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19/07/25

Aqueles que por obras valerosas

 

Já uma vez aqui falei do assunto. Disse que criadores e obras são coisas diferentes e que, se as obras ficam, as pessoas reais que as criaram são tão facilmente esquecidas como quem nunca fez nenhuma obra memorável. 

Faltou-me sublinhar que, para que recordem as obras que cá deixamos, tanto faz que essas obras sejam boas ou más. Algumas das obras mais recordadas são as mais terríveis — e ainda bem que assim é, que o mal nunca se deve esquecer, para melhor contra ele nos precavermos.

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O resto, que merece também ser sublinhado, digo-o em redondilha maior:

Todos sabem que, ao morrer,
só como recordação
poderão sobreviver.
Mas que o recordem ou não,
quando já cá não andar,
p’lo bem que fez, ou o mal,
a um vivo pode importar,
— para um morto, é tudo igual.

Percy Spencer nasceu a 19 de julho de 1894, faz hoje 131 anos e inventou o forno de micro-ondas em 1945. A patente, uma das 150 registadas por Spencer, foi feita em nome da empresa onde trabalhava, de maneira que nunca ganhou com ela nada além do seu salário. Uma obra de valor, sem dúvida, usada por muita gente no seu dia a dia, mas quem se lembra de Percy Spencer? Imagem: O primeiro forno de micro-ondas produzido comercialmente, lançado em 1947.
Foto de
 Acroterion, Creative Commons, daqui.

21/11/23

Um soneto, lúcia-lima, irreconhecimento e recordação

 

Não acham estranho pensar numa pessoa com uma (id)entidade que persiste ao longo do tempo? Não há nenhum eu que nos acompanhe ao longo na vida; nem como personalidade, sequer, quanto mais como mente — eis a conclusão a que chego depois de muito escrutinar a questão. Não só guardamos em nós muito pouco do corpo que vamos tendo, como a mente vai mudando tanto ao longo do tempo que, a dada altura, essa mente estranha o que já foi. A mim, pelo menos, acontece-me muito: quando observo agora coisas ditas, pensadas, feitas por outro momento de mim, não me reconheço nelas. Às vezes, nem as percebo. Penso: «o que quereria eu dizer com aquilo?» ou «que estranha forma de me comportar!». Outras vezes, o que me espanta é antes reencontrar nesse eu de outra época semelhanças com quem estou agora a ser.

Há uns dias, quando estava a limpar uma gaveta da cozinha, encontrei um saco de folhas de lúcia-lima do nosso quintal, que a minha mulher me propôs que deitasse fora, porque estavam ali há muito tempo e ninguém lhes tocava. A verdade é que nem sabia que tínhamos ali lúcia-lima. Fiz um chazinho e pus o saco no meu escritório, ao lado do computador, para não me esquecer de a ir bebendo. O odor e o sabor da lúcia-lima trouxeram-me à memória o quintal da casa na Rinchoa onde vivi consecutivamente dos seis aos dezassete e depois, a espaços, até aos vinte e quatro; e, reminiscência puxa reminiscência, lembraram-me um soneto que tinha escrito em que descrevia o quintal e falava das suas verbenas — as lúcia-limas*. Fui à procura dele. É de 15 de setembro de 1986 e está dedicado a Roberto de Mesquita. Lembro-me de que, nessa altura, tinha descoberto Roberto de Mesquita e tinha gostado muito da sua poesia. Mais de que um poema dedicado a Roberto de Mesquita, o soneto é, acho eu, um poema à maneira de Roberto de Mesquita. Resolvi corrigir-lhe a métrica, que estava torta e o resultado é este:

Pendem já maduros os cachos de uva 
Da latada, no carreiro do quintal 
Cujo saibro acarinha, suave, a chuva 
Temporã, morna morrinha estival. 

Lá do fundo do céu, ameaçadoras, 
Vêm nuvens negras de tempestade. 
Lentas como elas desfilam as horas. 
Esvai‑se do dia a turva claridade. 

