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14/12/23

Canções que referem outras canções#1: “La Chanson de Prévert” e “Les Feuilles mortes”

 

A partir de hoje, passa a haver mais uma etiqueta na Travessa do Fala-Só: «Canções que referem outras canções». Há obras literárias que remetem para outras obras literárias, há obras musicais que remetem para outras obras musicais e há canções que remetem para outras canções – umas de uma forma mais direta, outras de forma mais subtil, algumas de forma bastante criativa. Como uma canção é uma mistura de texto e música, a referência que se faz numa canção a outra canção pode ser do tipo da intertextualidade literária, do tipo da citação musical ou uma mistura de ambas. 

Um exemplo conhecido de uma canção que remete para outra canção é “La chanson de Prévert”, de Serge Gainsbourg (1961), que refere muito claramente "Les feuilles mortes”. Até se poderia quase dizer que “La chanson de Prévert” é uma canção sobre “Les Feuilles mortes”. A canção “Les feuilles mortes” foi composta em 1946, por uma dupla profícua, o poeta Jacques Prévert e o compositor Joseph Kosma, para o filme de Les Portes de la nuit, de Marcel Carné. 

A primeira gravação em disco é de Cora Vaucaire, em 1948. Em 1950, foi gravada por Jo Stafford a versão inglesa de “Les feuilles mortes”, “Autumn leaves”, com letra de Johnny Mercer, que se tornou um standard de jazz. No total, entre versões cantadas em várias línguas e versões instrumentais deve haver quase dois milhares de versões gravadas. O site Second Hand Songs regista, na altura em que escrevo isto, 1632 versões gravadas, mas os números deste site ficam sempre, naturalmente, um bocado aquém do número total de gravações.


“La chanson de Prévert”, de Serge Gainsbourg, tem um palmarés bem mais modesto: segundo o mesmo site, há 27 versões em francês, mais uma em inglês e outra em japonês. O Second Hand Song diz também que a versão de Michèle Arnaud foi publicada antes da versão do autor, mas, se assim é, foi com muito pouca antecedência.

O primeiro verso da canção de Gainsbourg é uma citação literal do primeiro verso da letra de “Les feuilles mortes”: «Oh je voudrais tant que tu te souviennes».

«Car chaque fois "Les feuilles mortes"

Te rappellent à mon souvenir

Jour après jour les amours mortes

N'en finissent pas de mourir»


 

08/08/11

Inventário # 1: O sótão da memória

Sótão da memória (cerca de 5800 ocorrências em Google) parece ser uma metáfora comum para a parte mais recôndita das nossas recordações[1], mas a verdade é que os sótãos conservam muito melhor o passado do que seja lá que parte for da memória[2].
 
Subi e desci umas 50 vezes a escada das traseiras do nº 15 da Brohus, em Copenhaga, onde temos um apartamento no rés do chão. A 75 degraus para cima e outros 75 para baixo, dá 7500 degraus. Em dois dias, é verdade, mas não deixa de ser um bom exercício para as pernas. Foi ir buscar o que tínhamos empacotado em regulares flytekasser, “caixas de mudança”, há 5 anos ou mais; desempacotar; seleccionar o que fazia sentido guardar; e voltar a empacotar para trazer para a nova casa em Svendborg. Agora, como disse várias vezes a minha mulher, nós sabíamos que tínhamos uma vida anterior a Moçambique, mas não sabíamos bem que vida era. E ficámos a saber. Guardadas no sótão estavam coisas como[3]: 
um dicionário de expressões do Yorkshire, onde se fica a saber, por exemplo, que powfagged significa “estafado” ou que kag ‘anded (assim mesmo, sem agá) significa “canhoto” ou “desajeitado”; 

um berço de vime, com uma pele de cordeiro por cima do minúsculo colchão, onde a Karen dormiu em bebé, e antes dela as irmãs mais velhas, e depois dela o irmão mais novo e todas as seis sobrinhas, e a Siri, e não sabemos a quem servirá a seguir; 

uma faca da Lapónia, com cabo diz que de osso de rena, que me ofereceram uma vez pelo Natal, em Haparanda;
  
o Feiticeiro de Oz, em versão pop up de Robert Sabuda, comprado em Bradford pela módica quantia de 16,99 libras, porque foi impresso na Colômbia e todo montado à mão no Equador, onde o trabalho é pago a preços de miséria…; 

fotocópias de uma edição bilingue da poética de Aristóteles, no original grego e em francês; 

duas cadeiras malauianas de madeira apenas e várias cadeiras dinamarquesas de assentos com listas verdes e vermelhas; 

um par de esquis, com as respetivas botas e os respetivos bastões;
  
uma máquina de coser Singer, que a minha avó – e muita gente – pronunciava com o som [Ʒ] de singelo; 

uma canequinha de Coimbra, com um desenho de um gnomo montado num caracol, em que eu bebia leite em pequeno e as tigelas e pratos amarelos em que a Karen toda a infância tomou o pequeno-almoço; e

um livro de moradas que me acompanhou creio que de 1983 a 1996, cheio de endereços e números de telefones que pessoas que não faço ideia onde param, que já morreram ou que nem me lembro, nalguns casos, quem são (e que tem um desenho à largura das guardas, com o seguinte texto: “Cá ‘stou mais um vez / tomara que a derradeira / sem ter nada em que pensar / a não ser na vida inteira”).
Chiça, que tenho – temos todos – tantas coisas! … Que não servem, a maior parte delas, para coisíssima nenhuma…
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[1] A não ser que se entenda também esta preposição de como uma marca de identificação e a expressão queira dizer que a memória é que é o sótão. Como dizia, e muito bem, o Fernando Relvas, (numa explicação que ele dava – já desapareceu – , a quem não falasse português, do que significa o título do seu blogue, Urso do Relvas), este de ambíguo tanto nos pode levar a concluir que o Relvas tem um urso como que o Relvas é um urso…
[2] Continuando na maré de ambiguidades iniciada na nota de rodapé anterior, eis aqui mais um excelente exemplo de uma frase ambígua, que é algo de gosto muito (gosto muito de frases ambíguas, entenda-se, não de excelentes exemplos de frases ambíguas, embora, claro, como amante de ambiguidades não possa deixar de apreciar os excelentes exemplos das ditas …): de facto, o que eu quero dizer e espero que tenham compreendido é que os sótãos conservam melhor o passado do que a memória conserva o passado, e não que os sótãos conservam melhor o passado do que os sótãos conservam a memória… Hmmm… Enfim, eu percebo-me, como dizem os franceses.
[3] Como processo literário, o inventário (desculpem a cacofonia, sim?) é tipicamente surrealista, ou, talvez antes, tipicamente prevertiano. Poder-se-ia dizer que Prévert preverteu o inventário. Em português, só conheço os inventários de Alexandre O’Neill (por exemplo, este), que não são verdadeiros inventários surrealistas, até porque O’Neill provavelmente nunca embarcou realmente no devaneio surrealista. Outra maneira de dizer isto é que O’Neill sempre foi mais o’neillíco do que o’nírico…