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12/05/26

Vinte e cinco anos

 

Dizem que não devemos nunca voltar aonde fomos felizes. A Karen e eu não fomos especialmente felizes nos dois anos que passámos em Malacate, mas também não fomos especialmente infelizes. Foram sobretudo tempos intensos, disso não há dúvida. Voltámos a Malacate em 2026, para rever pessoas e sítios, para voltar a ver os desfiladeiros de rocha vermelha e as velhas casas de adobe à beira do rio. Queríamos saber o que tinha mudado. 

A rua principal continua aparentemente igual, com as mesmas lojas sem horário, barbearias, pequenas mercearias, vinho e aguardente, fotocópias e encadernações. Mas só aparentemente. Faltam as pessoas que já lá não estão.

Susana, a dona do mais famoso bar da vila — era uma das melhores cantoras da província, dizia-se sem exagero nenhum — morreu o ano passado. 

Fechou o café da D. Lucha, que servia os melhores lomitos da zona. Também morreu há uns anos, coitada, ainda relativamente jovem. 

Falta a velha camioneta Dodge de D. Edgar, chofer de mudanças e de tudo, e especialista em churrascadas. Também já não está entre nós.

A D. Abel, que tinha vindo da capital para trabalhar para Malacate num programa agrícola, decidiu por lá ficar, comprou terra e se lançou  em vários pequenos e bem-sucedidos negócios, levou-o o covid, dizem que por só ter procurado ajuda tarde demais. 

D. Clotilde, a mulher dele, morreu seis meses depois dele de uma morte estúpida: engoliu mal qualquer coisa que estava a comer e que se lhe entalou na garganta, asfixiando-a antes que ela tivesse tempo de pedir ajuda. 

D. Cristóbal tem agora 98 anos, que é uma idade a bem dizer impossível na região. Passa as tardes sentado no jardim à entrada de casa e saúda quem passa com um sorriso distante. Se alguém o cumprimenta e se apresenta explicando-lhe quem é, D. Cristóbal, se consegue localizar o interlocutor na sua memória, começa a chorar. De alegria. 

D. Rosa, a sua mulher, um pouco mais nova que ele e ainda de cabeça clara, diz que, depois da morte do filho, o ano passado, vive à espera da morte do marido, e depois da sua, porque é assim que as coisas são. 

D. Carlos, Carlitos para os amigos e para quem lhe conhece a fama de guitarreiro, está demasiado velho para os impecáveis ponteios em zambas, cuecas e tonadas. Está a morrer, dizem os seus antigos companheiros de descantes e guitarrear.

A estrada foi talvez o que mais mudou. Já não existe a velha estrada de terra batida, mortal em vários trechos, que ligava Muñecas a Belgrano. As velhas cruzes a assinalar acidentes mortais, normalmente despistes em ribanceiras de dezenas de metros, centenas às vezes, ainda lá estão à beira da estrada, mas a estrada é agora asfaltada e as seis horas que se levava até Muñecas ou Belgrano foram reduzidas a metade. 

A vila cresceu, como seria de esperar, e está mais bonita. Há várias pracetas novas, floridas e bem cuidadas, e foram arranjadas muitas das casas antigas que estavam à beira de ruir. O mercado também se alargou, no espaço e nos produtos disponíveis, e tem agora um edifício com comedores populares. E há dois terminais ferroviários, um para autocarros de longo curso e outro para os minibuses que saem a toda a hora para Muñecas e Belgrano. 

E houve também quem conseguisse melhorar a sua vida.

D. Isabel conseguiu transformar num bonito hotel a casa grande que tinha na vila. Fez as obras com o dinheiro que foi juntando a alugar quartos aos trabalhadores da estrada, aquando da sua construção há uns anos.

Félix foi a única pessoa que, nos dois anos que passámos em Malacate, nos convidou a almoçar em sua casa. E claro, convidou-nos outra vez durante a nossa visita. Rimo-nos e cantámos e recordámos episódios de há 25 anos. Está para abrir um restaurante. Diz que vai finalmente haver um sítio em Malacate onde se coma bem. 

D. Jaime e D. Luzmila continuam a dar aulas, apesar de terem já idade para a reforma. Quando conheci D. Luzmila, ainda não era professora, começou o magistério depois de ter a segunda filha há 26 anos. D. Jaime e D. Luzmila começaram também um negócio de doces e compotas, vai já para 20 anos, e passam todos os fins de semana nas cidades mais próximas, a vender os seus produtos. Dizem que foi o que os safou, porque só os salários não chegavam para muito e assim lá conseguiram aumentar a casinha e pagar a educação das filhas, que têm agora cursos superiores. Nunca ninguém da família de nenhum deles tinha tirado um curso superior. 

As pracetas da vila, tanto as novas como as que eu já conhecia, homenageiam aristocratas e militares do início do século XIX. Faltam monumentos aos atuais heróis da nação: gente como D. Jaime e D. Luzmila.

Há coisas em Malacate que parecem não querer mudar. E porque haviam de mudar em 25 anos, quando não mudaram em centenas deles? Continua a servir-se porco assado no forno ao fim de semana nalgumas fazendas centenárias à beira-rio. Os bêbedos continuam beber dias e noites sem parar e as velhas famílias de proprietários continuam a achar que el honor os impede de trabalhar e queixam-se de que os campos estão cada vez mais abandonados porque não há quem queira trabalhar pelo que eles lhes querem pagar; e trabalhar é o que mais faz quem não é, como eles, dono das melhores terras. 

Os imponentes desfiladeiros de rocha vermelha e o rio verde acastanhado continuam iguais, e as velhas mansões de adobe nos arredores da vila cada vez mais em ruínas.  

Não vale a pena procurarem no mapa a vila de Malacate. Ela existe, mas não é Malacate que se chama. A fotografia é de outro sítio.  Todos os nomes próprios do texto foram alterados e também algumas descrições das pessoas, para não se poderem reconhecer a vila e as pessoas reais de que falo. Quem me conhece saberá de que terra se trata e quem conhecer essa terra é bem capaz de descobrir a quem se referem estes nomes que aqui pus. 





18/04/26

As meias da Tove [Crónicas de Svendborg #55]

Tenho um amigo que usa sempre meias de lã, mesmo no verão, e até com sandálias. Hei de perguntar-lhe de onde lhe vem esse hábito. É capaz de o ter adquirido na África Austral, porque ele viveu no Zimbábuè, onde se vê às vezes gente de calções e botas — e meias grossas até ao joelho. Mas também é capaz de ser uma coisa dos dinamarqueses mais velhos: conheço um senhor que tem agora 100 anos e que me explicou que também usa sempre meias de lã todo o ano, todas feitas pela mulher dele. Eu também tenho vários pares de meias de lã feitas à mão e, embora só as costume usar quando está frio, sei que, de facto, não são mais quentes no verão que outras meias quaisquer. 

Há umas semanas, numa longa viagem de autocarro-cama, olhei para as meias de lã cinzentas que trazia calçadas e lembrei-me da Tove, que mas tinha oferecido. E escrevi uma nota no meu telefone, para escrever um texto — este — quando voltasse a casa e ao computador: «As meias da Tove». O que queria dizer «As meias que a Tove me deu.» Mas eu entendo-me.  