O vento da tarde açoita as verbenas. 
É por certo dele esta voz sofrida 
Que vem não sei de onde e que me diz: 

«Para quê alegrias? P’ra quê penas? 
Vive‑se p’ra morrer no fim da vida 
E não p’ra ser feliz ou infeliz…»

Passados 37 anos, vivo uns 16° mais a norte e 20° mais a leste. Troense tem algumas coisas em comum com a Rinchoa da minha infância, porém, e tenho um quintal mais ou menos com o mesmo tamanho que o quintal da casa onde cresci. Não tenho oliveiras, nem limoeiros, nem laranjeiras, nem pereiras, nem ameixeiras, mas tenho maçãs, abrunhos e morangos, como tinha na Rinchoa — e uvas morangueiras, que, por causa da diferença de latitude, amadurecem umas duas ou três semanas mais tarde que as do soneto.

Voltemos à questão da impermanência do eu. O autor deste soneto é um momento tão distante de mim que, se não soubesse que tinha sido eu a escrevê-lo, nunca o reconheceria como sendo meu. «Eu não escrevo assim», pensaria. Mas não porque não reconheça a paisagem como minha, notem, ou porque não concorde, se se pode dizer assim, com o bombástico remate. (Dito assim, parece mais que estou a falar de um ensaio que de um soneto, mas acho que percebem o que quero dizer.) Podia, aliás, escrever hoje a mesma coisa, em verso ou não: não é para se ser feliz que se aqui se anda e é absurdo nortear-nos pela procura da felicidade.

Passemos agora daquilo em que não me reconheço àquilo que recordo de mim, que é uma coisa diferente. Tomemos o terceto final. Se escrevesse hoje alguma coisa com o mesmo significado, quereria dela outro sentido. Quando leio esses versos neste soneto, lembro-me do que pensei muito tempo e sei que é da apologia da abolição das emoções que se trata. Foi uma obsessão minha durante muitos anos. Mais budismo que estoicismo, mas um budismo sui generis e confuso. Achava que alegria e tristeza eram ambas produto de uma mesma coisa, do maior de todos os males, a mente — um emaranhado de juízos e sentimentos, uma projeção constante de mim em tudo o que conhecia, que me impedia de ver as coisas como elas de facto eram. Agora, há muito que deixei de querer livrar-me de emoções e julgamento. Constato simplesmente que toda a vida, seja ela qual for, seja consciente ou não, não existe para nada específico, não tem telos, finalidade, propósito nenhum: é um dado biológico apenas, uma sucessão simples de reações físico-químicas, sem mais. A vida tem obviamente um único sentido, na aceção de direção — vai do princípio para o fim. Tudo o mais é a gente a dizer coisas.





____________________

* A lúcia-lima não é atualmente incluída no género Verbena (é do género Aloysia, espécie citriodora), mas é da família das Verbenaceae. Creio que, quando escrevi o soneto, estava mesmo convencido de que era uma Verbena, até porque era muitas vezes assim referida (como Verbena triphylla ou Verbena citriodora). É uma planta maravilhosa.

08/07/17

Mictlantecuhtli em redondilha maior



Mictlantecuhtli, deus asteca dos mortos. 
Estátua encontrada em Teotihuacan e exposta no 
Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. 
Wikimedia Commons, daqui.
Feio é, como é a morte
ou como às vezes a vida,
feio como a nossa sorte,
sempre a meio interrompida,
feio bicho que trazemos
escondido dentro de nós
e se revela sem qu’rermos
num olhar ou tom de voz
– deus do in-mundo final,
que importa se se lhe chama
Aita, Hel, Ereshkigal,
Demo, Osíris ou Yama?















[A Wikipedia tem uma longa lista de divindades da morte em diversas religiões e culturas.]

