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19/07/25

Aqueles que por obras valerosas

 

Já uma vez aqui falei do assunto. Disse que criadores e obras são coisas diferentes e que, se as obras ficam, as pessoas reais que as criaram são tão facilmente esquecidas como quem nunca fez nenhuma obra memorável. 

Faltou-me sublinhar que, para que recordem as obras que cá deixamos, tanto faz que essas obras sejam boas ou más. Algumas das obras mais recordadas são as mais terríveis — e ainda bem que assim é, que o mal nunca se deve esquecer, para melhor contra ele nos precavermos.

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O resto, que merece também ser sublinhado, digo-o em redondilha maior:

Todos sabem que, ao morrer,
só como recordação
poderão sobreviver.
Mas que o recordem ou não,
quando já cá não andar,
p’lo bem que fez, ou o mal,
a um vivo pode importar,
— para um morto, é tudo igual.

Percy Spencer nasceu a 19 de julho de 1894, faz hoje 131 anos e inventou o forno de micro-ondas em 1945. A patente, uma das 150 registadas por Spencer, foi feita em nome da empresa onde trabalhava, de maneira que nunca ganhou com ela nada além do seu salário. Uma obra de valor, sem dúvida, usada por muita gente no seu dia a dia, mas quem se lembra de Percy Spencer? Imagem: O primeiro forno de micro-ondas produzido comercialmente, lançado em 1947.
Foto de
 Acroterion, Creative Commons, daqui.

01/11/24

Chega uma vez

 

Para mim, é claro que, em caso de paragem cardíaca, não quero ser reanimado. É que estou convencido de que a morte é mesmo o pior que me pode acontecer na vida e não estou para passar duas vezes por tão desagradável experiência.

03/09/24

O inferno [Crónicas de Svendborg #49]


 Hoje vi uma casa arder com uma pessoa lá dentro.

E éramos várias pessoas cá fora, a não poder fazer nada — que podem uns baldes de água quando uma casa está toda em chamas? — e todos nós conhecíamos o homem que já estava morto lá dentro e todos tínhamos por ele simpatia, alguns até amizade.

Uma casa a arder com uma pessoa lá dentro. O inferno.  


21/03/24

Preparos e funerais

 

«Na nossa profissão», disse-me uma vez uma enfermeira, quando comecei a trabalhar no setor da saúde, «aprende-se a encarar a morte como uma coisa natural, que é uma coisa que a maior parte das pessoas não faz, não consegue fazer. Mas corremos também o risco de nos tornar cínicos, de deixar de dar à morte a importância que tem, de chegar a galhofar com ela; e não se deve… Não se deve.»

Tentemos ter sempre presente: a morte é o acontecimento mais importante da vida de uma pessoa. 

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Tanatopraxia é uma palavra demasiado pomposa, que tenho dificuldade em relacionar com o trabalho simples que eu conheço: talvez pôr uma fralda, talvez retirar uma algália, lavar o corpo, talvez barbear, pentear, vestir o corpo, talvez calçá-lo. Em dinamarquês, diz-se «gøre i stand» e nunca aprendi como se diz em português normal — ou em português de enfermagem — porque esse trabalho nunca fez parte da minha vida em Portugal. «Gøre i stand» traduz-se, em quase todos os contextos, por «arranjar» ou «preparar». É só isso. 

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Tem-se pena das pessoas que padecem e mais ainda se se lhes acompanha de perto o sofrimento; e deixa-se de ter pena delas quando o termina o penar. Ouvi uma colega dizer de uma recém-falecida: «Estava mais bonita. Nunca lhe tido conhecido aquela expressão de sossego.» 

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Mikhail Aleksandrovich Vrubel: Tamara no caixão, 1891 (excerto)
Já quis, mas já não quero, decidir o que quero que façam de mim quando eu morrer. Nunca pensei em escolher a roupa com que quero vestido o meu corpo, como há quem faça («calça, culote, paletó e almofadinha», pede a famosa canção de João de Aquino e Paulo César Pinheiro, e vesti uma vez um defunto de traje de gala, com casaca de abas de grilo…); mas pensei às vezes em escolher algum texto ou uma canção para o meu funeral; ou deixar insólitas indicações para a ocorrência, como Mário de Sá-Carneiro, que queria que lhe pusessem o caixão sobre um burro ajaezado à andaluza... 

Ora!... O funeral é uma das cerimónias importantes da nossa vida, é certo, mas é uma cerimónia em que, infelizmente?, já não vamos a tempo de participar. Que escolha quem fica como o quer.


22/12/23

Canções que referem outras canções #2: “Please Don't Bury Me” e “Give My Love to Rose”

Segundo post da série: um dos versos de “Please Don't Bury Me”, de John Prine (1973), é o título de uma famosa canção de Johnny Cash, “Give My Love to Rose” (1957) — provavelmente um piscar de olho de Prine a um dos seus ídolos. Uma função óbvia das referências a outras obras, musicais, literárias, pictóricas, ou de qualquer tipo, enfim, é declarar uma filiação. Uma espécie de mini-manifesto artístico: esta é a linha de autores e o projeto artístico em que inscrevo. 

Johnny Cash diz que escreveu “Give My Love to Rose” inspirado por conversa com um prisioneiro de San Quentin, que lhe pediu para dar um recado à sua mulher (do recluso, entenda-se…). A canção descreve o encontro do seu narrador com um homem que, tendo acabado de cumprir uma pena de prisão e no caminho de volta a casa, está agora à beira da morte, por doença, e pede ao narrador que dê cumprimentos seus à sua mulher, Rose, e ao filho que ele sabe que não poderá voltar a ver.