Agora, à laia de introdução, deixem-me contar-vos uma história de há uns anos, que não tem nada a ver com a Tove nem com meias de lã. Ao fim do meu primeiro estágio em apoio domiciliário, aprendi que nem tudo o que vem nos livros se deve sempre seguir muito à letra. Na escola, tinha aprendido que é expressamente proibido aos profissionais de saúde aceitarem individualmente presentes dos doentes. Podem fazer-se doações em dinheiro ou oferecer presentes em géneros a instituições (hospitais, secções de apoio domiciliário, lares, etc.), mas não a pessoas individuais. E quando uma doente minha quis oferecer-me uma garrafa de vinho pelo Natal, eu, inexperiente e fiel ao que me ensinavam na escola, recusei: que agradecia imenso, exatamente como se tivesse aceitado, que era de uma grande gentileza da parte dela e ficava muito sensibilizado, mas que, infelizmente, as regras eram regras e não podia aceitar. No dia seguinte, a minha supervisora de estágio chamou-me: 

− A Irene está inconsolável, pediu para falar comigo e tinha as lágrimas nos olhos: disse-me que tinha pedido à filha para lhe trazer de Copenhaga uma garrafa de vinho para ti e que tu não aceitaste o presente, porque era contra as normas. Enfim, é o teu primeiro estágio e eu percebo, mas agora vais aprender uma coisa que não vem nos teus manuais: o que é mesmo contra todas as normas da nossa profissão é deixar uma pessoa desolada recusando-lhe um presente que, para ela, é importante dar. De maneira que vais já a casa da I., aceitas a garrafa de vinho e pronto!

A partir daí, tive uma atitude menos rígida em relação aos presentes dos meus doentes. À Tove, não me passou sequer pela cabeça tentar recusar as meias, quando ela mas ofereceu. Fiquei muito contente e ela também e é assim que devem ser as ofertas.

A Tove tinha mais de noventa anos e vivia sozinha. Íamos lá a casa duas vezes por semana, para lhe esfregar as pernas com um creme, muito devagarinho, muito delicadamente, que as pernas, magríssimas e escamadas, doíam-lhe muito, muito!, e de quinze em quinze dias para lhe organizar os medicamentos em caixas diárias, manhã, almoço, jantar e noite. Estava sempre de boné de pala dentro de casa a fazer paciências de cartas na mesa da cozinha e tinha sempre as cortinas corridas. Contou-me que tinha nascido na Jutlândia e vindo aqui para a aldeia ainda rapariga, para trabalhar como criada de servir. E depois tinha conhecido um homem daqui e tinha-se casado e tinha passado a ser dona de casa — o que, se não lhe tinha alterado muito a vida diária, tinha aumentado muito o seu estatuto social. Quando o marido morreu, já há muitos anos, já os filhos eram adultos e se tinham mudado para Copenhaga, de maneira que ficou ali sozinha, naquela casa antiga de divisões pequenas, tetos baixos e telhado de colmo, e a vida dela era fazer paciências de cartas, comer alguma coisita de vez em quando e tricotar meias de lã, que vendia — e às vezes oferecia.

Vi-a pela última vez numa terça-feira de pesadelo. Tinha comigo uma colega nova, a quem estava a fazer uma introdução ao trabalho. Tinha, nessa manhã, uma visita extra à Tove. Uma colega minha tinha escrito, no dia anterior, que a Tove se tinha queixado de uma indisposição indefinida que depois lhe tinha passado e eu tinha de ir ver como ela estava. Num cruzamento perto da casa da Tove, vimos fumo a sair de uma casa. Era uma casa de um doente nosso e eu sabia que ele, paralisado, estava dentro de casa. Enquanto a minha colega ligava para os bombeiros, eu e mais uns vizinhos que tinham aparecido nessa altura corremos para socorrer o homem, mas era tarde demais: o interior da casa estava todo em chamas. Era impossível entrar e ele estava com toda a certeza já morto há algum tempo. Depois de um quarto de hora de horror, quando chegaram os bombeiros, seguimos então para casa da Tove. Podem imaginar o nosso estado de espírito.

Vamos encontrar a Tove no quarto, caída no chão, com um braço bastante esfacelado pela queda. Não responde quando a chamamos, mas reage ao contacto físico:

− Estou morta, não estou? Digam lá: morri, não morri?

Faço-lhe as perguntas habituais para avaliar a consciência. Sabe quem é, onde está, que dia é e sabe que que caiu. Também sabe quem eu sou. Só não sabe há quanto ali está caída no chão. Tentamos de várias maneiras levantá-la para a sentar, mas, de cada vez, começa a gritar muito. Queixa-se da coxa. Quando a apalpo, começa a gritar de novo. O que se faz numa situação destas é chamar o 112 e foi isso que eu fiz.

Soube depois que, afinal, não tinha nada partido. Nunca cheguei a saber o que é ela tinha, mas soube que nunca voltou a casa: morreu no hospital. 

Sou um bocadinho animista, acho eu: no meio dos milhares de objetos desalmados que se acumulam — que vamos acumulando — à nossa volta, há uns quantos que têm alma. São aqueles de que podemos contar histórias. Como as meias da Tove. As meias que ela me ofereceu, quero eu dizer — mas vocês tinham entendido… 


[Os nomes são fictícios, claro, mas a história é verdadeira, como indica, aliás, uma das etiquetas abaixo. Ilustração: Knud Holger Olsen: Quintal em Troense, óleo sobre tela, 1922, Wikimedia Commons, daqui.]


15/12/25

Dormência, hibernação

Ainda não houve este ano, aqui na Fiónia, nenhum dia de temperaturas negativas, nem isso é necessário para se sentir o peso todo do inverno. A escuridão marca o inverno mais que o frio.

Lá fora no quintal, está tudo preparado para hibernar. Já podei as árvores e já cobrimos a horta com um plástico que nos evita, quando a vida retorna à terra, muita erva daninha.  





16/10/25

Weblog: 15 de outubro de 2025 [Crónicas de Svendborg #53]

[Dizem-me várias definições de blogue que, no início, os weblogs, eram sobretudo diários online.  Este blogue, que já nasceu tarde, raramente o tem sido. Mas hoje é. Mais ou menos…]

E eis-nos no fim da primeira quinzena de Outubro. O frio ainda não chegou, mas de manhã, às vezes, já calço luvas quando vou de bicicleta para o trabalho. Já está escuro de manhã quando saio de casa às seis e meia, mas ainda é de dia quando a Karen chega a casa às cinco. Para ser mais concreto, o sol nasceu hoje às 7:48 e vai pôr-se às 18.17 e temos hoje 14 graus de máxima e 11 de mínima.

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As folhas começam a cair e caem das árvores as últimas maçãs. A horta já pouco ou nada mais dará este ano. Ainda não há perigo de temperaturas negativas, mas vamos apanhando batatas, cenouras, cebolas, alhos e beterrabas, para os guardar na oficina ou na despensa, que são as partes da casa que não aquecemos. Os tupinambos e as beterrabas ainda podem esperar mais um bocadinho. As acelgas, deixamo-las ficar e vamos só tirando as folhas de que vamos precisando, que nunca se cansam de fazer folhas novas, às vezes pelo inverno dentro.




Foto: A horta, ou o que resta dela nesta altura. A cerca de arame, que talvez estranhem, é por causa de corços e gamos, que comem tudo.

