27/10/26

De escolhas e decisões: uma breve divagação

 

Eis um excerto que transcrevi (e que traduzo) de uma entrevista a Robert Sapolsky no site Vert Dider*. 

Entrevistador: Quando diz que não há livre-arbítrio, o que quer dizer exatamente com livre-arbítrio? Porque parece que isso faz confusão a muita gente…

Robert Sapolsky: Uma pessoa faz um gesto: move o dedo e este [dobra]… O cérebro diz-lhe para fazer isso ao dedo — é o comportamento o mais simples e fundamental que se possa imaginar… E é uma ação perfeitamente insignificante, que por acaso tem consequências muito importantes, porque essa pessoa está a puxar o gatilho de uma arma. (…)

Os neurobiologistas podem localizar o neurónio no córtex motor que enviou os sinais para aqueles músculos se flexionarem; e poder-se-ia depois encontrar os neurónios no chamado córtex pré-motor, que enviaram sinais que acionaram esse córtex motor para enviar esses sinais; e poder-se-ia depois encontrar neurónios no córtex frontal que desencadearam tudo isso; e depois encontrar neurónios no córtex pré-frontal que por sua vez o acionaram; e neurónios nas áreas emocionais do cérebro que acionaram esses neurónios e, basicamente, mostrar os neurónios que deram início a essa sequência de acontecimentos em cascata.

Um neurónio que tenha sido ativado com um potencial de ação sem motivo nenhum, um neurónio cujo acionamento não tenha sido regulado pelas leis físicas do universo, um neurónio que tenha sido ativado sem uma causa anterior — mostre-me um neurónio que tenha dado início a tudo e que funcione dessa maneira, e então já podemos falar de livre-arbítrio. Tem de me mostrar uma espécie de elemento neurobiológico de base que seja constitutivo do livre-arbítrio — e isso simplesmente não existe. Não há causa sem causa. Não há nada na biologia do nosso comportamento que aconteça a partir de coisa nenhuma. Todos os acontecimentos biológicos que se dão em nós têm uma história.

Tudo isto é tão evidente como difícil de aceitar, ao que vejo. Mesmo pessoas que aceitam, como Sapolsky — e eu —, que não faz sentido falar de nenhum mecanismo de ação fisicamente imotivado, continuam, na prática, a recusar a ideia de que não decidem livremente o que fazem. Na realidade, não há nada de novo nem de muito surpreendente nas afirmações de Sapolsky. Há muito que são aceites por toda a gente que existem motivações inconscientes para as nossas ações e que somos moldados pela nossa herança genética, pela bioquímica do nosso corpo e pelo meio onde vivemos, incluindo uma história de vida e permanentes estímulos do exterior. Mas dar um passo mais, só um passinho avante, e aceitar que, quando pensamos decidir alguma coisa, não o estamos de facto a fazer, e apenas a seguir uma interminável sucessão de reações simples — isso é muito difícil.

Há um senhor chamado David Lawrence que tem um canal de YouTube só para refutar a ideia de que o livre arbítrio é uma ilusão. Há pessoas em quem a ideia de que somos seres programados provoca sempre veementes reações. Num dos seus vídeos curtos, David Lawrence diz que há uma contradição no cerne do determinismo (traduzo eu):

Se alguém disser que os nossos pensamentos são causalmente determinados, está a dizer que esse pensamento é causalmente determinado. Os deterministas não acreditam no determinismo por ser verdade. Nos seus próprios termos, acreditam nele porque foram forçados a acreditar. Não, não, não, diz o determinista, não, não, espere aí, é mesmo verdade. As razões são: tal e tal e tal e tal. Mas esperem, esses pensamentos são também tão casualmente determinados como o pensamento que o determinismo é verdade. Não há maneira de se sair daqui. Não há verdade num universo causal.