John Prine era um dos maiores escritores de canções americanos, que tanto sabia fazer boas canções sérias como boas canções humorísticas, como é o caso de “Please Don't Bury Me”. A canção inscreve-se no motivo de últimas vontades e testamento: John Prine conta que escorrega, bate com a cabeça e morre e, quando chega ao céu, lhe contam quais tinham sido as suas últimas palavras. As últimas vontades de Prine são deliciosas e «deem cumprimentos meus à Rose» é uma delas: 

« (…) Give my stomach to Milwaukee
If they run out of beer
Put my socks in a cedar box
Just get 'em out of here
Venus de Milo can have my arms
Look out! I've got your nose
Sell my heart to the Junkman
And give my love to Rose
But please don't bury me
Down in that cold, cold ground
No, I'd rather have 'em cut me up
And pass me all around
Throw my brain in a hurricane
And the blind can have my eyes
And the deaf can take both of my ears
If they don't mind the size (…)»

09/01/23

Depois da morte

 


«O filme Depois da morte (Dopo la morte/Nach dem Tod/Après la mort), da realizadora suíça Lara Tàcita, é descrito pela autora como um ensaio:

Não é tanto um ensaio filmado, que seria outra coisa, mas é um ensaio mais que uma obra de ficção. Cheguei a pensar em categorizá-lo simplesmente como documentário, mas achei que seria uma classificação algo arrogante. Acho que muita gente vê o filme como um poema visual, não no sentido mais tradicional da expressão, mas como o equivalente cinematográfico da música programática, em que se pede ao ouvinte que aceite que a obra descreve ou de alguma forma sugere, de facto, o programa, a história, a ideia, enfim, que o autor com ele se propõe tratar. Para mim, também não é isso. Mas compreendo que o vejam assim. Também já vi o filme descrito como filme de tese, mas não me parece bem. Não só me parece uma designação demasiado pomposa, como se lhe aplica mal, se compararmos Depois da morte com outros filmes que costumam ser assim designados.

Embora muitos vejam nele uma rutura com todas as formas anteriores de cinema, julgo que o filme de Lara Tàcita segue apenas as convenções narrativas habituais. Todos os romances, todas as novelas, todos os filmes são feitos de uma escolha das imagens, situações ou palavras que o autor considera relevantes para a história a ser contada, para o ambiente a ser sugerido ou para a ideia a ser veiculada. O tempo total em que «se passa» a narrativa, que pode ser de horas a séculos, mas que é, mais comummente, de meses a anos, é reduzido ao tempo em que ela é apresentada ao público — que, no cinema, normalmente é entre uma e duas horas, às vezes um pouco mais. Mesmo quando, em propostas ditas hiper-realistas, se insiste em mostrar as banalidades que são por tradição omitidas noutras histórias (fazer comida, passar a ferro, lavar os pés…), essa redução narrativa não deixa nunca de existir. E é isso que Lara Tàcita faz também aqui neste filme: durante três horas e 16 minutos apresenta-nos uma seleção dos acontecimentos por que passa o protagonista (que nunca é nomeado, nem nunca se vê no filme) depois da sua morte.»

Leo Fredholm, Gazeta d’Aosta, 18.12.22


O trailer de Depois da morte dá-nos uma ideia muito clara do que podemos esperar do filme: depois dos segundos iniciais (em que, pelos olhos do moribundo protagonista, vemos a única personagem do filme além dele) desfilam em rápida sequência, durante um pouco mais de dois minutos, alguns breves excertos das principais cenas do filme — alguma das principais experiências do protagonista depois da sua morte.




07/12/22

Da pouca fiabilidade da memória e mais

Diz a canção de Caetano Veloso (há canções ricas em filosofia, mas só poucas) que a plenitude e a morte coincidem forçosamente um dia*. Jorge Luis Borges escreveu em 1985 que, «no instante que antecede a morte», a sorte nos libertará «do triste hábito de ser alguém e do peso do universo»**. Escrevi em jovem (onde terei posto isso?) que era bem possível que o nirvana budista não fosse, afinal, senão a morte***: quando se paga com a morte o pecado de ser um, voltamos a ser apenas parte de tudo e atingimos, assim, a perfeição.

É uma ideia que me persegue desde rapaz. Uma maneira de dar à morte algum sentido positivo, será?, de embelezar o maior de todos os pesadelos… É tentador pensar que sou autor de uma ideia igual (?) à de poetas que admiro, mas é bem provável, como me hei de lembrar?, que estivesse apenas a repetir o que deles — ou de outra(s) pessoa(s) — tivesse lido ou ouvido...

*  *  *

Sobre a canção:

Ignorante que sou das coisas da música popular brasileira, sempre pensei que o «Nº 2» de “Janelas Abertas Nº 2” indicasse a versão da canção (muitas vezes, as obras passam por várias versões que os autores numeram), mas descobri agora que não é assim: remete antes para “Janelas Abertas”, uma canção de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes gravada em 1958 por Elizete Cardoso e em 1959 por Sílvia Telles. Caetano Veloso «cita» o início da canção («Sim / Eu poderia…» ) e o início da última estrofe («Mas / Quero as janelas abrir…») dessa “Janelas Abertas” «Nº 1». Também se pode estabelecer uma relação entre «Eu poderia morrer / E me serenizar» da letra de Vinicius de Moraes e «Até que a plenitude e morte e coincidissem um dia» da letra de Caetano Veloso.

A versão original de “Janelas abertas No. 2” é esta, do álbum A tua presença, de Maria Bethânia (ou Maria Bethânia Viana Telles Veloso, como vem na capa do disco), 1971

________________

* “Janelas Abertas Nº 2”: «Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro / Percorrer correndo, corredores em silêncio / Perder as paredes aparentes do edifício / Penetrar no labirinto / Um labirinto de labirintos dentro do apartamento / Sim, eu poderia procurar por dentro a casa / Cruzar uma por uma as sete portas, sete moradas / Na sala receber o beijo frio em minha boca / Beijo de uma deusa morta / Deus morto, fêmea de língua gelada, língua gelada como nada / Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília / Em cada um matar um membro da família / Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia / O que aconteceria de qualquer jeito / Mas eu prefiro abrir as janelas / Pra que entrem todos os insetos»

** “Tríada”, in Los conjurados, Alianza Editorial, 1985: «El alivio que habrá sentido César en la mañana de Farsalia, al pensar: Hoy es la batalla. / El alivio que habrá sentido Carlos Primero al ver el alba en el cristal y pensar: Hoy es el día del patíbulo, del coraje y del hacha. / El alivio que tú y yo sentiremos en el instante que precede a la muerte, cuando la suerte nos desate de la triste costumbre de ser alguien y del peso del universo.»

