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15/03/17

Pobre Jenny, pobres de nós


Enganou-vos quem vos disse que sujeito é quem pratica uma ação. Sujeito é quem está por baixo, aquele sobre quem recai alguma coisa, aquele que a sofre.
«Peço desculpa a quem gosta de mim, mas a vida dói-me demasiado. Sinto-me enfim liberta.» 
Não há sofrómetros. Não há nada mais subjetivo que a dor. Pobre Jenny, pobres de nós.

Hugo Gerhard Simberg: O anjo ferido, 1903, Ateneumin taidemuseo, Helsínquia. Wikimedia Commons, daqui)

28/01/14

Suicídio: o direito a renunciar e o dever de persistir

Lembro-me de um amigo me falar, há muitos anos, de um comunicado de uma célula de um partido ou de um grupo político, já não me lembro qual, em que se criticava o suicídio de um militante como abandono da luta dos seus companheiros – ou qualquer coisa nesse sentido. Durante muito tempo, considerei esse episódio um exemplo extremo de como a obsessão ideológica pode desumanizar: como era possível ser assim insensível a um desespero tão extremo que levava uma pessoa a desistir da vida?

Na altura, achava que o suicídio não podia ser condenado. A única condenação do suicídio que  conhecia era a condenação religiosa (só Deus pode dispor da vida) e considerava agora que, recusando esse pre(con)ceito, o suicídio era uma questão pessoal – que cada qual tinha, precisamente, o direito a dispor da sua vida como quisesse. Foi esta a minha posição relativamente ao suicídio durante muito tempo.

Um dia, um amigo, certamente tão progressista e tão livre-pensador como eu acreditava ser, mostrou-me um lado óbvio da questão que eu, não sei porquê, nunca tinha querido ou nunca tinha podido ver: nenhuma morte diz respeito apenas a quem morre. Quem se suicida age sobre os outros que cá ficam. Ao meu amigo, interessava sobretudo a forma como o suicida age sobre os que lhe são próximos. Que direito tem alguém de tirar um familiar aos seus familiares, um amigo aos seus amigos? “Claro, se uma pessoa não tiver ninguém que a ame ou que precise dela, é diferente”, dizia-me o meu amigo. E eu comecei a rever a minha posição sobre o suicídio.

A ideia, descobri depois, é um dos argumentos clássicos contra o suicídio – ou, de forma mais geral, contra o sacrifício da vida. É em nome do dever para os que ficam, por exemplo, que, n’Os Miseráveis de Victor Hugo, Combeferre incita os homens a abandonar a barricada, em vez de ficarem para serem massacrados:
Vá lá, é preciso ter um bocadinho de piedade. Sabem do que se trata qui? Trata-se das mulheres. Vejamos. Há mulheres, sim ou não? Há crianças, sim ou não? Há ou não há mães, que empurram os berços com o pé, rodeadas de uma catrefada de miúdos? Levante a mão quem nunca viu um seio que amamenta. Ah! Vocês querem deixar-se matar, eu também, eu que vos estou aqui a falar, mas não quero sentir à minha volta fantasmas de mulheres que sofrem. Morram, muito bem, mas não façam morrer os outros. Suicídios como este que aqui se vai cometer são sublimes, mas o suicídio é estreito e não se deve alargar; e, se atinge o próximo, o suicídio chama-se assassínio.
Há outras perspetivas da questão do suicídio e outras maneiras de o considerar assassínio. Pode-se considerá-lo uma questão de saúde pública, por exemplo. Tenho a impressão de que muita gente não tem uma noção realista da amplitude do fenómeno suicídio. Segundo a Organização Mundial de Saúde, “morrem anualmente de suicídio quase um milhão de pessoas”, o que “corresponde aproximadamente a uma morte de 40 em 40 segundos”. “O suicídio é, nalguns países, uma das três principais causas de morte de pessoas entre os 15 e os 44 anos e a segunda causa de morte no grupo dos 10 aos 24 anos; estes números não incluem tentativas de suicídio, que podem ser muito mais frequentes que o suicídio (10 ou 20 vezes mais frequentes, ou mais, segundo alguns estudos). No mundo inteiro, calcula-se que o suicídio representasse 1,3% da morbilidade global total em 2004.” Morre mais gente de suicídio que de homicídio ou na guerra.

