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23/09/19

O CF Os Belenenses faz hoje cem anos


A minha saudosa avó Belmira nasceu a 16 de Setembro de 1919. Foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Tinha 39 anos quando eu nasci e 46 feitos há três dias quando nasceu o meu irmão mais novo. Entre eu e ele nasceram o outro meu irmão e a minha irmã. A minha avó dedicou-nos a nós quatro a segunda metade da sua vida. Faleceu em 2001 e eu, que vivia na Bolívia nessa altura, não pude ir ao seu funeral. Tinha-me dito da última vez que a vi, com genuína serenidade, que estava agora preparada para partir, sem tristeza nenhuma, sem nenhuma angústia, porque nós já tínhamos todos a nossa vida e, por isso, ela já não fazia falta nenhuma. A minha querida avó…

O dia 16 de Setembro de 1919 foi uma terça-feira, vi agora na Internet. Tinha a minha avó exatamente uma semana de vida quando foi fundado o Clube de Futebol Os Belenenses, de que o meu padrinho me fez sócio quando era ainda miúdo pequeno. Sou desde então, «do Belenenses», sem saber muito bem o que isso significa, mas aceitando, com preguiçosa resignação, que isto de ser de um clube é uma coisa que nos acontece, pronto!, e é para toda a vida, como a família ou a nacionalidade… Parabéns ao Belenenses!

O Belenenses não tem nada a ver com a minha avó, que por acaso até era benfiquista. Da família, que não escolhi, ainda bem que me calhou tê-la a ela.

27/08/13

E dei comigo a pensar...


Bem veem, na minha infância e adolescência, o meu pai, como muitos homens desse tempo, não passava muito tempo em casa. Jantava connosco quando jantava, às vezes lá passava um fim de semana a jardinar no quintal, mas acho que, no geral, o víamos relativamente pouco. E há bocado dei comigo a pensar: "Ena, o que os meus filhos não davam para ter um pai assim!..."

"O Tao do Riso" (pormenor) de Yue Min Jun. Foto de Maagwokhuaeo, Wikimedia Commons



09/03/13

Famílias


[Este blogue tem estado muito parado, por várias razões. Uma delas é que os textos parece que andam enguiçados - não me sai o que quero, não gosto do que escrevo. E este é o mais enguiçado de todos. Há meses que muda de forma e nunca mais o acho apresentável. Mas enfim, vai como está, a ver se quebro o enguiço. Talvez vocês possam ajudar-me a melhorá-lo...]
Familles, je vous hais ! foyers clos ; portes refermées ; possessions jalouses du bonheur.
 André Gide, Les Nourritures Terrestres, 1897
 
“Famílias, odeio-vos! Lares fechados; portas fechadas; possessões ciumentas da felicidade.” A frase é famosa. Nunca li André Gide e não sei onde ele quer chegar com ela, mas já a vi dezenas de vezes na minha vida. E creio saber donde lhe vem a fortuna: é que toda a gente, mesmo quem mais preza e louva a família, não pode deixar por vezes de sentir isso mesmo, que detesta a família, as famílias todas. Que nos traga muitas coisas boas, a família, não tenho dúvidas de que traz; que é fonte de conflitos e mal-estares, também tenho a certeza absoluta. Mas não é sobre a família em geral que aqui vos falo, que nestes textos de blogue não acabem assuntos tão vastos.
  

Vou contar-vos uma história verdadeira:
C. trabalhava na empresa da família. Era um dos diretores, abaixo do pai, e o principal estratega da firma. De facto, era ele o motor da firma. Para além de C. e do seu pai, trabalhava também na firma o irmão de C. Não era exatamente, aos olhos de C., o trabalhador mais competente, mas C. nunca pôs em causa que houvesse lugar para ele na firma. Fora do trabalho, C. e o irmão davam-se bem e, com as respetivas famílias, passavam juntos muitos fins de semana.
O pai de C. tinha da firma uma conceção radicalmente familiar, se me faço entender: achava que o irmão de C. devia entrar para a direção, porque era na direção o lugar natural dos membros da família. C. opôs-se, que era um grande disparate, que um cargo daqueles não se podia dar assim a alguém só por ele ser da família, que o irmão estava longe de ter as competências necessárias e que pô-lo na direção era desgraçar a empresa. Perante uma tão grande falta de respeito pelos valores sagrados da família (a “ciosa possessão da felicidade”), o pai de C. despediu-o. Ao fim de 20 anos de dedicação à firma, C. vê-se de repente despedido pelo seu próprio pai da firma de que é sócio.

