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27/05/26

Uma piada algo pateta, descobertas forçosas e fatores hereditários da infertilidade


«É científico, Tintim! A infertilidade é hereditária.
Se os seus pais não tiverem tido filhos, 
você também não terá!»
Encontrei noutro dia numa página humorística no Facebook a piada aqui à direita (evidentemente, o texto não é de nenhum livro do Tintim, foi posto na imagem pelo autor da piada). 

Ora eu tinha feito a mesma piada numa rubrica humorística de um programa de rádio em que participei nos anos oitenta. Era uma «entrevista» com um «cientista» (eu), que afirmava ter finalmente descoberto a causa da infertilidade e que dizia o mesmo que se pode ler na imagem ao lado, acrescentando ainda qualquer coisa como «E, nos casos em que se revelou que, afinal, nem o pai nem a mãe eram estéreis, a mãe não tinha tido a filha ou o filho com o pai dessa filha ou desse filho, mas antes com outro homem que, esse sim, era estéril.» O que a gente se diverte na juventude… 

***

Uma das maneiras de se definir a especificidade da ciência relativamente a outras áreas de trabalho intelectual é o caráter forçoso das suas descobertas. Neil deGrasse Tyson, ao estabelecer uma comparação entre a criatividade em ciência e nas artes, diz que, nas artes, ninguém que tenha nascido antes ou que venha a nascer depois de um(a) determinada/o artista criou ou criará a mesma coisa que essa/e artista, ao passo que, em ciência,  «posso descobrir alguma coisa no universo, mas, se eu não descobrisse, alguém depois de mim descobriria exatamente a mesma coisa».  E isto porque, ao contrário da arte, que é «uma expressão única do indivíduo», «a ciência é a descoberta das condições naturais pré-existentes».

Parece-me que ele tem toda a razão e há, de facto, descobertas científicas múltiplas independentes. Num texto em que refletia sobre a questão, referi, como exemplos óbvios, as manchas solares e o oxigénio.  Agora, isto não é exclusivo das descobertas científicas. No mesmo texto, falava também exemplos de invenções múltiplas independentes, que, por não serem descobertas científicas, tinham tido formas muito diferentes das várias vezes que foram inventadas, como é o caso da a escrita. E referia também uma invenção minha, a expressão «do prado ao prato» para traduzir «from gate to plate», que, vim a saber pouco tempo depois de a criar, também já tinha sido inventada por outras pessoas. Noutro texto da Travessa (a propósito doutra brincadeira, a água liofilizada, que inventei para o programa de rádio atrás referido e que, mais uma vez, não fui o único a inventar...), discutia até a possibilidade de aferir o grau de criatividade de qualquer ideia a partir, precisamente, do número de ocorrências independentes: «Quanto menos vezes [uma ideia] tiver ocorrido autonomamente, mais genial ela é.» A minha tradução «do prado ao prato» não era, pelos vistos, nada genial, como também não era  muito genial — vejo agora, mas já calculava... — a minha piada da infertilidade herdada. 

Agora, o mais interessante disto tudo é que, apesar do pueril paradoxo que está na base desta piada, é mesmo verdade que algumas doenças ou alterações genéticas suscetíveis de causar infertilidade podem mesmo ser herdadas, da mesma forma que se herdam outras doenças de que os progenitores não sofrem; e até que problemas de baixa fertilidade nos homens podem ser diretamente herdados dos pais: filhos de homens que tenham tido necessidade de tratamentos de fertilidade para procriar têm mais possibilidades de ter de recorrer eles próprios a esses mesmos tratamentos para terem filhos. (Ver um resumo desta questão aqui, mas é fácil encontrar na Internet informação sobre o tema.)

(Quando eu era rapaz, também se dizia de uma rapariga de peito pequeno que «saía ao pai», mas sendo o tamanho do peito um traço poligénico, como a cor dos olhos, forma do corpo, cor do cabelo, etc., resulta provavelmente de uma combinação de genes de ambos os progenitores, de maneira que, em princípio, os genes do pai contribuem tanto para um peito pequeno como para um peito grande, não é verdade?)


