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19/07/25

Aqueles que por obras valerosas

 

Já uma vez aqui falei do assunto. Disse que criadores e obras são coisas diferentes e que, se as obras ficam, as pessoas reais que as criaram são tão facilmente esquecidas como quem nunca fez nenhuma obra memorável. 

Faltou-me sublinhar que, para que recordem as obras que cá deixamos, tanto faz que essas obras sejam boas ou más. Algumas das obras mais recordadas são as mais terríveis — e ainda bem que assim é, que o mal nunca se deve esquecer, para melhor contra ele nos precavermos.

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O resto, que merece também ser sublinhado, digo-o em redondilha maior:

Todos sabem que, ao morrer,
só como recordação
poderão sobreviver.
Mas que o recordem ou não,
quando já cá não andar,
p’lo bem que fez, ou o mal,
a um vivo pode importar,
— para um morto, é tudo igual.

Percy Spencer nasceu a 19 de julho de 1894, faz hoje 131 anos e inventou o forno de micro-ondas em 1945. A patente, uma das 150 registadas por Spencer, foi feita em nome da empresa onde trabalhava, de maneira que nunca ganhou com ela nada além do seu salário. Uma obra de valor, sem dúvida, usada por muita gente no seu dia a dia, mas quem se lembra de Percy Spencer? Imagem: O primeiro forno de micro-ondas produzido comercialmente, lançado em 1947.
Foto de
 Acroterion, Creative Commons, daqui.

15/11/24

A idade, boutadezinha um bocado pateta em redondilha maior

                 

 

                 ✵

A nossa idade é sem fim 
– deixa só de ser, um dia,
a idade que se tem, 
p’ra ser a que se teria…

                 ✵

02/11/24

A humana condição (minipoema de Inverno)


A humana condição, 
sejamos claros, 
é um se, um caso, um contanto que

Ou melhor: é o contrário disso tudo, 
uma condição ao revés, um a menos que
vamos sendo, a não ser que, de repente, 
se interrompa ou se nos altere a condição 
– um morto continua a ser humano?

No comboio para Aalborg, 2/4/2002

21/11/23

Um soneto, lúcia-lima, irreconhecimento e recordação

 

Não acham estranho pensar numa pessoa com uma (id)entidade que persiste ao longo do tempo? Não há nenhum eu que nos acompanhe ao longo na vida; nem como personalidade, sequer, quanto mais como mente — eis a conclusão a que chego depois de muito escrutinar a questão. Não só guardamos em nós muito pouco do corpo que vamos tendo, como a mente vai mudando tanto ao longo do tempo que, a dada altura, essa mente estranha o que já foi. A mim, pelo menos, acontece-me muito: quando observo agora coisas ditas, pensadas, feitas por outro momento de mim, não me reconheço nelas. Às vezes, nem as percebo. Penso: «o que quereria eu dizer com aquilo?» ou «que estranha forma de me comportar!». Outras vezes, o que me espanta é antes reencontrar nesse eu de outra época semelhanças com quem estou agora a ser.

Há uns dias, quando estava a limpar uma gaveta da cozinha, encontrei um saco de folhas de lúcia-lima do nosso quintal, que a minha mulher me propôs que deitasse fora, porque estavam ali há muito tempo e ninguém lhes tocava. A verdade é que nem sabia que tínhamos ali lúcia-lima. Fiz um chazinho e pus o saco no meu escritório, ao lado do computador, para não me esquecer de a ir bebendo. O odor e o sabor da lúcia-lima trouxeram-me à memória o quintal da casa na Rinchoa onde vivi consecutivamente dos seis aos dezassete e depois, a espaços, até aos vinte e quatro; e, reminiscência puxa reminiscência, lembraram-me um soneto que tinha escrito em que descrevia o quintal e falava das suas verbenas — as lúcia-limas*. Fui à procura dele. É de 15 de setembro de 1986 e está dedicado a Roberto de Mesquita. Lembro-me de que, nessa altura, tinha descoberto Roberto de Mesquita e tinha gostado muito da sua poesia. Mais de que um poema dedicado a Roberto de Mesquita, o soneto é, acho eu, um poema à maneira de Roberto de Mesquita. Resolvi corrigir-lhe a métrica, que estava torta e o resultado é este:

Pendem já maduros os cachos de uva 
Da latada, no carreiro do quintal 
Cujo saibro acarinha, suave, a chuva 
Temporã, morna morrinha estival. 

