12 de março de 2009

De colinas e terras chãs: pesa mais o mau do que o bom

1. Quem se interesse por atletismo ou simplesmente goste de correr é capaz de já se ter perguntado a si mesmo: é a mesma coisa correr uma determinada distância num percurso plano e num percurso com subidas e descidas? À primeira vista, pode parecer que, se a partida e a chegada estiverem ao mesmo nível, o resto é capaz de não fazer grande diferença, porque, se as subidas nos esforçam e nos atrasam, as descidas repousam-nos e dão-nos maior velocidade, e são assim bem capazes de compensar as subidas. Na realidade, porém, não é assim que as coisas se passam: fazem-se sempre melhores tempos em percursos planos, precisamente porque uma descida não compensa o esforço despendido e o tempo perdido na subida que lhe corresponde (para uma explicação mais detalhada do fenómeno ver “Hit the hills”, um artigo de Trevor Smith no site da American Running Association).

Não que eu queira encontrar nos estudos de motricidade humana confirmação de uma especulação filosófica, não é isso, mas acho que temos aqui uma boa metáfora da vida da gente. O que eu tenho muitas vezes pensado é que os altos e baixos da vida são exactamente como os altos e baixos da estrada: o negativo pesa sempre mais do que o positivo. Em Outubro de 2002 escrevi, a propósito da morte de um colega, um poema chamado “Poema de Inverno # 7, sem título absolutamente nenhum”:

Isto não é assim – as alegrias
não servem para anular
tristezas, para as compensar.
Não – as penas vêm só aumentar

uma tristeza única que há,
a de estar vivo, aquela
que nenhuma alegria cancela:

mil nascimentos não apagam
uma única morte; mil beijos

apaixonados não compensam
nenhuma pena de amar; e mil risos
cúmplices não anulam nunca

um minuto só que seja
de verdadeira solidão.

Exagero, em busca de efeito literário? É possível. Mas talvez não…

2. Compreendo bem, sinceramente, quem ache que a melhor maneira de viver a vida é escolher sempre as planícies e evitar todo o tipo de colinas. O louvor da regra e mesura, da repressão dos sentimentos efusivos e de toda a classe de excitações como receita para uma vida melhor é uma ideia muito forte em muitas tradições e em muitos períodos da nossa história, mas nós, românticos que somos todos, desabituámo-nos de ter esse ensinamento em conta no momento de fazer escolhas. Interiorizámos antes que plano é chato, prato que não nos serve. Fomos antes programados para valorizar a montanha russa, o dar livre curso ao entusiasmo, nem que com plena consciência de que há-de ser dura a ressaca.

Não faço propostas, longe de mim… Não vou aqui louvar nem a medida nem a paixão. Queria só chamar a atenção para um facto simples. É provável que, com algum treino, possamos condicionar-nos a nós próprios, em maior ou menor grau, para a escolha do comedimento, da temperança tanto nas acções como no próprio sentir; mas temos de reconhecer que muitos dos altos e baixos da vida nos vêm de acontecimentos nos quais não intervém a nossa disciplina mental. As mortes dos outros, por exemplo, como lembra o poemazito lá atrás, e muitos mais... A mesura, louvável que possa ser, não chega para tornar plano o percurso de vida. Para terraplenar a estrada é necessário ir muito mais longe e deitar fora todos os laços, todos os sentimentos – e todo o raciocínio… Mas isso, mesmo que se queira, não se consegue, pois não?

Sem comentários: