31 de março de 2018

Um Buda sorridente

Diz-me uma página do site da Televisão da Índia que a estátua do «Buda sorridente brincando com crianças (normalmente cinco)» «simboliza boa fortuna vinda dos céus. Também dá sorte e energias positivas» e que, estando o Buda sentado, essa postura «é considerada a postura do amor e simboliza equilíbrio no pensamento e tranquilidade».

Seguem-se uma série de instruções sobre onde e como pôr ou não pôr o Buda, de que destaco apenas que «pôr o Buda nos escritórios dá clareza à mente, reduz tensões e elimina o efeito dos inimigos». É no escritório que tenho há coisa de um mês o meu Buda sorridente com cinco crianças. Não me preocupam muito os inimigos, mas padeço amiúde de falta de clareza mental e de excesso de tensão. Infelizmente, não acredito que o meu Buda me cure desses males. Se o tenho aqui no escritório é por outra razão muito diferente: irremediável nostalgia.

Em miúdo, só muito tarde tive o meu próprio quarto. Não me lembro exatamente até que idade, mas sei que dormi muitos anos no quarto da minha avó. Na mesinha de cabeceira do lado esquerdo da cama, havia um candeeiro permanentemente coberto por um lenço de seda das Canárias com um mapa em cores garridas. No psiché (que a minha avó pronunciava pchiché, com uma muito desculpável assimilação do s pelo ch), havia um Buda anafado e sorridente, com cinco miúdos espalhados pelos ombros e pelo regaço. Durante muito tempo, pensei que fossem as mulheres do Buda, porque era isso que a minha avó me dizia: era o Buda com as suas mulheres, porque ele tinha muitas mulheres. Estas duas peças de decoração tinham em comum uma característica que lhes conferia uma magia especial: vinham as duas de bordo. «Foi o teu padrinho que mas deu, são coisas boas, vieram de bordo.»

Todos conhecem a madalena de Proust; ficam agora a conhecer a minha estatueta do Buda sorridente. Entrei numa loja de coisas em segunda mão, vi a estátua e dei comigo, de repente, na penumbra do quarto da minha avó, as formas difusas do mapa de Tenerife projetadas no teto manchado de humidade e o Buda a sorrir-me de cima do psiché. Tive de comprar a estatueta. Custou-me 100 coroas. Não é bem igual à da minha avó. É pintada com menos pormenor, menos bonita. Mas é uma máquina do tempo tão eficaz como a madalena de Proust.

Visito agora muitas vezes o meu quarto de criança. Era húmido e frio, e, apesar disso, acolhedor. A minha avó morreu há quase 20 anos. Disse-me muitas vezes, nos últimos anos de vida, que não me devia assustar se me aparecesse depois de morta, era só para estar um bocadinho ao pé de mim, que havia de ter saudades minhas no outro mundo. Revejo-a muitas vezes, e mais ainda agora que tenho ali o buda sorridente. Tem um bibe velho por cima da camisola de lã e expressões de outro tempo, que já ninguém usa: «São coisas boas, vieram de bordo.» A minha querida avó.

Plus à peindre qu’à blâmer

Suzy Polidor por Man Ray, 1929
Quando mostrei à minha mulher uma foto da cantora e atriz francesa Suzy Solidor e lhe disse que era uma das pessoas de quem tinham sido pintados mais retratos, ela respondeu-me que achava natural:

«Compreende-se bem porquê, tem uma beleza fascinante».

Muitos não concordarão. É sempre assim, nas questões de beleza e, sobretudo, quando se avalia uma beleza pouco canónica, como a de Suzy Solidor. Mas houve mais quem tivesse a opinião da minha mulher, pelos vistos – segundo Marie-Hélène Carbonel, sua biógrafa, existem 220 retratos de Suzy Solidor, muitos deles de artistas famosos. Retrataram-na Francis Bacon, Georges Braque, Yves Brayer, Jean-Dominique Van Caulaert, Jean Cocteau, Jean-Gabriel Domergue, Kees van Dongen, Raoul Dufy, Léonard Foujita, Arthur Greuell, Marie Laurencin, Tamara de Lempicka, Francis Picabia, Pablo Picasso, Man Ray e Maurice de Vlaminck, entre dezenas de outros.

De cima para baixo: Suzy Polidor por Francis Bacon, 1957,
Jean Cocteau, 1937 e Francis Picabia, 2x, ambas 1933
« Je suis plus à peindre qu’à blâmer », terá ela dito. É uma frase bem achada. Para quem não fale francês: plus à plaindre qu’à blâmer é uma expressão francesa que se usa quando achamos que uma pessoa acusada de algum delito é, na verdade, uma vítima das circunstâncias, que merece mais compaixão que crítica. Plus à peindre qu’à blâmer é um jogo de palavras baseado nessa expressão: «Vale mais pintarem-me do que dizerem mal de mim», uma coisa assim.

Diz a Wikipédia em inglês que a única paga que Suzy Solidor pedia para posar era que lhe dessem depois um retrato, para ela pôr na parede do seu cabaré. Não encontro referência a esta exigência em nenhuma das várias minibiografias que li dela, mas é certo que foi colecionando retratos de si própria, quarenta dos quais doou, em 1973, à vila de Cagnes-sur-Mer e podem ser hoje apreciados no museu local (Château-Musée Grimaldi).

