(Escolham, dos dois subtítulos que proponho, o que mais vos agradar:)
Não batas mais na velhinha ou
Ele a dar-l’e a burra a fugir
1. O nome e a coisa:Diz Filipe Pereirinha[1], a propósito da
primeira campanha publicitária ateísta[2], que «Saramago – um ateu, por sinal – [disse] que Deus não desaparecerá enquanto não desaparecer o nome de Deus. Mesmo que Deus não exista, que seja um puro vazio, enquanto a linguagem o fizer ex-sistir, Deus ex-sistirá. Certainly! A frase escrita no autocarro [da campanha, “there’s probably no god”] é uma prova da existência de Deus». É uma retórica conhecida e, a julgar pela fortuna que tem, sedutora, mas é só mesmo isso. Se não… eu amanhã vou começar a dizer a toda a gente que não fale mais de malária. Se nunca mais o nomearmos, havemos de erradicar o parasita.
É um abuso, eu sei, o que eu estou a fazer, mas também é um abuso reduzir a existência de Deus (ou dos gnomos, das fadas, dos unicórnios ou dos leprechauns, para o caso tanto faz…) à sua nomeação, sobretudo porque quem acredita na existência de deus não é na existência dele como nome que acredita. Aliás, há até quem acredite na coisa-deus sem acreditar na possibilidade da sua nomeação. Por outras palavras, a discussão entre ateístas e teístas é uma discussão sobre a existência
de facto de uma entidade com as características que estes últimos atribuem aos seus deuses.
2. Mais vale ignorá-los do que dar-lhes importância
Há, porém, outra leitura (mais interessante, talvez…) que se pode fazer das palavras de Saramago citadas por Pereirinha: é que é má estratégia da parte dos ateístas passar a vida a discutir a existência de Deus. Há muitos ateus que insistem nisso: «Deixem estar isso, não batam mais na velhinha, é vocês a darem-lhe e a burra a fugir…», dizem eles, «A única coisa que conseguem assim é dar a deus uma importância que ele não tem». A discussão aqui é, pois, de estratégia política. Tenho visto nos últimos tempos acusações a Richard Dawkins, a Sam Harris, ao falecido George Carlin e outros proeminentes ateístas militantes de, pela sua “intolerância” ou pela sua “agressividade”, terem contribuído mais para a causa religiosa do que os próprios religiosos. Mas não concordo. Vi seguirem-se estratégias de abstenção da discussão em relação a outras questões e com maus resultados. Estou convencido, por exemplo, de que uma das razões para o crescimento da extrema-direita racista na Europa, nos anos 90, foi a recusa dos não-racistas de se “rebaixarem” ao ponto de discutir em público com ela...
3. Orgulho ateu?
Pereirinha diz também que “vivemos na época da marcha e do orgulho; coube, desta vez, ao orgulho ateu fazer também a sua marcha”. Orgulho? Mas orgulho por quê ou em quê? A história da campanha publicitária ateísta,
explica o seu site, é a seguinte (traduzo eu):
A campanha começou quando a escritora de comédia Ariane Sherine viu um anúncio, num autocarro londrino, em que se citava uma frase da Bíblia, “Quando o Filho do Homem vier, será que encontra Fé nesta Terra?” [sic]. Abaixo da citação, havia um URL, e quando Sherine visitou o respectivo site ficou a saber que, não sendo crente, seria “condenada à eterna separação de Deus e passaria toda a eternidade em tormento no inferno”.
Orgulho ateu? Então uma pessoa estar sempre a levar com estas e outras campanhas de terrorismo mental não é razão mais do que suficiente para reagir? Toda a gente refere agora (porque é, como dizer?, giro… pois, fora do vulgar, divertido até...) a campanha ateísta, mas não me lembro de haver muita gente a referir os milhares de campanhas publicitárias religiosas que houve e há por esse mundo fora. Um dos méritos desta campanha é precisamente fazer notar às pessoas o estranho que é para elas alguém fazer o contrário daquilo a que estão habituadas, que é evangelização a torto e a direito.
