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28/04/25

Os sons da língua, os sons da fala e os sons das letras

 

Acontece algumas vezes, na discussão de sistemas ortográficos, e, nomeadamente, na discussão da última reforma ortográfica do português, referir-se os conceitos de fonética e fonologia ou de elementos fonéticos e elementos fonológicos. Estes conceitos são desconhecidos da maior parte das pessoas, o que é perfeitamente natural, já que são conceitos técnicos, mas podem ser importantes em certas discussões. Por isso, decidi escrever um pequeno texto a descrevê-los muito sumariamente, para poder remeter para este texto quando/se, de futuro, o achar necessário. Já fiz isto antes: deixar aqui um texto a esclarecer conceitos que possa referir noutros textos do blogue. Note-se então: não é de modo nenhum de uma introdução à fonologia que aqui se trata, mas apenas de tentar esclarecer o que se quer dizer quando se diz que a escrita do português é, desde a reforma de 1911, uma escrita tendencialmente fonológica – e não fonética: uma escrita que tende a dar conta das unidades do sistema e não forçosamente dos sons pronunciados.

O que se segue é uma descrição muito simplificada e forçosamente pouco rigorosa de alguns conceitos, que eu creio que é suficiente para a discussão da ortografia e que espero que possa ser entendida por qualquer pessoa sem formação na área — embora não espere, claro, que uma pessoa que leia isto seja capaz de aplicar confortavelmente os conceitos no seu dia-a-dia. Os sons do português referidos neste texto são os do português europeu padrão. Quando falo de letras, refiro-as com maiúscula (A, B, C…); os sons efetivamente pronunciados são representados entre parênteses retos ([a], [b], [s]); as unidades do sistema (os fonemas, que podem corresponder a vários sons, como verão) são representadas entre barras oblíquas (/a/, /b/,/s/); e as pronúncias das palavras são apresentadas em negrito itálico. Para tudo isto, não recorro ao alfabético fonético, mas uso antes uma transcrição dos sons baseada na grafia do português ([j] para o primeiro som de giro, [ch] para o primeiro som de chácómudu para o som da palavra cómodo, etc.).

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Mas de que falo eu então quando falo de unidades do sistema – ou fonemas, como se costumam chamar? Dizemos que o som [f] de faca é um fonema, como o som [v] de vaca, porque estes sons distinguem estas palavras, entre muitas outras. Dizemos que os fonemas são unidades distintivas. Isto é uma definição simplificada, até porque [f] e [v] continuam a ser fonemas diferentes mesmo quando as palavras em que existem não têm nenhuma «parente próxima» que se distinga dela apenas por um som. Convém, pois, acrescentar que não se deve entender distintivas como «que distinguem de facto», mas antes como «que têm a capacidade de distinguir». 

Os sons [s] e [z] correspondem, portanto, a diferentes fonemas e distinguem, por exemplo, caçar de casar. Os sons [ch] e [j] também correspondem a fonemas diferentes, que distinguem, por exemplo, chá e , etc. Mas agora, vejamos qual é a relação entre letras e sons – e fonemas... Podemos constatar, por exemplo, que a letra S corresponde em português a quatro sons: 

[s], por exemplo em saber (em que tem o mesmo som que os dois SS em passo ou o Ç de loiça[1]); 

[z], por exemplo em casar (em que tem o mesmo som que o Z de zero ou fazer

[ch], por exemplo em rosto e nós (em que tem o mesmo som que o CH de chorar ou do X de lixo); e 

[j], por exemplo em pasmar (em que tem o mesmo som que o J de hoje ou do G de giro

Usamos então a mesma letra para representar quatro fonemas diferentes? Bom, nalguns casos usamos a mesma letra para representar fonemas diferentes: por exemplo, o S para o fonema /s/ em saber e para o fonema /z/ em casar. Mas, nalguns casos, os quatro possíveis sons do S são apenas variantes de uma mesma unidade. São os casos em que um som é determinado pelo som que se lhe segue e não se pode fugir a isso. O S de rosto, por muito que represente o mesmo som que o CH de chorar ou do X de lixo[1], não representa a mesma unidade do sistema que encontramos naquelas palavras, é apenas uma variante do fonema /s/, que se pronuncia forçosamente [ch] antes de uma consoante surda, isto é, uma consoante em que não vibram as cordas vocais, como [f], [k], [p], [t], [s]. Também o S de pasmar, por muito que se pronuncie [j], como o J de hoje ou o G de giro, não representa um fonema — o som é apenas uma variação obrigatória de /s/ antes de consoantes sonoras, isto é, as consoantes que se pronunciam com vibração das cordas vogais [b], [d], [g], [l], [m], [n], [r], [v], [z]. Então, neste caso, a letra S tem uma relação mais direta, se se pode dizer assim, com a unidade do sistema que representa em rosto e pasmar, que é a mesma, que os sons que correspondem a esses SS, que são diferentes entre si. Curioso é também o caso do S pronunciado [z]. Se, nalgumas situações, representa claramente um fonema /z/ distinto de /s/, como em casar, que se opõe a caçar, quando está no fim de uma palavra antes de outra palavra começada por vogal, é também só uma variante obrigatória de /s/, que naquela situação tem de ser pronunciado [z]: tens os olhos azuis diz-se tenzuzólhuzazuich [2]

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Um espetrograma: o som da palavra «é»
Não é só a letra S que pode representar vários sons que são variantes de um mesmo fonema. As letras B, D e G também correspondem, cada uma, a dois sons diferentes, mas a um único fonema. Isto é mais difícil de entender para a maioria dos falantes do português europeu, porque não têm consciência da diferença entre as duas maneiras de pronunciar cada uma destas letras, mas, se tomarem atenção (ou se virem um espetrograma do som pronunciado ou ouvirem uma gravação em velocidade mais lenta), verão que B, D e G entre vogais são pronunciados de forma mais «ligeira» (poupo-vos a descrição técnica, que é complicada, mas que podem encontrar aqui, aqui e aqui, respetivamente), de tal forma que podem corresponder a dois sons diferentes de outras línguas. É por não os considerarem sons diferentes que a grande maioria dos portugueses não distingue o D de day do TH de they em inglês padrão, embora eles correspondam respetivamente aos dois sons que se encontram na palavra dado em português falado normalmente. E digo falado normalmente, porque, se disserem as sílabas isoladas (por exemplo, para ver como as pronunciam, depois de lerem isto…), vão ter «dá… do», em que os dois DD têm o mesmo som. 

Agora, este fenómeno não se verifica só com consoantes. Também cada uma das letras A, E e O pode, às vezes, representar vários sons que correspondem a uma única unidade do sistema, porque naquela situação não pode ocorrer mais nenhuma. Uma maneira fácil de ver isto são as conjugações verbais. Se tomarmos o presente do verbo comer, por exemplo, estamos perante unidades do sistema, cuja pronúncia varia conforme estejam ou não na sílaba tónica. O O de comer pode pronunciar-se [ó], [ô] ou [u] e o E pode pronunciar-se [ê] ou [e] (E dito «fechado», às vezes não pronunciado), conforme estejam ou não na silaba tónica: eu cômu, tu cóm(e)s, ela cóm(e), nós cumêmus[3]

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Uma escrita fonológica ideal reduz a uma única letra todas as variantes de uma unidade do sistema, independentemente dos sons em que se manifeste e das diversas maneiras de falar essa língua. Isto não acontece numa escrita fonética, que é muito menos prática, porque, em princípio, um mesmo fonema se pode representar de várias formas e a representação direta da variação regional é forçosamente muito maior. É claro, a variação regional pode ser também fonológica, isto é, uma determinada palavra pode ter, num determinando dialeto, um fonema que não existe no outro. Por exemplo, facto tem, no português europeu, um fonema /k/ que não existe no português americano. Também é muitas vezes difícil, se não impossível, decidir o que tem relevância fonológica, especialmente quando se trata da oposição entre vogais, por exemplo, [ê] e [é] mas isso é uma discussão muito longa que não cabe aqui. 

O que me parece importante salientar é que, ao contrário do que muitas vezes se diz, a escrita atual do português é essencialmente fonológica e abarca, por isso, a grande maioria das variações de pronúncia dos seus falantes – porque as letras não tendem a representar os sons efetivamente ditos, mas sim as unidades que lhes subjazem, que podem ter várias pronúncias, também consoante a variante regional. E as reformas que tem havido, desde a de 1911, em que se inaugurou esse padrão, têm sido coerentes nesse sentido. Agora, digo «essencialmente fonológica», porque há ainda algumas coisas (o uso de H inicial é o mais óbvio, mas há muitas outras) que não têm nada nem de fonético nem de fonológico — e que, aliás, nem sequer seguem sempre uma lógica etimológica… Até à escrita completamente fonológica, há ainda algum caminho a percorrer... 


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[1] Isto não é verdade em todos as variantes do português, porque, no nordeste de Portugal, há ainda algumas (muito poucas) pessoas que pronunciam os CC sibilantes de forma diferente dos SS, mas esta oposição, que tem vindo a desparecer ao longo dos séculos, vai muito em breve desaparecer de vez. Em fases anteriores da língua, porém, esta distinção existia numa grande área do romance ibérico: distinguia-se uma pronúncia do S com a língua a tocar os alvéolos (o chamado «s beirão») e a pronúncia do Ç/CE, CI, igual à nossa pronúncia atual de todos estes sons, com a língua a tocar nos dentes (ver aqui).

[2] Há exceções dialetais a esta regra: em certos falares regionais portugueses e nalgum português moçambicano, ocorre nesta situação não o som [z], mas antes o som [j]: ‘tájaver?

[3] Esta regra está apresentada de uma forma simplificada. Por exemplo, em português europeu, o fonema /o/ (escrito O), quando não faz parte de um ditongo, pronuncia-se [u] quando é átono, ou seja, não está na sílaba tónica: culurídu, cómudu, pud(e)rôsu, etc. Ora esta regra aplica-se numa grande maioria dos casos, mas não sempre. 

Outra regra que a complementa é que, no início de uma palavra, quando /o/ é uma sílaba sozinho ou é início de sílaba seguido de uma consoante, se pronuncia sempre [ó]: obrigado, ostentação, organização, obtuso, etc. Outra regra complementar desta última é que o /o/ mantém essa abertura de [ó] em compostos por prefixação dessas palavras: desorganização, inoperante, etc. 

Muitos prefixos relativamente autónomos, como mono-, poli-, etc. mantém também o som [ó] quando formam compostos: monomania, polivalente, etc. Além disso, há exceções avulsas, em princípio por razões históricas que não vou aqui descrever: ecònomia, sòmente, etc.

Outra questão interessante é que, quando um O final nunca aparece em posição tónica na flexão de uma palavra, não haveria razão para o considerar uma variante de um /o/. Por exemplo, não há nenhuma palavra com a mesma raiz que político em que o O final se pronuncie [ô] ou [ó], mas a prova de que é um /o/ que está por baixo do [u] surge quando se liga o termo a outro termo: político-militar, etc.



06/04/24

Do trema, do seu desaparecimento e da falta que às vezes faz

 

Se o desaparecimento de letras não pronunciadas foi, na última reforma ortográfica, um passo em frente no sentido de levar mais longe a lógica fonológica que subjaz à reforma republicana, já o desaparecimento do trema foi um passo atrás. 

