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19/08/26

Moral e virtudes

 

Quero defender aqui que para que uma ação seja boa ou má, não contam para nada as virtudes ou a falta de virtudes de quem a pratica. 

A discussão moral (incluindo a discussão política, que é uma parte da discussão moral) deveria centrar-se exclusivamente em ações e nunca em quem as pratica. Nenhuma pessoa é moral ou imoral, o que pode estar mal ou bem são as suas ações.  

Evidentemente, é impossível desligar completamente as pessoas das suas ações, porque qualquer regra, seja ela um preceito moral ou uma lei do código civil, precisa de punição para poder existir. Uma regra cuja infração não acarrete castigo não é uma verdadeira regra, é uma pseudorregra. Se uma lei disser que a escolaridade é obrigatória para todas as crianças, mas não houver castigo para quem não mande os filhos à escola, não se pode dizer que há de facto uma lei. Quando se trata de regras apenas morais, o castigo não implica o mesmo tipo de penas, mas não deixa, por isso, de haver penas para quem não as cumpra, que podem variar muito, conforme a regra violada e a comunidade onde se viva, da crítica mal-assumida ao desprezo e ao ostracismo. Mas é apenas para poder haver castigo e, por conseguinte, lei (e já é muito, eu sei) que há que ligar ações a quem as pratica. Para as discussões propriamente éticas e morais, as ações devem ser julgadas por si — até porque, como todos sabemos, todos os seres humanos são capazes de todas as ações, das mais sublimes às mais vis, e não acredito que alguém ache que se deva perdoar um crime apenas por ele ter sido praticado por quem, tirando esse crime, nunca fez senão o bem na vida, nem deixar de louvar alguma boa ação de alguém que passou a vida a fazer mal aos outros. E cheguei já aonde queria chegar, depois desta breve introdução que peca talvez por banalidade: às virtudes.  

Não se vê que mal possa haver em cultivar as virtudes. Em princípio, as virtudes são sempre traços positivos. Mas não é claro para mim — nem para ninguém, creio — até que ponto se tem esta ou aquela virtude por desígnio próprio ou se são antes traços de caráter sobre os quais a sua possuidora ou o seu possuidor tem pouco ou nenhum controlo. Pode argumentar-se, porém, que, da mesma forma que ninguém manda em nascer forte ou saudável, mas pode, ainda assim, decidir ou não cultivar as suas capacidades físicas, também as virtudes se podem treinar, pelo menos parcialmente. É possível, mas tenho dúvidas de que isto se aplique a todas as virtudes da mesma forma e de que virtudes como a coragem não sejam sobretudo comandadas por processos fora do alcance da consciência. Mas talvez… Seja como for, não pode haver mal em tentar cultivar as virtudes. Agora, talvez ao contrário do que muita gente entende, não me parece que as virtudes deem a quem quer que seja alguma superioridade moral. 

Convém, antes de prosseguir, deixar claro o que quero aqui dizer com virtudes*. Nesta reflexão, não quero de maneira nenhuma delimitar conceitos: quando digo bem e mal, entendam, por favor, como aquilo que a vossa própria moral considera bem e mal; e quando digo virtudes, deixo completamente ao leitor a listagem dessas mesmas virtudes. O que eu digo aqui deverá fazer sentido independentemente da ética e da conceção de virtude de quem lê — senão, os meus argumentos falharam. Ainda assim, cabe aqui uma lista do que se consideram virtudes, nem que só como exemplos. A lista varia de autor para autor e, de certa forma, ao longo dos tempos, mas reuni no parágrafo seguinte algumas das que costumam ser referidas. Virtudes podem então ser, entre outras, o altruísmo e a generosidade; o apego à verdade e a sinceridade; a compaixão e a empatia; a contenção e o controlo de si; a coragem; a desambição e o desprendimento dos bens materiais; a diligência e a perseverança; a disciplina, a organização e a ordem; a determinação, a firmeza e o sentido do dever; a frugalidade e a moderação; a honestidade; a humildade e a modéstia; a paciência; a prudência; o sentido de justiça; e o sentido de responsabilidade.  