Mostra de orgulho? E por que não legítima defesa? Uma verdade simples e demasiado ignorada é que os ateus são sistematicamente discriminados. Fala-se muito hoje da liberdade de crença e culto, como se fosse a crença e o culto a única opção possível, mas ninguém fala da liberdade de cultivar activamente a negação da existência de deuses e toda a classe de superstições. A constituição e as leis de diversas nações reconhecem a todas as religiões os mesmos direitos, em termos de educação, por exemplo, mas nunca mencionam os direitos dos ateus (nos países onde se pode escolher para os filhos educação moral e religiosa, posso requisitar para o meu filho um professor de ateísmo?). Os parágrafos sobre blasfémia (que presumo que incluam a asserção simples de que “Deus não existe”, como é que isso pode não ser blasfémia?) existem nas leis de vários países muito democráticos e muito progressistas; mas eu não posso levar ninguém a tribunal por ter afirmado que deus há-de punir o meu racionalismo com eterno sofrimento, uma asserção que me ofende profundamente… A esmagadora maioria dos atlas e das páginas de factos sobre os diversos países e áreas geográficas menciona a percentagem de praticantes das várias religiões, mas muito raramente se menciona o número de ateus e agnósticos – mesmo quando, como no caso de Moçambique, um quarto dos cidadãos declararam, no último censo, não terem nenhuma religião. Há muitos estados oficialmente religiosos e vários estados laicos, mas não conheço nenhum estado oficialmente ateu ou agnóstico
[3]. Orgulho ateu? Nós estamos é fartos, muito sinceramente.
4. Ciência, racionalismo, religião e democracia: a questão moral
Outra discussão interessante, aflorada também por Pereirinha no seu texto, é a da palavra
probably no anúncio inglês. «Para quem leu Nietzsche ou Dostoiévski», diz ele, «este “probably” está a mais.» Bom, de certeza que não é só para quem tenha lido Nietzsche ou Dostoiévski que o
probably pode estar a mais. Mas o facto é que ele não está a mais para muitos ateístas. A palavra é um indicador claro de uma atitude que o racionalismo ateísta não partilha com as crenças religiosas – uma diferença moral. Na já referida página FAQ do site da campanha, uma das “perguntas frequentes” a que se responde é «Por que é que só “provavelmente” não há deus?». A resposta:
Tal como acontece nos famosos anúncios da Carlsberg («provavelmente a melhor cerveja do mundo»), “provavelmente” contribui para garantir que os nossos anúncios não infrinjam regras de publicidade. A Comissão da Prática Publicitária informou a campanha de que «a inclusão da palavra “provavelmente” torna a campanha menos susceptível de ofender, e, portanto, de quebrar o Código da Publicidade».
Disse Ariane Sherine: «Também gosto de “provavelmente” por outra razão: significa que o slogan é mais rigoroso, uma vez que, embora não exista prova científica da existência de Deus, também é impossível provar que Deus não exista (ou que outra coisa qualquer, seja ela qual for, não existe). Como Richard Dawkins diz em The God Delusion
, dizer que “Deus não existe” é assumir uma posição de “fé”. Escreve ele: “Os ateus não têm fé; e a razão apenas não pode dar a ninguém a perfeita convicção de que uma coisa definitivamente não existe”. As palavras que ele usa no livro são “almost certainly [quase de certeza]”; mas, embora isto reflicta mais directamente aquilo em que crê a maior parte dos ateus, “probably” é mais curto e soa melhor, o que ajuda em publicidade”.
Aliás, acrescento agora eu, é evidente que provar a existência de Deus, altamente improvável à luz do que se pode verificar do funcionamento do mundo, nem sequer compete a quem dela duvide, mas antes a quem nela creia. O que muitos ateístas dizem é que, porque têm uma atitude permanentemente aberta a tudo o que é verificável ou de qualquer forma demonstrável, estão dispostos a mudar de opinião, se alguém lhes der uma boa razão para acreditarem na existência de algum deus.. Mas nenhum religioso a dá, porque a prova que cada crente tem do seu deus não é observável por ninguém que não partilhe a sua crença e chama-se fé… Evidentemente, os religiosos não acreditam na boa-fé (credo!) dos ateístas. Não conseguem imaginar uma mente menos fechada do que a sua
[4]…
É curioso: discute-se mais a oposição entre o racionalismo científico e a religião enquanto formas de conhecer e explicar o mundo do que enquanto sistemas morais. Ora, para um moralista como eu, por muito que seja importante discutir o valor de verdade das propostas de explicação do mundo, interessa também sempre, e muito, discutir a justeza das propostas de códigos de comportamentos – porque elas afectam directamente a vida da gente, não é?