É claro, em ortografia faz-se muitas vezes compromissos entre a lógica e a simplicidade. A não marcação do acento tónico na escrita do inglês ou do italiano são exemplos disso – por um lado, reduz-se o número de sinais e de regras a aprender; por outro, deixa de se assinalar todo um aspeto importante da língua. Não tenho dúvidas de que o que preside à eliminação do trema na grafia do português (do Brasil apenas, porque em Portugal não se usava) é essa vontade de simplificação. Para ser coerente com o espírito fonológico da ortografia portuguesa, porém, devia ter-se feito ao contrário: devia o uso do trema ter-se alargado à ortografia do português fora da América. Há outros casos, mas, por exemplo, a distinção entre as sequências /kwe/, /kwi/ e /ke/, /ki/ ou /gwe/, /gwi/ e /ge/, /gi/ em, por exemplo, cinquenta e apoquenta, tranquilo e quilo, desague e afague, preguiça e linguiça, é efetivamente fonológica e seria, por isso, mais lógico grafar cinqüenta, tranqüilo, desagüe e lingüiça. (Há outras soluções possíveis, mas seriam tão mal recebidas que é melhor nem pensar nelas…).

Em Portugal, o trema foi suprimido no Acordo Ortográfico de 1945. É claro, a supressão do trema foi na altura criticada — como é sempre criticada qualquer alteração na ortografia —, mas, neste caso, com razão, na minha perspetiva. 

O dramaturgo, poeta e escritor João Silva Tavares publicou a propósito, no Diário de Lisboa, este divertido poema que encontrei no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (mantenho a grafia original). Silva Tavares estranhava a supressão do trema em muitas palavras, mas não em saudade. Não conheço a história da palavra ao pormenor, e não sei se a forma sem ditongo foi muito difundida em alguma época ou lugar, mas, na Lisboa de 1945, devia já ser, como agora, forma muito rara. Embora os dicionários registem as duas pronúncias, a maioria dos falantes do português não pronuncia sa-u-da-de, mas sim sau-da-de — em todas as variantes da língua. 

«SIC TRANSIT GLORIA MUNDI»


Não há que ver—tudo morre. 
Chegada a hora suprema,
nada, nada nos socorre...

Desta vez, morreu o «trema»!


Morreu, não:—foi condenado

pela nossa Academia,

no acordo há tempos firmado

referente á Ortografia.


O «trema», tal corno é

do conhecimento geral,

quando se põe sobre o «u»,

torna expressiva a vogal.


Acento que muita gente

se esquecia de empregar,

consiste, graficamente,

em dois pontinhos a par.


Eu, por mim, digo em verdade:

—nas outras palavras, não,

mas na palavra «Saüdade»,

produzia-me impressão.


Por quê, saudade com «trema»?

Não lhes parece arriscado

complicarmos um problema

que é já de si, complicado?


Fora os «pontos» escusados,

por inuteis, por hostis!

Bem basta sermos forçados

a pôr os «pontos nos i i».


Louvemos, pois, o sistema

do acordo, já concluído,

pois dando sumiço ao «trema»

acabou com o «u» tremido!


Depois disto já firmado,

um amigo intrometido

e filólogo afamado,

declarou-me, compungido,

que não se diz «u» tremido

mas «u» tremado.


Que novidade!... Mau grado

o seu famoso bestunto,

o «sábio» não percebeu

que se eu escrevesse «u» tremado,

o «tremado» neste assunto

não era o «u»:—era eu!


Alexandre O’Neil dizia do trema em «Divertimento com sinais ortográficos» (de Abandono vigiado, 1960)

¨

Frequento palavras estrangeiras


Já vivi em saudade,

mas expulsaram-me

(p'ra sempre?...)

da língua portuguesa.





24/11/23

Nome próprio


Toda a minha vida fui Vítor. Quer dizer, sempre foi assim que escrevi o meu nome. O meu primeiro bilhete de identidade tinha Vítor e todos os outros bilhetes de identidade que se seguiram tinham Vítor também. A confusão começou de uma vez que me roubaram o passaporte em Moçambique e tive de mandar vir de Portugal um assento de nascimento. Foi nessa altura que descobri que era Victor que constava desse documento inaugural. De maneira que fiquei Victor nesse passaporte — mas voltei a ser Vítor no passaporte seguinte… Mas depois, quando fui tirar o meu primeiro cartão de cidadão, recusaram-me o Vítor. 

Até aqui, já tinha contado a história toda aqui na Travessa. Agora, em junho passado, quando fui renovar o passaporte no consulado em Copenhaga, voltaram a recusar-me a grafia que sempre usei. Durante alguns meses, fui Vítor nos documentos dinamarqueses e nalguns documentos portugueses que não uso há anos e que não sei se alguma vez voltarei a usar, e Victor nos dois documentos portugueses mais recentes, o cartão de cidadão e o passaporte. Mas achei que isso ainda havia de me arranjar problemas e resolvi uniformizar tudo: agora sou Victor também nos documentos dinamarqueses. 

Ser Victor é, ainda, uma coisa estranha para mim e para quem sempre me conheceu como Vítor. Mesmo os meus colegas dinamarqueses me dizem que não se habituam a que eu agora seja Victor.

– Não têm de mudar a maneira de dizer, aquele C não se pronuncia em português –, explico-lhes eu, mas, para eles, Victor é outro nome, o nome dinamarquês que também se pode escrever Viktor. 

Valha-nos isso, o meu nome internacionalizou-se, porque Victor há em todo o lado. Em inglês, até como nome comum. É claro, o que se ganha em internacionalismo é o que se perde em exotismo, mas sempre fui mais apologista do primeiro que do segundo.

Já pensei em mudar também o nome do blogue — ou, pelo menos, a fotografia do cabeçalho. 


18/11/23

Culher


Mas dizei-me: não seria muito melhor escrever culher que colher? É que culher matava dois coelhos de uma só cajadada: ficava mais próximo do étimo imediato, o francês cuillère, e inscrevia-se naturalmente num miniparadigma de palavras terminadas em /ér/ com U na sílaba anterior: mulher, puser e puder – que se opõe a outro de palavras terminadas em /êr/ com O na sílaba anterior (são muitas…). Como puder se opõe a poder, culher opor-se-ia a colher («apanhar). 

A palavra francesa que importámos escreve-se já com U – que refletia e reflete a pronúncia – pelo menos desde a segunda metade do século XI (culier), embora se documentem no séc. XII as grafias coller e cuillier (ver aqui). A partir daí, sempre com U. A grafia com O portuguesa é, muito provavelmente, um latinismo, para dar conta da etimologia última da palavra francesa importada, o latim cochlear(e)-, mas, na breve pesquisa que fiz para este texto, não consegui descobrir se a palavra portuguesa alguma vez se escreveu com U ou se alguma vez o O se pronunciou de outra forma que não /u/. É também muito provavelmente a importação da palavra francesa que justifica as formas culler em galego e cullera em catalão, entre outras.  

E, agora que falo disso, penso, de repente, que a grafia com U nos «integraria» nas outras colheres latinas: as palavras correspondentes (e de etimologia aparentada) em muitas línguas românicas são com U: cuciaro em véneto, cucchiaio em italiano, cucchiara em siciliano, cuchara em castelhano, cuillère em francês, culhièr em occitano, cullara em aragonês, cullera em catalão e cuyar em asturiano (etc.?). É claro, pode argumentar-se que ser igual aos outros não é propriamente uma vantagem…  


14/08/22

De escatologia e outras convergências

[Orientação para leitura do texto: i) quando não é referida uma língua específica, o étimo é latino; ii) os mm finais do acusativo latino já não se pronunciavam em latim tardio e a sua ausência é assinalada com um -; iii) as formas assinaladas com *são formas reconstruídas pelos etimologistas não atestadas em textos escritos.] 

Chamam-se palavras convergentes as palavras que, numa determinada fase de uma língua, têm a mesma forma, embora tenham origens diferentes. Em princípio, quando digo «têm a mesma forma», quero dizer «têm a mesma forma linguística», isto é, são constituídas pelos mesmos sons; mas haverá decerto quem conte como convergentes apenas palavras homónimas, ou seja que se dizem e se escrevem da mesma maneira, embora provindo de étimos diferentes[1]. Em português, os exemplos mais comuns são vão do verbo ir, vão adjetivo e vão nome, são do verbo ser, são no sentido de santo e são adjetivo, como advérbio e como do verbo comer, o nome mente e a forma verbal mente, o pronome, advérbio ou nome nada e a forma nada do verbo nadar, entre vários outros. 

«Está a ver ali? O meu filho, a minha nora e os meus netos.»

[Ilustração de Gustave Doré em L'Espagne, de CH. Davillier, 1874.
Wikimedia Commons, daqui.]
Evidentemente, como se trata, em todos os casos acima referidos, de convergência entre formas de categorias diferentes, a convergência nunca causa nenhum mal-entendido. Quando muito, serve para alguma brincadeira pateta («Não disseste nada? Olha, quem nada não se afoga.»). Mais interessante, porém, é o escrutínio de formas convergentes da mesma classe gramatical, que também as há. Podem causar ambiguidades? 

Temos, por exemplo: fiar, «tecer», de filare, e fiar, «ter confiança», de *fidare por fidere; junco, a planta, de juncu-  e junco, a embarcação, do malaio-javanês jung; manga, a parte da roupa, de manica e manga, a fruta, empréstimo ao malaio; nora, «esposa do filho», da forma vulgar *nora, do clássico nurus, e nora, engenho de puxar água, do árabe نَاعُورَة‎, nāʿūra; renda, 'rendimento; quantia recebida», deverbal de render e renda, «malha de fios ornamental», cujo étimo é obscuro; velar, «passar a noite, ou boa parte dela, acordado; estar alerta, vigiar», de vigilare e velar, «cobrir com véu», de velare;

Um caso curioso é cabo. Quando designa o posto militar ou significa «término, fim, limite», vem de caput, «cabeça, topo», e quando significa «extremidade pela qual se segura um objeto ou instrumento, corda grossa, feixe de fios», vem de capulu-. Ao contrário do que se poderia talvez supor, capulu-  não é imediatamente um diminutivo de caput, mas provém antes de capere, «segurar» – embora, em última instância, caput também provenha, provavelmente, da mesma raiz proto-indo-europeia... 

«Aquela senhora vive de rendas.»

Caspar Netscher: A rendeira, 1662. Wallace Collection, Londres.
Wikimedia Commons, daqui.]
Também nestes casos as ambiguidades parecem raras. Evidentemente, pode dizer-se «Ali está o meu filho e a minha nora» referindo com esta última palavra não a mulher ao lado do rapaz, que não é sua mulher, mas antes a roda com alcatruzes que se encontra atrás dele. E pode cobrir-se uma morta ou um morto com um véu e dizer-se então que se está a velá-la/o, como se a/o vela numa vigília — seja ela ou não à luz de velas[2]. E também se pode dizer que uma pessoa vive de rendas, querendo com renda significar a malha decorativa e não os rendimentos não provenientes de trabalho – se se estiver a falar de uma rendeira!... Mas quando é que essas coisas se dizem? Nunca. E é precisamente por isso que estes termos convergentes podem existir, já que a língua tende a desfazer convergências que causem ambiguidades. 

A mim, o que me faz mais confusão é a convergência de duas palavras muito diferentes em escatologia – e, por consequência, também de dois adjetivos diferentes no adjetivo escatológico. É que a escatologia tanto pode ser a «parte da teologia que trata dos fins últimos do homem e do que há de acontecer no fim do mundo» e, por extensão, «qualquer área do pensamento que trate do fim último da humanidade, do mundo ou da história» (do grego ἔσχατος, éskhatos, com o kh pronunciado como um jota espanhol), «último, mais distante» ou «estudo ou tratado acerca de excrementos; coprologia» e, por isso, também «alusão aos temas das fezes, da imundície, da obscenidade» (do grego σκατός, skatós, genitivo de σκῶρ, skór, «excremento»). Evidentemente, o contexto acaba por esclarecer de que escatologia se está a falar. Mas, numa referência breve a uma obra ou a um(a) autor/a que não se conhece, pode às vezes ficar-se na dúvida... Bom, também não é palavra que toda a gente use todos os dias... 