02/09/13

O arenque e a sardinha

[Soneto inglês escrito na Dinamarca (sobretudo) para portugueses]

Comei a Sul, senhores, a sã Sardinha:
Que o Arenque se lá chega, chega já
Sem a graça prateada que aqui tinha:
 Marinado ou em barrica e sem agá…

Comei, que aqui, no frio Setentrião,
Que a sardinha só vê – que grande lata! –
Enlatada em Agadir ou em Olhão,
E, espanto!, mesmo assim nada barata,

Que remédio, pois, sem ela a gente passa…
Mas não sem o seu primo matulão
E que rechina mais, quando se assa,
Que a parente sulista, o figurão!

Cada qual deita mão, isso é que é!,
Aos clupeidas que tenha mais ao pé.
[Mais sobre arenques na Travessa do Fala-Só aqui.]









27/09/11

De Mary Read e outras três Marias

[I Introdução]
Beijo de Mulata publicou há coisa de duas semanas uma definição de loucura de António Cunha em D. Maria, a Louca:
«A loucura não é uma porta que se fecha mas muitas janelas que se abrem, só que todas ao mesmo tempo...»
Tem visos de verdade.
Agora, diz o dito que há mais Marias na terra. Na História também, há muitas Marias. E juntar muitas Marias da História num texto só é capaz de ser como demasiadas janelas abertas – uma loucura. Ou uma maluquice, seja, que a loucura é capaz de não chegar … Mas enfim, seja uma coisa ou outra, há de ser algo que não convém à História, que é, em princípio, assunto sério. As histórias que conto a seguir, porém, sobretudo porque são de rainhas, são História a reinar…
Tudo nasceu de um acaso, já lá vai uma dezena de anos:
Um dia, quando acabei de reler a Historia Universal de la Infamia, decidi ver o que dizia a minha enciclopédia eletrónica dos heróis desse livro de J. L. Borges. Dos dois primeiros contos, a enciclopédia não conhecia nem protagonistas nem personagens secundárias. Chegado ao terceiro conto, “La viuda Ching, pirata”, antes de escrever no motor de pesquisa da enciclopédia o nome do malogrado marido da pirata, resolvi procurar a Mary Read que aparece na introdução à história. E já não procurei mais, porque fiquei fascinado com o resultado da pesquisa.
O nome da capitã de piratas era referido apenas uma vez na entrada “Dame Flore Robson”, como título de uma peça levada à cena no West End de Londres em 1934. Sabendo que a Historia Universal de la Infamia foi escrita entre 1933 e 1934, pode especular-se se J. L. Borges terá ou não assistido à peça e se não será dela que lhe veio a ideia de que, traduzo, “a palavra corsárias corre o risco de despertar uma recordação que é vagamente incómoda: a de uma já descolorida zarzuela, com as suas teorias de evidentes criadas, que faziam de piratas coreográficas em mares de notável cartão”.
Quanto aos outros artigos propostos, nenhum deles continha, de facto, o nome Mary Read, mas sim uma série de outras estranhas associações do nome Marie ou Mary com uma série de palavras que têm em comum apenas o começarem por “read…”. É dessas associações – e de outras de que a enciclopédia não dá conta – que trata o texto que segue. 

