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11/05/26

Sincretismo e religião popular


Recordação do Seri Lanca: o táxi que nos leva do aeroporto para a pensão tem, sobre o painel de bordo, uma imagem de Buda, e, pendurado do retrovisor central, um rosário com uma cruz. Podia lá ter estado uma estatueta de Ganexa, creio eu, talvez também um crescente islâmico... Segundo o último censo nacional, e arredondando, 70 % dos nacionais do Seri Lanca são budistas, 12.5 % são hinduístas, 10 % são muçulmanos e 7.5 % são cristãos.

Será que o aparente sincretismo do taxista não o é de facto, mas antes uma estratégia de comerciante para agradar a todos, mas que não corresponde à sua verdadeira fé? Mas, se assim fosse, não faria mais sentido juntar os símbolos das duas religiões que lá faltam? Ou pode uma pessoa ter mesmo mais que uma religião? 

Não perguntei nada ao motorista de táxi. Não me senti à vontade para o fazer. Mas sei a resposta. Logicamente, não: o que define qualquer religião são os seus dogmas e todos os dogmas de todas as religiões excluem forçosamente os dogmas de todas as outras. É claro, pode fazer-se como um amigo meu muçulmano, que diz que também que podia ser cristão ou outra coisa qualquer, porque todas as religiões pregam a mesma moral e fazer o bem é o mesmo para todas elas. Por louvável que seja a sua atitude, isto não é verdade. Quer dizer, não é, pelo menos suficiente para se seguir uma religião. Para se ser cristão, por exemplo, não basta estar de acordo com os ensinamentos morais de Jesus e predispor-se a segui-los — há que acreditar na sua divindade, como forma humana de Deus. Etc. Dito de outra maneira: se cada religião postula a falsidade de cada uma das outras, como ser sincrético? 

Ou será que este e outros sincretismos assentam antes numa versão da aposta de Pascal em que se tenta assegurar maior proteção aumentando o número de divindades reconhecidas? Se pelo menos uma delas for verdadeira… Evidentemente, muitos cristãos argumentariam que não se pode granjear o favor de Deus adorando Buda como divindade. Mas talvez o taxista nunca tenha pensado nisso e talvez ele não seja cristão dessa maneira. Uma vez contei aqui a história de D. Celso, um homem que conheci na Bolívia, quando lá vivi, que, numa situação de desespero, passou a rezar a todas divindades que conhecia, desde a Pachamama à Virgem Maria.

***

Seri Lanca: Buda, Ganexe e João Batista com a Virgem e santos.
As duas primeiras fotos são de Ella, a terceira de Negombo. 
Nem sempre se encara a religião duma forma lógica, racional. Pode-se encará-la de forma menos abstrata: uma relação com as divindades em que uma pessoa aceita submeter-se a elas, aumentar e glorificar o seu panteão, mas esperando em troca que elas a ajudem em caso de necessidade. 

Pode pensar-se que daí às religiões abstratas que hoje conhecemos melhor vai uma grande distância, mas a abstratização da religião parece não ter conseguido livrá-la da sua primitiva concretude. Um exemplo que quem me lê conhece bem é o da vertente católica do cristianismo, em que, na sua versão popular, existe um grande panteão de santas e santos a quem se adora e reza diretamente, e a quem se oferecem oferendas — alguns deles resultando de uma multiplicação de Jesus e da Virgem Maria, e às vezes incluindo até figuras que nem foram canonizadas pela igreja ... 

Não se pode considerar que alguma formas de «religião popular» são de facto paganismo disfarçado e que, em rigor, a igreja as devia combater? Não sei… Provavelmente, sempre foi necessário algum tipo de sincretismo para uma religião nova se implantar: se os deuses antigos sempre funcionaram, porquê abandoná-los agora que se aceita outra religião? Melhor dar-lhes nova roupagem. E então eles vão ficando, com essa nova roupagem, até todos esquecerem quem eram antes… Ou talvez seja também uma concessão necessária à sobrevivência de qualquer religião que se afaste da vida real: que interessa o estado de Buda ou a vida eterna quando se tem uma filha a arder em febre há três dias?



14/11/23

M. e Deus [Crónicas de Svenddborg #47]


M. tem agora 99 anos. Há já muito tempo que anda zangada: com a família, com o pessoal do apoio domiciliário, com o centro de dia… E com Deus:

«Quando era jovem, gritei para quem me queria ouvir que Deus era uma porcaria. Bom, na altura não acreditava nele, por isso achava que podia dizer o que quisesse sobre ele, sem que isso tivesse consequência nenhuma. Na realidade, não pensava muito nisso. Mas agora é diferente, agora estou sempre a pensar nisso. Agora acredito que Deus existe e que há um Céu e um Inverno para onde nós vamos quando morrermos. E por isso sei que que vou para o Inferno. Agora, não pense que a minha opinião sobre Deus mudou desde que acredito que ele existe. Sou contra Deus e as suas leis e os seus crimes. Não acredito que os deuses tenham direito a mandar na gente. Era o que faltava! E o mal todo que ele faz? Devia haver um tribunal para julgar Deus!»

Ficamos alguns segundos em silêncio (não sei o que hei de dizer…) e M. continua:

«E agora, diga lá, o que acha que devo fazer: continuo a pensar na morte ou vou até à taberna?» 


30/10/21

Um pecado não muito original

 "Estavam ambos nus, o homem e sua mulher, sem terem vergonha um do outro.

Ora a serpente era o animal mais astuto dos campos que Deus Senhor fizera. Disse à mulher: 
– Deveras? Deus disse «Não comereis de todas as árvores do jardim»? 
Respondeu a mulher à serpente: 
– Do fruto das árvores do jardim podemos comer; mas, do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: «Não comereis dele, nem nele tocareis, para não morrerdes». 
A serpente disse à mulher: 
– Não, não morrereis; mas Deus sabe que no dia em que comerdes do fruto, abrir-se-vos-ão os olhos, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal. 
Viu, pois, a mulher que a árvore era boa para comer, que era uma delícia para os olhos, e que era árvore desejável para adquirir sabedoria; tirou dela um fruto e comeu dele; deu também o fruto a comer a seu marido, e ele comeu. E abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que estavam nus; coseram folhas de figueira, e delas fizeram tangas. Ouviram os passos de Deus Senhor que passeava pelo jardim na brisa do dia; e o homem e a mulher esconderam-se de Deus Senhor entre as árvores do jardim. 
E Deus Senhor chamou o homem e perguntou-lhe: 
– Onde estás? 
E o homem respondeu: 
– Ouvi a tua voz no jardim, e tive medo, porque estava nu; e escondi-me. 
Perguntou-lhe Deus: 
– Quem te revelou que estavas nu? Comeste da árvore de que te mandei não comer?"
[Livro da Génese, cap. 2 e 3]

Tommaso Masolino da Panicale: A tentação de Adão e Eva, 1426-1427. Fresco, Capela Brancacci, Florença. 
Por volta de 1670, os frescos foram pintados por cima, para tapar a nudez, tendo sido restaurados no fim do século XX. 

Masaccio (Tommaso di Ser Giovanni di Simone): A expulsão de Adão e Eva do Éden, 1426-1428. Fresco, Capela Brancacci, Florença 
As folhas de figo foram acrescentadas em 1680 e foram de novo retiradas numa restauração feita em 1980.

Hubert van Eyck, Retábulo de Gante ou Adoração do Cordeiro Místico, concluído em 1432. Pintura sobre painel, Catedral de São Bavão, Gante 
No século XIX, as representações originais de Adão e Eva nus foram consideradas inaceitáveis numa igreja e os painéis foram substituídos por reproduções vestidas (à esquerda).


09/09/18

Breve defesa de um ateísta

O epilóbio-eriçado (Epilobium hirsutum ) dispersando semente. Foto de Colin, 2012, Wikimedia Communs, daqui. 
A propósito de um texto de Hans Magnus Enzensberger publicado em El País em julho último (“Breve defensa de un agnóstico”, pouco mais de 1400 palavras), quero esclarecer aqui algumas ideias simples do ateísmo – ou, pelo menos da parte dele com que me identifico, porque não creio que haja alguma postura concertada dos ateístas. 