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Apanhámos há duas semanas 280 quilos de maçãs, que fomos levar à fábrica de sumo. O modelo de negócio da fábrica é um litro de sumo, já pasteurizado, por cada 10 quilos de maçãs. É claro, não é sumo das nossas maçãs que nos dão, é sumo de maçãs que foram entregues no dia anterior. Mas só aceitam maçãs como as nossas, de amadores que não utilizam pesticidas. É bom negócio para a fábrica, mas não para nós: se contarmos o preço do nosso trabalho, saem-nos muito mais caros estes 28 litros de sumo na fábrica do que comprá-los na loja, as umas 15 coroas (± 2 €) por litro. Mas é só para não se estragar tanta maçã.




Fotos: O ano passado, fiz uma poda bastante radical de algumas macieiras, a ver se lhes reduzia a produção, mas continuam a produzir muito. Foi difícil meter 280 quilos de maçãs no carro (houve anos em que tivemos de usar um atrelado), mas conseguimos. À volta, já havia muito espaço livre.

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Agora, mesmo apanhando 280 quilos de maçã, estraga-se sempre muito mais que isso. Começam as maçãs a cair para o chão em julho e só agora, em outubro, caem as últimas. Enquanto não arranjamos tempo para as apanhar e levar à fábrica, como fizemos agora, vão parar várias centenas de quilos ao monte de composto no fundo do quintal. Depois de apanharmos todas as maçãs que conseguíamos apanhar, continuaram a cair as das árvores altas, que já não eram podadas com certeza há muito tempo quando comprámos a casa e que, agora, não há maneira de podar. No fim de semana passado, apanhei e pus no composto, destas maçãs, mais umas centenas de quilos. Agora já poucas mais hão de cair.  
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É claro, nós fazemos tudo e mais alguma coisa com maçãs, compotas e doces vários, e fartamo-nos de comer maçãs na época delas, mas não damos vazão nem de um décimo. E nem sequer faz muito sentido convidar os vizinhos a virem-se servir das nossas maçãs — toda a gente aqui na terra tem maçãs e alguns têm o mesmo problema de excesso de produção que nós temos.




Foto: Maçã caramelizada no forno a baixa temperatura com açúcar mascavado e canela. Com um bocadinho crème fraîche por cima, dão uma deliciosa sobremesa.

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Na horta, temos feito todos os anos acelgas, batatas, curgetes, fava, feijão-catarino e morangos (muito poucos), mas o resto vai variando de ano para ano. Nos últimos anos, temos também tido sempre beterrabas, espargos, framboesas e uvas. Este ano, tivemos também alho, beterraba, cebola, cenoura, chicória italiana (radicchio) e feijão-branco. Fora da horta, tivemos tomate, pepino e piripiri, na estufa; e há também groselhas pretas, vermelhas e verdes, e amoras, espalhadas pelo quintal. E tivemos pela primeira vez muitos figos e muitas rainhas-cláudias, muito bons tanto aqueles como estas.

Foto: Uma sopa feita só com produtos na nossa horta, tirando, claro, o sal e o azeite: cozi primeiro o feijão-branco fresco, porque não sabia quanto tempo ia demorar a cozer e não o queria muito espapaçado. Noutro tacho refoguei cebola, alho, cenoura, um jalapeño não muito forte e os talos das acelgas, tudo em cubos pequenos, e juntei-lhe depois um bocadinho de tomate. Cozi as acelgas à parte, em água muito salgada, só durante dois minutos e passei depois por água fria. Juntei ao refogado o feijão e a água onde o tinha cozido, e batatas cortadas em cubos grandes. Deixei cozer um bocadinho e juntei curgete cortada em juliana grande. Deixei cozer mais um bocadinho e juntei as acelgas.

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Foto: Uma bonita (e saborosa salada) salada que a Karen fez, com flores comestíveis que eu não sei como se chamam. A couve-roxa não é do quintal, mas a beterraba e as flores são. Temos muita beterraba, mais do que conseguimos comer, e eu tento arranjar maneiras de a preparar (borche, assada no forno com molho de tahini e limão, seca no forno em tiras muito fininhas, sei lá que mais...), mas também não se pode comer beterraba todos os dias, não é verdade?
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Foto: Feijão-catarino e feijão-branco e secar. As nozes por baixo do feijão-branco também estão a secar, mas não são do nosso quintal. Comprei-as frescas aqui na aldeia.

Eis-nos então no fim da primeira quinzena de outubro. Até agora, tem sido um outono suave. A próxima tarefa no quintal é podar as macieiras.   


18/06/25

Andar

 

Antes de nos sedentarizarmos, passávamos a vida a andar. Os humanos, quero eu dizer. E andar faz bem. Não se preocupem, não vos vou tentar impingir, à maneira de quem propõe dietas paleolíticas e sacrifícios afins, que haja em nós algo essencial perdido com a vida moderna e que é necessário retornar a uma primitiva perfeição. Quando digo que andar faz bem, é só isso que quero dizer, sem mais. Pelo menos, mal não faz de certeza.

Sonny Terry  & Brownie MacGee: "Walk on", ao vivo em 1965

Well, when your mind gets worried, when your shoes get thin
You don't know where you goin', but you do know where you been
Walk on, walk on, walk on, I walk on
I'm gonna keep on walkin' 'til I find my way back home

 

Sempre gostei de andar. Em rapaz, muitas vezes fazia vários quilómetros a pé, em vez de apanhar transportes. Nos cerca de 11.000 km que fiz à boleia entre os 15 e os 22 anos*, quando não apanhava boleia ao fim de uma meia horita, punha-me muitas vezes a andar, em vez de ficar especado no mesmo sítio de polegar estendido. O que resultou em boas caminhadas, sozinho ou acompanhado. É claro, esqueci já muitas delas, mas há algumas que recordo ainda com prazer: de Leiria a Tomar, com pernoite num bosque a meio caminho, de Loulé a Barranco do Velho, com muito calor e a barriga vazia; de St. Jean-de-Luz a Bayonne, da primeira vez que fui a França; por exemplo... Lembro-me de que uma vez, algures no Maciço Central francês, fiz mais de quarenta quilómetros de seguida, a caminhar desde a tardinha ao amanhecer, até que, já dia, parou um médico do SAMU que ia com muita pressa. É bem capaz de ter sido, de uma vez só, a mais longa caminhada da minha vida.

Agora, sempre fiz só distâncias relativamente curtas de cada vez. Nunca andei centenas de quilómetros, como conheço quem tenha feito ou esteja a fazer. Nunca fiz nenhum troço do caminho de Santiago de Compostela, por exemplo. Mas, por acaso, é coisa que ainda gostava de fazer. Não como peregrino, só como incréu caminhante. A ver se me meto ao caminho antes que me falte a força nas pernas.

A minha maior companheira de caminhadas é a minha mulher. Aliás, o primeiro fim de semana que ela e eu passámos juntos, quando nos conhecemos faz em breve 29 anos, passámo-lo a andar. Lembro-me bem da primeira caminhada grande que fizemos, do topo da Serra da Estrela até Manteigas. E andar continua a ser das coisas que mais fazemos juntos. Ter assim um interesse em comum com outra pessoa é bom cimento de uma relação. Tudo não será, mas é meio caminho andado.