04/11/25

Mais um aforismo sobre o envelhecimento


Há quem afirme que, apesar da idade (mais ou menos) avançada, se sente «jovem por dentro», querendo com isso significar que, embora reconheça a decadência do corpo, conserva inalteradas  as capacidades mentais. Mas não será antes que essa afirmação já é, por si, sinal de alguma decadência cognitiva?

31/07/25

Foisted fast food: uma coincidência


Da primeira vez que fui à Geórgia, tentei aprender o alfabeto georgiano (já aqui falei uma vez disso) e consegui mais ou menos. Pelo menos, foi o que eu pensei. Quando lá voltei cerca de ano e meio mais tarde, já tinha esquecido uma grande parte do que tinha aprendido da primeira vez... Aprender um alfabeto novo é difícil. 

Os georgianos têm, em geral, mais contacto com o nosso alfabeto que nós temos com o deles (por exemplo, as matrículas dos carros deles são com o nosso alfabeto). Além disso, muitos deles aprenderam o alfabeto cirílico russo, que é, apesar de tudo, relativamente parecido com o nosso. Mas isso não quer dizer que todos os georgianos conheçam bem o alfabeto latino. O que se vê escrito em inglês nesta montra em Kutaisi resulta provavelmente de uma interpretação errada de uma letra do nosso alfabeto: alguém pensou que a perna do a fosse um i. Isto seria já curioso se foist não quisesse dizer nada. Mas quis o acaso que, do engano, surgisse uma palavra inglesa: to foist something on someone significa «impingir/impôr alguma coisa a alguém, obrigar/convencer/aliciar alguém a/para consumir ou aceitar alguma coisa». A ideia de fast food não anda muito longe, pois não? Curiosamente, aliás, a frase que o dicionário Cambridge dá como exemplo de utilização do termo foist é She charged that junk food is being foisted on children by TV commercials, «Ela denunciou que as crianças estão a ser aliciadas ao consumo da chamada comida de plástico, através de anúncios na televisão.»




16/07/25

Direita e esquerda

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Ainda não uso aparelhos auditivos, mas lido diariamente com pessoas que os usam. E nunca deixo de achar estranho o código de cores que para eles escolheram: vermelho do lado direito e azul do lado esquerdo. 

Evidentemente, uma convenção é só uma convenção e não há, em princípio, cores que sejam melhores que outras para marcar a direita e a esquerda. Mas então, por que razão acho eu estranha a convenção dos aparelhos auditivos? 

Uma razão poderia ser a conotação política das cores: em princípio (os EUA são a única exceção que conheço), associa-se o azul à direita política e o vermelho à esquerda*. Mas não creio que seja por isso. Acho que o que me faz achar estranha a convenção dos aparelhos auditivos é outra convenção na área da saúde: a de representar, em esquemas simplificados, o sangue arterial a vermelho, do lado esquerdo do corpo, e o sangue venoso a azul, do lado direito do corpo.


Imagem: pág. 168 de Hatfield, Marcus, The physiology and hygiene of the house in which we live, Nova Iorque: Chautauqua Press, 1887, daqui, modificada por mim.


***

Esquerda e direita definem posições relativas, toda a gente sabe: se tenho alguém à minha frente, sei que tenho à minha direita o seu braço esquerdo e à minha esquerda o seu braço direito. E assim sucessivamente.
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Numa imagem, tomamos normalmente como referência quem a vê e não o que nela se vê («Da esquerda para a direita: Groucho, Chico, Harpo e Grummo»), mas compreendemos, naturalmente, que aquilo que se vê na imagem tem a sua direita e esquerda: Chico tem Groucho à sua direita e Harpo à sua esquerda. 

Quando se trata de letras, porém — e, muito provavelmente, de muitas outras coisas inanimadas em que não pensei —, compreendemos tão inflexivelmente o «da esquerda para a direita», que não aceitamos que elas próprias tenham a sua esquerda e direita, que um d minúsculo tenha o traço longo do seu lado esquerdo e o p minúsculo o traço longo do seu lado direito. 