Da muito interessante vida de Suzy Solidor não vos falo aqui, não tenho nada a acrescentar às várias biografias que se encontram com facilidade na Internet (por exemplo aqui e aqui, e também aqui, acrescida de uma discografia); mas deixo-vos uma maravilhosa canção de 1933, “Obsession”, de Jean Rualten e Léo Laurent, como letra de Edmond Haraucourt.



Chaque femme je la veux
Des talons jusqu'aux cheveux
J'emprisonne dans mes vœux
Les inconnues

Sous leurs jupons empesés
Mes rêves inapaisés
Glissent de sournois baisers
Vers leur peau nue

Je déshabille leurs seins
Mes caresses par essaims
S'ébattent sur les coussins
De leurs poitrines

Je me vautre sur leurs flancs
Ivre du parfum troublant
Qui monte des ventres blancs
Vers mes narines

Douce, je promène ma main
Aux rondeurs du marbre humain
Et j'y cherche le chemin
Où vont mes lèvres

Ma langue en fouille les plis
Et sur les torses polis
Buvant les divins oublis
J'endors mes fièvres

O mais famoso retrato de Suzy Solidor é o de Tamara de Lempicka de 1933.
Segundo a Wikipedia em inglês, teria sido Suzy a pedir a Tamara que a pintasse,
ao que esta acedeu, na condição de a poder pintar nua. 






21 de março de 2018

Tentativa de dizer o que não muda

Um texto de outra pessoa, para variar. Raramente me apaixono por poemas, mas este foi um caso de amor à primeira vista. Aliás, gosto muito de tudo o que li de Naomi Shihab Nye, que é pouco, mas há de ser mais. Depois de decidir aqui pôr este texto, vi que hoje é Dia Mundial da Poesia. Nem de propósito, hem?
Tentativa de dizer o que não muda
Naomi Shihab Nye 
Roselva diz que a única coisa que não muda
são os carris dos comboios. Tem a certeza.
O comboio muda, e muda a erva que cresce dos lados
como aranhas, mas os carris não.
Há três anos que ando a observar uma linha de comboio, diz ela,
e não dobra, não parte, não cresce.
Peter não tem a certeza. Viu uma linha abandonada
perto de Sabinas, no México, e diz que uma linha sem comboio
já não é a mesma linha. O metal tinha perdido o brilho.
A madeira estava rachada e tinham desaparecido algumas travessas.
Às terças-feiras, em Morales Street,
cortam o pescoço a uma centena de galinhas.
A viúva da casa torta
tempera a sopa com canela.
Perguntem-lhe o que é que não muda.
As estrelas explodem.
A rosa encarquilha como se tivesse as pétalas a arder.
O gato que me conhecia está enterrado debaixo do arbusto.
O apito do comboio ainda tem o mesmo som doutras eras,
mas, de cada vez que se afasta assustado
das paredes do cérebro,
leva com ele uma coisa diferente.

in Words Under the Words: Selected Poems. Portland, Oregon: Far Corner Books, 1995, trad. minha. (O poema original em inglês)
Fotografia: Russell Lee, Setembro de 1940. Caminho de ferro abandonado para uma mina abandonada. San Juan County. Quando as minas fecharam, desapareceram povoações inteiras e as respetivas indústrias (“Colorado Abandoned railroad leading to abandoned mine. San Juan County, Colorado. When the mines moved out, whole towns and affiliated industries folded up”) (daqui


20 de março de 2018

Torresmos

Uma história de torresmos, verdadeira e muito instrutiva:

 Temos uns amigos que já nos vieram visitar várias vezes aqui à Dinamarca e que, simpáticos como são, nos trazem sempre alguma coisa de que acham que eu possa ter saudades. Da última vez, trouxeram uns pacotes de torresmos e, claro, ficaram um pouco dececionados quando os meus filhos lhes explicaram que é uma coisa que se come muito aqui, que há em todos os talhos e supermercados.

Torresmos são como socas e barretes, que também existem em toda a Europa (ou existiam, seja).* Podia, aliás, dizer-se que, em termos da chamada «cultura material», um europeu se pode (ou podia, seja...) caricaturar como uma pessoa de barrete e socas a comer torresmos. (Aqui entra um sorriso, claro.) Ouvi dizer que os croatas tentaram ficar com a patente dos torresmos (eles chamam-lhes čvarci**), mas não sei se é verdade, acho que é só uma história.

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* Pode bem ser que existam também fora da Europa, não sei. Nunca vi nem socas, nem barretes nem torresmos na África nem na América que conheço, mas também só conheço uma parte muita pequena desses continentes. Quer dizer, já vi ilustrações de trajes tradicionais canadianos com barretes. E na América Latina há chicharrón, mas não é como os chicharrones espanhóis, que são exatamente como os nosso torresmos, às vezes prensados em blocos e tudo, como em Portugal. O chicharrón que eu conheço na América tem muita carne, é mais como os rillons franceses — é preciso alguma boa vontade para lhes chamar mesmo torresmos.
** Em sérvio é Чварци. As pessoas que misturam língua com ortografia, que acham de ter uma língua como o servo-croata que se pode escrever não com duas normas ortográficas, mas com dois alfabetos diferentes?