30/09/22

A bicicleta como meio de transporte


Segundo um estudo do Eurobarometer de 2014 baseado nas declarações de 27.000 pessoas*, a percentagem média de pessoas que usam a bicicleta como principal meio de transporte na Europa, num dia normal, é de 8%. Os países que mais se afastam da média da UE** são, no topo da tabela de utilizadores da bicicleta, os Países Baixos (36%), a Dinamarca (23%), a Hungria (22%), a Suécia (17%) e a Finlândia (14%) e, nos últimos lugares, Malta (0%), Chipre e Portugal (1%), a Irlanda, a Grécia e o Luxemburgo (2%).

É interessante notar que, se, no total europeu***, a taxa de utilização diária da bicicleta é a mesma para homens e mulheres, já se notam diferenças quando temos em conta a idade: os jovens entre os 15 e os 24 são os maiores utilizadores (11%) e, curiosamente, as pessoas com 55 anos ou mais usam um pouco mais a bicicleta que os outros (8% contra 7% entre os 25 e aos 54). Se considerarmos antes o nível de educação, é quem ainda está a estudar que mais utiliza a bicicleta (13%) e quem tem uma educação mais longa usa-a um pouco mais que quem tem menos anos de educação (8% de pessoas que acabaram de estudar depois dos 20, contra 7% de pessoas que acabaram a escola mais cedo). Depois dos estudantes, as categorias socioprofissionais que mais usam a bicicleta são desempregados (9%) e reformados (8%).

Tendo em conta estes últimos dados, poderá parecer óbvio que há razões económicas para a escolha da bicicleta como meio de transporte e, de facto, há 24% de ciclistas que dizem que a sua escolha é determinada pelo preço. Mas há outras razões que contam mais: como os utilizadores de outros meios de transporte, os ciclistas dizem usar a bicicleta por uma questão de conveniência/facilidade e de velocidade (o que significa, com certeza, que a bicicleta não é usada para longas deslocações). 22% dos ciclistas invocam também considerações de ordem ambiental para a sua escolha, uma percentagem muito maior que a dos utilizadores de outros meios de transporte com a mesma preocupação (4%).

Evidentemente, um estudo destes, baseado em entrevistas, não esboça sequer uma tentativa de explicação das grandes diferenças das taxas de utilização das bicicletas nos vários países da EU. A que se deverão?


Das quatro bicicletas cá de casa, só duas são usadas quotidianamente como meio de transporte

Invoca-se muitas vezes as condições do terreno para explicar o maior ou o menor uso da bicicleta. É indubitável que a poupança de esforço é um fator importante na escolha de opções de transporte (entra obviamente no conceito de «conveniência» do relatório da EU) e terrenos muito acidentados levam muito provavelmente a outras opções menos exigentes do ponto de vista físico. A dificuldade está, pelo menos para mim, em comparar as elevações a que estão sujeitos os ciclistas dos diferentes países. Se compararmos elevação média dos países da EU com o número de ciclistas quotidianos, não há dúvida de que os dois países onde mais se usa a bicicleta são os países com menor elevação média (os Países Baixos e a Dinamarca, com 30 m e 36 metros, respetivamente), mas acaba-se aí a correlação entre os dois valores. Também é, obviamente, uma correspondência demasiado simplista. Para se avaliar devidamente a influência do terreno na escolha da opção de transporte, teria de se ver a distribuição das pessoas no país e ter em conta não a elevação média, mas ver se são acidentadas as zonas onde as pessoas vivem e trabalham. Isto é um trabalho demasiado difícil para mim – por falta de tempo e de informação.

Também é fácil infirmar a correlação entre PNB per capita e percentagem de ciclistas, mas, mais uma vez, é capaz de ser relação que nem sequer se deva tentar estabelecer, porque, por si só, não nos dá uma ideia da percentagem de pessoas que, num país, optam pela bicicleta como meio de transporte por razões essencialmente económicas.

É bem capaz de haver uma forte componente cultural na utilização da bicicleta como meio de transporte. Usar mais ou menos a bicicleta não terá também a ver com a normalidade com que todos encaram a utilização do velocípede — ou até com o maior ou menor prestígio e associações de estatuto ligados ao seu uso? Talvez não, talvez seja eu a delirar. Ou talvez sim. Passo a descrever alguns aspectos da minha experiência pessoal na Dinamarca, que não é evidência de coisa nenhuma, claro, mas que talvez sejam interessantes para muitos dos meus leitores que não conhecem o país e que podem também servir de exemplo, precisamente, das tais diferenças culturais que talvez possam estar na base da maior utilização da bicicleta aqui.

Da segunda vez que vim à Dinamarca, no outono de 94, lembro-me de que, ao atravessar uma rua no centro da cidade, a amiga com quem eu ia apontou para um senhor que ia a passar de bicicleta e me disse que era um ministro. Não me lembro que ministro era, mas é provável que fosse o ministro das finanças ou o ministro da investigação, que são dois dos políticos conhecidos que, nos vários cargos oficiais que tiveram, costum(av)am ir para o trabalho de bicicleta. 

Quando comecei a trabalhar no centro de línguas do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Copenhaga, em princípios de 2002, dei-me conta de que os funcionários do ministério, das mais baixas às mais altas funções, iam para o trabalho de bicicleta e, quando por ali se via um carro, tinha muitas vezes matrícula CD − um diplomata de outro país que lá tinha ido a alguma reunião. E o Google maps (foto de julho deste ano) sugere-me que as coisas não devem ter mudado muito.

Não me parece que em Portugal – e em vários outros países – isto seja possível. É claro que não quero com isto defender que é o uso da bicicleta pelas elites que explica a grande diferença na quantidade de utilizadores diários entre, por exemplo, a Dinamarca e Portugal (se bem que as elites possam sempre ser importantes como modelos de conduta…). Como disse atrás, trata-se aqui de um exemplo da (culturalmente determinada) diferença de atitude relativamente ao uso da bicicleta. Ciclistas de fato e gravata ou de fato de saia e casaco são uma coisa normal na Dinamarca, como o são ciclistas com todas as outras indumentárias possíveis.

E de todas as idades. Todos os dias de manhã, quando vou para o trabalho (de bicicleta), vejo vários pais e as mães que pedalam ao lado dos seus filhos pequenos até ao infantário ou à escola primária, onde os deixam para depois seguirem – de bicicleta, mas a maior velocidade – para o seu trabalho na vila. Também isto não creio que seja comum em Portugal e em vários outros países europeus. Mas é de pequenino que se torce o pepino, não é verdade?, como diz o conhecido refrão. Quer dizer, é assim que se interioriza que a bicicleta é um meio de transporte natural e valorizado, e se aprende a utilizá-la.

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* Não consegui encontrar estudos abrangentes mais recentes, mas a situação não se deve ter alterado muito

** Nesta altura, ainda com o Reino Unido, claro.

***O documento não apresenta todos os dados discriminados por país, infelizmente.

09/09/22

Dois mares

Paul Nash: Totes Meer, 1940–1. Tate Gallery, Londres 
Quando vi pela primeira vez a pintura Totes Meer («Mar Morto») de Paul Nash, vi nela uma relação com Das Eismeer («O Mar de Gelo») de Caspar David Friedrich. E uma rápida pesquisa no Google revelou-me que, claro, muitas pessoas veem a mesma relação. Se essa relação é intencional ou não, se Nash de facto se inspirou em Friedrich ou se o «cita», isso é que não se sabe. O nome em alemão da obra de Nash poderia indicar isso, mas também se pode dever apenas ao facto de a obra representar destroços de aviões alemães... 

Caspar David Friedrich: Das Eismeer, 1823–4. Kunsthalle Hamburg








31/08/22

Puré de batata: três variações


Muitas vezes fazemos as coisas de uma certa forma sem saber ao certo porquê, só porque foi assim que aprendemos e sempre vimos fazer e escusamo-nos a experimentar alguma variação — por mais óbvia (mas só depois o percebemos) que possa ser. 

1. Eu, por exemplo, fiz sempre puré de batata com batatas cozidas em água, manteiga, sal, pimenta, noz moscada e leite ou nata. O puré de batata clássico, digamos assim. Acho que foi só quando conheci o stamppot neerlandês e o stoemp belga que me dei conta de que se podia juntar à batata outro legume qualquer — e ganhar com isso sabor e diversidade, e maior valor nutritivo. Atualmente, é raro fazer puré só de batatas. Noutras épocas do ano, junto à batata cenoura, alho francês, brócolos, o que tiver à mão; mas no verão, quando temos muitas curgetes no quintal, é a curgete o auxiliar típico do nosso puré de batata. Dá-lhe boa consistência e um sabor leve. 

Um bom puré de batata com curgete é o seguinte: cozer cerca de 400 g de curgete e 600 g de batata, escorrer bem quando bem cozidas, esmagar com um pisa-batatas, juntar manteiga, noz-moscada e pimenta preta, acertar o sal, e juntar, mexendo rapidamente, duas gemas de ovos batidas num bocadinho de leite (para não cozerem em contacto com o puré quente), e levar tudo ao lume para engrossar um bocadinho. Fica com boa consistência e bom sabor. 