Hans Magnus Enzensberger assume-se como agnóstico. Não sente inclinação para a fé, mas não pode deixar de assumir a sua bagagem cultural cristã (traduzo eu todas as citações):
Que se saiba, ninguém, nem sequer um suíço ou um sueco, consegue livrar-se da bagagem histórica que traz consigo. Uma parte desse legado e dessa carga, arrastamo-la connosco através da religião. Uma fada bondosa privou-me do talento para a fé no monoteísmo. Os deuses são tantos que a escolha é dolorosa. Os gregos e os romanos acompanham-nos no céu e nos dias da semana, e as tradições egípcias e asiáticas, de Tutancámon a Buda, também não desapareceram por completo. (...)
Por isso, para mim o ateísmo não é uma opção, mas sim uma ideia fixa. Não quero pertencer a esse club. Em geral, custa-me decidir-me por una filiação. Faltam-me dotes para ser um colega de fiar. Naturalmente, haverá quem considere isto una carência. (…)
O agnosticismo tem numerosos prós e contras. Permite-nos mover-nos com maior liberdade e não temos de submeter-nos a toda o tipo de preceitos concebidos por qualquer instituição. Libertar-se da disciplina do partido ou da Igreja em questão pode ser um alívio, e mais ainda se se trata dos entraves de uma ideologia política. O inconveniente é que o agnóstico não chega a de pertencer a nada.  
Estou completamente de acordo com o primeiro parágrafo citado acima*. Ninguém com um mínimo de autoconhecimento e honestidade negaria o peso que a religião tem na sua cultura. Mas como é que a consciência desse legado histórico pode levar quem não abraça uma religião a preterir o ateísmo a favor do agnosticismo? O «por isso»  que sublinhei é, no mínimo, muito estranho. Como é que uma coisa causa – ou implica, se quiserem – a outra? A consciência da parte fundamental que ocupa o cristianismo na sua cultura não é modo algum razão para se ser agnóstico e não ateísta. Enzensberger não explica o «por isso». Pede ao leitor aquilo que muitas vezes se designa como «um salto de fé» ou um «salto de confiança». O leitor ateísta** e atento recusa-lhe esse salto. Aquele «por isso» cabe mal numa argumentação razoada.

É que o ateísmo é uma posição de razoabilidade e, ao contrário do que Enzensberger diz, não é um clube nem uma ideia fixa, nem se assemelha mais a uma igreja ou a um partido que o agnosticismo. Em rigor, um agnóstico não pertence menos a uma instituição que um teísta ou um ateísta – cada um pertence à sua e devia defendê-la com o mesmo empenho e a mesma lógica com que os teólogos medievais debatiam as espinhosas perguntas filosóficas que a si mesmo faziam. Não considero que «A minha fé diz-me que é assim» ou «Não quero pertencer a um clube» sejam fundamentos razoáveis para uma posição relativamente à existência de deuses – impossibilitam a discussão.

***
Talvez haja mesmo quem, como Enzensberger diz, defina a opção do agnóstico como carência. Não sei. Creio que alguns ateístas acusarão os agnósticos de terem escolhido uma posição mais cómoda, menos frontal e, por isso, menos conflituosa, que os ateístas. Pessoalmente, não acredito – até porque conheço agnósticos de grande coragem e frontalidade – que, no geral, haja seja lá o que for de falta de frontalidade no agnosticismo. É de uma divergência filosófica que se trata. O que me parece é antes que o agnosticismo trata a questão da existência de deuses de uma forma parcial, já que, a ter a mesma atitude relativamente a tudo o resto que não é imediatamente observável, há que declarar-se agnóstico em relação a muitas outras coisas não provadas mas altamente prováveis. Os ateístas aplicam a o mesmo princípio a todos os seres e fenómenos: ao que sabemos atualmente, X é provável ou improvável. É só isto. Aquilo que os ateístas defendem é um método de conhecimento feito de observáveis, para poder ser comunicável, isto é, tornado comum – e aquilo em que é mais sensato acreditar, à luz das constatações feitas usando esse método.

Os ateístas, pelo menos os que conheço, não põem em causa a impossibilidade de «saber se existem ou não [deuses], nem que forma têm»***. Os ateístas insistem até amiúde num princípio epistemológico de base, segundo o qual não se pode provar uma não existência a partir de observáveis, pelo que também é impossível afirmar que não existem o Pai Natal, unicórnios azuis e um número infinito de seres e fenómenos. O que os ateístas dizem é tão-só que é altamente improvável, à luz dos conhecimentos atuais, que exista algum ser com as características atribuídas aos seus deuses pelos crentes das diversas religiões; e que a ideia de um criador absoluto de todas as coisas dificulta muito mais a compreensão do universo do que a facilita.

_______________

* Ou quase: a referência aos suíços e aos suecos parece-me incompreensível a não ser, talvez, num quadro de ideias feitas sobre estes povos que eu partilho com Enzensberger.

** Prefiro a palavra ateísta ao termo mais clássico ateu, por várias razões: a) é um termo comum de dois, ou seja, o masculino e o feminino têm a mesma forma, o que é sempre bom – além de que ateia se presta a jogos de palavras de mau gosto; b) o elemento -ista marca a inscrição num -ismo (ateísmo), um sistema de ideias ou crenças, o que não acontece de forma tão clara e direta com o termo ateu; e c) tem um antónimo imediato com a mesma formação, teísta, o que não acontece com ateu, que é uma daquelas palavras construídas com um prefixo de negação de uma palavra inexistente na mesma língua (um dia, hei de falar aqui disto, que é um tema engraçado).

*** Protágoras citado por Enzensberger: «Quanto aos deuses, não tenho meios de saber se existem o não, nem que forma têm. Impedem-mo a obscuridade da questão e a brevidade da vida humana».

08/07/17

Mictlantecuhtli em redondilha maior



Mictlantecuhtli, deus asteca dos mortos. 
Estátua encontrada em Teotihuacan e exposta no 
Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. 
Wikimedia Commons, daqui.
Feio é, como é a morte
ou como às vezes a vida,
feio como a nossa sorte,
sempre a meio interrompida,
feio bicho que trazemos
escondido dentro de nós
e se revela sem qu’rermos
num olhar ou tom de voz
– deus do in-mundo final,
que importa se se lhe chama
Aita, Hel, Ereshkigal,
Demo, Osíris ou Yama?















[A Wikipedia tem uma longa lista de divindades da morte em diversas religiões e culturas.]

06/08/16

Férias em Lisboa #1


Na Dinamarca não se veem freiras. Pode ser que as haja, mas, se há, nunca vi nenhuma. Por isso, no outro dia, em Lisboa, chamei a atenção da minha filha — dinamarquesa — para uma freira que ia a passar.

– Já tinhas visto alguma freira, Siri?

Perguntei-lhe se conhecia a palavra freira. Nonne, sim, conhecia.

– Mas como é que sabes que é uma freira? – perguntou ela. – Não podes saber. Pode ser uma só uma muçulmana.








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Imagem: Painel da Catedral de Sta. Maria, em Portland, Oregon, EUA. Não consegui descobrir quem é o autor. (Daqui >)

14/05/15

A dimensão humana

Discute-se às vezes se a recusa de alguns sectores antirracistas de “descer” ao ponto de discutir em público com a extrema-direita racista contribui(u) para o crescimento dessa mesma extrema-direita, deixada assim livre para apresentar a sua versão dos “factos”, sem ninguém para lhe contrapor factos sem aspas. O mesmo se discute em relação a muito disparate de pseudociência, parapsicologia, medicinas ditas alternativas e toda a sorte de crenças bizarras que por aí pululam: uma pessoa deve rebaixar-se ao nível de discutir se as campanhas de vacinação da Organização Mundial de Saúde têm como finalidade a eliminação dos africanos, injetando-lhes venenos que os matam? E depois, aliás, como se discute um absurdo desses? E serve de alguma coisa tentar convencer quem acredita numa coisa assim?

Mais do que apenas uma questão estratégica para a ação antirracista ou para a divulgação da medicina científica[1], esta atitude de não querer “descer tão baixo” levanta também uma questão moral. E eu acho que, por muito que discorde radicalmente de uma pessoa, não posso deixar de considerar que ela tem exatamente a mesma capacidade moral que eu, pelo que é de uma grande arrogância (paternalismo é palavra que diz insuficientemente a imoralidade da atitude) recusar discutir, seja lá com quem for, ideias que têm em abstrato o mesmo valor que as minhas – até eu demonstrar, se o conseguir, que as minhas são melhores. É claro que uma recusa simples de discussão não pode ser moralmente equiparada à aniquilação física daqueles de quem discordo, mas é um mesmo princípio de dogmatismo fundamental que revela.

Por outro lado, eu sei que não é sempre arrogância, mas às vezes também cansaço, quando não desespero, que motiva a recusa de discussão. É até certo ponto compreensível que se desista de discutir com fanáticos, quer se trate de ideias sobre o conhecimento do mundo, incluindo religião, ciência, etc., quer se trate de questões morais, incluindo política. É que a discussão com quem se recusa liminarmente a ser convencido é muito mais cansativa que a discussão com quem tem apenas convicções fortes. E é, por norma, improdutiva. Por isso mesmo, admiro a paciência e louvo o trabalho de quem, por exemplo e para me centrar em áreas que acompanho, se dedica a discutir diariamente os fundamentos da religião e das religiões, e das ditas “medicinas” alternativas e de milhares de delirantes teorias de conspirações. Penso que não o faço eu próprio tanto como devia, mas hoje, para me redimir um bocadinho dessa falta, contribuo para a discussão da ideia da comunicação com Deus. O meu argumento é este: se existir a divindade suprema dos monoteísmos mais divulgados, os humanos não têm nenhuma possibilidade de a compreender, pelo que a própria crença e a própria prática dessas religiões negam os atributos que dizem que Deus tem.