Qualquer objeto orientado da minha esquerda para a minha direita terá a sua imagem no espelho orientada também da minha esquerda para a minha direita. Quando vemos uma imagem de uma palavra num espelho, ela continua a estar da nossa esquerda para a nossa direita – mas nós pensamos que está «ao contrário»: o d tem agora o seu traço longo do seu e nosso lado esquerdo. Mas isso é só porque virámos a palavra ao contrário para a refletir no espelho. Quando vemos uma palavra «ao contrário» no espelho, ela está também ao contrário, relativamente a nós, do que está quando a lemos: tem a «cara» virada para o espelho, como nós, em vez de ter a «cara» voltada para nós. Se a palavra estiver escrita numa superfície transparente, de maneira que possa ser refletida no espelho sem estar «virada para ele», a imagem que vemos no espelho é igual à que vemos diante de nós, não é «ao contrário». 

Imagem: «Quatro Irmãos Marx». Autor desconhecido, publicado no The New Orleans Times-Democrat, 11.5.1913, daqui.

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* Sobre direita e esquerda na política, escrevi fez por estes dias 17 anos um pequeno artigo de cerca de 4.350 palavras.

12/07/25

Um livro sem autor à vista [Crónicas de Svendborg #52]

 

Todos os anos temos aqui na aldeia uma grande feira da ladra: a maior parte dos habitantes de Troense faz bancas à porta de casa ou no quintal e tenta desfazer-se, às vezes por preços simbólicos, dos demasiados haveres que tem. E conversamos com os vizinhos com que raramente ou nunca temos ocasião de conversar nos outros dias todos do ano, e acabamos por comprar mais alguma coisa que não nos serve para nada e que, quem sabe?, poremos à venda passados uns anos na feira da ladra anual…

Este ano, só comprei um livro, por uma coroa (uns 13 cêntimos de euro). Chama-se Christiansø 1953. E comprei-o porque lhe notei um pormenor curioso: não tem em lugar nenhum a indicação do autor. Ou antes sim, tem uma dedicatória numa das guardas e, pelo que explico adiante, é muitíssimo provável seja do próprio autor. E ficamos a saber que se chama Christian, que é quase o mesmo que não sabermos nada. Pensei que talvez a identidade do escritor se pudesse descobrir à leitura da obra. Mas não. Apesar de incluir dois textos autobiográficos, as muitas referências a pessoas e lugares não dão pistas suficientes para pesquisar — e muito menos para deduzir — quem o escreveu.

Numa pesquisa na Internet, encontrei um livro semelhante com o título Christiansø 1952, apresentado como «jornal privado». Isto confirma o que depreendera já à leitura do livro: alguém editou anualmente (durante quantos anos?) um pequeno livro de crónicas e memórias, presume-se que para oferecer a amigos e conhecidos. Está escrito com letra de máquina e uma análise dos caracteres mostra que é mesmo um texto escrito à máquina que foi fotografado e impresso. O papel é de boa qualidade, com uma capa de cartão. Quem escrevia como o autor escrevia e mandava imprimir um livrinho assim só para distribuir aos amigos fazia, com certeza, parte da elite cultural e económica da ilha, mas também isso não me ajuda a encontrar a sua identidade.

Quando começou a trabalhar no Alto Molócuè (Alta Zambézia, Moçambique) em 1996, a minha mulher montou um circuito privado de informação: escrevia uma carta com as suas impressões e reflexões sobre a sua nova vida em África destinada a um grupo de amigos e familiares, enviava-a a uma amiga na Dinamarca (quando ia a Queliamane ou a Nampula, porque o Alto Molócuè não tinha serviço de correio) e esta amiga fotocopiava a carta e mandava-a a todas as pessoas de uma lista que a minha mulher tinha feito antes de partir. Quando eu fui ter com ela seis meses mais tarde, comecei a fazer o mesmo: ia escrevendo umas crónicas sobre a vida em Moçambique, intercaladas com algumas atualidades políticas e mais alguma coisa que ia aprendendo sobre a história e a cultura do país, mandava-as para Portugal, onde eram reenviadas por várias pessoas para várias outras pessoas. Chamavam-se as minhas cartas Crónicas do Alto Molócuè. Quando fomos viver para a Bolívia, passaram a Crónicas de Camargo, já por correio eletrónico, e transformaram-se depois em Crónicas de Chimoio quando voltámos a Moçambique em 2006. (As Crónicas de Svendborg nunca chegaram a ser nenhuma forma de carta coletiva, são só uma etiqueta deste blogue.) 