Pode alargar-se muito a lista, ou reduzi-la a algumas virtudes fundamentais, mas não é isso que está em causa neste texto. O que quero agora sublinhar — e é essa uma razão essencial para não se poder fazer derivar valor moral das virtudes — é que a virtude é atributo da pessoa que pratica a ação e não da própria ação. Pode argumentar-se que o cultivar da virtude leva à realização de ações boas e é essa, precisamente, a ideia que subjaz à apologia das virtudes. Por exemplo, o apego à verdade e a sinceridade levam a que não se minta, engane ou finja, e se se considerar, como alguns moralistas, que a verdade, sobre o mundo e sobre si próprio, é, em sim mesmo, um valor ético inalienável e universal, estas virtudes levam a que não se pratiquem alguns atos que são sempre moralmente condenáveis. Talvez se possa dizer o mesmo de outras virtudes... Mas é difícil argumentar que a perseverança, a disciplina, a organização e a ordem, por exemplo, conduzem forçosamente a algo moralmente louvável. Tudo depende, obviamente, de que ação se leva a cabo com perseverança, disciplina, organização e ordem — se é pesquisa sobre novos medicamentos ou um genocídio. Ora eu creio que se pode dizer o mesmo também da verdade e da sinceridade: não lhes nego um valor absoluto em certas circunstâncias, mas também podem não ser a melhor escolha moral em certas situações — sobretudo se pusermos acima de valores éticos abstratos como a verdade outros valores tão universais como ela, mas bastante mais tangíveis, como a vida ou evitar o sofrimento. 

Escrevia Lutz Brückelmann, numa publicação no Facebook, que tinha visto um documentário sobre Rudolf Hess, e percebeu assim «que uma pessoa pode ser honesta, modesta e guiada por ideais», pode ser “[u]m marido e pai de família carinhoso, um amigo leal, um superior honesto, responsável e justo, que abomina corrupção e fraude» — que «ao mesmo tempo, defende e promove sem escrúpulos o extermínio dos judeus e dos ciganos, bem como a escravização de outros “sub-humanos”». Como Lutz Brückelmann aponta e muito bem, o facto de que «nunca se distanciou, nem mesmo em Nuremberga, da ideologia nazi e dos seus objetivos, tendo-se, pelo contrário, declarado expressamente a favor deles até ao fim» «é um sinal da sua “honestidade”». Talvez até também de outras qualidades que se costumam considerar virtudes, como coragem e verticalidade...

Hess está longe de ser um exemplo isolado. Encontram-se com certeza na História exemplos de líderes corruptos, mentirosos, cobarde e cínicos que causaram grandes sofrimentos a muita gente; mas também exemplos de líderes íntegros, honestos, corajosos, diligentes, determinados, firmes e com um profundo sentido de responsabilidade — até para com a própria História, na perspetiva deles —, fiéis aos ideais que os orientavam e que eles consideravam redentores da sua pátria ou de toda a humanidade… e que causaram ainda mais sofrimento. De facto, não é só de grandes dirigentes políticos, militares ou religiosos que se pode dizer isto. O mesmo se aplica exatamente, a uma escala menor, a quem não tem tão grandes responsabilidades públicas. Encontrei na vida, provavelmente encontrámos todos, pessoas com muitas virtudes que causavam muito sofrimento aos que as rodeavam. 

Finalmente, há outra questão que quero aqui comentar: nenhuma virtude o é em todas as situações e algumas das virtudes geralmente prezadas podem estar em conflito entre si. Ou seja, é muito discutível a almejada universalidade das virtudes. A desambição, por exemplo, não é uma qualidade louvável num político — que tem o dever de ter ambições, também de poder, para poder concretizar o mais possível os objetivos definidos no seu programa político. A moderação é muitas vezes indesejável num artista. O sentido do dever e/ou da responsabilidade podem em muitas situações entrar em conflito com outras virtudes, como a compaixão ou a prudência, ou até com o sentido de justiça. A temperança e a contenção podem suprimir a sinceridade em momentos de grande tensão emocional ou vice-versa. Etc.

