mas só como Ele é. Não ama nem vive / como tu ou como eu ou como do mundo os outros seres. (II.055:JB&&CF)
Sai tu — e entrará Deus; morre para ti próprio – começaste assim / A viver para Deus; Não sejas – Ele é; Não faças nada – e estará assim feito o que ele manda. (II.136:CF)
Deus não prevê nada – é o teu senso frouxo e atarantado / Que o veste com o atributo da Providência. (V.92:CF)
Deus não pensa. Pensasse Ele / e poderia hesitar, o que é, para Ele, impensável. (V.173:JB&CF)
Deus – uma força eterna que alcança tudo o que quer, / Nunca deixando de ser como é: sem forma, sem propósito, sem vontade. (5.358:JB&CF)
Outras vezes, porém, Angelus Silesius surpreende por o seu misticismo (ou deve antes dizer-se a sua poesia?) parecer tão pouco ocidental e tão próximo do pensamento oriental. Esta generalização abusiva pensamento oriental, que noutras circunstâncias evitaria, não me parece, no presente contexto, despropositada para referir algumas constantes de vários pensamentos asiáticos: refiro-me, concretamente, a um ideal de suprema objectividade – conhecer, aceitar o mundo como ele é – alcançável pela obliteração de si, pela interrupção ou aniquilação da mente. Não é o único caso em que um místico cristão se aproxima da mística asiática, é certo, e vieram-me à mente, quando li Silesius, alguns versos do “Monte de Perfección” de San Juan de La Cruz (um poeta de que gosto muito) que aqui vos deixo no castelhano original:
1
Para venir a gustarlo todo
no quieras tener gusto en nada.
Para venir a saberlo todo
no quieras saber algo en nada.
Para venir a poseerlo todo
no quieras poseer algo en nada.
Para venir a serlo todo
no quieras ser algo en nada.
2
Para venir a lo que gustas
has de ir por donde no gustas.
Para venir a lo que no sabes
has de ir por donde no sabes.
Para venir a poseer lo que no posees
has de ir por donde no posees.
Para venir a lo que no eres
has de ir por donde no eres.
3
Cuando reparas en algo
dejas de arrojarte al todo.
Para venir del todo al todo
has de dejarte del todo en todo,
y cuando lo vengas del todo a tener
has de tenerlo sin nada querer.
[…]
Mas são, convenhamos, casos raríssimos, muito excepcionais. Além do texto através do qual conheci Angelus Sibelius e que já referi atrás, eis outros fascinantes dísticos aparentemente muito pouco católicos deste budista de Breslávia:
Se algo és para ti próprio, se algo amas e queres, / Se algo sabes e tens, continuas a transportar a tua carga. (I.024:CF).
Sem nada querer nem nada buscar, Deus é paz eterna: / se como ele não desejares nada, será igual à dele a tua paz. (I.076:CF)
Quem se tornar deus deve ser diferente de tudo o resto. / Deve livrar-se se si próprio, libertar-se de toda a queixa. (I.084:JB).
Quem for como se não fosse, nem tivesse chegado a ser, / tornou-se — ó Felicidade!—pura divindade. (I.092:CF).
Quanto mais de ti de ti próprio conseguires verter e deitar fora / tanto mais, cada vez mais, Deus fluirá em ti com a sua mente divina. (I.138:CF).
Pudesse o Diabo abandonar o seu ser-ele, e logo / o Diabo verias sentado no trono de Deus. (I.143:CF).
Oramos: seja feita a Tua vontade. / Mas vede: Deus não tem vontade, ele é apenas imutável quietude. (I.294:JB&CF).
Liberta-te de ti próprio, liberta-te de toda a criação. / Deus enxertará então em ti a sua natureza divina. (II.057:CF).
O nada leva-te além de ti próprio / tão seguramente como a anulação de ti: / Quanto mais te conseguires anular / mais há em ti de divindade. (II.140:CF).
Deus, cujo maior prazer é viver contigo, prefere vir / a tua casa quando tu lá não estás. (V.033:CF).
Se Deus procuras, Homem, deves / perder primeiro a identidade de ti próprio, / e nem nunca voltar a encontrar de novo o rasto do teu Eu em toda a eternidade. (V.220:CF).