Lá do fundo do céu, ameaçadoras, 
Vêm nuvens negras de tempestade. 
Lentas como elas desfilam as horas. 
Esvai‑se do dia a turva claridade. 

O vento da tarde açoita as verbenas. 
É por certo dele esta voz sofrida 
Que vem não sei de onde e que me diz: 

«Para quê alegrias? P’ra quê penas? 
Vive‑se p’ra morrer no fim da vida 
E não p’ra ser feliz ou infeliz…»

Passados 37 anos, vivo uns 16° mais a norte e 20° mais a leste. Troense tem algumas coisas em comum com a Rinchoa da minha infância, porém, e tenho um quintal mais ou menos com o mesmo tamanho que o quintal da casa onde cresci. Não tenho oliveiras, nem limoeiros, nem laranjeiras, nem pereiras, nem ameixeiras, mas tenho maçãs, abrunhos e morangos, como tinha na Rinchoa — e uvas morangueiras, que, por causa da diferença de latitude, amadurecem umas duas ou três semanas mais tarde que as do soneto.

Voltemos à questão da impermanência do eu. O autor deste soneto é um momento tão distante de mim que, se não soubesse que tinha sido eu a escrevê-lo, nunca o reconheceria como sendo meu. «Eu não escrevo assim», pensaria. Mas não porque não reconheça a paisagem como minha, notem, ou porque não concorde, se se pode dizer assim, com o bombástico remate. (Dito assim, parece mais que estou a falar de um ensaio que de um soneto, mas acho que percebem o que quero dizer.) Podia, aliás, escrever hoje a mesma coisa, em verso ou não: não é para se ser feliz que se aqui se anda e é absurdo nortear-nos pela procura da felicidade.

Passemos agora daquilo em que não me reconheço àquilo que recordo de mim, que é uma coisa diferente. Tomemos o terceto final. Se escrevesse hoje alguma coisa com o mesmo significado, quereria dela outro sentido. Quando leio esses versos neste soneto, lembro-me do que pensei muito tempo e sei que é da apologia da abolição das emoções que se trata. Foi uma obsessão minha durante muitos anos. Mais budismo que estoicismo, mas um budismo sui generis e confuso. Achava que alegria e tristeza eram ambas produto de uma mesma coisa, do maior de todos os males, a mente — um emaranhado de juízos e sentimentos, uma projeção constante de mim em tudo o que conhecia, que me impedia de ver as coisas como elas de facto eram. Agora, há muito que deixei de querer livrar-me de emoções e julgamento. Constato simplesmente que toda a vida, seja ela qual for, seja consciente ou não, não existe para nada específico, não tem telos, finalidade, propósito nenhum: é um dado biológico apenas, uma sucessão simples de reações físico-químicas, sem mais. A vida tem obviamente um único sentido, na aceção de direção — vai do princípio para o fim. Tudo o mais é a gente a dizer coisas.





____________________

* A lúcia-lima não é atualmente incluída no género Verbena (é do género Aloysia, espécie citriodora), mas é da família das Verbenaceae. Creio que, quando escrevi o soneto, estava mesmo convencido de que era uma Verbena, até porque era muitas vezes assim referida (como Verbena triphylla ou Verbena citriodora). É uma planta maravilhosa.

05/02/21

Pensar p'la sua cabeça

(Soneto inglês em redondilha maior, se é que tal coisa existe)

Pensar p’la sua cabeça,
para mim, só vale mais
quando esse pensar pareça
melhor que os pensares demais.
Em não julgando pensar
melhor que outros, porém,
o melhor ‘inda é tomar
por nosso o pensar de quem
julgamos pensar melhor
do que a nossa cabeça,
e deitar fora o amor-
-próprio, que nada interessa
— conta se se pensa bem,
não p’la cabeça de quem...