2. E já que estou com a mão em ovos e puré, proponho, como segunda variação, uma coisa simples que se pode fazer para dar outro toque e outra apresentação a um puré, que é simplesmente juntar ovos batidos (muito bem batidos, para ficarem com muito ar dentro) a um puré de batata convencional e meter no forno uma meia horita a uns 200º (enfim, depende da quantidade e do recipiente, vocês verão). É uma coisa a meio caminho entre o puré e o suflê, com boa apresentação, tostadinho por cima, e, mais uma vez, boa consistência e bom sabor.

3. A terceira variação é recente aqui em casa e eu pergunto a mim próprio porque não descobri isto há mais tempo. Se se fazem refogados para dar gosto a tantos tipos de pratos, porque não usar um refogado num puré? Fica muito bom. Experimentem, por exemplo, um refogado com uma mirepoix clássica, cebola, cenoura e aipo tudo picado (não precisa de ser muito fininho), talvez acrescentada de alho francês — um refogado longo a lume brando, sem deixar nada começar a tostar. E depois deitem-lhe batatas aos bocados, acompanhadas ou não de outro legume, como na primeira sugestão. As batatas não estufam sem mais líquido, mesmo com lume muito brando e num recipiente tapado. A certa altura, terão de lhe juntar água. (Não experimentei ainda nenhuma variação com caldo de verduras ou de carne, mas também é capaz de não ser mau.) Mas pouca, de maneira a não restar líquido quando as batatas estiverem cozidas. Em caso de dúvida sobre a quantidade, pode ir-se acrescentando aos bocadinhos. E depois é esmagar com o pisa-batatas (ou com um garfo, ou com o fundo de uma caneca, tudo vale mais que passe-vite — e máquinas de cozinha nem pensar, seja lá de que tipo forem, destroem os purés) e acrescentar manteiga, sal-pimenta-moscada. É bom. 


26/08/22

Histórias de ilhas

Placa na ilha de Strynø indicando
direções e distâncias de outras ilhas. 

A Dinamarca é um país pequeno, mas tem uma linha de costa muito comprida: 8.750 km de litoral para um país de 43.000 km2 é obra! Tem também muitas ilhas: mais de 400 com nome e, segundo dados de 2013, 75 habitadas (aqui têm uma lista ordenada por número de habitantes). 

Algumas ilhas são privadas. Agora, quando pensamos em ilhas privadas, temos tendência a associá-las a gente de muito dinheiro, mas nem todas as ilhas privadas da Dinamarca pertencem a milionários que as compraram para lá passarem uns diazinhos de férias. Passo a contar-vos um bocadinho da história de Halmø, uma ilha do Arquipélago Meridional da Fiónia. Traduzo, para começar, um artigo do canal 2 da televisão dinamarquesa datado de 9 de março de 2019

«Há mais de quatro décadas que Peter e Gitte Didrichsen são proprietários da ilha de Halmø no Arquipélago Meridional da Fiónia, entre a Fiónia propriamente dita e Ærø. Mas o casal optou agora por pôr a ilha à venda. A ilha tem 43 hectares e a casa de 200 metros quadrados [a única casa da ilha] está incluída na venda.

– A minha esposa e eu temos ambos 82 anos. Tratar disto exige muito tempo, era mais fácil quando comprámos a ilha há 40/50 anos – diz Peter Didrichsen. (…) 

Os Didrichsen tinham anteriormente afirmado que (…), quando já não pudessem tratar da propriedade, prefeririam não vender a ilha e queriam antes que continuasse a ser da família. Mas (…) os quatro filhos do casal não estão muito interessados em ficar com a ilha.

– Acho que tudo tem o seu fim, mas estamos tristes por termos de nos desfazer da ilha, devo dizer. Gostámos muito de aqui viver desde o início dos anos 70 (…).»

A ilha de Halmø vista de outra ilha, Ærø. 
Foto de Erik Christiansen, 2004, daqui. Atribuição Creative Commons.
É assim a vida, já ninguém quer ser agricultor, e menos ainda numa ilha pequena. Halmø não é a única ilha que era propriedade agrícola habitada até há pouco tempo e está agora desabitada.

Quando o artigo foi publicado, a casa de Halmø estava avaliada em 3,8 milhões de coroas dinamarquesas (≈510.000 €) e o terreno em cerca de 1,2 milhões de coroas dinamarquesas ((≈161.000 €) e. Mas a agência imobiliária pedia no mínimo 15 milhões (dois milhões de euros). Os dez milhões extras deviam ser o valor de ter uma ilha só para si. Não há obrigatoriedade de residência, como há normalmente na Dinamarca para uma casa deste tamanho, de maneira que se pode usar a casa só como casa de férias. Em 2020, a ilha foi comprada por uma firma, por 9,8 milhões de coroas. Não faço ideia do que querem lá fazer ou do que lá já tenham feito, mas sei que se pode visitar a ilha – se se tiver um barco para lá chegar.  

Aqui muito perto de nós, a ilha de Siø também foi vendida há quatro anos. É uma ilha pequenina que está ligada à nossa por uma ponte que não se nota que o é, de maneira que não se dá forçosamente pela sua existência. Esteve à venda dois anos e meio e o preço foi baixando de 39 milhões de coroas (≈ 5.245.000€) para seis milhões e meio (≈870.000€). Não é muito dinheiro, sobretudo quando há várias construções em bom estado na ilha. Há casas (casarões!) aqui na aldeia que custam mais que isso.

E depois têm sido vendidas vários outras nas últimas décadas, de tamanhos e preços variáveis. A mais barata foi pelos vistos Peberholm, no fiorde de Roskilde, que foi vendida por menos de dois milhões de coroas. Também não é muito grande


Cozinha nacional mais tradicional que o habitual

Sabemos que o tempo é uma dimensão, mas custa-nos aceitá-lo. Cremos (queremos?) ter mais em comum com quem habitou o mesmo espaço noutro tempo que com quem habita outro espaço no mesmo tempo, mas é uma ilusão nossa. O passado é mesmo um país distante.

Seguem-se duas receitas do primeiro livro de culinária português, a Arte de cozinha de Domingos Rodrigues, «cozinheyro do Conde do Vimioso», publicado pela primeira vez em 1680 e que foi reeditado várias vezes até meados do séc. XIX, em Portugal e no Brasil. Há várias edições disponíveis na internet para download. Por exemplo, esta segunda edição de 1683. Estas duas receitas foram escolhidas ao acaso e atualizo a grafia. Ainda não experimentei nenhuma delas. 

Sopa de queijo, e lombo de porco ou de vaca

Um lombo de porco, ou de vaca, depois de estar quatro dias de vinho, e alhos, ponha-se a assar; e como estiver assado, e feito em talhadas delgadas, tome-se uma frigideira untada de manteiga de vaca, ponham-lhe fatias de pão e sobre elas fatias de queijo muito delgadas, e por cima destas as talhadas de lombo, deitem-lhe miolo de pão ralado, e açúcar, e desta maneira enchem a frigideira até cima; e como estiver cheia deitem-lhe por cima meia dúzia de ovos balidos, e mande-se ao forno a cozer, e como estiver corado, façam-lhe uns buracos com um garfo; deitem-lhe açúcar por cima, e mandem-na à mesa com canela pisada.

Entrida [que é uma «olha», isto é, um tipo de cozido]

Cozam em uma panela duas galinhas, duas galinholas, duas perdizes, um coelho, e dois arráteis de entrecosto de porco com água, (como carneiro) tempere-se com vinagre e todos os adubos; como estiver cozida, tire-se o caldo, e migando-se nele três ou quatro bolos de açúcar e manteiga, ponha-se a cozer; como estiver grosso, acabe-se de cozer com oito ovos, e sumo de quatro limões; depois de bem enxuto deite-se no prato e canela por cima e pondo-se a carne sobre esta entriga, mande-se à mesa. [Ficamos sem saber se é entrida ou entriga…]

Que tal?


Gadespejl

Este curioso objeto chama-se na Dinamarca «espelho de rua», «espelho-espião» ou «espelho-coscuvilheiro». 

Só vi espelhos destes aqui na Dinamarca, mas a Wikipédia tem páginas sobre eles em neerlandês, sueco e finlandês, pelo que os há com certeza noutros lados. 

A fotografia, tirada em Gudhjem, na ilha de Bornholm, não é muito boa, mas espero que se perceba que se trata de dois espelhos que formam entre si um  ângulo obtuso e que, montados do lado de fora da janela, permitem que, de dentro de casa, se veja o que se passa na rua, à esquerda e à direita, sem ter de abrir a janela para espreitar lá para fora. 


14/08/22

De escatologia e outras convergências

[Orientação para leitura do texto: i) quando não é referida uma língua específica, o étimo é latino; ii) os mm finais do acusativo latino já não se pronunciavam em latim tardio e a sua ausência é assinalada com um -; iii) as formas assinaladas com *são formas reconstruídas pelos etimologistas não atestadas em textos escritos.]

Chamam-se palavras convergentes as palavras que, numa determinada fase de uma língua, têm a mesma forma, embora tenham origens diferentes. Em princípio, quando digo «têm a mesma forma», quero dizer «têm a mesma forma linguística», isto é, são constituídas pelos mesmos sons; mas haverá decerto quem conte como convergentes apenas palavras homónimas, ou seja que se dizem e se escrevem da mesma maneira, embora provindo de étimos diferentes[1]. Em português, os exemplos mais comuns são vão do verbo ir, vão adjetivo e vão nome, são do verbo ser, são no sentido de santo e são adjetivo, como advérbio e como do verbo comer, o nome mente e a forma verbal mente, o pronome, advérbio ou nome nada e a forma nada do verbo nadar, entre vários outros.

