Há muito que se discute a eficácia ou a necessidade do uso obrigatório de capacete para os ciclistas e, pelo que tenho visto, continua a não haver consenso na matéria. Não há consenso, mas há um bom senso que me chamou a atenção e que quero elogiar: o de reconhecer dificuldades e falta ou impossibilidade de controlo nos estudos sobre o assunto. Estou a referir-me concretamente a um artigo de Ben Goldacre e David Spiegelhalter no BMJ*, que discute, em grande parte, um estudo sobre o efeito da legislação canadiana de uso obrigatório de capacete na admissão hospitalar de vítimas de acidentes de bicicleta com lesões na cabeça, concluindo (o estudo) que este efeito “parece ter sido mínimo”**.
O estudo em análise, que, segundo os autores do artigo, é superior a muito do que foi feito antes, parece, à primeira vista, ir contra as conclusões de outros estudos.
Estes estudos têm, porém, alguns problemas metodológicos:
Por um lado, se o grupo de controlo são ciclistas admitidos com outras lesões resultantes de acidente, este grupo depende da ocorrência de acidentes, partindo-se, portanto, do pressuposto de que o uso de capacete não altera o risco geral de acidente – o que pode não ser certo.
Por outro lado, há variáveis não medidas e que talvez nem possam medir-se: as pessoas que usam capacete podem ser diferentes das que não usam – podem ser mais cuidadosas, por exemplo, e, por isso, menos suscetíveis de sofrer acidentes, com ou sem capacete; e as pessoas que usam capacete só porque são obrigadas pela legislação também podem ser diferentes – podem não o usar corretamente, porque apenas lhes interessa cumprir a lei e evitar uma multa; e podem alterar o comportamento ao usarem o capacete, através do fenómeno de “compensação de risco” (“uso capacete, posso ter menos cuidado”), que está bem documentado.
Além disso, pode ser que, como documentado num estudo, os automobilistas deem mais espaço a ciclistas sem capacete.
Mesmo que os capacetes tenham realmente influência na taxa de lesões na cabeça, porém, isso não implica necessariamente que a obrigatoriedade tenha efeitos positivos gerais como política de saúde pública, porque pode ter efeitos indiretos indesejáveis. Um estudo recente identifica dois grupos de ciclistas: um grupo rápido,
com muito equipamento, incluindo capacetes; e um grupo mais lento, sem
muito equipamento. Segundo este estudo, o uso obrigatório de capacetes
pode fazer diminuir o segundo grupo. Ora sabe-se que os efeitos positivos de andar de bicicleta são maiores que os efeitos negativos, os acidentes. (Esta vantagem, porém, depende muito do risco absoluto de acidente: qualquer redução real do risco relativo de lesão na cabeça tem um grande impacto nos casos mais comuns de choque, os que se dão com crianças.)
Há efeitos indiretos ainda mais complexos, por exemplo, a chamada Lei de Smeed de “segurança no número”: quanto mais ciclistas há (maior densidade na estrada), mais seguro é andar de bicicleta.
Além de todas estas questões, há uma questão propriamente política: há quem considere que o uso obrigatório de capacete implica pôr a responsabilidade no indivíduo, quando podem ser tomadas outras medidas de caráter coletivo. Costuma dar-se o exemplo da Dinamarca e dos Países Baixos, com índices baixos de acidentes, apesar de a grande maioria dos muitos ciclistas que aí existem não usar capacete. A explicação parece estar nas infraestruturas, legislação rodoviária e cultura ciclista como meio de transporte normal (não desportivo, sem risco).
A conclusão do artigo é que é improvável que mais investigação venha clarificar inequivocamente as atuais incertezas e que há outros aspetos – culturais, psicológicos e políticos – do debate popular sobre a questão que serão sempre importantes.