A família nuclear sempre foi, em parte, um espaço de transmissão de saberes e sempre foi um círculo tão natural de favorecimento que só fora dela os favorecimentos são ilícitos. Pode criticar-se compadrio e nepotismo e não deixa de ser interessante que as palavras nepotismo e compadrio, para designar o favorecimento especial de pessoas próximas, tenham origem em termos que não designam as relações familiares ditas nucleares[1]. Nunca se ouviu criticar filhismo, padrismo ou hermanismo ‒ parece que o favorecimento de pais, filhos e esposos é tão natural que não pode ser criticado. Mas o facto é que, se a família sempre foi funcionando, melhor ou pior, como unidade empresarial, é claro que, como a história do meu amigo o prova, ser mãe, pai, filha, filho, irmã ou irmão não é hoje currículo que satisfaça gestores de empresas. Nunca devia ter satisfeito, não é?, mas antigamente a gestão de empresas não era saber técnico, era condição herdada, traço familiar.

Agora, parece-me a mim que não é só como unidade empresarial que a família se mostra amiúde pouco adaptada à realidade de hoje – também como unidade de segurança social para apoio aos mais velhos.
Há muito quem veja com maus olhos que as formas de solidariedade direta, ou mesmo a “generosidade”, tenham sido superadas pela reivindicação dos direitos abstratos. Falta-me informação: não sei se as formas de solidariedade direta existem hoje menos do que existiam e, se for esse o caso, não sei se se pode atribuir essa diminuição à instituição da formas de solidariedade mais abstrata (chamemos-lhe ação social). A ideia que tenho, porém, é que, no que respeita ao apoio aos idosos, a família nuclear se presta hoje mal a esse papel ‒ e provavelmente sempre assim foi…Vejo amiúde infiltrar-se muito romantismo na discussão, mas o facto é que, ao contrário do que muitos afirmam, foi em sociedades em que a assistência aos idosos depende exclusivamente ou quase exclusivamente da família que ouvi as mais terríveis histórias de maus tratos aos velhos ‒ e de velhices difíceis e tristes, enfim[2]. A mim (que não sou muito de acreditar no que se diz, mas que, como disse, tampouco tenho, por outro lado, dados concretos em que me possa fiar…) não me surpreendem essas histórias ‒ perturbam-me, isso sim, e acho que não deve ser assim.
 A família é um espaço de muitos afetos e de avaliações muito subjetivas de direitos e deveres. O dever de apoiar os familiares idosos resulta, em muitos casos, em conflitos insolúveis e em permanente mal-estar – e na ausência de cuidados efetivos. Dito de outra maneira, o direito a assistência na terceira idade não deve depender de afetos nem ser, mesmo parcialmente, condicionado por eles. Um passo fundamental é, parece-me a mim, deixar de contar oficialmente a família como provedor de apoio aos mais velhos. Há alguns meses, contava-me uma amiga minha, que é assistente social em Portugal, as muitas situações dramáticas que causa não dar apoio social a certas pessoas, por se contar como rendimentos delas os rendimentos dos filhos. É claro. Agora, obviamente, a solução não é controlar os filhos e obrigá-los a darem apoio aos pais, se o não quiserem dar. A solução é que os deveres de apoio sejam transferidos na totalidade para uma instância neutra ‒ o Estado.
Já agora, quero recordar a quem se insurge contra eles por “artificiais” ou “pouco humanos” que os sistemas “abstratos” de ação social fazem parte de uma categorial moral naturalíssima de todas as sociedades humanas: a reciprocidade indireta. Em qualquer sociedade, o altruísmo não funciona só relativamente a pessoas específicas ou dentro de círculos específicos de que se espera retribuição, mas existe também para com as pessoas em geral, esperando que as pessoas em geral nos façam bem. Contribuímos para os nossos familiares, obviamente, ao contribuir para todos. Numa formulação célebre, se vamos ao enterro dos outros, haverá quem venha ao nosso, mas não forçosamente aquelas pessoas a cujo enterro nós fomos. (Mais aqui.)