Estas circulares privadas, se se pode dizer assim, não eram invenção da minha mulher. Embora não conhecesse em Portugal ninguém que fizesse o mesmo, pelo menos entre dinamarqueses assessores de desenvolvimento em África, o sistema de cartas coletivas começava a ser comum. Talvez também noutros círculos, não sei. E depois, com o surgimento do e-mail, simplificou-se e alargou-se muito. Agora há já muitos anos que recebemos, sobretudo pelo fim do ano, muitos e-mails coletivos de muitas pessoas, a contar os acontecimentos mais importantes do ano que passou.

O livro que Christian X mandou fazer em Christiansø é uma versão precoce e mais sofisticada, por ter forma de livro, de tudo isto.  E isso é estranho.

Uma coisa muito curiosa: o livro inclui também uma diatribe contra o turismo (já em 1953!) e, no fim dessa diatribe, informa que inclui um recorte de um artigo de jornal mais ou menos sobre esse tema, escrito pelo médico da ilha, Tage Voss (ao que sei a única pessoa de Christiansø que se notabilizou como escritor e polemista). E tem mesmo: no livro que comprei há um recorte do jornal Politiken de 22.3.1953, com a crónica de Voss. Não uma reprodução, mas um recorte da página do jornal. Quer dizer: não faço ideia de qual a tiragem do «jornal privado», mas o autor teve de comprar muitos exemplares do jornal Politiken desse dia, para recortar e pôr dentro de cada livro que ofereceu.

Não tem interesse nenhum dar-vos mais pormenores. Os poucos que dei são, aliás, pormenores a mais — que vos pode interessar um livro que nunca lerão, ainda mais sem autor à vista? Enfim... 

Não sei se se passa o mesmo convosco, mas tudo o que é estranho, por desimportante que seja, faz-me sempre sonhar.

09/07/25

Villy Henningson [Crónicas de Svendborg #51]


Conheci Villy Henningson [nome fictício] quando estava a fazer estágio numa instituição para pessoas com demência. Quer dizer, já o conhecia de vista aqui da aldeia, mas foi aí que falei com ele pela primeira vez. Ele toca acordeão numa banda de música e foram lá fazer uma animação no centro de dia.

A partir desse dia, Villy, que encontro com frequência na rua, sempre me tratou pelo meu nome:

– Olá, Victor – diz-me sempre – como vai isso?

Não temos grandes conversas: o tempo, algum acontecimento na aldeia, nunca mais que isso. Mas sempre me surpreendeu ele saber o meu nome. Talvez me tivesse perguntado, quando nos conhecemos; ou talvez o tenha lido no meu cartão de identificação que trazia ao peito nessa altura, não sei. Seja como for, não se esqueceu. E sempre me irritou um bocadinho ter de conversar com ele sem nunca o poder tratar pelo nome a ele também: até há muito pouco tempo, não fazia ideia de como ele se chamava e, nem sei bem porquê, nunca lhe quis perguntar.

Um dia, vi num jornal local a fotografia dele, com duas senhoras também aqui da aldeia, num artigo sobre uma cooperativa de consumo, de que eram os três membros da direção. A legenda da foto referia-o como V. Henningson. Não me resolvia o meu problema, mas era uma boa dica para. Pesquisei em Google um Henningson aqui na zona (é um apelido estrangeiro, e, portanto, incomum) e fui dar ao site da tal cooperativa, onde fiquei a saber que ele se chamava Villy. Pronto, agora já o podia tratar pelo nome.