Os deterministas acreditam, de facto, que são como são e que acreditam no que acreditam por razões concretas, cadeias de causalidade — que, como toda a gente, desconhecem quase completamente, porque são complexas demais para serem conhecidas. Mas isso não tem nada a ver com o valor de verdade das suas afirmações sobre o livre-arbítrio. Uma afirmação é verdadeira ou não consoante se adequa ou não ao observável. Ou mais verdadeira ou menos verdadeira consoante se adeque mais ou menos ao observável, se preferirem, mas, nesta discussão, podemos passar bem sem essa formulação mais afinada. A razão pela qual uma pessoa faz uma afirmação; o que a pessoa que faz a afirmação pensa sobre a razão pela qual a faz; ou o que os outros pensam que é — ou sabem ser — a razão pela qual a pessoa faz a afirmação são sem relevância no julgamento do valor de verdade dessa afirmação. Podemos fazer uma experiência mental: imaginemos alguém que acredita que a Terra é plana (há, infelizmente, muita gente que acredita nisso…) e que é hipnotizado** para acreditar que a Terra é redonda. Aquilo que ele passa a acreditar é tão verdade como se ele acreditasse na esfericidade do planeta sem ser hipnotizado. Imaginemos uma pessoa que acredita que a terra é redonda porque lho disse um tio em quem tem muita confiança. Aquilo em que crê é tão verdade como se ela tivesse chegado a essa crença através de um processo experimental. Etc., etc., etc. Quanto à frase «Não há verdade num universo causal» — que obviamente se deve interpretar, neste contexto, como «quem afirma que tudo resulta de uma causa não pode acreditar em nenhuma verdade» — não se vê mesmo o que possa significar...

Voltemos à tomada de decisões. Há muitas críticas a experiências que se diz provarem que a consciência da decisão de uma ação de alguém é posterior ao início dessa ação nos seus sistemas nervoso e muscular, nomeadamente à famosa experiência de Benjamin Libet em 1983, e é provavelmente exagerado afirmar que há evidência clara da anterioridade da decisão relativamente à ação, mas também não há evidência neurofisiológica nenhuma do contrário, nem, como Sapolsky muito bem explica na entrevista transcrita acima, evidência nenhuma de uma instância de atividade cerebral não sujeita a uma história de reações. Ou seja, se há livre-arbítrio, não se sonha como funciona nem onde funciona.

Mas, como Sapolsky também gosta de nos recordar, não é preciso passar pela neurofisiologia de intenções, decisões e  controlo para recusar a ideia de livre-arbítrio. O que se segue é meu, não de Sapolsky, mas segue a sua linha de pensamento. Suponhamos que, para o almoço numa cantina, tenho de escolher entre costeletas de porco e bacalhau; e, porque gosto mais de bacalhau ou porque me está a apetecer mais bacalhau, escolho bacalhau. Fui eu que escolhi. Podia ter escolhido costeletas, mas escolhi bacalhau. Mas porque é que gosto mais de bacalhau ou porque é que me estava a apetecer mais bacalhau? Escolhemos gostar daquilo de que gostamos? Escolhemos apetecer-nos o que nos apetece? Agora, outro exemplo muito diferente: fui preso pela polícia política de uma terrível ditadura porque faço parte de um grupo que trabalha para a derrubar; e sei que, se não revelar o nome e a localização dos meus companheiros, serei morto. A escolha é minha. Se não tiver medo da morte, deixarei que me matem e não atraiçoarei ninguém; se tiver um pavor pânico da morte, direi tudo o que sei dos meus companheiros. Mas ninguém escolhe se é mais forte que o medo da morte ou não, se é um herói ou um humano médio, digamos assim... Estas coisas não se escolhem, é-se como como se é.

Entre estes dois polos opostos de um gradiente de dificuldade e responsabilidade de escolhas, podemos imaginar todas as que quisermos. Se, a cada escolha, nos perguntarmos o que é fez de nós a pessoa que faz aquela escolha, demos as voltas que dermos, foram sempre coisas que nós não decidimos: os pais que nos deram, já no momento da nossa conceção, potencialidades e limitações inatas, a relação com a família, a educação, uma classe socioeconómica e um meio social e cultural, os milhares de acidentes que vão fazendo a nossa vida. Somos, em cada momento, o resultado disso tudo e depois o resultado disso gosta de bacalhau e não consegue encarar de frente a morte. E quando chega à altura de escolher, escolhe (???) o que tem de escolher...
_________________

* Podem ver o vídeo aqui, mas é difícil acompanhar a conversa, por causa da tradução em russo que lhe foi colada por cima. O vídeo sem a «tradução simultânea» em russo já não se encontra disponível no YouTube (é agora «privado»), mas podem facilmente encontrar-se muitos vídeos em que Sapolsky fala da questão do livre-arbítrio, dizendo o mesmo que aqui diz.