08/07/17

Mictlantecuhtli em redondilha maior



Mictlantecuhtli, deus asteca dos mortos. 
Estátua encontrada em Teotihuacan e exposta no 
Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. 
Wikimedia Commons, daqui.
Feio é, como é morte
ou como às vezes a vida,
feio como a nossa sorte,
sempre a meio interrompida,
feio bicho que trazemos
escondido dentro de nós
e se revela sem qu’rermos
num olhar ou tom de voz
– deus do in-mundo final,
que importa se se lhe chama
Aita, Hel, Ereshkigal,
Demo, Osíris ou Yama?















[A Wikipedia tem uma longa lista de divindades da morte em diversas religiões e culturas.]

02/11/14

Dia de Finados #1: Dança quase macabra em redondilha maior

Hoje é o dia dos mortos,
que persistem, desalmados,
em corpos que já não têm
noutros corpos transformados

Hoje é o dia dos mortos,
como os dias sempre são:
dos mortos que já morreram,
dos mortos que ainda não.

05/10/13

Fatia de vida: Travessa de S. Pedro revisitada e louvor da solidão

[Encontro de travessas, é o que é: fui dar com um poema que escrevi quando morava num rés do chão da Travessa de S. Pedro, no Bairro Alto, em 1995, e achei que ficava aqui bem na Travessa do Fala-Só. Numa certa perspetiva, parece impossível que tenham passado já quase 20 anos; noutra perspetiva, parece que 20 anos é distância pouca para medir a diferença entre a minha vida de agora e a minha vida daquela altura. Mas a minha vida não interessa a quase ninguém e se ponho aqui o poema é porque lhe achei graça, que é coisa que raramente acho aos poemas de há quase vinte anos.]

não sou
nem bom
nem mau
quando arrumo no guarda-fato
os casacos que andaram semanas
espalhados pelas cadeiras da sala e do quarto
nem bom
nem mau
quando me sento como agora a escrever
nem bom
nem mau
quando fumo à janela
o último cigarro da noite

acho eu

quando é que sou
bom? quando é
que sou
mau?

sou bom se desisto
e mau se me enraivo?
bom se adormeço cansado
mau se não me deixa dormir
a vontade de um sexo
outro que não o meu?
bom se sorrio à manhã
mau se maldigo inocência ou paixão?
se sou bom
ou sou mau
para quem
o sou?

louvada seja esta e toda a solidão:
se me pesa a dúvida
sobre como bem e mal se equilibram
nos meus gestos e nas minhas vontades
vem logo ela sossegar-me:
sejam bem e mal o que forem
não os faço senão a mim
– quem poderá acusar-me
de arrumar os casacos espalhados pela casa
de fumar à janela o último cigarro
de me sentar como agora a escrever?

10 de maio  de 1995

02/09/13

O arenque e a sardinha

[Soneto inglês escrito na Dinamarca (sobretudo) para portugueses]

Comei a Sul, senhores, a sã Sardinha:
Que o Arenque se lá chega, chega já
Sem a graça prateada que aqui tinha:
 Marinado ou em barrica e sem agá…

Comei, que aqui, no frio Setentrião,
Que a sardinha só vê – que grande lata! –
Enlatada em Agadir ou em Olhão,
E, espanto!, mesmo assim nada barata,

Que remédio, pois, sem ela a gente passa…
Mas não sem o seu primo matulão
E que rechina mais, quando se assa,
Que a parente sulista, o figurão!

Cada qual deita mão, isso é que é!,
Aos clupeidas que tenha mais ao pé.
[Mais sobre arenques na Travessa do Fala-Só aqui.]