[II Maria Tudor]  
Como a maior parte de vocês saberá, Maria Tudor ou Maria I de Inglaterra, nasceu em 1516 e aos 37 anos tornou-se rainha de Inglaterra. No ano seguinte, casou-se com Filipe II de Espanha, que tinha 27 anos e tinha sido já casado com outra Maria. O casamento católico de Espanha com Inglaterra foi tão mal recebido pelos ingleses que houve logo quem armasse uma revolta para tentar pôr no trono, em lugar desta vendida Maria, a sua meia irmã Isabel. E não deixavam de ter alguma razão os revoltados: por causa da aliança de Maria I com Filipe II, a Inglaterra juntou-se a Espanha na guerra em que esta estava metida contra França, o que valeu àquela perder Calais, se é que me faço entender. 
Diz-se que, quando os generais da Tudor voltaram, desanimados, empoeirados e sedentos, da terrível batalha em que os franceses tinham recuperado o enclave inglês, a rainha perguntou, com voz gelada, cortante, a um dos chefes do seu exército: “Então, Calais?” E que, provavelmente para tentar aligeirar um pouco a atmosfera pesada do salão, este se teria rido, com um riso forçado, pateta, e teria respondido, abrindo os braços e virando para cima a palma das mãos, “Pas de Calais!”, o que lhe valeu, a partir de então, o cognome de O Belga (The Sprout) no seio do exército britânico. 
Maria Tudor respondeu séria, mas mais triste que despeitada, ignorando a idiotia do comandante das suas tropas: “Pois bem, quando eu morrer e me abrirdes o coração, aí encontrareis Calais!” Mas nem com a tirada teatral o povo inglês a desculpou… Não lhe perdoou Calais nem as perseguições religiosas que matrocinou. O vodka com sumo de tomate existe para no-lo recordar. 

[III Maria Rainha dos Escoceses]
A outra Maria a seguir é a Maria que os escoceses tiveram, que aos 16 anos e no ano da morte da Maria anterior, se casava, para cumprir um contrato que tinham feito por ela à nascença, com um Francisco de 14 anos que viria a ser Francisco II de França no ano seguinte..
“Father, dear father, you have done to me great wrong / You’ve married me to a boy who is too young…”
Assim conta uma canção que a jovem rainha se teria queixado, em inglês, a seu pai. E a mesma canção diz que o pai lhe respondeu como segue:
“Daughter, dear daughter, I have done to you no wrong / I married you to the French King’s son!”
A canção deve ter tido grande sucesso na época, a julgar por dois factos: um, o de ter chegado aos nossos dias, se bem que numa versão ligeiramente modificada; outro, o de serem conhecidas não apenas uma mas três versões portuguesas, com pequenas variações entre si, que não serão provavelmente muito posteriores ao original e das quais a mais famosa é a seguinte: 
“Pai, querido pai, tanto mal que me fizeste / Quando por esposo uma criança me deste… / Minha filha linda, sei quem por esposo te dei / Jovem será, mas também filho de um rei!”
Não se sabe se para contentamento de Maria ou não (é bem provável que se divertissem, apesar de tudo, a brincar um com o outro), Francisco II morreu no ano a seguir à coroação.
Sabe-se que foi feita na época outra canção, esta em francês, em que a rainha se queixa, mas agora da perda do seu jovem par. Esta canção não teve a fortuna da canção em inglês anteriormente referida e, ao contrário dela, não chegou aos nossos dias, fosse em que forma fosse. Se se sabe que ela existiu é porque existe uma tradução portuguesa dos finais do séc. XVI em que é referido um original francês com o título “Ballade de la Jeune Reyne Marie d’Escosse”. Além disso, o facto de esta canção portuguesa estar escrita num verso bem pouco comum entre nós, o de oito sílabas, parece confirmar que se trata de uma tradução de um original francês, língua em que essa medida é normal. A versão portuguesa, extensa demais para a transcrevermos aqui na íntegra, começa assim:
“Meu pai deu-me um rei por marido / Que me queria, mas que eu não quis / Mas agora que o hei perdido / Como sou, Deus meu, infeliz…”
Um famoso estudioso português da cultura portuguesa, que escuso de nomear aqui, recriou, a partir da tradução, o original francês. Era uma coisa que ele gostava muito de fazer (apesar de não conhecer bem a língua francesa...), sobretudo em ressacas de grandes bebedeiras que apanhava com os amigos, aos fins de semana, numa quinta que tinha ali para os lados da Várzea de Colares. Uma pessoa bem se pode perguntar como é que ele chegou dum texto ao outro, mas enfim, estranhos são os desígnios de alguns intelectuais…
“Mon père, vous m’avez fait grand tort / En me mariant à ce jeune roi / Dieu merci, le voilà qui est mort / Et je ris et chante de joie”
Quando lhe aconteceu essa desgraça de se ver assim viúva aos 18 anos, pobre Maria!, achou ela que o melhor era deixar aquela França onde tinha sido criada e voltar à Escócia de que era rainha desde o berço, mas a que nunca tinha dado muita importância… Depois de muitas voltas e reviravoltas – que dariam, como deram, textos bem mais interessantes do que este –, Maria foi, em 1567, presa e forçada a abdicar do trono. Podia ter tudo acabado aqui, mas ela era uma mulher de armas: fugiu da prisão e juntou um exército de 6.000 homens. Desafortunadamente, derrotada e obrigada a fugir para Inglaterra. E a Isabel que era lá rainha nesta altura – a que sucedeu à Maria da história anterior –, em vez de dar asilo à rainha dos escoceses, deu-lhe antes prisão perpétua. Maria dos Escoceses era maior do que ela própria, como acontece a muitas estrelas da música pop e a ídolos de outras áreas. Havia quem achasse que não devia ser só dos escoceses e que devia ser rainha dos ingleses também. É claro, perante isto, Isabel fez, como todos nós fazemos constantemente, o que as circunstâncias lhe mandavam fazer. Maria foi executada a 8 de fevereiro de 1587 em Inglaterra. Tinha 45 anos e uma exuberante cabeleira postiça vermelha, sobre a qual muito se tem especulado.