*** Se analisarmos a palavra nirvana, ela significa originalmente «apagamento, extinção», do sânscrito ni-, nir-, prefixo de cessação, + va- «soprar». A raiz pré-indo-europeia de va- é *we-, «soprar», que chega ao português na palavra vento.



05/07/22

Funeral em vida

Uma amiga contou-me que o seu pai e os amigos dele organizaram funerais em vida. É uma grande ideia. Por muito que o funeral seja um dos dias mais importantes da vida de uma pessoa, é celebração a que essa pessoa não assiste — não tem possibilidade de se comover com os elogios fúnebres que os amigos lhe fazem, nem de se rir com as muitas histórias engraçadas que dela recordam nessa ocasião. 

Estou a pensar em organizar o meu funeral em vida um dia destes. Depois, se alguns dos meus convidados acharem por bem dar continuidade à minha iniciativa organizando os seus próprios funerais em vida, teremos finalmente possibilidade de retribuir uns aos outros a presença no nosso funeral — uma coisa que, sem estes funerais em vida, é muito difícil de fazer...

19/11/19

Reanimação


Se um dia me virem morrer de algum mal remediável, por favor não me tentem ressuscitar: a morte é a pior coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa e eu não quero passar duas vezes por tão horrível experiência.


28/08/19

Notas avulsas sobre uma morte concreta e a morte em geral


Escrevi aqui uma vez, num dos meus textos preferidos desta Travessa, que «pesa mais o mau que o bom». Ou que pesa mais o negativo que o positivo, se preferirem, mais a dor que o prazer. De todos os males, o pior é a morte. Se calhar, os outros males, mesmo a dor, física ou psíquica, que nos pode levar a preferir a morte à sorte que temos, só existem como prenúncios da morte, como pedaços de morte espalhados pela vida.

*** 

É importante enterrar os seus mortos. Os mortos não enterrados custam mais a morrer em nós, se se pode dizer assim. Para o dizer de uma forma mais prosaica, custa-nos mais aceitar que não voltaremos a vê-los, a falar com eles, a saber da sua vida.

Há muitas maneiras de enterrar os seus mortos e são todas válidas. Vejo muita gente insurgir-se contra quem ostenta (é assim que o veem os que se insurgem) os seus mortos nas redes sociais. Não me meto nisso. Como vou eu dizer a alguém como trabalhar o que lhe vai dentro? Não o faço eu, que sou uma pessoa reservada na expressão da dor e excluo quase todo o privado das redes sociais, mas não vejo mal nenhum em que se faça. E, embora sem nomear diretamente os mortos, faço-o aqui na Travessa, que é também sítio público, sempre que consigo dar forma aceitável ao que penso e sinto.

E depois, enterrar os seus mortos é, sempre foi, uma tarefa parcialmente social. Como tudo o que é humano, inclusive os sentimentos. Que seja o jornal local ou o Facebook, o anúncio público da morte e da dor parece ser sempre uma parte do esconjuro da morte ou da sua aceitação…

 Agora, as maneiras que fomos inventando de enterrar os mortos são todas tão sofisticadas como imperfeitas: velórios e funerais, e todo o tipo de cerimónias funerárias, religiosas ou laicas; as várias formas de obituários, e todos os tipos de elogios fúnebres, no jornal, no café ou em casa de amigos; os memoriais, as homenagens e a celebração de aniversários — tudo isso vale, e muito. Mas é às vezes muito pouco. É o que se pode, enfim.

*** 

O que digo no último parágrafo foi o que me interrompeu, no funeral de K, o desfilar de recordações. Pensei no último jantar com K, dois meses antes, em que ele me lembrou uma compilação de canções que eu lhe oferecera há quase vinte anos.
 – Quando ouvi a primeira vez, não me disse nada aquela música. E depois fui ouvir outra vez o ano passado, por curiosidade, e gostei muito daquilo tudo. Tenho ouvido muitas vezes, desde então. Acho que precisava de amadurecer para apreciar aquilo.
Amadurecer… Mostrei-lhe um vídeo em que mestre Jacques Pépin explica como desossar uma galinha.
– Não é tão fácil como ele o faz parecer, mas também não é muito difícil.
– Muito fixe! – disse ele. – Hei de experimentar.
Não sei se chegou a experimentar. K era um excelente cozinheiro e adorava comer e beber bem, e comia e bebia talvez demais. «Que mais se leva desta vida?», não é a pergunta retórica que se costuma fazer? Eu costumo dizer que conta mais o que cá se deixa. K deixou feito muito bem.

*** 

«E aquelles que por obras valerosas / Se vão da ley da Morte libertando»?

É justa a maiúscula na Morte, que merece a maior de todas as maiúsculas. Que persistimos na memória dos que cá ficam também é certo, mas não nos equivoquemos: quando desaparece a última pessoa que se lembra de nós, desaparecemos de vez da face da terra. Se nos definem como seres individuais a consciência e a memória que temos de nós — que mais temos que nos acompanhe toda a vida? —, admitamos que sobrevivemos na consciência e na memória de quem nos conheceu bem. Décadas no máximo. Mas mais que isso, nada. As obras que cá se deixam, valerosas ou não, não são os seus criadores. Os criadores de obras imortais, esses, morrem como toda a gente — ao fim de pouco tempo, ninguém se lembra de como falavam, riam, comiam ou se irritavam, já ninguém se lembra deles…





08/07/17

Mictlantecuhtli em redondilha maior



Mictlantecuhtli, deus asteca dos mortos. 
Estátua encontrada em Teotihuacan e exposta no 
Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. 
Wikimedia Commons, daqui.
Feio é, como é a morte
ou como às vezes a vida,
feio como a nossa sorte,
sempre a meio interrompida,
feio bicho que trazemos
escondido dentro de nós
e se revela sem qu’rermos
num olhar ou tom de voz
– deus do in-mundo final,
que importa se se lhe chama
Aita, Hel, Ereshkigal,
Demo, Osíris ou Yama?