27/09/11

De Mary Read e outras três Marias

[I Introdução]
Beijo de Mulata publicou há coisa de duas semanas uma definição de loucura de António Cunha em D. Maria, a Louca:
«A loucura não é uma porta que se fecha mas muitas janelas que se abrem, só que todas ao mesmo tempo...»
Tem visos de verdade.
Agora, diz o dito que há mais Marias na terra. Na História também, há muitas Marias. E juntar muitas Marias da História num texto só é capaz de ser como demasiadas janelas abertas – uma loucura. Ou uma maluquice, seja, que a loucura é capaz de não chegar … Mas enfim, seja uma coisa ou outra, há de ser algo que não convém à História, que é, em princípio, assunto sério. As histórias que conto a seguir, porém, sobretudo porque são de rainhas, são História a reinar…
Tudo nasceu de um acaso, já lá vai uma dezena de anos:
Um dia, quando acabei de reler a Historia Universal de la Infamia, decidi ver o que dizia a minha enciclopédia eletrónica dos heróis desse livro de J. L. Borges. Dos dois primeiros contos, a enciclopédia não conhecia nem protagonistas nem personagens secundárias. Chegado ao terceiro conto, “La viuda Ching, pirata”, antes de escrever no motor de pesquisa da enciclopédia o nome do malogrado marido da pirata, resolvi procurar a Mary Read que aparece na introdução à história. E já não procurei mais, porque fiquei fascinado com o resultado da pesquisa.
O nome da capitã de piratas era referido apenas uma vez na entrada “Dame Flore Robson”, como título de uma peça levada à cena no West End de Londres em 1934. Sabendo que a Historia Universal de la Infamia foi escrita entre 1933 e 1934, pode especular-se se J. L. Borges terá ou não assistido à peça e se não será dela que lhe veio a ideia de que, traduzo, “a palavra corsárias corre o risco de despertar uma recordação que é vagamente incómoda: a de uma já descolorida zarzuela, com as suas teorias de evidentes criadas, que faziam de piratas coreográficas em mares de notável cartão”.
Quanto aos outros artigos propostos, nenhum deles continha, de facto, o nome Mary Read, mas sim uma série de outras estranhas associações do nome Marie ou Mary com uma série de palavras que têm em comum apenas o começarem por “read…”. É dessas associações – e de outras de que a enciclopédia não dá conta – que trata o texto que segue. 

[II Maria Tudor]  
Como a maior parte de vocês saberá, Maria Tudor ou Maria I de Inglaterra, nasceu em 1516 e aos 37 anos tornou-se rainha de Inglaterra. No ano seguinte, casou-se com Filipe II de Espanha, que tinha 27 anos e tinha sido já casado com outra Maria. O casamento católico de Espanha com Inglaterra foi tão mal recebido pelos ingleses que houve logo quem armasse uma revolta para tentar pôr no trono, em lugar desta vendida Maria, a sua meia irmã Isabel. E não deixavam de ter alguma razão os revoltados: por causa da aliança de Maria I com Filipe II, a Inglaterra juntou-se a Espanha na guerra em que esta estava metida contra França, o que valeu àquela perder Calais, se é que me faço entender. 
Diz-se que, quando os generais da Tudor voltaram, desanimados, empoeirados e sedentos, da terrível batalha em que os franceses tinham recuperado o enclave inglês, a rainha perguntou, com voz gelada, cortante, a um dos chefes do seu exército: “Então, Calais?” E que, provavelmente para tentar aligeirar um pouco a atmosfera pesada do salão, este se teria rido, com um riso forçado, pateta, e teria respondido, abrindo os braços e virando para cima a palma das mãos, “Pas de Calais!”, o que lhe valeu, a partir de então, o cognome de O Belga (The Sprout) no seio do exército britânico. 
Maria Tudor respondeu séria, mas mais triste que despeitada, ignorando a idiotia do comandante das suas tropas: “Pois bem, quando eu morrer e me abrirdes o coração, aí encontrareis Calais!” Mas nem com a tirada teatral o povo inglês a desculpou… Não lhe perdoou Calais nem as perseguições religiosas que matrocinou. O vodka com sumo de tomate existe para no-lo recordar. 

