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26/07/25

O que hoje mal dito está, amanhã regra será

Hoje de manhã, topei por acaso com um provérbio que não conhecia,

Aurora ruiva, ou vento ou chuva, também com a variante Manhã ruiva ou vento ou chuva.

E pensei assim: é claro que há provérbios com rima toante, como, por exemplo, outro provérbio que eu conheço, que diz o mesmo que este:

Céu vermelho de madrugada, marinheiro põe-te em guarda. 

Mas também pode ser que o provérbio seja uma tradução do castelhano, em que teria rima perfeita (B e V pronunciam-se da mesma forma em castelhano): 

Manãna rubia, viento o lluvia.

Ou então, hipótese mais improvável, o provérbio é tão antigo que, quando ele surgiu, ruiva e chuva ainda tinham a mesma forma no romance do que é hoje Portugal — porque muito provavelmente a tiveram…

E uma busca na internet revelou que existe de facto um provérbio espanhol que coincide com a minha hipótese, apenas com uma palavra diferente da minha tradução: 

Alba rubia, viento o lluvia. 

Fiquei muito satisfeito com a minha perspicácia, é claro, mas continuei sem resposta: o provérbio português tanto pode ser uma importação do castelhano como podem ter ambos uma origem romance comum…

Metáteses em português e castelhano

Os pensamentos são como as cerejas e isto levou-me à questão das metáteses em português e castelhano. Fiz há coisa de 25 anos uma lista bastante longa e, creio eu, bastante completa também, de diferenças sistemáticas entre o castelhano e o português[1]. Um dos tópicos dessas diferenças são as palavras que sofreram metáteses numa das línguas, mas não na outra.

Metátese, então. Peço desculpa pelo palavrão e eis a sua definição: chama-se assim à permuta de dois sons de uma palavra, como quando se diz *dentrífico em vez dentífrico[2]. Se a metátese for entre dois sons consecutivos, como em *dromir por dormir, chama-se uma interversão.

Este processo é tão frequente que existe em todas as línguas que conheço — e, ao que tenho visto, também nas línguas que não conheço. Agora, é interessante constatar que uma metátese que em determinada altura é considerada erro, como o são agora *dromir ou *dentrífico, pode mais tarde passar a ser a forma correta, como veremos adiante; e que, em duas línguas tão próximas como o português e o castelhano, não coincidem as metáteses tornadas norma, o que, nalguns (raros) casos, faz com que os falantes de uma das línguas achem divertida a palavra na outra língua. Por exemplo:

*Preguntar, em vez de perguntar, é erro em português[3]; mas em castelhano é ao contrário, preguntar é a forma considerada correta — e nem sei se alguém diz *perguntar em castelhano, nunca tal ouvi. Como a forma etimológica é percontāri,  foi em castelhano que vingou a troca de sons, o português segue o étimo sem permutações.


O mesmo em cocodrilo, que vem do grego krokodilos pelo latim crocodilu-: em português, não houve metátese, em espanhol, sim. E cocodrilo faz-nos sorrir.

Morcego é uma terceira palavra que em português evoluiu direitinha, se se pode dizer assim, ao passo que em castelhano sofreu trocas de sons internas. O desgraçado do morcego não tem nome próprio em várias línguas, é só um rato careca em francês (chauve-souris), um rato esvoaçante em dinamarquês (flagermus), um rato cego em português e galego (mur(is) caecu(s) deu morcego), e um rato ceguinho em castelhano: mur(is) caecŭlu(s) deu murciégalo, que já foi a palavra normal e está hoje caída em desuso, tendo sido substituída pela forma com metátese, murciélago. Ganhou o erro de antigamente, que por isso deixou de ser erro…

Quem achar estranho que uma pronúncia errada se tenha tornando forma correta, não deve ficar a rir-se do castelhano, já que o português tem muito mais formas destas que aquela língua. Eis, por ordem alfabética, uma lista que não se pretende de forma alguma exaustiva, de palavras portuguesas que incluem metátese na sua evolução, comparando com o castelhano quando possível:

Aipo, do latim apiu-, «devia» ser *ápio, como é em castelhano (apio);

A palavra caranguejo vem do castelhano cangrejo, que por sua vez vem do latim cancricŭlu-[4], e, ao entrar no português, sofreu uma metátese (dizem alguns que por influência de carango, mas não sei…) que a deixou como a conhecemos...

Disfarçar, que vem do castelhano antigo desfrazar, seria, sem a interversão, *disfraçar, igual ao castelhano atual disfrazar, mas nós trocámos os sons à palavra.

Freguês vem de filĭus eclesiae, «filho da igreja» e, se não tivesse vingado a forma «mal pronunciada, seria *fegrês (ainda se vê feegrês em galego-português), depois de uma longa evolução que, em castelhano, não sofreu metátese: diz-se feligrés.

Gaiv%C3%A3o
Gaivão, esq. e gavião, dir. Wikimedia Commons, daqui e daqui.
Caso curioso é o de gaivota, que devia ser *gaviota, como é em castelhano, porque vem do latim gavia-, mas nós trocamos-lhe os sons, como trocámos também ao gaivão, aliás, mas não ao gavião. Evidentemente, a metátese permitiu-nos, neste caso, distinguir dois animais muitos diferentes a partir de um mesmo termo romance... 

O geolho antigo, derivado diretamente do latim genuculu-, transformou-se, por metátese, em joelho e a forma deformada[5] pegou. O castelhano hinojo, que corresponde diretamente a geolho (por estranho que isso possa parecer a quem não conheça a história do castelhano), evoluiu sem trocas do lugar dos sons dentro da palavra.

Também jogral devia, pela lógica etimológica, ser *joglar como em castelhano, já que vem do francês antigo jouglere, mas em português veio a metátese trocar-lhe os sons.

Por fim, não fossem as interversões, raiva e ruivo também seriam *rávia e *rúvio, como são em castelhano, porque é isso que decorre naturalmente dos étimos latinos rabia- e rubeu-. Mas não, trocámos-lhe a ordem dos sons.

E depois, há casos de metáteses comuns aos dois idiomas, como a palavra palavra[5] (palabra em castelhano), que vem de parabola- e seria pois, sem a troca de sons, *parabla ou *paraula ou algo assim, com um /r/ na sílaba central e um /l/ na última sílaba. O português (não o castelhano) tem outra palavra da mesma família, palrar (do latim parolare) também com /r/ e /l/ trocados relativamente ao étimo.

Quanto a formas de origem discutida, temos noiva, que é novia em castelhano, e carapaça, que é caparazón em castelhano — mas não me atrevo nestes casos a dizer onde houve metátese…

Conclusão: não acredito muito que *auga, *metereologia e *protanto tenham grandes possibilidades de algum dia vir a ser as formais normais em português, mas é bom lembrar-se que não são solecismos maiores do que já o foram disfarce ou joelho.

O meu pecado pessoal é o metoprolol. É um termo que uso na minha vida profissional e engano-me sempre a pronunciá-lo: a reboque de metrópole, acho eu, digo *metropolol. Os sons /l/ e /r/ parecem ser muitos suscetíveis de troca, e mais ainda se alguma parte da palavra nos remete para outra palavra com a sequência de sons trocada. Às vezes, é curioso é a abundância de uma determinada sequência de sons que provoca a metátese: acho que ninguém diz trigue por tigre a não ser na proximidade de outros tri-: três tristes trigues, não é verdade?

Reptile003dCrocodilo tornou-se cocodrilo em castelhano, mas não *corcodilo nem *cocordilo. Porquê? Deve haver algo nesta sequência concreta de sons, neste contexto fonético específico e/ou na estrutura fonética do castelhano em geral, que a torne de alguma forma preferível, ou «mais natural», ao ouvido dos falantes. Mas o quê?

Não tenho a certeza de ter ouvido alguma metátese de crocodilo em português. Talvez *corcodilo, que me parece a mais «natural» na nossa língua...



P. S.: Já agora, de bónus: metáteses em francês e inglês

O francês também tem algumas palavras cuja forma atual resulta de metáteses. Eis algumas delas:

Brebis, «ovelha», já foi berbis, o que é natural, dado que vem do latim berbex; mas depois o /r/ e o /e/ trocaram de lugar.

A forma atual espadrille, «alpercata de sola de corda», é uma metátese de espardille, que vem do occitano espardilhos, de espart, «esparto», porque se trata, precisamente, de sapatos com sola de esparto.

Farouche, «bravo, arisco», vem do latim forasticus, que deu primeiro fourache. Este termo sofreu depois uma surpreendente metátese: o /a/ e /u/, em sílabas diferentes, trocaram de lugar.

Fromage, «queijo», devia ser – e já foi – formage, porque vem de formaticu- (o queijo é feito em formas).

Gourmet, «gastrónomo, apreciador de boa comida», vem de gromet, termo antigo para designar o criado responsável pelo vinho, e a interversão de /r/ e da vogal contígua deve ter sido influenciada pela palavra gourmand, guloso, que também tem a ver com comes e bebes, mas não tem relação etimológica nenhuma com gromet.

Moelle, «tutano», vem duma metátese de meolle, que vem, por sua vez, do latim medulla- (parente muito chegada, portanto, do português miolo, que tem a mesma origem).

Moustique, «mosquito», vem do espanhol mosquito, mas com troca de lugar dos sons /k/ e /t/.

Tirando isso, são apontadas como metáteses correntes *aréoport por aéroport; *astériks por astérisque (e que seria da escola franco-belga de banda desenhada sem esta interversão?); *génicologue por gynécologue, talvez com influência de génital e afins; *infractus por infarctus, talvez por influência de fracture; e *rénumeré por rémunéré, provavelmente por influência de numéro — entre muitas outras…


Em inglês, há também umas quantas palavras atuais que resultam de trocas de sons passados, que, de erro, passaram a norma. Por exemplo:

Bird vem do antigo bridd, de origem desconhecida, que significava um passarinho jovem.

Nostril, «narina, vem do inglês antigo nosþyrl ou nosðirl, composto de nos(u), «nariz», e þyrel «buraco», mas o /r/ e o /i/ trocaram depois de lugar.