«Está a ver ali? O meu filho, a minha nora e os meus netos.»

[Ilustração de Gustave Doré em L'Espagne, de CH. Davillier, 1874.
Wikimedia Commons, daqui.]
Evidentemente, como se trata, em todos os casos acima referidos, de convergência entre formas de categorias diferentes, a convergência nunca causa nenhum mal-entendido. Quando muito, serve para alguma brincadeira pateta («Não disseste nada? Olha, quem nada não se afoga.»). Mais interessante, porém, é o escrutínio de formas convergentes da mesma classe gramatical, que também as há. Podem causar ambiguidades?

Temos, por exemplo: fiar, «tecer», de filare, e fiar, «ter confiança», de *fidare por fidere; junco, a planta, de juncu-  e junco, a embarcação, do malaio-javanês jung; manga, a parte da roupa, de manica e manga, a fruta, empréstimo ao malaio; nora, «esposa do filho», da forma vulgar *nora, do clássico nurus, e nora, engenho de puxar água, do árabe نَاعُورَة‎, nāʿūra; renda, 'rendimento; quantia recebida», deverbal de render e renda, «malha de fios ornamental», cujo étimo é obscuro; velar, «passar a noite, ou boa parte dela, acordado; estar alerta, vigiar», de vigilare e velar, «cobrir com véu», de velare;

Um caso curioso é cabo. Quando designa o posto militar ou significa «término, fim, limite», vem de caput, «cabeça, topo», e quando significa «extremidade pela qual se segura um objeto ou instrumento, corda grossa, feixe de fios», vem de capulu-. Ao contrário do que se poderia talvez supor, capulu-  não é imediatamente um diminutivo de caput, mas provém antes de capere, «segurar» – embora, em última instância, caput também provenha, provavelmente, da mesma raiz proto-indo-europeia...

«Aquela senhora vive de rendas.»

Caspar Netscher: A rendeira, 1662. Wallace Collection, Londres.
Wikimedia Commons, daqui.]
Também nestes casos as ambiguidades parecem raras. Evidentemente, pode dizer-se «Ali está o meu filho e a minha nora» referindo com esta última palavra não a mulher ao lado do rapaz, que não é sua mulher, mas antes antes a roda com alcatruzes que se encontra atrás dele. E pode cobrir-se uma morta ou um morto com um véu e dizer-se então que se está a velá-la/o, como se a/o vela numa vigília — seja ela ou não à luz de velas[2]. E também se pode dizer que uma pessoa vive de rendas, querendo com renda significar a malha decorativa e não os rendimentos não provenientes de trabalho – se se estiver a falar de uma rendeira!... Mas quando é que essas coisas se dizem? Nunca. E é precisamente por isso que estes termos convergentes podem existir, já que a língua tende a desfazer convergências que causem ambiguidades.

A mim, o que me faz mais confusão é a convergência de duas palavras muito diferentes em escatologia – e, por consequência, também de dois adjetivos diferentes no adjetivo escatológico. É que a escatologia tanto pode ser a «parte da teologia que trata dos fins últimos do homem e do que há de acontecer no fim do mundo» e, por extensão, «qualquer área do pensamento que trate do fim último da humanidade, do mundo ou da história» (do grego ἔσχατος, éskhatos, com o kh pronunciado como um jota espanhol), «último, mais distante» ou «estudo ou tratado acerca de excrementos; coprologia» e, por isso, também «alusão aos temas das fezes, da imundície, da obscenidade» (do grego σκατός, skatós, genitivo de σκῶρ, skór, «excremento»). Evidentemente, o contexto acaba por esclarecer de que escatologia se está a falar. Mas, numa referência breve a uma obra ou a um(a) autor/a que não se conhece, pode às vezes ficar-se na dúvida... Bom, também não é palavra que toda gente use todos os dias...




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[1] Veja-se o caso de ótico, que tanto pode querer dizer «relativo à visão» (de ὀπτῐκός, optikós) como «relativo aos ouvido» (de ὠτῐκός, ōtikós). Os termos convergiram há muito tempo, mas alguns acharão que só agora há verdadeira convergência, depois de o antigo óptico ter perdido na grafia o p que não se pronunciava...
[2] Já agora, é a palavra vela, objeto alumiador, que vem do verbo velar, no sentido de ficar em vigília, e não ao contrário, como talvez se pudesse supor.



06/07/22

Matrículas de carros

 

Falei aqui há pouco tempo de o alfabeto latino ser o mais usado no mundo e porquê — e de como, por causa disso, muitas vezes parece que se considera o alfabeto latino mais «normal». A questão das matrículas dos carros, que referi de passagem, é, este respeito, bastante curiosa. 

A Convenção sobre Trânsito Rodoviário está em vigor desde Março de 1952. Esta convenção foi inicialmente assinada em Genebra por 20 países, em 1949, e foi posteriormente revista em Viena de Áustria em 1968 e, desde a sua primeira versão, ratificada por mais 83 países. É uma convenção claramente «latinista», se se pode dizer assim. O Anexo n.º 2, sobre «Número de matrícula dos automóveis e seus reboques em circulação internacional», diz no seu ponto 1: 
«O número de matrícula […] deve ser composto quer por numerais, quer por numerais e letras. Os numerais devem ser algarismos e as letras em caracteres latinos maiúsculos. Podem, no entanto, ser utilizados outros numerais ou caracteres, caso em que o número de matrícula deve ser repetido em algarismos e caracteres latinos maiúsculos.» 
Compreende-se que haja necessidade de standardização e compreende-se a escolha do alfabeto mais usado. Mas deve ser estranho, no mínimo, ter de usar um alfabeto outro que não o seu — ou, em última análise, um alfabeto que não se conhece. Bom, russos e búlgaros resolvem o problema de forma airosa: usam nas matrículas apenas as 12 letras do alfabeto cirílico que têm a mesma forma que letras do alfabeto latino, embora não representem forçosamente sons semelhantes: А, В, Е, К, М, Н, О, Р, С, Т, У e Х*.
Uma matrícula da Arábia Saudita, com caracteres árabes e latinos.
Como os caracteres correspondentes se sucedem na mesma ordem,
mas a escrita árabe se lê da direita para a esquerda, presumo que,
quando se diz a matrícula em árabe, se diga JNT em vez de TNJ…
(Imagem: Wikimedia Commons, 
daqui)
Agora, em muitos países em que não se usa o alfabeto latino, as matrículas têm apenas caracteres latinos e não os caracteres locais mais a sua transcrição em caracteres latinos, como a convenção permite. Na Geórgia, por exemplo, nunca há caracteres georgianos. Agora, o que é que isto implica para um georgiano que não tenha aprendidos línguas estrangeiras — ou que, quando muito, só tenha aprendido russo, como é o caso de muitos deles? A questão não é só ser obrigado a usar caracteres estrangeiros**, é também ter de usar caracteres desconhecidos. Não sei como resolvem este problema. Se calhar, quando compram um carro, decoram as letras da matrícula e a que sons elas correspondem. Mas imaginem uma conversa***
− რა არის თქვენი მანქანის სარეგისტრაციო ნომერი? (Qual é a matrícula do seu carro?) 
− ეე ოთხას სამოცდასამი ვვ (É, é, quatrocentos e setenta e três, vê, vê.) 
− და ამას როგორ წერ (E como é que isso se escreve?) 
E como farão para escrever no computador as matrículas, se não usam o nosso teclado? Têm de mudar de teclado (não o físico, entenda-se) e decorar no seu teclado que letras correspondem às do alfabeto latino que entram na matrícula do carro? Por exemplo, que EE-473-VV corresponde a ეე-473- ვვ… Deve ser assim. Ou haverá tendência para se usar cada vez mais teclados «internacionais» georgianos e latinos? Devia ter perguntado isto quando lá estive e não perguntei. Fica para a próxima vez. Ou talvez algum dos meus leitores me saiba responder. 

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* Muitas destas letras representam sons diferentes nas várias línguas escritas com alfabeto latino, mas H nunca representa [n], nem P representa [r], nem Y representa [u], como acontece quando usadas num alfabeto cirílico.
** O que também é uma questão interessante, em termos identitários: como reagiríamos nós se tivéssemos de usar matrículas com caracteres não latinos?
**A tradução para georgiano foi feita com Google translator e pode estar incorreta, mas isso é irrelevante para o que aqui está em discussão.

05/07/22

Funeral em vida

Uma amiga contou-me que o seu pai e os amigos dele organizaram funerais em vida. É uma grande ideia. Por muito que o funeral seja um dos dias mais importantes da vida de uma pessoa, é celebração a que essa pessoa não assiste — não tem possibilidade de se comover com os elogios fúnebres que os amigos lhe fazem, nem de se rir com as muitas histórias engraçadas que dela recordam nessa ocasião. 

Estou a pensar em organizar o meu funeral em vida um dia destes. Depois, se alguns dos meus convidados acharem por bem dar continuidade à minha iniciativa organizando os seus próprios funerais em vida, teremos finalmente possibilidade de retribuir uns aos outros a presença no nosso funeral — uma coisa que, sem estes funerais em vida, é muito difícil de fazer...

