Saiu a 4 deste mês um livrinho de textos meus chamado Seis poemas de inverno e outros textos em prosa 1986-2024. Um excerto do prefácio:
[...] Quando me dispus a fazer esta seleção, tinha cerca de 250 poemas escritos entre fevereiro de 1977 e maio de 2026. O critério de escolha foi simples: escolhi os que me agradam mais. Depois, tive de arranjar um título. Porquê «Seis poemas de inverno e outros textos em verso»? «Poemas de inverno» é uma série. Todos estes poemas estavam organizados em livros. Ou em conjuntos, seja, porque nunca tiveram forma de livro. «Poemas de inverno» era o conjunto dos poemas mais recentes, desde que voltei à Dinamarca em 2011.
E eu queria ter «poemas de inverno» no título, mas não podia pôr «Seis poemas de inverno e outros poemas», ficava mal. Além disso, não tenho a certeza de querer chamar poemas a estes textos todos. Alguns destes textos são claramente líricos e está muito bem chamar-lhes poemas. Mas há muitos a que não sei se a designação se aplica bem. O que eles têm todos em comum é serem em verso, as linhas não chegarem à margem da página, levarem ali um corte a meio. [...]
Há textos que podem ler-se em voz alta e há outros que se leem mal, ou, pelo menos não foram feitos para isso. E há outros ainda que ficam incompletos por uma leitura em voz alta, porque lhes falta, sei lá…, um sublinhado, por exemplo. E até há textos que não se devem ler em voz alta, só porque ficam muito feios. Por exemplo, o verso «Inferniza, ávida, a vida» é horrível em voz alta.
Há textos que são canções que nunca chegaram a ter música ou que nunca chegaram a ter forma definitiva de letra para canção. E nem sempre desdenho chamar-lhe poemas. E isso é curioso, parece que resulta numa inversão da hierarquia dos textos em verso. Uma canção costuma valer menos que um poema, mas, neste caso, é ao contrário: se não chega a ser canção, bom, aproveita-se como poema…
Também há textos que são só graçolas em verso, nem sempre com grande graça. Um dos conjuntos em que tinha organizado os meus versos chamava-se «A blague reiterada». Blague é um empréstimo desnecessário, é só piada, perdão, é só «piada», mas blague tem mais piada que piada. A palavra blague, quero eu dizer, tem mais piada que a palavra piada. Quando ouço «a palavra piada», penso em palavras que soam como pios: a palavra falada, a palavra cantada, a palavra piada. Mas lá estou a deixar-me levar pelo palavra-puxa-palavra…
Dizia a minha avó: «Oito ou oitenta, mulher do diabo!» E queria com isso dizer que mais vale a moderação, que é melhor não passar a vida a saltar, muito romanticamente, do tudo ou quase tudo para o nada ou quase nada. Mas hão de reparar, quando lerem estes textos, que se movem entre o gracejo e um registo a bem dizer fúnebre. Creio, aliás, que a morte é o tema mais recorrente destes versos. Agora, quando às vezes se juntam o fúnebre e o gracejo, ganha sempre a morte, que é uma coisa com que é muito difícil gracejar.
E o segundo texto do livro é este, de 8 de julho de 2005:
os ossos deste ofício (a morte em imagens)imaginem a morteIo fu già quello che voi siete e quello chi sono voi anche sarete.
(«Fui já o que sois e o que sou sereis vós também», inscrição do fresco A Santíssima Trindade da Capela Brancacci, de Florença,
pintada por Giovanni Guidi de Mone, dito Masaccio.)
como imagem monumental
— Évora, Hallstatt, Kutná Hora —,
em memória
dos ossos nossos de cada dia,
em espera penitente
de todos os outros ossos
que se lhes hão de ir juntando,
pelos séculos dos séculos.
imaginem a morte
monstro sem lugar
nas tipologias dos bichos,
inclassificável de feio,
sem hábitos nem habitat,
com esqueleto
por dentro
e por fora.
ou imaginem a morte
como vaga figura narrativa,
talvez com rosto revelado de gente
(como diria Jean Ray: que é real é,
mas será humana, a magana?),
talvez escondendo-o debaixo
de um franciscano capuz.
imaginem a morte barqueiro soturno,
misterioso cavaleiro, faz de conta que viajante
à procura de abrigo para a noite.
ou então, imaginem a morte
como gaia ilustração,
um monte de ossos vivaço
a bater o fandango
na folga da monda d’almas
em que sem descanso s’empenha.
se a imaginarem assim,
imaginem-na
a estender-vos sorrindo a mão descarnada
e a convidar-vos, gozosa,
com voz de falsete:
«venham de lá esses ossos!»
os ossos
pois,
os meus,
os teus,
os nossos,
os ossos
deste ofício
de estar vivo.
Se quiserem adquirir o livrinho, sei que está à venda na livraria Ler, em Campo de Ourique. Ou então podem pedir às Edições Carlota que vo-lo envie: edicoescarlota@gmail.com.