[A Wikipedia tem uma longa lista de divindades da morte em diversas religiões e culturas.]

19/03/17

De passagem

1. «Estou só de passagem» era um mote recorrente da minha adolescência vagabunda, que muitas vezes ilustrei, em qualquer papel que apanhasse à mão. Este desenho aqui por cima foi feito numa folha de bloco pautada (tirei-lhe as linhas com um programa de tratamento de imagem). É de finais dos anos setenta e foi um amigo que o guardou e mo fez chegar. (Ah, os amigos!...)

A minha figura que passava – não me lembro de o fazer conscientemente, mas posso agora constatá-lo – inspirava-se seguramente no icónico «Just passin’ thru», de Robert Crumb.

Não é preciso acreditar que há alguma coisa depois da morte para pôr as coisas nestes termos: estar de passagem – ou passar apenas, até – é uma excelente metáfora da vida. E acho que era isso, mais que a descrição da minha condição de vagabundo, que me fascinava na tão repetida figura que apenas passa.

2. Se é verdade que, como postulam alguns e a mim me parece fazer todo o sentido, os sistemas nervosos dos animais se desenvolveram para controlar movimento e que continua a ser essa uma das suas funções principais, não é de surpreender que as noções espaciais estejam na base de todas as noções abstratas com que raciocinamos, em que encaixamos o mundo.

Pasar é, diz o dicionário da Real Academia Espanhola, «cruzar de una parte a otra» ou «ir más allá de un punto limitado o determinado». Tem mais 62 aceções, mas creio que decorrem todas destas duas, que, bem vistas as coisas, são afinal uma única: «mover-se em direção a X, seja X um ponto ou um espaço, e continuar a mover-se depois de ter atingido X».

É o que fazemos toda a vida, como dizia e bem Antonio Machado:
Todo pasa y todo queda, / pero lo nuestro es pasar, / pasar haciendo caminos, / caminos sobre la mar.
«Proverbios y cantares XLIV», in Campos de Castilla, 1917)

3. Podemos sempre perguntar «O que se passa?» ou «O que se passou?» e todos os acontecimentos servem de resposta a esta pergunta. De cada vez que atingimos o tal X – e estamos sempre a atingi-lo – o que percorremos já é o passado, claro está. Um dia, passa a vida por nós e somos nós passado.

 Agostinho de Hipona:
O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela por que não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?

4. Para Agostinho de Hipona, o passado só existe por estar presente – ou talvez melhor, por ser presente – na memória:
Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas (…), onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. (…) Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória. (Ibid, XVIII. 23) 
Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. (Ibid. XX. 26) 
A obra de Agostinho de Hipona é um clássico, como é clássica a sua reflexão sobre o tempo. Os «Proverbios y cantares» de Machado também são já um clássico, e creio que se pode dizer que o Mr. Natural de Crumb também já o é. Perenes, provavelmente não são, mas resistem bem a passar apenas.

É possível alguém permanecer em vez de estar só de passagem? Ficar para sempre presente nalguma memória, se soube ganhar a fama e a glória? Qual! Figura de estilo apenas, ou então ilusão: se tivermos feito obras valerosíssimas, quem se liberta da morte são as obras, que não nós. Ao fim de uma ou duas gerações, já não existimos na memória de ninguém.

15/03/17

Pobre Jenny, pobres de nós


Enganou-vos quem vos disse que sujeito é quem pratica uma ação. Sujeito é quem está por baixo, aquele sobre quem recai alguma coisa, aquele que a sofre.
«Peço desculpa a quem gosta de mim, mas a vida dói-me demasiado. Sinto-me enfim liberta.» 
Não há sofrómetros. Não há nada mais subjetivo que a dor. Pobre Jenny, pobres de nós.

Hugo Gerhard Simberg: O anjo ferido, 1903, Ateneumin taidemuseo, Helsínquia. Wikimedia Commons, daqui)

11/04/16

[sem título]

P. nasceu no mesmo ano que eu e vai morrer agora. Talvez este mês ainda, talvez para o próximo, mas muito em breve.

É melhor ser a morte anunciada, ter uma ideia, nem que muito precisa, de quando tudo se acaba? Muita gente me disse já que não, que não queria ter essa revelação.

P. fala da sua morte com racionalidade. Quer deixar resolvido tudo o que puder resolver. «Se tiverem alguma coisa importante para me dizer, é agora que têm de dizer. Seja lá o que for.»

Combinou com o padre e com os mais próximos como será o funeral. Nem tudo pode ser como P. queria. O padre diz-lhe que não pode ler no enterro o poema que ela quer que ele leia, porque é um poema pagão. Compreendo o padre: num discurso fúnebre, não pode dizer algo de que discorde, mesmo que isso lhe tenha sido pedido por alguém que já morreu.

O marido far-lhe-á ele próprio o caixão. O que se passará na cabeça de alguém quando mede e corta e aplaina o caixão da sua mulher que vai morrer em breve?

Muitas pessoas vão visitar P. lá a casa, despedir-se dela. Ninguém põe as coisas assim, nem lhe diz claramente o que pensa ao dizer adeus: «Já não te vejo mais.»
P. fica emocionada e chora. «Tanta gente que gosta de mim.»