Na palestra Cosmic Quandaries (Palladium, St. Petersburg, Flórida, 26-03-2009), Neil DeGrasse Tyson diz que não vê como seja possível comunicar com extraterrestres (tradução minha):
Se virmos o parente geneticamente mais próximo dos seres humanos, os chimpanzés – temos mais de 98% de ADN idêntico –, somos mais inteligentes que um chimpanzé. Vamos lá inventar uma medida de inteligência que faça dos humanos seres únicos. Digamos que a inteligência é a capacidade de compor poesia, sinfonias, fazer arte, matemática e ciências, digamos assim. Usemos por agora esta definição arbitrária de inteligência. Os chimpanzés não sabem fazer nada dessas coisas. E, no entanto, temos 98/99% de ADN idêntico. O chimpanzé mais inteligente de sempre talvez saiba comunicar com gestos. Bem, as crianças sabem fazer isso (...).
Tudo o que somos, que nos distingue dos chimpanzés, vem dessa diferença de 1% no ADN. Tem de ser, porque essa é a diferença. O telescópio Hubble [está] nesse 1% (...).
Imaginem outra forma de vida que seja 1% diferente de nós, no sentido em que somos diferentes do chimpanzé. Pensem nisso. Temos 1% de diferença e construímos o telescópio Hubble. Avance-se mais 1%. O que somos nós para eles? Seríamos patetinhas na presença deles (...). Pensem na inteligência que haviam de ter. A mecânica quântica seria intuitiva para os bebés deles. Os miúdos haviam de compor sinfonias inteiras. E, como eu disse, só para pôr na porta do frigorífico – assim como expomos na porta do frigorífico as colagens que os nossos miúdos fazem.
Portanto, a noção de que vamos encontrar seres inteligentes e conversar com eles... Quando é que foi a última vez que pararam para conversar com uma minhoca? Ou com um pássaro? Quer dizer, podem ter conversado som eles, mas acho que não estavam à esperava de uma resposta, ou estavam?
No sítio onde fui buscar a transcrição da palestra, porque não me apetecia nada estar eu próprio a transcrevê-la, tinha alguém comentado (traduzo com ortografia corrigida):
Sigo o raciocínio do Dr. Neil: se houver seres extraterrestres que tenham 1% de diferença do nosso ADN, também podem ser considerados deuses, porque a sua inteligência nos faz parecer parvos.
Bom, deixando de lado a discussão da abstrusa tese de que os deuses são astronautas, pode considerar-se que este comentário aponta precisamente para o que motivou este texto: a possibilidade de comunicação entre o humano e o divino. É certo que divindades há muitas, mas centremo-nos na que mais diametralmente se opõe aos humano por tudo poder, tudo saber e tudo ser, enfim. É claro, entre o Deus das religiões monoteístas e os seres humanos não há propriamente diferença genética, mas não é por isso que deixa de haver diferença entre a capacidade de entendimento do dito criador e das suas ditas criaturas. E convenhamos que seria seguramente considerado blasfemo, por quem acredita nesse deus, afirmar que não é infinitamente maior a diferença entre a inteligência de Deus e a inteligência de uma pessoa do que a diferença entre a inteligência de uma pessoa e a inteligência de, ponhamos, uma minhoca.

Outra maneira de ver a questão é que, sendo absoluto e perfeito o entendimento divino, há, para todos os efeitos práticos, a mesma diferença (uma diferença infinita) entre essa inteligência infinita e a inteligência de qualquer ser com inteligência finita, pelo que, na relação com um deus perfeito, um ser humano não está num plano superior a uma minhoca. E, se podemos aceitar que Deus nos possa compreender, porque ele, por definição, pode tudo, não faz sentido nenhum pensar que uma pessoa alguma vez possa entender o que quer, pensa ou planeia um entendimento infinitamente superior ao seu como é o do deus das religiões monoteístas. Seria infinitamente mais difícil que uma minhoca entender isto que estou aqui a escrever. E estamos de acordo que uma minhoca não entende isto, não estamos[2]?

Já se argumentou muitas vezes que é blasfemo agir em nome de um Deus que tudo pode; mas é pelo menos tão blasfemo acreditar que se pode compreender o que pensa esse Deus – e, por conseguinte, o que deseja de nós. De maneira que a única atitude religiosa que me parece coerente quando se tem uma conceção tão elevada do divino é a dos místicos que propõem, como única forma possível de comunicação com o divino, o esvaziar-se de todo o seu entendimento. No nada, cabe tudo; na nossa compreensão, não.
___________________

[1] Peço perdão pela redundância, mas sou obrigado a usá-la, numa época em que prolifera o uso de expressões como “medicina tradicional”, “medicina natural”, “medicina alternativa”, medicina isto-e-mais-aquilo… Alguém me contava uma vez, mas esqueci nomes e pormenores, infelizmente, de um fundador de um departamento de Psicologia Experimental numa universidade que se queixava de ser necessário chamar-lhe assim, como se toda a Psicologia não tivesse de ser de alguma forma experimental…
[2] «Não!», ouvi uma voz gritar perto de mim. Assustei-me. Não estava ninguém em casa. Ou, pelo menos, não devia estar, àquela hora. A voz parecia ter vindo chão. Olhei e era uma minhoca. Tinha sido ela a gritar, claro. Pronto, estava esclarecido o mistério do grito. Mas faltava esclarecer outro mistério: como teria uma minhoca ido parar ao meu escritório?

19/01/15

Criação humana e criação divina

Eis dois excertos de um conto que escrevi há quase 15 anos. São partes de uma conversa sobre criação que os protagonistas retomam de cada vez que se encontram.


Artista anónimo, cerca de 1220-1230.
Codex Vindobonensis, Biblioteca Nacional da Áustria.
“Aqui cria Deus céu e terra, sol e lua e todos os elementos”
(Wikimedia Commons)
– Você acha que para criar é preciso ter algumas qualidades especiais além de ser escritor ou músico ou dominar, enfim, uma determinada forma de expressão artístico?
– Explique-se lá, que eu não sei se o percebo... Que tipo de qualidades especiais?
– Não sei, mas há muito quem apregoe que os artistas têm mais qualquer coisa que os outros... Mais sensibilidade, mais sentimento, um olhar mais acutilante...
– Isso é tudo mentira, meu amigo, é uma grande mentira em que, infelizmente – você tem toda a razão nisso –, há muito quem acredite... Então, mas se há tanta gente tão sensível, tão inteligente, tão tudo, que é incapaz de arte!... E tão grandes artista – mas grandes artistas de verdade, em todos os domínios – que não passam de uns burgessos, de uns alarves, umas bestas! Eu conheço alguns, se quer saber...
– Bom, se o criador, para o ser, não precisa de maior sensibilidade que as outras pessoas, menos precisa então de maior sabedoria, de maior inteligência ou de maior sentido de justiça.
– Exatamente, não poderia estar mais de acordo consigo. Não tenho dúvidas que há personagens que têm em triplicado as qualidades morais e intelectuais do seu autor. O criador – como já disse, mas repito –, do que precisa é de alguma coisa que se pode definir de uma forma vaga como “espírito criativo”, ou “capacidade criativa”, e que tem a ver muito diretamente com o domínio em que cria.
– Então, diga-me lá, porque é que não há de ser assim com toda a criação?
– Com toda a criação?
– Sim, com toda a criação. Mesmo que admitamos que o universo tem de ter um criador, isso não implica que esse criador tenha de ter mais nenhuma qualidade especial a não ser essa competência criativa de que você falava – não é por ter criado os mundos que existem que Deus tem de ser mais justo, sabedor ou inteligente que as suas criaturas!


***

– Li uma vez que o poder de destruir é maior que o poder de criar apenas. Nenhum criador pode desfazer o que criou.
– Isso agora depende de você ter uma visão mais ou menos materialista do mundo. Se você acreditar que nada existe sem um suporte material, basta agarrar no suporte material da criação – o caderno manuscrito, o livro impresso, a tela pintada, a pauta ou a gravação, tudo isso –, e queimá-lo, rasgá-lo, dar cabo dele seja lá como for e já não há a criação. Mas se você acreditar que as coisas existem primordialmente enquanto ideias, noções, conceitos apenas, bem, então não, não se pode desfazer a criação...
– Pois olhe, eu considero-me um materialista, mas a postura materialista dura que você acabou de referir não me parece muito defensável. Bom, em última análise, depende também um pouco das características de cada tipo de obra de arte... Aceito que um quadro que já vi e que foi destruído “já não exista”, porque a recordação que tenho dele, por excelente que seja, não me impressionará nunca – e digo impressionar no sentido do estímulo percetivo, da sensação – como vê lo de facto, ali, diante de mim. Aceito que uma música que já foi tocada e que nunca mais volte a ser tocada, porque os registos todos que há dela, escritos como sonoros, foram destruídos, também possa ser considerada como “já não existente”, pelas mesmas razões. Mas não me convenço de que, se forem queimados todos os exemplares existentes de Crime e Castigo, e já não houver o texto, e, por isso mesmo, maneira de o voltar a imprimir, Raskolnikov, para só falar da personagem principal, deixa, de repente, de existir...