[IV Maria de Médici] 
14 anos antes, mudando agora de assunto, tinha nascido outra Maria – florentina de nascimento, mas não de costumes, para usar uma fórmula com que Dante se apresentou uma vez... Esta Maria era da família Médici, que mandou em Florença durante séculos, e foi rainha consorte de Henrique IV de França. Foi ela a responsável da escalada política de Richelieu, esse cardeal que faz papel de mau nos filmes de capa e espada e que, um dia, virou de repente a casaca de cetim e veludo e deixou de ser amigo dos espanhóis amigos da Maria. Maria montou uma intentona para o afastar do poder, mas o golpe falhou e foi ela que acabou por ser deportada o resto da vida. Nos últimos anos de exílio, poderia ter pensado assim, um pouco como uma cortesã que recordo de um velho poema chinês:
“Florença estava magnífica no último verão que lá passei…
Há quanto tempo foi isso? Não sei, já não sei…
Sei que nessa altura não fazia ideia do que era ter poder,
nem de quanto poder viria a ter.
E para, Deus meu, o quê?, afinal, para acabar aqui
a imaginar o que não fiz e o que não vi
desse mundo que deixei passar ao meu
lado, na tonta ilusão que era eu
que o fazia girar, pelo menos em parte
pela minha – como o cri eu? – estratégia, arte?
Devia ter amado antes, que me cantassem
como à rainha escocesa, que se lembrassem
de mim, arrebatada e triunfante,
mais que como rainha como amante…
Mas perdi de meia vida o tempo, e agora
nem os prazeres me restam de outrora
com que enfeitar em sonho a solidão,
a velhice e o exílio… E tempo não
tenho já para transformar em tempo de vida
o tempo que me resta pouco… Ofendida,
é assim que me sinto, mas não p’lo cardeal,
ou p’lo meu filho… Porquê?, se o mal
que me fizeram é menor que o que me fiz
ao não querer da vida apenas ser feliz…
Não, se me sinto ofendida é só por mim
própria. E espero ofendida o meu fim.”
[V Remate] 
Do ponto de vista do estilo, esta última parte do texto é claramente de inspiração arcádica, o que é estranho porque o estilo arcádico há muito que não inspira ninguém… Chamam-se também Três Marias às três estrelas em linha que se encontram no centro da constelação de Orion, por muito que elas se chamem de facto Mintaka, Alnilan e Alnitaka…  
Mas Três Marias há muitas...

05/03/10

Os ismos da vida 2: Conformismo

Gosto de ser só assim,
fraco, instável, ansioso,
o oposto exacto, enfim,
de um deus todo poderoso.