Joan Manuel Serrat: "Cantares", 1969

Antonio Machado, "Proverbios y cantares (XXIX)", 1912

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

Ponho-me a passear pela memória das caminhadas que fiz e não sei escolher as mais bonitas. Nem as mais interessantes. Pergunto à minha mulher, a ver o que ele acha. Das caminhadas que fez sozinha, escolhe três semanas no Nepal, mais de vinte anos antes de me conhecer. Juntos, assentamos que talvez os três dias a caminhar na selva amazónica no natal de 2000, a que se aplicavam bem, literalizando-os, os versos famosos de Machado, «faz-se caminho ao andar»; ou os quatro dias de Mestia a Ushguli no Cáucaso georgiano; ou as caminhadas nos irreais bosques de fetos arbóreos da Reunião ou, também na Reunião, a deslumbrante subida ao Piton de la Fournaise. Mas é difícil dizer… Uma minúscula parte dos caminhos do mundo. Por mais que caminhemos, o que nos falta sempre andar!...

A ideia de publicar um pequeno texto sobre caminhadas surgiu de uma nota que tomei em março deste ano, a propósito de um passeio nas montanhas de Ella, no Seri Lanca. Nós lá íamos, a caminhar à beira da estrada, porque não havia outro caminho. (Tínhamos feito, no dia anterior, uma agradável caminhada pelas plantações de chá, fora das rotas turísticas, e eu tinha sido atacado por sanguessugas terrestres que, rai’s as partam!, injetam anticoagulante na vítima, para poderem chupar o sangue à vontade, de maneira que as feridas demoram umas duas horas a parar de sangrar.) Íamos em direção a um conhecido pagode budista, mas não era o pagode em si o nosso destino, íamos só a andar, sem mais, como é nosso costume. E estavam sempre a parar tuquetuques a oferecer os seus serviços para nos levarem ao templo. Que era muito longe para se ir a pé, diziam os tuquetuqueiros. E eu dizia que que não precisávamos, que íamos a passear. E não eram só os homens dos tuquetuques que achavam longa a distância, também os peregrinos. Os que não iam de autocarro de excursão, iam em táxis ou de tuquetuques que apanhavam na cidade.

«Será que esperam ganhar assim melhor carma?», diverti-me eu a pensar. «Nós, que não somos peregrinos, vamos a pé. Não é também a pé que deviam ir eles que o são?»

Félix Leclerc, "Moi mes souliers", 1951

Moi, mes souliers ont beaucoup voyagé
Ils m'ont porté de l'école à la guerre
J'ai traversé sur mes souliers ferrés
Le monde et sa misère […]

S'ils ont marché pour trouver le débouché
S'ils ont traîné de village en village
J'suis pas rendu plus loin qu'à mon lever
Mais devenu plus sage 
[…]

Au paradis, paraît-il, mes amis
C'est pas la place pour les souliers vernis
Dépêchez-vous de salir vos souliers
Si vous voulez être pardonnés

________________

* Dei-me ao trabalho de fazer contas, de uma vez que estava num estado de espírito retrospetivo. E contei só viagens grandes, não boleias curtas (de que, claro, não me conseguia lembrar).










02/05/25

Letra de médico

Dizia um artigo da Time de janeiro de 2007:

A descuidada letra dos médicos mata mais de 7000 pessoas anualmente. É uma estatística chocante e, segundo um relatório de julho de 2006 do Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências, há também erros de medicação evitáveis que afetam mais de  milhão e meio de americanos anualmente, muitos dos quais resultam de abreviaturas e indicações de dosagem pouco claras e de letra ilegível em algumas das 3,2 mil milhões de receitas passadas nos Estados Unidos todos os anos.

Não faço ideia de qual seria a dimensão do problemas noutros países, mas, como todos sabemos, não é só nos Estados Unidos que a letra de médico tem uma longa e robusta tradição de ilegibilidade. E é incompreensível! Quero dizer, não só a letra de médico é incompreensível como é incompreensível que ela seja incompreensível. Porque será que os médicos escrevem assim? Enfim, ainda bem que agora as receitas já são eletrónicas em muitos sítios.

O rabisco abaixo é uma brincadeira que tem andado aí pela Internet e de que, infelizmente, não consigo descobrir o autor. Anónimo, passa ele então a chamar-se aqui. Sabem o que quer isto dizer (em letra de médico, claro)?

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É paracetamol, obviamente (!?).

E porque estou agora a escrever isto? Bom, recebi há bocadinho uma mensagem de uma amigo meu que é médico (ou era, seja, está reformado), em que ele me pedia a morada de um amigo comum.

«Tu já me deste a morada», escreve ele, «mas tomei nota num papel e agora não consigo ler a minha letra.»

 A sério. Para que vejam.





29/03/25

Da memória: o almoço de G. e outras histórias [Crónicas de Svendborg #50]

 

Visita da manhã a G. G. sofre de demência, mas ainda tem consciência da sua doença. Já está vestida e arranjada quando chego. Dou-lhe os medicamentos da manhã, sirvo-lhe o pequeno-almoço e digo-lhe que vou fazer também uma sandes para o almoço*. Ela diz que não vale a pena, que faz ela o almoço quando for hora de almoçar.
− Mas sabe que se esquece das coisas – digo eu. − E depois esquece-se de fazer almoço.
− Eu sei, eu sei... – responde G. – Mas também o almoço estar já feito não faz diferença nenhuma: mesmo que fique aqui à minha frente, eu depois esqueço-me de o comer… 

★ ★ ★

Ruínas de adobe, Camargo, Bolívia.
Agora, mesmo não sofrendo de nenhuma doença que afete as capacidades cognitivas, porém – e num grau completamente diferente! –, é certo e sabido que basta avançar na idade para que a memória deixe de funcionar como estávamos habituados a que funcionasse… Onde pus as chaves?, o que é que queria fazer?, como se chama o vocalista dos Calexico? E então a gente começa a lidar com a nova condição de uma forma racional: tomar nota das coisas. Para depois, repetidas vezes, se esquecer em casa da lista de compras, por exemplo… 

_______________

* A história passa-se na Dinamarca e fazer uma sandes é a tradução possível de smørre en mad, literalmente «barrar uma comida», que significa pôr alguma coisa em cima de uma fatia de pão de centeio. Sandes abertas de pão de centeio continuam a ser o almoço dinamarquês mais comum , embora as novas gerações muitas vezes já prefiram saladas ou um prato quente.

03/09/24

O inferno [Crónicas de Svendborg #49]


 Hoje vi uma casa arder com uma pessoa lá dentro.

E éramos várias pessoas cá fora, a não poder fazer nada — que podem uns baldes de água quando uma casa está toda em chamas? — e todos nós conhecíamos o homem que já estava morto lá dentro e todos tínhamos por ele simpatia, alguns até amizade.

Uma casa a arder com uma pessoa lá dentro. O inferno.  


10/12/23

O bom filho...

Mais uma história verdadeira, acabadinha de se passar:

A minha amiga S. andou dez anos à procura de um livro – uma biografia de Henning Mankell por Kirsten Jacobsen. Comprou o livro em 2011, gostou muito dele, fez publicidade da obra junto dos amigos e emprestou-a a um deles. Mas a quem? S. esqueceu-se, não sabia a quem tinha emprestado o livro. 

Durante dez anos, insistiu com os amigos todos: «Mas vê lá se não é tu que o lá tens... Alguém o há de ter...» Mas não, ninguém tinha o livro. A semana passada, S. desistiu da busca e comprou o livro na internet, em segunda mão.