Se há virtude que vale sempre, é uma que não costuma ser referida como tal: não se fixar em nenhum bem, mas avaliar antes, em cada situação, o que é melhor. Tentemos então desenvolver em cada um de nós as virtudes que considerarmos mais importantes, porque não?, mas não nos esqueçamos de as silenciar, se necessário, quando necessário, para fazer sempre o que acharmos moralmente mais defensável.   

 

P.S.: Diz Gregory Corso, num conhecido poema: «You are kind because you live a kind life» («But I Do Not Need Kindness», 1958). Suspeito de que é mais fácil cultivar algumas virtudes a quem tenha uma vida no mínimo desafogada (como é mais fácil cultivar a saúde, aliás, ou a condição física, ou seja lá o que for). Virtudes como cultura e refinamento parecem estar mais ao alcance de pessoas de um certo estatuto social. Virtudes como benevolência, clemência e magnanimidade pressupõem forçosamente algum poder, embora não pressuponham forçosamente uma determinada condição social. Isto não quer dizer que o desenvolvimento destas virtudes esteja, à partida, negado a certas pessoas. Quer só dizer que, para desenvolver algumas delas, algumas pessoas parecem ter uma vantagem à partida. 

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A palavra latina virtus, de que deriva a palavra portuguesa virtude e as palavras correspondentes nas línguas mais próximas, vem de vir, «homem» e significa originalmente «as qualidades de um homem» e, por extensão, «força, vigor; bravura, coragem, valor, etc.» Isto não deve ter implicações na presente discussão, porque não é esse o significado atual da palavra em português e nessas outras línguas. Da mesma forma, não devem interferir na discussão outros significados mais ou menos datados da palavra, por exemplo em relação à virtude feminina.


13/05/26

De hipocrisias


Dizia António Aleixo[1]

Só quando a hipocrisia
cair do seu pedestal, 
nascerá, dia após dia, 
um sol p’ra todos igual.

Em D. Juan , Molière põe na boca de D. Juan um louvor da hipocrisia que não pode deixar de ser entendido como uma crítica devastadora[2]:

SGANARELLE: Ora essa! Não acreditais em absolutamente nada e quereis, ainda assim, fazer-vos passar por homem de bem?

D. JUAN: E porque não? […] Isso deixou de ser vergonha: a hipocrisia é um vício da moda, e todos os vícios da moda passam por virtudes. A personagem do homem de bem é a melhor de todas as personagens que se pode interpretar. […] É neste favorável refúgio que quero abrigar-me e pôr em segurança os meus bens. Não abandonarei os meus doces hábitos; mas terei o cuidado de me esconder e divertir-me-ei sem dar muito nas vistas. Se vier a ser descoberto, sem mexer um dedo, verei toda a camarilha defender os meus interesses e serei defendido por ela contra todos. Enfim, é esse o verdadeiro meio de fazer impunemente tudo o que me aprouver. Tornar-me-ei censor das ações alheias, direi mal de toda a gente e só terei boa opinião de mim próprio.

A hipocrisia, na literatura e na vida real, é alvo de contumaz e veemente reprovação. A mim, porém, sempre me pareceu estranha essa tão espalhada sanha contra a hipocrisia. Deve mesmo ser colocada numa posição cimeira na lista dos crimes contra a igualdade ou a justiça? 

Creio que, o mais das vezes, a condenação da hipocrisia é a priori: as pessoas aprendem que a hipocrisia é má e não sentem nunca necessidade de repensar a questão — o que eu compreendo perfeitamente —, pelo que a sua condenação é um adquirido com sólidas raízes no senso comum.

Quando comecei a refletir sobre a hipocrisia, porém, não encontrei, nem nas minhas reflexões, nem em diálogos com outros, razões que justificassem a habitual veemência da sua condenação. Aliás, inicialmente nem sequer encontrei razões para a condenar. Pensei: se alguém disser que se deve fazer uma coisa e fizer o contrário do que afirma dever fazer-se, ou condeno a afirmação ou condeno a ação, pelo que, obviamente, concordo sempre com uma das duas — exceto em casos raríssimos em que não tenho uma posição relativamente a nenhuma delas. Um exemplo típico de dissonância entre o que se defende publicamente e as ações praticadas é uma pessoa afirmar que não se deve ter sexo fora do casamento e, mais ou menos às escondidas, praticar o que diz que não se deve. Agora, das duas uma: ou eu defendo o mesmo que essa pessoa, e condeno, por isso, a sua infidelidade conjugal, ou considero errada a prescrição da monogamia e condeno a sua afirmação. Por outras palavras, assentei em que o que posso avaliar moralmente são ações — incluindo afirmações de caráter moral, que são um tipo de ação. Parecia-me, porém, moralmente irrelevante criticar a incoerência entre aquilo que alguém afirma dever praticar-se e a prática real, porque essa incoerência não é, em si mesma, uma ação, nem sequer propriedade ou caraterística de uma ação.