Third, «terceiro», também tinha o /r/ e o /i/ em posições invertidas, que são as etimológicas e correspondem às das outras línguas próximas: dizia-se thrid e a transformação em third atesta-se desde o fim do séc. X. As duas formas coexistem até ao séc. XVI, mas a forma trocada acaba por vencer. Verifica-se o mesmo fenómeno em thirty, «trinta»: atesta-se, desde o fim do séc XIV, a transformação do thriti original em thirti.

Wasp, «vespa», era wæps em inglês antigo, mas depois os sons /p/ e /s/ trocaram de lugar, talvez por influência do latim vespa.

E fico por aqui, que já vai longo o post scriptum...

_______________

[1] É um trabalho útil para quem aprenda uma das línguas, mas o formato de blogue presta-se mal à sua publicação, de maneira que nunca aqui o pus. Se alguém quiser esta lista, pode contactar-me e enviar-lha-ei por e-mail.   

[2] Assinalo com um asterisco grande e vermelho as formas produzidas por falantes nativos, mas consideradas incorretas pela norma culta. Os asteriscos negros e pequenos indicam formas que nunca vi nem ouvi.

[3] *Preguntar é considerado erro na escrita e no português falado no Brasil. Em Portugal, a diferença entre perguntar e *preguntar não se ouve em português moderno falado a velocidade normal, porque o /e/ desparece, venha antes ou depois do /r/.

[4] Se viesse diretamente do latim, a forma portuguesa seria em princípio *cancrelho ou *cangrelho.

[5] É mesmo para ser assim: «forma deformada», «palavra palavra», não é deslize, é estilo brincalhão, se bem que, como vocês com toda a razão pensam, de gosto bastante duvidoso...

11/06/25

Duas notas sobre tradução, mais ou menos a propósito do conto «Guayaquil», de Jorge Luis Borges

 

Mais ou menos a propósito do conto de Borges, digo eu. Bom, na realidade, nestas duas notas falo sobretudo da tradução de duas passagens do conto: um excerto de um verso de António Machado citado pelo narrador do conto e uma expressão francesa que aparece duas vezes. 

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Guayaquil é a maior cidade do Equador e foi lá que, a 26 e 27 de julho de 1822, se deu, entre José de San Martín e Simón Bolívar, um encontro tão famoso como misterioso (já que dele não se conhecem pormenores) em que (diz Borges no conto) «o general San Martín renunciou à mera ambição e deixou o destino da América nas mãos de Bolívar».

O conto é sobre outro encontro, este entre dois historiadores: o narrador, argentino e não nomeado, e Eduardo Zimmermann, judeu checo fugido do Terceiro Reich e naturalizado argentino. O enredo, se é que de enredo se pode falar, é que teriam sido descobertas algumas cartas de Simón Bolívar, numa das quais «o Libertador dá detalhes sobre a sua entrevista com o general San Martín», e Zimmermann convence o narrador, que fora encarregado de transcrever e prologar a edição das cartas na Argentina, que é ele, Zimmerman, que o deve fazer. 

Se qualquer resumo de um conto é crime, este ainda mais, por omitir tudo o que de facto nele interessa. Espero, pelo menos, que, se não o conhecem, fiquem com vontade de o ler. Aconselho-vos a leitura do original em castelhano (aqui ou aqui), que não vos deve ser difícil — de preferência, antes de lerem o resto deste texto. É um conto breve, não chega a 2.500 palavras.  


1. Torpe aliño indumentario: um tipo especial de localização

Palavra puxa palavra, é bem verdade; e mais ainda se se fala de Jorge Luis Borges e das palavras que ele puxa com as suas palavras. Neste caso, as palavras de Antonio Machado. Diz o narrador do conto, ao descrever a personagem Eduardo Zimmermann:  

Soy poco o nada observador, pero recuerdo lo que cierto poeta ha llamado, con fealdad que corresponde a lo que define, su torpe aliño indumentario. 

A passagem citada chamou-me atenção, como me chamou a atenção a maneira como o narrador do conto a qualificava: é elogio dizer que uma descrição feia se adequa ao descrito? Descobri em segundos, na Internet, que era António Machado o citado, e mais concretamente o seu poema «Retrato», de 1912 (que podem ler aqui). É, ao que vejo, um poema conhecido; e eu, vejam lá, que gosto de Machado e o li bastante, não me lembrava dele…  

Na mesma busca, surgiu-me também uma curiosa discussão no fórum da WordReference.com. Perguntava alguém, referindo uma passagem de Un Milagro En Equilibrio, de Lucia Etxebarria, como poderia traduzir para inglês aliño indumentario.  

Lucia Etxebarria, ao contrario de Borges, cita diretamente Machado. A passagem é a seguinte: 

El tipo en cuestión llevaba una pinta que llamaba la atención incluso en aquel bar donde hasta el más extravagante aliño indumentario (que diría Machado) resultaba poco vistoso habida cuenta de la infinidad de crestas, pelos de colores, piercings, peinados rastas, minifaldas cinturón, maxifaldas jipiosas, pantalones de comando y monos de pintor que por allí se veían.  

Alguns utentes do fórum sugerem traduções para aliño indumentario: «clothing» ou «apparel», por exemplo. E torna o inquiridor:   

Então a minha pregunta é se a expressão aliño indumentario é algo que, para os espanhóis, imediatamente evoca Machado. Se foi ele o único, ou quase o único, a usá-la, não se pode traduzir apenas como «clothing», porque clothing é uma palavra comum, e não se compreende a referência «(que diría Machado)»…  

Tem, evidentemente, toda a razão. Não é uma simples questão de tradução, trata-se antes de tentar dar a entender uma determinada relação cultural com uma expressão. Das vezes que se me deparou esse problema na minha atividade de tradutor, sempre o tentei resolver da forma proposta por outro membro do fórum:  

O que eu faria seria procurar a tradução do poema de Machado «Retrato», conhecido [em inglês] como «Self-portrait».  

Procurando a frase «ya conocéis mi torpe aliño indumentario», vejo que se traduz como «my poor accoutrement» (Juan Ribó Chalmeta e Irina Urumova), «my rough and ready style of dress» (Patrick H. Sheerin), «my slovenly apparel» (A Z Foreman), «my plain, almost monkish dress» (K Dick), etc.  

Depois, é escolher uma das traduções, de preferência de uma edição não muito obscura — e deixar claro algures (há edições que aguentam mal notas de rodapé…) onde se a foi buscar. 

«E então», pensei eu mais tarde, «como traduziria eu isto para português?» A tradução «torpe alinho indumentário», que encontro na internet, tem um problema: torpe não parece ter, em português, a ideia de «tosco, rude, feio», que tem em castelhano. Mas rude e tosco, precisamente, ficam bem ao lado de alinho indumentário; e mantém-se o ritmo e pouco se altera a sonoridade do original. Que vos parece? 


2. «Mon siège est fait»: das camadas de significado do uso de um provérbio já desusado 

A 26 de junho de 2022, o jornal em linha Infobae publicava um artigo de Patricio Zunini sobre o conto de Borges: «Borges y la Historia: el cuento sobre Guayaquil que tardó 17 años en escribir», que vos aconselho. O artigo, de resto muito interessante, na minha opinião, sofre de um pequeno deslize. Em «Guayaquil», aparece uma vez a frase Votre siège est fait, dita por Zimmerman ao narrador, e como última frase do conto, Mon siège est fait, pensada pelo narrador. E esta última frase é traduzida no artigo como «Mi asedio está hecho». É uma tradução que encaixa muito bem na sensata interpretação do conto que Zunini faz e que, por isso, não se pode dizer que esteja errada... Mas não é isso que a frase quer dizer.  

Qualquer dicionário razoável vos confirmará que asedio é uma das muitas palavras que podem traduzir siège para o castelhano. Em português, siège, com o significado militar de asedio em espanhol, diz-se «cerco». Mas siège também pode ser «assento; banco» (por exemplo, de um carro ou de um comboio, mas não só), pode ser «sede» (de uma instituição ou empresa, etc.), pode ser «lugar; mandato» (por exemplo, de um partido num parlamento), pode ser «centro» (por exemplo, se se diz algo como «o cerebelo é o centro da coordenação do movimento»), pode às vezes ser «Sé» (em, por exemplo, a Sé Episcopal ou a Santa Sé), e pode até ser «nádegas», em contextos muito formais... Pelo menos! — porque siège ainda tem mais significados...  

Mas mon siège est fait não é uma frase criada por Borges, é uma expressão fixa. De facto, é uma frase célebre que se tornou uma expressão fixa. Atualmente praticamente caída em desuso (ah, as antiguidades de Borges...), a expressão significa de facto «a minha opinião está formada e não a alterarei».  

Não deixa de ser verdade, porém, que o siège de mon siège est fait refere originalmente um cerco a uma cidade. O historiador René Aubert de Vertot, conhecido como Abade de Vertot, escreveu, entre outras obras, uma História dos Cavaleiros Hospitalários de S. João de Jerusalém, depois chamados Cavaleiros de Rodes e hoje Cavaleiros de Malta, que foi publicada em 1726. Conta-se que, quando lhe quiseram apresentar documentos novos sobre o cerco de Rodes pelos Otomanos, se recusou a tê-los em conta e a rever a sua versão desse cerco em função da nova informação. «O meu cerco está feito», teria respondido. E a sua frase passou a significar inflexível teimosia. (No fundo, concordarão, não há nada de muito extraordinário na atitude de Vertot, que é, infelizmente, mais comum que a atitude contrária de predisposição a mudar de opinião perante dados factuais ou bons argumentos…) 

Agora, no caso concreto do conto de Borges, a frase de Vertot ganha uma dimensão especial: não apenas porque é um historiador que a diz de outro historiador que acaba por assumi-la, dizendo-a ele próprio, mas também porque um elemento central do conto é, precisamente, o surgimento de um novo documento sobre um episódio histórico. O melhor, neste caso, é mesmo nunca traduzir mon siège est fait, seja para que língua for. Nos textos de Borges, há muitas vezes um deslumbramento acrescido para quem conhecer — ou estiver disposto a pesquisar — as suas frequentes referências literárias, filosóficas, históricas, etc. Pelos vistos, o significado e a história desta expressão francesa fazem parte dos conhecimentos pressupostos no seu leitor ideal.  