É uma questão complexa e não sei se a soube expor. Não quero, sobretudo, que fiquem com a ideia de que o estudo analisado no artigo diz que tanto faz usar capacete como não o usar. Nada disso, o que “parece ter sido mínimo”, sublinho, são os efeitos da obrigatoriedade do uso de capacete, não os efeitos do capacete. Os autores do estudo analisado afirmam claramente: “… os capacetes reduzem o risco de lesões na cabeça e recomendamos o seu uso” e nunca o artigo põe isto em causa. Acho que não há dúvidas quanto às vantagens do uso voluntário do capacete.
Do artigo para a vida à minha volta. É certo que, para distâncias curtas, a bicicleta é um dos meios de transporte mais normais na Dinamarca, se não até o mais normal. A razão de queixa da Karen, a minha mulher, do emprego que tem é ter de ir de carro (35km). O que ela queria era poder ir de bicicleta para o trabalho, como faz a maior parte das pessoas. (Aqui a expressão i cykleafstand faz parte das que se usam para definir uma ocupação: “a uma distância que se pode fazer de bicicleta”.)
A Siri, a minha filha mais nova, que costuma ir na carrinha da escola, quis hoje ir de bicicleta. Levantámo-nos às seis horas, meia hora mais cedo do que é costume, e lá fomos, às sete. Demorámos quase uma hora a fazer cerca de seis quilómetros, porque a noite estava escura como breu, com muito nevoeiro, ademais, e só há iluminação pública em cerca de um quinto do caminho. Bonito passeio. A Siri diz que quer ir outra vez de bicicleta depois de amanhã. (A ver se arranjo uns refletores para pôr na roupa ou uns coletes refletores. E a ver se reparo se é quem usa capacete que também usa refletores na roupa.)
É verdade que muitos dinamarqueses não usam capacete. (Ou estrangeiros residentes na Dinamarca, smile…) Ia hoje a pensar que o frio pode ser uma razão – no tempo frio... Quase não se encontram à venda capacetes preparados para o frio, quentes e que cubram as orelhas. As minhas filhas usam um gorro por baixo do capacete, o que é desconfortável. Mas muita gente usa apenas gorros compridos ou de orelhas ou mesmo apenas os capuzes dos casacos. Ia a pensar se não será mais um fator a ter conta nestes estudos: até que ponto, em zonas frias, o capacete é visto como desconforto; e qual a proteção que dão os gorros de inverno e os capuzes. Muitos deles (o meu, por exemplo, grosso, forrado a pele por dentro), alguma proteção há-de dar, embora, claro, muito menor que a de um capacete.
Agora, são adolescentes e adultos que não usam capacete. E cada vez menos, creio. Para as crianças, o uso de capacete é, por assim dizer, obrigatório. Os pais obrigam-nas a usar capacete, e não só para andar de bicicleta, também para andar de skate, de patins, até de trotineta, às vezes… As escolas também obrigam os alunos, crianças jovens ou adolescentes, a usar capacete, quando a turma vai toda de bicicleta a algum lado – uma coisa que, aqui em Tåsinge, acontece com alguma frequência.
Ia a pensar nisto tudo, enquanto pedalava, e ia a pensar que gostava também de saber quais são os acidentes mais comuns de bicicleta e se variam de país para país, em função de infra-estruturas, legislação e cultura ciclista. São mais choques ou quedas? E os choques, são mais entre ciclistas, ou de ciclistas com outros veículos ou peões? Podia ter investigado antes de publicar este texto, não era? em vez de deixar a pergunta em aberto... Mas prefiro publicar isto assim e voltar algum dia ao assunto, se for caso disso. É que, por um lado, o post já vai grande e, por outro, se perco, como se diz, a pedalada, acabo por nunca publicar isto. O título do post? Ah, é uma cantiga que há:
Bike, filme de Lisa Wu com música de Syd Barrett ("Bike", 1967)
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* Goldacre, Ben & Spiegelhalter, David, “Bicycle helmets and the law” (BMJ 2013;346:f3817), 12 de junho de 2013, disponível em linha.
** Dennis, J., Ramsay, T., Turgeon, A. & Zarychanski, R., “Helmet legislation and admissions to hospital for cycling related head injuries in Canadian provinces and territories: interrupted time series analysis (BMJ 2013;346:f2674), 14 de maio de 2013, disponível em linha.
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