Em Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It[1], Jennifer Michael Hecht afirma que “a influência suicida é suficientemente grande para o suicídio poder ser também considerado homicídio. Quer lhe chamem contágio, focos de suicídio ou criação de um modelo sociocultural, as nossas ciências sociais demonstram que suicídio causa mais suicídio, tanto entre os que conheciam a pessoa como entre os estranhos que se identificavam com a vítima.” Fala-se há muito tempo do efeito Werther. A novela de Goethe, cujo protagonista se suicida, terá desencadeado, ao difundir-se na Europa, uma vaga de suicídios[2]. É sempre assim, dizem alguns: suicídios de pessoas célebres (não forçosamente de carne e osso, a julgar pelo caso de Werther) causam suicídio. Após o suicídio de Marilyn Monroe, por exemplo, houve 200 suicídios mais que a média para essa época do ano. Mas não só os suicídios de pessoas célebres são contagiosos, diz Hecht: há numerosos estudos que indicam que, se uma pessoa conhece o suicídio, se esteve em contacto com um suicida ou com a ideia de suicídio, tem mais possibilidades de vir a cometer suicídio.

Há vários argumentos contra o suicídio, além do que referi atrás. Quero discutir um deles, o argumento utilizado por Hecht que assenta fundamentalmente na ideia de compromisso com a humanidade.
Somos humanidade, diz Kant. A humanidade precisa de nós porque nós somos humanidade. Kant acredita no dever e considera manter-se vivo um dever humano essencial. (…) Os seres humanos têm de se compreender como uma força do bem, uma força da moral. Como seres humanos, cabe-nos preservar esses ideais. (…)
É um erro moral intelectual e moral considerar a ideia de suicídio uma escolha aberta que cada um de nós é livre de fazer. Os argumentos contra o suicídio pedem-nos que nos empenhemos no projeto humano. Pedem à humanidade que largue os punhais e as taças de cicuta e se afaste deles para sempre. (…)
Rejeitar o suicídio é um ato enorme numa comunidade. Também penso que muda o universo. Ou o universo é um lugar frio e morto com uma colónia de seres sencientes mas divididos, tentado criar sentido cada qual por si, ou estamos num universo vivo, com uma colónia de seres sencientes, cujos membros fizeram uns com os outros um pacto de perseverar.
No fundo, Hecht parece concordar com os autores do comunicado que referi no início deste texto: suicidar-se é criticável porque é abandonar (a luta d)o resto do grupo, o seu compromisso com ele – só que o grupo que se abandona é mais abrangente. É-me difícil perceber se se deve ler, nas entrelinhas destas proposições, uma acusação concreta de falta de solidariedade, ou apenas de fraqueza, talvez até cobardia[3]. Seja como for, e apesar de aceitar vários argumentos contra o suicídio, continuo a ter dificuldade em aceitar esta ideia do compromisso com a humanidade.

Aceito que existe, de facto, numa maioria esmagadora das ações humanas, um compromisso com a espécie no seu todo, uma solidariedade da espécie que faz realmente parte da natureza humana – e, provavelmente, da natureza de muitos outros animais; mas vejo mal como se faz deste compromisso um dever. Que se combata o suicídio como se combate qualquer causa de morte parece-me natural. Se se acreditar que, de cada vez que alguém se suicida, isso aumentará as possibilidades de outro alguém se suicidar, deve condenar-se o suicídio como ação contra pessoas concretas – embora indeterminadas ou virtuais. Até aqui, o argumento funciona. Mas pode-se ir mais longe? Pode falar-se de um compromisso, um dever? Cabe-nos perseverar, preservar a força moral que somos. Se o meu dever para com a humanidade é apenas manter-me vivo, não posso ser criticado se me mantiver vivo comendo e dormindo apenas – o que, para a humanidade tem o mesmo resultado que eu não existir[4]. Por isso, a proposta de compromisso com a espécie, a proposta de manter-se vivo para preservar uma força moral, só parece fazer sentido se se definir que há o dever de contribuir ativamente para a humanidade. É possível, mas, como em todas as propostas de uma moral positiva, de um dever de agir bem, é muito difícil, se não impossível, definir que contribuição ativa deve ser essa. Se tiver, à partida, a capacidade de inventar a cura para uma doença e não o fizer, porque decidi não estudar medicina, e não salvar, por isso, muitas vidas humanas, estou a faltar ao meu dever para a humanidade? O compromisso com a humanidade, o dever de me preservar como força moral é, para mim, um dever demasiado vago, demasiado grande…
____________________

[1]
Jennifer Michael Hecht, Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It. New Haven: Yale University Press, 2013. Não li o livro, mas apenas o artigo de Maria Popova sobre ele, no site Brain Pickings. O artigo (3455 palavras) é muito completo e aconselho vivamente a sua leitura. Foi esse artigo que me motivou a escrever este texto.