Gosto de ser só assim,
humano, como se diz,
obcecado c’o meu fim,
volta não volta infeliz.

Gosto de ser feito assim,
menos galhofa que tédio.
Sério: gosto assim de mim!

Bem, quer dizer... Que remédio!...

Os ismos da vida 1: Optimismo

Se até às dez em ponto
a vida não correr mal,
há-de manter-se assim, pronto,
até lá p'ràs dez e tal.

11/12/09

Faz-nos bem ao figueiredo e também ao coração

Versos, pois… E porque não?
Ele há vezes em que eu,
compreende Vossa Senhoria?,
não vejo ne’ssidade de chegar
a conversa ao fim da linha.
Basta-me o verso, bem vê,
uma mania que eu tenho…
– ou outras maneiras que haja
de ligar mais ao dizer
do que àquilo que se diz. Que mal
vê nisso Vossa Senhoria?
É certo: não traz ao mundo
bem nenhum, pois isso não…
Mas nem mal traz...

Quando é p’r’alguém ouvir mesmo
o que eu tenho p’ra dizer,
compreende Vossa Senhoria?,
faço os possíveis por encher
as linhas até ao fim…

Que seja o que mais falta faz,
dou-lhe nisso toda a razão!
Agora, que seja uma perda de tempo
não dizer sempre o que mais conta,
isso é a opinião de Vossa Senhoria, que não a minha.

Eu gosto de converseta,
seja ela em verso ou não:
faz-nos bem ao figueiredo
e também ao coração!

20/06/09

Prova do tempo que passa

Já não me lembro por quê, fui no outro dia parar a um site chamado Sticky comics e a uma página em que o seu autor, um rapaz chamado Christian, lista 4 coisas que os nossos netos nunca compreenderão: relógios não digitais, escrita à mão, cassetes de vídeo e jornais impressos.

Não é discutir o valor de verdade das propostas do tal Christian que me interessa, mas notar apenas que o jogo que ele propõe é, além de fácil e inesgotável, também muito agradável para toda a gente. A minha experiência, pelo menos, diz-me que não há quem, por menos passadista que se diga, não dê consigo de vez em quando a jogar alguma variante desse jogo. Hoje, vejam lá vocês, pus-me a pensar que já não há copos de dois nem de três, nem tintinhos nem branquinhos com mistura, e que a expressão “É do lote ou do especial?” não faz mais sentido para os meus filhos do que para os netos do Christian dos Sticky comics, que é norte-americano…

Como os pensamentos são como as cerejas, lembrei-me (do que eu me vou às vezes lembrar…) de um poema que escrevi em Outubro de 1986, com 27 anos, portanto, e em que fazia já uma lista de tudo o que, da minha infância e adolescência, tinha passado à história. E já era muita coisa nessa altura… O texto não tem interesse literário, mas, quando o reli hoje, achei-o com valor documental suficiente para o pôr aqui. Dediquei o poema, quando o escrevi, ao meu irmão João, e, claro, continua a ser essa a dedicatória principal, mas acrescento-lhe agora, ao torná-lo público, uma dedicatória suplementar: a quem nunca tenha conhecido a Rinchoa, as Mercês, Rio de Mouro e redondezas de outra maneira que não seja como esses antros de desolação que hoje são.

Rinchoa revisitada (Quem me viste e quem me vês…)

