17/09/26

Times square e outros conceitos em arte


São comuns definições de arte assentes na ideia de maneira única de fazer algo, de expressão individual que rompe com o discurso convencional. Uma obra artística é, por definição, algo único, que nunca foi feito e nunca voltará a ser feito — a não ser como cópia, talvez…   

Num texto desta Travessa, referi um vídeo de Neil deGrasse Tyson em que ele defendia esta ideia de obra artística como algo único, irrepetido e irrepetível, opondo-a ao trabalho do cientista, que é descobrir as leis da natureza, que já existem antes da sua descoberta e serão sempre as mesmas: se alguém descobrir uma dessas leis e não disser a ninguém, mais ou cedo ou mais tarde alguém descobrirá exatamente a mesma coisa.   

A questão é saber até que ponto uma obra de arte tem de facto essa característica de objeto único e irrepetível. Em geral, é evidente que tem, porque é tão complexa que é impossível os mesmos elementos voltarem a juntar-se. Se pensarmos em artes plásticas, é evidente que ninguém desenhará, pintará ou esculpirá nunca o mesmo que outra pessoa, nem que tenha o mesmo modelo. O traço, por exemplo, é uma caraterística impossível de definir, mas é tão pessoal e único que uma pessoa com treino, sem o saber explicar, reconhece um traço que lhe seja familiar num decalque ou tintagem de um desenho de uma terceira pessoa. Quando falamos de texto, a questão é ainda mais complicada, porque mesmo o mais banal dos enunciados não artísticos, uma conversa de vizinhos a falar do tempo, tem grandes possibilidades de ser único e nunca se vir a repetir — embora composto por elementos convencionais, ao contrário do que acontece numa obra literária. Enfim, a questão é complexa. 

 Şakir Gökçebağ: Times Square, 2010* 
Um dia destes, quando vi a obra Times Square, de Şakir Gökçebağ, dei comigo a pensar de mim para mim que são excelentes ideias, tanto a da composição como a de lhe dar este título, mas que talvez sejam dessas ideias que pairam no ar, disponíveis, à espera de quem as use; e que, se não a tivesse tido ele, a teria outra pessoa. Evidentemente, mesmo que alguém tivesse a mesma ideia não lhe daria a mesma forma...  

Uma vez, pus aqui uma pintura de Pamela Joseph, Censored Nude Descending a Staircase, cuja ideia de base é uma versão pixelada (como quando se censuram partes de imagens na comunicação social) do famoso Nu descendo as escadas de Marcel Duchmap. Ora, para os artistas conceptuais, a realização concreta da obra é o que menos conta. O que importa é a ideia, o conceito, como explica Sol LeWitt em Paragraphs on conceptual art (traduzo eu): 

Na arte conceptual, a ideia ou o conceito é o aspeto mais importante da obra. Quando um artista utiliza uma forma de arte conceptual, significa que todo o planeamento e decisões são feitos antecipadamente e a execução é uma mera formalidade. A ideia torna-se uma máquina que produz a arte. 

Se considerarmos que, por exemplo, a obra de Pamela Joseph é, essencialmente, uma obra conceptual e o que conta é a ideia, podemos considerar que a obra Almoço puritano na relva (excerto), realizada por mim agora mesmo para este texto do blogue, é um plágio de Censored nude… ? Ou é antes uma vandalização do quadro de Manet? 

* Não tenho direitos de utilização da foto, mas parece-me que, neste contexto, pode ser considerada «uso justo». 

14/09/26

Querer


Querer é um verbo sem imperativo. Às vezes, ouve-se ou lê-se, sei lá..., «Queira desculpar» e frases assim, mas são falsos imperativos. Na realidade, não se pode pedir nem ordenar a ninguém «Quer hoje ir cedo para a cama!», exatamente da mesma maneira que não se pode pedir nem ordenar a ninguém «Tem sede, anda!» ou «Gosta lá de Prokofiev, vá.». O que queremos, queremo-lo sempre sem querer.



10/09/26

De mapas, escalas e territórios


«O mapa não é o território» é um conhecido aforismo de Alfred Korzybski, que se usa às vezes para resumir os princípios da sua Semântica Geral — que não pode, claro, ser resumida numa frase. Já agora, a teoria são as palavras que a formam ou estas apenas a representam?

As palavras representam, tal como os mapas, mas as palavras não representam como os mapas. As palavras representam conceitos, os mapas não. Quer dizer, talvez possamos considerar que um mapa possa remeter para vários conceitos, até porque inclui palavras, mas o que eu quero dizer é que o mapa de Portugal não remete para o conceito «Portugal» como a palavra Portugal remete. 

Não me aventuro mais longe na discussão das diferenças entre várias formas de representação. Acrescento só que a fidelidade da representação é graduável: há mapas que, mesmo não sendo nada parecidos com o território, o representam melhor que outros mapas. Um mapa-mundo baseado na projeção Terra Igual representa melhor a terra que um mapa-mundo baseado na projeção de Mercator. Mas é possível fazer mapas ainda mais rigorosos. Em Sylvie and Bruno Concluded, de Lewis Carroll, encontramos este interessante diálogo (traduzo eu):

− Essa é outra coisa que aprendemos com a vossa nação − disse Mein Herr, − Aprendemos a fazer mapas. Mas levámos essa arte muito mais longe do que vocês. Qual é que vocês acham que seria a escala do maior mapa útil?

− Cerca de seis polegadas por milha.

− Só seis polegadas! — exclamou Mein Herr. – Nós depressa chegámos a seis jardas por milha. Depois tentámos cem jardas por milha. E então surgiu-nos a mais grandiosa ideia! Fizemos um mapa do país, à escala de uma milha por milha!