[III Maria Rainha dos Escoceses]
A outra Maria a seguir é a Maria que os escoceses tiveram, que aos 16 anos e no ano da morte da Maria anterior, se casava, para cumprir um contrato que tinham feito por ela à nascença, com um Francisco de 14 anos que viria a ser Francisco II de França no ano seguinte..
“Father, dear father, you have done to me great wrong / You’ve married me to a boy who is too young…”
Assim conta uma canção que a jovem rainha se teria queixado, em inglês, a seu pai. E a mesma canção diz que o pai lhe respondeu como segue:
“Daughter, dear daughter, I have done to you no wrong / I married you to the French King’s son!”
A canção deve ter tido grande sucesso na época, a julgar por dois factos: um, o de ter chegado aos nossos dias, se bem que numa versão ligeiramente modificada; outro, o de serem conhecidas não apenas uma mas três versões portuguesas, com pequenas variações entre si, que não serão provavelmente muito posteriores ao original e das quais a mais famosa é a seguinte: 
“Pai, querido pai, tanto mal que me fizeste / Quando por esposo uma criança me deste… / Minha filha linda, sei quem por esposo te dei / Jovem será, mas também filho de um rei!”
Não se sabe se para contentamento de Maria ou não (é bem provável que se divertissem, apesar de tudo, a brincar um com o outro), Francisco II morreu no ano a seguir à coroação.
Sabe-se que foi feita na época outra canção, esta em francês, em que a rainha se queixa, mas agora da perda do seu jovem par. Esta canção não teve a fortuna da canção em inglês anteriormente referida e, ao contrário dela, não chegou aos nossos dias, fosse em que forma fosse. Se se sabe que ela existiu é porque existe uma tradução portuguesa dos finais do séc. XVI em que é referido um original francês com o título Ballade de la Jeune Reyne Marie d’Escosse. Além disso, o facto de esta canção portuguesa estar escrita num verso bem pouco comum entre nós, o de oito sílabas, parece confirmar que se trata de uma tradução de um original francês, língua em que essa medida é normal. A versão portuguesa, extensa demais para a transcrevermos aqui na íntegra, começa assim:
“Meu pai deu-me um rei por marido / Que me queria, mas que eu não quis / Mas agora que o hei perdido / Como sou, Deus meu, infeliz…”
Um famoso estudioso português da cultura portuguesa, que escuso de nomear aqui, recriou, a partir da tradução, o original francês. Era uma coisa que ele gostava muito de fazer (apesar de não conhecer bem a língua francesa...), sobretudo em ressacas de grandes bebedeiras que apanhava com os amigos, aos fins de semana, numa quinta que tinha ali para os lados da Várzea de Colares. Uma pessoa bem se pode perguntar como é que ele chegou dum texto ao outro, mas enfim, estranhos são os desígnios de alguns intelectuais…
“Mon père, vous m’avez fait grand tort / En me mariant à ce jeune roi / Dieu merci, le voilà qui est mort / Et je ris et chante de joie”
Quando lhe aconteceu essa desgraça de se ver assim viúva aos 18 anos, pobre Maria!, achou ela que o melhor era deixar aquela França onde tinha sido criada e voltar à Escócia de que era rainha desde o berço, mas a que nunca tinha dado muita importância… Depois de muitas voltas e reviravoltas – que dariam, como deram, textos bem mais interessantes do que este –, Maria foi, em 1567, presa e forçada a abdicar do trono. Podia ter tudo acabado aqui, mas ela era uma mulher de armas: fugiu da prisão e juntou um exército de 6.000 homens. Desafortunadamente, derrotada e obrigada a fugir para Inglaterra. E a Isabel que era lá rainha nesta altura – a que sucedeu à Maria da história anterior –, em vez de dar asilo à rainha dos escoceses, deu-lhe antes prisão perpétua. Maria dos Escoceses era maior do que ela própria, como acontece a muitas estrelas da música pop e a ídolos de outras áreas. Havia quem achasse que não devia ser só dos escoceses e que devia ser rainha dos ingleses também. É claro, perante isto, Isabel fez, como todos nós fazemos constantemente, o que as circunstâncias lhe mandavam fazer. Maria foi executada a 8 de fevereiro de 1587 em Inglaterra. Tinha 45 anos e uma exuberante cabeleira postiça vermelha, sobre a qual muito se tem especulado.