08/01/15

Je suis Charlie moi aussi

Acompanhei as notícias sobre o ataque ao Charlie Hebdo desde o início e nunca mais me decidia a escrever um texto sobre ele. Como acontece muitas vezes, houve muito quem dissesse mais depressa e melhor que eu o que eu queria dizer: a monstruosidade do ataque, de todos os ataques assassinos; o horror das motivações e os perigos das consequências; a necessidade de distinguir a religião do crime, porque os deuses, por cruéis que possam ser, nunca puxam gatilhos reais, só as pessoas sabem ser desumanas dessa maneira; o circo ridículo das teorias da conspiração; a importância de não sucumbir ao medo, mesmo sabendo que do medo ninguém decide; tudo isso. Vi muita gente que nunca gostou do Charlie Hebdo e que com certeza não se revia na sua sátira, referir agora como heróis os seus jornalistas e caricaturistas; vi outros tentarem desimportantizar o horror, «assassinatos há tantos… de tantos tipos…», como se algum horror se possa desimportantizar por haver outros horrores; e vi a explosão da revolta em centenas de solidários e irreverentes cartunes.

Teria ficado abalado pela morte de Wolinski e Cabu, nem que tivesse sido natural e pacífica. «Se tivesse sido feito por um louco e não por islamistas, não se falava tanto do ataque” é um dos muitas provocações que me puseram à frente. Todos sabemos que a importância de uma morte não depende só da causa, mas também de quem morre e, às vezes, como. As vidas de Wolinski e Cabu valiam exatamente o mesmo que as vidas dos outros assassinados e as de qualquer outro ser humano, mas eles eram, para muitos, também símbolos importantes. Daniel Cohn-Bendit disse numa entrevista ao Libération que foi “uma das últimas formas do espírito de Maio de 68 que foi assassinada.” Também é isso. “O que é aqui atacado”, continuou ele, “é o direito à crítica radical de todas as religiões. Charlie Hebdo é o radicalismo anticlerical, foi por isso que foram mortos.” Conheci muito mal o Charlie Hebdo da nova geração, de 1992 para cá. Aliás, nem posso dizer que conhecia o trabalho de Charb, Tignous e Honoré. Mas a irreverência radical de Wolinski e Cabu (como a de Cavanna, Reiser ou Willem, por exemplo) fizeram sempre parte do meu mundo natural, desde os tempos da revista Hara-Kiri.

Dizia-me ontem um amigo que os cartunistas e os outros assassinados tinham morrido em combate. Uma das coisas que o fanatismo religioso faz, seja ele qual for, é literalizar metáforas. Na interpretação dos textos sagrados, mas não só. Muitos cartunes que surgiram na onda de pesar e solidariedade que se seguiu ao crime assentam na ideia do cartune como arma – a que se opõem as armas reais – e é a literalização dessa ideia que justifica, na mente dos assassinos, o ato criminoso. “É muito difícil jogar com o segundo sentido, se tudo for compreendido literalmente”, disse uma vez Charb. “Não tenho a impressão de degolar ninguém com uma caneta de feltro”. A arma do cartune não tira vidas nem se destrói com balas. É ao contrário: neste caso, o terror vem dar novas munições ao humor desenhado. O combate dos que foram ontem assassinados há de continuar nos cartunes, mas é importante que continue cada vez mais fora deles. Não queremos nem este nem nenhum terror, nem este nem nenhum fascismo. E ignoremos, para nos unirmos nesta recusa, a divergência das razões que há para dizer “je suis Charlie”: Je suis Charlie moi aussi.

19/09/14

É extraordinário…

…que eu, que testemunhei tantas vezes o insólito (vi uma vez um lama na praça central de uma pequena aldeia provençal!), nunca tenha encontrado na vida um deus, um extraterrestre, uma alma de outro mundo…

03/12/13

Uma ideia estranha

Há quem defenda que a existência de um deus criador se pode concluir da improbabilidade das condições que permitem a existência de vida. As probabilidades de o universo ser como realmente é são ínfimas e, por isso, para haver vida e nós existirmos, alguma vontade inteligente deve ter afinado o universo para ele ser desta maneira – com a finalidade de nele haver vida e nós nele existirmos.

É um argumento muito estranho. Parecerá evidente a muita gente que o facto de uma determinada ocorrência ser improvável não é motivo suficiente para pensar que ela é produto de uma vontade. Mas nem é preciso ir tão longe, porque, bem vistas as coisas, este argumento não chega a ser argumento nenhum: admitindo a possibilidade de um deus criador, as probabilidades de ele ter vontade de criar um universo como o nosso também são ínfimas, como as de esse universo existir como é sem ter sido criado por nenhuma vontade divina... Então, como se sai daqui? Postulando que essa vontade do deus criador, de tão improvável, só pode ter sido produto de outra vontade que o tivesse afinado para criar um mundo em que pudéssemos ser como somos – e assim sucessivamente?

31/08/12

Um nome entre o silêncio e o ruído

Comprei por cinco coroas apenas, numa loja de segunda-mão, um livrinho de poemas de Mowlana Jallaledin Mohamad Rumi. O livro chama-se Whispers of the beloved (Londres: Thorsons, 1999) e é uma seleção de quadras do mestre sufi. Há algumas que me fazem lembrar João da Cruz ou Angelus Silesius, de quem já aqui falei uma vez. Pergunto a mim mesmo se a poesia destes místicos nos surpreende menos hoje do que surpreendia os seus contemporâneos. Rumi diz que a voz de Deus se ouve no silêncio, e que é silêncio que envolve o segredo do mundo, porque Deus é o mestre do silêncio (traduzo eu das traduções inglesas):  
Ensurdecido pela voz do desejo/ não te apercebes de que o Amado / vive no centro do teu coração. / Pára o ruído / e ouvirás a Sua voz / no silêncio (Quadra 181)
A noite passada, pedi ao Sábio que me dissesse / o segredo do mundo. / Suavemente, murmurou: / “Não digas nada; / o segredo não pode ser dito, / está envolto em silêncio”. (Quadra 1022)
Deus conhece-te sob qualquer disfarce, / ouve as palavras que não disseste. / Toda a gente se deixa tentar / pela eloquência da fala, / mas eu sou escravo / do mestre do silêncio (Quadra 742)
Que longe estamos do barulho que costuma fazer o nome das divindades – ou do barulho que com ele se costuma fazer…

19/04/12

Últimas palavras

***
Peço desculpa pelo atraso. Era na Páscoa que este texto ficava bem, não era?, e a Páscoa já foi há duas semanas na Europa e há 1 semana na Etiópia. Mas esta música fica bem em qualquer dia, acho eu…

A peça As Sete Últimas Palavras do Nosso Salvador na Cruz foi composta por Joseph Haydn em 1785 ou 1786. A obra foi-lhe encomendada para a missa de Sexta-Feira Santa na Catedral de Cádis. A interpretação da orquestra Le Concert des Nations dirigida por Jordi Savall, que vos proponho (vejam no Youtube, porque não tenho autorização para a mostrar no blogue), foi gravada nessa mesma catedral em 2009. Da génese da obra, disse Haydn (traduzo eu):
Há uns quinze anos, pediu-me um cónego de Cádis que compusesse música instrumental sobre as sete últimas palavras do nosso salvador na cruz. Era costume na Catedral de Cádis apresentar todos os anos um oratório pela Quaresma, sendo o efeito da apresentação muito ampliado pelas seguintes circunstâncias: as paredes, janelas e pilares da igreja era cobertos de pano negro e um candeeiro apenas, pendendo do meio do teto, quebrava a solene escuridão. Ao meio-dia, as portas eram fechadas e começava a cerimónia. Depois de um breve serviço, o bispo subia ao púlpito, pronunciava a primeira das sete palavras (ou frases) e fazia um discurso sobre ela. Chegado ao fim, saía do púlpito e ajoelhava-se diante do altar. O intervalo era preenchido com música. O bispo então pronunciava da mesma forma a segunda palavra, e a terceira e assim sucessivamente, entrando a orquestra após a conclusão de cada discurso. A minha composição estava sujeita a estas condições e não era tarefa nada fácil compor sete adágios de dez minutos cada um sem cansar os ouvintes. De facto, achei que era impossível ater-me aos limites que me eram dados.
Nelson Thorpes é um detetive de novelas de cordel, que tem, de vez em quando, ideias um pouco estranhas sobre música. A certo passo da sua primeira aventura, propõe uma atualização da obra:
O que se devia fazer era encomendar a um bom compositor contemporâneo, por exemplo a Bill Lee Bell, conhece, não conhece?, uma revisão de As últimas sete palavras de Cristo na cruz de Haydn em que, para as melodias iniciais de cada parte, se usassem, em vez da tradução latina das frases que o Cristo terá dito na crucifixação, essas mesmas frases em aramaico, que era a língua que Cristo falava. Por exemplo, o número de sílabas de Pater, Pater, dimitte illis, quia nesciunt, quid faciunt, “pai, pai, perdoa-lhe que eles não sabem o que fazem”, que é a frase a partir da qual Haydn constrói a primeira sonata, determina a frase melódica principal desse segundo andamento. Mas quantas sílabas terá “pai, pai, perdoa-lhe que eles não sabem o que fazem” em aramaico?
Enfim... Deixo-vos também um texto de José Saramago, que acompanha o disco e o DVD de Savall e que se chama “As sete palavras do homem”. É, com certeza, menos disparatado que as propostas de Thorpes e termina assim:
(...) Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. O futuro dirá se o espetáculo valeu a pena. E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu?
O quadro de James Tissot que termina o post, pintado entre 1886 1894, chama-se O que o nosso salvador viu da cruz, o que me parece ter ecos haydnianos; mas podia também, muito saramagicamente*, chamar-se A crucifixação vista por Jesus Cristo.