** Não digo que isto seja possível, é uma experiência mental. Se preferirem, para ser completamente fantasiosa, imaginemos que é um extraterrestre com o poder de mandar na mente dos humanos que lhe altera a crença. Nada disso interessa para o meu argumento.



23/10/26

Chuva de granito


Por causa de uma conversa sobre granizo e lembrei-me de um poema que escrevi há quase 40 anos, em janeiro de 1987, e que está incluído em Seis poemas de inverno e outros textos em prosa: 

A chuva de pedra

Granizo granito grito
torrencial aliteração
ponte de líquida pedra
de um céu até outro céu

Aguaceiro desconforto
(Vou pôr a alma a secar) 

Não me lembro se, quando fiz o poema, alguma vez tinha já ouvido falar dos famoso poema que Vladimir Maiakóvski dedicou a Serguei Iessenine e que inclui os versos  

Вам
  и памятник еще не слит,—
где он,
  бронзы звон
       или гранита грань?—
,

algo como (a tradução que consigo…)

Tu
  monumento ainda não te ergueram 
—
onde estão
  o ruído do bronze
       ou as arestas de granito? 
—

Herbert Marshall conseguiu preservar, na tradução para inglês, a aliteração em [gr] de гранита грань [granita gran]: 

A monument for you hasn't yet been cast —
where is it, bronze reverberant or granite grand? —

Dorian Rottenberg também o consegue, embora não de forma tão limpa como Marshall:

Although the monument
      that you deserve
        has not been cast —
where is it,
      ringing bronze
        and hard-grained granite? —

Tentei em português «granito grave» e «grave granito», mas não gosto. Não sei porquê, mas não gosto...

Se já conhecia, quando escrevi o meu poema, este granita gran, digamos que há ali um piscar de olho a Maikóvski, para sermos delicados; ou então, que a «torrencial aliteração» é um plagiozinho pueril, para chamarmos as coisas pelo seu nome... Agora, se não conhecia o granita gran de Maiakóvski, tive sorte nesse dia de granizo.


22/10/26

Excursão



Dos muitos verbos formados a partir do latim curro, «correr», sobrevivem, em português do séc. XXI, acorrer, concorrer, decorrer, discorrer, escorrer, incorrer, intercorrer (isto existe mesmo ou só dicionário?), ocorrer, percorrer e recorrer; e desapareceram pelo caminho os que teriam dado *abscorrer, *antecorrer, *circuncorrer, *precorrer e *procorrer. É assim a vida… das palavras. 

Os nomes diretamente relacionados com os verbos sobreviventes e que vêm diretamente do latim podem terminar em -curso e ou em -cursão, por virem de dois tipos de deverbais. Mas nem sempre temos os dois. Assim, temos concurso, decurso, discurso, percurso e recurso, mas não temos *concursão, *decursão, *discursão (a não ser que seja um grande discurso...), e nem *percursão nem *recursão ––  temos recursividade, isso sim, mas isso fica para outra conversa... E temos incursão, mas não *incurso (a não ser como raríssimo adjetivo, esqueçamos isso…). Não sei se temos mesmo intercurso (o dicionário diz que sim...) e de certeza que não temos *intercursão; e também de certeza que não temos nem *acurso nem *acursão; e nem *ocurso nem *ocursão — acorrer ficou sem nome correspondente e, para ocorrer, arranjou-se ocorrência, que estraga o paradigma todo, mas não ocorreu a ninguém nada melhor… 

No meio desta confusão, brilha escorrer com os dois correspondentes diretos: excurso e excursão. Que pena ter-se substituído o X por S — excorrer era muito mais bonito: «Veja lá você, tinha a roupa já tão excorrida, veio uma carga de água de repente, ficou toda encharcada outra vez…»

Wallace Wood, de «My World», 1953
Perdoem-me o excurso, sim? Diga, diga! Que não se vê bem a relação entre escorrer e excursão? Pois… Mas que importância pode ter que se veja, quando sabemos que a há? A etimologia não nos deixa dúvidas: excursão é a ação de escorrer. Pode, pois, dizer-se e escrever-se: «Depois da excursão da água do esparguete, misture-o com o molho na frigideira e deixe-o ao lume durante mais dois ou três minutos, para absorver o sabor do molho e acabar de cozer.»

E como hoje em dia não há brincadeira que não seja tomada por afirmação séria, apresso-me a deixar claro: o parágrafo anterior é paródia. Já sabiam? Ainda bem. Perdoem-me ter chegado a duvidar da perspicácia dos leitores deste blogue. 