[2]
Nicholas Christakis e James Fowler têm feito muitos trabalhos sobre redes sociais e defendem a ideia de que o que se difunde não são hábitos (isso faria com que os contágios fossem mais lentos do que são), mas normas – ideias do que é aceitável, por exemplo. Ver, por exemplo, a apresentação de Christakis no site Edge do seu trabalho sobre a difusão da obesidade. É de notar que os trabalhos de Christakis e Fowler têm sido criticados, nomeadamente pela metodologia que usam – para um resumo das dúvidas relativamente à metodologia e conclusões de Christakis e Fowler ver, por exemplo, um texto de David John no Slate.

[3]
É o que pode indiciar, por exemplo, o título do artigo de Hecht em The American Scholar, “Viver é um ato de coragem”. Mas talvez esteja a ver fantasmas – é certo que esta estratégia retórica não implica forçosamente que “não viver é cobardia”. Este artigo, em que Hecht defende as mesmas ideias que encontramos resumidas no artigo de Maria Popova atrás referido, centra-se nos soldados americanos, entre os quais há “uma tremenda crise: há mais soldados a suicidar-se que a morrer em combate, e 52% dos suicidas nunca foram colocados em zonas de combate. Em 2012, suicidou-se em média um soldado por dia. Entre os veteranos, a taxa de suicídio atingiu, nesse ano, a média de 22 por dia (!!!). Esta tendência não tinha declinado em meados de 2013, na altura em que o artigo foi escrito.

[4]
Exceto, sublinho, no facto de não levar outros a suicidarem-se, que é até onde acho que o argumento chega.

20/12/12

Imagens fortes do voluntarismo extremo: Corto Maltese, os Maias e Zenão de Bruges

A mãe de Corto Maltese, a célebre cigana Niña de Gibraltar, disse um dia ao filho que devia ter cuidado, porque não lhe via na mão a linha da sorte. Corto Maltese riu-se, foi buscar uma navalha e talhou uma longa e profunda linha da sorte na mão esquerda: “Não te preocupes, Nina”, disse ele à mãe, “a minha sorte sou eu que a faço”!
A história é justamente famosa[1], na minha opinião – o gesto de Corto Maltese é uma metáfora bem achada da vontade de tomar em mãos a sua vida. Agora, mesmo com muita garra e navalhas afiadas, nunca é muito, quanto mais total, o controlo que se tem da própria vida… De facto, parece-me tão insensato acreditar num destino inalterável como acreditar que a vida de cada pessoa será aquilo que ela dela quiser fazer. E, se da passividade que resulta do fatalismo não vem nenhum bem ao mundo, também a crença oposta pode ser perigosa, porque pode facilmente levar a considerar a vontade e as ambições dos outros um obstáculo apenas que há que vencer para concretizar a sua própria vontade e as suas próprias ambições. Apesar disso, este voluntarismo extremo, como lhe chamo, é uma atitude que muitas vezes me fascina…
Quando era rapaz jovem, li, como toda a gente, alguns livros da coleção Enigmas de todos os tempos, da editora Bertrand, uma série de livros sobre ciências e teorias alternativas, ocultismo, parapsicologia e afins, a que muitas vezes se chamava “livros de capa preta”. A popularidade do calendário maia fez-me agora recordar um deles, Descobertas na terra dos maias, de Pierre Ivanoff[2], e a sua tese sobre o fim da civilização maia:
O etnólogo Pierre Ivanoff estudou o povo Lacandon e que foi um dos primeiros forasteiros a chegar ao que é hoje o sítio arqueológico Dos Pilas, na Guatemala. A explicação de Ivanoff para o mistério do chamado colapso do período clássico maia[3] não é política, nem ecológica nem demográfica – segundo ele, os sacerdotes teriam anunciado, com base na estrutura cíclica do seu calendário, o fim próximo da civilização dos hach winik, “os verdadeiros homens” (os maias, leia-se). Abandonando as cidades, as populações das cidades maias confirmam a verdade das profecias – ou, se se preferir, tornam-nas realidade!
Pode não ter grande interesse como teoria histórica, mas é uma ideia fascinante. Uma grande ideia para um romance ou um filme, por exemplo. No fundo, nem sequer é uma ideia fantástica, quando a transpomos do plano de um povo inteiro para o plano de uma seita religiosa ou de um indivíduo: de forma ainda mais dramática, mais violenta, é o que aconteceu a todos os fanáticos crentes de teorias milenaristas que, chegados ao dia em que o mundo devia acabar, se suicidaram, confirmando assim a profecia – é que o mundo acaba, para cada um de nós, no momento em que nós acabamos, não é verdade?
O suicídio não é sempre, é claro, uma tentativa radical de controlo do destino. (É muitas vezes, sei lá, um acidente provocado por um gesto impulsivo; uma elementar desistência; um apelo, um grito, uma maneira bruta de se fazer ouvir; ou uma forma desajeitada de resolver um problema qualquer.) Mas pode às vezes sê-lo, não é? Lembro-me de que foi assim que interpretei, quando li há muitos anos L'Œuvre au noir, de Marguerite Yourcenar[4], o suicídio de Zénon Ligre, a personagem principal do romance: Para um prisioneiro condenado à morte por se recusar a renegar aquilo em que crê, a morte talvez seja, como vi alguns defenderem, a libertação possível e o recuperar da dignidade. Mas que esse prisioneiro decida a sua própria morte no dia anterior àquele em que vai ser executado é mais que isso, é assumir de repente controlo de tudo, é deixar claro, mesmo antes de o mundo acabar (que o mundo acaba, para cada um de nós, no momento em que nós acabamos, não é verdade?), que é ele que vence, que o mundo acaba porque ele quer, quando ele quer.
__________
[1] Agradeço esclarecimentos sobre a autoria da cena: não consigo descobrir se é do criador de Corto Maltese, Hugo Pratt, ou se foi criada por Alberto Ongaro, num prefácio a uma das aventuras do célebre marinheiro.
[2] Amadora: Bertrand, 1968, tradução de Découvertes chez les Mayas, Paris: Robert Laffont,1968
[3] O colapso das cidades do segundo período maia dá-se num período curto na segunda metade do século VIII. Nem toda a gente, porém, concorda com esta ideia de colapso da civilização maia, porque, ao mesmo tempo, surgem novos centros de cultura urbana maia noutros lugares. 
[4] Paris: Gallimard, 1968

