São comuns definições de arte assentes na ideia de maneira única de fazer algo, de expressão individual que rompe com o discurso convencional. Uma obra artística é, por definição, algo único, que nunca foi feito e nunca voltará a ser feito — a não ser como cópia, talvez…
Num texto desta Travessa, referi um vídeo de Neil deGrasse Tyson em que ele defendia esta ideia de obra artística como algo único, irrepetido e irrepetível, opondo-a ao trabalho do cientista, que é descobrir as leis da natureza, que já existem antes da sua descoberta e serão sempre as mesmas: se alguém descobrir uma dessas leis e não disser a ninguém, mais ou cedo ou mais tarde alguém descobrirá exatamente a mesma coisa.
A questão é saber até que ponto uma obra de arte tem de facto essa característica de objeto único e irrepetível. Em geral, é evidente que tem, porque é tão complexa que é impossível os mesmos elementos voltarem a juntar-se. Se pensarmos em artes plásticas, é evidente que ninguém desenhará, pintará ou esculpirá nunca o mesmo que outra pessoa, nem que tenha o mesmo modelo. O traço, por exemplo, é uma caraterística impossível de definir, mas é tão pessoal e único que uma pessoa com treino, sem o saber explicar, reconhece um traço que lhe seja familiar num decalque ou tintagem de um desenho de uma terceira pessoa. Quando falamos de texto, a questão é ainda mais complicada, porque mesmo o mais banal dos enunciados não artísticos, uma conversa de vizinhos a falar do tempo, tem grandes possibilidades de ser único e nunca se vir a repetir — embora composto por elementos convencionais, ao contrário do que acontece numa obra literária. Enfim, a questão é complexa.
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| Şakir Gökçebağ: Times Square, 2010* |
Uma vez, pus aqui uma pintura de Pamela Joseph, Censored Nude Descending a Staircase, cuja ideia de base é uma versão pixelada (como quando se censuram partes de imagens na comunicação social) do famoso Nu descendo as escadas de Marcel Duchmap. Ora, para os artistas conceptuais, a realização concreta da obra é o que menos conta. O que importa é a ideia, o conceito, como explica Sol LeWitt em Paragraphs on conceptual art (traduzo eu):
Na arte conceptual, a ideia ou o conceito é o aspeto mais importante da obra. Quando um artista utiliza uma forma de arte conceptual, significa que todo o planeamento e decisões são feitos antecipadamente e a execução é uma mera formalidade. A ideia torna-se uma máquina que produz a arte.
Se considerarmos que, por exemplo, a obra de Pamela Joseph é, essencialmente, uma obra conceptual e o que conta é a ideia, podemos considerar que a obra Almoço puritano na relva (excerto), realizada por mim agora mesmo para este texto do blogue, é um plágio de Censored nude… ? Ou é antes uma vandalização do quadro de Manet?