Todas as traduções do castelhano são minhas.
Imagem: Estátua de Bolívar e San Martín no Hemiciclo de la Rotonda, em Guayaquil (foto de iam luisao, de utilização livre, daqui). Curiosamente, a estátua deste dois chefes do movimento independentista sul-americano é de um escultor espanhol, José Antonio Homs.

06/05/25

Vivement la retraite !


Não é que eu não goste do meu trabalho, não é isso… Mas, se os anos de vida que me restam passarem tão devagar como eu pressinto que hão de passar estes sete meses que restam até à reforma, terei então ainda muito tempo de vida... 

La_Motte-Chalancon_-_Fausse_plaque_avenue_de_la_retraite_tranquille_(mai_2022)
Foto de Sebleouf, licença Creative Commons, daqui.
«Avenida da Reforma Tranquila». Placa toponímica falsa, uma brincadeira.
Para quem não saiba francês, o «nome da comuna» lê-se como
 «j'ai bien bossé e j'en profite», 
que significa
«trabalhei muito e agora disfruto disso».
Vivement significa aqui «quem me dera já». Um dos exemplos do dicionário do CNRTL para este significado da palavra é precisamente o título deste breve apontamento (que lhe tinha já sido dado antes de o consultar). Isto deve significar que ansiar pela reforma não é um sentimento incomum, também entre os franceses.  

A retraite francesa é, para os portugueses, um conhecido «falso amigo», que é como se costuma chamar às palavras que, numa determinada língua, fazem lembrar palavras de outra língua (por serem cognatas ou por simples coincidência), mas significam coisas diferentes. O que é curioso é que retrete é de facto a palavra francesa, apenas com a grafia adaptada, que foi importadas para as línguas ibéricas e que ganhou aí, vá lá saber-se porquê, um sentido específico que não se lhe conhece em francês: o de sanita. A evolução é fácil de perceber: retraite significa «retirada» ou «retiro» (além de «reforma», como no título deste texto...); e, de um dos significados de «retiro», não o acontecimento mas o lugar onde este se dá, retrete fixou-se num lugar de retiro específico, tendo em seguida passado a significar um objeto central deste lugar. Duvido muito de que, em francês, retraite alguma vez tenha referido a casa de banho, e muito menos a sanita, porque o CNRTL, que costuma ser exaustivo nas suas entradas, dando também conta dos usos antigos, não o menciona. 



P. S.: O CNRTL classifica vivement apenas como advérbio. É-o seguramente, quanto à sua formação e a todos os seus outros usos, mas, neste que aqui trato, porta-se como uma forma verbal impessoal, com uma estrutura semelhante (que não o significado) a uma construção como «il faut», por exemplo, requerendo um objeto direto que, no caso de ser uma proposição, vem forçosamente no conjuntivo: Vivement qu'on en finisse ! Um advérbio, defina-se como se definir, não pode exigir objetos nem orações subordinadas, não é verdade? De maneira que definir categorias das palavras em abstrato, fora das frases em que são usadas, nem sempre funciona. Já agora: um caso curioso é também oxalá em português, galego e asturo-leonês ou ojalá em castelhano, que se consideram interjeições e que se portam como aquilo que de facto são, uma oração inteira – só que uma oração árabe, tomada de empréstimo e cristalizada nas línguas ibéricas, mas que continua a funcionar na frase como o que era originalmente. Outro caso curioso é eis, de que já aqui falei uma vez.  


27/04/25

Rimas poucas ou que não há: um texto em permanente atualização

 

Em francês, para se dizer de algo que é um disparate ou uma coisa sem sentido, pode dizer-se que «não rima com nada», ou então que é «sem rima nem razão». Agora, apesar de o francês ser uma língua em que é muito fácil rimar, tem, ainda assim, palavras que não rimam. 

Como não é tão fácil rimar em português como em francês, devia haver na nossa língua muitas mais palavras que não rimam com nenhumas outras palavras, ou seja, palavras que têm uma sequência de sons a partir da vogal da sílaba tónica que mais nenhuma palavra tem[1]. E é de facto o que acontece. Há muitas!!!; e são, na sua esmagadora maioria, esdrúxulas, uma coisa que não existe em francês[2]. É natural: se têm mais sons desde a tónica até ao fim da palavra, mais possibilidades há de não haver duas sequências de sons iguais.

E antão, que palavras não rimam com nenhumas outras? Vasco Castro Lima diz, em O Mundo Maravilhoso do Soneto, que «Mário de Alencar, em seu dicionário de consonâncias, revela que, em nossa língua, não encontrou rima para 146 palavras e locuções, inclusive nomes próprios. Ao que parece, a relação está incompleta, além do que não foi feita com o necessário cuidado». Pois bem, eu nem metade de 146 consigo encontrar. É certo que só há muito pouco tempo comecei a tomar nota delas. Com mais tempo — e a little help from my friends, que é como quem diz, os leitores deste blogue… —, talvez consiga fazer uma lista tão extensa como a de Mário de Alencar e, quem sabe, mais rigorosa.

Agora, não se faz uma lista assim sem uma importante decisão de base: o que conta como rima? Deve ou não aceitar-se como rima de uma palavra outra palavra dela composta por prefixação, aglutinação ou justaposição? Para dar exemplos, devem aceitar-se como rimas de célebre, côncavo e múltiplo as palavras palavra arquicélebre, recôncavo e submúltiplo? E aceita-se que estátua rima com homem-estátua ou púrpura com vermelho-púrpura? Parece fácil recusar estas últimas, por se considerar que as palavras estátua e púrpura mantêm a sua autonomia no composto; e talvez também arquicélebre, porque o elemento está disponível para juntar a quaisquer adjetivos como maneira de formar uma espécie de superlativo; mas os prefixos de recôncavo e submúltiplo são ou não um caso diferente, já que não se juntam com tanta facilidade a qualquer palavra? E casos como penúltima e antepenúltima como rima de última? E recâmara, antecâmara e sobrecâmara como rimas de câmara? E se as palavras que rimam com uma palavra relativamente comum, como bólide, forem apenas obscuros termos técnicos que ninguém conhece e que ninguém nunca usará para fazer um verso (que é aquilo para que as rimas normalmente servem…) como as rimas alcoólide, vacuólide ou hemifólide? E como avaliar se uma palavra é exclusiva de um jargão altamente especializado?

Bom, para já (para me facilitar a vida, sobretudo), não considero as rimas entre uma palavra e outras dela formadas com um prefixo, como nos exemplos do parágrafo anterior, nem palavras técnicas especializadíssimas. Para já, digo bem, talvez venha a rever ou afinar as regras. Ah, e assentemos também, já agora, numa regra de listagem: as palavras com flexão em género (masculino, feminino) e número (singular e plural) sem rima para nenhuma dessas formas são listadas no feminino singular, que é primeira forma por ordem alfabética; se for só a forma feminina que não tem rima, assiná-lo-ei.

Comecemos então pelas esdrúxulas, que são a maior parte, porque, como vimos, as rimas esdrúxulas são muito mais raras. N’Os Lusíadas, só para vos dar um exemplo (espero não me ter enganado a contar), nos 8 816 versos do poema, só 171 têm rimas esdrúxulas, ou seja, um pouco menos de 2% dos versos[3].

É claro, pode distinguir-se entre dois tipos de esdrúxulas: as que chamarei «verdadeiras esdrúxulas», com duas sílabas inegáveis depois da tónica, e as que chamarei «falsas esdrúxulas», que o são estruturalmente, mas que, na prática, são pronunciadas como graves, porque as duas últimas vogais são pronunciadas como um ditongo: prudência, história, mistério, perícia, etc. São muito mais abundantes as rimas com este segundo tipo de palavras. Voltando a’Os Lusíadas, só há nove versos que rimam com «verdadeiras» esdrúxulas. Tendo em conta que três deles são com rimas em -íssima e outros três com rimas em -íssimo, rimas em se faz rimar o sufixo flexional e que, por isso, são tão pobres que se podem quase considerar batota, só há três versos com rima esdrúxula «verdadeira», em que rimam válida, esquálida e pálida[4].

Até agora, encontrei 65 palavras esdrúxulas sem rima, algumas delas tão comuns que ninguém as suspeitaria assim, coitadas, abandonadas...: ápice, apólice, bárbara, bátega, bêbada, bêbeda, bólide, cálice, célebre, célere, cérebro, cócega, côncavo, cúspide, discípula (discípulo tem rima), ébano, efémero, êmbolo, esdrúxula, fátuo, féretro, fígado, fôlego, fórmula, gáspea, hélice, ímpeto, índigo, inépcia, lágrima, lâmpada, lêndea, lúbrica, lúgubre, máquina, mármore, máxima, máximo, múltipla, música, músico, náufrago, néscio, óbice, pândego (pândega tem rima, ver mais abaixo nas palavras só com uma rima), paralelepípedo, pássaro, pétala, pródiga (pródigo tem rima), príncipe, próxima, púlpito, púrpura, pústula, rômbico, rótulo, sábado, século, sólida, têmpera, tímido, tráfego, última, víbora, xícara e zéfiro.

Quanto às outras, só me consigo lembrar de 16: âmbar, cãibra, cinza, glúten, hífen, hímen, mescla, muita, muito, nuvem, órfã, quinze, sempre, sexta, sílex e simples. Mas também deve haver muitas mais. Agradecem-se contribuições, que acrescentarei logo às listas acima.

É de notar que é de sons e não de letras que se trata e que, por isso, pode haver casos em que uma rima pode depender da pronúncia do leitor. Por exemplo, em muitos sotaques de toda a lusofonia, mãe também é uma palavra sem rima — a não ser com o seu próprio diminutivo em português do Brasil, mamãe, uma rima também um pouco batota. Em português europeu standard, porém, mãe rima com todas as palavras terminadas em -em/ém tónico (bem, porém, contém, etc.), tal como -ães rima, naturalmente, com todos os -ens/éns tónicos (por exemplo, capitães ou pães com tens ou parabéns). No meu sotaque lisboeta, que é, neste aspeto desviante relativamente à norma, também rimam riu e rio, tio e partiu, etc., uma coisa que alguns acham muito divertida, outros muito feia…

Na tradição francesa, há por vezes «rima para o olho», quando as palavras que deviam rimar terminam com as mesmas letras, mas em que estas letras se pronunciam de forma diferente, como fusil, cujo L final não se pronuncia, e exil, cujo L final se pronuncia; ou seigneur, cujo R final se pronuncia e monsieur, cujo R final não se pronuncia. Nunca vi este artifício usado em português, mas, a usar-se, poderia resolver o problema de muita (muito, muitas, muitos), que não têm rima, por causa do ditongo nasal [ũj̃], que só ocorre nestas palavras, mas poderiam rimar «para o olho» com circuito e derivados (curto-circuito, etc.), fortuito, gratuito e intuito.