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[1] Veja-se o caso de ótico, que tanto pode querer dizer «relativo à visão» (de ὀπτῐκός, optikós) como «relativo aos ouvido» (de ὠτῐκός, ōtikós). Os termos convergiram há muito tempo, mas alguns acharão que só agora há verdadeira convergência, depois de o antigo óptico ter perdido na grafia o p que não se pronunciava...
[2] Já agora, é a palavra vela, objeto alumiador, que vem do verbo velar, no sentido de ficar em vigília, e não ao contrário, como talvez se pudesse supor.



30/08/19

Vírgulas, mais uma vez

Isto de vírgulas é complicado. Quero aqui falar de um erro comum e pouco notado, que, ao contrário de muitos erros frequentemente criticados, tem implicações importantes em termos de sentido: pôr entre vírgulas sintagmas ou orações restritivas. Está mal. Só os sintagmas apositivos é que se põem entre vírgulas. Ena, tantos palavrões técnicos. Importa-se de trocar isso por miúdos?*

Um modificador restritivo de um nome especifica a que(m) é que o nome se refere. Se eu tiver duas irmãs, a expressão nominal «a minha irmã» pode referir qualquer das duas. Mas se, das duas, há uma «que mora na Suíça» e outra «que mora em Portugal», estes sintagmas podem servir para especificar de qual das duas estou a falar: «A minha irmã que mora na Suíça faz anos amanhã.» São estes modificadores restritivos os que não se escrevem entre vírgulas.

Já um modificador apositivo diz alguma coisa extra daquilo que é referido pelo nome, sem por isso o definir por oposição a outras coisas ou seres designados pelo mesmo nome. Se eu só tenho uma irmã e ela faz anos amanhã, direi «A minha irmã faz anos amanhã». E posso, claro está, acrescentar a esta afirmação alguma informação adicional sobre a minha irmã, por exemplo, que ela mora na Suíça: «A minha irmã, que mora na Suíça, faz anos amanhã.» Este tipo de frases é muito raro na comunicação oral, pelo que não há normalmente confusão entre os dois tipos de frase na oralidade (seria mais natural qualquer coisa como «A minha irmã faz anos amanhã. Mora na Suíça, essa minha irmã.»), mas ocorre na escrita, porque na escrita há tendência a condensar e concentrar a informação. E os apostos vêm sempre entre vírgulas, porque são sintagmas que se podem escusar ou mover para outro lugar.

Agora, nem todos os modificadores restritivos são orações relativas, como nos exemplos acima. Mas as regras de uso das vírgulas são as mesmas. Escrever, por exemplo, falando de Herman Melville que «Alguns veem no seu livro, The confidence man, uma sátira de Henry Ward Beecher» só faz sentido se Herman Melville não tivesse escrito mais nenhum livro, o que não é certo; e escrever que “O considerado entomologista de Harvard, E.O. Wilson, fez notar que, sem insetos, a vida desapareceria da terra», só estaria correto se o E.O. Wilson fosse o único etimologista considerado de Harvard, o que também não acontece.

Notem que nem sempre o problema deste erro é dar como único o que o não é. Pode também criar outro tipo de alterações do significado da frase onde ocorre. A frase «Alice é uma peça de teatro musicado sobre os conflitos internos do autor, Charles Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário, Lewis Carroll» dá Charles Dodgson como autor de uma peça de teatro cujos autores são de facto Kathleen Brennan e Tom Waits. O que queriam escrever era «Alice é uma peça de teatro musicado sobre os conflitos internos do autor Charles Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário, Lewis Carroll».

Lembro-me de que uma vez tive de pedir esclarecimentos à autora de um relatório que estava a traduzir e em que se afirmava que «os camponeses de Ribauè, que foram apoiados pelo projeto, aumentaram de facto a produção de milho». O projeto destinava-se de facto a apoiar todos os camponeses de Ribauè? Não, não, o projeto tinha como grupo-alvo um número restrito de camponeses do distrito – o que ela queria dizer era «os camponeses de Ribauè que foram apoiados pelo projeto aumentaram de facto a produção de milho», ou seja, restringir o número de camponeses que tinham aumentado a sua produção de milho aos que tinham sido apoiados pelo projeto.

Isto de vírgulas é um bocado complicado....


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* Podem ver, por exemplo –  e contrastar com a minha – a explicação que dá o Ciberdúvidas da diferença entre os dois tipos de modificadores. Mas encontram muitas outras na Internet.

21/02/19

Palavra puxa palavra: uma conversa numa rede social

Faz agora um ano, o meu amigo Stefaan Dondeyne e eu tivemos uma conversa curiosa no Facebook. Fui eu que comecei, com a seguinte publicação:
Em francês, distinguia-se – e há ainda com certeza quem distinga, apesar de a regra ter sido alterada em 1990 – entre cuissot, uma coxa de um animal de caça, e cuisseau, uma coxa de vitela, por muito que as duas palavras se pronunciem, claro, da mesma maneira e tenham, evidentemente, a mesma origem.
Agora, se isto vos aparece extravagante, vejam que o Porto Editora diz que uma escola islâmica se chama uma madraça, a não ser que seja na Guiné-Bissau ou em Moçambique, onde é uma madrassa
Era dar conta de uma curiosidade e não uma crítica. Provavelmente, até é certo que a grafia predominante na Guiné e em Moçambique é com ss e nas outras variantes com ç. (O que está com certeza mal é que a grafia moçambicana não tem origem no mandinga, mas isso é outra história…)
E respondeu-me Stefaan (traduzo eu de forma bastante livre, porque ele não me respondeu em português):
Em suaíli, darasa (no singular, madarasa no plural.) significa apenas aula ou sala de aulas. Ok, isto não está diretamente relacionado com a ideia central da tua publicação, mas fiquei a pensar em qual seria o significado de darasa em árabe. Parece-me provável que também signifique apenas «sala de aula».
Fui dar uma voltinha ao Google e respondi-lhe:
Stefaan, em árabe, a palavra tem o ma- no singular e no plural e significa apenas «escola», qualquer tipo de escola (مدرسة‎, madrasah, plural مدارس, madāris).
Na altura, pesquisei apenas madrasah em árabe, mas não pesquisei se darasa também significava alguma coisa nessa língua – que era a dúvida de Stefaan. E significa, de facto, pelo menos a fiarmo-nos no Wiktionary —não «sala de aula», como Stefaan previa, mas «aula», «lição» ou «estudo». Ou seja, tem afinal, um significado igual a um dos significados de darasa em suaíli. Além disso, como verbo, pode também significar «estudar» e «aprender». De facto, madrasah forma-se como nome de lugar do verbo: é um lugar de estudar ou de aprender. Mas isto só o soube ontem. Na altura, o que me veio à cabeça foi outra coisa diferente:
É de facto interessante, Stefaan, agora que penso nisso: como o ma- é marca de plural nas língua bantas, o suaíli cria uma forma de singular de uma palavra que não é originalmente plural, só porque começa com ma-. O mesmo acontece, por exemplo, em português quando algumas pessoas dizem «uma sande». Partem do princípio de que o s final de sandes é uma marca de plural e criam, por isso uma forma singular sem s [quando de facto o s final de sandes vem do ch final de sandwich, singular].
Muito provavelmente, e mesmo sem saber, na altura, da existência de darasa em árabe, tenho razão na minha análise da formação do singular darasa em suaíli, com o significado de «sala de aula» – mas talvez não, talvez esse significado tenha derivado diretamente do significado «aula»...

Stefaan, pegando na deixa da chamada etimologia popular (ou, mais concretamente, de ressegmentação, metanálise ou retroformação, não chego à conclusão de que termo é mais usado em português), tinha algo a acrescentar sobre este tema:
Vítor, não é regra geral, mas há com certeza outros exemplos. Um deles é kitabu, «livro», no singular, que dá vitabu, no plural. Kitabu vem do arábe kitab [ كِتَاب‎ — a primeira sílaba é pois interpretada com o prefixo suaíli ki- do singular de uma classe de nomes, pelo que passa a vitabu, que é o plural dessa classe]. Também na brincadeira (ou como calão), há quem faça o singular de video como kideo…. A classe ki-/vi- é uma classe de nomes para «coisas». [Ver aqui uma explicação do sistema das classes de nomes em suaíli.]
Já se sabe, as palavras são como as cerejas e, palavra puxa palavra, uma pessoa começa a falar de palavras com grafia dupla e, de repente, ena, onde a conversa já vai!

07/08/18

Vítor com cê

Uma vez, demorei quatro horas para fazer os 45 quilómetros que separam Nicoadala de Quelimane, numa camioneta de caixa aberta que tinha apanhado em Mocuba. (Digo «apanhado», porque a camioneta, como todos os automóveis na altura, servia de transporte público – ou, como se dizia, «fazia chapa».) A camioneta ia atafulhada de gente e a estrada era uma faixa de grandes crateras. Mesmo num veículo ligeiro e com tração às quatro rodas (um «fòbaifó», como se diz em Moçambique), não se conseguia andar muito mais depressa. Muitos buracos da estrada tinham bem meio metro de fundura e era como viajar em mar picado, aquele descer e subir crateras. Uma pessoa ficava maldisposta. Do Alto Molócuè, onde eu morava, eram cerca de 350 km até Quelimane. Nessa altura, quem não tivesse transporte próprio só podia fazer assim a viagem, de chapa – e chapas eram todos os carros que passassem e onde se conseguisse encafuar mais um passageiro mediante o pagamento de uns quantos meticais. Dessa vez, o motivo da minha viagem a Quelimane era um cê. A sério.

Tinham-me roubado o passaporte em Chocas-Mar, uma praia idílica na província de Nampula, mesmo em frente à Ilha de Moçambique. Para se fazer novo passaporte, era preciso o meu assento de nascimento, que pedi que me enviassem de Lisboa. Felizmente, não era necessário ir a Maputo; havia um cônsul honorário em Quelimane, cuja secretária se ocupava deste tipo de coisas. Foi dessa senhora que recebi uma mensagem no Alto Molócuè. Nessa altura, não havia telefone na vila, mas podia comunicar-se por rádio com a estação dos correios e foi o funcionário dos correios a minha casa dar-me o recado:
– A senhora diz que há problema com o seu pedido de passaporte e que tem de lá ir falar com ela.
E eu fui, logo na manhã seguinte. Quando falei com a senhora, fiquei a saber que o problema era o cê de Victor – ou a sua falta.

O meu bilhete de identidade dizia que eu me chamava Vítor, mas o assento de nascimento dizia Victor. Não podia ser.
– Sempre tive Vítor no BI e o passaporte que me roubaram também tinha Vítor. Sempre escrevi assim o meu nome. Nem sabia que o assento de nascimento tinha Victor – disse eu à senhora. – É capaz de ter sido quando houve aquela reforma em 1973 em que se acabaram com os acentos graves, sabe? Se calhar, decidiram passar todos os Victores a Vítores…

Eu sabia que era uma explicação pateta, porque uma coisa não tinha nada a ver com a outra, porque o meu primeiro BI era anterior a 1973 e porque continuava a haver muitos Victores, mas a senhora lá se convenceu de que me podia passar o passaporte, «mas como estava no assento de nascimento». Fiquei com uma discrepância entre o BI e o passaporte, mas não me preocupei muito com isso. E continuei a escrever Vítor em todo o lado, como sempre tinha feito.