20/02/08

Do suicídio: nem a morte mata a vida…

A constatação de que a prática do suicídio é uma constante de todas as sociedades de todos os tempos parece constituir uma objecção óbvia ao carácter absoluto da pulsão de sobrevivência. Foi com base nesse facto simples que um amigo meu, uma vez, em animada conversa nocturna, rebateu a minha afirmação de que, seja lá onde e quando for, ninguém em seu perfeito juízo prefere a morte à vida.

“Não aceito!”, disse ele. “E quem prefere morrer para salvar um ente querido, se tem de fazer essa escolha? E quem, por razões de honra ou de dever, dá a vida pelo que considera mais importante do que ela – a sua pátria ou os seus valores, por exemplo? E quem acha tão miserável a sua existência que prefere, pura e simplesmente, acabar com ela?”

Fiquei sem saber que boa resposta lhe dar. O argumento imediato foi que o suicídio é um fenómeno tão marginal nas coisas humanas que não pode ser considerado uma prática humana essencial – ao contrário da vontade de preservar a vida. Mas foi uma resposta que não me satisfez. Nunca fui adepto de regras que, para funcionarem, admitem a excepção. Bom, desprezar o que é muito periférico numa verdade genérica, digamos assim, não é completamente desprovido de sentido. Dizer que os seres humanos preferem sempre a morte à vida por muito que alguns se suicidem é como dizer que os cães são sempre quadrúpedes, mesmo quando um acidente qualquer, ou uma malformação, deixa um cão sem uma das patas. Mas eu intuía, sem o conseguir racionalizar, que o suicídio é, nos seres humanos, um fenómeno de um tipo diferente da deformidade congénita ou da amputação – por um lado, porque extremamente mais persistente e, por outro, porque é uma escolha em vez de um acidente. E foi isso, precisamente, que o meu amigo argumentou:

“O suicídio, meu amigo, não é uma doença. É um acto voluntário!”

Tentei então argumentar que os suicídios que ele invocava não chegavam a ser uma escolha da morte relativamente à vida:

“Tens de ver que, no caso de alguém dar a vida por outrem, não é de escolher a morte que se trata – mas antes de uma escolha de que vidas preservar. Continua a ser a vida que se prefere à morte. E isto é ainda mais verdade se alguém aceitar morrer para salvar mais do que uma pessoa.”