Quando o recebeu e o abriu, viu numa das guardas o seu nome, escrito pela sua própria mão e a data «Out. 2011». Tinha comprado o seu próprio livro, desparecido dez anos antes.   

03/12/23

Mais uma estranha história de Natal [Crónicas de Svendborg #48]


Uma vez contei aqui uma maravilhosa história de Natal que se passou connosco em Moçambique e que vos aconselho, se a não leram ainda. E como estamos agora a entrar nessa quadra, conto-vos outra. Não é tão bonita como a primeira, mas é como ela bastante surpreendente.

No princípio de 2023, se não me falha a memória (ou teria sido logo a seguir ao Natal?, a memória falha‑me muito…), recebemos uma estranha carta: vinha da Suécia e estava endereçada a Karen e Jan Lindegaard, no nº 3 da Slotsalléen. Nós moramos no nº 30. Era estranho recebermos uma carta para outro casal Lindegaard que nós nem sonhávamos que existisse aqui na aldeia; e mais ainda termos recebido uma carta para o nº 3. Estes serviços de correio! A explicação era, com certeza, o facto de morar aqui uma Karen Lindegaard — devia ter sido isso a causar a confusão.

Mas, afinal, não tinham sido os serviços de correio a entregar aqui a carta. Fomos logo ao nº 3, claro está, entregar o postal na morada certa, e ficámos a saber que não moravam lá nenhuns Lindegaard, e nem nenhuma Karen nem nenhum Jan. Tinham sido os moradores do nº 3 que, depois de uma breve pesquisa, tinham descoberto que havia uma Karen Lindegaard no nº 30 e nos tinham vindo pôr a carta na caixa do correio. 

Lindegaard não é um apelido comum, mas é originário daqui da Fiónia, ao que parece, e há aqui na região mais Lindegaards que no resto do país. Mas, por mais que procurássemos, não conseguimos descobrir mais nenhuns Lindegaards aqui em Troense e arredores. 

Decidimos abrir o envelope. Tinha lá dentro um postal feito à mão. Uma colagem com duas crianças ao fundo e o que parece ser um cão em primeiro plano, e votos de bom Natal, em sueco, de uma família Nordström. Nós não conhecemos nenhuma família Nordström. E porque havíamos de conhecer? O postal não era para nós. Ou era? Alguém que pensava que a Karen estava casada com um Jan? No nº 3 da nossa rua? 

Nada disto faz muito sentido. O postal, bom, há quem encontre algo sinistro na simpática foto familiar, mas isso também é ir longe demais, não vos parece? Há 20 anos, tudo isto me teria servido de inspiração para um conto do género fantástico. (E escrevo «um conto do género fantástico», porque, se escrever só «um conto fantástico», sou capaz de ser treslido como pretensioso…). Agora, serve só para um post de blogue…

Notem que os retângulos negros a cobrir os olhos dos miúdos não existem no postal original, também não exageremos na estranheza da missiva. Fui eu que os lá pus, para publicar a foto, porque não quero publicar fotos reconhecíveis de pessoas que não me deram autorização para as publicar.


15/11/23

A história de Charles e de outros poliglotas

Conheço um senhor chamado Charles que nasceu na Occitânia, já não me lembro onde, por alturas do início da Segunda Guerra Mundial. Os pais dele eram judeus polacos da Galícia (que faz hoje parte da Ucrânia) e tinham fugido para França das perseguições aos judeus na sua terra. Não me lembro já porquê (talvez o pai e a mãe tivessem línguas maternas diferentes), Charles aprendeu em casa o iídiche e o polaco. Na rua, aprendeu occitano. E só quando entrou para a escola começou a aprender francês, que é hoje a língua que melhor domina. Mais tarde, porque o trabalho o levou para outros países, aprendeu também inglês e alemão (que foi fácil para ele, por já saber iídiche), mas isso é outra história. 

Esta história de plurilinguismo, que parecerá estranha a quem cresceu e viveu sempre numa língua só, como é o caso da grande maioria dos portugueses, não é tão extraordinária como isso. Um dos melhores amigos do meu filho na Escola Internacional de Chimoio, em Moçambique, o Wilhelm, era alemão e, quando viemos para a Dinamarca, a família do Wilhelm mudou-se também para a Alemanha. Quando o fomos um dia visitar perto de Niböl, não muito longe da fronteira dano-alemã, ficámos a saber que coexistiam ali pessoas de quatro línguas maternas.  O amigo do meu filho falava português, inglês e alemão (alemão standard, alto-alemão) e andava agora numa escola dinamarquesa, onde aprendia dinamarquês e alemão. Os pais tinham escolhido a escola dinamarquesa porque achavam que era a melhor da zona, e há ali uma escola dinamarquesa porque vivem ali muitas famílias (alemãs) de língua dinamarquesa, até porque a região fez, durante muito tempo, parte da Dinamarca. Mas também há, na zona, quem tenha o baixo-alemão como língua materna e o frísio. No sul da Dinamarca, também há ainda famílias que têm o alemão como língua materna. Não sei se alguma vez houve quem tivesse o baixo-alemão como língua materna na Dinamarca, nunca ouvi nem li nada sobre isso, mas sei que já houve falantes de frísio, que agora já não existem. O frísio é ainda uma das línguas oficiais dos Países Baixos, e, entre este país e a Alemanha, tem agora cerca de 480.000 falantes nativos. 

A escolarização é em parte responsável pelo desaparecimento de muitas línguas que os governos das várias nações não quiseram durante muito tempo considerar oficiais e que não foram, por isso, línguas de ensino e administração. Além disso, os estados-nação modernos tiveram, muitas vezes, políticas de repressão brutal das línguas que não eram consideradas oficiais. 

França é um bom exemplo dessa erradicação das línguas nacionais — violenta e bastante bem-sucedida —, mas não é o único. Fiz as minhas primeiras viagens em França em 1976 e ainda cheguei a encontrar franceses, falantes de catalão ou de poitevino-saintongês, que falavam pouco francês (e cheguei até a conhecer dois deles, um casal, quando vivi num lugarejo perto de Niort), mas os jovens franceses de hoje já não têm como língua materna o provençal, o occitano, o bretão, o catalão, o picardo, o normando e por aí fora. Com sorte, e sobretudo se não forem de uma cidade grande, ainda compreendem um bocadinho dessas línguas, porque as ouviram ou ouvem falar aos mais velhos. E o mesmo em Itália e em muito outros países. 

Conheci há pouco tempo o Luigi, um genovês de trinta e cinco anos, que dizia saber mesmo muito pouco genovês (ou lígure, se preferirem).  Dizia que, às pessoas citadinas da idade dele ou mais jovens, não lhes servia de nada o genovês. Se vivesse no campo, era capaz de ter aprendido. Mas chateava-o, na sua qualidade fã de Fabrizio de André, só compreender as letras em italiano oficial (toscano) e não perceber as outras que o grande cantautor fez na língua da sua cidade natal. Na Ligúria, menos de 10% das pessoas falam lígure. Nem sempre a situação das outras línguas italianas (veneto, friulano, piemontês, lombardo, siciliano, tantas que há…) é tão grave como a do genovês, mas estão todas ou definitivamente ameaçadas ou gravemente ameaçadas, para usar a terminologia do UNESCO. Curiosamente, as línguas que, nas regiões onde são faladas, têm maior percentagem de falantes nativos relativamente ao italiano não são línguas latinas, mas sim línguas germânicas — falares tiroleses e alemânicos.