Como as palavras — e as rimas — são como as cerejas, quero aqui notar que algo que poderia corresponder um pouco à «rima para o olho» francesa é a tradição de pôr a rimar palavras com vogais tónicas de timbres diferentes, uma mais aberta que a outra, como em cometa e profeta, testa e cesta, logo e jogo; sedutora e demora, etc., às vezes apesar de diferenciadas pela grafia, como mês e dez, por exemplo. Se, em textos antigos, estas rimas podem dar indicações sobre pronúncias de outras épocas, a verdade é que elas hoje persistem, aceitando-se simplesmente que rimam palavras com vogais tónicas diferentes. Aliás, chega a parecer sofisticado que alguém distinga claramente as vogais de timbre «próximo», como por exemplo nesta quadra de Gabriel de Oliveira para o fado «Senhora do Monte»: Vai lá muita pecadora / Que de arrependida chora / Mas não é Nossa Senhora / Que naquela casa mora»

Outra palavra como muita que têm no meio um ditongo nasal único é cãibra, mas a esta não se lhe consegue arranjar rima «para o olho»...

E depois, há pares de palavras que só rimam entre si e com mais nenhumas. Encontrei 26 desses pares, alguns bastante curiosos, como escrúpulo e lúpulo, estúpida e cúpida, discípulo e manípulo, e lívido e vívido, mas há com certeza muitos mais[5]:

E depois, bem, há palavras com várias rimas sofisticadas e todas do mesmo tipo. Nuvem, por exemplo, só rima com formas de verbos acabados em -uvar, como enviúvem, enluvem e coadjuvem, por exemplo; ítem também só rima com formas verbais, mas rima com muitas (emitem, permitem, etc.). Se se pronunciar [íteme], porém, como às vezes se pronuncia, não rima com mais palavra nenhuma...

Também há palavras que só rimam com nomes próprios, como delével, que, além de rimar com a negação de si próprio, indelével, rima apenas com Pontével ou pícaro, que só rima com Ícaro. Já que falo de nomes, quero referir de passagem que os nomes Cristóvão e Estêvão têm também rimas tão incomuns como órfão ou órgão: só podem ser, respetivamente, formas de verbos em -ovar, como desovam, inovam ou provam e formas de verbos em -ever, como, por exemplo, atrevam, devam ou descrevam — que é o que usa Gabriel de Oliveira (é a segunda vez que aqui parece neste texto!) no fado «Igreja de Santo Estêvão»: «Na igreja de Santo Estêvão / Junto ao cruzeiro do adro / Houve em tempos guitarradas // Não há pincéis que descrevam / Aquele soberbo quadro / Dessas noites bem passadas».

Por fim, quero notar que pode haver rima de sequências de sons maiores que uma palavra: de uma palavra com mais que uma palavra, ou de sequências de palavras com outras sequências de palavras. Pode haver até holorrimas, rimas de versos inteiros, mas o fenómeno é tão raro em português que os dicionários nem registam o termo. Já aqui falei disso uma vez . Uma solução para fazer rimar palavras que não rimam com mais nenhuma palavra pode ser, precisamente, fazê-las rimar com mais que uma palavra. Mas isto também não é fácil. O poema «Berceuse das rimas riquíssimas», de Guilherme de Almeida, é um mostruário deste tipo de rimas .

Durma! A noite suave e grande
anda com passos de lã de
luar, de penugem de nuvem...
Durma! Em seu corpo alvo e nu vem
tocar as asas um ar de
jardins distantes... É tarde.
Durma à sombra dos meus olhos
como de uma árvore e molhe os
seus sonhos nas minhas lágrimas,
não esperando um milagre mas
sentindo que o mal e o bem são
uma única e mesma bênção...
Durma! E que a minha voz seja
uma voz que só você já
ouviu em sonhos: a voz que
a Adormecida do Bosque
nunca escutou no seu sono...
Durma! E sonhe que eu não sou no
mundo mais do que um silêncio:
este silêncio que vence o
meu corpo todo e brotou do
seu corpo e que o envolve todo...

Está quase perfeito. O truque de fazer rimar nuvem com «nu vem» quase funciona, mas vem é acentuado, ao contrário da última sílaba de nuvem. Tirando isso, a rima depende aqui muito da pronúncia do leitor. Em português europeu, muito dificilmente lágrimas rima com «milagre mas» e «bem são» com bênção; e seja nunca rima com «você já» (mesmo descontando a mudança de posição do acento tónico) e, nalguns dialetos, «brotou do» não rima com todo, nem «sou no» com sono.

E acho que por agora é tudo. Alguma coisa a gente tem de arranjar para fazer passar o tempo, não é verdade?

P.S.: Não conheço nenhum verdadeiro dicionário de rimas online. Há sites que se autodenominam assim, mas não o são de facto, mas antes ferramentas que organizam por terminação (escrita!) bases de dados com muitas palavras. Não dão conta da acentuação e misturam, por isso, palavras agudas e esdrúxulas (rótula e rotula) e terminações gráficas iguais com sons diferentes (léxico e México), além de que não mostram eventuais rimas com grafias diferentes (opiáceo e prefácio, por exemplo). Conhecendo as suas limitações e sabendo como lidar com eles, podem ser, porém, boas ferramentas. Creio que o melhor que experimentei é este.

__________________


[1] Rima é uma daquelas coisas que muitas pessoas sabem o que é, sem saberem ao certo como se define, mas a definição exata é precisamente «total coincidência de sons de duas palavras a partir da vogal tónica, inclusive». Quer dizer, isto de facto não é bem verdade: chama-se à rima como acabo de a definir rima consoante e há outra rima, chamada soante ou toante, em que coincidem só as vogais tónicas. É uma rima fácil demais, que não tem, a bem dizer, limites nenhuns, pelo que não interessa falar dela aqui….

[2] Esdrúxulas ou proparoxítonas são palavras com o acento na antepenúltima sílaba tónica. Em francês, as palavras têm sempre o acento tónico na última sílaba, a não ser quando terminam em E não acentuado — nesse caso têm o acento na penúltima. Não há, pois, esdrúxulas em francês. Já agora, uma curiosidade: como tenham talvez lido acima, a palavra esdrúxulo, nas suas variações em género e número, é precisamente uma palavra que não rima com mais nenhuma.

[3] Mais concretamente, há dois versos em -águas, -ânia, -égia, e -ópia; três versos em -álida, -éria, -íssima, -íssimo, -ónia, -ónios e -ório; quatro versos em -ábio; seis versos em -ária; oito versos em -ícia(s); nove versos em -ério(s); 11 versos em -ário(s); 20 versos em -ício(s); 38 versos em -ória(s); e 46 versos em -ência.

[4] Canto V, estrofe 39: «Não acabaua, quando ũa figura / Se nos mostra no ar, robusta & valida, / De disforme & grandíssima estatura; / O rosto carregado, a barba esqualida, / Os olhos encouados, & a postura / Medonha & maa, & a cor terrena & palida […]»

[5]  Eis aqui a lista de palavras só com uma rima (trabalho em permanente atualização): antitússico e prússico; arfam e garfam; autópsia e biópsia; bólido e sólido; câmara e tâmara; cisne e tisne; cítrico e nítrico; código e pródigo; escrúpulo e lúpulo, estirpe e extirpe; estúpida e cúpida; discípulo e manípulo; frígida e rígida (bom, há Brígida, mas isso…); hórrida e tórrida; húmida e túmida; lívido e vívido (lívida tem uma terceira rima, dívida); lápide e cápide (uma palavra rara. mas registada nos dicionários. que refere uma taça usada em sacrifícios e que fica, por isso, muito bem a rimar com lápide); mandíbula e fíbula; máscula e báscula; másculo e básculo (note-se que báscula e básculo são objetos muito diferentes...), nádega e tádega (uma bonita flor); órfão e morfam; órgão e outorgam; ósculo e flósculo (cada uma das florzinhas de um capítulo, que romântica rima!), pândega e alfândega, pênsil e estêncil (os dicionários registam assim, mas eu digo setêncil); público e repúblico (um estranho adjetivo que nunca vi nem ouvi, mas de significado transparente e que os dicionários acolhem); sólida e apólida (uma forma muito incomum de dizer «apátrida» que os dicionários registam); timbro e zimbro; trémula e gémula (outra palavra bastante desconhecida que os dicionários registam); úbere e púbere; e zangam e zângão.


23/04/25

De negativas não muito negativas

No aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, há uma escultura de Charles Pétillon chamada Le Phare, «O farol». De um dos lados da obra, há uma placa com uma frase que, presumo eu, o artista ali quis como complemento da escultura: A Paris, il n’y a pas d’heure pour rêver. Como muitos utentes do aeroporto não falam inglês, pode ler-se, por baixo desta frase, a sua tradução para inglês: In Paris, there is always time to dream.
A frase está, parece-me, bem traduzida. À primeira vista, porém, surpreendeu-me que, sendo todos os elementos que constituem as duas frases diretamente correspondentes, a francesa seja negativa e a inglesa não. Depois de refletir um bocadinho, dei-me conta de que são possíveis, em português, duas frases que correspondem, elemento por elemento, à frase francesa e à frase inglesa: «Em Paris, não há hora para sonhar» e «Em Paris, há sempre tempo para sonhar».
Dos muitos significados que hora pode ter, significa aqui – com a preposição para, note-se! – «tempo específico (para); momento destinado (a); período marcado (para)». Curiosamente, na lógica do português e do francês, «não há hora para sonhar» entende-se imediatamente como «pode sonhar-se a qualquer hora» e não como «não existe nenhum período para a ocorrência de sonho». O mesmo, por exemplo, em «não tenho hora para comer», que se compreende como «não como a uma hora certa» e não como «não tenho nenhum período em que coma». Ou seja, «não há hora para x» significa «x pode dar-se a qualquer hora» e não «x não ocorre em nenhuma hora».
Na frase inglesa, tempo significa de facto «tempo suficiente» ou «tempo livre, disponibilidade». Por muito que, como disse, me pareça bem a tradução, as duas frases não são de facto correspondentes: se as juntarmos (ou as proposições que lhes subjazem, seja, aqui «traduzidas» para português), vemos que a inglesa decorre da francesa, mas não ao contrário. Faz sentido a frase «em Paris, sonha-se a qualquer hora, porque há sempre tempo para tal», mas a frase «em Paris, há sempre tempo para sonhar, porque se sonha a qualquer hora» é de uma lógica muito duvidosa...
São duas as morais desta história: uma é que, ao contrário do que muita gente pretende, a língua tem uma lógica que lhe é própria, sem deixar de ser lógica; outra é que Paris tem sorte em se poder lá sonhar a qualquer hora, de lá haver sempre tempo para sonhar – porque há muitos lugares do mundo em que isso não acontece...