Canções que referem outras canções #15: «Flying into darkness» e «Once in a lifetime»

 

Laura Veirs lançou a 14 de agosto de 2026 o álbum Temple Songs. Em «Flying into darkness», o sujeito da canção diz-nos que tinha «Once in a lifetime», dos Talking Heads, a tocar sempre em repetição. É uma canção sobre um permanente sobressalto, sobre não conseguir encontrar um momento de serenidade e sossego. Um ouvinte que não conheça Veirs poderá supor que é uma efusão lírica de juventude sobre a inquietação que a adolescência traz. Mas não, é de uma crise da idade madura que se trata. Veirs não esconde que a canção, como outras canções do álbum têm um fundo autobiográfico — fim de relação, confusão, angústia do recomeço. A referência a «Once in a lifetime» faz por isso todo o sentido.

I was flying into darkness through the midnight air
Didn't know where, but I was going there
Stars all around me and the planets beamed
Messages from epochs Wasn't listening
I had "Once in a Lifetime" on repeat
Hurtling through space with my metal wings
Were the Northern Lights cradling my head?
When will I be grounded? When I'm dead?

Is there a place I can go where I can be myself?
Is there a song I'll sing that I'll never sell?
Every restless soul, every one of us
What are we doing? When can we rest?

Turn to love, turn to the earth,
Turn to each other, turn to rebirth
No more masters, no more greed
Planting evil, seed after seed
Every restless soul, every one of us»

«Once in a life time» é uma canção do álbum Remain in Light, de 1980. A parte declamada da letra retoma a temática do burguês bem-sucedido que se interroga sobre o sentido da vida que levou:

Podes dar por ti ao volante de um grande carro e podes dar por ti numa bonita casa, com uma bonita esposa. E podes perguntar-te a ti mesmo: «Como é que aqui cheguei?»

Podes interrogar-te: «Que bonita casa é esta? Onde é que esta estrada me conduz?» E podes questionar-te: «Estarei certo? Estarei errado?» E podes dizer de ti para ti: «Meu Deus! O que foi que eu fiz?»

É, sem dúvida, um tema batido, mas a interpretação intensa de David Byrne, um refrão e uma ponte bastante menos diretos que as estrofes e sobretudo o suporte musical vêm equilibrar a canção, que acaba por funcionar muito bem.

Refrão:
Letting the days go by
Let the water hold me down
Letting the days go by
Water flowing underground
Into the blue again
After the money's gone
Once in a lifetime
Water flowing underground

Same as it ever was

Water dissolving, and water removing
There is water at the bottom of the ocean
Under the water, carry the water
Remove the water at the bottom of the ocean
Water dissolving, and water removing



Ementas gramaticais e emendas gramaticais


«A maior parte das pessoas supõem que a linguagem popular é incoerente, alteração irregular da linguagem culta ou literária: e, contudo, isso é falsíssimo. Se se julga despropósito, por exemplo, o dizer o povo listra, em vez de lista (palavras de origem germânica, a que em alto-alemão antigo corresponde lista), também deve ser tido como tal o dizerem os homens cultos estrela em vez do lat. stella (em ambas as quais formas houve epêntese de r); se é erro dizer-se em linguagem popular, por exemplo, mánica, em vez de máquina, igualmente o é dizer-se em linguagem culta joelho em vez do arc. e pop. geolho, do lat. genuculum deminutivo de genu (em ambas as quais formas houve metátese) (...).»

O excerto é de uma das «Ementas gramaticais» de Leite de Vasconcelos, publicadas na Revista Lusitana, entre 1934 e 1941, mas, peço desculpa, não sei agora data e número exatos.

Isto as palavras e as ideias são como as cerejas e quero recordar-vos que o português é fértil nesta coisa de trocar o lugar dos sons na palavra, não pensem que é só de geolho para joelho. Por exemplo, se compararmos palavras portuguesas com palavras castelhanas muito parecidas, mas com dois sons em sítios diferentes, é quase sempre em português que houve metátese dos sons etimológicos: aipo devia ser *ápio, caranguejo devia ser *cancrejo ou algo parecido, disfarçar devia ser *disfraçar, freguês devia ser *fegrês, gaivota devia ser *gaviota, jogral devia ser *joglar, melro devia ser *merlo, e noivo, raiva e ruivo deviam ser *nôvio, *rávia e *rúvio...