[IV Maria de Médici] 
14 anos antes, mudando agora de assunto, tinha nascido outra Maria – florentina de nascimento, mas não de costumes, para usar uma fórmula com que Dante se apresentou uma vez... Esta Maria era da família Médici, que mandou em Florença durante séculos, e foi rainha consorte de Henrique IV de França. Foi ela a responsável da escalada política de Richelieu, esse cardeal que faz papel de mau nos filmes de capa e espada e que, um dia, virou de repente a casaca de cetim e veludo e deixou de ser amigo dos espanhóis amigos da Maria. Maria montou uma intentona para o afastar do poder, mas o golpe falhou e foi ela que acabou por ser deportada o resto da vida. Nos últimos anos de exílio, poderia ter pensado assim, um pouco como uma cortesã que recordo de um velho poema chinês:
“Florença estava magnífica no último verão que lá passei…
Há quanto tempo foi isso? Não sei, já não sei…
Sei que nessa altura não fazia ideia do que era ter poder,
nem de quanto poder viria a ter.
E para, Deus meu, o quê?, afinal, para acabar aqui
a imaginar o que não fiz e o que não vi
desse mundo que deixei passar ao meu
lado, na tonta ilusão que era eu
que o fazia girar, pelo menos em parte
pela minha – como o cri eu? – estratégia, arte?
Devia ter amado antes, que me cantassem
como à rainha escocesa, que se lembrassem
de mim, arrebatada e triunfante,
mais que como rainha como amante…
Mas perdi de meia vida o tempo, e agora
nem os prazeres me restam de outrora
com que enfeitar em sonho a solidão,
a velhice e o exílio… E tempo não
tenho já para transformar em tempo de vida
o tempo que me resta pouco… Ofendida,
é assim que me sinto, mas não p’lo cardeal,
ou p’lo meu filho… Porquê?, se o mal
que me fizeram é menor que o que me fiz
ao não querer da vida apenas ser feliz…
Não, se me sinto ofendida é só por mim
própria. E espero ofendida o meu fim.”
[V Remate] 
Do ponto de vista do estilo, esta última parte do texto é claramente de inspiração arcádica, o que é estranho porque o estilo arcádico há muito que não inspira ninguém… Chamam-se também Três Marias às três estrelas em linha que se encontram no centro da constelação de Orion, por muito que elas se chamem de facto Mintaka, Alnilan e Alnitaka…  
Mas Três Marias há muitas...

16/02/11

Chuva de pedra

Começou alguém hoje a falar de granizo e lembrei-me de um poema que fiz há 24 anos:

A chuva de pedra

Granizo granito grito
torrencial aliteração
ponte de líquida pedra
de um céu até outro céu

Aguaceiro desconforto
(Vou pôr a alma a secar)

Lembrei-me do poema, mas não me lembro se, quando o fiz, tinha já ouvido falar dos famosos (?) versos de um poema que Vladimir Maiakóvski dedicou a Sérguei Iessenine [Вам / и памятник еще не слит,— / где он, / бронзы звон / или гранита грань?—], que significam, estou eu em crer (mas não garanto…), qualquer coisa como

Tu / monumento ainda não te ergueram – / onde estão / o ruído do bronze / ou as arestas de granito? –

e que o autor de uma tradução inglesa que se encontra online (que não consigo descobrir quem é...) traduziu preservando a aliteração em [gr] de гранита грань [granita gran] (!!!):

A monument for you hasn't yet been cast –
where it is, bronze reverberant or granite grand? –

Se já conhecia, quando escrevi o meu poema, este granita gran, chamemos-lhe um piscar de olho a Maiakóvski, para não lhe chamarmos cópia; se não conhecia o granita gran de Maiakóvski, então tive sorte nesse dia de granizo.

12/04/10

Um procexo muito complexo: semiarcádica valorização das coisas aparentemente sem muito que se lhes diga

E claro, posso sempre dizer que isto, o só andar por aqui,
quase sempre é perder-se em petitesses,
é o existencial antípoda da poesia,
a rodinha do ludíbrio, a búdica ilusão...
Posso dizer que há que aspirar a mais,
a que seja a vida vida que saiba negar a morte;
que se tire e que se dê, feita graça ou perdição.
Dito assim, soa sublime, ninguém me contrariará.

Mas também não me fica mal deslumbrar-me um bocadinho
com o menos sumptuoso que fica, o tristemente humano,
que é ainda assim – sem poesia, vá, que seja –

um procexo muito complexo…

Também não me fica mal deixar de me barricar
contra o pois-é, contra o a-vida-é-assim:
e, ao banal, fazer-lhe cócegas p’ra começar e depois
ir escarafunchando nele até ficar carne viva.
É mais do que parece, se a gente reparar bem:
o pão p’rà boca, o sexo p’rò sexo e por aí fora
são mais do que só baixeza, que trivialidade vil:
se se arranha e se se escava, é evidente que até
o que se acha comezinho bem vistas as coisas é (ah, uma rima!...)

um procexo muito complexo…

13/03/10

Conselho sem muita convicção

O meu conselho é não buscar com que se ocupar, em que pensar, sobre que escrever (não buscar!…); manter pesada a consciência, do peso que se calcula que pode ter o mal virtual, por fazer; não deixar que o futuro seja mais do que desejo, nem que o desejo preencha o futuro todo.