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* Não sabia que adjetivo construir do nome Saramago, para dele fazer um advérbio, mas, de repente, saiu-me este – como que por magia…

17/08/11

Matriculomancia

A matriculomancia (inglês platomancy, francês placomancie) é a adivinhação do futuro a partir das matrículas dos carros. Este método divinatório assenta nos famosos princípios filosóficos de que nada acontece por acaso, porque Deus não joga aos dados, como se sabe; de que tudo está forçosamente interligado, porque senão o universo não faria sentido; e de que o que está em baixo é igual ao que está em cima, sendo o que está escrito nas chapas de matrícula, naturalmente, o mesmo que está escrito no grande livro do destino. Et cætera.

Nenhum carro passa perto de nós sem que haja uma razão para tal. Pensem bem: de todos os carros do mundo porque haveria aquele carro passar naquele lugar naquele momento? Mais do que razão, deve até falar-se de um sentido cósmico dessa passagem. E quem tiver olhos para ver verá. Se estivermos com atenção ao que se passa à nossa volta, todos temos – ou pelo menos eu tenho – várias possibilidades de comprovar na prática que as matrículas dos carros falam frequentemente connosco. Ainda no outro dia, por exemplo, o carro à frente do nosso tinha a matrícula FB 23 183 e era conduzido por uma amiga minha do Facebook. FB = FaceBook. Não vos parece que é demasiada coincidência? É evidente que aquela matrícula me queria dizer alguma coisa. Sabendo ler o significado oculto de letras e números, obtemos da matrícula de qualquer carro informações preciosas sobre o que o fado nos reserva.

Em cada chapa de matrícula, uma mensagem do divino
Como ler o significado oculto das matrículas? Uma entrada de blogue não é o lugar ideal para revelar tão complexo conhecimento, mas, agora que sou dele depositário, estou a pensar, precisamente, em organizar uns seminários e uns cursos por correspondência para o divulgar. E a preços por tal sinal bastante em conta. Manter-vos-ei informados.

O quê, não vos cheira? Bom, não sei porquê. Não é nem mais nem menos plausível do que qualquer outro método divinatório de que já tenham ouvido falar.

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 Atenção!

É frequente a confusão de matriculomancia com matriculomania, o vício de fazer apostas sobre as matrículas dos próximos carros a passar num determinado local. Tirando o facto de se centrarem as duas atividades nos carros que passam e de haver em ambas tentativa de adivinhação, não têm, claro está, nada a ver uma com a outra…

Muitos pensarão que a matriculomancia é uma forma de aritmancia ou numerologia (adivinhação pelos números), de nominomancia (adivinhação através de letras) ou até uma mistura das duas. Mas não. Pensar-se que letras e algarismos fazem sentido só por si ou como componentes de qualquer palavra ou número é, no mínimo, uma ideia abstrusa. Os números só fazem sentido quando reunidos numa placa de matrícula!

08/08/11

Crónicas de Svendborg #2: Strandby

A quem pense que o primeiro estabelecimento comercial de qualquer povoação é sempre uma taberna, apresento-lhe a vila de Strandby, no Norte da Jutlândia:
Strandby é um dos maiores portos de pesca da Dinamarca. No porto, perto da lota e dos vários armazéns de firmas de exportação de peixe, há um restaurante chamado A Estrela do Mar, onde nos sentamos a tomar uma bebida.
“Um café com toldos da Carlsberg em Strandby! Quem imaginaria uma coisa assim quando eu era rapaz novo?”, comenta o meu cunhado.
A família da minha mulher viveu – e uma parte dela ainda vive – ali na zona. Foi ali que a minha mulher cresceu.
Quando eles eram jovens, explicam a minha mulher e o irmão dela, era completamente impossível comprar um gota de álcool que fosse em Strandby e arredores. O sítio mais próximo onde se podia tomar uma cerveja ou uma aguardente era um quiosque em Bratten. Chamavam-lhe drukruten, “a rota da bebedeira”. Em Strandby, não havia nem sequer uma pastelaria.
“Havia só a casa dos pescadores, onde se podia beber café. Álcool, em Strandby? ‘Tás maluco ou quê? Nem sonhar.”
Estou-vos a falar de há 30 anos, não de há 150, e Strandby não era nenhum lugarejo perdido. Já nessa altura havia a lota e as firmas de exportação de pescado, já a vila era um porto de pesca importante.
“Era a cultura da gente da pesca. Eram todos da Indre Mission, a “Missão Interior”. Também não se podia cortar relva, nem fazer fosse lá o que fosse ao domingo; ninguém podia usar joias nem nenhum tipo de adornos; e os miúdos não podiam ir a festas de aniversário dos colegas, porque todas as festas eram proibidas…”
Strandby, portanto, no Norte da Dinamarca, nos anos 80 do século XX.

20/05/11

Caminhos de Chuquisaca

Dentro de alguns anos, lembrar-me-ei com certeza do planalto de Manica com as mesmas saudades com que me lembro agora das montanhas da Alta Zambézia ou do planalto andino.
Vivi dois anos em Camargo, na Bolívia (a 50 metros da igreja que se vê na página da Wikipedia sobre esta pequena cidade), e muitas vezes dou comigo perdido em nostálgicos devaneios, a passear mentalmente pelos cerros de Chuquisaca.
As estradas agora já estão muito melhores, ao que consigo perceber, e não encontro no YouTube nenhum vídeo da antiga estrada de Tarija para Potosí, que eu fiz dezenas e dezenas de vezes, sempre cheiínho de medo. Sim, porque a gente habitua-se um bocadinho àquelas estradas, mas nunca se habitua completamente. Mas deixo um vídeo de uma estrada um pouco mais a sul, que dá uma ideia bastante clara do tipo de estrada a que me refiro*.



Agora, o que o vídeo não mostra é a beleza assoberbante da paisagem. O azul (azul!) das montanhas arredondadas – são montanhas velhas, os Andes – até perder de vista lá para os lados da fronteira com a Argentina. E também não mostra as cruzes que há dos lados da estrada, a assinalar acidentes mortais. Uma vez, conheci pessoalmente um sobrevivente de uma dessas frequentes tragédias. Eis um excerto de uma carta que escrevi de Camargo nessa altura:
O mestre pintor que pintou a nossa casa chama‑se Celso. É professor de desenho e trabalhos manuais na escola secundária local e pintor de tudo, desde paredes a cartazes, montras e quadros. Um dia, já não sei a propósito de quê, perguntou‑me se eu era crente. Eu disse‑lhe que não.
«Isso é porque você nunca passou pelo que eu passei», disse ele. Ele coxeia, mas eu não sabia, até essa altura, a razão de ele coxear:
«O autocarro em que eu ia caiu por uma ribanceira. Excesso de velocidade, sabe? Morreu muita gente, foram 100 metros de queda. Mas eu safei‑me. Tinha a perna toda desfeita, mas estava vivo. Nessa altura, já tinha os meus dois filhos e acho que foi isso que me deu mais força. Agora, você vê, coxeio um bocado, mas consigo andar. E isso, ninguém acreditava que fosse possível. Mas foi. Tive de tornar‑me crente e de rezar muito. Crente em tudo: em Deus, na Virgem, na Pachamama...»
Tenho uma descrição da minha primeira viagem nas estradas daquela zona, escrita no Verão de 1999, ainda antes de lá morarmos, quando estávamos a fazer um curso de castelhano em Cochabamba:
Fomos visitar a nossa futura terra. Apanhámos um avião até Tarija e veio um colega da Karen buscar‑nos para nos levar a Camargo. A primeira coisa que vos quero dizer é que decidi que, durante os próximos dois anos, só vou sair de Camargo quando for mesmo imprescindível. E isto não é porque a vilazinha seja assim tão apaixonante que eu não queira mais nada no mundo. É antes porque as estradas que ligam Camargo ao resto do mundo (a Tarija e a Potosí, concretamente) são tão medonhas que eu não aguento. É uma tortura. Sabem que eu tenho pânico das alturas, vertigens, tudo isso. Então agora imaginem dezenas de quilómetros de estrada de montanha de cascalho solto, de quatro metros e às vezes menos de largura, em curvas permanentes, a mais de 90º às vezes, sem nenhuma protecção lateral e ribanceiras a pique de centenas de metros (isto não é exagero!), o carro a derrapar forçosamente um bocadinho de vez em quando, tudo isto com um trânsito que, sem ser intenso, é, ainda assim, razoável, sobretudo de camiões e camionetas de passageiros. Que caem, de vez em quando, como seria de esperar. Na estrada da Camargo para Potosí, por exemplo, no fundo duma ribanceira ainda lá estava a carcaça de um autocarro de passageiros. «Nos dois últimos meses caíram aqui dois nesta zona», explica o Pedro, o tal colega da Karen. «Cerca de vinte e cinco mortos de cada vez». Ou seja, a carga total das camionetas – é claro que, numa queda assim, é mínima – ou nula – a possibilidade de escapar vivo. No dia seguinte, em Potosí, recebemos a notícia de mais um desastre desses: 27 mortos, desta vez. Então, já decidi: de Camargo, só saio quando for mesmo imprescindível…
E conservo também uma descrição da minha última viagem de Tarija para Camargo, dois anos mais tarde (não me lembro já porque foi imprescindível ir a Tarija nessa altura…):
Enquanto espero pelo autocarro em Tarija, sento-me a beber umas cervejas num dos muitos botequins que há em frente ao terminal rodoviário. Vem servir-me, sorridente, uma miudinha dos seus 10 anos. Depois, vem a mãe dela meter conversa comigo: se estava tudo bem, de onde era, para onde ia. É claro, como a maior parte das pessoas aqui, não faz ideia de onde seja Portugal.
«Uh, é longe!...», digo‑lhe eu, «Do outro lado do oceano!»
Quando lhe digo que vivo em Camargo há quase dois anos, fica um bocado preocupada:
«E não lhe faz confusão estar assim longe da sua terra tanto tempo, com outras gentes, outras comidas, outras maneiras de ser?»
«Ah, não, eu estou bem em qualquer lado. Sinto falta dos amigos, mas de resto tanto me faz estar aqui como noutro sítio qualquer...»
«Ah, eu acho que não aguentava. Eu fui uma vez a La Paz e outra a Cochabamba, e só queria voltar a casa o mais depressa possível – as pessoas são estranhas, a comida é estranha, uma pessoa não se sente à vontade...»
E é assim a vida: há quem, como eu, se congratule com a sorte que tem de poder sair do seu mundo e de poder conhecer outras maneiras de viver; mas há muito para quem seja um drama ter de abandonar, nem que por pouco tempo, o seu mundo, o seu cantinho...
Tinha comprado um livrinho com o pomposo título de Bestiário de máscaras – papéis perversos do ciclo psicótico e entretive-me a lê-lo. Era um desses livros que há, publicados em edição de autor ou em pequenas editoras marginais, escritos por jovens literatos que citam escritores malditos e se sentem um deles: “A voz da literatura é um fio de água na terra seca dos discursos do poder. Essa voz imperceptível corrói as máscaras; diz a antipolítica, diz a contra-realidade, diz a periferia e os exilados mentais, diz a memória dos índios, diz os herméticos filósofos hereges e as sociedades secretas que são e foram, diz o variado bestiário da decadência, a misantropia e a loucura”.
As cervejas fizeram-me bem. Tinha, aliás, bebido de propósito para relaxar e foi isso que confessei ao senhor que ia a meu lado, com quem mantive uma animada conversa toda a viagem:
«Bebo sempre umas cervejas antes destas viagens, sabe?, para perder um pouco o medo dos precipícios…»
«Deixe estar que não é só você», respondeu-me ele, «muita gente faz a mesma coisa. Até os condutores dos autocarros…»
_______________