21/06/22

Nota de viagem

«24 de maio: Da varanda da casa onde ficámos, em Zadar, o que se vê podia ser Portugal: as vivendas e os quintais, com nespereiras, figueiras, oliveiras e cerejeiras. Só o que parece muito mais Dinamarca que Portugal é a rapariga de bicicleta, certamente a caminho da escola, de mochila às costas e sem mãos no guiador, comendo o pequeno-almoço enquanto pedala.»







Dois artigos de jornal

Dois artigos curiosos de jornais dinamarqueses:

O primeiro é do Semanário de Svendborg (UgeAvisen Svendborg), um dos jornais locais que recebemos gratuitamente. É um artigo de setembro do ano passado e conta a história de Ebba Hackmann, uma senhora que, quando o artigo foi publicado, fazia trabalho administrativo na firma Elektro Svendborg – desde 1959! Digo fazia, porque não sei se a senhora continua a trabalhar. Ebba tinha nessa altura 91 anos e continuava a trabalhar a tempo inteiro. A firma é agora da filha, mas já foi dela e do marido. O marido tinha morrido três anos antes, com 91 anos, e também trabalhou sempre na firma até morrer. Quando a filha ficou a ser proprietária da firma, em 2007, Axel Hackmann, então com 80 anos, passou de diretor a paquete e foi como paquete que continuou a trabalhar até ao fim da vida. 

O segundo artigo é muito mais antigo. Na página em que o encontrei, não dizia, infelizmente, em que jornal tinha sido publicado. Podia bem ser um conto romântico, ou parte dele, mas é apenas uma notícia de jornal, de 15 de fevereiro de 1915. 

«Uma senhora idosa, pobre mas bem vestida, entrou no “Prestamista Barato”, em Overgaden Neden Vandet Nº 29, em Copenhague, para empenhar a sua aliança de casamento. Olhando para a senhora, era fácil perceber que não tinha sido fácil para ela dirigir-se ao prestamista com a última recordação de momentos felizes. Estava muito abatida, mal conseguia falar e, no momento em que pôs o anel no balcão, caiu inconsciente no chão. O gerente da casa de penhores ligou imediatamente para a polícia e, pouco depois, chegou ao local uma ambulância, que transportou a senhora ao hospital municipal. Lá chegada, porém, os médicos verificaram imediatamente que havia já falecido. A senhora tinha sofrido um ataque cardíaco. E toda a assistência que se lhe pudesse prestar era já em vão.»

Pronto, era só isto. 

16/06/22

Há línguas em que é mais fácil brincar com as palavras?

[!!! Este texto pode ser muito difícil de entender para pessoas que não dominem muito bem a língua francesa. Dada a natureza dos textos franceses referidos e citados, é perfeitamente vã a tentativa de os traduzir.]

Já aqui fiz no blogue alguns comentários à tão popularizada ideia de que a língua determina a nossa perceção do mundo e à alegre falta de rigor com que muitas vezes se faz o escrutínio desta ideia. E hoje venho, vejam lá, sugerir que talvez a língua possa de facto interferir na nossa relação com o mundo. Mais concretamente, venho sugerir que bem pode haver línguas em que é mais fácil que noutras «brincar» com a própria língua: fazer humor e literariedade. E, mais concretamente ainda, sugiro que é provável que em francês seja mais fácil fazer trocadilhos e rimar [pelo menos, no sentido em que entendemos rima hoje em dia na nossa cultura] que nas outras línguas que conheço. E isto porque
  • o francês é uma língua de acento fixo, o que torna as coisas muito mais fáceis; e
  • a evolução fonética do francês foi, antes de mais, no sentido de um vocalismo muito forte, e portanto uma perda de muitos sons consonânticos, gerando assim
    • um número muito grande de palavras e sequências homófonas (fundamental para os trocadilhos) e
    • menos sons possíveis em final de palavra (fundamental para a rima).
Convém esclarecer que não estou de modo algum a apresentar a conclusão de algum estudo que tenha feito, longe disso, mas sim a propor um projeto de investigação, a mim próprio ou a quem nele queira pegar, que se baseia num observável simples: há mais formas [foneticamente] convergentes em francês que nas outras línguas que conheço.

Para dar dois exemplos muito simples [mas há muitos, muitos!], a forma /vɛ̃/ pode provir de vários étimos diferentes: de vinum [vin], de vi[gi]nti [vingt], de vanus[vain], de vēnī [vins], de vēnistī [vins] e de vēnit [vint]), da mesma forma que /po/ pode derivar de pellis ou de potus e /depo/ tanto pode corresponder a des pots como a des peaux como a dépôt.

É certo que, se que esta convergência de formas se deu, é porque não causa ambiguidades, senão ela não podia existir. Mas, existindo no discurso comum sem causar ambiguidades, está disponível para ativamente se construírem, a partir dela, trocadilhos e jogos de palavras ou com as palavras. Não deve ser por acaso que são em francês os exemplos mais famosos de holorrimas, isto é, rimas em que não rima só o fim do verso, mas sim o verso inteiro. Creio que a holorrima mais famosa é de Marc Monnier, nos célebres versos
Gall, amant de la Reine, alla, tour magnanime ! ,
Galamment de l'Arène à la Tour Magne, à Nîmes.
que se pronunciam exatamente da mesma maneira. Outros exemplos são
Par les bois du Djinn, où s'entasse de l'effroi,
Parle et bois du gin !… ou cent tasses de lait froid.
de Alphonse Allais, ou
Dans ces bois automnaux, graves et romantiques,
Danse et bois aux tonneaux, graves et rhums antiques
de Jacques Prévert. Mas há muitas mais. Vejam por exemplo, aqui, aqui ou aqui.

Transcrevo abaixo a letra da canção « Saucisson de Cheval », de Boby Lapointe, um exemplo radical do que é brincar com as palavras em francês — como aliás todas as canções de Boby Lapointe, o maior mestre dos jogos de palavras, que aconselho a explorar, se não conhecerem.

Um jogo de palavras assenta sempre numa relação entre um segmento sonoro pronunciado e um outro evocado na mente do ouvinte. Pode haver semelhança fonética ou total homofonia dos dois segmentos que constituem o trocadilho, com ou sem coincidência sintática. Por vezes o segmento não dito pode ser uma expressão fixa, o que facilita a sua evocação na mente do ouvinte; e por vezes a evocação do segmento pode também ser facilitada pela introdução prévia de um elemento no texto – ou pode mesmo haver, como no caso da canção transcrita abaixo, uma delimitação à partida de um determinado campo semântico [neste caso, o cavalo]. Como alguns jogos de palavras da canção podem não ser óbvios, mesmo para quem domine relativamente bem o francês, sublinho em cada verso a parte que deveria evocar outra coisa no ouvinte e deixo entre parênteses retos o segmento evocado. Não transcrevo os onomatopaicos refrães nem as breves passagens faladas, que, contribuindo sem dúvida para o humor e para o ambiente geral da canção, não são relevantes para o tema aqui discutido.

Se existem, em países de língua latinas ou germânicas, alguém que faça jogos de palavras como Boby Lapointe, não conheço. Mas será mesmo possível fazer canções como « Saucisson de cheval » noutras línguas? A pergunta não é de modo algum retórica: línguas há muitas e eu conheço muito poucas. Digam-me, pois: que sabem e opinam sobre o assunto? 
« Saucisson de cheval », 1966

C'est un saucisson de cheval, un saucisson que... (de cheval) [queue]
que je viens de faire, (à cheval) [fer]
c'est une chanson de saillies
Ah, chanson de saillies, (de cheval) [saillie]
moi qui suis esthète, (de cheval) [tête]
ah, je trouve ça beau (de cheval) [sabot]
génial, admirable, (de lapin) [râble]

Moi, qui viens de Grèce, (de cheval) [graisse]
je m'appelle au reste (de cheval) [Oreste] 
Tapaboufélos. (de cheval) [t’as pas bouffé l’os]
je débarque à Paris (de veau) [ris],
Oh, oh, quel régal, oh, (de cheval) [galop]
de prendre le métro. (de cheval) [trot]
Quand on ne connaît pas, (de cheval) [pas]
oh, ce qu'on s'amuse, oh ! (de bœuf) [museau]

Mes enfants, ma foi, [foie] (de cheval) [foie]
sont de vilains grognons. (de cheval) [rognons]
Quand ils pleurent en chœur, (de cheval) [cœur]
j'essaie de les distraire (les vaches) [traire]
Je viens à bout d'un, (de cheval) [boudin]
mais les autres aussi sont (de cheval) [saucisson]
toujours dans le besoin, (de cheval) [soin (?)]
ça ne peut pas être pis. (de chèvre) [pis]

Quel est cet aztèque (de cheval) [steak]
qu'on vient de voir filer (de cheval) [filet]
du haut de la côte (de cheval) [côte]
dans le précipice, en moto ?
Peut-être bien est-ce Thomas (de cheval) [estomac]
qui vient de me vendre (de cheval) [ventre]
un complet à carreaux (de cheval) [garrot]
et un gilet pied de poule.