De que falamos quando falamos de hipocrisia? 

A definição de hipocrisia em que baseei esta minha reflexão inicial («contradição entre o que uma pessoa apregoa que se deve fazer, e o que essa mesma pessoa faz — Que bem prega frei Tomás…») é uma definição claramente insuficiente, se não mesmo muito enviesada, e é esse o primeiro defeito que a reflexão tem. Dei-me conta disto ao diversificar os exemplos de contradição entre o que se diz e que se faz e avaliando até que ponto essa contradição é ou não criticada como hipocrisia. E às vezes não é. E, outras vezes, chama-se hipocrisia a outra coisa.

Voltando ao exemplo já referido (e que, por típico, vou continuar a usar ao longo do texto), uma pessoa que defenda a monogamia e tenha relações sexuais extraconjugais pode ser facilmente acusada de hipocrisia tanto por quem está de acordo com o que ela afirma dever fazer-se como por quem o não defende. Se, porém, uma pessoa defender o amor livre e se mantiver fiel a uma pessoa, creio que ninguém o acusará de hipocrisia. Parece, pois, que hipocrisia não se pode definir como sendo apenas toda a incoerência entre a moral que uma pessoa defende e as ações que efetivamente pratica. Pensei então, ao analisar estes exemplos, que podia há uma assimetria na aceitação à partida do que se diz e do que se faz, e que, para que alguém seja considerado hipócrita talvez seja preciso que a moral que preconiza, e que trai, seja dominante na comunidade em que essa pessoa vive — seja o que geralmente se considera «o bem». 

Este conceito de moral dominante parecia, contudo, ser algo elástico… Se uma pessoa pregar que é necessário que cada um de nós se empenhe individualmente na redução das emissões de dióxido de carbono e passar a vida a andar de avião, há, provavelmente, maior consenso quanto à sua hipocrisia que quanto à necessidade de reduzir as emissões de dióxido de carbono. A ideia de reduzir emissões de carbono talvez seja, porém, considerada positiva por alguém que a ache demasiado radical para a assumir. Uma pessoa que a prega será vista como estando a pregar «o bem», um pouco da mesma forma que uma pessoa pregando a caridade será vista como estando pregando «o bem» mesmo por quem não a considera seu dever, mas também não a considera errada. Agora, parecia-me que uma pessoa vegetariana apanhada a comer carne nas férias, alegando, por exemplo, que é muito difícil encontrar comida vegetariana onde está, seria mais facilmente considerada hipócrita por outra pessoa vegetariana do que pelas outras pessoas. Mas tinha dúvidas. 

Não me foi fácil encontrar exemplos de propostas morais que sejam completamente opostas à moral dominante. Poderíamos supor que uma pessoa defende publicamente o velho princípio proudhoniano de que a propriedade é um roubo e se revela, na prática, cioso da sua propriedade. Haverá quem a acuse de ser hipócrita? Provavelmente, sim, mas só por quem, como ela, defende, a anulação do direito de propriedade. Ou seja, neste caso, para que uma pessoa seja considerada hipócrita, pareceu-me ser necessário que o comportamento que ela diz defender seja também defendido por quem o considera hipócrita. 

Notei que outras vezes, porém, uma pessoa pode considerar que há hipocrisia relativamente à defesa de valores que não são dominantes nem de alguma forma considerados «bem» por essa mesma pessoa: ouvi, por exemplo, uma pessoa assumidamente de direita e que não defende de modo algum que se deva ter os filhos na escola pública criticar, por hipócrita, um político de esquerda que, dizia ela, «defendia a escola pública, mas tinha os filhos numa escola privada». 