* Este parágrafo foi atualizado a 18 de outubro de 2017. Antes, havia mesmo um vídeo da estrada de Tarija para Potosí, que entretanto foi retirado do YouTube.

11/04/11

Angelus Silesius, a poesia e a essência desabitada e silenciosa de Deus

Não é nada esotérico, até vem na wikipédia: Numa conferência que deu sobre poesia em 1977, Jorge Luís Borges afirmou que se podia resumir tudo o que acabava de dizer a uma frase de um relativamente obscuro autor seiscentista (traduzo eu, como traduzo, neste texto, tudo o que está em português a castanho):
Vou concluir com um alto verso do poeta que no século dezassete tomou o nome estranhamente poético, real, de Angelus Silesius. Vem a ser o resumo de tudo quanto disse esta noite, com a diferença de que eu o disse por meio de raciocínios ou de simulados raciocínios: di-lo-ei primeiro em espanhol e depois em alemão, para que o oiçam: “La rosa [es] sin porqué, florece porque florece. / Die Rose ist ohne warum; sie blühet weil sie blühet.” [Trata-se do dístico I. 289 da obra O Peregrino Querubínico[1]: “A rosa é sem porquê, floresce porque floresce”]
Quem era este poeta místico daSilésia? Chamava-se Johannes Scheffler de seu nome de baptismo, e nasceu em Breslávia (Wrocław), em 1624. Teve uma educação luterana, e foi cientista e médico, e homem de grande cultura. Convertido ao catolicismo em 1653, tornou-se dois anos mais tarde médico imperial-real da corte do Imperador Fernando III. Abraçou o sacerdócio em 1661, tendo-se tornado coadjutor do Príncipe-Bispo de Breslávia, e foi no mosteiro de S. Matias da sua cidade que veio a falecer em 1677.
Segundo Carlos García[2], Silesius foi um dos místicos alemães que fascinou Borges. E é fácil compreender este fascínio, porque, no poema referido como em muitos outros, parece um poeta à frente do seu tempo. O Peregrino… foi publicado em 1657. Ainda vinha longe
…a rose is a rose is a rose,
que Gertrude Stein escreveu 256 anos mais tarde.
Agora: sabemos, por Carlos García, que a referência a Angelus Silesius que mencionei no início do texto está longe de ser a única na obra de Borges e que «o topos da “rosa sem porquê” é um dos «motivos vindos de Silesius (…) que são recorrentes em Borges». A leitura que Borges faz deste dístico de Angelus Silesius, porém, vai variando ao longo do tempo (ou talvez antes consoante a estratégia favorecida para provocar estranhamento no leitor…). Se, na referida conferência de 1977, o apresenta como resumo do seu próprio pensamento sobre a poesia, em 1933 tinha-o apresentado como o exacto oposto da sua filosofia.
Die Ros ist ohne Warum, a rosa é sem porquê, lemos no livro primeiro de O peregrino… de Silesius. Eu afirmo o contrário, eu afirmo que é imprescindível uma tenaz conspiração de porquês para que a rosa seja rosa.
Num discurso de 1963, o verso de Angelus Silesius não aparece como reflexão sobre a poesia, mas como exemplo da metamorfose que o discurso analítico tem de sofrer para ser ele próprio poesia:
Imaginemos, por exemplo, que um poeta dizia que a beleza é inexplicável. Não teria dito nada. Mas se esse poeta, que seria o grande poeta alemão Angelus Silesius, disser “Die Rose ist ohne warum”, (“A rosa é sem porquê”), já está criando poesia.
No ano seguinte, o mesmo verso serve-lhe de máxima anti-analítica:
Die Rose ist ohne warum (“a rosa é sem porquê”), é a famosa frase de Angelus Silesius no livro primeiro do seu Peregrino…; a sentença do místico adverte-nos da possível profanação que encerra toda a análise do belo.
Não sei, sinceramente, por que fui buscar Borges para introduzir Angelus Silesius. De facto, não me lembro de ter visto alguma vez nos textos de Borges referência ao místico polaco. O meu encontro com Angelus Silesius, que se deu nem há um mês, não tem nada a ver com Borges. Nem sei, aliás, como fui parar a um texto de Angelus Silesius, só sei que texto era: uma tradução em inglês de Stephen Mitchell do dístico 25 do livro I de O peregrino…, que diz assim
God is a pure no-thing, concealed in now and here:
the less you reach for him, the more he will appear.
Soa bem a tradução, como também soa muito bem esta outra de Julia Bilger, que traduziu O peregrino… em 1944 (atente-se na sequência nothingness  – knoweth – now e na aliteração em gr- de grope e grow, além das assonâncias em [o] e [ow] que percorrem todo o dístico):
God is all Nothingness, knoweth not here nor now;
The more we grope the more elusive will he grow.
God is an utter Nothingness, / Beyond the touch of Time and Place:
The more thou graspest after Him, / The more he fleeth thy embrace.
Lauter Nichts, eis como aparece no texto original o mais surpreendente sintagma do poema, este “puro Nada”. Aqui fica a minha pobre tradução (literal que não literária, peço desculpa…), para quem não compreenda o inglês:
Deus é puro Nada, para além do agora e do aqui. / Quando menos O procurares, mais Ele aparecerá.
Muitos poemas de Angelus Silesius soam assim, como se dissessem alguma verdade tão fundamental que só pode ser dita como o é. O que significa, para um cristão, que Deus é puro Nada que se revela quando O não buscamos? Ao ler um poema como
Sei que Deus nem uma hora sem mim pode viver. / Morra eu e o próprio Deus a sua preciosa vida há-de render. (I. 8:JB[3])
parece que estamos diante de uma asserção ateísta, em que se apresenta Deus como uma entidade unicamente existente na mente do crente. Mas tal interpretação só pode resultar de uma incompreensão do misticismo de Angelus Silesius, que pressupõe uma identificação essencial de Deus e do crente.
Nenhum caminho leva à Luz em que Deus vive; / Terá de se tornar essa Luz quem não quiser que dele Deus se esconda. (I.072:JB&CF)
Nada pode nunca em Deus ser conhecido: um e um apenas, / eis o que Ele é. Para O conhecer, o Conhecedor e o Conhecido têm também de ser um. (I.285:CF)
A Enciclopédia Católica insiste que, embora “um pequeno número destas estrofes pareçam ter um travo de quietismo ou de panteísmo”, “devem ser interpretados num sentido ortodoxo, pois Angelus Silesius não era um panteísta. Os seus escritos em prosa são ortodoxos; “O Peregrino Querubínico” foi publicado com o Imprimatur eclesiástico, e, no seu prefácio, o próprio autor explica os seus “paradoxos” num sentido ortodoxo e repudia qualquer interpretação panteísta que dela venha a ser feita.” É bem possível, como é bem possível que o prefácio com a interpretação ortodoxa do autor tenha sido condição para o Imprimatur… Seja como for, panteísmo nem sequer foi o conceito que me veio à mente quando li O peregrino… É certo que, por vezes, os dísticos de Angelus Silesius dão conta de uma reflexão mística que, embora sofisticada, não se afasta sobremaneira da linha de pensamento de outros filósofos cristãos: uma platónica visão de Deus como a eterna matriz de Tudo
A rosa que hoje contemplas com o teu olhar exterior / Floresce e floresce em Deus durante toda a eternidade (I.108:JB&CF).
ou uma visão da eternidade não como um eterno prolongamento do tempo, mas antes como algo que é essencialmente diferente dele
Lá na Eternidade, tudo acontece ao mesmo tempo. / Não há antes nem depois, como aqui no reino do Tempo (V.148:CF)
ou quando propõe, como outros místicos cristãos, que o caminho mais curto para Deus é o amor, não a razão:
O Amor, sem ser anunciado, mais depressa será recebido por Deus. / A Inteligência e o Engenho muito tempo na corte terão de esperar. (5.307:JB)
Outras vezes, trata-se de um misticismo que, sui generis que possa ser,  não parece incompatível com a busca (também cristã, entre outras…) de estados de comunhão com uma divindade transcendente:
Difícil tarefa, a de viver o amor; não devemos / amar apenas, mas sim tornarmo-nos amor, como Deus é. (I.071:JB)
Deus não está aqui nem está ali. Ao procurá-Lo /, que tenhas presas as mãos e os pés, presa a alma e preso o corpo. (I.171:JB&CF)
Vai onde não podes ir, vê onde nada se pode ver, / Ouve onde não há som que se oiça: estarás onde Deus fala. (I.199:JB&CF)