E creio que há, de facto, uma grande diferença moral entre quem acredita na racionalidade e quem acredita na fé: os racionalistas acreditam que o conhecimento da verdade é algo perecível e frágil, que se vai acumulando devagarinho, muito devagarinho, com paciência e trabalho de rigor, e têm sempre o cuidado de o procurar no que pode ser partilhado por todos os seres humanos. Para eles, o valor de verdade de uma afirmação pode sempre ser discutido e pode-se sempre provar que, afinal, a verdade proposta não o era. E isto aplica-se tanto às descrições dos fenómenos do mundo como aos conjuntos de normas de comportamento de uma sociedade. Para um religioso (
lato sensu), não há nada a discutir: o mundo está explicado a priori e estão definidas à partida as maneiras correctas e incorrectas de agir, que lhe foram reveladas por entidades sobre-humanas.
Uma diferença moral, dizia eu: quem acredite que todos os seres humanos têm o mesmo direito a participar na discussão do mundo e das linhas com que ele se cose não pode deixar de constatar que, à religião, lhe faltam modéstia e democraticidade.
5. Um sonho:
Isto não tem nada a ver com o texto de Filipe Pereirinha, é só para terminar num tom mais alegre. Como a discussão da compatibilidade do conhecimento científico com a crença religiosa não só não acabou como parece estar cada vez na ordem do dia (vejam, por exemplo,
a recensão de Jerry Coyne no New Republic de
Saving Darwin: How to be a Christian and Believe in Evolution, de Karl W. Giberson e
Only A Theory: Evolution and the Battle for America's Soul, de Kenneth R. Miller), conto-vos um sonho que tive:
Era um tipo qualquer com uma cara diferente da minha, mas que eu reconhecia como sendo eu próprio, a falar com outro tipo com outra cara diferente, tanto da do primeiro tipo como da minha, mas que eu continuava a reconhecer como sendo eu próprio (os sonhos têm destas coisas…). E perguntava a primeira à segunda cara:
Mas afinal, pode um cientista crer em deus?
E respondia a segunda cara à primeira:
Pode, pois claro que pode. Um cientista é como as outras pessoas, acho eu, pode fazer tudo o que lhe apetecer, desde que não prejudique mais ninguém. Até pode comer sardinhas assadas com doce de groselha. O problema é dele…
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[1] Embora não o veja já há muito tempo, é um rapaz que eu conheço e por quem tenho simpatia. Este texto é só a saudável expressão de um desacordo.
[2] Explico a distinção que faço entre ateísta e ateu: chamo ateu a quem não acredite em deuses, sem mais; mas chamo ateísta a alguém que professa o ateísmo como filosofia e, sobretudo, que tem uma posição proactiva, como agora se diz, na discussão entre religião e racionalismo não religioso. A distinção dá jeito, até porque permite estabelecer a oposição simples teísta vs ateísta, que não funciona com a palavra ateu.
[3] Talvez o Butão, o Camboja e a Tailândia, porque são oficialmente budistas e, para os budistas, não existe propriamente um deus… Seja como for, não acho que deva haver estados ateus, prefiro a noção de estado laico, mas é só para vocês verem como as coisas andam.
[4] Se bem que, como tem sido frequentemente argumentado, todos os seres humanos sejam ateus: todos duvidam de existência de alguns deuses, mesmo que acreditem noutros. Mas isso é uma questão que deixamos os religiosos discutirem entre eles; nós, ateus, já demos um passo em frente, e passámos a duvidar de um deus mais (ou de um grupo de deuses mais) do que cada religioso…