O problema desta argumentação é que descentra a questão da preservação da vida: eu teria então de admitir, retorquiu o meu amigo, que a pulsão da sobrevivência que eu defendia ser comum a todos os seres humanos não dizia respeito à sobrevivência de cada um dos indivíduos que, pretensamente, a traz em si, mas antes a algo mais vasto – ao grupo, à família, à humanidade no seu todo.

“E nota que isto tem implicações importantes ao nível moral – se, em cada um de nós, a pulsão de preservação do grupo prevalece sobre a pulsão de preservação do indivíduo, então por que não admitir que o grupo imponha o sacrifício de um indivíduo quando acha que esse sacrifício é necessário ao bem comum?”

Ora esta era precisamente uma das ideias contra as quais eu achava que a universalidade do instinto de autopreservação poderia vir a servir de argumento, se eu conseguisse arquitectar, a partir dela, uma teoria moral suficientemente sólida…

Durante vários dias, preocupou-me o aparente fracasso da minha tão nobre certeza da omnipresença entre as pessoas da vontade de viver. Tentei arranjar argumentos sólidos contra as objecções que o meu amigo me tinha levantado. E acabei por me censurar a mim próprio por procurar esses argumentos:

“Quer dizer, o que mais me preocupa é como justificar racionalmente uma postura tão dogmática que me recuso a abandoná-la mesmo quando me são apresentados contra ela argumentos que eu não consigo rebater! Não se pode chamar bem a isto a procura da verdade!”

E decidi dar por infirmada a minha hipótese.

Como se encontra sempre quando não se procura, um dia lembrei-me de repente de que alguém* tinha definido vida como “a negação permanente da morte”. A definição, por simplista que possa parecer à primeira vista, é rigorosa e desfaz a importância do suicídio como objecção fundamental à universalidade da pulsão da vida: mesmo um suicida, o que faz toda a vida, excepto num ínfimo momento apenas em que se mata, é preservar essa mesma vida, opor-se constantemente à morte.

Mais tarde, um outro amigo disse-me que parecia haver bastantes indícios de que os suicidas se arrependem do que fazem.

“Bom, é claro que quem se mata de facto não tem grande possibilidade de se arrepender do que faz”, explicou ele, “mas estudos de casos de suicídios fracassados mostram que o suicídio não é muito diferente de muitos homicídios e outros actos violentos: é algo que as pessoas fazem de cabeça quente e de que, acalmadas as paixões, se arrependem.”

A ser verdade o que ele me dizia, esse facto não faria senão corroborar a minha ideia. Mas nunca encontrei os estudos que ele referia. Não faço ideia se existem ou não… Vim a encontrar, isso sim, outras ideias muito interessantes sobre a questão. Por exemplo: Michael Cholbi, no seu artigo “Suicide” da Stanford Encyclopedia of Philosophy, diz, citando estudiosos do assunto, que “não se pode dizer que os indivíduos suicidas procurem a morte per se, mas a morte é antes percebida, com ou sem razão, como meio de alcançar outro objectivo do agente. Resumindo, não parece haver exemplos convincentes de suicídio não-instrumental em que a intenção última é simplesmente acabar com a vida e não há outro objectivo distinto dessa acção”.
Mesmo quando se procura a morte, não é a morte que se procura, mas, através dela, algum bocado da vida. Ou, dito de outra maneira, pouco rigorosa talvez, mas mais espectacular: nem a morte mata a pulsão fundamental da vida.
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* Desculpem, mas não me lembro quem... Descobri agora que Marie François Xavier Bichat, um célebre biólogo francês, na sua obra Recherches physiologiques sur la vie et la mort (publicada pela primeira vez em 1800 e de que podem ver online um facsimile da 4ª edição (Paris: Béchet jeune et Gabon) de 1822) escreveu que (traduzo eu) “a vida é o conjunto das funções que resistem à morte”, que é perfeitamente coincidente com a definição com assinatura ilegível que me veio de súbito à mente, mas não pode ter sido da definição de Xavier Bichat que me lembrei, porque eu não conhecia Xavier Bichat… Pensei que fosse uma frase de J. Krishnamurti, mas é um engano da minha memória, simplesmente porque J. Krishnamurti nunca poderia ter dito nem escrito uma coisa assim…