Je désirais m'assoir (de cheval) [mâchoire]
et tu m'amenas au (de cheval) [naseaux]
canapé en rotin (de cheval) [crottin]
et mon cœur, vous fumiez mes cigares. [fumier]
N'étais-je pas l'affreux niais, (de cheval) [palefrenier]
qui fourbu s'affaisse (de cheval)? [fesse]
Ça fait rire les groupes (de cheval) [croupe]
ah, comme l'écurie est gaie ! [les culs rient] (aqui, inverte-se a lógica: o segmento relacionado com cavalo é o dito e não o evocado)



P. S.: Boby Lapointe desenvolveu o tema dos trocadilhos equestres, se se pode dizer assim, numa segunda canção com o mesmo fundo musical, « Saucisson de Cheval nº 2 ». O segundo salsichão de cavalo não é em nada inferior ao primeiro, mas não quero abusar da paciência dos meus leitores, pelo que não o transcrevo. A letra é fácil de encontrar na Internet.




15/06/22

A letra C e outras histórias de letras: uma viagem por vários alfabetos

[Tentei evitar, neste texto, o uso do alfabeto fonético internacional, que muita gente não conhece, mas nem sempre foi possível. Assim, transcrevo a maior parte das vezes para a pronúncia mais aproximada do português europeu, entre parêntesis retos [ ] em itálico, e, quando tenho mesmo de usar um símbolo fonético uso barras (/ /) e o símbolo sem itálico, acrescentando ainda uma nota que explica de que som se trata. Para referir letras, uso sempre maiúsculas em negrito: C.]


Em abril e maio fiz, com a minha mulher e um casal amigo, uma viagem de carro da Dinamarca à Geórgia (Geórgia) e volta. Fizemos 12.300 km por 14 países[1]: à ida, passámos pela Alemanha, Chéquia[2], Eslováquia, Hungria e Turquia; à volta, atravessámos de novo a Turquia e depois a Grécia, Albânia, Montenegro, Croácia, Eslovénia, Áustria e, claro, de novo a Alemanha. Foi uma viagem fascinante por várias gentes, paisagens, arquiteturas, histórias, culturas, gastronomias e línguas. Mas foi também uma viagem por vários alfabetos e várias variações de cada um deles. Talvez aqui venha a falar da viagem propriamente dita, ou de partes dela, pelo menos — dos lugares e situações por aonde passámos. Mas agora é mais de escrita que vos quero falar. Foi uma parte curiosa da minha experiência em viagem — reaprender a ler. Quando ao fim de duas semanas na Geórgia, comecei a juntar letras antes desconhecidas, timidamente, devagarinho, quase revivi a aprendizagem da leitura. Quase, digo bem, porque aprender um alfabeto novo não é exatamente a mesma coisa que aprender a descodificar a escrita pela primeira vez…

Antes de mais, uma panorâmica dos sistemas de escrita por onde passei. Não conto a Dinamarca, país de partida e de chegada, e país onde moro. Dos outros países por onde passámos, em onze deles usam-se versões locais do alfabeto latino (Alemanha, Chéquia, Eslováquia, Hungria, Turquia, Albânia, Montenegro, Croácia, Sérvia, Eslovénia e Áustria); em três deles, versões locais do alfabeto cirílico (Montenegro, Sérvia e Bulgária); na Geórgia, o alfabeto georgiano; e na Grécia, o alfabeto grego. Agora, onze mais três mais um e mais um dá dezasseis e não catorze. É que a Sérvia e Montenegro têm dois alfabetos oficiais, o cirílico e o latino[3].

Nos países onde não se usa o alfabeto latino (Bulgária, Geórgia e Grécia), os nomes das localidades aparecem quase sempre na escrita local e numa forma latinizada: normalmente, adota-se uma transcrição/transliteração «internacional», que eu creio, de facto, se baseia na tradição inglesa (CH para [tch], SH para [ch], KH para /x[4]/, etc.). Foi em grande parte a partir destas placas toponímicas em dois alfabetos que fui deduzindo os sons correspondentes às letras dos alfabetos novos, consultando depois Google em caso de dúvida, quando chegava a um sítio com ligação à internet.

Isto de se apresentarem os nomes das localidades também num alfabeto estrangeiro, não deixa de ser curioso, já que, nos países em que se escreve com alfabeto latino, não passa pela cabeça de ninguém transcrever em cirílico, em grego ou em georgiano os nomes das terras. E é pena, porque Braga havia de ficar bem como Брага, e ficam muito bonitos Córdoba como Κόρδοβα e Liverpool como ლივერპული, por exemplo. Também as matrículas dos automóveis, os códigos de identificação internacional de automóveis e os códigos ISO dos países são, em todo o lado, em alfabeto latino. E isto diz alguma coisa sobre como o alfabeto latino é de alguma forma considerado mais «neutro» ou «universal» — sobre como ele é, de facto, mais poderoso, por ser usado pela maior parte das nações mais poderosas nos últimos séculos, que colonizaram uma grande parte do mundo, o que faz com que seja atualmente usado por 70% da população mundial…). Por isto mesmo, num país que use um alfabeto não latino, ninguém espera — e acertadamente — que um estrangeiro saiba ler o alfabeto local. Lembro-me que, num hotel em Plovdiv, para me treinar na leitura do cirílico, li em voz alta закуска numa nota na parede ([zakusska], «pequeno-almoço») e que o rececionista se surpreendeu («Ah, sabe ler búlgaro?») e me informou — em inglês, note-se — que era das 7:00 às 10:00.

Já agora, de passagem, a questão das transcrições de um para outro alfabeto é interessante. Note-se, antes de mais, que não há uma forma única de transcrever de um sistema para outro, mas a transcrição depende antes da língua de chegada, porque normalmente se transcreve som e não se transliteram caracteres um a um. Assim, a transcrição de Чайкóвский para o alfabeto latino é normalmente Tchaikovsky em inglês (o T inicial é, em última análise, desnecessário…), Chaikovski em castelhano, Tchaïkovski em francês, e Ciaikovski em italiano, por exemplo, para a leitura, nessas línguas, se aproximar o mais possível do som russo original. E são questões de transcrição que justificam, às vezes, certas «anomalias» como a grafia turca de otomobile, otogar ou otel. A explicação é, quase de certeza, que as palavras automobile, autogare e hotel, importadas do francês, foram primeiro transcritas — foneticamente, sublinho — para a variante otomana do alfabeto árabe. Depois, quando a escrita do turco passou, em 1928, a fazer-se com o alfabeto latino, não se retomou a grafia original do francês, que seria confusa para um falante do turco que não estava habituado a ela, mas as palavras foram antes retranscritas, mais uma vez foneticamente, e é por isso que têm atualmente a forma que têm. Vi também, no programa em inglês de um balé que fomos ver em Tbilisi, na Geórgia, o nome próprio de Ravel escrito Moris. Mais uma vez, uma questão de retranscrição: o nome Maurice é, naturalmente, transcrito em georgiano como se pronuncia, მორის [moriss]. Ao retranscrever, a pessoa que escreveu o texto em inglês, transformou apenas as letras e sons georgiano nos correspondentes «normais» em inglês.[5] Vi também fakhitas num menu georgiano em inglês. Mais uma vez, o resultado de uma retranscrição: o som /x/ do jota castelhano em fajitas é transcrito em georgiano pela letra que o representa nesta língua: ; e foi depois retranscrito por KH, que é, na Geórgia, a sua mais habitual transcrição para o alfabeto latino.

Agora, um exemplo concreto de viagem alfabética: uma letra que é igual em todos os alfabetos e suas variantes por que passámos na nossa viagem, menos no georgiano, é a letra C. Notem que o C do alfabeto latino, derivado do gama grego, não tem a mesma origem que os CC dos alfabetos cirílico e grego, derivados ambos do chamado sigma crescente, uma variante cursiva do sigma grego. Mas têm hoje exatamente a mesma forma, de maneira que muita gente os verá como a mesma letra, apenas representando valores diferentes. Nos alfabetos cirílico e grego (atualmente, é muito pouco usado em grego), o C representa sempre o som /s[6]/: Sófia é Со́фия e Subotica é Суботица, e pronto. Não é muito fácil, para quem está habituado a outros valores de uma letra visualmente igual, habituar-se a isto: Сара lê-se [sara] e não [capa] e салат lê-se [salat]. Mas, com o tempo…

No alfabeto latino, o C representava originalmente o som /k[7]/; mas, nas diversas variações modernas desse mesmo alfabeto, o C pode representar vários sons. Pode ser, por exemplo, como em português, francês, castelhano americano[8] e inglês, /s/ antes de E e I, e, se não cedilhado, /k/ antes de A, O e U; e pode representar muitos outros sons. Mas não quero passar aqui em revista todos os possíveis sons que o C pode representar (vejam aqui) — interessam-me antes os novos sons de C que fomos encontrando na nossa viagem.

O primeiro contacto com um novo valor de C foi na nossa primeira paragem, em Pardubice, na Chéquia. A nossa amiga Alice, que nos acolheu, explicou-nos que o nome da terra se pronuncia [pardubitse[9]]. E nós ficámos a saber que era assim em checo, mas só mais tarde descobrimos que o C se lê assim em todas as outras línguas eslavas escritas com o alfabeto latino[10].

– Mas então –, perguntei eu à Alice, – mas isso significa que o teu nome se pronuncia [alitse] em vez de [alisse]… 

 – Em checo, sim –, disse ela, – mas, a pessoas que falam outras línguas, digo sempre como elas esperam ouvir. 