Quando fiz o pedido de residência na Dinamarca, escrevi Vítor. A funcionária que recebeu o pedido deu logo pela falta do cê.
– Nem sabe escrever o seu nome! – disse-me ela num tom de desdém.
 
Fiquei sem vontade de lhe explicar fosse o que fosse sobre as subtilezas da grafia dos antropónimos. Na realidade, eu sabia muito bem escrever o meu nome e a grafia Victor está simplesmente errada: uma palavra sem acento gráfico terminada em erre é forçosamente aguda e ninguém se chama [vitor]. Mesmo com o tal cê etimológico, era Víctor que se devia escrever. Mas nunca tal vi – ou é Vítor ou Victor.

Prevendo mais chatices, quando me registei no Consulado em Copenhaga, pedi um documento (sem qualquer valor legal, mas enfim…) em que se explicasse que Vítor e Victor eram ambas variações corretas de um mesmo nome, o meu. E passaram-mo.

Quando renovei o bilhete de identidade, acederam em passar-mo com a grafia que tinha no BI. O meu nome – agora acrescido do apelido da minha mulher, que adotei – era de novo sem cê tanto no passaporte como no BI: Vítor Manuel Lucas Santos Lindegaard. Mas foi sol de pouca dura.
Quando fui, há três semanas, substituir o BI pelo Cartão de Cidadão, disseram-me que tinham de escrever o meu nome como estava no assento de nascimento, entretanto digitalizado. E voltou a haver discrepância, mas agora ao contrário da que tinha sido iniciada em Quelimane: é o passaporte que não tem cê e o cartão de cidadão que o tem. A ver quanto quilómetros vou ter de fazer de chapa-cem por causa disto…

18/06/18

Mais coisas sem importância nenhuma

Acontece-me às vezes desviar-me ligeiramente da ortografia oficial, em certos contextos, quando creio ter razões lógicas para o fazer e quando me sobra paciência para assumir o desvio. Mas é muito raro. Normalmente, limito-me a seguir as regras ortográficas, concorde ou não com elas, porque insistir na lógica a contracorrente dá demasiado trabalho.

Vejam a questão do agá inicial, por exemplo. Para mim, é óbvio que o agá é um resquício de uma lógica ortográfica anterior à perspetiva fonológica que foi introduzida pela reforma republicana de 1911. Eliminaram-se muitas letras sem outra função que não fosse dar conta da «etimologia», mas, por alguma razão, considerou-se mais importante conservar o agá que outras letras apenas etimológicas. A verdade, ao que vou constatando, é que toda a gente acha impensável escrever «oje às duas oras», mas ninguém se importa de escrever espanhol, erva, arpão e agora, que, para seguirem a mesma lógica etimológica também deviam ter agá. É assim a vida e para mim está muito bem, paciência, não chateio ninguém com o agá inicial…

Pois, escrevo mais uma vez sobre ortografia – maldita mania –, mas, vá lá, não quero falar de nenhuma dessas grandes questões ortográficas que empolgam os ânimos, como os agás iniciais. Hoje falo só de picuinhices, coisas sem importância absolutamente nenhuma…

1. Considerem, a seguinte série:
Para que fim contribui isso?
Para que contribui isso?
Com que ferramenta cortaste isso?
Com que cortaste isso?
De que material é isso feito?
De que é feito isso?
Por que razão chegaste atrasado.
Porque chegaste atrasado?
Porque, pronome interrogativo? Hmmm, não há *paraque, nem *deque, nem *conque… Devia ser por que, claro, como em castelhano ou na tradição brasileira. Pobre palavra pronome, que é quase como advérbio, pau para toda a colher…

2. Uma coisa simples era também distinguir o verdadeiro advérbio afinal (=finalmente) de um sintagma preposicional a final de (=no fim de). Afinal de contas não está bem, por muito que seja grafia consagrada: é finalmente de contas ou no fim de contas que se quer dizer?

3. Surgiu-me no outro dia um exemplo de uma ambiguidade possível em português, que, de tão rara, nunca encontrei nada do tipo. Consideram a frase:
A proposta foi ética e eficazmente elaborada.
Já não vou ao ponto de sugerir que se grafe mente separado, o que a etimologia e a sintaxe até podiam justificar (é como tirar os agás iniciais, não vale a pena pensar nisso), mas, se se considera o advérbio uma unidade, bem que podia marcar-se a falta do elemento -mente nos casos em que ele é obrigatoriamente omisso. Uma sugestão óbvia é o uso de um hífen:
A proposta foi ética- e eficazmente elaborada.
Ficamos assim a dizer o que queremos. Este uso não é nenhuma invenção minha, quando muito uma importação: na escrita do inglês, isto é standard em palavras compostas com hífen (self- and peer-evaluation, pre- and post-war, etc.) e debatido, mas muitas vezes usado, em compostas sem hífen com uma parte naturalmente omissa na oralidade (up- and downwards para up[wards] and downwards ou super- and paranormal para super[normal] e paranormal). Na escrita de outras línguas, como as línguas escandinavas e o alemão, pelo menos, o procedimento é standard para todas as palavras com elementos omissos na(s) primeira(s) palavras de uma enumeração de compostas com o mesmo segundo elemento: okse- og lammekød («carne de vaca e borrego», DK), laut- und spurlos («sem [deixar] som nem rasto», DE]. Pode até acontecer que se omita mais que um elemento comum no início e no fim das palavras como no alemão Sonnenauf- und -untergang, («nascer e pôr do sol»), em que, na primeira palavra, o hífen marca a omissão de Gang e, na segunda, de Sonnen.

É certo que só por causa das ambiguidades entre adjetivos e advérbios em -mente, de tão insólitas que são, não valeria muito a pena pensar nisto, mas a verdade é que a mesma questão se põe muitas vezes com outros compostos: às vezes, sem o hífen, não ficamos com ambiguidade, mas ficamos com uma palavra inexistente, porque é um elemento sem autonomia que ali surge. Era melhor escrever «macro- e microeconomia», por exemplo – porque não falamos de nada chamado *macro, mas sim de uma coisa chamada macroeconomia –, como era melhor escrever-se «separadores pré- e pós-processamento», em vez de «separadores pré e pós-processamento», como agora se escreve – pelo menos se não quisermos recorrer a «separadores pré-processamento e pós processamento», que até não me soa mal, mas me parece escusado…


09/02/17

O que se escreve e o que se diz

Um blogue pode servir para muitas coisas e uma das funções da Travessa… é ser um depósito sempre acessível das minhas opiniões, apresentadas de forma minimamente organizada e documentada, para que posso remeter as pessoas com quem discuto certas questões, em vez de repetir de cada vez as referências e o argumentário. Mas, se é essa umas das funções dos textos da Travessa… nunca tinha sido essa a sua motivação imediata — até agora: este texto foi escrito para ser usado como texto de referência nas muitas discussões que tenho sobre a questão da influência da escrita na pronúncia. Não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o assunto e dediquei até ao tema uma parte de um texto que escrevi há três anos sobre o famigerado Acordo Ortográfico de 1990; mas quero agora desenvolver  um pouco a questão.

Não aprendemos as palavras da nossa língua por escrito. Mesmo que aconteça o caso raro (mas não impossível) de vermos uma palavra escrita antes de a ouvirmos, e a pronunciarmos de forma pouco canónica porque seguimos as regras normais de leitura, basta ouvi-la uma ou duas vezes para começarmos a pronunciá-la corretamente. Imaginemos que alguém nunca ouviu a palavra colação e que, quando a vê escrita, pronuncia [colâção] com o primeiro a fechado[1]. Mesmo que ninguém o corrija, ao ouvir a pronúncia normal [colàção], a pessoa corrige-se[2]. A exceção ao estado de coisas que acabo de descrever seriam, naturalmente, as palavras que só lemos sem nunca as ouvirmos. Que palavras são essas? Alguns palavrões técnicos, mas não deve haver muitos. Deve haver mesmo muito poucos…

Não se passa o mesmo com palavras estrangeiras: não temos interiorizado o sistema fonético da língua e não ouvimos essas palavras o número de vezes suficiente para corrigir uma pronúncia errada em que a escrita nos induza, sobretudo (isto é muito importante) quando essa pronúncia é apoiada pela pronúncia de cognatos na nossa língua materna. Por exemplo, não se pode saber se os portugueses que dizem os ss da palavra inglesa dissolve como [s] e não como [z] — que é como se pronunciam de facto  — o fazem por causa da grafia ou por interferência do som da língua materna. Da mesma forma, se durante muito tempo pronunciei [siúksi siuks] o nome da cantora inglesa Siouxie Sioux, em vez de [súzi su], como devia, não posso saber se foi por influência da grafia apenas ou por influência da pronúncia da palavra sioux que eu tinha interiorizada desde a infância[3]. O que me diz a minha experiência de quase 30 anos de ensino de português como língua estrangeira a adultos é que é tão impensável livrar-se da influência da escrita como ensinar a língua a adultos sem a escrever. Mas, lá está, se um inglês ou um dinamarquês pronunciam o c que havia em projecto nas grafias anteriores ao AO90, não se sabe se é por verem esse c ou se é porque há esse som nos cognatos de projeto nas suas línguas, project e projekt respetivamente.

A questão é de facto complexa e é difícil fazer grandes afirmações sobre ela sem ter, como eu não tenho, conhecimento de estudos exaustivos e sérios. Por exemplo, não sei se se pode falar de influência da escrita na pronúncia quando se nota a pronúncia fechada de certos ee abertos pretónicos em falantes de português como língua segunda (é um fenómeno que conheço de Moçambique), que pronunciam esquecer ou aquecer «como se escrevem» [aquəcer, esquəcer]. Muito provavelmente, o problema põe-se antes exclusivamente ao nível do sistema fonológico: o muito contacto com a língua fez com que essas pessoas interiorizassem a regra de que o fonema /E/ se pronuncia fechado quando é átono, mas esse mesmo contacto com a língua não foi suficiente para interiorizar as exceções, como o fazem os falantes maternos[4].

A escrita não tem, não pode ter, influência na pronúncia de uma língua. Conheço trabalhos em que se defende que, com a aprendizagem da escrita, a imagem mental de um som fica indelevelmente ligada à sua representação gráfica — o que explicaria, digo eu, a grande resistência que sempre há a qualquer reforma ortográfica e o alto grau de emotividade dessa resistência —, mas não conheço, nem nunca vi referido, nenhum trabalho sobre a influência da grafia na pronúncia de uma língua[5]. Voltemos à asserção simples de Richard Feynman que já aqui pus uma vez: para vermos se temos uma boa lei científica — ou, diria eu, uma verdade geral, porque não há nada que distinga uma lei científica de outra verdade geral — calculamos as suas consequências e comparamos o resultado do cálculo com a realidade. Se as implicações da teoria não se verificarem na realidade, a teoria está errada. Parece que é isto que não faz quem propõe que a escrita influencia a pronúncia: computar que implicações essa presumida influência teria, se fosse verdadeira. Ora a primeira implicação deste postulado, e obviamente completamente desfasada da realidade é que, em sociedades altamente escolarizadas, a pronúncia deixaria de evoluir, porque a escrita funcionaria como travão a essa mudança. Mais, nessas mesmas sociedades, se houvesse de facto influência da escrita na pronúncia, voltar-se-ia, nalguns casos a pronúncias mais antigas, que se tinham afastado da forma escrita antes de se generalizar a alfabetização. Nada disto faz grande sentido. Vejam qualquer filme dinamarquês dos anos 30 e comparem com a pronúncia atual… E já nem quero dar-vos exemplos das implicações que isto teria em línguas com escritas muito pouco fonéticas, como o francês ou o inglês, para não pensarem que estou a disparatar. Mas a hipótese que leva a esses disparates não é minha, pelo contrário, é aquela que estou aqui a refutar… Tentem imaginar que implicações tem a teoria quando a aplicamos ao caso da mudança de alfabeto na Turquia em 1929, quando passou do alfabeto árabe ao alfabeto latino. Mas não há relatos de que a pronúncia do turco tenha sofrido alguma alteração nessa altura, ou há?

