11 de outubro de 2021

Reabilitação com guitarra

[Não é uma história de um lar, desta vez, mas sim uma história do hospital. Também ela acontecida, como quase todas as histórias que aqui conto.]

Reunião para combinar os passos e objetivos seguintes do processo de reabilitação neurológica de Jorge: estão presentes o Jorge, a mulher dele e o pessoal do serviço de reabilitação neurológica que mais diretamente trabalha com ela: uma fisioterapeuta, um ergoterapeuta, uma enfermeira e uma médica. Jorge teve um acidente vascular cerebral, de que resultou paralisia parcial do lado direito do corpo. Depois de um mês de reabilitação intensiva, os progressos são muitos: a afasia expressiva praticamente desapareceu e Jorge já consegue fazer sozinho muitas das suas atividades diárias, embora ainda mexa pouco o braço e a perna direita. Está muito satisfeito com os progressos que tem feito, em grande parte devido ao seu grande empenho na reabilitação, e isso vê-se-lhe bem na expressão do rosto.

«E que tal começar a tentar tocar guitarra outra vez? Não fazer dedilhados, claro está, que isso ainda não é possível, mas só palhetar, para treinar a mão direita», propõe a certa altura o ergoterapeuta. Antes do AVC, Jorge era um exímio guitarrista, além de que compunha e escrevia letras para canções.

A expressão de Jorge altera-se completamente. Fica de repente muito triste.

«Nem pensar nisso», diz ele. «A guitarra nunca pode fazer parte do treino. Nunca. Só lhe volto a tocar quando tiver o controlo perfeito da mão direita… Se alguma vez o recuperar, seja… Senão, nunca mais toco numa guitarra.»

4 comentários:

jj.amarante disse...

Faz todo o sentido essa posição do Jorge. Tudo bem consigo e família? A nossa família tem escapado ao COVID e os maiores estão vacinados.

Teresa Silva disse...

Muito bem contado.

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Por aqui, tudo bem, José Júlio. Também escapámos todos ao vírus e estamos todos vacinados já há alguns meses. Pois, o Jorge fez como sentia e isso está certo. Quem trabalha com estas coisas aprende a usar os hábitos e os interesses dos pacientes para os motivar e foi isso que o ergoterapeuta fez, mas, claro, nem sempre as coisas são assim tão simples.

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Obrigado, Teresa!