Passando agora da Europa para África, também conheci em Moçambique muitos poliglotas. Moçambique tem muitas línguas (contam-se entre oito e 41, mas é sempre difícil contar línguas) e as pessoas com formação profissional começaram a ter muita mobilidade. Funcionários do Estado a maior parte deles, iam sendo colocados em vários lugares, onde ficavam quatro ou cinco anos. Dou-vos um exemplo de um senhor que conheci chamado Monteiro. O Monteiro era do Alto Molócuè e de língua materna lómuè, mas tinha estudado em Quelimane, onde tinha adquirido um nível razoável de chuabo e depois trabalhado muito tempo em Maputo, onde aprendeu bastante ronga e changana, e depois de uns anos na sua terra natal, mudou-se para Chimoio, onde aprendeu chona. Além disso, também falava muito bem português, como seria de esperar de uma pessoa com o seu nível de educação, toda ela em português. Em Moçambique, é o português que cresce a olhos vistos (língua materna de cerca de 5% da população em meados dos anos 90, é agora a língua materna de cerca de 17% dos moçambicanos), mas não há, por enquanto, perigo de abafar completamente as línguas com que convive. Por enquanto.     

E isto tudo a propósito de quê? De nada de especial, é mais um texto ao correr do teclado, a propósito de línguas e pessoas que conheço e recordações de viagens. Falo aqui de duas coisas diferentes: de sítios onde se falam várias línguas e de pessoas que falam várias línguas. São coisas diferentes. Há pessoas que falam só uma língua, embora sejam de sítios onde se falam várias; e há pessoas que falam várias línguas e são de sítios onde se fala só uma. Agora, feliz ou infelizmente — vocês julgarão, com a cabeça e com o coração — cada vez se fala mais a língua oficial de cada país e as outras vão desaparecendo…

Como se ilustra um texto assim? Que tal uma versão frísia de uma bonita canção originalmente escrita em sueco por um cantautor de língua materna neerlandesa?

14/11/23

M. e Deus [Crónicas de Svenddborg #47]


M. tem agora 99 anos. Há já muito tempo que anda zangada: com a família, com o pessoal do apoio domiciliário, com o centro de dia… E com Deus:

«Quando era jovem, gritei para quem me queria ouvir que Deus era uma porcaria. Bom, na altura não acreditava nele, por isso achava que podia dizer o que quisesse sobre ele, sem que isso tivesse consequência nenhuma. Na realidade, não pensava muito nisso. Mas agora é diferente, agora estou sempre a pensar nisso. Agora acredito que Deus existe e que há um Céu e um Inverno para onde nós vamos quando morrermos. E por isso sei que que vou para o Inferno. Agora, não pense que a minha opinião sobre Deus mudou desde que acredito que ele existe. Sou contra Deus e as suas leis e os seus crimes. Não acredito que os deuses tenham direito a mandar na gente. Era o que faltava! E o mal todo que ele faz? Devia haver um tribunal para julgar Deus!»

Ficamos alguns segundos em silêncio (não sei o que hei de dizer…) e M. continua:

«E agora, diga lá, o que acha que devo fazer: continuo a pensar na morte ou vou até à taberna?» 


10/11/23

Uma terra de animais felizes

Uma coisa que chama a atenção a todos os estrangeiros, quando entram na Geórgia (e sobretudo se não aterrarem em Tiblíssi), é a grande quantidade de animais à solta no espaço público, sem pastores nem ninguém que tome conta deles: vacas, porcos, cães e cavalos nas ruas, nas estradas, nas autoestradas, por todo o lado, enfim.

Conheci ainda em Portugal, os cães vadios nas cidades e, fora delas, outros animais domésticos a deambular sem grandes restrições, também à beira das estradas; e vivi, em África e na América, em lugares onde muitos animais domésticos e cães vadios gozavam também de grande liberdade. Também não é só na Geórgia que os cães vadios são controlados e vacinados pelas autoridades. Mas na Geórgia os cães vadios são mais simpáticos e estão mais bem tratados. Nunca vi cães vadios agressivos, nem se veem nas ruas cães magros ou doentes. Várias vezes, nas cidades ou fora delas, fomos acompanhados por cães vadios durante muito tempo. Pareciam escoltar-nos, metendo-se entre nós e as pessoas com que nos cruzávamos, como que a proteger-nos; mas isto pode, claro, ser imaginação nossa. Às vezes, em percursos mais longos, um cão deixava a certa altura de nos acompanhar — talvez por não querer sair de um determinado território, vá lá uma pessoa saber porquê… — e aparecia outro para o revezar. Nunca pedincham, nem nas esplanadas de cafés ou restaurantes.
Uma vez, num dos nossos passeios no Alto Svaneti, veio juntar-se a nós um grande cão branco, muito limpo e bem tratado, que nos acompanhou durante uns bons dez quilómetros. Quando parámos numa aldeola, para comer uma sopa e beber uma cerveja, ficou ali um bocado à nossa espera e depois acabou por se ir embora. «É daqui da aldeia?», perguntamos ao homem do estabelecimento. Nunca o tinha visto, dali não era de certeza. São assim: acompanham os caminhantes, mas depois separam-se deles e vão à sua vida. Como farão no inverno, quando gela o Cáucaso?
Sobretudo, nunca noutros países os cães vadios e outros animais todos — que, não sendo vadios, passam a vida a vadiar — me pareceram tão felizes. Evidentemente, ninguém sabe, olhando para um bicho, se ele é feliz ou não. Mas enfim, costumam agora considerar-se animais domésticos felizes os que têm liberdade de decisão e movimentos, e parece-me uma maneira sensata de definir a felicidade dos animais. Falei várias vezes disto com outros estrangeiros de visita à Geórgia ou lá residentes, e todos eles estavam também agradavelmente surpreendidos como a maneira como os animais são tratados no país. E pensei: não deve ser assim tão difícil passar a tratar os animais, nos outros países, como eles aqui são tratados. Que pode ser perigoso deixar andar os animais à solta, causar acidentes? Corremos uma boa parte da Geórgia, das duas vezes que lá estivemos (é um país pequeno, cerca de dois terços de Portugal). Não vimos um único mamífero morto na estrada (só duas ou três aves), nem nunca vimos um acidente com animais. Deve ser por as pessoas terem mais cuidado com os bichos, por estarem habituadas a que eles andem por todo o lado. 

O que eu vi, isso sim, foi porcos a fazerem muita porcaria no meio de uma vila. É a natureza deles, não é verdade?  

Também tanta liberdade pode parecer às vezes exagerada. Na segunda noite de uma caminhada de Mestia para Ushguli, paramos para dormir numa aldeia chamada Adishi. No dia seguinte, tínhamos de atravessar um rio, que estava demasiado cheio para se passar a vau, ao que nos disseram. Mas havia quem atravessasse os viajantes a cavalo. A dona da pensão disse-nos que a filha, uma rapariga de 14 anos, tinha um cavalo e podia passar-nos. Falámos com a rapariga e combinámos o preço. Fez-nos um bocadinho mais barato que o habitual. No dia seguinte, quando estávamos prontos para seguir viagem, veio a rapariga dizer-nos que, afinal, não nos podia levar. Tinha andado à procura do cavalo no dia anterior, mas não o tinha encontrado. «Fugiu?», perguntamos nós. Não, não, ele não fugia, mas, como andava sempre à solta pelos montes, ela nem sempre sabia onde ele estava e tinha de esperar até ele voltar para casa — quando lhe apetecia. 