Tirando isso, e já que perguntam, a minha família vai bem muito obrigado, damo-nos muito bem, como todas as famílias, não é verdade?, e os meus filhos, em chegando a crescidos, lá farão a vida deles sem receberem cargos na empresa paterna, para grande sorte deles, e acho que não contam com muitas outras ajudas da nossa parte, também para sorte deles. E eu, por mim, em chegando a velhote (já não falta muito…), não só não espero como não quero ajuda direta deles, e é também é muito melhor assim, para todos nós.
(Também não conto deixar-lhes nada, até porque sou contra heranças, mas isso das heranças fica para outro texto, que este já vai muito comprido…)
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[1] Tenho perfeita consciência de que nepotismo pode, etimologicamente, relacionar-se com a família nuclear, já que o nepos latino cobre várias relações familiares entre as quais a de neto, de que é étimo; e que a palavra pode ser usada no sentido de favorecimento de membros da família próxima. Mas continuo a achar significativo que seja a palavra para neto ou sobrinho a única que se pode usar para designar o favorecimento de pais, filhos e irmãos. (Como podem ver, a Wikipédia também tem boas páginas. Onde se arranjaria, noutra enciclopédia, uma página tão simples e completa como esta?)
[2] “Na tribo aché do Paraguai, as mulheres idosas escutavam aterrorizadas os passos dos jovens cuja tarefa era surpreendê-la e destroçar-lhes os miolos com um machado”, diz Judith Shulevitz no seu artigo “Why Do Grandmothers Exist?”, publicado no The New Republic, de 29 de Janeiro de 2013. Pierre Clastres explica que, quando eram muitos velhos e não podiam acompanhar o grupo, se procedia a um tipo de “eutanásia” aprovado pelo grupo. Curiosamente, só as mulheres idosas eram mortas diretamente “com uma machadada na cabeça quando não estavam a olhar” ‒ os homens eram apenas abandonados (Pierre Clastres citado por Kim Ronald Hill e Magdalena Hurtado em Aché Life History: The Ecology and Demography of a Foraging People, Transaction Publishers, 1996). É óbvio que os velhos foram frequentemente considerados um peso, sobretudo em sociedades nómadas e de menos abundância, mas o caso dos aché é excecional e certos estudiosos realçam que os idosos sempre tiveram um papel ativo importante. As idosas, sobretudo. Há quem afirme que, se quisermos ver as coisas numa perspetiva puramente evolutiva, é antes exatamente ao contrário que as devemos ver (e perdoem-me o eficaz e risonho abuso retórico que se segue): os mais velhos existem para ajudar as famílias, não para serem ajudados por elas. O artigo de Shulevitz que referi atrás é interessante, como interessantes devem ser os estudos que refere. A “hipótese da avó”, de Kirsten Hawkes “defende que as mulheres depois da idade reprodutiva ajudavam não só os filhos como também os filhos dos filhos [tomando conta deles] e prolongaram desta forma a duração da vida humana”. Se esta hipótese evolutiva é feminista, como Shulevitz afirma (porque vem reforçar o papel das mulheres na nossa história evolutiva, nomeadamente, porque “faz desaparecer do cenário o homem-o-caçador”, uma vez que deixam de ser as calorias “da carne trazida da caça” as principais responsáveis pelo desenvolvimento do nosso cérebro de grandes dimensões) ou se vem antes reforçar a ideia de que o papel da mulher é cuidar das crianças, eis algo que se pode discutir.