21 de abril de 2020

Daqui e dali, dos dois lados do grande mar [Crónicas de Svendborg #35]

Halfdan é um nome escandinavo, que significa originalmente «meio dinamarquês»*. Nem todos os Halfdans, porém, são meio dinamarqueses: há muitos que são completamente dinamarqueses e outros que não têm nada de dinamarquês, já que o nome é também popular na Noruega (eis uma lista de Halfdans famosos).

Conheço um Halfdan que é mesmo meio dinamarquês, filho de pai dinamarquês e mãe estado-unidense. O irmão dele, que é tão meio dinamarquês como ele, chama-se Eik. Eik é também um nome escandinavo, que significa originalmente «carvalho».**

Eik tem uma árvore sua. Quer dizer, não sei se tem mais árvores, mas tem uma que é especialmente sua. Não um carvalho, como se poderia esperar, mas sim um castanheiro-da-índia vermelho. A árvore foi plantada para Eik quando ele nasceu – sobre a placenta que o envolvera. Não sei se isto é ou foi tradição nalgum lugar ou nalgum tempo, mas quem sabe se, entre os descendentes de Eik, não se virá a tornar tradição.***

O castanheiro-da-índia vermelho (Aesculus × carnea) é um híbrido do castanheiro-da-índia europeu (Aesculus hippocastanum) e de um arbusto americano, Aesculus pavia, de que não sei o nome português. A árvore de Eik é, portanto, euro-americana, como ele – mas isto os pais de Eik não sabiam quando a plantaram.


Red horse chestnut in flower in Oaklands Park” (“Castanheiro-da-índia vermelho em Oaklands Park”, Patrick Roper, 2002. Creative Commons Licence, daqui.


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* Ou, com mais rigor, «meio dano», já que não há correspondência direta entre a tribo germânica dos danos e os dinamarqueses atuais.
** Uma palavra sem parentes fora das línguas germânicas: eik em norueguês, ek em sueco, eg em dinamarquês, eik em neerlandês, Eiche em alemão e oak em inglês.
*** Diz Wil Huygen na sua maravilhosa obra Os Gnomos (título original: Leven en werken van de Kabouter, com extraordinárias ilustrações de Rien Poortvliet, 1976 [traduzo eu da edição dinamarquesa]):
Para saberem a idade, [os gnomos] usam carvalhos. São carvalhos que os pais plantam quando eles nascem. Também se podem plantar tílias em vez de carvalhos. Quando a árvore já está suficientemente grande, faz-se nela uma inscrição. A mesma inscrição é também feita numa pedra lisa que cada gnomo recebe de presente quando faz 25 anos e que guarda toda a vida.



1 de abril de 2020

Dick Annegarn, Li Bo, a lua e as sombras

Dick Annegarn é um cantautor dos Países Baixos que tem vivido e trabalhado sobretudo na Bélgica e em França. Quando o conheci (a música dele, seja…), na segunda metade da década de 70, era muito mal visto gostar de Dick Annegarn nos círculos que eu frequentava, mas eu, mesmo assim, gostei logo das poucas canções dele que ouvi. Na altura, “Sacré géranium” e “Bruxelles” eram as mais conhecidas, acho eu. Depois, perdi o contacto com ele durante muitos anos, até que ouvi uma canção, num CD bónus de uma revista de televisão, e gostei tanto dela que não hesitei em comprar o álbum em que ela vinha, Approche-toi (1997). E não me arrependi. Comprei depois o disco seguinte, Adieu Verdure (1999), e são dois discos que vos aconselho. São álbuns que em que ele percorre todos os estilos possíveis de músicas e de orquestrações, desde o blues à música da Europa Central e do Médio Oriente, desde a pequena orquestra de jazz até ao exclusivamente eletrónico, mas são sobretudo Dick Annegarn e Dick Annegarn é um bocado difícil de explicar o que é, até porque não se parece mesmo com mais nada…

 A canção de 1997 que me veio relembrar que Dick Annegarn existia e fazia boas canções chama-se “Buvant seul” e é mais uma atualização do motivo do bebedor solitário. O que eu vim a descobrir mais tarde, já não me lembro como, é que se baseia num poema famoso de um grande poeta chinês, Li Bai (também Li Po, Li Pai ou Li Bo), que viveu entre 701 e 762. Aliás, em vez de dizer que a letra da canção de Dick Annegarn se baseia no poema de Li Bai, poderia até dizer que é uma tradução muito livre do poema.

Deixo-vos a seguir: a canção de Annegarn, com o respetivo texto em francês; uma tradução portuguesa do poema de Li Bai por António Graça de Abreu; e um link para um página onde, além do poema original de Li Bai se podem ainda ler mais 43 (!!!) traduções em inglês, uma das quais de Ezra Pound. Estão a ver que não exagerei quando escrevi que o poema era famoso...

 

Dick Annegarn, “Buvant seul”, 1997

Je suis solitaire à boire dans les fleurs
Une cruche de balthazar comme consœur
Je me lève et lève mon verre à la lune
Sa silhouette me suit nous sommes trois
La lune ne sait même pas boire que nenni
C'est en vain et sans histoire qu'elle me suit
Il fait vivre avec plaisance au printemps
Quand la lune et la nuit dansent pour un temps
Nous sommes sobres et solidaires camarades
Nous sommes ivres et nos chimères nous baladent
La bonne nuit nous envahit bien trop tôt
Nous vivrons dans d'autres vies d'autres eaux

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“Bebendo ao luar”
Tradução de António Graça de Abreu, in Abreu, António Graça, Poemas de Li Bai, Macau: 1990

Um jarro de vinho entre as flores,
bebo sozinho, sem amigos.
Levanto o copo e convido o luar,
com a minha sombra somos três.
Ah, mas a lua não sabe beber,
a sombra só sabe acompanhar meu corpo.
O luar por amigo, a sombra por escrava,
vamos todos fruir a primavera, festejar.
Eu canto e passeiam no ar
os raios de luar.
Eu danço e volteia no espaço
a sombra de mim.
Lúcidos, nós três desfrutámos prazeres suaves,
bêbados, cada um segue seu caminho.
Que possamos repetir muitas vezes
nosso singular festim
e nos encontremos, por fim,
na Via Láctea.
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 Li Bai bebendo sozinho (com a lua, a sua própria sombra e 43 tradutores) 

花間一壺酒
獨酌無相親
舉杯邀明月
對影成三人
月既不解飲
影徒隨我身
暫伴月將影
行樂須及春
我歌月徘徊
我舞影零亂
醒時同交歡
醉後各分散
永結無情遊
相期邈雲漢

P. S.: Este texto já tinha estado no blogue e foi apagado quando desapareceu do YouTube o vídeo de “Buvant seul”  de Dick Annegarn, sem o qual, pensei eu, perdia o sentido. Ei-lo de volta.