26/10/23

Alguém a quem falar [Crónicas de Svenddborg #46]

 

B. partiu a tíbia e foi operada. Voltou a casa logo após a operação e tem de começar de imediato a mexer-se, se quer que a perna alguma vez volte a funcionar mais ou menos. O pessoal do apoio domiciliário sabe muito bem o que deve fazer para a mobilizar o mais possível. E é isso que faz. 

B. protesta às vezes, se tem dores. O pessoal do apoio domiciliário é paciente e cuidadoso, e vai fazendo com que ela se mexa o mais que pode. Enquanto duram as visitas, B. não para de falar. Fala de tudo e mais alguma coisa, fala, fala, fala. As pessoas do apoio domiciliário mantêm-se o mais das vezes caladas, tirando explicar a B. o que vão fazer a seguir e porquê, e insistir na necessidade de ela se mexer o mais possível, porque senão, com aquela, idade, já não volta a andar sozinha.  

B. não para de falar e é difícil para o pessoal do apoio domiciliário terminar a visita de uma forma que não seja muito abrupta, que ela talvez sinta como um pouco rude, até, ou como abandono, desinteresse. É claro que há ali um desentendimento: eles vão lá a casa para a ajudarem a fazer o exercício necessário para poder voltar a andar; mas voltar a andar não é o maior desejo dela — ela quer é alguém que a ouça, alguém a quem falar.  


21/06/22

Dois artigos de jornal [Crónicas de Svenddborg #43]

Dois artigos curiosos de jornais dinamarqueses:

O primeiro é do Semanário de Svendborg (UgeAvisen Svendborg), um dos jornais locais que recebemos gratuitamente. É um artigo de setembro do ano passado e conta a história de Ebba Hackmann, uma senhora que, quando o artigo foi publicado, fazia trabalho administrativo na firma Elektro Svendborg – desde 1959! Digo fazia, porque não sei se a senhora continua a trabalhar. Ebba tinha nessa altura 91 anos e continuava a trabalhar a tempo inteiro. A firma é agora da filha, mas já foi dela e do marido. O marido tinha morrido três anos antes, com 91 anos, e também trabalhou sempre na firma até morrer. Quando a filha ficou a ser proprietária da firma, em 2007, Axel Hackmann, então com 80 anos, passou de diretor a paquete e foi como paquete que continuou a trabalhar até ao fim da vida. 

O segundo artigo é muito mais antigo. Na página em que o encontrei, não dizia, infelizmente, em que jornal tinha sido publicado. Podia bem ser um conto romântico, ou parte dele, mas é apenas uma notícia de jornal, de 15 de fevereiro de 1915. 

«Uma senhora idosa, pobre mas bem vestida, entrou no “Prestamista Barato”, em Overgaden Neden Vandet Nº 29, em Copenhague, para empenhar a sua aliança de casamento. Olhando para a senhora, era fácil perceber que não tinha sido fácil para ela dirigir-se ao prestamista com a última recordação de momentos felizes. Estava muito abatida, mal conseguia falar e, no momento em que pôs o anel no balcão, caiu inconsciente no chão. O gerente da casa de penhores ligou imediatamente para a polícia e, pouco depois, chegou ao local uma ambulância, que transportou a senhora ao hospital municipal. Lá chegada, porém, os médicos verificaram imediatamente que havia já falecido. A senhora tinha sofrido um ataque cardíaco. E toda a assistência que se lhe pudesse prestar era já em vão.»

Pronto, era só isto. 

19/03/22

História de M.

M. trabalha num lar de idosos em Marselha e trabalha demais. Raramente recusa os turnos extra que lhe propõem quando falta pessoal. Também o trabalho é ali mesmo, mesmo ao lado de casa. Fora do trabalho, M. ajuda outras pessoas. «As pessoas não fazem ideia de como a vida é difícil noutros lugares», repete ela muitas vezes. «Ou aqui, para quem não tem nada. As pessoas têm tantas coisas e nem sonham o que é viver sem ter as coisas que elas têm. Dizem mal dos outros, mas não os percebem. Não fazem ideia do que é a vida deles. As pessoas que vêm ali vender coisas a Noailles, por exemplo. Alguns andam a apanhar tudo o que presta nos caixotes do lixo. Outros dão-lhes coisas. Se calhar, outros roubam também, mas quem é que os pode criticar? Muitos nem podem trabalhar, não lhes dão papéis. Vivem daquilo que vendem. Se não vendem, não comem. É fácil criticar, que não pagam impostos, isto e aquilo, que são marginais. Eu também já os cheguei a criticar. Mas agora sei o que é a vida deles e não os critico. Antes os ajudo no que posso. Neste momento, dou abrigo a um homem do Kosovo. Ligou-me há bocadinho. A polícia fez uma rusga em Noailles. A malta que lá estava a vender e que não tem papéis teve de fugir a correr. Muitos deles deixaram as coisas no chão. É sempre a mesma coisa. Depois vem um camião do lixo e leva aquilo tudo. Era daquilo que aquelas pessoas iam viver um dia ou dois ou mais, mas a polícia deita tudo fora. Aquelas pessoas vivem de quê? A maior parte das pessoas nem sonha o que é a vida daquela gente, o que é a vida de tanta gente... O homem que eu ajudo não pode voltar ao Kosovo. Não lhe dão licença de residência aqui, mas ele também não pode voltar a casa. Se voltar ao Kosovo, matam-no.  Colaborou com os sérvios durante a guerra. Ele era um rapaz novo e não percebia bem as coisas. Mas ninguém se esquece e ninguém lhe perdoa. E eu ajudo-o no que posso, dou-lhe alojamento, mais não posso fazer. As minhas filhas não sabem. Elas ficam zangadas quando sabem que eu ajudo alguém, com dinheiro ou seja lá com o que for. Se quero ajudar alguém, dizem elas, que participe numa organização, numa coisa organizada, que assim com caridade não resolvo nada e um dia ainda me arrependo. Mas elas não percebem bem o que é a vida destas pessoas.»





11/10/21

Reabilitação com guitarra

[Não é uma história de um lar, desta vez, mas sim uma história do hospital. Também ela acontecida, como quase todas as histórias que aqui conto.]

Reunião para combinar os passos e objetivos seguintes do processo de reabilitação neurológica de Jorge: estão presentes o Jorge, a mulher dele e o pessoal do serviço de reabilitação neurológica que mais diretamente trabalha com ela: uma fisioterapeuta, um ergoterapeuta, uma enfermeira e uma médica. Jorge teve um acidente vascular cerebral, de que resultou paralisia parcial do lado direito do corpo. Depois de um mês de reabilitação intensiva, os progressos são muitos: a afasia expressiva praticamente desapareceu e Jorge já consegue fazer sozinho muitas das suas atividades diárias, embora ainda mexa pouco o braço e a perna direita. Está muito satisfeito com os progressos que tem feito, em grande parte devido ao seu grande empenho na reabilitação, e isso vê-se-lhe bem na expressão do rosto.