E a minha mulher, que é amiga dela há quase quarenta anos, não sabia que a Alice de Pardubice é, afinal, a Alitse de Pardubitse.

Em Pardubice aprenderam também os meus companheiros de viagem (eu já sabia) que o C com um circunflexo invertido, Č, se pronuncia [tch]. Mais tarde, descobrimos que há também um C com acento, Ć, que representa um som ligeiramente diferente no alfabeto latino servo-croata, mas que a maior parte de nós ouvirá e pronunciará também como [tch]. 

Zona, em servo-croata, escreve-se como em português
e pronuncia-se também quase da mesma maneira.
Mas o esloveno é diferente do servo-croata e a palavra
 pronuncia-se [
tsona] e escreve-se com C.
Obviamente, é mais fácil reter o valor de Č e Ć que de apenas C, que é uma letra que já se conhece, que já tem sons na nossa cabeça. Se, como referi atrás, é difícil habituar-se a um novo valor do C em cirílico — num contexto em que as letras à volta são diferentes das nossas —, mais difícil é habituar-se a um novo valor num alfabeto também latino: os meus companheiros de viagem passaram, de Pardubice em diante, a pronunciar bem os ČČ, que fomos encontrando, mas continuaram a pronunciar mal os CC — não havia maneira de se lembrarem, por exemplo, que carina, «alfândega» em servo-croata, se pronuncia [tsarina] e não [karina].

Também foi mais fácil para toda a gente aprender o valor do Ç do alfabeto turco, que é igual ao do Č dos alfabetos latinos de línguas eslavas, que o valor do C turco, que é [dj], como em inglês jeans ou gin. Aprendi isto na primeira noite na Turquia. A rececionista do hotel soletrou-me o código do wifi e quando ela disse [dj] eu escrevi um J, provavelmente porque o inglês é a língua que falo que tem esse som e J é uma das maneiras de o escrever.

– Não, não [j], [dj], [dj]!

E fez-me o sinal com a mão no ar. Um C? Escrevi um C

– Sim, [dj].

Evidentemente, se uma portuguesa dissesse a um turco que não conhecesse a escrita portuguesa para escrever [], ele escreveria S e não lhe passaria pela cabeça que a letra a que ele chama [djê] se pudesse usar para representar tal som…

Para terminar este longo devaneio, deixem-me só acrescentar que, para os meus companheiros de viagem, esta coisa de alfabetos e pronúncias não tinha interesse por aí além e eu aprendi rapidamente que era coisa que devia guardar para mim próprio, para não os chatear. 

Vejam se adivinham que companhia sueca de roupa
tem este símbolo na Geórgia.
Para a maior parte dos leitores do blogue, este texto também não terá grande interesse. Mas deu-me gozo escrevê-lo. Se houver um ou dois leitores que lhe achem graça, já fico satisfeito.





_____________________

[1] Quinze, de facto, mas só estivemos cerca de um quarto de hora na Bósnia e Herzegovina, de maneira que não conta. Também atravessámos apenas, quase sem parar, a Eslováquia, a Sérvia e a Áustria, mas deu para me ir entretendo com letreiros vários. Em termos de alfabetos, porém, a Eslováquia e a Áustria não têm nada de muito novo: o alfabeto eslovaco é quase igual ao alfabeto checo (e ao alfabeto servo-croata) e na Áustria usa-se a mesma variante do alfabeto latino que nos outros países de língua oficial alemã.

[2] A propósito da recente polémica sobre o nome do país, quero lembrar que Chéquia é a designação oficial em Portugal (a par, claro, de República Checa, da mesma forma que França também pode ser República Francesa ou Dinamarca pode ser Reino da Dinamarca). Também é de ler, sobre o assunto, um texto de Margarita Correia no DN.

[3] A mesma situação existe na Bósnia e Herzegovina. Na Sérvia, os dois alfabetos convivem em todas as esferas, exceto na esfera jurídica, em que o cirílico é obrigatório; em Montenegro e na Bósnia e Herzegovina, há uma prevalência do alfabeto latino.

[4] O som [x] é um som muito comum, que existe em muitas línguas, muito próximo do som do R gutural português em carro, por exemplo, e igual ao G neerlandês, a alguns CH alemães (como em Bach, por exemplo) e ao jota de vários falares castelhanos.

[5] Note-se, de passagem e um pouco a despropósito, que o criador de Lucky Luke, Maurice de Bevere, usava o nome artístico Morris.

[6] Como o nosso S em início de sílaba, quando não precedido de vogal (só, penso) ou os nossos SS (isso)

[7] O som /k/ é o som do nosso C em carro ou do nosso QU em quente. No chamado «latim eclesiástico», pronuncia-se o C do latim como em italiano moderno ([tch] antes de I e E, /k/ nos outros casos), mas na verdade, em latim pronunciava-se /k/. Bom, como quase todas as línguas, o latim nunca nasceu nem nunca morreu, apenas evoluiu, e a sua pronúncia foi obviamente mudando sempre, pelo que é pouco rigoroso dizer que isto ou aquilo se pronunciava assim em latim, mas isto é só para simplificar a conversa... Caesar, por exemplo, pronunciava-se [kaissar] e coelus, «céu», pronunciava-se [koiluss]

[8] Também na pronúncia andaluza e canária do castelhano europeu. Em castelhano europeu standard, porém, antes de E e I, o C tem o som /θ/, pronunciado com a língua entre os dentes (o chamado «S de sopinha de massa»), como o Θ grego, o Þ islandês e muitos TH em inglês.

[9] O último som é não é exatamente como o do nosso E átono, mas algo entre o nosso E átono e o nosso A átono. Talvez mais [pardubitsa] que [pardubitse]…

[10] Como se pronunciava também em português arcaico (pelo menos, na sua primeira fase) antes de E e I, ou quando cedilhado: cidade era [tsidade], faço era [fatso], etc.


09/04/22

Politicamente correto, mais uma vez

 

Permitam-me repisar: correto é um termo de aprovação e politicamente correto é, por isso, aquilo que cada indivíduo ou cada comunidade na sua maioria considera politicamente correto, de acordo com os seus princípios políticos (isto é, os princípios éticos que a devem reger). É uma categoria forçosamente variável, de pessoa para pessoa, de sociedade para sociedade, de uns tempos para os outros. Todas as leituras «referenciais» da expressão, ou seja, referindo um pretenso corpus definido e invariável de princípios e regras, revela apenas uma incompreensão ou — mais provavelmente! — uma posição ideológica.
Em 1786, escrevia Joseph Townsend no seu tratado A Dissertation on the Poor Laws, by a Well-wisher to Mankind («Dissertação sobre as Leis dos Pobres, por alguém que quer bem à Humanidade», traduzo eu): 
Os pobres sabem pouco dos motivos que levam as classes mais altas à ação: orgulho, honra e ambição. Em geral, só a fome pode estimulá-los e incitá-los a trabalhar; as nossas leis, porém, dizem que eles nunca deverão passar fome. As leis, há que o admitir, também dizem que eles estão obrigados a trabalhar. Mas a obrigatoriedade legal traz sempre muitos problemas, violência e barulho; cria má vontade e não pode nunca produzir um serviço bom e aceitável; ao passo que a fome não só é uma pressão pacífica, silenciosa e incessante, como também, sendo o motivo mais natural para a indústria e o trabalho, suscita os maiores esforços; e, quando satisfeita com a generosidade de outrem, cria uma base duradoura e segura para a boa vontade e a gratidão.
Não tenho razão nenhuma para acreditar que isto não era politicamente correto na época — pelo menos para uma grande parte das pessoas que sabiam ler o panfleto. Ainda bem que hoje já não o seria para a grande maioria (embora haja com certeza ainda quem pense assim).

07/04/22

Dupla negativa

 

Pela alminha de quem vos seja mais querido, não escrevam frases negativas sem negação antes do verbo! 
Surgiu agora uma moda, talvez inspirada na estrutura das línguas germânicas (inglês?), de não pôr negativa antes do verbo quando há um elemento negativo depois, justificando-se essa prática com a pretensa regra «lógica» de que uma negativa de uma negativa é uma positiva. Assim, por exemplo, dever-se-ia escrever 
Eu vi nada 
porque, se se escrever 
Eu não vi nada 
está-se a dizer que se viu alguma coisa. Francamente... 
Em português — e nas outras línguas latinas que conheço, exceto em francês oral, por causa da supressão do advérbio ne na fala — a regra é que, numa frase negativa tem de haver sempre uma negativa antes do verbo. «Nada vi» ou «Não vi nada», está bem; *«Vi nada», não! E é igual em espanhol, «No he visto nada», em italiano, «Non ho visto niente», e em francês escrito, «Je n’ai rien vu». Nas línguas latinas, não há nenhuma distinção do tipo da que existe, por exemplo, entre nothing e anything em inglês: numa frase negativa, nada é ambas as coisas. 
Procurem lá onde quiserem, nos textos todos da língua desde sempre, em todos os escritores que considerem modelos de bem escrever, a ver se encontram abonações dessa estranha estrutura que agora se começa a ver por aí. 
«Vi nada» é uma frase poética que diz que se alcançou a mais alta e perfeita iluminação. Ou então é um erro de português.

