Dos muitos verbos formados a partir do latim curro, «correr», sobrevivem, em português do séc. XXI, acorrer, concorrer, decorrer, discorrer, escorrer, incorrer, intercorrer (isto existe mesmo ou só dicionário?), ocorrer, percorrer e recorrer; e desapareceram pelo caminho os que teriam dado *abscorrer, *antecorrer, *circuncorrer, *precorrer e *procorrer. É assim a vida… das palavras.
Os nomes diretamente relacionados com os verbos sobreviventes e que vêm diretamente do latim podem terminar em -curso e ou em -cursão, por virem de dois tipos de deverbais. Mas nem sempre temos os dois. Assim, temos concurso, decurso, discurso, percurso e recurso, mas não temos *concursão, *decursão, *discursão (a não ser que seja um grande discurso...), e nem *percursão nem *recursão –– temos recursividade, isso sim, mas isso fica para outra conversa... E temos incursão, mas não *incurso (a não ser como raríssimo adjetivo, esqueçamos isso…). Não sei se temos mesmo intercurso (o dicionário diz que sim...) e de certeza que não temos *intercursão; e também de certeza que não temos nem *acurso nem *acursão; e nem *ocurso nem *ocursão — acorrer ficou sem nome correspondente e, para ocorrer, arranjou-se ocorrência, que estraga o paradigma todo, mas não ocorreu a ninguém nada melhor…
No meio desta confusão, brilha escorrer com os dois correspondentes diretos: excurso e excursão. Que pena ter-se substituído o X por S — excorrer era muito mais bonito: «Veja lá você, tinha a roupa já tão excorrida, veio uma carga de água de repente, ficou toda encharcada outra vez…»
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| Wally Wood, de «My World», 1953 |
E como hoje em dia não há brincadeira que não seja tomada por afirmação séria, apresso-me a deixar claro: o parágrafo anterior é paródia. Já sabiam? Ainda bem. Perdoem-me ter chegado a duvidar da perspicácia dos leitores deste blogue.

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