Na nossa família, todos choramos P., mas não a choramos na presença dela. É verdade que há muita gente que gosta dela. Saber que falta muito pouco para ela nos deixar não há de impedir uma explosão de dor quando soubermos da sua morte. A morte só muito relativamente se prepara e se aceita, mesmo quando se a tem diante dos olhos.


05/06/15

Objetos artificiais, pessoas e outros animais atingidos por meteoritos

Na Internet encontra-se de tudo (e já se encontra muito de grande parte das coisas…). É como na botica, a bem dizer, mas, boticas assim, há muito que não nas há, a não ser no Canadá.

Até se encontra quem conte objetos artificiais, animais e pessoas atingidas por meteoritos! E fica a saber-se que só se conhece com relativa certeza de um caso antes de 1775 e que, a partir daí, o número de casos registados aumenta progressivamente. Porque caem agora mais meteoritos? Claro que não.

Isto ensina, entre outras coisas, a ter bom senso e a nunca se esquecer de ter em conta todos os fatores: seja doentes de asma ou quedas de meteoritos, não basta dizer que há cada vez mais, é preciso contar também que somos mais agora e que há cada vez mais registos de tudo. Além de que, no que toca a doenças com maior incidência em idades mais avançadas, se vive muito mais tempo hoje; e, claro, se se morria de uma infeção na boca aos 25 anos não se chegava a morrer de cancro da próstata aos 65…

27/02/15

Línguas mortas

No dia 4 de Fevereiro de 2014, morreu Hazel Sampson e, com ela, a língua klallam, que ela era a última pessoa a ter como língua materna. Embora haja ainda algumas (poucas) pessoas que o falem como segunda língua, o klallam pode considerar-se uma língua morta. Língua morta pode precisamente definir-se como uma língua que já não é língua materna de ninguém.

Ninguém sabe ao certo o que é uma língua. Há muitas definições bastante satisfatórias de língua, mas, por um lado, é impossível definir-se os seus limites, na sua variação no tempo e no espaço; e, por outro lado, não se sabe de que consta ao certo a língua enquanto programa mental. Trocando por miúdos, e insistindo no que interessa mais para a questão que aqui trato, quer isto dizer, por exemplo, que ninguém sabe em que momento é que o romance falado na parte ocidental da península ibérica se pode passar a designar como português; e quer dizer também que não se sabe onde estão armazenados, como estão estruturados e como funcionam ao certo a imensa base de dados e os inúmeros mecanismos que nos permitem falar e compreender uma língua.

Para compreender o que é a morte de uma língua, é útil ter presente esta conceção de que a língua é uma estrutura que, em abstrato, pertence à comunidade dos seus falantes e que nela evolui, mas que, em concreto, se encontra instalada, na sua forma integral, no cérebro de cada uma das pessoas que a têm como língua materna. A língua morre de facto quando morre o seu suporte físico – quando deixa de ter falantes. Por muito que haja uma descrição exaustiva do léxico e da gramática dessa língua, essa descrição fica sempre muito aquém da estrutura complexíssima que os falantes nativos têm na mente. A analogia com um programa de computador funciona aqui relativamente bem: imaginem um programa que, por uma razão qualquer, já só existe no disco rígido de um único computador e que esse disco rígido é destruído. O programa desaparece. Pode haver uma descrição detalhada do que ele produzia, mas isso não impede que já não haja aquele programa[1].

Há dois tipos de línguas mortas: as línguas com mortes datadas (seja ou não conhecida a data da morte) e as línguas de que é impossível determinar quando morreram[2]. No primeiro caso, está uma língua como o klallam; no segundo, uma língua como o latim. No primeiro caso, o que acontece normalmente é que, por terem pais falantes de duas línguas diferentes, os filhos não adquirem a língua de um dos pais. Ou adquirem-na em bebés, mas, por não a usarem, acabam por perdê-la. Quando uma língua é muito minoritária, vão ficando, por este processo, cada vez menos falantes da língua e, a certa altura, morre o último – e, com ele, a língua. No segundo caso, a língua vai-se modificando e, ao fim de muito tempo, já toda a gente fala uma versão tão diferente da língua que é considerada outra língua. Para usar o exemplo do latim, o latim falado em grandes zonas do império foi evoluindo lentamente e foi-se diferenciando de região para região, e a certa altura, deixou de ser referido e entendido como latim[3] – passou a ser chamado português, galego, castelhano, asturiano, aragonês, catalão, valenciano, etc., etc., etc. Mas é impossível determinar-se quando o latim deixou de ser falado, porque ele foi sempre sendo transmitido de pais para filhos, sem a interrupção que se verifica em casos como o do klallam.

Lembro-me de duas máximas muito úteis que aprendi quando comecei a estudar linguística: “em cada momento, uma língua é sempre o resultado da transformação de um seu estado anterior” e “uma língua é um dialeto com exército e marinha”. O que esta última máxima quer dizer é que a identificação de uma língua é mais frequentemente de caráter político que propriamente linguístico. O norueguês bokmål e o dinamarquês são sempre considerados línguas diferentes, mas, se a Noruega e a Dinamarca não fossem países distintos, haveria, muito provavelmente, quem os considerasse duas variantes dialetais da mesma língua. Se se pensar também em variantes temporais em vez de apenas variantes dialetais, temos que o latim deixa de ser considerado latim quando desaparece o império romano e se criam, no espaço que este ocupava, várias outras unidades políticas. Mas as pessoas não mudaram de língua no ano de 476 ou lá quando se queira considerar o fim da Roma imperial, nem em nenhum momento concreto: os filhos continuaram sempre a aprender a língua dos pais – que se foi sempre alterando um bocadinho, como as línguas sempre se alteram[4].