Enfim, para ter uma ideia mais justa do que significa de facto hipocrisia/hipócrita teria de analisar um número muito maior de contextos orais e escritos em que o termo fosse utilizado, o que não sei se alguma vez chegarei a fazer... Chegado este ponto da reflexão, e mesmo não tendo chegado a uma definição de hipocrisia que abarcasse todas as suas utilizações, tinha constatado que a minha definição inicial era inexata.

E se hipócrita fosse um termo vago indicando apenas fingimento, sem mais, e que pudesse, por isso, ser usado em circunstâncias muito diversas[3]? Pareceu-me provável. 

Dos dicionários que consultei, em português e em línguas próximas, o do CNRLT é o que dá uma definição de hipocrisia mais completa e mais organizada , que cobre, de facto, as definições de todos os outros e que insiste, precisamente, na noção de fingimento. A primeira aceção é (traduzo eu): «Caráter de quem esconde a sua verdadeira personalidade e finge — na maioria das vezes por interesse — ter opiniões, sentimentos ou qualidades que não possui. (…) Sobretudo, fingimento de extrema piedade ou falsa devoção», como em «a hipocrisia dos fariseus ou de Tartufo». E a segunda aceção é: “Caráter do que carece de sinceridade, daquilo que está imbuído de fingimento e/ou duplicidade [«a hipocrisia de uma atitude, de uma promessa, de um olhar, de um sorriso»], nomeadamente o «carácter (de uma instituição) que reflete a má-fé das pessoas que estão na sua origem e/ou que a aprovam; carácter que tende a encobrir a realidade», como em «a hipocrisia das leis»[4].

Aliás, parece nem ser necessário que haja incoerência entre o que se apregoa e o que se faz. Em muitos casos, basta que haja incoerência entre o que se diz sentir e o que se mostra sentir. Por exemplo, parece-me muito possível a seguinte afirmação: «Ele diz que adora crianças, mas é tudo hipocrisia: não liga nenhuma ao neto, é incapaz de passar cinco minutos com a criança ou de a levar a passear com ele.» Ou seja, a hipocrisia, neste caso, é de facto uma mentira, mas uma mentira de uma pessoa sobre os seus sentimentos ou o seu caráter — que cria dissonância entre o que se diz ser e o que se revela ser. Mas será possível considerar hipócrita alguém que diz que adora futebol e se constata que nunca vai a um jogo, não compra jornais desportivos e não vê jogos de futebol na televisão? Creio que, neste caso, «mentiroso» talvez seja um epíteto mais provável para uma pessoa assim — mesmo que ele estivesse a tentar seduzir alguém dizendo-se apreciador de futebol. 

A conclusão desta breve tentativa de tentar definir o significado de hipocrisia através do seu uso real não foi muito animadora... E ainda não sei bem o que se quer dizer com hipocrisia…

Interesse e fraqueza

Nas definições do CNRLT que citei atrás, a expressão «na maioria das vezes por interesse» chamou-me a atenção para um facto simples que eu tinha deixado de lado na minha reflexão: pode também ser-se hipócrita por fraqueza ou cobardia , por não se ser capaz de assumir publicamente uma posição desviante em relação à moral dominante ou por não ter a força de agir de acordo com o que se considera ser correto. A hipocrisia que daqui resulta difere da mais difundida noção de «hipocrisia por interesse» no controlo que o hipócrita tem das suas ações. Para não fugirmos aos exemplos anteriores, pode acontecer que uma pessoa que não tenha a coragem de assumir publicamente que defende a liberdade sexual, ou até que a monogamia é impossível ou malsã, pratique às escondidas o que não tem coragem de assumir publicamente. E pode acontecer que quem ache sinceramente que deve praticar a monogamia não o consiga fazer, deixando-se cair em tentação contra as suas convicções.

