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7 de agosto de 2018

Vítor com cê

Uma vez, demorei quatro horas para fazer os 45 quilómetros que separam Nicoadala de Quelimane, numa camioneta de caixa aberta que tinha apanhado em Mocuba. (Digo «apanhado», porque a camioneta, como todos os automóveis na altura, servia de transporte público – ou, como se dizia, «fazia chapa».) A camioneta ia atafulhada de gente e a estrada era uma faixa de grandes crateras. Mesmo num veículo ligeiro e com tração às quatro rodas (um «fòbaifó», como se diz em Moçambique), não se conseguia andar muito mais depressa. Muitos buracos da estrada tinham bem meio metro de fundura e era como viajar em mar picado, aquele descer e subir crateras. Uma pessoa ficava maldisposta. Do Alto Molócuè, onde eu morava, eram cerca de 350 km até Quelimane. Nessa altura, quem não tivesse transporte próprio só podia fazer assim a viagem, de chapa – e chapas eram todos os carros que passassem e onde se conseguisse encafuar mais um passageiro mediante o pagamento de uns quantos meticais. Dessa vez, o motivo da minha viagem a Quelimane era um cê. A sério.

Tinham-me roubado o passaporte em Chocas-Mar, uma praia idílica na província de Nampula, mesmo em frente à Ilha de Moçambique. Para se fazer novo passaporte, era preciso o meu assento de nascimento, que pedi que me enviassem de Lisboa. Felizmente, não era necessário ir a Maputo; havia um cônsul honorário em Quelimane, cuja secretária se ocupava deste tipo de coisas. Foi dessa senhora que recebi uma mensagem no Alto Molócuè. Nessa altura, não havia telefone na vila, mas podia comunicar-se por rádio com a estação dos correios e foi o funcionário dos correios a minha casa dar-me o recado:
– A senhora diz que há problema com o seu pedido de passaporte e que tem de lá ir falar com ela.
E eu fui, logo na manhã seguinte. Quando falei com a senhora, fiquei a saber que o problema era o cê de Victor – ou a sua falta.

O meu bilhete de identidade dizia que eu me chamava Vítor, mas o assento de nascimento dizia Victor. Não podia ser.
– Sempre tive Vítor no BI e o passaporte que me roubaram também tinha Vítor. Sempre escrevi assim o meu nome. Nem sabia que o assento de nascimento tinha Victor – disse eu à senhora. – É capaz de ter sido quando houve aquela reforma em 1973 em que se acabaram com os acentos graves, sabe? Se calhar, decidiram passar todos os Victores a Vítores…
Eu sabia que era uma explicação pateta, porque uma coisa não tinha nada a ver com a outra, porque o meu primeiro BI era anterior a 1973 e porque continuava a haver muitos Victores, mas a senhora lá se convenceu de que me podia passar o passaporte, «mas como estava no assento de nascimento». Fiquei com uma discrepância entre o BI e o passaporte, mas não me preocupei muito com isso. E continuei a escrever Vítor em todo o lado, como sempre tinha feito.

Quando fiz o pedido de residência na Dinamarca, escrevi Vítor. A funcionária que recebeu o pedido deu logo pela falta do cê.
– Nem sabe escrever o seu nome! – disse-me ela num tom de desdém.
Fiquei sem vontade de lhe explicar fosse o que fosse sobre as subtilezas da grafia dos antropónimos. Na realidade, eu sabia muito bem escrever o meu nome e a grafia Victor está simplesmente errada: uma palavra sem acento gráfico terminada em erre é forçosamente aguda e ninguém se chama [vitor]. Mesmo com o tal cê etimológico, era Víctor que se devia escrever. Mas nunca tal vi – ou é Vítor ou Victor.

Prevendo mais chatices, quando me registei no Consulado em Copenhaga, pedi um documento (sem qualquer valor legal, mas enfim…) em que se explicasse que Vítor e Victor eram ambas variações corretas de um mesmo nome, o meu. E passaram-mo.