22/12/23

É guichê com ê ou é guiché com é?

[Neste texto, para facilitar a leitura a quem não esteja habituado ao alfabeto fonético, transcrevo  os sons [e] e [ɛ] (de lê e pé, respetivamente) e com a sua escrita em português standard, mas entre parênteses retos, [ê] e [é].] 

Em português europeu, tirando algumas raras exceções dialetais, estes dois sons não se confundem nunca em final absoluto de palavra: [ê] é [ê] e [é] é [é]. Em francês, existe também, em princípio, uma distinção entre estes dois sons. e também em final de palavra: em francês moderno standard — na pronúncia apresentada nos dicionários, por exemplo — o som [ê] em final de palavra pode escrever-se com -ai, -é, -ée, -er ou -ez e o som [é] pode escrever-se com -et (excetuando a palavra et), -ais e -ait. Há, porém, uma grande variação dialetal na pronúncia destes sons e, como tem frequentemente sido notado, a distinção entre os dois sons é, em geral, cada vez mais anulada, também em posição final. Sobretudo nos falares meridionais — mas não só — os dois sons são reduzidos a [ê].      

Achei que seria engraçado ver como é que passaram ao português as palavras francesas tomadas ao francês que terminam nestes dois sons. 

Pelo que constato à minha volta e pelo que vi em dois dicionários em linha, o da Porto Editora e o da Academia de Ciências de Lisboa, não há sempre uma pronúncia standardizada de todos estes empréstimos, nem quando «naturalizados» (a bold neste texto), nem quando usados em português como palavras estrangeiras[1](a bold e itálico). Para já, constata-se que estas palavras nem sempre se escrevem e dizem em português com o som standard do francês original.

Das palavras pronunciadas com [é] final em francês standard, há algumas que mantêm esse som em português: balé, bidé, boné, cabaré, cabriolé ou cabriolet, caché, carné, chalé, croché ou crochet, estaminé, gilé, gobelé ou gobelet, godé, guiché e relé; e outras que passaram a [ê]: brevê, buquê, bufê, gourmet e parquê ou parquet[2]. É de notar que os dicionários acolhem também as alternativas cachê, godê e guichê e que a formas brasileiras de bidé, carné e gilé são bidê, carnê e gilê.

Quanto às outras, que têm originalmente um [ê] final em francês, mantêm em português esse som as palavras ateliê ou atelier; attaché, blasé, cloisonné, cuchê ou couché, crupiê ou croupier, degradê ou dégradé, démodé, dossiê ou dossier, ecartê, evasê ou évasé, foyer, habitué(e), lamê, mêlée, négligé, palmiê ou palmier, panachê ou panaché, patê, pincenê ou pince-nez, rentrée, tabliê ou tablier— e clichê, consomê, cupê, rosê e suflê, de que estão também registadas as formas escritas e pronunciadas com [é], cliché, consomé, cupé, rosé e suflé; e passaram a [é]: cachené[3], canapé, fricassé, galé, glacé, ié-ié, libré, maré, matiné ou matinée, pilé, puré, soirée e turné ou tournée. De notar que as formas brasileiras de cachené, fricassé, glacé, matiné e turné conservam o som francês: cachenê, fricassê, glacê, matinê e turnê.  

Devo ter esquecido umas quantas palavras. Outras, como boldrié ou oboé, prefiro não as incluir nestas listas, porque vêm de formas francesas já desaparecidas[4]. Mas agora, o mais difícil: como se organiza esta confusão? Há alguma coisa na fonética das palavras que justifique a manutenção ou alteração da vogal original? Ou é a época em que se faz o empréstimo que o determina? Bom, não há conclusão ou, pelo menos, não sou capaz de lá chegar. Pode constatar-se que, apesar da real oscilação da pronúncia destes sons em francês atual, a maior parte das palavras importadas mantém a pronúncia do francês standard; e que o facto de não terem uma grafia aportuguesada parece não influenciar o respeito da pronúncia original. E, como a grafia influencia a pronúncia de palavras estrangeiras, acho provável que algumas palavras escritas com -é final em francês, pronunciado [ê], tenham passado a pronunciar-se com [é], por serem lidas como se fosse a grafia portuguesa — até porque a maior parte das palavras que, na importação, se afastam da pronúncia standard francesa são deste tipo. (Tirando isso, há uma palavra que mudou de género ao entrar no português — puré, que passou a ser masculino, mas isso é outra conversa.)

Sei também que há uma grande variação na pronúncia destas palavras em Portugal — e não só daquelas de que são apresentadas duas alternativas no dicionário —, mas não sei se essa variação é dialetal, socioletal ou geracional. Como as pronunciam os meus leitores? Como está nos dicionários ou doutra maneira? Ah, e já agora, porque foi da discussão desta palavra que o texto nasceu: dizem guichê ou guiché?



__________

[1] O dicionário da Academia de Ciências de Lisboa não tem transcrição fonética, mas o aportuguesamento dá-me indicação da pronúncia proposta para a maior parte das palavras. 

[2] Parqué também está registado, mas acho que nunca ouvi. Brevê, bufê e parquê têm também as formas brevete, bufete e parquete, em que se escrevem e pronunciam os tt da grafia francesa, não pronunciados na língua original. Isto poderia ser uma indicação de quando foram importadas estas palavras, já que estes tt se pronunciaram em francês até por volta do séc. XVII, mas não sei se a importação será assim tão antiga.

[3] Sempre ouvi cachené, tal como está dicionarizado, mas a forma cachenê pode ter coexistido com cachené também em Portugal. No fado “O chico do cachené”, de Fernando Farinha, cachené é pronunciado como se escreve e rima com é e pé; já no fado “Ai Chico Chico”, Amália Rodrigues pronuncia sempre cachenê. A palavra rima com vê no refrão, mas, curiosamente, numa das estrofes, devia rimar com Salomé e com banzé, o que acaba por não acontecer, porque Amália não altera a pronúncia... 

[4] O Porto Editora diz que boldrié vem de uma forma baldrier, correspondente ao atual baudrier, que não consigo encontrar no CNRTL. Está aí registada, porém, uma forma antiga documentada no séc. XIV, baldrei. Quanto a oboé, de haut-bois, vem do tempo em que o ditongo que se escreve  oi- e é atualmente pronunciado [uá] se pronunciava [ué].


19/01/23

Javanês e criptografia

 

Escrevia Aquilino Ribeiro, no seu prefácio ao Dicionário de Calão de Albino Lapa, que «o calão começou por ser uma linguagem de defesa do fraco contra o poderoso, do preso contra o carcereiro e algoz, do conspirador contra o juiz e o tirano. Que procurasse tornar-se criptográfica o mais possível, é lógico.» 

Há muitas maneiras de encriptar o que se diz, umas mais simples e outras mais complicadas, para se poder falar sem ser entendido. Normalmente, o calão usa um processo de substituição lexical: em vez de calças, diz-se galdos ou galdinas; em vez de porta diz-se drofa; em vez de ir-se embora, diz-se ir d’espiante; e assim sucessivamente, mas sem alterar as regras sintáticas, morfológicas, fonéticas, etc., da língua. Há formas de calão, porém, em que, em vez de substituir as palavras, se as criptografam — com códigos muito mais simples que os usados em verdadeira criptografia, mas que chegam para que quem não domine o código não compreenda o que é dito.

Há um código português desse tipo chamado badoncali, que aprendi na minha adolescência. Funciona assim: agarra-se numa palavra e tira-se-lhe um número qualquer de sons do início (no mínimo, uma consoante ou um grupo de consoantes), deixando uma vogal como som inicial. Depois, cola-se bad- (b- apenas, nalguns casos raros) no início do pedaço de palavra que ficou e acrescentam-se à nova sequência os sons que se roubaram no início, juntando-lhes um -i para rematar. Badoncali é calão em badoncali: calão − cal- = ão + bad- (antes) = badão + -cal- + -i = badãocali. Só que, por muito que seja concebido para não ser entendido por falantes do português, o badoncali é português, porque é falado por pessoas que têm na cabeça a estrutura do português. E não há o ditongo [ão] no meio de uma palavra, a não ser antes de diminutivos e aumentativos [o que é, de facto, um argumento sólido para defender que os sufixos aumentativos e diminutivos não são vulgares sufixos, mas isso é outra história] e a sequência ‑cali não é diminutivo nem aumentativo. É então necessário transformar badãocali em badoncali, aplicando-lhe as regras fonéticas do português. .

Existem em francês dois códigos semelhantes a este, o louchébem, o calão dos talhantes, e o largonji. Louchébem (pronunciado /luchêbéme/) é boucher, “talhante” (pronunciado [buchê]) sem o B inicial, que vai para o fim e que é susbtituído por um L. Ao todo acrescenta-se /-eme/ e está feito.: /buchê/ -B + L= /luchê/; /luchê/ + B + /eme/ = /luchêbème/, louchébem. Sabendo agora vocês que largonji é jargon, «jargão», em largonji, não preciso de vos explicar o processo de formação deste outro código.

Quando éramos miúdos pequenos, tínhamos a língua dos PP, um código mais simples (chamado jeringonza em espanhol), em que se pospõe a cada sílaba uma outra sílaba igual, mas começada por P. Batata, por exemplo, fica /bapatápátapa/.