E, finalmente, tirado da ordem do livro para lhe dar o lugar de destaque que acho que merece e a que se costuma chamar chave de ouro: 
O abandono leva a Deus: / Mas o supremo abandono, / que poucos há que compreendam, / é abandoná-lo a Ele também. (II.092: CF)
Esta é a mais radical e mais surpreendente de todas as sentenças: dá um sentido novo a todas as outras, ao precisar um fim último da busca mística que implica passar para além de qualquer ideal de perfeição anulando-se assim a própria busca. Zen?
Não sei se arriscaria afirmar que é esta a lição de toda a poesia, pois que há poesia de muitas categorias e de variados intentos; mas é, desculpem repeti-lo, esta a grande lição da poesia de Angelus Silesius: se diz assim o que diz, se não pode fugir ao estranhamento e à (pelo menos aparente) contradição, é porque o que diz não tem outra forma de ser dito. Silesius vai até onde as palavras o deixam, digamos assim. Depois disso, o que há a (não) dizer é só silêncio, já não palavras. Podermos considerar que diz isto mesmo várias vezes ao longo da obra, e de várias maneiras, mas di-lo mais explicitamente, de uma forma mais conclusiva, mais brutal, no último dístico do texto: A conclusão que tanto fascinou Borges e que tanto fascina, sem dúvida, todos os que se aventurarem na sua invulgar visão mística, só pode ser a que apresenta no último dístico de O Peregrino (VI.263), é a seguinte, no alemão original:
Freund, es ist auch genug. Im Fall du mehr willst lesen,
So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen.
JB dá-nos do dístico a tradução
Friend, I have said enough. If thou wouldst read still more,
Then go thou and thyself become the script and lore.,
e CF uma tradução ligeiramente diferente,
Friend, it is now enough. Wouldst thou read more, go hence,
Become thyself the Writing and thyself the Sense.
Borges também traduziu o dístico. Em 1960 (e desta vez não é certo que tenha sido ele, pode ter sido Bioy Casares, o co-autor do Livro do Céus e do Inferno, onde a tradução aparece, ou podem ter sido os dois em conjunto), traduziu-o da seguinte forma (destaque meu):
Ya basta amigo. Si quieres seguir leyendo, transfórmate tú mismo en el libro y en la doctrina.
Em 78, porém (agora sem dúvida Borges, só ele), já propõe outra tradução (de novo o meu destaque):
Amigo, ya basta. En caso de que quieras seguir leyendo, sé tú mismo el libro y tú mismo la esencia.
É melhor, esencia traduz mais directamente que doctrina o Wesen original. E, se tenho razão na minha proposta de que se trata aqui de versos que muitas vezes nos soam estranhos – paradoxais, ou até incómodos – porque são a única maneira de dizer certas coisas, só uma tradução literal faz sentido. Carlos García, que nos conta a história, propõe ele a sua própria tradução ainda «mais literal» (destaque meu), que é a que prefiro e que escuso de traduzir, por óbvia para qualquer falante do português:
Amigo, ya es bastante. Si quieres más leer / Ve y transfórmate en el libro y en el ser.
_______________
[1] A obra publicada pela primeira vez em 1657, chamava-se originalmente Geistreiche Sinn- und Schluss-Reime, que não me atrevo a traduzir. Em 1674, foi publicada uma segunda edição com o título Cherubinischer Wandersmann, "O Peregrino Querubínico". Neste texto, para simplificar a referência, o livro será sempre referido como O Peregrino….
[2] Ver o ensaio de Carlos García Borges y el misticismo alemán, de onde foi retirada muita da informação necessária para escrever este texto. Na minha opinião, trata-se de um ensaio de leitura obrigatória para todos os amantes de Borges. Todas as referências de Borges a Angelus Silesius são retiradas do texto de García.
[3] A indicação entre parênteses no fim das minhas traduções dos dísticos de Angelus Silesius indicam: em númeração romana, o livro – a obra divide-se em 6 livros; em algarismos árabes, o número do dístico no livro; as iniciais JB ou CF indicam de que traduções inglesas traduzi para português, se das de Julia Bilger ou das de J. E. Crawford Flitch (em http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/alex/index.htm e http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/scw/index.htm, respectivamente) – ou se usei traduções de ambos, quando assinalo JB&CF.