Quando renovei o bilhete de identidade, acederam em passar-mo com a grafia que tinha no BI. O meu nome – agora acrescido do apelido da minha mulher, que adotei – era de novo sem cê tanto no passaporte como no BI: Vítor Manuel Lucas Santos Lindegaard. Mas foi sol de pouca dura.
Quando fui, há três semanas, substituir o BI pelo Cartão de Cidadão, disseram-me que tinham de escrever o meu nome como estava no assento de nascimento, entretanto digitalizado. E voltou a haver discrepância, mas agora ao contrário da que tinha sido iniciada em Quelimane: é o passaporte que não tem cê e o cartão de cidadão que o tem. A ver quanto quilómetros vou ter de fazer de chapa-cem por causa disto…

11 de fevereiro de 2011

Nomes próprios estrangeiros: um equilíbrio a bem dizer impossível…


A questão da normalização de nomes próprios estrangeiros é complicada. Que eu saiba, essa normalização sempre existiu apenas, de forma eficaz (e seja lá em que língua for) para um número muito reduzido destes nomes. Sempre houve e há-de haver instabilidade na maneira de nomear gente, sítios e instituições várias que são pouco referidos ou só são referidos há pouco tempo, e cujo nome original obedece, ainda por cima, a uma fonética que nos é estranha. Mas eu compreendo, por outro lado, a vontade de arranjar uma norma, sobretudo se a finalidade dessa normalização for fazer que toda a gente se compreenda melhor. E a possibilidade de desentendimento varia muito. Na maior parte dos casos, não há grandes confusões com o nome do país aqui ao lado, escreva-se ele Zimbabwe, Zimbabué ou, como eu já aqui propus, Zimbábuè (seguindo a norma moçambicana para os topónimos moçambicanos com a mesma terminação). Mas, claro, entre Chennai e Madrasta a diferença é muita – e é também muita, por isso, a possibilidade de desentendimento…
Não há um organismo que regule estas coisas e, mesmo que houvesse, esse organismo não poderia estabelecer regras para a forma portuguesa de todos os nomes próprios do mundo, até porque há constantemente novos nomes próprios a serem usados na nossa língua. Na falta da comodidade da norma, o que deve prevalecer, digo eu, é o bom senso. Agora, das muitas pessoas que provavelmente concordarão com esta afirmação, nem todas chamarão, porém, bom senso ao que eu chamo bom senso, não é verdade? O que eu quero dizer com isto é que, dê-se ao assunto as voltas que se der, haverá sempre espaço para as preferências de cada um. O meu bom senso (ou uma parte dele, seja, porque só falo aqui de uma parte das questões) é o seguinte:
Acho que, em caso de dúvida, deve optar-se sempre pela forma que já se ouviu ou se ouve mais – se a conhecemos bem, é mais provável que os outros a conheçam. Eu, por exemplo, não hesito em escrever Pequim* e Bombaim em vez de Beijing e Mumbai, porque me parecem formas mais conhecidas.
Está muito bem usar as formas portuguesas consagradas por dicionários e obras clássicas, desde que não tenham caído em desuso e não acabem por dificultar a compreensão. No que respeita a topónimos, não vejo problema em chamar Genebra a Genève e Estugarda a Stuttgart, mas muita gente não compreenderá que a forma clássica Badalhouce, por exemplo, se refere ao que normalmente conhece como Badajoz, nem, pelo menos em determinados contextos, que Cantuária é a maneira portuguesa de dizer Canterbury... Agora, quanto a esta última forma (e, muito provavelmente, relativamente a outras formas, mas não me vem à cabeça agora mais nenhum exemplo), o problema é que parece haver tradições diferentes consoante aquilo de que se fala: ao falar de Chaucer, parece bem falar-se dos Contos de Cantuária, mas ao falar de Robert Wyatt, Soft Machine ou Henry Cow ninguém refere a “cena de Cantuária”…
A questão é mais complicada, acho eu, quando se fala de nomes de pessoas. Quando o nome se escreve originalmente com alfabeto latino, o mais prático é, em princípio, usar o nome da pessoa como ela própria o escreve, ou seja, como se escreve na sua língua e como aparece nos seus documentos. Essa opção, porém, não é sem problemas: obedecendo a esta lógica, deve escrever-se Napoléon em vez de Napoleão, para dar só um dos milhares de exemplos que poderia dar... [E deixo de lado a questão da actualização das grafias, para não complicar mais a coisa…]