Uma pessoa que defenda que a cobardia é, por si, um defeito, achará criticável esta hipocrisia, quanto mais não seja como falha de caráter, já que, para essa pessoa, todos têm o dever de assumir a responsabilidade do seu quadro moral, mesmo quando ele é desviante em relação à moral dominante; mas quem, como eu, ache que a cobardia, como a valentia e tudo o que fica no meio, acontecem n uma pessoa , acontecem a uma pessoa , estando fora do controlo da sua vontade, não achará criticável este traço de personalidade — não mais do que ser mais ou menos inteligente, forte ou fraco, introvertido ou extrovertido, dotado para a música ou não, etc. É natural que quem se sinta incapaz de assumir o que pensa ou de levar à prática o que acha correto sofra com isso e pode, por isso, considerar-se problemática esta situação. Mas como se a pode criticar moralmente?

Várias perspetivas morais

Parece-me que, num quadro moral assente numa lista de virtudes a priori que se devem cultivar, uma ética das virtudes, surge naturalmente uma crítica da hipocrisia, em qualquer das suas aceções, porque a hipocrisia revela, neste quadro, uma falta — de honestidade, sinceridade, integridade, coragem, etc. Mas, e se se preferir julgar o valor moral de qualquer ação ou padrão de ação a partir de princípios éticos universais? Ou se se preferir antes julgar a moralidade dos atos pelas suas consequências?

À partida, pode pensar-se que a hipocrisia assenta na mentira e, se se considerar que a verdade é, precisamente, um dos valores universais que deve presidir a qualquer código moral, a hipocrisia é condenável. Mas será que a hipocrisia é sempre uma mentira? 

Se se considerar hipocrisia dizer ou mostrar ter opiniões, sentimentos ou qualidades que não se tem de facto, então hipocrisia é mentira , simplesmente. Se se considerar antes que, para haver hipocrisia, tem de haver uma contradição entre o que se diz que se deve fazer e o que se faz de facto, o hipócrita só mente sobre a sua verdadeira posição moral se ela for contra aquilo em que conscientemente acredita: «Eu acho que se deve respeitar a monogamia no casamento…» é mentira se o hipócrita de facto não achar que se deve. Mas é interessante notar que não é necessário haver mentira para que haja hipocrisia. Uma pessoa que acredite realmente que não se deve ter sexo fora do casamento e tem sexo fora do casamento por fraqueza (por paixão, por exemplo), mas nunca nega que o teve, não mente, mas pode ser acusado de hipocrisia. Uma pessoa que acredite que não há mal em ter sexo fora do casamento, mas que nunca o afirma, aparentemente assumindo, por omissão, o que vigora na sua comunidade, por medo de que isso lhe cause problemas, insegurança ou conflitos, e que tem, de acordo com a sua convicção, relações fora do casamento, também não mente. Ou então considera-se que há mentira por omissão. Muitos consideram, porém, que a mentira por omissão é desculpável quando se trata de evitar consequências negativas da assunção da verdade. Evidentemente, é diferente não exprimir opinião sobre a fidelidade conjugal ou não exprimir opinião sobre um genocídio; e também é diferente ficar calado para agradar a um grupo de amigos, para não perder o emprego, para não ir preso ou para não ser morto. Haveria que analisar a mentira por omissão caso a caso…

Pode também acusar-se os hipócritas de ter uma moral dupla , o que viola, obviamente, a universalidade e a imparcialidade dos princípios morais [5] . A ideia é que o hipócrita não aplica a si próprio os princípios morais que aplica aos outros. Sem mais desenvolvimento, pelo menos, este argumento é muito discutível: que os hipócritas não cumpram os princípios morais que defendem não implica que defendam que a si próprios se apliquem outros princípios morais… 

Numa perspetiva consequencialista , há quem ache que a hipocrisia pode gerar cinismo, falta de confiança e ceticismo relativamente a ética e moral em geral, e decadência moral, incluindo desvalorização dos ideais que o hipócrita diz promover, sobretudo se vier de pessoas com posições de autoridade ou influência — modelos de conduta, portanto. Parece-me uma crítica sensata, na fração dos casos de hipocrisia a que se aplica: se as pessoas responsáveis por difundir normas (institucionais, morais, etc.), e/ou por as fazer respeitar, não seguirem elas próprias essas normas, espalha-se a perceção de que essas normas não são verdadeiras normas, apenas pseudopreceitos que se podem descartar sem problemas.