O meu conselho é ter calma, pelo menos que chegue para resolver a vida, à medida que ela nos vai atacando; prestar muita atenção aos sofrimentos que há, que só por acaso não são nossos; adormecer com o coração cheio de música e cantar de manhã, ainda antes do café, que se quer sobretudo alegre.

[Um comboio, um écran, qualquer olhar,
tudo tem nome!, as árvores, a charneca, o estrume primaveril,
a corrida extravagante do cavalo islandês,
mesmo os mais obscuros – e até raros – sentimentos,
os degraus (é mesmo assim) de parentesco,
a famigerada e, démodée ou não, incontornável
fragilidade desta nossa condição.]

O meu conselho é, como dizia, não buscar, que chegam bem as tantas coisas que há em que vamos tropeçando – são passatempo de sobra para muitas tardes e noites, material inesgotável para os livros todos que se quiser.

Agora, se me perguntarem se é com muita convicção o conselho, digo que não. E digo mais (o meu último conselho):

O meu conselho é ensinar, propor, contrariar, aconselhar, mas sem nunca exagerar em convicção...

*

...e então pus-me a especular a que roma iriam dar os caminhos desta vida...

*
...e então pus-me a especular
a que roma iriam dar
os caminhos desta vida,
que foz seria o seu fim...
charnecas verdes de mar?
a rubra ira lunar?
a paz mais que merecida?
o cerne em lava de mim?
um abismo inesperado?
a crueza do passado?
a terra só, prometida?
um cruel assim-assim?

nada! os caminhos da vida
é ao ponto de partida,
que eles voltam, no fim:
à nossa mais que fatal
tão sozinha condição:
tu a ti mesmo, eu a mim.
não sei se está bem ou mal,
sei apenas que é assim:
todos os caminhos vão
dar à nossa solidão.

*

11/03/10

Teoria literária

[Se o poema só se diz a ele próprio ou se dá conta do mundo fora dele? Desculpem, mas não posso dedicar mais que um título e quatro segmentos de linha a tão estéril discussão:]


rimésis

a poesia
menina rimada que ela é

às vezes mima
às vezes não

*

09/03/10

O sublinhado é nosso

os gestos parecem só
citar outros gestos
as ruas outras ruas
as pequenas iras outras pequenas iras
as alegriazinhas outras alegriazinhas

pois…

e nestes dias que parecem só
ser de outros dias, enfim
uma longa e entediante
citação
ainda assim
o sublinhado é nosso

*

05/03/10

Revisão de texto


















A grala gralha

Falha, falha, falha,
nunca mais se calha







Ilustração:  Johann Friedrich Naumann (1780-1857), Naturgeschichte der Vögel Mitteleuropas, 2ª edição (1896-1905), daqui.

Os ismos da vida 2: Conformismo

Gosto de ser só assim,
fraco, instável, ansioso,
o oposto exacto, enfim,
de um deus todo poderoso.

Gosto de ser só assim,
humano, como se diz,
obcecado c’o meu fim,
volta não volta infeliz.

Gosto de ser feito assim,
menos galhofa que tédio.
Sério: gosto assim de mim!

Bem, quer dizer... Que remédio!...

Os ismos da vida 1: Optimismo

Se até às dez em ponto
a vida não correr mal,
há-de manter-se assim, pronto,
até lá p'ràs dez e tal.

26/01/10

A lã bezul

Há um poema meu online sem ter sido eu que o lá pus. Um único, estou eu em crer, e já não é chita! Nada de mal, nenhum abuso – apareceu numa revista e é a revista que puseram na Internet. Mas só o consigo apanhar, em más condições, no cached de Google. E então, como é um poema a que acho graça (pelos vistos, estava inspirado no dia 1 de Novembro de 1988), deixo-o aqui em melhores condições.

A lã bezul

Ei-lã

que se carda e fia
que se novela
e romança

que se tricota
se calha
ou se decota
de malha

se de bebezinha, rosa
se de bebezinho, azul

virgulã
a lã bezul