19/08/26

Moral e virtudes

 

Quero defender aqui que para que uma ação seja boa ou má, não contam para nada as virtudes ou a falta de virtudes de quem a pratica. 

A discussão moral (incluindo a discussão política, que é uma parte da discussão moral) deveria centrar-se exclusivamente em ações e nunca em quem as pratica. Nenhuma pessoa é moral ou imoral, o que pode estar mal ou bem são as suas ações.  

Evidentemente, é impossível desligar completamente as pessoas das suas ações, porque qualquer regra, seja ela um preceito moral ou uma lei do código civil, precisa de punição para poder existir. Uma regra cuja infração não acarrete castigo não é uma verdadeira regra, é uma pseudorregra. Se uma lei disser que a escolaridade é obrigatória para todas as crianças, mas não houver castigo para quem não mande os filhos à escola, não se pode dizer que há de facto uma lei. Quando se trata de regras apenas morais, o castigo não implica o mesmo tipo de penas, mas não deixa, por isso, de haver penas para quem não as cumpra, que podem variar muito, conforme a regra violada e a comunidade onde se viva, da crítica mal-assumida ao desprezo e ao ostracismo. Mas é apenas para poder haver castigo e, por conseguinte, lei (e já é muito, eu sei) que há que ligar ações a quem as pratica. Para as discussões propriamente éticas e morais, as ações devem ser julgadas por si — até porque, como todos sabemos, todos os seres humanos são capazes de todas as ações, das mais sublimes às mais vis, e não acredito que alguém ache que se deva perdoar um crime apenas por ele ter sido praticado por quem, tirando esse crime, nunca fez senão o bem na vida, nem deixar de louvar alguma boa ação de alguém que passou a vida a fazer mal aos outros. E cheguei já aonde queria chegar, depois desta breve introdução que peca talvez por banalidade: às virtudes.  

Não se vê que mal possa haver em cultivar as virtudes. Em princípio, as virtudes são sempre traços positivos. Mas não é claro para mim — nem para ninguém, creio — até que ponto se tem esta ou aquela virtude por desígnio próprio ou se são antes traços de caráter sobre os quais a sua possuidora ou o seu possuidor tem pouco ou nenhum controlo. Pode argumentar-se, porém, que, da mesma forma que ninguém manda em nascer forte ou saudável, mas pode, ainda assim, decidir ou não cultivar as suas capacidades físicas, também as virtudes se podem treinar, pelo menos parcialmente. É possível, mas tenho dúvidas de que isto se aplique a todas as virtudes da mesma forma e de que virtudes como a coragem não sejam sobretudo comandadas por processos fora do alcance da consciência. Mas talvez… Seja como for, não pode haver mal em tentar cultivar as virtudes. Agora, talvez ao contrário do que muita gente entende, não me parece que as virtudes deem a quem quer que seja alguma superioridade moral. 

Convém, antes de prosseguir, deixar claro o que quero aqui dizer com virtudes*. Nesta reflexão, não quero de maneira nenhuma delimitar conceitos: quando digo bem e mal, entendam, por favor, como aquilo que a vossa própria moral considera bem e mal; e quando digo virtudes, deixo completamente ao leitor a listagem dessas mesmas virtudes. O que eu digo aqui deverá fazer sentido independentemente da ética e da conceção de virtude de quem lê — senão, os meus argumentos falharam. Ainda assim, cabe aqui uma lista do que se consideram virtudes, nem que só como exemplos. A lista varia de autor para autor e, de certa forma, ao longo dos tempos, mas reuni no parágrafo seguinte algumas das que costumam ser referidas. Virtudes podem então ser, entre outras, o altruísmo e a generosidade; o apego à verdade e a sinceridade; a compaixão e a empatia; a contenção e o controlo de si; a coragem; a desambição e o desprendimento dos bens materiais; a diligência e a perseverança; a disciplina, a organização e a ordem; a determinação, a firmeza e o sentido do dever; a frugalidade e a moderação; a honestidade; a humildade e a modéstia; a paciência; a prudência; o sentido de justiça; e o sentido de responsabilidade.  