Mas enfim, não me parece, com isto tudo, que a hipocrisia seja o maior de todos os pecados e creio que há problemas muito maiores a resolver para que o sol nasça igual para todos. E depois, e isso raramente é referido, a hipocrisia é, em certa medida, necessária ou, pelo menos, recomendável. Ou, talvez melhor, deixem-me reordenar os elementos da frase: é necessária, ou pelo menos recomendável, uma certa medida de hipocrisia.

O lado positivo da «hipocrisia»

Sempre ouvi dizer que quando não se tem nada de positivo a dizer de alguém ou alguma coisa, é melhor não dizer nada. Trata-se, dirão alguns, de um apelo ao cinismo e à hipocrisia (fica ainda também por estabelecer a diferença exata entre os dois termos, que também se confundem às vezes no seu uso…). Não há dúvida de que quem considere que é dever de cada um revelar sempre o que pensa ou sente não pode deixar de criticar esta máxima. Mas a verdade é que, em última análise, é muito difícil viver-se num mundo em que todos revelem sempre o seu íntimo. É esse o terror, de facto, da leitura de pensamentos: não poder omitir julgamentos e afetos.

Imaginemos, por exemplo, que digo a alguém que me pede uma opinião sobre a sua muito empenhada tentativa de ser artista: «Não vou ser hipócrita, não gosto nada da tua pintura.» Não é o fim do mundo, mas é uma situação que se pode evitar. E responder com uma evasiva ou simplesmente mentir não revela forçosamente falta de caráter ou apenas vontade de agradar. Pode mostrar também alguma forma de respeito, ou, pelo menos, vontade de não magoar. Mas não falo só de mentiras destas (que, como referi atrás, nem sequer estou certo de que se possam considerar verdadeira hipocrisia), mas de todo o esconder de emoções, atitudes ou opiniões de que é feita a vida quotidiana, mostrando, em vez de irritação e desacordo, afabilidade. Todos encontramos a toda a hora coisas de que não gostamos nada e até mesmo que nos irritam. Mesmo quem achar que uma pessoa deve ter a coragem de assumir em público as suas opiniões, por muitos dissabores que isso lhe traga, não achará que se deve dizer a alguém que se ofereceu para nos ajudar a fazer a salada que nos irrita a maneira como ela está a cortar os legumes e nem, mesmo sem dizer nada, mostrar irritação. Deve-se, isso sim, sorrir e agradecer. Ninguém achará bem revelar, a uma pessoa que nos mostra, entusiasmada, uma canção de que gosta muito, que achamos a canção horrível. 

A lista é sem fim. A vida quotidiana está cheia de pequenas e grandes irritações causadas pelos outros e pequenos e grandes desacordos com eles. Há pessoas sem filtros, que revelam sempre o que sentem por coisas e pessoas, e isso é frequentemente problemático. Vale mais a pequena dose de hipocrisia necessária a tornar vivível o quotidiano. 




  

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[1] António Aleixo, Este livro que vos deixo. Lisboa: Ed. Notícia, 1994

[2] Molière, Don Juan, ou le Festin de pierre, Paris: Firmin-Didot et Cie, 1890 (traduzo eu) 

[3] Este significado mais vasto e mais simples derivaria, aliás, diretamente da etimologia última: o grego ὑπόκρισις ( hupokrisis ), significava «ato de representar; papel do ator». Há que ter sempre cuidado, porém, para não cair na chamada falácia etimológica — o significado atual de uma palavra pode não ser o significado do seu étimo, mas resulta antes da maneira como é usada agora pelos falantes da língua.

[4] Embora seja de louvar o rigor da divisão do conceito em duas entradas, podemos lidar com os dois conceitos à uma: a hipocrisia de uma atitude, promessa, olhar ou sorriso é a hipocrisia de quem age, promete, olha ou sorri, da mesma forma que a rapidez de um movimento é a rapidez de quem se move, etc.

[5] Aliás, em dinamarquês, língua em que não há um cognato de hipócrita , uma expressão que pode traduzir a palavra portuguesa é dobbeltmoralsk, «de dupla moral». Outras são skinhellig, literalmente «de santidade superficial», que quer dizer (traduzo a definição do dicionário) «que prega moral ardentemente, sem cumprir o que prega», e hyklerisk, deverbal do verbo hykle , que significa (mais uma vez, tradução da definição do dicionário) «mentir relativamente aos seus sentimentos e opiniões para obter a simpatia de outrem ou outros benefícios».