04/04/22

Cristal Limiñana (uma história com um bocadinho de publicidade)

A 28 de fevereiro, cheguei a Marselha com duas colegas minhas para lá fazer um estágio de um mês. A organização que organizava o nosso estágio tinha-nos também arranjado alojamento: um apartamento no Boulevard Jeanne d’Arc. Quando chegámos, surpreendeu-me uma loja mesmo ao lado do nosso prédio, de uma fábrica de runs e anisetes chamada Cristal Limiñanas. É que, mais versado que sou em música que em bebidas marselhesas, Limiñanas era para mim apenas um nome de um duo de rock. Les Limiñanas são um casal de Perpignan, Lionel e Maria Limiñana e o segundo dos seus nove álbuns chama-se Crystal Anis. Uma estranha coincidência! Ou então não… 

  
Descobri que a fábrica Cristal Limiñanas é conhecida sobretudo pelo pastis Un Marseillais, que eu não conhecia. Como já disse aqui uma vez, sempre bebi a mesma marca de pastis (até começar a fazê-lo eu próprio), sem nunca me ter dado para explorar a grande variedade que há. Ora isto não podia continuar, evidentemente. O Un Marseillais, pelo menos, tinha de experimentar. 
De maneira que, na véspera de me vir embora, fui à loja comprar uma garrafa de Un Marseillais e talvez mais alguma que na loja me pudesse interessar. Quando contei à senhora que me atendeu que tinha achado curioso aquela marca de anisete ter o mesmo nome que uma banda de rock que eu conhecia e que, curiosamente, tinha um álbum chamado Crystal Anis, ela disse-me: «Ah, claro, os nossos primos! Veja aqui!» e apontou, na parede, um cartaz da tournée do álbum. «Bem vê, somos a única família com este nome em França. É um nome que vem de uma pequena aldeia espanhola, ali da zona de Alicante.» 

P.S.: A senhora era Maristella Vasserot, a dona da fábrica. A história da empresa, podem ouvi-la aqui, por exemplo, ou lê-la aqui. É um bocadinho de publicidade, eu sei, mas já a história acima também é um bocado publicitária, de maneira que…




19/03/22

História de M.

M. trabalha num lar de idosos em Marselha e trabalha demais. Raramente recusa os turnos extra que lhe propõem quando falta pessoal. Também o trabalho é ali mesmo, mesmo ao lado de casa. Fora do trabalho, M. ajuda outras pessoas. «As pessoas não fazem ideia de como a vida é difícil noutros lugares», repete ela muitas vezes. «Ou aqui, para quem não tem nada. As pessoas têm tantas coisas e nem sonham o que é viver sem ter as coisas que elas têm. Dizem mal dos outros, mas não os percebem. Não fazem ideia do que é a vida deles. As pessoas que vêm ali vender coisas a Noailles, por exemplo. Alguns andam a apanhar tudo o que presta nos caixotes do lixo. Outros dão-lhes coisas. Se calhar, outros roubam também, mas quem é que os pode criticar? Muitos nem podem trabalhar, não lhes dão papéis. Vivem daquilo que vendem. Se não vendem, não comem. É fácil criticar, que não pagam impostos, isto e aquilo, que são marginais. Eu também já os cheguei a criticar. Mas agora sei o que é a vida deles e não os critico. Antes os ajudo no que posso. Neste momento, dou abrigo a um homem do Kosovo. Ligou-me há bocadinho. A polícia fez uma rusga em Noailles. A malta que lá estava a vender e que não tem papéis teve de fugir a correr. Muitos deles deixaram as coisas no chão. É sempre a mesma coisa. Depois vem um camião do lixo e leva aquilo tudo. Era daquilo que aquelas pessoas iam viver um dia ou dois ou mais, mas a polícia deita tudo fora. Aquelas pessoas vivem de quê? A maior parte das pessoas nem sonha o que é a vida daquela gente, o que é a vida de tanta gente... O homem que eu ajudo não pode voltar ao Kosovo. Não lhe dão licença de residência aqui, mas ele também não pode voltar a casa. Se voltar ao Kosovo, matam-no.  Colaborou com os sérvios durante a guerra. Ele era um rapaz novo e não percebia bem as coisas. Mas ninguém se esquece e ninguém lhe perdoa. E eu ajudo-o no que posso, dou-lhe alojamento, mais não posso fazer. As minhas filhas não sabem. Elas ficam zangadas quando sabem que eu ajudo alguém, com dinheiro ou seja lá com o que for. Se quero ajudar alguém, dizem elas, que participe numa organização, numa coisa organizada, que assim com caridade não resolvo nada e um dia ainda me arrependo. Mas elas não percebem bem o que é a vida destas pessoas.»





11/02/22

Duas histórias de carne

 

Uma vez, um amigo meu perguntou-me, enquanto devorava uma perna de frango assado: 
 – Mas tu sabes porque é que toda a gente gosta de frango em qualquer lado do mundo? 
 – Não, porquê? 
– Porque é mesmo bom, pá! 
[Segundo o site statista, a produção mundial de carne de Gallus gallus domesticus em 2021 foi de cerca de 100 mil milhões de quilos, o que dá uma média de cerca de um quilo de carne por mês por ser humano. Uma média assim quer dizer que, por muito que toda a gente goste de frango em qualquer lado do mundo, como diz o meu amigo, há muito quem só muito raramente o coma.]


***
Tinha a certa altura, em Genebra, um grupo de amigos muito interessados na grande cozinha. Passavam muitas vezes fins de semana gastronómicos na Saboia e encontravam-se regularmente em casa uns dos outros. para comezainas requintadas. E a boa comida era, claro está, um dos seus temas de conversa favoritos. Numa das várias discussões a que assisti sobre o tema, em que se fazia uma apetitosa enumeração de pratos sofisticados, diz um dos gourmets
– Para mim, entrecôte com batatas fritas. Poucos pratos atingem tão grande sofisticação. 
[Entrecôte é um bife da vazia (ou do acém, como aqui se discute). O gosto do meu amigo suíço coincide com o de uma grande maioria dos franceses: há muitas sondagens sobre os pratos favoritos dos franceses e com resultados variados, mas o bife com batatas fritas, seja ele entrecôte ou não, vem sempre entre os dez primeiros.]

09/02/22

Faláfel

Diz-se que a prática faz o mestre e é bem verdade, na maior parte dos casos. Normalmente, faz-se mal aquilo que não se praticou o suficiente. Polmes, por exemplo — não sei fazer bons polmes, mas acho que é só porque não pratiquei o suficiente… Às vezes, porém, também é questão de encontrar uma maneira de fazer as coisas que funcione para nós.

Queria falar-vos de faláfeles, aqueles pastelinhos médio-orientais que há. Experimentei muitas receitas e improvisei muito à volta delas, com grão cozido, meio cozido e cru, e nunca me saíram bem. De sabor sim, mas sem a consistência devida. Até que encontrei, no Comidista, a receita que funciona mesmo — para mim! — e que sabe melhor que as outras todas. A questão, afinal, era usar três quartos de favas secas para um quarto de grão e não demolhar nem triturar demasiado as leguminosas. Vejam aqui a receita:

Já agora, há um artigo do History Today que confirma o que se ouve no vídeo do Comidista: o faláfel original é egípcio e é de fava, cuja designação em árabe egípcio está, aliás, na origem do seu nome. Mas vários dicionários, alguns deles fiáveis, como o dicionário etimológico Etymology Online, propõem um étimo árabe, falafil, que segundo alguns significa «pimenta(s)» e segundo outros «crocante, estaladiço».

Parece que as primeiras referências ao faláfel datam do séc. XIX. Como tudo o que é tradicional — já era de esperar – o faláfel não é, pois, uma coisa assim tão antiga... Cabe agora a quem se interesse muito pelo assunto investigá-lo mais a fundo e descobrir se há outras versões da história do faláfel que sejam mais dignas de crédito que este artigo do History Today. A mim, interessam-se mais os faláfeles que a sua história... Bom proveito! 


Moral e mercado

[Este é daqueles textos que está há seis anos (!) para eu lhe dar forma definitiva. Mas eu não sei dar forma definitiva a nada, e isto também é só um blogue, não é verdade? De maneira que aqui vai como está sem mais, meio em esboço. Fala-se de mercado e liberalismo económico numa perspetiva moral.]

Estou em crer que nem o mais ferrenho defensor do liberalismo económico defenderia, pelo menos às claras, que todo o comércio é sempre aceitável. Mas, para não se defender essa ideia tão pouco popular, há que ter como critério algo mais que o bom funcionamento da economia. E isto porque, como já uma vez aqui referi, de acordo com a teoria pura dos mercados, qualquer intervenção estatal, nem que para definir, com base nalgum critério moral (ou político, que neste caso é o mesmo), que comércio se pode ou não fazer reduz forçosamente a eficácia da economia. Por exemplo, se houver mercado para escravos não há razão nenhuma, numa perspetiva exclusivamente económica, para não se fazer comércio de escravos. Etc.

A verdade simples, de que nos esquecemos com demasiada frequência, é que o liberalismo económico é uma teoria económica, não uma teoria política, embora, como qualquer teoria económica, possa fazer parte de uma teoria política. É por isso que há uma tão grande divergência no plano propriamente político entre partidos que defendem o liberalismo económico (o grupo liberal do Parlamento Europeu é exemplo disso).