Deus é, mas só como Ele é. Não ama nem vive / como tu ou como eu ou como do mundo os outros seres. (II.055:JB&&CF)
Sai tu — e entrará Deus; morre para ti próprio – começaste assim / A viver para Deus; Não sejas – Ele é; Não faças nada – e estará assim feito o que ele manda. (II.136:CF)
Deus não prevê nada – é o teu senso frouxo e atarantado / Que o veste com o atributo da Providência. (V.92:CF)
Deus não pensa. Pensasse Ele / e poderia hesitar, o que é, para Ele, impensável. (V.173:JB&CF)
Deus – uma força eterna que alcança tudo o que quer, / Nunca deixando de ser como é: sem forma, sem propósito, sem vontade. (5.358:JB&CF)
Outras vezes, porém, Angelus Silesius surpreende por o seu misticismo (ou deve antes dizer-se a sua poesia?) parecer tão pouco ocidental e tão próximo do pensamento oriental. Esta generalização abusiva pensamento oriental, que noutras circunstâncias evitaria, não me parece, no presente contexto, despropositada para referir algumas constantes de vários pensamentos asiáticos: refiro-me, concretamente, a um ideal de suprema objectividade – conhecer, aceitar o mundo como ele é – alcançável pela obliteração de si, pela interrupção ou aniquilação da mente. Não é o único caso em que um místico cristão se aproxima da mística asiática, é certo, e vieram-me à mente, quando li Silesius, alguns versos do “Monte de Perfección” de San Juan de La Cruz (um poeta de que gosto muito) que aqui vos deixo no castelhano original:
1
Para venir a gustarlo todo
no quieras tener gusto en nada.
Para venir a saberlo todo
no quieras saber algo en nada.
Para venir a poseerlo todo
no quieras poseer algo en nada.
Para venir a serlo todo
no quieras ser algo en nada.
2
Para venir a lo que gustas
has de ir por donde no gustas.
Para venir a lo que no sabes
has de ir por donde no sabes.
Para venir a poseer lo que no posees
has de ir por donde no posees.
Para venir a lo que no eres
has de ir por donde no eres.
3
Cuando reparas en algo
dejas de arrojarte al todo.
Para venir del todo al todo
has de dejarte del todo en todo,
y cuando lo vengas del todo a tener
has de tenerlo sin nada querer.
[…]
Mas são, convenhamos, casos raríssimos, muito excepcionais. Além do texto através do qual conheci Angelus Sibelius e que já referi atrás, eis outros fascinantes dísticos aparentemente muito pouco católicos deste budista de Breslávia:
Se algo és para ti próprio, se algo amas e queres, / Se algo sabes e tens, continuas a transportar a tua carga. (I.024:CF).
Sem nada querer nem nada buscar, Deus é paz eterna: / se como ele não desejares nada, será igual à dele a tua paz. (I.076:CF)
Quem se tornar deus deve ser diferente de tudo o resto. / Deve livrar-se se si próprio, libertar-se de toda a queixa. (I.084:JB).
Quem for como se não fosse, nem tivesse chegado a ser, / tornou-se — ó Felicidade!—pura divindade. (I.092:CF).
Quanto mais de ti de ti próprio conseguires verter e deitar fora / tanto mais, cada vez mais, Deus fluirá em ti com a sua mente divina. (I.138:CF).
Pudesse o Diabo abandonar o seu ser-ele, e logo / o Diabo verias sentado no trono de Deus. (I.143:CF).
Oramos: seja feita a Tua vontade. / Mas vede: Deus não tem vontade, ele é apenas imutável quietude. (I.294:JB&CF).
Liberta-te de ti próprio, liberta-te de toda a criação. / Deus enxertará então em ti a sua natureza divina. (II.057:CF).
O nada leva-te além de ti próprio / tão seguramente como a anulação de ti: / Quanto mais te conseguires anular / mais há em ti de divindade. (II.140:CF).
Deus, cujo maior prazer é viver contigo, prefere vir / a tua casa quando tu lá não estás. (V.033:CF).
Se Deus procuras, Homem, deves / perder primeiro a identidade de ti próprio, / e nem nunca voltar a encontrar de novo o rasto do teu Eu em toda a eternidade. (V.220:CF).
E, finalmente, tirado da ordem do livro para lhe dar o lugar de destaque que acho que merece e a que se costuma chamar chave de ouro: 
O abandono leva a Deus: / Mas o supremo abandono, / que poucos há que compreendam, / é abandoná-lo a Ele também. (II.092: CF)
Esta é a mais radical e mais surpreendente de todas as sentenças: dá um sentido novo a todas as outras, ao precisar um fim último da busca mística que implica passar para além de qualquer ideal de perfeição anulando-se assim a própria busca. Zen?
Não sei se arriscaria afirmar que é esta a lição de toda a poesia, pois que há poesia de muitas categorias e de variados intentos; mas é, desculpem repeti-lo, esta a grande lição da poesia de Angelus Silesius: se diz assim o que diz, se não pode fugir ao estranhamento e à (pelo menos aparente) contradição, é porque o que diz não tem outra forma de ser dito. Silesius vai até onde as palavras o deixam, digamos assim. Depois disso, o que há a (não) dizer é só silêncio, já não palavras. Podermos considerar que diz isto mesmo várias vezes ao longo da obra, e de várias maneiras, mas di-lo mais explicitamente, de uma forma mais conclusiva, mais brutal, no último dístico do texto: A conclusão que tanto fascinou Borges e que tanto fascina, sem dúvida, todos os que se aventurarem na sua invulgar visão mística, só pode ser a que apresenta no último dístico de O Peregrino (VI.263), é a seguinte, no alemão original:
Freund, es ist auch genug. Im Fall du mehr willst lesen,
So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen.
JB dá-nos do dístico a tradução
Friend, I have said enough. If thou wouldst read still more,
Then go thou and thyself become the script and lore.,
e CF uma tradução ligeiramente diferente,
Friend, it is now enough. Wouldst thou read more, go hence,
Become thyself the Writing and thyself the Sense.
Borges também traduziu o dístico. Em 1960 (e desta vez não é certo que tenha sido ele, pode ter sido Bioy Casares, o co-autor do Livro do Céus e do Inferno, onde a tradução aparece, ou podem ter sido os dois em conjunto), traduziu-o da seguinte forma (destaque meu):
Ya basta amigo. Si quieres seguir leyendo, transfórmate tú mismo en el libro y en la doctrina.
Em 78, porém (agora sem dúvida Borges, só ele), já propõe outra tradução (de novo o meu destaque):
Amigo, ya basta. En caso de que quieras seguir leyendo, sé tú mismo el libro y tú mismo la esencia.
É melhor, esencia traduz mais directamente que doctrina o Wesen original. E, se tenho razão na minha proposta de que se trata aqui de versos que muitas vezes nos soam estranhos – paradoxais, ou até incómodos – porque são a única maneira de dizer certas coisas, só uma tradução literal faz sentido. Carlos García, que nos conta a história, propõe ele a sua própria tradução ainda «mais literal» (destaque meu), que é a que prefiro e que escuso de traduzir, por óbvia para qualquer falante do português:
Amigo, ya es bastante. Si quieres más leer / Ve y transfórmate en el libro y en el ser.
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[1] A obra publicada pela primeira vez em 1657, chamava-se originalmente Geistreiche Sinn- und Schluss-Reime, que não me atrevo a traduzir. Em 1674, foi publicada uma segunda edição com o título Cherubinischer Wandersmann, "O Peregrino Querubínico". Neste texto, para simplificar a referência, o livro será sempre referido como O Peregrino….
[2] Ver o ensaio de Carlos García Borges y el misticismo alemán, de onde foi retirada muita da informação necessária para escrever este texto. Na minha opinião, trata-se de um ensaio de leitura obrigatória para todos os amantes de Borges. Todas as referências de Borges a Angelus Silesius são retiradas do texto de García.
[3] A indicação entre parênteses no fim das minhas traduções dos dísticos de Angelus Silesius indicam: em númeração romana, o livro – a obra divide-se em 6 livros; em algarismos árabes, o número do dístico no livro; as iniciais JB ou CF indicam de que traduções inglesas traduzi para português, se das de Julia Bilger ou das de J. E. Crawford Flitch (em http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/alex/index.htm e http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/scw/index.htm, respectivamente) – ou se usei traduções de ambos, quando assinalo JB&CF.