Ilustração: Grandville: « Misère, hypocrisie, convoitise », 1828 ou 1829, Wikimédia Commons, daqui

30/03/09

O que se leva desta vida

Raramente consigo dizer as coisas com poucas palavras. Quando me surge, como me surgiu agora, uma maneira de dizer com poucas palavras o que já uma vez disse com muitas, fico todo contente:

Em vez de dar tanta importância, como se costuma dar, ao que se leva desta vida, por que não importar-se antes com o que nela se deixa?

12/03/09

De colinas e terras chãs: pesa mais o mau do que o bom

1. Quem se interesse por atletismo ou simplesmente goste de correr é capaz de já se ter perguntado a si mesmo: é a mesma coisa correr uma determinada distância num percurso plano e num percurso com subidas e descidas? À primeira vista, pode parecer que, se a partida e a chegada estiverem ao mesmo nível, o resto é capaz de não fazer grande diferença, porque, se as subidas nos esforçam e nos atrasam, as descidas repousam-nos e dão-nos maior velocidade, e são assim bem capazes de compensar as subidas. Na realidade, porém, não é assim que as coisas se passam: fazem-se sempre melhores tempos em percursos planos, precisamente porque uma descida não compensa o esforço despendido e o tempo perdido na subida que lhe corresponde (ver a regra de Jack Daniels e John Kellogs na penúltima secção deste artigo, por exemplo, ).

Não que eu queira encontrar nos estudos de motricidade humana confirmação de uma especulação filosófica, não é isso, mas acho que temos aqui uma boa metáfora da vida da gente. O que eu tenho muitas vezes pensado é que os altos e baixos da vida são exactamente como os altos e baixos da estrada: o negativo pesa sempre mais do que o positivo. Em Outubro de 2002 escrevi, a propósito da morte de um colega, um poema chamado “Poema de Inverno # 7, sem título absolutamente nenhum”:

Isto não é assim – as alegrias
não servem para anular
tristezas, para as compensar.
Não – as penas vêm só aumentar

uma tristeza única que há,
a de estar vivo, aquela
que nenhuma alegria cancela:

mil nascimentos não apagam
uma única morte; mil beijos

apaixonados não compensam
nenhuma pena de amar; e mil risos
cúmplices não anulam nunca

um minuto só que seja
de verdadeira solidão.

Exagero, em busca de efeito literário? É possível. Mas talvez não…

2. Compreendo bem, sinceramente, quem ache que a melhor maneira de viver a vida é escolher sempre as planícies e evitar todo o tipo de colinas. O louvor da regra e mesura, da repressão dos sentimentos efusivos e de toda a classe de excitações como receita para uma vida melhor é uma ideia muito forte em muitas tradições e em muitos períodos da nossa história, mas nós, românticos que somos todos, desabituámo-nos de ter esse ensinamento em conta no momento de fazer escolhas. Interiorizámos antes que plano é chato, prato que não nos serve. Fomos antes programados para valorizar a montanha russa, o dar livre curso ao entusiasmo, nem que com plena consciência de que há-de ser dura a ressaca.

Não faço propostas, longe de mim… Não vou aqui louvar nem a medida nem a paixão. Queria só chamar a atenção para um facto simples. É provável que, com algum treino, possamos condicionar-nos a nós próprios, em maior ou menor grau, para a escolha do comedimento, da temperança, tanto nas acções como no próprio sentir; mas temos de reconhecer que muitos dos altos e baixos da vida nos vêm de acontecimentos nos quais não intervém a nossa disciplina mental. As mortes dos outros, por exemplo, como lembra o poemazito lá atrás, e muitos mais... A mesura, louvável que possa ser, não chega para tornar plano o percurso de vida. Para terraplenar a estrada é necessário ir muito mais longe e deitar fora todos os laços, todos os sentimentos – e todo o raciocínio… Mas isso, mesmo que se queira, não se consegue, pois não?