ao João, que é meu irmão

‘Inda havia à porta o peixe,
o leite e a carroça do azeiteiro.
Havia ainda a aldeia,
a minha terra pequenina,
quase ainda de patilhas
e coletes
e barretes
e de burro
e de faixa enrolada à cintura,
quase assim ainda saloia,
como a pintara o mestre Leal da Câmara,
a cheirar a eucalipto
e carne frita às Mercês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Lá p’ra baixo havia o Monte.
‘Inda havia tamareiras
e as grutas e a pedreira,
sobranceira a vacaria
à calçada ainda estreita.
Mais acima, ‘inda o casino,
com cinema e com bilhares
e gabava-lhe os bons ares
o v’raneante burguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Havia ainda o mercado,
a praça, que se dizia,
embora com o desacordo
do painel de azulejos
que anunciava, soberbo,
“Centro Comercial da Rinchoa – 1949”,
a leitaria da Adelaide,
Sagres e amendoins,
a mercearia do Nina,
que de tão gordo já mal
cabia atrás do balcão
e que aviava, ‘inda assim,
mais tinto do que feijão
e que era ademais o dono
do bailarico saloio
da noite benta de sábado
ao som do acordeão.
Ainda havia o sapateiro,
pachorrento como as botas de carneira
a que remendava meias solas.
E havia o Mário merceeiro
a escarafunchar, o sem vergonha,
o narigão encarnado
enquanto roubava no peso do flamengo
mesmo no nariz do freguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ainda havia
o Manel do jardineiro
e o ti’ Chico pedreiro
e outro Chico, o popó,
cavalo malandro,
filho da escola,
que tinha ensinado o carro
a subir sozinho a Avenida dos Carvalhos
até ao parque infantil
(ainda havia…)
e depois a meter p’la esquerda,
pela Avenida dos Plátanos,
e por fim, chegado a casa,
a pegar no gajo ao colo
e pespegá-lo na cama
à espera que aquilo lhe passasse,
o camano da bubadeira.
E depois havia a malta,
bicicletas pasteleiras,
o futebol de praceta,
mais as festas de garagem,
a nocturna guitarrada,
o namorico, a chinchada,
e claro, como soía,
a guedelha e os porquês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Um dia, de manhãzinha,
começaram a deitar árvores abaixo
e iam crescendo prédios
onde elas iam caindo.
Foi assim em toda a linha.
Lá por trás de Fitares,
do outro lado do rio
e da linha do Oeste,
fizeram a Icesa à prova de sismo.
Chama-se hoje Mira-Sintra.
Mais p’ra baixo,
Massamá passado,
fizeram a Icosal.
Hoje é Queluz Ocidental.
A minha terra pequenina
viu arrasar vacaria e tamareiras
e passou do pé p’rà mão
a chamar-se Urbanil.
Chegavam agora cada vez mais comboios
ao pequeno apeadeiro
e traziam de cada vez
mais e mais gente.
O casino de veraneio
foi fábrica de sapatos
e depois tipografia.
Morreu o Mário da mercearia,
fechou a Adelaide a leitaria,
a praça desapareceu,
o Nina gordo morreu.
E a aldeia que fora
a minha aldeia era agora
história de era uma vez,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ruíram casas burguesas,
quintal ajardinado, pérgula,
caruma acumulada sobre a telha,
a fachada enfeitada de hera
e de madeira vermelha,
não deram mais sinal de vida
as madamas que houvera.
Passou a minha terra pequenina
a dormir de luz acesa.
O peixe que houvera à porta
quase apodrece de tédio
na arca do supermercado.
O leite da bilha de lata
deu em homogeneizado
e ultrapasteurizado.
A terra, que era sem lei,
viu chegar a chotaria
com os nocturnos pela trela.
E o Lopes, que morava
num anexo de vivenda,
ao pé do pinhal do Escoto,
mora agora num andar,
primeiro, lote bê três,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Abençoado o que já não és,
minha terra pequenina
e maldito três mil vezes
na quinta casa do Inferno
quem te foi tirando
aquela graça que tinhas
de seres a minha aldeia,
danado seja aos mais horríveis suplícios
quem te foi fazendo feia,
tu que eras linda, menina,
maldito quem te vestiu
de alumínio e de betão,
quem te arrancou os pinhais
e fez secarem-te as fontes,
maldito seja e danado
à eterna perdição!

E porque não, já agora,
‘maldiçoado eu também,
a armar em saudosista,
ao bom estilo português?

Ah, Rinchoa pequenina,
quem me viste
e quem me vês…