Deixem-me só listar mais alguns fenómenos que decorrem do cômputo das implicações da hipótese. Já os referi antes, mas tenho de os repetir agora neste texto que é especificamente sobre esta questão: se a influência da escrita sobre a pronúncia fosse de tal modo que, como pretendem alguns, levasse ao fechamento das vogais átonas de que não há marca de abertura, porque nunca se fecharam as dezenas e dezenas de vogais nessa situação antes do acordo? Quer dizer, com séculos de redução vocálica, nunca se fecharam as vogais de padaria, aquecer ou corar, mas, de repente, iam começar-se a fechar as vogais de receção ou adotar… Nunca se fechou o e aberto de pregar e pregador (que concorre de facto com o e fechado de pregar e pregador), mas havia de fechar-se o e aberto de espetador (que concorre com uma palavra só virtualmente existente, espetador, aquele que espeta)? Ou a lei de que a escrita influencia a pronúncia só começou a ser uma lei linguística depois da entrada em vigor do AO90? Sejamos sérios. Aliás, como já o disse aqui uma vez, do postulado que a escrita influencia a pronúncia tem de se inferir forçosamente que a escrita faria com que se pronunciassem, mais que as vogais abertas… as consoantes mudas!

Contava-me alguém que tinha vista uma pessoa que, ao ler conceção, hesitara e acabara por pronunciar como concessão, com e fechado antes de se autocorrigir, porque se dera conta de que concessão não fazia sentido no contexto. É outra coisa. Se uma pessoa não está habituada a ver conceção, pode não perceber logo de que se trata. O mesmo pode acontecer a quem vê escrito, sei lá, colã, se sempre viu escrito collant. Mesmo que não leia em voz alta, pode não perceber logo de que palavra se trata. É claro que uma mudança de grafia tem implicações deste tipo. Mas isto não tem nada a ver com a grafia influenciar a escrita. A pessoa que hesitou na leitura de conceção e pronunciou como se fosse concessão continuará a pronunciar conceção como sempre pronunciou. E, a quem tenha aprendido a escrever conceção sem p, o problema nunca se porá — exatamente como não se põe a quem lê vadio com a aberto ou república com e aberto, sem marca nenhuma dessa abertura na escrita. E pronunciará conceção da mesma maneira que quem aprendeu a escrever com p. Claro.

É de notar, já agora, que, com o desaparecimento dos pp e cc não pronunciados se mantêm, em muitas palavras em que se quer ver confusão — ou com que quer fazer confusão —, dois paradigmas perfeitos, um de ç e outro de ss, em que ao de ç corresponde a pronúncia aberta do e pretónico e ao de ss a pronúncia fechada do e na mesma posição: conceção, preleção, coleção, seleção, correção, direção, etc., vs agressão, concessão, impressão, pressão, recessão, sucessão, etc. Para quem esteja muito preocupado sobre como distinguir ee pretónicos abertos de fechados, neste caso a regra é esta: antes de -ção são abertos, antes de -ssão são fechados. Fácil, não é verdade? E, afinal, sempre há aqui uma marca gráfica da abertura do e: o ç.

Uma última palavrinha sobre as implicações da nova ortografia no ensino do português europeu como língua estrangeira. Não vão ser muitas, claro, porque as alterações são muito poucas, mas algumas poderá ter. Uma é que pode criar uma maior divergência em relação às línguas que os alunos falam, fazendo com que se tornem mais difíceis de reconhecer imediatamente num texto escrito palavras como cato, inseto ou ótimo. Isto já acontecia em vários casos no ensino do português do Brasil e, também nalguns casos, no português de Portugal (estrito, contrato, etc.). Mas, note-se, não acontece com todas as palavras: uma palavra como arquitetura é tão facilmente identificada na escrita como arquitectura. Por outro lado, o que cria maior dificuldade no reconhecimento da palavra escrita é uma ajuda na pronúncia: ao ler em voz alta catoinseto ou ótimo o aluno não pronunciará [cakto], nem [insekto] nem [óptimo], como fazia antes. Mas continuará provavelmente a fazê-lo, por causa da influência da língua materna, mal deixe de ter à frente ou na memória recente a grafia da palavra. Porque, como se sabe, para os falantes estrangeiros, a grafia não é a única fonte de pronúncias erradas…
____________________

[1] Uso neste texto, como noutros sobre pronúncia, os termos fechado e fechamento, e aberto e abertura, quando falo do timbre das vogais, para simplificar a leitura de quem não saiba de fonética, mas, na realidade, não é fechamento que há nas vogais átonas do português europeu, mas antes elevação e recuo. Também uso transcrições fonéticas simplificadas, para quem não esteja familiarizado com o alfabeto fonético internacional.

[2] Já se aprender a dizer [colèção], como muita gente diz em vez de [colàção] («isto à vinha à coleção do que a gente ’távamos agora a falar…»), fará provavelmente parte de um grupo de pessoas sobre as quais não terão grande efeito nem a palavra escrita nem a pressão dos pares para falar corretamente — e continuará a pronunciar assim o resto da vida…

[3] O pseudónimo de Susan Janet Ballion é uma grafia alternativa de Suzy Sue, baseada no facto de Sue e Sioux se pronunciarem da mesma maneira em inglês. A pronúncia de sioux que aprendi em miúdo — com os meus pares, seguramente — é [siuks], que é, segundo o que vejo no Priberam, uma pronúncia errada: devia pronunciar-se à francesa, [siu], já que é uma palavra que, diz o mesmo Priberam, nos chega pelo francês.

[4] Além de que, em princípio, não têm interiorizado nenhum sistema estável que não seja o da sua própria língua, não é verdade? A questão dos mecanismos de processamento e interiorização de formas irregulares é muito complicada e não faço ideia como são interiorizadas as vogais abertas em posição átona do português europeu e se esse tipo de «exceções» é processado da mesma forma na língua materna e em línguas segundas ou estrangeiras.

[5] O que não quer dizer que não haja, claro está. Até há trabalhos sobre a influência da língua sobre poupanças, valham-nos os santos todos que velam sobre o bom senso e o rigor…

17/01/17

A grafia como memória etimológica: duas curiosidades sobre ss e acentos circunflexos

A regra é esta: qualquer alteração na grafia, em qualquer língua, em qualquer altura, será sempre contestada.

Já desde 1990 que, em francês, se deve suprimir a maioria dos acentos circunflexos no i e no u, mas a maior parte das pessoas continua a escrever como aprendeu («está bem, mas eu foi assim que aprendi, é assim que escrevo» é uma justificação frequente da não adesão a reformas ortográficas) e, de vez em quando, reaviva-se a contestação ao desaparecimento dos circunflexos. O argumento é às vezes a perda da memória etimológica: esses circunflexos assinalam o desaparecimento de um s latino.

Há quem argumente — com toda a pertinência, na minha opinião — que à maior parte das pessoas não interessa para nada a etimologia e que os que por ela se interessam não é com ortografias «etimologizantes» que a aprendem. Também se pode argumentar, porém, que essas grafias são um auxiliar do conhecimento etimológico que se adquire sem grande custo ao aprender a escrever, de maneira que é mais ganho que perda.

Não vou discutir aqui qual a melhor grafia para se aprender a escrever, até porque não domino bem o assunto. Vejo que os dinamarqueses, que têm uma grafia nem sempre muito fonética, aprendem a escrever com uma grafia artificial mais fonética («escrita de crianças») que é mais tarde corrigida — e parecem ter com isso bons resultados, ao que observo à minha volta. Mas não sei. O que sei, e é disso que quero falar agora, é que as grafias etimológicas, além de terem sido elas próprias muitas vezes introduzidas rompendo com a evolução natural da escrita, nem sempre são realmente etimológicas. Dou-vos dois exemplos, dos muitos que podia dar, dessas grafias etimoilógicas, como eu lhes chamo, porque de lógicas não têm muito.

Boite vem do latim buxida, que deu buxita, que deu bustia, bostia, boiste e boîte. Então, ao contrário do que muitas vezes se diz, o acento circunflexo de boîte não assinala(va) o desaparecimento de um s etimológico, mas apenas o desaparecimento de um s que houve numa determinada fase da evolução da palavra. De facto, ortografias conservadoras como a do francês não são etimológicas em sentido estrito (e existirá tal coisa?), mas muitas vezes refletem antes maneiras antigas de pronunciar as palavras — de várias épocas misturadas… E convém esclarecer, já agora, que a escrita parou numa época, há muitos séculos, em que se dizia /boite/como se escreve, mas, como sabem, a palavra continuou a evoluir: passou a /boete/, depois a /buete/ e depois a /buate/, como se pronuncia agora.

Já em île, o acento circunflexo marca(va) mesmo o desaparecimento do s que tinha havido no latim i(n)sula. Agora, porque acharão os defensores das marcas etimológicas que se deve assinalar o desaparecimento do s latino e não o desaparecimento do u latino, por exemplo? É estranho. Aliás, não é só impossível definir o que se há de conservar do étimo, como é impossível definir o próprio étimo: as palavras latinas também têm uma história, não foram criadas do nada. Mesmo que, para simplificar, tomemos como étimo as primeiras formas escritas, a coisa é complicada: o étimo de boite passa a ser grego (πυξίς) e põe-se mais uma questão às preferências etimológicas: que escrita etimológica se deve ou pode usar para o que vem de outros alfabetos ou de outros sistemas de escrita?

Mas enfim, deixemos isso, tenho a certeza de que, chegados aqui, os meus leitores estão já mais que convencidos de que isso da grafia etimológica é uma grande confusão… Em île, dizia eu, o acento circunflexo assinala que houve ali um s que desapareceu da escrita e da pronúncia. Já no inglês isle, que vem do francês, o s nunca desapareceu… da escrita. Agora, o mais curioso é que island, que se pode relacionar semanticamente com isle, tem um s etimologicamente injustificado. A forma que deu island, igland, não tem s nenhum, mas alguém achou por bem ir buscá-lo a isle e acrescentá-lo à palavra, só para enfeitar... É de notar, já agora, que o isle inglês foi ile antes de ser isle, porque foi assim que foi importado do francês, numa altura em que as grafias il(l)e e isle coexistiam. Quando os franceses resolveram fixar, no séc XVI, a grafia com aquele bonito s, os ingleses acharam por bem imitá-los. Depois, os franceses substituíram o s por um acento circunflexo no i, mas os ingleses preferiram manter o s. Uma bonita história, não é?

31/07/15

Reforma e acordo: a parte não ortográfica

Como já aqui disse algumas vezes, se não sou detrator do AO90, também não sou propriamente seu defensor – embora na prática o tenha sido muitas vezes, como outras pessoas, por reação a muitos ataques sem fundamento que são feitos à nova ortografia. Adotei-o há já algum tempo, por ser a grafia oficial. Já antes escrevia com a grafia oficial, de que também não era detrator nem defensor, pelo que, a esse respeito, não se alterou nada.