O javanais, também francês, é um esquema simples como a língua dos PP, mas dá formas complicadas: acrescenta-se /av/ entre uma consoante ou grupo de consoantes em princípio de sílaba e a vogal que se lhes segue. Por exemplo, patate, «batata», fica /pavatavatave/.

Para terem uma ideia de como soa, deixo-vos uma cantiga com letra de Boris Vian e música do grande Alain Goraguer. A canção tem partes em javanais e partes em francês não encriptado, digamos assim, mas o francês nem sempre é aquele que se aprende na escola, de maneira que mesmo o que não é em javanais é capaz de não ser fácil de perceber para quem não domine bem o calão francês. Com tantos dicionários de calão francês que há em linha, porém (nesta plataforma, pode pesquisar-se em vários deles), rapidamente esclarecerão as dúvidas que possam ter.

Louis Massis, « La Java Javanaise » (B. Vian/A. Goraguer), 1957

(Parlé)

Salut les mecs

Alors, c’est d’accord?

Pour que les caves ils n’entravent que dalle

On jaspine le javanais


Traînons ce soir 

Travaînavons çave soivar

Cherchons un cave rempli de pognon

Ravemplavi d’pavognavon

Pour y jouer la java javanaise

Sur le pont de Charenton

Voilà un mec

Voivalava avun mavec

Fais-y les poches

Vas-y Jimmy

Vava-z-avy Djavimavy

Aussi sec on se barre à l’anglaise

Dans la rue de paradis


Tous les chemins mènent à Rome

Mêm’ si c’est d’Rom’ qu’on est partis

Mais les javas mêm’ javanaises

Vous ramèn’nt tout’ à Paris

On est bourrés

Avon n’avest bavourravés

Bourrés d’billets

Comm’ des rajahs

Cavomm’ davez ravajavahs

Allons boire un coup de vichy-fraise

Loin de la plac’ de l’Opéra


Sifflons en chœur

Savifflavons zaven choaveur

Sifflons en chœur

Cette java

Çavettave javavava

Sifflavons la java javanaise

C’est à Pigalle qu’on ira

Passez le pognon

Pavassavez l’pavognavon

Passez l’oseille

Passez le fric

Pavassavez lave fravic

Faut que l’artiste se fass’ de la braise

Tout en haut d’la rue Lepic

L’accordéon

Et le saxo

Nous mett’nt le cœur en morceaux

Tiens… ma Julie

‘S’que tu fous là ?

Je te croyais chez ton papa …

Et qui c’est, ce gonze avec qui tu guinches?

On peut savoir?

Lâche ma souris

Lavâche mava savouravis

Lâch’ ma souris

Sinon j’te tue

Savinavon j’tave tavues

Adieu la javavavanaise

Jamais tu la dans’ras plus


Et ramène-toi par là, tézigue

Prends toujours ça c’est un acompte…

Vas-y, Balta, fais-le creuver

Ton soufflet

[Atualizado a 2 de julho de 2023]

16/06/22

Há línguas em que é mais fácil brincar com as palavras?

[!!! Este texto pode ser muito difícil de entender para pessoas que não dominem muito bem a língua francesa. Dada a natureza dos textos franceses referidos e citados, é perfeitamente vã a tentativa de os traduzir.]

Já aqui fiz no blogue alguns comentários à tão popularizada ideia de que a língua determina a nossa perceção do mundo e à alegre falta de rigor com que muitas vezes se faz o escrutínio desta ideia. E hoje venho, vejam lá, sugerir que talvez a língua possa de facto interferir na nossa relação com o mundo. Mais concretamente, venho sugerir que bem pode haver línguas em que é mais fácil que noutras «brincar» com a própria língua: fazer humor e literariedade. E, mais concretamente ainda, sugiro que é provável que em francês seja mais fácil fazer trocadilhos e rimar [pelo menos, no sentido em que entendemos rima hoje em dia na nossa cultura] que nas outras línguas que conheço. E isto porque
  • o francês é uma língua de acento fixo, o que torna as coisas muito mais fáceis; e
  • a evolução fonética do francês foi, antes de mais, no sentido de um vocalismo muito forte, e portanto uma perda de muitos sons consonânticos, gerando assim
    • um número muito grande de palavras e sequências homófonas (fundamental para os trocadilhos) e
    • menos sons possíveis em final de palavra (fundamental para a rima).
Convém esclarecer que não estou de modo algum a apresentar a conclusão de algum estudo que tenha feito, longe disso, mas sim a propor um projeto de investigação, a mim próprio ou a quem nele queira pegar, que se baseia num observável simples: há mais formas [foneticamente] convergentes em francês que nas outras línguas que conheço.

Para dar dois exemplos muito simples [mas há muitos, muitos!], a forma /vɛ̃/ pode provir de vários étimos diferentes: de vinum [vin], de vi[gi]nti [vingt], de vanus[vain], de vēnī [vins], de vēnistī [vins] e de vēnit [vint]), da mesma forma que /po/ pode derivar de pellis ou de potus e /depo/ tanto pode corresponder a des pots como a des peaux como a dépôt.

É certo que, se que esta convergência de formas se deu, é porque não causa ambiguidades, senão ela não podia existir. Mas, existindo no discurso comum sem causar ambiguidades, está disponível para ativamente se construírem, a partir dela, trocadilhos e jogos de palavras ou com as palavras. Não deve ser por acaso que são em francês os exemplos mais famosos de holorrimas, isto é, rimas em que não rima só o fim do verso, mas sim o verso inteiro. Creio que a holorrima mais famosa é de Marc Monnier, nos célebres versos
Gall, amant de la Reine, alla, tour magnanime ! ,
Galamment de l'Arène à la Tour Magne, à Nîmes.
que se pronunciam exatamente da mesma maneira. Outros exemplos são
Par les bois du Djinn, où s'entasse de l'effroi,
Parle et bois du gin !… ou cent tasses de lait froid.
de Alphonse Allais, ou
Dans ces bois automnaux, graves et romantiques,
Danse et bois aux tonneaux, graves et rhums antiques
de Jacques Prévert. Mas há muitas mais. Vejam por exemplo, aqui, aqui ou aqui.

Transcrevo abaixo a letra da canção « Saucisson de Cheval », de Boby Lapointe, um exemplo radical do que é brincar com as palavras em francês — como aliás todas as canções de Boby Lapointe, o maior mestre dos jogos de palavras, que aconselho a explorar, se não conhecerem.

Um jogo de palavras assenta sempre numa relação entre um segmento sonoro pronunciado e um outro evocado na mente do ouvinte. Pode haver semelhança fonética ou total homofonia dos dois segmentos que constituem o trocadilho, com ou sem coincidência sintática. Por vezes o segmento não dito pode ser uma expressão fixa, o que facilita a sua evocação na mente do ouvinte; e por vezes a evocação do segmento pode também ser facilitada pela introdução prévia de um elemento no texto – ou pode mesmo haver, como no caso da canção transcrita abaixo, uma delimitação à partida de um determinado campo semântico [neste caso, o cavalo]. Como alguns jogos de palavras da canção podem não ser óbvios, mesmo para quem domine relativamente bem o francês, sublinho em cada verso a parte que deveria evocar outra coisa no ouvinte e deixo entre parênteses retos o segmento evocado. Não transcrevo os onomatopaicos refrães nem as breves passagens faladas, que, contribuindo sem dúvida para o humor e para o ambiente geral da canção, não são relevantes para o tema aqui discutido.

Se existem, em países de língua latinas ou germânicas, alguém que faça jogos de palavras como Boby Lapointe, não conheço. Mas será mesmo possível fazer canções como « Saucisson de cheval » noutras línguas? A pergunta não é de modo algum retórica: línguas há muitas e eu conheço muito poucas. Digam-me, pois: que sabem e opinam sobre o assunto? 
  
« Saucisson de cheval », 1966

C'est un saucisson de cheval, un saucisson que... (de cheval) [queue]
que je viens de faire, (à cheval) [fer]
c'est une chanson de saillies. 
Ah, chanson de saillies, (de cheval) [saillie]
moi qui suis esthète, (de cheval) [tête]
ah, je trouve ça beau (de cheval) [sabot]
génial, admirable, (de lapin) [râble]

Moi, qui viens de Grèce, (de cheval) [graisse]
je m'appelle au reste (de cheval) [Oreste] 
Tapaboufélos. (de cheval) [t’as pas bouffé l’os]
je débarque à Paris (de veau) [ris],
Oh, oh, quel régal, oh, (de cheval) [galop]
de prendre le métro. (de cheval) [trot]
Quand on ne connaît pas, (de cheval) [pas]
oh, ce qu'on s'amuse, oh ! (de bœuf) [museau]

Mes enfants, ma foi, [foie] (de cheval) [foie]
sont de vilains grognons. (de cheval) [rognons]
Quand ils pleurent en chœur, (de cheval) [cœur]
j'essaie de les distraire (les vaches) [traire]
Je viens à bout d'un, (de cheval) [boudin]
mais les autres aussi sont (de cheval) [saucisson]
toujours dans le besoin, (de cheval) [soin (?)]
ça ne peut pas être pis. (de chèvre) [pis]

Quel est cet aztèque (de cheval) [steak]
qu'on vient de voir filer (de cheval) [filet]
du haut de la côte (de cheval) [côte]
dans le précipice, en moto ?
Peut-être bien est-ce Thomas (de cheval) [estomac]
qui vient de me vendre (de cheval) [ventre]
un complet à carreaux (de cheval) [garrot]
et un gilet pied de poule.

Je désirais m'assoir (de cheval) [mâchoire]
et tu m'amenas au (de cheval) [naseaux]
canapé en rotin (de cheval) [crottin]
et mon cœur, vous fumiez mes cigares. [fumier]
N'étais-je pas l'affreux niais, (de cheval) [palefrenier]
qui fourbu s'affaisse (de cheval)? [fesse]
Ça fait rire les groupes (de cheval) [croupe]
ah, comme l'écurie est gaie ! [les culs rient] (aqui, inverte-se a lógica: o segmento relacionado com cavalo é o dito e não o evocado)



P. S.: Boby Lapointe desenvolveu o tema dos trocadilhos equestres, se se pode dizer assim, numa segunda canção com o mesmo fundo musical, « Saucisson de Cheval nº 2 ». O segundo salsichão de cavalo não é em nada inferior ao primeiro, mas não quero abusar da paciência dos meus leitores, pelo que não o transcrevo. A letra é fácil de encontrar na Internet.