Encontrei-o no dia seguinte:

– Olá, Victor, tudo bem?

– Tudo bem, Villy, e tu?

Fiquei muito satisfeito. A Internet, pensei eu, ainda serve para alguma coisa… Mas não tinha sido necessária nenhuma pesquisa, afinal: nesse dia, Villy trazia vestido um polo às riscas que tinha escrito no bolso «Villy Henningson».

14/06/25

Numerações e preconceito


A notícia já tem uma meia dúzia de anos, mas não faz mal, porque isto não é um blogue de atualidades — e porque as coisas provavelmente não se alteraram nada em seis anos: vi em vários sítios que, segundo um inquérito feito nos EUA, a maioria das pessoas acha que não se deve ensinar numeração árabe nas escolas. De transparentes que são, escuso-me a comentar os resultados do inquérito. E creio que, muito provavelmente, eles seriam semelhantes se o inquérito fosse realizado em países europeus. 

Divirto-me a pensar que quem recusa a numeração árabe talvez prefira a numeração romana, a fazer pandã com as letras, do tipo

Se um gato tem VII vidas
como muitos dizem ter
ao meu já vi VI vividas 
e vej’I por viver. 

E também me divirto a pensar que a única posição radicalmente nacionalista é ser não só contra a numeração romana e os algarismos árabes, mas também contra o + e contra o x e contra quaisquer sinais que representam conceitos em vez de palavras, porque, quando se vê, por exemplo, “2+3=5”, o que lá está escrito é tanto “dois mais três igual a cinco” como “two plus three equals five”, “twee plus drie is vijf” ou “два плюс три равно пяти”.


20/12/24

De podas e raízes

Não se deve confundir poda radical com poda radicular, por muito que radical e radicular tenham praticamente a mesma raiz...

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[Nem radicular nem radical, a poda das macieiras do quintal...]


17/12/24

Divertimento com nomes de pessoas e nomes de letras de dois alfabetos


Rom,_Domitilla-Katakomben,_Steintafel_mit_Inschrift,_Alpha_und_Omega_und_Christussymbol_Chi_Rho
«Eu sou alfa e ómega, o primeiro e o último, o princípio e o fim».
As letras alfa e ómega, com o qui e o  de Xristos sobrepostos entre elas,
na Catacumba de Domitila, Roma.
Conheci uma vez uma rapariga chamada Alfa. A sério. Não tive coragem de lhe perguntar, por achar claramente importuno, o que qualquer pessoa quer saber quando conhece uma rapariga chamada Alfa: se tinha uma irmã chamada Beta*. 

Mudando apenas a terceira letra de Alfa, consigo encontrar dois nomes de pessoas que conheço: Alda e Alma. Sei que existem também Alba e Alea, mas não conheço ninguém com esses nomes. Não consegui fazer mais nenhum nome de mulher mudando a primeira, segunda ou quarta letra de Alfa.

Zeta também é um nome, tanto nome próprio como apelido, e Capa e Gama são só apelidos, ao que sei.

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Duas capas de revista com fotos de Robert Capa (1913–1954),
repórter fotográfico conhecido sobretudo como fotógrafo de guerra,
que morreu no exercício da sua profissão.
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O Grande Gama (à direita) em combate com Raheem Bakhsh Sultaniwala,
um anterior campeão, que era, como se vê, muito maior que ele.
O gama pequeno, γ, é muito diferente do gama grande, Γ. Grande Gama é também o nome desportivo de Ghulam Mohammad Baksh Butt (1878–1960), um dos mais famosos profissionais de luta livre de todos os tempos: em 52 anos de carreira, nunca perdeu um combate.

Agora, se, em vez do alfabeto grego, pensarmos antes no alfabeto fonético da OTAN, a Alfa que eu conheci também podia ter um namorado chamado Romeo, como quem poderia dar passeios de automóvel; ou ter amigos chamados Charlie ou Mike ou Oscar ou Victor, e amigas chamadas Juliett ou India ou Sierra – com a possibilidade de tanto India como Sierra serem cantoras de música country. Sierra é também apelido e Lima é só apelido. 