Um dia destes, indignava-se alguém por ter ouvido *desplota em vez de despoleta. Eu compreendo a crítica, e acho bem que se chame a atenção das pessoas para tão grandes desvios à norma, não é isso, mas não vale a pena indignar-se. À maneira de Leite de Vasconcelos, quero notar que o que a pessoa fez ao dizer *desplota foi o mesmo que fizeram milhões de pessoas antes dela, trocar sons a uma palavra, dar-lhe nova forma. Fazê-la evoluir, se quisermos. Como vimos atrás, não tivessem sido esses solecismos de bradar aos céus e o português padrão não seria o que é. Mais concretamente, o que aconteceu foi que despoletar foi primeiro entendido como *despoltar. É natural, sobretudo para quem nunca tenha visto a palavra escrita: o [E] átono normalmente não se pronuncia… Em seguida, houve uma das famosas metáteses que fazem com que a dobra da perna não sejam geolhos: *despoltar passou a *desplotar, que se conjugou regularmente, dando a forma *desplota. Só isso. 

E depois… E depois, mesmo quem diz despoleta e não *desplota não é hoje em dia poupado a críticas veementes, porque, ao que se diz, espoletar é que é a forma correta para «pôr espoleta em» e para significar, por isso, «desencadear». Despoletar seria precisamente o contrário, formado da partícula de negação/privação des- e do verbo espoletar, significando, pois, em sentido figurado, «travar», ou seja, precisamente o significado contrário daquele com que costuma ser usado.  É o que diz o dicionário Porto Editora, por exemplo. Mas eu acho estranho. O contrário de espoletar devia ser *desespoletar, não é verdade? É claro, pode invocar-se uma haplologia, mas não se observa isso em palavras mais erodidas pelo uso, como desesperar, que nunca se tornou *desperar... Será que o Porto Editora segue apenas a multidão que critica o despoletar como «desencadear»? O dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, embora também registe despoletar como antónimo de espoletar, aceita, no entanto, o uso do termo como sinónimo de espoletar...

A mim, que de granadas não sei nada, parece-me mais natural que despoletar seja uma forma alternativa de espoletar. Como dizia Rita Veloso no outro dia, numa conversa no Facebook sobre os diversos significados de des- em início de palavra, «numa grande parte dos casos trata-se de reanálise do prefixo es- como des-, por haver um significado semelhante ao que des- costuma induzir, como em desvanecer, desfiar, etc. (...) O caso de despoletar é muito irritante, daqueles que já estavam assimilados e veio um purista qualquer chatear... Creio que é dos casos de que falei: espoletar – acionar a espoleta; a malta não militar sabe lá o que é a espoleta e reinterpreta como «tirar a espoleta para ativar a granada», se é que pensa assim tanto! Pode ser simplesmente porque os verbos em des- são muitos e em Portugal a articulação da primeira sílaba mal se distingue...» Exatamente. O uso de despoletar e espoletar como variantes segue um padrão existente em português, em esfiar e desfiar, espertar e despertar, esvanecer e desvanecer, esvair e desvair, por exemplo, em que ninguém insiste, que eu saiba, que os dois elementos do par têm significados opostos. 

Enfim, o que diria disto tudo Leite de Vasconcelos? 

Nasci na Rua Leite de Vasconcelos, por acaso, ali entre a Graça e os Caminhos de Ferro, em Lisboa. Não há dúvida: estava desde o berço fadado para a filologia ou para a linguística, qualquer coisa assim… Para tentar entender as coisas da língua, em vez de apenas a fiscalizar – embora ache, como já disse, que só faz bem ensinar e cultivar a norma padrão. (Ups, «norma padrão» é capaz de ser uma redundância, não sei se isto se pode escrever...)


10/10/26

Para variar, um bocadinho de publicidade

 

Saiu a 4 deste mês um livrinho de textos meus chamado Seis poemas de inverno e outros textos em prosa 1986-2024. Um excerto do prefácio:

[...] Quando me dispus a fazer esta seleção, tinha cerca de 250 poemas escritos entre fevereiro de 1977 e maio de 2026. O critério de escolha foi simples: escolhi os que me agradam mais. Depois, tive de arranjar um título. Porquê «Seis poemas de inverno e outros textos em verso»? «Poemas de inverno» é uma série. Todos estes poemas estavam organizados em livros. Ou em conjuntos, seja, porque nunca tiveram forma de livro. «Poemas de inverno» era o conjunto dos poemas mais recentes, desde que voltei à Dinamarca em 2011.