Pode alargar-se muito a lista, ou reduzi-la a algumas virtudes fundamentais, mas não é isso que está em causa neste texto. O que quero agora sublinhar — e é essa uma razão essencial para não se poder fazer derivar valor moral das virtudes — é que a virtude é atributo da pessoa que pratica a ação e não da própria ação. Pode argumentar-se que o cultivar da virtude leva à realização de ações boas e é essa, precisamente, a ideia que subjaz à apologia das virtudes. Por exemplo, o apego à verdade e a sinceridade levam a que não se minta, engane ou finja, e se se considerar, como alguns moralistas, que a verdade, sobre o mundo e sobre si próprio, é, em sim mesmo, um valor ético inalienável e universal, estas virtudes levam a que não se pratiquem alguns atos que são sempre moralmente condenáveis. Talvez se possa dizer o mesmo de outras virtudes... Mas é difícil argumentar que a perseverança, a disciplina, a organização e a ordem, por exemplo, conduzem forçosamente a algo moralmente louvável. Tudo depende, obviamente, de que ação se leva a cabo com perseverança, disciplina, organização e ordem — se é pesquisa sobre novos medicamentos ou um genocídio. Ora eu creio que se pode dizer o mesmo também da verdade e da sinceridade: não lhes nego um valor absoluto em certas circunstâncias, mas também podem não ser a melhor escolha moral em certas situações — sobretudo se pusermos acima de valores éticos abstratos como a verdade outros valores tão universais como ela, mas bastante mais tangíveis, como a vida humana ou evitar o sofrimento humano. 

Um conhecido meu lembrava-me, há pouco tempo, que Rudolf Hess era sem dúvida um homem honesto e modesto, bom marido e bom pai, um chefe responsável e justo para com os seus inferiores e um homem que combateu a  corrupção e a fraude, mas isso não o impedia de abraçar os ideais nazis, incluindo o extermínio de todos os considerados «sub-humanos». E o facto de, mesmo ao ser julgado em Nuremberga, nunca renegar os seus ideais é mais uma prova da sua honestidade, coragem e verticalidade — qualidades que se costumam considerar virtudes.   

Hess está longe de ser um exemplo isolado. Encontram-se com certeza na História exemplos de líderes corruptos, mentirosos, cobarde e cínicos que causaram grandes sofrimentos a muita gente; mas a História também está cheia de líderes íntegros, honestos, corajosos, diligentes, determinados, firmes e com um profundo sentido de responsabilidade — até para com a própria História, na perspetiva deles —, fiéis aos ideais que os orientavam e que eles consideravam redentores da sua pátria ou de toda a humanidade… e que causaram ainda mais sofrimento. De facto, não é só de grandes dirigentes políticos, militares ou religiosos que se pode dizer isto. O mesmo se aplica exatamente, a uma escala menor, a quem não tem tão grandes responsabilidades públicas. Encontrei na vida, provavelmente encontrámos todos, pessoas com muitas virtudes que causavam muito sofrimento aos que as rodeavam. 

Finalmente, há outra questão que quero aqui comentar: nenhuma virtude o é em todas as situações e algumas das virtudes geralmente prezadas podem estar em conflito entre si. Ou seja, é muito discutível a almejada universalidade das virtudes. A desambição, por exemplo, não é uma qualidade louvável num político — que tem o dever de ter ambições, também de poder, para poder concretizar o mais possível os objetivos definidos no seu programa político. A moderação é muitas vezes indesejável num artista. O sentido do dever e/ou da responsabilidade podem em muitas situações entrar em conflito com outras virtudes, como a compaixão ou a prudência, ou até com o sentido de justiça. A temperança e a contenção podem suprimir a sinceridade em momentos de grande tensão emocional ou vice-versa. Etc.

Se há virtude que vale sempre, é uma que não costuma ser referida como tal: não se fixar em nenhum bem, mas avaliar antes, em cada situação, o que é melhor. Tentemos então desenvolver em cada um de nós as virtudes que considerarmos mais importantes, porque não?, mas não nos esqueçamos de as silenciar, se necessário, quando necessário, para fazer sempre o que acharmos moralmente mais defensável.   

 

P.S.: Diz Gregory Corso, num conhecido poema: «You are kind because you live a kind life» («But I Do Not Need Kindness», 1958). Suspeito de que é mais fácil cultivar algumas virtudes a quem tenha uma vida no mínimo desafogada (como é mais fácil cultivar a saúde, aliás, ou a condição física, ou seja lá o que for). Virtudes como cultura e refinamento parecem estar mais ao alcance de pessoas de um certo estatuto social. Virtudes como benevolência, clemência e magnanimidade pressupõem forçosamente algum poder, embora não pressuponham forçosamente uma determinada condição social. Isto não quer dizer que o desenvolvimento destas virtudes esteja, à partida, negado a certas pessoas. Quer só dizer que, para desenvolver algumas delas, algumas pessoas parecem ter uma vantagem à partida. 

_______________

A palavra latina virtus, de que deriva a palavra portuguesa virtude e as palavras correspondentes nas línguas mais próximas, vem de vir, «homem» e significa originalmente «as qualidades de um homem» e, por extensão, «força, vigor; bravura, coragem, valor, etc.» Isto não deve ter implicações na presente discussão, porque não é esse o significado atual da palavra em português e nessas outras línguas. Da mesma forma, não devem interferir na discussão outros significados mais ou menos datados da palavra, por exemplo em relação à virtude feminina.


Sem comentários: