sexta-feira
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Trabalhei afincadamente de manhã, ao mesmo tempo que ouvia o trailer do
Orlando Pantera em repeat (e estou a ouvir agora mesmo de novo), saí de
casa pela u...
Há 6 dias
Todo pasa y todo queda, / pero lo nuestro es pasar, / pasar haciendo caminos, / caminos sobre la mar.
O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela por que não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?
Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas (…), onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. (…) Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória. (Ibid, XVIII. 23)
Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. (Ibid. XX. 26)
um dicionário de expressões do Yorkshire, onde se fica a saber, por exemplo, que powfagged significa “estafado” ou que kag ‘anded (assim mesmo, sem agá) significa “canhoto” ou “desajeitado”;
um berço de vime, com uma pele de cordeiro por cima do minúsculo colchão, onde a Karen dormiu em bebé, e antes dela as irmãs mais velhas, e depois dela o irmão mais novo e todas as seis sobrinhas, e a Siri, e não sabemos a quem servirá a seguir;
uma faca da Lapónia, com cabo diz que de osso de rena, que me ofereceram uma vez pelo Natal, em Haparanda;
o Feiticeiro de Oz, em versão pop up de Robert Sabuda, comprado em Bradford pela módica quantia de 16,99 libras, porque foi impresso na Colômbia e todo montado à mão no Equador, onde o trabalho é pago a preços de miséria…;
fotocópias de uma edição bilingue da poética de Aristóteles, no original grego e em francês;
duas cadeiras malauianas de madeira apenas e várias cadeiras dinamarquesas de assentos com listas verdes e vermelhas;
um par de esquis, com as respetivas botas e os respetivos bastões;
uma máquina de coser Singer, que a minha avó – e muita gente – pronunciava com o som [Ʒ] de singelo;
uma canequinha de Coimbra, com um desenho de um gnomo montado num caracol, em que eu bebia leite em pequeno e as tigelas e pratos amarelos em que a Karen toda a infância tomou o pequeno-almoço; e
um livro de moradas que me acompanhou creio que de 1983 a 1996, cheio de endereços e números de telefones que pessoas que não faço ideia onde param, que já morreram ou que nem me lembro, nalguns casos, quem são (e que tem um desenho à largura das guardas, com o seguinte texto: “Cá ‘stou mais um vez / tomara que a derradeira / sem ter nada em que pensar / a não ser na vida inteira”).