A minha experiência é que, ao contrário do que muitos afirmam (sobretudo quem não mudou), não é mesmo nada difícil mudar para as novas regras. Aliás, escrevo todos os dias com a nova grafia e com a grafia anterior ao acordo, porque escrevo muitos textos para Moçambique; e mesmo isso, saltar de uma grafia para a outra, não cria complicações nenhumas. Pode haver um engano de vez em quando, mas isso há sempre, use-se que grafia se usar.

Como também já aqui disse, não vejo que o AO90 tenha introduzido na escrita do português alguma incoerência que não existisse já[1] e acho que, nalguns aspetos, contribuiu para se avançar no espírito inicial – e fundamental! – da reforma ortográfica de 1911: abandonar a lógica essencialmente etimológica para passar a uma lógica essencialmente fonológica[2].

Uma parte das críticas ao AO90 diz respeito a aspetos não ortográficos. Já vi essas críticas isoladas[3] e são de facto questões completamente distintas das levantadas pela reforma ortográfica. É também útil, por uma questão de organização da discussão, distinguir reforma ortográfica de acordo de unificação da ortografia nos países de língua oficial portuguesa. Uma pessoa pode, em última análise, não ter nada contra as alterações introduzidas na ortografia, mas discordar da necessidade da reforma ou de acordo (ou, numa versão fraca deste desacordo, da sua oportunidade), achar que o processo foi pouco democrático, que a mudança é demasiado onerosa, a todos os níveis, que o acordo acaba por não alcançar os objetivos que se propunha alcançar, que um dos seus resultados é a proliferação de grafias oficiais (três em vez das duas que havia) e ter ainda outras objeções ao AO90 que eu não conheça ou de que me esteja agora a esquecer. Admito de bom grado a pertinência de algumas destas críticas e, embora nem sempre as possa avaliar devidamente, por falta de informação, passo em revista as objeções acima listadas.

Comecemos pela questão da necessidade e da oportunidade. Na realidade, uma reforma ortográfica nunca é necessária, se aceitarmos uma escrita tão opaca que se escreva Constantinopla e se pronuncie [ištãbul], como diz uma amiga minha. O inglês ou o francês, por exemplo, que têm uma grafia meio milénio atrasada em relação à língua, nunca tiveram problemas de maior por causa disso[4]. Por muito que isso não agrade a quem, como eu, prefira encontrar nas regras em geral, ortográficas ou não, um sistema o mais lógico possível, em vez da prevalência de uma tradição, a inércia ortográfica pode de facto defender-se[5]. Nem sequer é necessário, em última análise, definir normas ortográficas. Vivemos muito tempo sem isso, não foi[6]?

Que o acordo não é necessário, também o posso admitir: cada país podia continuar a ter a sua ortografia. Bom, é um pouco contra o espírito dos tempos, já que as outras línguas mais internacionais têm padrões comuns definidos (embora, no caso do inglês, com predominância regionalmente determinada das formas em que se admite variação) e é um pouco contra o meu espírito normalizador, mas é uma posição possível. Quando digo que tenho espírito normalizador, quero dizer que sempre me pareceu muito útil a padronização transnacional, quer se trate de passos de rosca, fichas e tomadas, sistemas de DVD ou medidas de comprimento e capacidade, e não vejo que mal possa advir da uniformização das regras ortográficas – mesmo que produzam algumas formas diferentes, como não pode deixar de ser, dada a grande variação dialetal do português. É de simplificação que se trata. Mas necessário, em sentido estrito, não é.

Juntando à constatação da falta de necessidade o postulado de que só se deve legislar quando necessário, tem-se um argumento sólido contra todas as reformas e toda a uniformização ortográfica – mas, insisto, terá de se aceitar que a grafia possa distanciar-se indefinidamente da língua. Senão, põe-se a questão da oportunidade. A questão complexa é definir qual o momento oportuno para um ajuste. Os defensores da grafia anterior ao AO aceitam que 1911 foi um momento oportuno. Porquê 1911 e não 1990? E quando será o próximo momento oportuno?

Se há argumento a que sou sempre sensível é o da (falta de) democracia. Mas não é, neste caso, um argumento muito óbvio.

Por um lado, é sempre complicado sobrepor o critério da democraticidade a outros critérios, em questões deste tipo. Já aqui discuti um pouco a questão há 4 anos, usando o exemplo da introdução da “vírgula lógica” no dinamarquês (semelhante à que se usa em português, inglês, francês, etc.), substituindo a tradicional “vírgula gramatical” (em que todas as orações são divididas por vírgula, como na ortografia alemã, por exemplo): é certo que o Sprognævn, a entidade que regula as coisas da língua na Dinamarca, deu um exemplo de democraticidade ao voltar atrás na sua proposta de novas regras de uso da vírgula, porque a maioria das pessoas preferia (claro) a pontuação que tinha aprendido e a que estava habituada; mas esse recuo faz com que a Dinamarca continue com um sistema de pontuação muito minoritário no contexto europeu e contribui para que os dinamarqueses, um dos povos mais competentes em inglês como segunda língua, continuem a dar erros na pontuação em inglês. É claro para mim que o Sprognævn tinha razão na sua proposta, como é claro que, em coisas de escrita, se a decisão for deixada aos utentes, estes preferirão sempre o que conhecem à introdução de sistema novos, por muito que obviamente melhores.

Por outro lado, quando a crítica à democraticidade do processo de imposição de uma escrita vem de defensores da ortografia anterior, é curioso que se recuse a atual grafia por imposta e se aceite a anterior, que não foi menos imposta. Aliás, ao que sei (mas é certo que não sou um especialista da matéria, pode haver casos que ignoro), tirando casos raros como o atrás referido da nova vírgula dinamarquesa, o estabelecimento de normas ortográficas não parece ser especialmente democrático em lado nenhum[7].

Mais uma vez, pode separar-se, se se quiser, a questão da democraticidade da reforma da questão da democraticidade do processo de acordo. Devo confessar que não acompanhei o processo de acordo e que não tenho, sequer, uma opinião clara sobre como deveria ser conduzido um processo deste tipo, mas, ao que sei, foi conduzido por (alguns dos) órgãos que se espera que conduzam um processo deste tipo: a Academia Brasileira de Letras, a Academia das Ciências de Lisboa[8], a CPLP, os Ministérios da Educação e os Governos dos países em questão. Podiam ter sido outros órgãos, podia seguramente ter-se alargado o processo de produção e debate do acordo, podiam ter-se feito – podem sempre fazer-se – as coisas de outra maneira, mas duvido que pudessem ter sido feitas de maneira a que toda a gente aceitasse a alteração da grafia sem uma contestação semelhante àquela a que se assiste agora...

Quanto ao argumento de que a reforma é cara, vi-o algumas vezes usado relativamente ao AO90 em geral e algumas vezes relativamente aos casos particulares de Angola e Moçambique. A questão do preço é outra sobre a qual não tenho grandes dados, devo dizer. Tenho a ideia de qualquer reforma tem um custo, mas não faço ideia, nem aproximada, do preço que esta possa ter[9]. Compreendo bem que se possa argumentar que é um desperdício inutilizar manuais escolares com ortografia antiga e produzir novos com grafia nova, mas sinto-me incapaz de me pronunciar informadamente sobre a questão, porque não sei qual é a realidade no terreno em Angola e Moçambique, que níveis de reutilização de manuais há, e nem sequer se foi acordada alguma coisa sobre isto [10]. Agora, se o argumento é possivelmente válido para esses países, onde a ortografia ainda não foi alterada, em Portugal é válido agora apenas no sentido contrário: como já não há manuais com a ortografia antiga, voltar a ela, como alguns pretendem, é que implicaria custos adicionais. É de notar também que a questão só se põe em relação a manuais usados em níveis em que alunos que não tenham solidificada a competência de leitura, porque pode de facto ser confuso nessa altura contactar simultaneamente com duas ortografias. Os outros podiam e podem ler na ortografia anterior sem problemas, sobretudo porque há muito poucas diferenças (muito mais difícil é ler na ortografia anterior a 1911, mas, mesmo isso, não é muito difícil para quem leia bem). Quanto aos restantes livros (dicionários incluídos!), a questão não se põe: nenhum livro perde atualidade, e muito menos utilidade, só porque muda a ortografia.

Sobre o problema do aumento do número de grafias oficiais, acho não se deve confundir com o acordo os problemas criados pelo seu incumprimento. Se coexistem, neste momento, várias normas ortográficas, não é por ter sido assinado um acordo, é por ele ainda não ter sido posto em prática, é outra coisa.

Agora, se não se pode culpar a AO90 da sua não-aplicação, pode-se acusá-lo de ser de difícil execução. Mas isso já se sabia à partida. Eu, pelo menos, nunca tive ilusões quanto a isso. Aliás, a impressão que tenho é que, ao introduzir uma reforma ortográfica, ter em conta a dificuldade de execução leva forçosamente à inércia, sobretudo porque dar erros não é crime – nem deve ser – e, portanto, a fixação de uma norma de escrita nem chega a ser legislação em sentido estrito... Acho que quem tivesse refletido um pouco sobre as questões da ortografia e tivesse informação sobre a aplicação de reformas ortográficas esperava, com toda a certeza, muita resistência, alguma confusão, e um longo período até a reforma e o acordo estarem estabilizados. É sempre assim.