India Ramey já foi advogada e agora é cantautora. Faz música de intervenção em forma de outlaw country

A cantora Sierra Ferrell toca às vezes serra musical – quem sabe se por ter o nome próprio que tem... 

 

 

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Lima de Freitas: duas ilustrações de uma edição norte-americana de Nostromo, de Joseph Conrad, 1961
O pintor Lima de Freitas (1927-1998) era também um famoso ilustrador. Fez, entre muitas outras coisas, muitas capas e outras ilustrações para livros.  




Conclusão:

Segui acasos fúteis, sem temer

Perder-vos no que a sorte vos trouxer.

Não vem daí ao mundo nenhum bem,

mas também nenhum mal decerto vem...


Ou, dito de outra maneira, não se distingue bem o culto do a propósito (amiúde louvado) do culto do despropósito (sempre criticado)... Não faz mal. Contanto que a gente se divirta!

___________________

* Vivo na Dinamarca e Alfa é dinamarquesa. O nome Alfa é raro na Dinamarca, mas menos raro do que eu pensava: segundo Hvor mange hedder...? («Quantos se chamam...?»), o site oficial de Estatísticas da Dinamarca para os nomes próprios e apelidos, há 83 pessoas do sexo feminino e 4 do sexo masculino que têm o nome próprio Alfa e ninguém o tem como apelido. Já Beta não ocorre como nome próprio, mas há 13 pessoas com esse apelido.

06/01/24

Memes, escalas de temperatura e pormenores de tradução

 Circula agora na internet a seguinte piada — ou meme, como agora se diz (traduzo eu do inglês): 

O astrónomo sueco Anders Celsius morreu em 1744 aos 42, mas o seu rival Fahrenheit insistia que ele tinha 107.

Independentemente da graça que possa ou não ter, este meme desinforma um bocado, porque Daniel Gabriel Fahrenheit morreu a 16 de setembro de 1736, quando Anders Celsius tinha 34 anos, cerca de seis anos antes de inventar a escala centígrada de temperatura. 

Aqui fica então uma versão corrigida do meme:

Em 1742, quando soube que Fahrenheit falecera seis anos antes, aos 50, Celsius pensou que ele tinha morrido com apenas 10. «Pobre criança!»

O problema é que, se o meme original ainda tinha alguma possibilidade de fazer sorrir o leitor, a versão corrigida não tem mesmo graça nenhuma…

[Uma dúvida que tenho em relação à tradução é se soa natural, em português, dizer a idade sem usar a palavra «anos». Mas escrever «anos» desfaz um bocado a brincadeira, não faz?] 


08/02/23

Que tenhas um dia bom

 

Não deixa de ser curioso: os votos de aniversário eram antigamente mais ambiciosos, se se pode dizer assim, do que agora são. Era costume desejar saúde e felicidades para o resto da vida – que, por sua vez, se desejava longa. Agora, deseja-se o mais das vezes um bom dia de aniversário. 

É capaz de ser sinal da fortuna da desumana ideia de que há que viver só no presente ou talvez mais uma marca do tão falado fim das utopias…

09/01/23

Depois da morte

 


«O filme Depois da morte (Dopo la morte/Nach dem Tod/Après la mort), da realizadora suíça Lara Tàcita, é descrito pela autora como um ensaio:

Não é tanto um ensaio filmado, que seria outra coisa, mas é um ensaio mais que uma obra de ficção. Cheguei a pensar em categorizá-lo simplesmente como documentário, mas achei que seria uma classificação algo arrogante. Acho que muita gente vê o filme como um poema visual, não no sentido mais tradicional da expressão, mas como o equivalente cinematográfico da música programática, em que se pede ao ouvinte que aceite que a obra descreve ou de alguma forma sugere, de facto, o programa, a história, a ideia, enfim, que o autor com ele se propõe tratar. Para mim, também não é isso. Mas compreendo que o vejam assim. Também já vi o filme descrito como filme de tese, mas não me parece bem. Não só me parece uma designação demasiado pomposa, como se lhe aplica mal, se compararmos Depois da morte com outros filmes que costumam ser assim designados.