Parecerá agora claro (espero…) a toda a gente que destas constatações simples se pode derivar que são línguas mortas todos os estados anteriores, que já ninguém fala, de uma língua atual. Usando qualificações como arcaico, antigo, medieval, clássico, etc., para as línguas existentes, obtemos forçosamente línguas mortas. Agora, se a designação de língua morta é standard para, ponhamos, o grego antigo ou clássico, a que se opõe a língua viva grego moderno, é-o talvez menos para línguas mortas como o português, o espanhol ou o francês arcaicos[5]. É claro que a proximidade temporal e, por conseguinte, a proximidade linguística, do que se designa como português arcaico e do português atual é muito maior que a do grego do tempo de Sócrates e do grego atual (e provavelmente até que a do inglês do tempo de Chaucer e do inglês atual), mas duvido que um português atual entenda sem problemas o português dessa época e até que reconheça o português dessa época como sendo a sua língua – o português atual é provavelmente mais próximo do castelhano atual, por exemplo, que do português do tempo de Afonso Henriques...

Dito de uma maneira mais pomposa, que é como se costumam resumir as coisas em fim de texto, para a grande maioria das línguas atualmente existentes[6], há um continuum de língua(s) morta(s) que são as suas fases passadas – que já ninguém fala. No fundo, a língua é (como) um organismo vivo: também para a língua, a morte é o preço a pagar pela possibilidade de evoluir.

[Texto revisto a 24 de julho de 2023]

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[1] No caso de um programa de computador, é provavelmente mais fácil, a partir apenas da descrição das funções e resultados de um programa que não sabe qual é, criar outro programa que, embora diferente, tenha funções e produza resultados semelhantes. No caso da língua, as ciências linguísticas e as neurociências estão muito, muito longe de conseguir (por exemplo), a partir de uma descrição do klallam, pôr na cabeça de alguém alguma programação linguística que produza os mesmos resultados que produzia aquela que Hazel Sampson e os outros falantes da língua tinham no cérebro…
[2] Já encontrei quem distinga os dois tipos chamando línguas extintas e não línguas mortas às primeiras, mas não me parece que esta distinção seja muito comum.
[3]
Na região do Trentino-Alto Adige e do Vêneto, em Itália, porém, continuou sempre a ser designado como ladin. Também a língua dos judeus sefarditas continuou sempre a chamar-se ladino.
[4] Isto não acontece sempre de forma contínua e progressiva. Pode haver momentos de ruptura em que há grandes transformações, devido a, por exemplo, imposição política de uma língua estrangeira, grandes migrações de populações, etc. Mesmo estas convulsões não produzem mudanças num momento determinado, mas sim num espaço de tempo mais alargado, de várias gerações.
[5] …e provavelmente menos ainda para coisas como ndebele arcaico…
[6] Os crioulos, línguas nascidas “de repente”, “sob pressão”, são exceção a esta regra geral.

17/02/15

O tempo e a sua falta

Sempre me custou perceber a afirmação, tantas vezes repetida, de que o tempo não tem realidade, que é só ilusão que criámos e veneramos. Nunca tal se diz do espaço, porque será?, só do tempo – como se se pudesse ficar nalgum lado ou ir a algum lado sem que passe tempo. Existir no espaço sem tempo e no tempo sem espaço é atributo de ubíquas e eternas divindades, nada que os animais conheçam. O que os animais conhecem é o que lhes dizem os sentidos. E eu e o meu cão, os tordos e as abelhas, todos sentimos o tempo passar. E ainda bem que assim é. Tentem conceber alguém que não tivesse a capacidade de sentir o tempo, para quem não houvesse antes e depois. Não conseguem, pois não?, é-vos tão impossível conceber tal coisa como conceber alguém para quem o mundo não tivesse profundidade e vivesse apenas dentro de uma imagem plana.

Ilusão, o tempo? Criação nossa apenas, ficção? Ora, haverá no mundo alguma coisa em que esbarremos mais que no tempo, outra coisa que tenha uma tão cruel materialidade? Ah, porque se pode perceber de maneiras várias, porque uma hora com uma rapariga bonita é mais curta que um minuto sentado em cima do bico aceso de um fogão*… Claro, como tudo o que existe. Mas isso só mostra bem que existe fora da maneira como cada um o percebe, senão como poderia ser percebido por cada um de maneira diferente?

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Às vezes, uma pessoa esforça-se tanto por dizer coisas novas que acaba por dizer coisas que têm pouca ou nenhuma relação com a realidade. E está muito bem assim. Outras vezes, quer mesmo falar do que acha importante e não tem remédio senão repetir o que já disseram milhares de pessoas antes dela, porque o que é importante para cada um de nós foi e continua a ser importante para muitos outros em muitos tempo e lugares. Escrevi muitos textos sobre tempo, quase todos a rimar. Falam do contra-senso que encerra a expressão matar o tempo, que é coisa que não se pode (pois se é o tempo que nos vai matando a nós!); falam de envelhecimento como consciência cada vez mais aguda de que um dia tudo se acaba. Que pode haver de mais importante e de mais banal que isto?

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Quando era rapaz novo, impressionava-me a deslumbrada ânsia de viver de Dean Moriarty, personagem de On the road de Jack Kerouac, e o seu “conhecimento do tempo”. “Nós conhecemos o tempo”, repete ele várias vezes no livro. Para Dean, conhecer o tempo é ser capaz de o desacelerar e curtir a vida, e, para isso, é preciso deixar de tomar decisões, de querer decidir o futuro, deixar-se ir apenas – atrás da vida, para onde ela o chamar. E eu e os meus amigos, aspirantes a beatnicks que éramos, tentávamos convencer-nos mutuamente da validade dessa fascinante ideia e de que tínhamos essa superior capacidade. “Nós conhecemos o tempo!”, repetíamos nós, “Nós conhecemos o tempo!”