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[1] Ao que vejo, o mais polémico do AO90 é terem deixado de se escrever letras etimológicas não pronunciadas. Muito do resto se ignora, em qualquer sentido da palavra ignorar, agora os cc e os pp que desaparecem é que nunca. Um argumento frequente – e compreensível – era que deixa de ser marcado na escrita o timbre “aberto” da vocal átona anterior, mas essa falta de marca de “abertura” acontecia já na grafia anterior. Basta pensar em vocábulos tão comuns como aquecer ou arrefecer, mas há dezenas e dezenas de outros exemplos. Por vezes, o desaparecimento da letra veio criar coerência, como no caso de óptimo, cujo p era anómalo no sistema.
[2] Não fonética, mas fonológica. Tenho-me dado conta de que isto é uma questão demasiado técnica para a maior parte das pessoas e também não é agora que vou insistir neste ponto. Duma maneira simples, o que quero dizer com isto é que se mantém o mesmo símbolo para unidades que mudam de pronúncia conforme sejam acentuadas ou não e consoante os sons que têm antes ou depois, e que podem ou não pronunciar-se. Exemplos disto são: os dois dd de dado, no português europeu; os dois ll de leal, em toda a lusofonia; os oo de comer e de come; os ss de mesmo e de mestre, e os ss finais de olhos nas sequências olhos azuis, olhos verdes e olhos pretos; o e de mexe, que, mesmo não se pronunciando, existe no sistema (como se constata por o x se pronunciar sempre /š/ independentemente do que venha a seguir, ao contrário do que acontece com o s final de s em mês de janeiro) ou o e de vale, tanto verbo como nome, que também existe no sistema mesmo não se pronunciando (como o provam o plural vales ou a forma com pronome vale-o), etc., etc., etc.
[3] De facto, a ideia que tenho é que, como na grande maioria dos casos tem uma base essencialmente afetiva, a contestação ao acordo lança mão de todas as críticas, sem se dar conta, muitas vezes, de que umas são incompatíveis com as outras, quando não contraditórias. Um bom exemplo é acusar-se o acordo de ser “foneticista” e, ao mesmo tempo, de fazer desaparecer marcas do timbre das vogais…
[4] Há quem defenda que estas grafias causam de facto algumas dificuldades de aprendizagem e também há quem diga que o número de erros na escrita é muito maior numa língua de grafia muito opaca, como o francês, que numa língua de grafia muito transparente, como o finlandês. Também é verdade que já vi a tese contrária, de que a opacidade da escrita é benéfica para a aprendizagem, mas não conheço, infelizmente (não digo que não haja), trabalho experimental que o confirme.
[5] Uma das coisas que me desagrada no AO é precisamente continuar-se, nalguns pontos, a invocar a tradição, em vez de propor uma verdadeira regra – ou seja, uma regra computável. A meu ver, quer se trate de ortografia como de moral, a tradição é má justificação para uma regra. De facto, acho que é antes uma injustificação.
[6] Até 1911, nunca houve ortografia oficial.
[7] A minha amiga Edite Gonçalves tem um texto no seu blogue em que dá conta das preocupações de muita gente relativamente à ideia de sujeição a referendo de questões como esta, uma ideia defendida por certos opositores do AO90. É claro que a democraticidade de um processo deste tipo não passa forçosamente por um referendo, podendo antes pensar-se em constituição democrática dos órgão responsáveis. Bom, em órgãos responsáveis de política linguística, a tradição parece antes ser a nomeação, nos poucos casos que conheço, mas não digo que não pudesse haver formas mais democráticas de constituição desses órgãos, contanto que se assegurasse o nível científico indispensável – uma coisa que não acontece forçosamente com os sistemas de convite atuais, porque não é necessário ter conhecimentos técnicos sobre língua para se fazer parte destes órgãos, mas antes ser-se antes o que se poderia designar como «utilizador de alta qualidade».
[8] Ao contrário de muitos países, não temos um órgão exclusivo para coisas de língua, mas a as secções de Literatura e Estudos Literários e de Filologia e Linguística da Academia das Ciências de Lisboa são, creio eu, o que me mais se aproxima de uma «Academia Portuguesa». Notem que me escuso a discutir aqui a minha opinião sobre a competência e a utilidade desta (e doutras) instituições oficiais de língua, que é assunto à parte.
[9] Aliás, a própria ortografia tem um preço, como tudo na vida. Mas é um preço muito difícil, se não mesmo impossível, de contabilizar. Qual será a poupança de eliminar letras desnecessárias em inglês e francês? IE nas outras línguas todas?… De facto, não sei, nunca fiz a experiência, mas seria interessante comparar o volume de texto das diversas grafias ao volume de texto das mesmas línguas com uma escrita racionalizada, por exemplo com o Alfabeto Fonético Internacional. Agora, sabiam que o português escrito (experiência própria, dezenas de vezes repetida sempre com os mesmos resultados) gasta cerca de 10% mais papel e tinta que o inglês? Parece-me extremamente improvável que a produção de som seja de facto maior numa língua que noutra, mas nunca vi nada sobre o assunto. Esta informação agradará, sem dúvida, aos defensores de ortografias opacas.
[10] A questão ortográfica tem um peso diferente em países onde a língua oficial é uma língua segunda ou estrangeira para a maior parte da população. Se a ortografia não afeta a pronúncia é porque não é pela escrita que aprendemos palavras e, mesmo quando as aprendemos pela escrita, ouvimo-las também uma quantidade de vezes suficiente para interiorizarmos assim a forma fonética comum. Só quando isto não acontece é que há influência da grafia na pronúncia e é isso o que acontece, precisamente, na aprendizagem de línguas estrangeiras, por exemplo em situação escolar, em que apenas o input da pronúncia do professor não é suficiente para se sobrepor ao impacto da grafia. Há sempre dois condicionadores da pronúncia, o sistema fonético interiorizado da língua materna e a grafia das palavras escritas. A questão da influência da grafia na pronúncia faz-se ainda mais sentir quando não só os alunos mas também os professores têm outras línguas maternas – e pouca formação pedagógica. Há, por exemplo, fenómenos que se observam na pronúncia dos moçambicanos que não têm o português como língua materna que dificilmente se explicam a não ser pela insistência, no ensino da língua, numa correspondência biunívoca som-letra. (Não conheço Angola, mas não me surpreenderia que se verifique lá o mesmo fenómeno.) É claro que, em certas zonas, a pronúncia estrangeira acaba por influenciar a pronúncia dos falantes nativos, que crescem com essa pronúncia como input principal. Pode argumentar-se que, nesta situação, o que ajudaria não é tanto uma escrita fonológica, mas antes uma escrita mais fonética, que, de qualquer forma, a reforma ortográfica, no geral, não produz. É certo, e é um problema para que não vejo solução – a não ser o tempo, que dizem que tudo soluciona. Também haverá quem diga que mais importante que a fixação da grafia é a definição de uma norma morfossintática (a norma europeia, que continua, por inércia, a vigorar, já está um pouco desfasada da norma usada na comunicação social, por exemplo), mas também tenho muitas dúvidas sobre o interesse – e a possibilidade – de se definir, pelo menos agora, uma coisa dessas…

12/05/15

Uma página de paródia… Perdão, uma página da Paródia e algumas questões etimo(i)lógicas


A Paródia, Ano 1, N.º 1, 17 Jan. 1900, p. 5, na Hemeroteca Digital
Ao contrário do que se possa pensar, a reforma ortográfica de 1911 não foi uma reforma cem por cento contra a perspetiva etimológica. Acabou com uma lógica assente na tradição e instaurou uma grafia de base fonológica e se, em muitos casos, isto implicou recusar grafias etimológicas, pseudoetimológicas ou de outra forma… “tradicionais”, também houve casos em que a reforma veio acabar com grafias sem justificação etimológica que existiam antes dela, recuperando a forma etimológica.

Para não sair da página da Paródia aqui ao lado [clicar para ver em maior], socego e aceio voltaram a ter os ss que lhes vêm de *sessicare e *assedare, que se pensa que deram, respetivamente, sossegar e assear. É claro, pode sempre duvidar-se, porque são formas não atestadas (quando virem um * antes de um étimo, significa que se pensa ser esse o étimo, mas nunca se encontrou a palavra escrita em texto nenhum). É certo, porém, que, recuando mais no tempo, é com ss e não com c que sossego se escreve. Para continuar na página da Paródia, e aproveitando a citação dos Lusíadas que lá vem, podemos comparar com a grafia da primeira edição da obra de Camões. Se, em edições oitocentistas dos Lusíadas, estava a “linda Ignez” “posta em socego”, na primeira edição da obra, a linda Ines – sem g, sem z, sem acento – estava “posta em sosego”. Assim mesmo, com um s apenas, não é gralha. Ou antes, é provável que seja, mas não gralha minha. E é uma gralha que se repete três vezes*, mas, se calhar, não havia revisores naquele tempo. Seja como for, predominam no texto as formas com ss, por exemplo em «Iulga qualquer juyzo sossegado» e em mais 8 ocorrências do radical sosseg-. Assinalo, de passagem, que este y de juyzo não é etimológico e uso essa anomalia como ponte para o regresso a 1911 e ao tema do meu texto:

Houve ii etimológicos que foram também repostos na reforma ortográfica republicana, como é o caso de lyrio ou lagryma, que voltaram a escrever-se com o i de liliu- e lacrima- (que é também, já agora,  como se escreviam no tempo de Camões**). Ainda a propósito de yy, também cysne abandonou uma pretensa etimologia latina para passar a escrever-se como no francês antigo de que parece provir em português e castelhano. (É também cisne, note-se que se escreve na edição original dos Lusíadas: «A longo da agoa o niueo Cisne canta».) Mas, claro, quem goste de considerar as etimologias últimas e não as imediatas, achará que é de cycnus ou cygnus que a palavra vem…

Para essas pessoas, porém, podemos dizer (e agora, que me caiam em cima o Carmo e a Trindade, embora, juro, a intenção não seja provocar mas apenas tirar peso à conversa) que, no caso das palavras de origem grega, também o desaparecimento de th e ph é um restaurar da etimologia, pois não havia no étimo último duas letras que correspondessem a tais dígrafos. Transcrever ɸ por ph é um bocado sem razão, venha de que tradição vier, e perfeitamente desnecessário na latina; quanto a transcrever θ por th, se mais compreensível, por falta de símbolo latino adequado, não tinha, claro está, nenhuma vantagem em relação a uma transcrição por apenas t. (A julgar pela maneira como os portugueses pronunciam o som /θ/ em inglês ou castelhano, a transcrição mais natural de θ é, para nós, um s, eh eh eh…)

[Risos, uns francos e ruidosos, e outros bastante amarelos, sem som absolutamente nenhum; aplausos e apupos; desce o pano. E ouve-se outra voz:]

Para continuarmos nesta página de paródia… perdão, da Paródia, se a grafia tem mesmo influência na pronúncia, como insistem em afirmar alguns, temendo, pelos vistos, que se abatam cataclismos incontáveis sobre a maneira de dizermos certas palavras por causa da nova maneira de as escrevermos…, foi só por muita sorte que época, depois de ter-se escrito epocha tanto tempo, não passou a pronunciar-se [e’poʃɒ]. Ufa, e ainda bem!

[Mais ruídos diversos, semelhantes aos anteriores, de trás do pano.]

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* «Mas o velho a quem tinhão ja obrigado / Os trabalhosos annos, ao sosego», «Torna a dormir quieto & sosegado» e «Affonso que não sabe sosegar»
** Entre muitas outras ocorrências, em «Mas moura em fim nas mãos das brutas gentes, / Que pois eu fuy: & nisto de mimosa / O rosto banha, em lagrimas ardentes». Ups, outro y não etimológico em fuy, muito imaginativas eram estas grafias.

06/03/14

Mais um texto sobre a reforma ortográfica

Tenho dito que não sou especialmente a favor no Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), nem especialmente contra, mas, na prática, tenho-me revelado a favor, sobretudo porque me tenho sentido na obrigação de criticar, por incoerentes ou infundados, alguns argumentos dos seus detratores[1]. Eis um resumo das críticas que tenho encontrado e do que penso delas.

A alteração mais criticada no AO90 é o desaparecimento das letras etimológicas não pronunciadas, a maior parte das vezes referidas como “consoantes mudas”. Costumam misturar-se, nesta crítica, que é na maior parte das vezes apenas afetiva, argumentos que se contradizem uns ao outros. Assim, invoca-se muitas vezes o argumento de que é precisa, na grafia, uma marca da “abertura” das vogais átonas. Diz-se, por exemplo, que sem o p de concepção, conceção se lê forçosamente como concessão, isto é, com o e “fechado” ou “mudo”. Nunca vi esta preocupação relativamente à norma anterior, em que havia já várias palavras, algumas do vocabulário fundamental, em que não se marcava graficamente a abertura da vogal átona. Custa-me a perceber por que é que, se isso nunca foi problema antes, passou agora a ser problema. Nunca ninguém achou que se devesse escrever de outra maneira esquecer nem aquecer, porque é que projetar ou afetar se tornaram de repente problemáticos? É estranho. Um dos cavalos de batalha dos antiacordistas é o exemplo de espetadores em vez de espectadores, que muitos acham ridículo, senão revoltante, mas nunca vi ninguém indignar-se, pelas mesmas razões, perante pregadores. É estranho.