Agora, quando não existe um aportuguesamento consagrado e os nomes não se escrevem originalmente com alfabeto latino e há, pois, que os transcrever directamente de outros sistemas de escrita, alfabéticos ou não, as coisa são mais complicadas. Quando existem formas estandardizadas de transcrição (como o pinyin para o chinês e o rōmaji para o japonês, por exemplo), parece mais lógico usar essas formas. Um problema, porém, é que algumas usam diacríticos inexistentes em português, difíceis de encontrar e que confundem o leitor. Se assim for, acho que se pode usar esses sistemas de transcrição oficial sem os diacríticos… Outro problema é que esses sistemas de transcrição podem reflectir lógicas fonéticas estranhas ao português e utilizá-los faz com que as pessoas pronunciem mal as palavras. Um exemplo: A cidade chinesa cujo nome em pinyin é Dézhōu. O uso de zh em português é enganador, porque essa é, na tradição inglesa, a maneira de transcrever o som [ž], para o qual não há letra em inglês, mas que em português se escreve simplesmente com j (ou g antes de e e i). Por isso, Dejou é a grafia que faz sentido seguindo a lógica ortográfica portuguesa – mas não é essa a forma pinyin; e, se usarmos a forma pinyin, as pessoas vão começar a dizer [dêzou] em vez de [dêjou], como deveriam...
Há línguas, porém, para as quais não existe sistema standard de romanização, costumando-se, por isso, fazer transcrições adaptadas à fonética da língua para que se transcreve. O problema é que, na maior parte dos casos, os nomes nos chegam através de transcrições feitas para a lógica de outras línguas. Há, então, que fazer uma escolha, e talvez não se possa pedir mais do que coerência relativamente a essa escolha. Quando se aportuguesa um nome, que se aportuguese por completo e siga-se o mesmo critério para todos os nomes. Vejo, por exemplo, num mesmo texto Al-Arabiyya e Al-Jazira (cadeias de televisão). Qual a lógica de transcrição do árabe? Ou se aportuguesa Al-Arabia como se aportuguesou Al-Jazira (talvez devesse antes ser aportuguesado em Al Djazira…), ou então arranje-se outro critério – mas coerente.
Quero, já agora, chamar a atenção para um facto simples: é relativamente fácil transliterar do cirílico e não há razão nenhuma, a não ser as influências das transliterações para outra línguas, para se ver nomes originalmente escritos com esse alfabeto transcritos de uma maneira tão pouco lógica e tão enganadora relativamente à pronúncia: por exemplo, aceito bem Chostakovitch, Chostakóvitch ou, em última análise, Chostacóvitch, mas não vejo razão nenhuma para Shostakovich nem Shostakovitch.
O objectivo, ao escolher a grafia dos nomes próprios, deve ser conseguir um equilíbrio entre a tradição, a lógica da grafia portuguesa, a inteligibilidade de cada uma formas e a coerência de todas as formas num textos ou no conjunto dos textos de uma instituição. Mas é difícil. Tenho agora um problema concreto, por exemplo, que não sei como resolver e sobre o qual talvez me possam aconselhar: o nome da ilha onde vou morar a partir de Julho próximo.
O nome dinamarquês da ilha é Fyn, que se pronuncia [fyn], isto é, com um som como o do u francês. Ao que vejo, tenho três alternativas: uso o nome dinamarquês Fyn, pronto, ponto, e que cada um pronuncie como lhe apetecer; adiro muito eruditamente à tradição e uso Fiónia, que é nome clássico da ilha em português, mas que ninguém conhece; ou (uma vez que, de todas as formas, a maior parte dos falantes de português que ouvirem de mim a palavra nunca terão ouvido a ilha referida de outra forma) introduzo uma nova designação inventada por mim, que eu ache foneticamente mais adequada, como Fiúne. Que acham? Conto com a vossa colaboração. Com o vosso bom senso, seja.
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* Sobre Pequim: por muito que seja uma forma foneticamente menos semelhante à pronúncia actual do nome da cidade em mandarim (que, a usar-se, talvez fosse mais lógico aportuguesar em Beijim), ela refere-se à pronúncia da época em que foi criada a forma em alfabeto latino; da mesma forma, digamos, que o n que o nome de Lisboa conserva em muitas línguas vem de antes da queda no n intervocálico em português…