11/09/21

«Os verbos foram mudados, / Não ficou um só de pé !»

Joaquim Pinto de Sousa Macário é escritor seguramente desconhecido da maior parte dos leitores deste blogue. Também eu o desconhecia, até topar um dia, já nem me lembro nem como nem porquê, com esta digitalização da sua obra Satyras e galhofas: livro de versos alegres, publicada em 1899 por uma editora de Lamego, a Minerva da Loja Vermelha. 

Como amante que sou das coisas da língua, da sua história e das suas histórias, chamou-me muito a atenção esta “Resposta a uma carta que Nicolau Tolentino dirigiu do outro mundo ao auctor deste livro”, que vos quero dar a conhecer. E deixo-a tal como vem no original, em parte por preguiça de lhe atualizar grafia e corrigir pontuação, e em parte porque acho que o documento da história das palavras que o texto é ganha com documentar também uma fase da história da sua escrita.

Notem agora que Nicolau Tolentino, a quem Joaquim Pinto de Sousa Macário dedica as Satyras e galhofas e que é o explícito destinatário da carta em verso de que aqui se trata, morreu em 1811. Macário lista, portanto, expressões que ele crê que Tolentino não conheceria, ou seja, surgidas ao longo do século XIX. Se tem razão ou se se engana a avaliar a idade dos termos que refere como novidade é discussão que aqui não vou ter agora, embora, nalguns casos, tenha quase a certeza de que se engana: pança, por exemplo, muito provavelmente existiu sempre, em português, como aliás nas outras línguas latinas. Mas vejam que a maior parte deles se mantém até hoje, uns ainda como gíria, outros já como termos standard. Também é difícil perceber, no texto de Macário, em que registos se usavam na altura os diferentes termos, mas parece provável que se incluam na lista desde modismos finos (como fauteuil), até termos do registo informal, como carraspana, ou mesmo calão, como guita. É também de notar que se mantiveram até hoje os termos importados do francês que eram na altura novidade*. Mas chega de comentários. Desfrutai, como costuma dizer-se.

Lisboa, 1º–2º–89.

Nicolau:

Recebi a tua carta
E vejo o que me dizes do outro mundo,
Confessas que de ti se não aparta
O teu fado cruel, sempre iracundo.
Nunca a pança por cá tiveste farta.
Mas lá que o teu martyrio é mais profundo,
Lamento, meu amigo, que assim seja,
Mas, dos que estão por cá, não haja inveja.

Dizes que és lampianista logo á entrada
Do céo, e que S. Pedro é teu amigo;
Mas, que por teres cá lingua damnada,
Embirram lá no céu muito comtigo !
Dizes q’ereres voltar á Lísbia amada
P'ra viveres aqui junto co’migo.
Mal sabes tu, meu velho Tolentino,
Quanto fôra isso em ti um desatino !

Isto por cá, não é o que foi d'antes,
E hoje um purgatório ! uma inferneira !
A cidade já chega quasi a Abrantes !
E, por ter muita gente, ha já lazeira !
E abundam de tal forma os meliantes
Dos que sabem metter mãos na algibeira,
Que é preciso um policia, bem armado,
Pra cada cidadão andar guardado.

Isto está tudo torto ! Transformado !
Todos se tratam já por excellencia;
Com ares, cada qual, d'afidalgado,
Soffrem por este mal triste demencia!
Qualquer, p'ra ser ministro ou deputado,
Se julga com saber, e competência !
Todos, mettendo á Pátria gorda espiga,
Só tratam bem da bolsa e ... da barriga !

Pelas ruas, em carros estofados,
Sentados os lacaios, vão gozando I
Emquanto que, em cocheiros transformados,
Os fidalgos os carros vão guiando !
Ha homens já com homens namorados,
Tudo n'uma balburdia, e alto desmando !
Ha-de custar-te a crer! ha até senhoras
Mais homens que mulheres, e doutoras !

E todas, noite e dia, pelas ruas
Navegam, já sosinhas, á vontade,
E aos homens, graçolinhas lá das suas,
Apresentam com toda a liberdade !
E os donos de taes náus, de taes faluas,
Dos naufragios não temem a impiedade,
De forma que os naufrágios, meu amigo,
são tantos ! ! e óra adeus ! chamam-lhe um figo !

As egrejas já estão quasi desertas,
Só ás moscas entregues, e ás baratas,
E quando, aos domingos, são abertas,
Chamam ás que lá vão, tolas, beatas !
Ao passo que mui anchas, mui espertas,
Com mira no casório, as taes fragatas,
Aos cardumes passando alegre vida,
Innundam os theatros, e a Avenida. ( )

Qualquer fedelho, apenas de dez annos.
Já fuma, e joga as cartas e namora;
Se vão, por troça, ao templo taes insanos,
Precisa o enxota-cães pôl-os lá fora;
E assim vão caminhando nos enganos
Da podre educação que o céo deplora;
Depois, já pódes vêr, por taes assômos
Quem póde ser juiz com taes mordomos ! ?

Fazem-se hoje viagens em vapores
Que, voando pela terra e pelos mares,
Vão em sete minutos aos Açores
E em menos d'um minuto a Valladares.
A guerra! Santo Deus! ergue terrores.
Que fazem tiritar os militares!
É tanta, e de tal forma, a artilheria,
Que alcança já d'aqui á Alexandria !

Usa cada soldado uma espingarda
Que dá sete mil tiros por minuto !
E só deixam agora vestir farda
A quem fôr mais membrudo e féro bruto !
E cada general, gordo, bojarda,
No seu officio ou arte, é tão astuto
De forma que, se cá tivermos guerra,
Ninguém fica de pé ! Vae tudo a terra !

Isto por cá, mudou completamente !
Nem tu nada já d'isto conhecias;
As mulheres nem teem cara de gente,
São figuras de gesso ! e muito esguias !
Até mesmo o idioma está diff’rente
De forma que já nada percebias !
E se julgas que minto no que digo,
Eu passo a bem provar-t'o, meu amigo :

Os verbos foram mudados,
Não ficou um só de pé !
São hoje assim consid'rados:
Gritar, é fazer banzé !
Chama-se ao fugir raspar,
Liscar, safar e pisgar,
’Té mesmo passar o pé.

O morrer é arrefecer
É o calar, engulir.
Namorar, é padecer,
Chama-se ao comer murquir !
Espreitar, diz-se cocar,
Bater, zurzir e zupar,
Olhar p’ra dentro, é dormir !

Chama-sa ao roubar, arranjo !
Ou inglezar e chiprar !
Não sei porque desarranjo
É fazer o passeiar;
O ignorante, é ser cego !
Empenhar, é pôr no prego !
O tremer, é tiritar.

Ninguém falla como d'antes;
Tudo assim, tudo mudou !
'Té mesmo a palha d' Abrantes
De letria o nome achou !
Nem mesmo julgam ser erro
A um cão chamarem-lhe pêrro,
E os calotes serem cães,
E o caloteiro, cãoseiro,
E chelpa qualquer dinheiro,
E cheta os próprios vintens.

Amantes, são padecentes !
A officina, atelier !
Mestres d'escolas, são lentes !
É a carruagem, coupé !
Pernas magras, são varetas !
Botas tortas, são palhetas !
São os narizes, fungões !
A desordem, zaragata!
E cara, figura ou lata !
E as mentiras, são palões !

Chama-se á cabeça, pinha !
Chama-se ao janota, pão !
Ter azar, é ter gallinha !
Mentir, é ser intrujão !
O ser máu, é ser má rolha !
Não ter juizo, é ter bolha !
Chamam ao vinho briól !
E toucado á bebedeira,
Carraspana, e capoteira,
E á barriga, pança e fól !

Sâo as creadas, sopeiras !
Ser gentil, é ser liró !
Aos olhos, chamam setteiras !
Ser limpo, é quite de pó !
N'um jardim um charco é lago !
Dinheiro em geral, é bago!
Um puding, é um poré !
Mulher esguia é fanéca!
Cavallo magro, é pilléca !
Chama-se ao suor chulé !

Jogar, é fazer batota !
É café o botequim !
Perder, é levar derrota !
É um barulho, chinfrim !
O sobscripto, enveloppe!
Chamam-se as valsas galope !
A um ramalhete, bouquet !
E hoteis ás hospedarias !
As medianeiras sâo tias !
O ter gosto, é ter filé !

A vara d'outr’ora, é metro!
Decilitro o quarteirão !
Trocou-se em bandurra o plectro,
Bom cavalleiro, é calção !
Chama-se ás libras piratas !
Pômo de terra ás batatas !
Ao valentão Fcrra-Braz!
Ao municipal, um guita !
A mulher alta, guarita!
Ao homem alto, lambaz !

É fauteuil, uma cadeira!
É sofá, um canapé !
É pandega, a brincadeira !
Ao povo chamam-lhe Zé !
Chama-se instituto, a escola !
Banza e bandurra, a viola!
As gazetas, são jornaes !
Ser peralta, é ser penetra !
Edecetra, e édecetra,
E assim muitas coisas mais.

Já vês d'esta maneira, meu amigo,
Que vinhas tu fazer cá por Lisboa?!
Teus versos não valiam hoje um figo,
Nem rimas encontravas p'ra uma lôa;
Sem saberes fallar, feito um mendigo,
Sem te intender sequer, uma pessoa,
Ai ! amigo, não venhas, tem juizo,
Não troques pelo inferno o teu p'raizo.



___________________

* Atelier, bouquet, canapé, coupé, enveloppe, fauteuil; e jornal e  pomo de terra, já na altura com formas aportuguesadas. Só pomo de terra desapareceu completamente e provavelmente fauteuil, que os dicionários de português ainda registam como galicismo para «poltrona», mas que nunca me lembro de ter ouvido. Filé é provavelmente também um empréstimo ao francês, mas não consigo atestar nesta língua o significado que Macário aqui descreve, nem o de «empenho», que registam os dicionários. 