Embora muitos vejam nele uma rutura com todas as formas anteriores de cinema, julgo que o filme de Lara Tàcita segue apenas as convenções narrativas habituais. Todos os romances, todas as novelas, todos os filmes são feitos de uma escolha das imagens, situações ou palavras que o autor considera relevantes para a história a ser contada, para o ambiente a ser sugerido ou para a ideia a ser veiculada. O tempo total em que «se passa» a narrativa, que pode ser de horas a séculos, mas que é, mais comummente, de meses a anos, é reduzido ao tempo em que ela é apresentada ao público — que, no cinema, normalmente é entre uma e duas horas, às vezes um pouco mais. Mesmo quando, em propostas ditas hiper-realistas, se insiste em mostrar as banalidades que são por tradição omitidas noutras histórias (fazer comida, passar a ferro, lavar os pés…), essa redução narrativa não deixa nunca de existir. E é isso que Lara Tàcita faz também aqui neste filme: durante três horas e 16 minutos apresenta-nos uma seleção dos acontecimentos por que passa o protagonista (que nunca é nomeado, nem nunca se vê no filme) depois da sua morte.»

Leo Fredholm, Gazeta d’Aosta, 18.12.22


O trailer de Depois da morte dá-nos uma ideia muito clara do que podemos esperar do filme: depois dos segundos iniciais (em que, pelos olhos do moribundo protagonista, vemos a única personagem do filme além dele) desfilam em rápida sequência, durante um pouco mais de dois minutos, alguns breves excertos das principais cenas do filme — alguma das principais experiências do protagonista depois da sua morte.




05/07/22

Funeral em vida

Uma amiga contou-me que o seu pai e os amigos dele organizaram funerais em vida. É uma grande ideia. Por muito que o funeral seja um dos dias mais importantes da vida de uma pessoa, é celebração a que essa pessoa não assiste — não tem possibilidade de se comover com os elogios fúnebres que os amigos lhe fazem, nem de se rir com as muitas histórias engraçadas que dela recordam nessa ocasião. 

Estou a pensar em organizar o meu funeral em vida um dia destes. Depois, se alguns dos meus convidados acharem por bem dar continuidade à minha iniciativa organizando os seus próprios funerais em vida, teremos finalmente possibilidade de retribuir uns aos outros a presença no nosso funeral — uma coisa que, sem estes funerais em vida, é muito difícil de fazer...

01/02/20

Não sei se vos acontece o mesmo


Não sei se vos acontece o mesmo. A mim, acontece-me todos os dias. Todos os dias penso: «Hoje vou ser uma boa pessoa.» No sentido, estão a ver?, de não fazer nada que ache mal, nada que me possa, muito ou pouco, pesar na consciência. E depois nunca sou essa boa pessoa que decidi ser.



19/11/19

Reanimação


Se um dia me virem morrer de algum mal remediável, por favor não me tentem ressuscitar: a morte é a pior coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa e eu não quero passar duas vezes por tão horrível experiência.


20/08/18

Os ombros do ofício

Já não me lembro como, encontrei no outro dia um vídeo de um homem que diz que o seu ombro esquerdo é mais alto que o direito, porque pratica arco há muito tempo. O que há de uma pessoa pensar de uma coisa assim? Não vou pôr aqui imagem nenhuma para o provar, até porque eu sei que vocês confiam em mim, mas o meu ombro esquerdo é muito mais alto que o meu ombro direito e nunca fiz arco na vida. A conclusão é capaz de ser que fazer tiro ao arco e trabalhar com o rato do computador têm um efeito semelhante sobre os ombros de uma pessoa – pelo menos em indo para a idade…

10/01/18

Este mar

Deste mar, pode desenhar-se a mínima ondulação, talvez a ligeira escuma da ressaca, o reflexo do sol. É mais fácil desenhar as coisas que ele contém ou que o bordeiam, embarcações e pessoas que o navegam, as suas ilhas e costas, as suas praias. Mas desenha-se mal a sua essência, que é assim

_____________________________________________,

um traço reto que o separa do céu. Se se ativer o desenhador a essa concisão gráfica, à representação apenas do essencial

_____________________________________________,

ninguém saberá que é mar o que se desenha; e, por isso, ninguém se atreve a tal simplicidade

_____________________________________________,

a não ser, talvez, que ao traço reto se sobreponha ou se subponha — em qualquer sentido dessas palavras — a palavra

MAR 
Este mar
_____________________________________________

Outros mares há mais fáceis de desenhar.