− Têm-no usado muito? − perguntei.

- Ainda não o desenrolámos — disse Mein Herr. − Os agricultores foram contra: disseram que ia cobrir o país todo.

Jorge Luis Borges, que era admirador de Carroll e que provavelmente conhecia o mapa referido por Mein Herr, refere um mapa à mesma escala num miniconto constituído por uma citação de uma obra imaginária e que, por ser mini, aqui cito à escala 1:1 — e na língua original, que, presumo, os meus leitores não terão dificuldade em compreender. 

Del Rigor en la Ciencia

En aquel Imperio, el Arte de la Cartografía logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, estos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él.

Menos Adictas al Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y los Inviernos. En los desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográficas.

Suárez Miranda, Viajes de Varones Prudentes, Libro Cuarto, Cap. XLV, Lérida, 1658.

Ainda a propósito de escalas, uma curiosidade. Temos numa parede da casa de jantar um grande mapa escolar alemão de 1964. Foi um amigo que no-lo deu. Tinha-o encontrado algures numa arrecadação de uma escola primária onde trabalhava e era para deitar fora. É um mapa de África, com o título África da colonização à independência. Além do mapa principal, um mapa político do ano da edição, inclui outros mapas mais pequenos que dão conta da evolução da partilha colonial de África. O mapa tem, no canto inferior direito, um pormenor curioso: para o público a que se destinava ter uma ideia da magnitude das distâncias, dá o exemplo dos 800 km do Lago Constança a Flensburg e dos 1000 km de Colónia a –– surpresa! –– Königsberg. Ora, em 1964, Königsberg já não era alemã há 19 anos e há 18 anos que se chamava Calininegrado.

Restos, receitas e improvisos, e um bocadinho de weblog [Crónicas de Svendborg #56]


Não é que tenha alguma coisa contra receitas, que não tenho. Muitas vezes, aliás, se improviso uma comida qualquer que me sai bem, faço um esforço para me lembrar exatamente do que fiz e repito; e, se praticamente nunca me dou ao trabalho de escrever o processo e as quantidades, acaba por se tornar uma receita. No fundo, é o que faz qualquer pessoa que improvisa, seja o que for: reutiliza o que lhe agradou.  Mas em uma pessoa tendo um repertório razoável de processos e combinações da sabores e texturas, as receitas bem podem ser mais a exceção que a regra. Uma coisa que só raramente faço é comprar ingredientes para este ou aquele prato. Prefiro ver o que encontro que me agrade, em preço e qualidade, e ponderar depois como combinar o que comprei. E há casos em que um prato pode surgir inesperado de restos imprevistos.

Por exemplo: No outro dia, recebemos amigos cá em casa e tínhamos, de entrada, uns mexilhões, que abri com bastante alho, bastante pimenta preta (é muito raro usar pimenta branca) e um bocadinho de vinho branco. O prato principal era pescada com um molho simples de chalotas, manteiga, caldo de peixe e natas. E ficou bastante molho, de maneira que, ao tirar a mesa, o juntei ao caldo que tinha ficado dos mexilhões e pus no frigorífico (como faço com todos os restos que tenham sabor, nem que seja só água de cozer legumes), porque podia servir para qualquer coisa. 

No dia seguinte, apanhámos algumas coisas da horta: funcho, batatas, as primeiras cenouras, o resto das acelgas, que já floriram e que, por isso, já não dão mais folhas, e curgetes, que estão também a chegar ao fim da época. Agora, é deixar alguma crescer e depois guardar as curgetes gigantes, do tamanho de abóboras, ali na oficina, quando o frio chegar. Aguentam bastante tempo e são boas sobretudo para sopas.  

E pensei: uma sopinha, é isso mesmo, uma sopinha –– só com hortaliça do quintal! Pus a refogar funcho e cebola picados, cenoura ralada, curgete e batata cortadas em cubos muito pequenos. À parte, cozi as acelgas na frigideira, sem água, só no sumo que iam largando, com muito pouco sal e cortei-as depois em bocados grandes. Quando a batata estava quase cozida, juntei àqueles legumes todos refogados a tal mistura de água de mexilhões com o resto do molho do peixe. Tive de lhe acrescentar só um bocadinho de nada de água. Juntei as acelgas, deixei apurar até os bocadinhos de batata começarem a desfazer-se ligeiramente, juntei-lhe um miolo de mexilhão congelado e uns camarõezinhos daqueles muito pequeninos já descascados (aqui, chamam-lhe camarão da Gronelândia) e pronto. Não inventaram ainda a maneira de pôr cheiros e sabores online, de maneira que vão ter de me acreditar: estava muito bom! 

Como receita, isto é capaz de não valer grande coisa, mas acho que, se quiserem experimentar uma coisa parecida e sem terem os restos que eu tinha, conseguem um sabor semelhante com um bocado de caldo de peixe ou marisco e um bocado de nata.

Quanto ao quintal, começa agora uma fase nova, sem acelgas nem curgetes nem feijão verde, nem groselhas e framboesas. Também apanhei ontem os últimos funchos. Floriram antes de tempo, por causa da falta de água durante a maior parte do verão e pouco se aproveita deles. Tinha acontecido o mesmo a uma parte das cebolas, mas a maioria saiu bem. Na terra há ainda batatas, alho francês, tupinambos, beterrabas e cenouras. E ainda há feijão e couve. E maçãs por todo o lado. A ver se amanhã apanhamos as maçãs todas (menos as mais tardias, que ainda estão verdes) e as vamos levar à fábrica de sumo. E a vocês, como vos corre a vida?

Muita gente se queixa que é difícil cultivar coentros.
Para nós, o que é difícil é dar-lhes vazão...