17/02/20

Nomes velhos para coisas novas: milho e feijão

Já aqui falei uma vez de coelhos e do nome Hispania. Uma das propostas etimológicas para Hispania é que os fenícios, ao encontrarem aí um bicho novo, os coelhos, lhe deram o nome do bicho mais parecido que conheciam, os damões, e chamaram então à Ibéria i-shapan, «ilha de damões». Ora, independentemente de ser ou não esta a verdadeira origem de Hispania, o processo que ela implica é comum e compreensível: inventar um nome novo para um animal ou uma planta que se descobre é mais trabalhoso que reciclar um nome já existente.
Por exemplo: o milho (Zea mays), que é um cereal americano, recebeu em português o nome de um outro tipo de cereais da família Poaceae, hoje conhecidos como milho miúdo ou painço, originários de várias partes do mundo e que os portugueses conheciam há muito. Em francês, mantém-se no Canadá a designação de blé d’Inde, «trigo da Índia» (entendendo-se aqui Índia como Américas, «as Índias Ocidentais»).

Também é curioso pensar que o facto de se usar um nome de um animal ou planta que se conhece para outro animal ou planta «semelhante» que se descobre pode afetar a designação original, se o novo animal ou planta se tornar mais popular que o original. O milho antigo passou a designar-se como miúdo ou painço, quando se divulgou o novo milho, que lhe usurpou o nome[1]. O mesmo se passou com o peru, animal também americano, a que os espanhóis deram o nome do pavão, pavo, por com este se parecer, e que passou a ser ele o pavo propriamente dito, tendo-se acrescentado ao desgraçado do pavo original o termo real para o distinguir do usurpador do seu nome.


Outro bom exemplo deste fenómeno é o feijão. O chamado feijão comum, esse com que se fazem feijoadas, dobradas e sopas de feijão, é o Phaseolus vulgaris, uma espécie de um género que inclui também a feijoca, Phaseolus lunatus. Todos os tipos de feijão – branco, encarnado, catarino, preto, manteiga, etc. – são variedades diferentes da mesma espécie e os diversos tipos de feijão verde são também o mesmo legume: as suas vagens antes de se desenvolverem as sementes[2]. O feijão comum é originário da América Central e do Sul, pelo que só começou a ser consumido na Europa no séc. XVI. Já aqui vos falei de feijão e disse que alguns dos nomes que se lhe dão hoje se usavam antes de os europeus o conhecerem, mas para designar outras leguminosas. De facto, ao passar em revista os nomes do feijão na nossa língua e nalgumas línguas mais próximas da nossa, chegamos à conclusão que, dos muitos nomes que o feijão tem, apenas poucos são importados das línguas dos povos que originalmente o cultivavam. Senão vejamos:

Feijão, em português (e feijoca, claro), fagiolo, em italiano, flageolet e fayot, em francês, e frijol, fríjol, frejol e fréjol[3], em castelhano, vêm todos do latim faseŏlus ou phaseŏlus, que dá o nome botânico ao género, como já referido, e que vem, por sua vez, do grego φάσηλος (phásēlos), que designa o feijão-frade (Vigna ungiculata, um legume sem relação com o Phaseolus). Também o termo alubia, outro nome do feijão em Espanha, vem de uma palavra persa, لوبیا‎ (lubeyā)[4], que designa o feijão-frade.

Faba, termo galego e asturiano, vem obviamente do termo latino faba, que designa a fava[5] (Vicia faba, outro legume sem relação com o Phaseolus). Habichuela[6] é, claro, um diminutivo de fava, tenha ele sido formado já da haba castelhana, ou venha de formas anteriores, como uma hipotética fabichuela moçárabe ou uma fabicella latina.

O inglês bean e os seus parentes germânicos, como o neerlandês boon, alemão Bohne e o dinamarquês bønne, estão também etimologicamente relacionados com o latim faba, «fava», o grego phakos, «lentilha», e o albanês bathë, «fava», e vários outros termos indo-europeus que designam leguminosas euroasiáticas.

Quanto ao termo judía, que se usa em Espanha, vem provavelmente do etnónimo judío, mas como e porquê não se sabe… Também ninguém parece saber a origem de caraota, o nome venezuelano do feijão, nem ter a certeza sobre a origem do francês haricot. Quer dizer, conhece-se a história de haricot no sentido de «guisado»[7], e pensa-se que se deu o nome da preparação culinária ao feijão, por este ser assim preparado, mas há outras propostas[8].

De maneira que são uma minoria os nomes do feijão nas línguas europeias que foram importados das línguas faladas pelos povos que o domesticaram e cultivavam: poroto (Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai Perú, Uruguai), que vem do quéchua purutu; ejote, que se usa para o feijão verde (América Central e México) e que vem do nauatle exōtl, «feijoca»; e chaucha (Argentina, Paraguai, Uruguai), que parece vir de um termo quéchua que significa «verde, por amadurecer»[9]. Pois, porque, como eu dizia, é mais fácil dar-se a uma coisa nova um nome de uma coisa que já se conhece…




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Notas

[1] Evidentemente, isto não se passa de repente, longe disso. Durante muito tempo, usaram-se expressões várias para distinguir o novo milho do milho antigo, até que o milho americano passou a ser simplesmente milho, sem mais. Lê-se na entrada Milhom (p. 134) do Elucidario das palavras, termos, e frases, que em Portugal antiguamente se usárão, e que hoje regularmente se ignorão: obra indispensavel para entender sem erro os documentos mais raros, e preciosos, que entre nós se conservão, de Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo (Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1798)
Em hum Testam. De S. Simão da Junqueira de 1289 se diz: It : a Stevão Joannes de Pera fita, ou a seos heréés, hum quarteiro de milhom. Daqui se poderia inferir, que já então havia em Portugal milho Maíz, ou grosso, a que hoje chamão naquella terra Milhão. Mas a verdade he, que os Antigos punhão muitas vezes m sobre o o ultimo de algumas palavras sem necessidade alguma : v. g. juriom por jurio, &c. E da mesma sorte se disse ali Milhom por Milho, pelo qual se entendeo sempre o milho branco, ou miudo , até que no Sec. XVII. hum certo Paulo de Braga o trouxe á sua terra, vindo da India. Ao principio, dizem, se prohibio o semeallo, e só alguns cultivárão poucos pés nas suas hortas, e jardins. Hoje hé o mais frequente pão naquella Provincia, e lhe chamão Milho Zaburro, Milho grande, Milho graúdo, Milho Maíz, Milhão, ou Milho grosso, e Milho de Maçaroca.
Na entrada Maçaroca (p. 47 do Suplemento ao Eluciário), lê-se o seguinte:
Milho de maçaroca, milho grósso. V. Milhom. No tempo d'El Rei D. João II., e no descubrimento de Guiné, dizem alguns descubrírão os Portuguezes o Milho grosso de maçaroca, donde o trouxerão a Portugal; e que se principiou a cultivar nos campos de Coimbra.
Joaquim de Viterbo não sabia, pois, da origem americana do milho.

[2] Apesar de ser a mesma planta, o feijão verde tem, por vezes, designações diferentes do feijão maduro. Às vezes, acrescenta-se apenas verde ao nome do feijão, como se faz em feijão verde, haricots verts, judías verdes ou porotos verdes; às vezes, designam-se como o que de facto são, vagens (norte de Portugal), vainitas (Peru); mas às vezes têm a sua palavra própria, como ejote, habichuela ou chaucha.

[3] Frijol e as suas variantes usam-se principalmente no México, na América Central e no Peru. A estranha forma com -r- e terminada em -ol resultaria da contaminação do termo diretamente derivado do faseolus latino pelo moçárabe brísol ou gríjol, «ervilha». O termo francês flageolet tem origem na palavra italiana e fayot chega ao francês pelo provençal faiol ou fayol.

[4] A palavra chega ao castelhano pelo árabe andaluz اللُوبِيَا‎ (allúbya), variação do árabe لُوبِيَاء ‎ (lūbiyā).

[5] A palavra latina vem do proto-itálico *fafā, do protoindo-europeu *bʰabʰ-, que, além da palavra latina, dá muitas palavras germânicas e eslavas.

No francês canadiano ainda se usa, como em francês antigo, a palavra fève para designar o feijão comum – palavra que, nas outras variantes do francês moderno, designa apenas a fava.

[6] O termo é usado em Castilla La Mancha, Múrcia, República Dominicana e Porto Rico para designar o feijão comum maduro e na Andaluzia, Canárias, Cuba, Colômbia, Panamá e Venezuela para designar o feijão verde.

[7] O nome haricot é formado a partir de um verbo antigo, harigoter, «desfazer, partir ou cortar aos bocados», que viria do frâncico *hariōn e está relacionado com vários termos germânicos com a ideia de «desfazer, destruir, dar cabo de».

[8] Segundo o dicionário do Centre Nationale de Ressources Textuelles et Lexicales (um excelente dicionário para quem trabalhe com francês) o mais provável é o nome do legume vir do termo que significa guisado. Considera-se improvável a hipótese da etimologia mexicana (ayacotli) e recusa-se outra proposta, a de ter origem no topónimo Calicut.

[9] Sobre a etimologia de Chaucha, diz Valentín Anders no seu site algo que parece razoável (e bastante curioso), para explicar os diversos significados da palavra na América latina (traduzo eu):
É provável que o sentido de chaucha na América do Sul se tenha indo alterando semanticamente à medida que se deslocava para norte, mais ou menos da seguinte forma:
No DRAE, diz-se que vem de um termo quéchua que significa «verde, não amadurecido» e daí que, na Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, signifique «feijão verde» (por amadurecer) e no Chile, «batatas pequenas que não valem a pena comer e são deixadas para semente» (também por amadurecer). Daí, passa ser «algo de pouco valor» no Chile e no Uruguai, «pouco dinheiro» no Chile e, na Argentina, «moedas pequenas, trocos». Mais um passo e já temos o significado do Equador, «um trabalho de pouca importância, um biscate», para completar o salário. E daí que, nas Antilhas, se tenha tornado sinónimo de sustento diário, a comida de cada dia (…).
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Ilustrações: em cima, uma maçaroca de milho. Bernardino de Sahagun, 1577 (Wikimedia Commons, daqui); em baixo: Phaseolus vulgaris no Libri picturati de Carolus Clusius et al., ca. 1600 (Wikimedia Commons, daqui)