12/12/10

O que nem a brincar se diz e o que a brincar nunca se sabe se se diz ou não

Tantas vezes que me tem acontecido: eu achar que uma piada é a troçar de uma coisa e a pessoa a meu lado julgar que é a troçar de outra. Até já vi gente zangar-se, e muito!, por não concordar sobre aonde pretende chegar uma graça: uma pessoa, que interpreta a graça de uma certa maneira, acha que graças assim não têm gracinha nenhuma; a outra, que a interpreta de outra maneira, diz-lhe que é patetice não achar graça à tal graça… Uma das questões que se coloca frequentemente em relação a cartoons, sketches de comédia e outras intervenções de sátira moral, de costumes ou directamente política, é que são, de facto, interpretados de diversas maneiras, algumas antagónicas entre elas...
O que é ao certo o humor, não sei dizer. Uma ideia que me parece produtiva, no entanto, para explicar o que nos faz rir é a de que o humor surge da quebra da ordem de coisas considerada natural pela pessoa que ri – contanto que essa quebra da ordem natural não cause real sofrimento: uma pessoa que escorrega numa casca de banana e cai faz rir, se não ficar desmaiada ou cheia de sangue.
Como a ordem natural de certas coisas não é a mesma para toda a gente, o que é, para alguns, quebrá-la não o é forçosamente para outros. Isto pode estar relacionado com a cultura de cada um, em sentido lato, mas também pode ter que ver exclusivamente com, por exemplo, os conhecimentos, a ideologia e os sentimentos do indivíduo – a cultural no sentido mais pessoal que a palavra possa ter. Um exemplo do que acabo de afirmar: o grupo Les Luthiers fez uma experiência interessante de humor musical: sobrepor, no tema “Concerto grosso alla rustica”, uma peça barroca, tocada com uma orquestra de cordas, e uma música de tipo popular andino, tocada com instrumentos tradicionais (não é, note-se, uma peça de humor em que se pretenda dar uma opinião, mas estou agora a falar de uma característica geral do humor).



As reacções que tenho observado à peça vão desde desatar à gargalhada (reacção de muita pouca gente, com alguma educação musical e que conhece bem os dois tipos de música que ali se fundem) até ficar perfeitamente impassível, sem perceber o que se pretende com aquilo (reacção da grande maioria das pessoas).  
Além disso, não basta que a obra humorística nos provoque estranhamento, temos de reconstruir a ordem pervertida para perceber a piada. Essa reconstrução pode levar também diferentes pessoas a diferentes ideias do que foi destruído, consoante os seus pressupostos ideológicos ou culturais, e a que compreendam, pois, a piada de diversas maneiras. Creio, por exemplo, que a leitura de alguns cartoons de Dan Pararo relacionados com questões religiosas depende da posição de quem vê o cartoon relativamente a estas questões.

Embora provavelmente certos cartoons deixem menos espaço para várias interpretações do que outros (não é o caso deste último, relativamente aos quatro anteriores pelo menos na resposta à pergunta: “Este cartoon é contra a religião ou contra o ateísmo?”), a ambiguidade nunca desaparece completamente. Não quero dizer com isto que o humor implique forçosamente, como nestes exemplos, a possibilidade de leituras plurais. Apenas que pode perfeitamente trazer agarrada a ele essa possibilidade – e a traz de facto muitas vezes agarrada.
Outra questão é a do limite da gravidade que bloqueia o humor. Para diferentes pessoas, situa-se em diferentes pontos a fronteira onde a gravidade dessa quebra da ordem natural deixa de fazer rir para provocar vários tipos de reacções negativas, desde o puro estranhamento ao incómodo ou à repulsa. Dito de outra forma, variam também ideológica e culturalmente os limites daquilo com que se pode brincar – ou daquilo que pode fazer parte de brincadeiras, mesmo que não seja o seu objecto central.
Estava no outro dia a ouvir o álbum Beleléu, leléu, eu, de Itamar Assumpção e a pôr-me esta questão relativamente à canção “Luzia”). 

A letra da canção é a seguinte:
[Falado, várias vozes de mulheres:] Olha aqui, Beleleú! Tá limpo coisíssima nenhuma, meu, não tô mais afins de curtir a tua e nem ficar tomando na cara, essa de ficar na de que o Brasil não tem ponta direita, o Brasil não tem isso, o Brasil não tem aquilo, que black navalha é você, Beleléu? Tá mais é parecendo chamariz de turista e isca de polícia, onde tá tua malícia, meu, onde tá tua malícia?
[Voz de homem, cantado:] Deixa de conversa mole Luzia  / Porque senão eu vou desconsertar a sua fisionomia / Porque senão eu vou desconsertar / Você quer harmonia mas que harmonia é essa Luzia? / Só me enche o saco (só chia, só chia) / Me obriga à mais cruel solução / Desço pro porão da vil covardia, mas te meto a mão / Chega de conversa mole, Luzia / Eu sei que tua mãe já dizia, é mais um / Malandro talvez ladrão / Já não chega a sogra e agora a cria, que decepção / Você nem vai ter o prêmio de consolação / Quando eu pintar, trazer a taça de tetracampeão / E uma foto no jornal / Chega pra lá Luzia, ainda vou desfilar / Tetracampeão Luzia, porta estandarte
O tom de música e letra leva nitidamente a/o ouvinte a interpretá-la como humorística. Mas o que diz esse humor? O primeiro problema é o da ambiguidade da sátira. O que é que está a ser satirizado? A personagem feminina da canção, a personagem masculina ou ambas? Em seguida, põe-se o problema dos limites do humor: só pode haver humor se a/o ouvinte não interpretar o machismo – e, principalmente, a violência doméstica – como algo tão grave que suspenda toda a possibilidade de fazer rir ou sorrir.
E onde quero eu chegar, então? Quero com isto dizer que não pode exprimir-se opiniões através de anedotas, cartoons e sketches de comédia? Não, pode. Mas, a não ser que sejam muito especiais, tem de se aceitar à partida que aquilo que se quis dizer pode ser – e vai ser, provavelmente… – interpretado também de outra maneira…
***
Nota final a propósito de uma obra recentemente lida, que de humorístico não tem nada:
O problema da ambiguidade da opinião que se quer fazer passar não é, obviamente, só do humor. Também o discurso literário pode ser interpretado de várias maneiras, possivelmente até muito diferentes umas das outras. A ideia é antiga e banal, e não vou repisá-la aqui; mas descreve, a meu ver, de forma eficaz, uma parte importante do fenómeno literário e artístico em geral. Não é esta, no entanto, a única razão possível para limitar a eficácia da literatura como meio de exprimir opiniões morais, políticas ou outras. Outra razão pode ser que a densidade psicológica das personagens ou das pessoas líricas, quando existe, interfira com a mensagem que se pretende transmitir. Dito doutra maneira, revelar a complexidade profunda dos sentimentos e das acções humanas torna-se muitas vezes incompatível com tomadas de posição sobre determinadas questões, porque dilui a distinção do que se apresenta como certo e errado.
Por exemplo, li recentemente The Power and the Glory, de Graham Greene. A história do livro passa-se no México dos anos trinta, na época das perseguições aos católicos por parte do governo de Plutarco Elías Calles, que foram especialmente violentas no Estado de Tabasco, governado pelo feroz anticlericalista Tomás Garrido Canabal. Não tenho dúvidas de que Graham Green tenha escrito a novela com intenções de denunciar as perseguições aos católicos e os crimes de que foram vítimas muitos padres. Apesar disso, como faz uma caracterização psicológica extremamente densa das personagens, vasculhando em contradições universais da mente humana, sejam quais forem as suas convicções, o livro não se pode usar como instrumento político nem a favor de nada nem contra coisa nenhuma. De facto, conforme esteja para isso predisposto ideologicamente, o leitor pode ler nele desde um panfleto contra o militantismo revolucionário anticlericalista até um panfleto contra a própria religião e, sobretudo, a religião católica.
[Escrevi isto antes de saber que, de facto, o cardeal Bernard Griffin tinha condenado a novela acusando-a de “paradoxal” e exigindo que Greene alterasse partes do texto. Deixo aqui um link para uma página com alguns excertos da autobiografia Ways of Escape, em que Greene fala sobre as personagens da novela.]