E eu queria ter «poemas de inverno» no título, mas não podia pôr «Seis poemas de inverno e outros poemas», ficava mal. Além disso, não tenho a certeza de querer chamar poemas a estes textos todos. Alguns destes textos são claramente líricos e está muito bem chamar-lhes poemas. Mas há muitos a que não sei se a designação se aplica bem. O que eles têm todos em comum é serem em verso, as linhas não chegarem à margem da página, levarem ali um corte a meio. [...]

Há textos que podem ler-se em voz alta e há outros que se leem mal, ou, pelo menos não foram feitos para isso. E há outros ainda que ficam incompletos por uma leitura em voz alta, porque lhes falta, sei lá…, um sublinhado, por exemplo. E até há textos que não se devem ler em voz alta, só porque ficam muito feios. Por exemplo, o verso «Inferniza, ávida, a vida» é horrível em voz alta.

Há textos que são canções que nunca chegaram a ter música ou que nunca chegaram a ter forma definitiva de letra para canção. E nem sempre desdenho chamar-lhe poemas. E isso é curioso, parece que resulta numa inversão da hierarquia dos textos em verso. Uma canção costuma valer menos que um poema, mas, neste caso, é ao contrário: se não chega a ser canção, bom, aproveita-se como poema…

Também há textos que são só graçolas em verso, nem sempre com grande graça. Um dos conjuntos em que tinha organizado os meus versos chamava-se «A blague reiterada». Blague é um empréstimo desnecessário, é só piada, perdão, é só «piada», mas blague tem mais piada que piada. A palavra blague, quero eu dizer, tem mais piada que a palavra piada. Quando ouço «a palavra piada», penso em palavras que soam como pios: a palavra falada, a palavra cantada, a palavra piada. Mas lá estou a deixar-me levar pelo palavra-puxa-palavra…

Dizia a minha avó: «Oito ou oitenta, mulher do diabo!» E queria com isso dizer que mais vale a moderação, que é melhor não passar a vida a saltar, muito romanticamente, do tudo ou quase tudo para o nada ou quase nada. Mas hão de reparar, quando lerem estes textos, que se movem entre o gracejo e um registo a bem dizer fúnebre. Creio, aliás, que a morte é o tema mais recorrente destes versos. Agora, quando às vezes se juntam o fúnebre e o gracejo, ganha sempre a morte, que é uma coisa com que é muito difícil gracejar.

E o segundo texto do livro é este, de 8 de julho de 2005:

os ossos deste ofício (a morte em imagens)

Io fu già quello che voi siete e quello chi sono voi anche sarete.
(«Fui já o que sois e o que sou sereis vós também», inscrição do fresco A Santíssima Trindade da Capela Brancacci, de Florença,
pintada por Giovanni Guidi de Mone, dito Masaccio.)
imaginem a morte
como imagem monumental
— Évora, Hallstatt, Kutná Hora —,
em memória
dos ossos nossos de cada dia,
em espera penitente
de todos os outros ossos
que se lhes hão de ir juntando,
pelos séculos dos séculos.

imaginem a morte
monstro sem lugar
nas tipologias dos bichos,
inclassificável de feio,
sem hábitos nem habitat,
com esqueleto
por dentro
e por fora.

ou imaginem a morte
como vaga figura narrativa,
talvez com rosto revelado de gente
(como diria Jean Ray: que é real é,
mas será humana, a magana?)
,
talvez escondendo-o debaixo
de um franciscano capuz.

imaginem a morte barqueiro soturno,
misterioso cavaleiro, faz de conta que viajante
à procura de abrigo para a noite.

ou então, imaginem a morte
como gaia ilustração,
um monte de ossos vivaço
a bater o fandango
na folga da monda d’almas
em que sem descanso s’empenha.

se a imaginarem assim,
imaginem-na
a estender-vos sorrindo a mão descarnada
e a convidar-vos, gozosa,
com voz de falsete:
«venham de lá esses ossos!»

os ossos
pois,
os meus,
os teus,
os nossos,
os ossos
deste ofício

de estar vivo.

Se quiserem adquirir o livrinho, sei que está à venda na livraria Ler, em Campo de Ourique. Ou então podem pedir às Edições Carlota que vo-lo envie: edicoescarlota@gmail.com.