A personagem de Dean Moriarty é inspirada numa pessoa concreta, Neal Cassady. Em The First Third, um texto autobiográfico, Neal Cassady conta que o seu irmão Jimmy o fechava numa cama embutida na parede, às vezes horas a fio. Neal diz que, literalmente emparedado, sentia que o tempo “ia acelerando até atingir o triplo da sua velocidade normal”. E ele, horrorizado, com medo de se mexer e de gastar a sua reserva de oxigénio, aprendeu a “viajar no tempo”, deixando-se, às vezes, ir na corrente do tempo e transformando-a, outras vezes, numa enxurrada. A única maneira de resistir ao pânico, ao mais absoluto desespero, era aprender a “conhecer o tempo”, a modelar a perceção que dele tinha. Que mais pode fazer – se o conseguir… – quem deixa literalmente de ter tempo, quem não vê, depois deste agora que está a chegar ao fim, nem um bocadinho de futuro?

Não é dar o dito por não dito, não é isso. É dar conta de dor, de impotência. É certo – pode ser certo – que, às vezes, o tempo não existe. Falta-nos, não há. Se for só para acabar de pintar a cave ou para dar forma definitiva a um texto de blogue ou para ler aquele livro que queríamos mesmo ler, ainda é como o outro… Que nos falte, não há problema. Mas pode-se, aos 28 anos, por exemplo, não ter já tempo para nada a não ser sofrer dores e a angústia da morte iminente. Um mês mais, mais seis meses? Uma vez, ouvi alguém desimportantizar um anúncio de morte: “Morte anunciada, como na crónica do outro, o que é isso?” A morte, dizia essa pessoa, é-nos anunciada a todos em criança. É uma afirmação insuportavelmente cruel para aqueles a quem tenha sido anunciado que não lhes resta já muito tempo. E é assim também, não é?, a asserção ligeira de que “o tempo, isso não existe, nós é que o fazemos, o tempo”, para uma pessoa que não pode fazer – nem desfazer – tempo nenhum...


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* Esta explicação que Einstein deu da relatividade mostra que nem ele a consegue explicar de maneira simples – é que esta explicação não explica nada, convenhamos… (Mas desta vez, é mesmo dele, vá lá, são referidas em três obras formulações ligeiramente diferentes da mesma ideia: James B. Simpson:1957; William Hermanns:1983; Alice Calaprice: 2005)

19/09/14

[Sem palavras]


A morte – a nossa, a dos nossos, a de todos os outros – é aquilo que mais importa na vida e, por isso, aquilo de que mais importa falar; e é também aquilo de que nada importante se consegue dizer.

Quando chego ao fim da frase, duvido do que isto seja verdade para toda a gente. É preferível dizê-lo na primeira pessoa:
A morte é aquilo de que mais me importa falar e de que não sei dizer nada importante.

08/02/14

In memoriam

Não sei quem disse, mas ouvi algures: a morte é um lugar estranho. Não é nada. Bem que a gente se quer disso convencer, fazer dela sítio que, credo!, nunca pisamos, ou só pisamos em tempos que nunca nos hão de chegar, arrepio que só aos outros diz respeito. Mas a verdade, infelizmente tão fácil de comprovar, é que é ela o lugar dos nossos passos todos, quando percorremos contentamentos e morrinhas, rotinas públicas ou celebrações da nossa intimidade. A morte não é nenhum lugar estranho. É este lugar, pensem bem, onde nascemos e vamos vivendo, que conhecemos como a palma da mão. Bem vistas as coisas, o único lugar que conhecemos, não é? Que a morte se disfarce de lugar estranho é truque de cenografia. Não nos deixemos enganar por paisagens de papelão.
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A morte de cada um dos outros é uma das formas que toma a nossa morte, essa que nunca nos larga e que, como dizia António Joaquim Lança, que nela não cria, só morre quando um dia a vida morre. E quanto mais os outros fazem parte de nós, mais nossa é a morte deles, como todos sabem.

Morreu anteontem o meu amigo Tozé. Vocês não o conhecem e este texto é mais para mim que para vocês, nisso terão de me desculpar. Não poder ir ao funeral dos que lhes são queridos é um peso para quem tem as pessoas de quem gosta espalhadas por sítios distantes. É um peso não poder afrontar de perto a materialidade da morte, deixar os nossos mortos por enterrar, saber só de longe – sem o ter sentido, na mais primordial aceção da palavra – que o coração lhes parou. Deixá-los assim, vagos, a pairar em nós.

Já aqui falei do Tozé, quando falei da Floresta de Oma…
(… Foi viver lá para casa um amigo meu com quem eu acabava de retomar um contacto perdido durante muitos anos, e passávamos muitos serões à conversa. Era um prazer ouvi-lo: contava histórias interessantes das muitas viagens que tinha feito e tinha muitas vezes propostas de novas viagens, umas mais exequíveis do que as outras… Foi ele quem me propôs fazermos uma viagem ao País Basco, perto de Guernica, para irmos ver uma floresta mágica. A viagem mais simples e mais barata das muitas que propôs: “É um floresta pintada. Quer dizer, a floresta é a própria pintura. Há quem pinte em papel, há quem pinte em tela, há quem pinte murais e este tipo, olha…, pinta florestas! Não é pintar uma árvore aqui e outra ali, não é isso – a pintura é a floresta toda!” Não sei se me disse o nome do pintor, mas, se mo disse, nunca o fixei. A ideia era boa e combinámos mais de uma vez datas concretas para a viagem, mas, já não sei por quê, acabámos por nunca ir.)
…e falei dele no post anterior.
(Um dia, um amigo, certamente tão progressista e tão livre-pensador como eu acreditava ser, mostrou-me um lado óbvio da questão que eu, não sei porquê, nunca tinha querido ou nunca tinha podido ver: nenhuma morte diz respeito apenas a quem morre. Quem se suicida age sobre os outros que cá ficam. Ao meu amigo, interessava sobretudo a forma como o suicida age sobre os que lhe são próximos. Que direito tem alguém de tirar um familiar aos seus familiares, um amigo aos seus amigos? “Claro, se uma pessoa não tiver ninguém que a ame ou que precise dela, é diferente”, dizia-me o meu amigo. E eu comecei a rever a minha posição sobre o suicídio.)
E gostava agora de saber fazer um obituário regular, mas mais bonito que os obituários regulares, a contar o Tozé, vida e alma, mas sinto-me tão incapaz nessa tarefa…