13/08/17

Jejum e Genebra – um texto um bocadinho nerd

[Isto dos blogues generalistas é um bocado complicado e já pensei em dividir este blogue em dois ou três. Muitas vezes, autocensuro-me temas, principalmente relacionados com língua, porque os acho demasiado especializados e desconfio dos meus dotes de vulgarizador... Mas nem sempre sou coerente nessa autocensura e às vezes publico coisas que acho que não interessam a ninguém — ou interessam só a muito, muito pouca gente. Este texto, por exemplo, que decidi publicar só porque lhe acho graça, fala de coisas tão nerd que espero mesmo que interessem só a meia dúzia de pessoas – senão, é sinal de que o mundo está perdido, valha-nos Santa Edwiges da Silésia!…]

Em francês standard, as palavras  jeune, «jovem», e jeûne, «jejum», têm pronúncias diferentes*. Quando vivi em Genebra, porém, dei-me conta de que, no sotaque local, as duas palavras se pronunciam da mesma maneira. É uma pronúncia, explicaram-me, típica da Suíça e do Leste da França; mas parece que há outros francófonos que anulam a distinção nestas duas palavras.

Uma pequena curiosidade, que descobri agora: Victor Hugo ou também falava assim (mas não creio que isso se explique por ele ser de Besançon, porque não viveu lá muito tempo) ou considerava que jeune e jeûne eram rimas visuais:
Hélas ! l'ombre d'Allah n'a pas rompu le jeûne ;
La sultane est gardée, et son fils est trop jeune ;
« La douleur du pacha », in Les Orientales, 1829

Aos meus leitores que não estejam familiarizados com esta diferença entre jeune e jeûne, dou de TPC repetir em frente ao espelho
« Jamais je ne vois les jeunes genevois pratiquer le jeûne genevois »
até a coisa fluir com naturalidade.

Deixem-me explicar, já agora, que a frase é mais do que um trava-línguas forçado, já que existe mesmo o feriado do Jejum Genebrino, que a Wikipédia em português explica da seguinte maneira:
O Jeûne Genevois, que se poderá traduzir literalmente por «Jejum Genebrino», é um dia feriado no cantão de Genebra, Suíça, na quinta-feira seguinte ao primeiro domingo de Setembro. Os outros cantões suíços festejam o Jeûne Fédéral no terceiro domingo desse mês.
 A página em francês tem mais informação sobre o assunto. A tradição é antiga, mas, depois de várias peripécias de institucionalização e supressão, o dia é agora feriado desde 1966.

Não deixa de ser divertido que a assembleia de representantes dos diversos cantões que instituiu o feriado do Jejum Federal se chamasse… a Dieta Federal.

 ________________

* Vão ao Larousse ouvir a diferença, se a não conhecem, ou ao Forvo: o -eu- de jeune pronuncia-se como em peur [œ] e o -eû- de jeûne como em peu [ø].

17/01/15

Pequena nota sobre dogmatismo e outras enfermidades do raciocínio

Numa loja de roupa em segunda mão, na semana passada, uma conversa entre duas senhoras idosas:

– …
– O quê?
– Nada, estava a falar sozinha.
– É uma coisa sensata. Assim, ninguém te contradiz.



19/09/14

É extraordinário…

…que eu, que testemunhei tantas vezes o insólito (vi uma vez um lama na praça central de uma pequena aldeia provençal!), nunca tenha encontrado na vida um deus, um extraterrestre, uma alma de outro mundo…