Uma objeção válida a esta alteração é que aumenta o número de vogais átonas abertas não assinaladas na escrita: antes do AO90, algumas vogais átonas abertas tinham uma marca dessa abertura, agora nenhuma a tem. É certo. E pode ser uma solução manterem-se as “consoantes mudas” que “abrem” vogais, mas isso não resolve o caso das vogais átonas “abertas” que já não tinham consoante a marcar a abertura. Conservar as “consoantes mudas” preserva, assim, uma incoerência que a nova grafia elimina. Uma solução óbvia para eliminar esta incoerência é recuperar e alargar o uso do acento grave como marca de abertura das vogais átonas abertas, mas uma proposta deste tipo seria, seguramente, muito mal recebida por toda a gente[2]

Há também quem vá ao ponto de defender que, mesmo nas sílabas tónicas, as “consoantes mudas” não devem desaparecer porque são uma marca tímbrica – por exemplo, que, sem c, projeto ou inseto se leem “naturalmente” projêto ou insêto, porque essa é a pronúncia “predominante” do -eto em final de palavra. Não só não é verdade (já falei disso aqui), como nunca vi preocupações, nem dessas pessoas nem de nenhumas outras, com as pronúncias “predominantes” de, sei lá, -edo ou -elo, por exemplo. É estranho. No caso de -edo final (que é diferente dos de -eto e de -elo finais), não há dúvida que, na grande maioria das palavras onde ocorre, esta sequência final se pronuncia -êdo. Dever-se-ia então marcar a abertura em credo, vedo, arredo, etc? Com quê? E por aí fora…

Evidentemente, prende-se com esta questão uma outra: a da influência da escrita sobre a pronúncia. Alguns detratores do AO90 defendem que, sem as marcas de abertura das vogais, as palavras passarão a ser mal pronunciadas, mas nunca explicam por que não aconteceu isso às palavras que sempre tiveram e continuam a ter átonas abertas sem essas marcas. Se alguém usasse o argumento sensato (nunca ninguém o fez em discussões comigo) de que, por muito que isso não se aplicasse a palavras que se ouvem frequentemente, podia aplicar-se a palavras que quase nunca se ouvem e que, por isso, se aprendem sobretudo através da escrita, eu poderia aceitar – mas isso reduz o problema a meia dúzia de palavras. Ainda assim, é muitíssimo duvidoso que essa influência se possa dar: por exemplo, nunca ouvi palavras menos comuns como colação ou ilação pronunciadas com aa fechados. A explicação é que as poucas pessoas que usam as palavras menos vulgares ouvem-nas pronunciadas por outras poucas pessoas que as usam; e só mesmo as palavras estrangeiras é que podem, às vezes, ser conhecidas por escrito sem nunca serem ouvidas. Quero, a propósito, acrescentar que não conheço trabalhos sobre este fenómeno e ficaria grato a quem me indicasse algum. O único exemplo que vi apresentarem sobre influência da escrita na pronúncia são os verbos em -scer, como nascer ou crescer, mas, sem mais provas ou bons argumentos, acho extremamente duvidosa essa tese. A sequência -sce- tem um história seguramente complicada, que pode bem ter levado a um apagamento do s em várias zonas do país (esse apagamento persiste nalgumas zonas, aliás), mas é duvidoso que a difusão de um eventual reavivar do s, se se pode dizer assim, se tenha feito por influência da escrita em sentido estrito.

A grafia tem efetivamente influência na pronúncia, mas não das línguas maternas: das línguas segundas e das línguas estrangeiras. Nesse sentido, é uma bênção desaparecerem consoantes não pronunciadas para quem tem de ensinar ou aprender o português como língua segunda ou estrangeira. Mas é esse o único problema que a nova escrita resolve. Para contribuir para resolver outros problemas de pronúncia, a escrita deveria ter um caráter eminentemente fonético e não tem (nem acho que deva ter), de maneira que, como não têm interiorizadas as regras fonético-fonológicas do português, os falantes do português como língua segunda ou estrangeira continuarão a pronunciar mal muitas outras coisas. Os oo que deviam ser /u/, por exemplo, etc., etc. ...

Também há quem critique o caráter demasiadamente “fonético” do AO90 (às vezes, as mesmas pessoas que defendem a necessidade de uma marca de abertura das vogais átonas, por contraditório que isso seja), dizendo que não se pode deitar fora a História da língua ou até que algumas palavras do português passam, assim, a ter uma escrita diferente das palavras com o mesmo étimo noutras línguas. Mas não explicam que critérios se devem seguir na decisão de que letras etimológicas manter. Curiosamente, nunca vi ninguém defender, nem antes do AO nem depois, producto, fructo, escripto ou dictado (já nem falo de th, ph e y, e duplos pp, mm, nn, tt, ff, etc.). Nem sequer do nome contracto… Enfim. Além disso, as seleções de palavras internacionais e das línguas em que elas são comparadas nunca é imparcial. E o italiano não entra nunca, porque estas consoantes não existem em italiano (e noutras línguas românicas menos conhecidas). E elas não existem em italiano pela mesma razão que o AO90 as elimina: deixaram de se pronunciar.

Às vezes, critica-se também o desaparecimento das marcas de timbre do antigo pára, terceira pessoa do singular do presente do indicativo de parar, que se tornou homógrafa da preposição para. É certo que o desaparecimento do acento faz confusão a quem a ele está habituado (para mim, foi muito difícil deixar de o usar), mas há que reconhecer que faz pouco sentido ter uma marca tímbrica deste tipo quando desapareceram todas as outras. O hábito, pois, o malvado hábito… Mas uma pessoa habituada a não usar o acento nunca sentirá falta dele. Parecem-nos estranhas sequências como “para para pensar”, mas, convenhamos, não é uma sequência comum por aí além, além de que, com alguma boa vontade, encontramos sequências do mesmo tipo com outras expressões que perderam as marcas tímbricas: eu, por exemplo, tenho um filho que se pela pela bola[3]

E guardei para o fim o que mais estranho: a identificação de língua com ortografia. Dizem que não se pode decretar mudanças na língua ou que o acordo prejudica a língua, que defender a antiga ortografia é defender a língua, eu sei lá. Mas a língua e a ortografia não são a mesma coisa, longe disso. A língua é um sistema complexo de relações entre sinais e noções de vários tipos que temos na cabeça, que não interiorizamos pela escrita e que ninguém comanda. A escrita é uma convenção, que se pode alterar como e quando quisermos, sem que isso afete a língua. Durante muito tempo, houve muitas línguas que não se escreviam, para as quais não estava fixada uma transcrição, e não eram, por isso, menos línguas que as outras. Há línguas que se podem escrever com mais que um alfabeto e, às vezes, com alfabetos e sistemas de escritas não alfabéticos. Discutir ortografia deveria ser discutir a lógica de um sistema, reduzido e controlado, de transcrição de outro sistema muito mais complexo e muitíssimo mais vasto, a língua. É claro, pode chamar-se à discussão a tradição e o mais que se achar que se deve, mas propor uma reforma ortográfica não é, mas nem de longe nem de perto, propor seja lá que alteração for na língua. Nem que se passasse a escrever com alfabeto khmer a língua era afetada. Custa-me perceber por que custa perceber isto…

No resto, ninguém está mesmo interessado. Não que não haja mais coisas a discutir, mas ninguém está interessado em discutir hífenes e tremas, prefixação e sufixação, aglutinação e justaposição (se calhar, ainda faço eu um textozito sobre isso, um dia destes.), até porque muitas pessoas não conhecem nem as antigas nem as novas regras e escrevem como lhes apetece as palavras compostas…

A conclusão do que tenho visto é a seguinte: há poucas pessoas interessadas em discutir o AO90. Parece-me impossível, aliás, que alguém que queira mesmo refletir sobre a ortografia do português e discuti-la possa estar completamente de acordo com a norma anterior ou com a nova[4]. A maior parte dos críticos explica, de forma normalmente atabalhoada, quando não contraditória, porque não gosta (é o termo) do desaparecimento das “consoantes mudas” e pronto. Quando se argumenta a favor desse desaparecimento, os antiacordistas acabam por responder muitas vezes (muitas vezes…), que sim, pode ser incoerente, mas querem continuar a escrever como aprenderam, não estão para alterar um hábito velho. Convenhamos que, por compreensível que seja a atitude, é uma argumentação um pouco fraca, para não dizer que não chega a ser argumentação. Alguns vão ao ponto de chamar à conversa Camões ou Pessoa, por exemplo, para defender uma ortografia que o primeiro nunca conheceu, obviamente, e que o último recusava...

O processo foi pouco transparente e não incluiu um número suficiente de instituições? Não há necessidade da reforma? A maior unificação da ortografia não chega para unificar as diversas variantes do português? Tudo isto se pode e deve discutir, mas nada disto tem relação com as questões ortográficas concretas que se discutem. É claro, pode sempre recusar-se qualquer reforma e até pode optar-se por uma grafia ilógica e complicada, como a do francês ou do inglês, sem que daí venha mal maior ao mundo. Mas não foi isso que se fez em 1911 e a questão para mim é que quem aceita a grande reforma de 1911, que foi incompleta, deveria querer levar o seu espírito até ao fim – independentemente de como isso unifica ou não a escrita nos países de língua portuguesa. Alguns pontos do AO90 são um avanço nesse sentido.

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[1] E já não falo daqueles que se limitam a espalhar informação falsa, dizendo que o c de facto desapareceu ou que desapareceram os acentos nas palavras esdrúxulas. A esses, que não conhecem o AO90, só se pode dizer: leia o acordo antes de o criticar, sim? Não acredito que seja por má fé que espalham essa falsa informação, mas não é de modo algum aceitável que se critique o que não se conhece, muito menos o que não está no que se desconhece…
[2] A grafia portuguesa – e a grafia do português em geral – é uma grafia fonológica e não fonética, isto é, uma grafia que dá conta do sistema e não de como as palavras são realmente pronunciadas. Para dar um exemplo simples e de forma simplificada, comer escreve-se com o e não com u, porque é um o que existe no sistema, como se pode verificar em como ou comes. Em Portugal, existe uma regra fonética que funciona na cabeça de todos os falantes que diz que a língua se eleva e recua de cada vez que um /o/ não é acentuado, passando esse /o/ a pronunciar-se [u]. No Brasil, esta regra só se aplica ao /o/ que está depois da sílaba tónica, pelo que o o de comer tem uma pronúncia diferente: [o]. Mas, como o elemento do sistema é o mesmo, pode escrever-se igual no Brasil e em Portugal. O espírito da reforma ortográfica de 1911 foi passar de uma lógica essencialmente etimológica a uma lógica essencialmente fonológica, mas ninguém advoga uma ortografia fonética, que separaria completamente o português do Brasil do português europeu (a norma da pronúncia africana é instável, mas a norma usada na comunicação social é ainda semelhante à norma europeia). Agora, é discutível até que ponto a oposição entre as vogais átonas abertas e as suas correspondentes fechadas tem caráter fonológico, mas é uma discussão complicada, que deixo aqui de lado.
[3] Pois, eu sei: não quis exagerar, e pela é mesmo uma maneira rara de dizer bola, mas pensei o mesmo que vocês pensaram agora: «Mais giro ainda era “tenho um filho que se pela pela pela”!».
[4] Também não é, de modo algum, necessário estar completamente de acordo nem com a antiga grafia nem com a reforma para escrever português segundo a norma. Sempre houve e continua a haver coisas que não acho que se deviam escrever como as escrevo, mas escrevo-as assim porque é essa a norma. Evidentemente, depende do contexto. Há tipos de texto em que cada um é livre de escrever exatamente como lhe apetecer. Em última análise, cada um é sempre livre de escrever como lhe apetecer, mas tem de se sujeitar a que, em certos textos, lhe sejam corrigidas certas formas para as harmonizar com a norma vigente.