Entre muitas outras coisas, o Tozé deixou-me Gary Snyder, João da Cruz e Van Morrison e homenageio com eles o meu amigo que vocês não conhecem:
ele sabia o que tem de se saber para ser poeta
(… os seis sentidos que temos, com a mente atenta e elegante … sonhos. os ilusórios demónios e os ilusórios deuses resplandecentes … e depois amar o humano: mulheres maridos e amigos … exaustão, fome, repouso. fome, repouso. … a iluminação solitária e silenciosa … o verdadeiro perigo. apostas. e o limiar da morte);
sabia mais que saber apenas
(Estaba tão embebido, / tão absorto e alheado, / que ficou o meu sentido / de todo sentir privado / e o espírito dotado / de entender não entendendo, / toda a ciência transcendendo);
e sabia bem que no amor se renasce.



E foi espalhando à sua volta isso que sabia. Ensinou-me que a vida é essencialmente sofrimento e que é dessa constatação que devemos partir para a tentar melhorar. E dói-me muito que tenha morrido.

24/09/13

Dança macabra

Zigue e zigue e zigue, mas que sarabanda! / São rodas de mortos que se dão a mão! / Zigue e zigue e zague, vejam: aqui anda / Aos pulos o rei, junto do vilão! // Mas ei-los que fogem, todos, de repente, / Que já canta o galo, surge a claridade / Que noite de festa foi p’ra toda a gente! / Viva a morte, pois, viva a igualdade!
É uma tradução muito livre, para conservar ritmo e rima, das duas quadras finais de um poema de Henri Cazalis chamado “Égalité-Fraternité”, incluído em L’Illusion, de 1875*. Foi este texto que inspirou o poema sinfónico Danse Macabre, de Camille Saint-Saëns.

Não nos surpreende o remate do texto, pois não? A impressão que tenho, sem ter investigado muito o assunto, é que a ideia da morte como instituidora de igualdade é bastante comum. É perante a morte, como perante a divindade, que somos todos iguais. Consolo pouco, dirão alguns, se alguma vez o chegou a ser... Mas ideia forte – e imagem forte, também.

*
 Há uma frase de Søren Kierkegaard que, à primeira vista, parece desviar-se um pouco dessa ideia:
Mesmo em plena contemplação grave da morte, pode sorrir-se, não da igualdade de todos, mas de haver, apesar dela, diferença.
Lembro-me de que, quando conheci a frase, a interpretei como uma valorização radical da diferença: É assim a vida: às vezes nem a morte, senhor Cazalis, nos faz iguais… Costumava passear pelo Assistens Kirkegård, o mais bonito cemitério de Copenhaga, e às vezes ficava um bocado parado em frente ao jazigo da família Kierkegaard, onde o filósofo Søren se encontra sepultado. Quando escreveu isto, pensei eu, Kierkegaard não imaginava que, naquele mesmo cemitério, um dia o viriam ver turistas, estudantes e toda a classe de gente – a ele, um desconhecido famoso, de que as pessoas sabem sobretudo (é o meu caso…) que foi filósofo e que, olha, a campa dele é ali. E ele, contemplando agora a morte do lado de lá, era bem capaz de achar graça não a sermos todos iguais a ele, mas a considerarmo-lo diferente.

Mas foi porque conheci a frase descontextualizada. A verdade é que também Kierkegaard realça o papel igualizador da morte. A frase é de um texto, “No cemitério”, de 1845, em que Kierkegaard fala de passear de manhã pelo Assistens Kirkegård, precisamente, e da constatação trivial de que, nas campas, há ainda vestígios das diferenças que houve em vida entre quem as ocupa, mas diferenças que a morte reduziu a mesmo muito pouco – a meio metro, um metro que seja**...

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Não sei se sabem, mas Kierkegaard significa “cemitério” em dinamarquês. É uma grafia antiga da palavra, que se escreve atualmente kirkegård. E o significado do nome do escritor introduz muitas vezes jogos curiosos nos textos sobre ele, sobretudo se falarem de reflexões, diante da sua campa, sobre textos que ele escreveu sobre cemitérios…

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* Zig et zig et zag, la mort en cadence / Frappant une tombe avec son talon, / La mort à minuit joue un air de danse, / Zig et zig et zag, sur son violon. // Le vent d'hiver souffle, et la nuit est sombre, / Des gémissements sortent des tilleuls ; / Les squelettes blancs vont à travers l'ombre / Courant et sautant sous leurs grands linceuls, // Zig et zig et zag, chacun se trémousse, / On entend claquer les os des danseurs, / Un couple lascif s'assoit sur la mousse / Comme pour goûter d'anciennes douceurs. // Zig et zig et zag, la mort continue / De racler sans fin son aigre instrument. / Un voile est tombé ! La danseuse est nue ! / Son danseur la serre amoureusement. // La dame est, dit-on, marquise ou baronne. / Et le vert galant un pauvre charron – / Horreur ! Et voilà qu'elle s'abandonne / Comme si le rustre était un baron ! // Zig et zig et zig, quelle sarabande! / Quels cercles de morts se donnant la main ! / Zig et zig et zag, on voit dans la bande / Le roi gambader auprès du vilain! // Mais psit ! tout à coup on quitte la ronde, / On se pousse, on fuit, le coq a chanté / Oh ! La belle nuit pour le pauvre monde ! / Et vive la mort et l'égalité !

** Kierkegaard usa a medida escandinava alen, de cerca de 60 cm, que não sei como se traduz para outras línguas. Provavelmente, não se traduz: não há palavra, quando não há a coisa...