«E que tal começar a tentar tocar guitarra outra vez? Não fazer dedilhados, claro está, que isso ainda não é possível, mas só palhetar, para treinar a mão direita», propõe a certa altura o ergoterapeuta. Antes do AVC, Jorge era um exímio guitarrista, além de que compunha e escrevia letras para canções.

A expressão de Jorge altera-se completamente. Fica de repente muito triste.

«Nem pensar nisso», diz ele. «A guitarra nunca pode fazer parte do treino. Nunca. Só lhe volto a tocar quando tiver o controlo perfeito da mão direita… Se alguma vez o recuperar, seja… Senão, nunca mais toco numa guitarra.»

02/10/21

Mais duas histórias de um lar

[São histórias verdadeiras, como as anteriores. A segunda é uma das histórias alegres que, como vos disse, também há nos lares.]

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– Era enfermeira, D. Maria Luísa? Vejo que lava muito bem as mãos, como uma profissional.

– Só aprendi a lavar bem as mãos agora com o COVID. Por acaso, quando era rapariga nova, queria ser enfermeira, mas nunca cheguei a ser. Com 17 anos, comecei a trabalhar num hospital, assim só como ajudante. Tinha um horário das 7 às 12 e das 13 às 17, todos os dias. Limpava, lavava, ia buscar coisas, fazia o que me pediam. Era para ganhar prática, para depois começar a estudar para enfermeira.

E depois, um dia, internaram um rapaz da minha idade. Estava muito doente. Não sei o que é que ele tinha. Nunca tive de tratar dele, nem de lhe dar nada, eram só as enfermeiras que tratavam dela. Mas passava às vezes pela cama dele e parava e ficava a olhar para ele. Acho que ele nem sequer me via, nem via ninguém, de tão mal que estava, coitado. Vi-o morrer. E a morte dele perturbou-me tanto que deixei o trabalho no hospital. E decidi que já não queria ser enfermeira.

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– Tem um minutinho para mim, D. Teresa?

– Claro, D. Amélia! Diga lá.

A D. Teresa é a diretora do lar e a D. Amélia é uma das pessoas que lá vive. Está lá a viver há dois anos, mas tem uma longa relação com o lar, que começou muito antes de a D. Amélia ser a diretora. Primeiro, trabalhou lá como enfermeira os últimos doze anos da sua carreira. Quando se reformou, ajudava no centro de dia dois dias por semana, como voluntária. Depois, passou ela própria a ser utente do centro de dia. Finalmente, quando a saúde se deteriorou ainda mais, foi viver para o lar. 

– Estive a falar com a minha filha e com o meu filho, que são os meus herdeiros naturais. Já os pus a par da minha decisão e eles acham muito bem: decidi dar ao lar a minha herança. Não é muito, não pense, mas ajuda. Para atividades extras que não estejam cobertas pelo orçamento normal. Sei lá, festas e espetáculos no lar, passeios, coisas assim. Mas, antes disso, queria já dar um dinheiro que eu tenho no banco e que não me faz falta para fazer uma festa este verão. Um almoço e depois um conjunto a tocar. Gostava que se servisse leitão. O que é que acha?


14/09/21

Duas histórias de um lar


[São histórias que me emocionaram. Pode ser que volte a contar aqui outras histórias de lares, porque sei muitas. Talvez alegres, porque também há muitas histórias alegres nos lares.]

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O Sr. Jorge tem graves problemas de disfagia. É alimentado por sonda já há uns meses.
A Sra. Isabel, irmã do Sr. Jorge, vem visitá-lo ao lar onde ele vive.
A enfermeira entra no quarto e cumprimenta-a. Desliga a máquina que acaba de dar ao Sr. Jorge a sua segunda refeição do dia e dá-lhe, também por sonda, mas à mão, os 150 ml de água que se dão sempre antes e depois das refeições.
– Hoje que está aqui a minha irmã, eu não podia comer ao menos um iogurte? – pergunta o Sr. Jorge à enfermeira.
– Sr. Jorge, já falámos disso muito vezes, não falámos? Não lhe posso dar iogurte, não lhe posso dar nada a não ser a alimentação por sonda. É perigoso, sabe bem, e para quê habituar-se a comer outra vez, agora que já se conseguiu desabituar? Depois, amanhã pede-me outro iogurte e depois uma sopa e depois… Não pode ser, Sr. Jorge. Lamento, mas não pode ser.
A Sra. Isabel está visivelmente emocionada. Quando a enfermeira acaba de falar, começa a chorar.
– Mas quando ele vier a casa pelo Natal, tem de comer alguma coisa – diz ela. – A ceia de Natal não pode ser alimentação por sonda…
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– Não viu o meu marido? – pergunta a D. Lurdes a uma empregada nova do lar. – Estive lá em baixo no jardim, não sei se ele andou à minha procura.
Não o conheço, minha senhora, sou nova aqui e ainda não tive o prazer de conhecer seu marido. Mas ninguém me perguntou por si.
A enfermeira aparece e aperta com as duas mãos a mão direita da D. Lurdes.
– D. Lurdes, o seu marido faleceu em março.
– Faleceu em março… – repete a D. Lurdes. – Oh, minha menina, e eu a perguntar-lhe por ele, tanto disparate. Peço-lhe muita desculpa! Tanto disparate…
– Não tem nada que pedir desculpa, D. Lurdes. Não sabia que o seu marido tinha falecido. Lamento muito.
– Vou escrever um papel e pôr na parede do quarto, para não me esquecer mais e não voltar a fazer estas figuras – diz a Dona Lurdes.
– Já escreveu um papel a dizer que o Sr. Lionel faleceu, D. Lurdes – diz a enfermeira. – Há pelo menos três meses que o tem pendurado na parede do quarto. Logo à entrada, do lado esquerdo.



08/09/21

Um passeio com Kai [Crónicas de Svendborg #40]


Os nomes são falsos, a história é verdadeira.

O Kai foi marinheiro, mas já está reformado há muito anos, Vou dar uma volta com ele.
– Então e não tens saudades de Portugal? – pergunta-me ele.
– Bom, tenho saudades de muitas pessoas que lá estão, claro... 
– Eu tenho! – diz ele. – Muitas! Tenho muitas saudades de Portugal.

Encontramos um casal de amigos dele, o Jens e a Lotte. O Kai tem idade para ser meu pai, o Jens e a Lotte devem ser da minha idade, pouco mais ou menos. Não se veem há algum tempo, percebo eu pela conversa, mas, curiosamente, vão estar juntos numa festa no próximo sábado: o 80º aniversário da mãe do Jens. 
 – Que tal a vida, Kai? 
– Uma merda. Estou velho e a velhice é uma merda. E vocês? 
– Nós estamos bem. 
– Sempre venderam a casa? 
– Vendemos, pois. 
 – E a vossa vida sexual, que tal? 
O Jens e a Lotte ficam muito surpreendidos, claro está. Eu também. E vocês também, não é verdade? Quem é que espera uma pergunta assim? 
 – Está boa, acho eu – sorri o Jens e interroga a Lotte: – Está boa, não está? 
A Lotte sorri também e assente com a cabeça. 
 – E a tua vida sexual, Kai? 
 – Ah, mais ou menos… Mas estou velho e a velhice é uma merda. 

Foto: Tim Webb, Svenborgsund & Tarquence, 1981 (pormenor), daqui. (Wikimedia Commons)