É claro que é perfeitamente possível a defesa de uma versão do liberalismo económico que não passe pela defesa de uma teoria pura dos mercados, avessa a toda e qualquer intervenção exterior e, por isso, completamente imoral. Saindo do louvor apenas do «bom funcionamento» dos mercados, pode definir-se alguma base moral do que é moralmente aceitável comerciar e defender, em seguida, que todas as transações moralmente aceitáveis se processem livremente, sem regulação do estado nem de entidade nenhuma que não sejam os agentes económicos nelas intervenientes*.

É extremamente difícil, porém definir as fronteiras do que é, em termos morais, suficientemente aceitável para poder ser comprado e vendido ou que tipo de transações comerciais devem estar sujeitas apenas à regulação do mercado. Por exemplo, se se aceita pagar muito dinheiro a uma pessoa pelos contactos e pela influência que tem (o valor dos salários de muitos gestores é nisso que assenta), então porque não aceitar o suborno e a corrupção, que são também a compra, num mercado autorregulado, do poder de uma pessoa? A questão dos monopólios é também interessante: uma lei antimonopólio é sempre contra o mercado, até porque, por muito que se afirme que os monopólios implicam o fim da concorrência (e a concorrência seria um motor de aumento da qualidade), o fim último de uma empresa a funcionar num mercado livre com o lucro apenas como telos é conseguir um monopólio.
Este são problemas da definição de mercado livre. Tem sido muitas vezes argumentado que a defesa de um mercado livre é, em última análise, contraditória, porque implica sempre a defesa de uma instância reguladora fora do mercado e não influenciável por ele que assegure o respeito da liberdade de transação e o respeito das regras comerciais. Porque um mercado realmente livre é um mercado em que manda mesmo e só a economia, mas isso é uma abstração do mesmo tipo que «o ser humano anterior à socialização»: é um conceito utilizável em exercícios de reflexão, mas que não corresponde a nada que tenha existido ou possa vir a existir.

Uma solução simples para estes dilemas é assentar que o comércio livre não deve ultrapassar os limites da lei, que a lei em vigor no lugar onde se comercia é a única instância reguladora aceite pelo mercado. Isto é, pelo menos em teoria, aceite pelos liberais, mas essa aceitação das leis vigentes é contraditória com o princípio do mercado livre, porque então devem também aceitar-se, sem protestar, as leis que regulam o mercado, até porque nunca ninguém defendeu a regulação do mercado per se, mas sempre esta regulação se deu para atingir fins políticos, que é outra maneira de dizer que a regulação do mercado se enquadra em programas éticos – pelo menos, quando não é determinada por uma parte poderosa dos participantes no mercado para se protegerem a si próprios**... Ora as forças do mercado não aceitam, precisamente, que as leis sejam como são quando as leis não são como elas as querem e tentam constantemente alterá-las, em função apenas da ideia de que «o mercado não deve ser regulado». O que nos traz de volta ao círculo da definição de limites morais essenciais a que os liberais não querem responder e que podiam resolver-se com a aceitação das leis vigentes, fossem elas quais fossem, porque são todas igualmente inimigas dos mercados – o que os liberais, afinal, não aceitam. E neste círculo giramos.

No fundo, o que não se diz, porque não convém, mas que determina em última análise a pressão do mercado sobre todos os regimes, é que se pretende que não haja mesmo nenhuma lei, nenhuma moral, que limite o funcionamento do mercado. O liberalismo económico acaba sempre por defender, opondo-se a toda a política, que o comércio é o único objetivo aceitável – o que, pelos vistos, é politicamente tão indefensável que nem o mais ferrenho defensor do liberalismo económico ousa admiti-lo às claras…

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* Complica um pouco as coisas o poder julgar-se especificamente a moralidade de uma transação comercial enquanto tipo específico de ação – a compra e a venda de sexo, por exemplo, são passíveis de uma análise moral independente da análise moral da prática de sexo não transacionado. Mas deixemos isto para outra conversa.

** Isto também dava uma conversa à parte: muitos liberais não se coíbem de defender a regulação do mercado, se esta regulação defender os seus interesses – alguém defende comércio livre com o mundo inteiro, que é o mesmo que dizer a desregulação efetiva do comércio?

30/01/22

Silêncio

 

No meu conto «Silêncio» (que apresentei aqui), um músico do sul da Índia chamado Venmani Tirunal Patire conclui que a música de Deus, que ele tinha procurado em vão em várias formas de música religiosa, só pode, afinal, ser o silêncio, porque «[a] única matriz absoluta é uma matriz vazia, a que tudo pode conter». Decidido a «ouvir» o silêncio, Venmani Tirunal Patire suicida-se por inanição numa redoma de pedra o mais insonorizada possível, construída com ele lá dentro.

E então aqui fica um spoiler (mas não faz mal, porque vocês nunca hão de ler os meus contos…) – a história termina assim:

Mais versado nas ciências humanas do que nas ciências da natureza, Venmani Tirunal Patire não sabia que os processos mentais morrem antes das outras funções vitais. Não se consegue, por isso, deixar de ouvir o corpo no minuto ínfimo e extático que antecede a morte. E Venmani Tirunal Patire, tenho a certeza, morreu sem nunca ter ouvido a matriz sonora de Tudo – o mais perfeito de todos os sons, a sinfonia de todas as sinfonias, a música de Deus.
***

No outro dia, encontrei uma entrevista que o compositor e teórico da música John Cage deu em 1963 a Jack Hirschman na estação de rádio KPFK (podem descarregá-la aqui). Nessa entrevista, Cage conta como descobriu que o silêncio não existe, numa câmara anecoica da Universidade de Harvard, um espaço que é, em princípio, completamente insonorizado — como a redoma de Venmani Tirunal Patire (traduzo eu):

Nessa câmara, embora esperasse não ouvir nada, ouvi dois sons. Por isso, quando saí, perguntei ao engenheiro responsável que sons eram aqueles. Pensei que a câmara não devia estar a funcionar bem. E ele disse: «Descreva-os». E eu descrevi: um era agudo e o outro era grave. E ele disse: «Bem, o agudo era o seu sistema nervoso em funcionamento; e o grave era a circulação do seu sangue». Percebi então que, sem querer, eu produzia constantemente dois sons. Portanto, mesmo permanecendo em silêncio, eu era, em certas circunstâncias, musical.



29/01/22

Vista de uma janela

1. 

Na sua recensão do álbum Music for Nine Postcards (1982), de Hiroshi Yoshimura (revista Pitchfork, 15.11.2017), diz Thea Ballard:

Associa-se muitas vezes a música ambiente a uma espécie de interioridade psíquica, mas Yoshimura (…) fez música inspirada em lugares físicos e concebida para existir nesses espaços: para estações de comboio, desfiles de moda, etc.

Em 1982, Music for Nine Postcards foi o primeiro lançamento da série Wave Notation, de Satoshi Ashikawa; Ashikawa e Yoshimura definiram e defenderam aquilo a que chamaram «música ambiental», música que, segundo Ashikawa, «muda o caráter e o significado do espaço, das coisas e das pessoas». «A música», defende ele, «não se destina apenas a ser algo que existe sozinho.»

Por invulgar que possa parecer, a ideia aceita-se com naturalidade: em vez de exprimir uma maneira de sentir o mundo (um mundo interior, digamos assim) ou de constituir ela própria um mundo à parte, sem relação direta com nenhuma realidade, porque não há de a música fazer parte de um pedaço de mundo — imiscuir‑se no meio, ser ambiente?

2. 

Segundo Thea Ballard, o álbum «inspirou-se numa série de vistas de janelas». Não consigo, noutras recensões do álbum, confirmar a fenestral inspiração, mas há no álbum um tema chamado «View from my window»:

Publiquei uma vez no Facebook uma foto da janela do meu escritório e pedi aos meus amigos que publicassem nos comentários uma foto de uma das suas janelas. 

Não houve muita gente disposta a colaborar, mas ofereceram-me, ainda assim, três bonitas janelas.

Tamara Barile mandou‑me uma janela de S. Paulo.

Teresa Silva mandou-me uma janela do Dafundo/Cruz Quebrada.

Fernando Ramalho (Berlau) mandou-me uma janela sonora de Verderena, Barreiro, incluída numa compilação de janelas sonoras.

Maria Serrano mandou-me uma janela de Montreuil.

E J. J. Amarante Mandou-me uma janela dos Olivais, e eplica que a «casa amarela com uma pequena torre encimada por um telhado de 4 águas é a Bedeteca Municipal, adjacente à Quinta Pedagógica, da qual se vê o arvoredo e onde as crianças podem fazer pão, ver vários vegetais a sair da terra em vez de nas prateleiras dos supermercados e animais de quinta, ovelhas, vacas, cavalos, porcos, aves de capoeira, etc. A Bedeteca e a Quinta Pedagógica estão na antiga Quinta do Contador-Mor onde alegadamente o Eça de Queiroz escreveu Os Maias, no que seria um local de vilegiatura e agora é o Bairro dos Olivais.»

Recolher vistas de janelas não é uma coisa muito original. Há um grupo no Facebook, um site que deu dois livros e um site de repousantes filmes de 10 minutos. Mas não faz mal. Não têm uma vista de uma janela que queiram aqui pôr, por baixo das quatro iniciais? Se sim, mandem-ma por e-mail.

São Paulo

Dafundo/Cruz Quebrada

Montreuil





Olivais