«A maior parte das pessoas supõem que a linguagem popular é incoerente, alteração irregular da linguagem culta ou literária: e, contudo, isso é falsíssimo. Se se julga despropósito, por exemplo, o dizer o povo listra, em vez de lista (palavras de origem germânica, a que em alto-alemão antigo corresponde lista), também deve ser tido como tal o dizerem os homens cultos estrela em vez do lat. stella (em ambas as quais formas houve epêntese de r); se é erro dizer-se em linguagem popular, por exemplo, mánica, em vez de máquina, igualmente o é dizer-se em linguagem culta joelho em vez do arc. e pop. geolho, do lat. genuculum deminutivo de genu (em ambas as quais formas houve metátese) (...).»
O excerto é de uma das «Ementas gramaticais» de Leite de Vasconcelos, publicadas na Revista Lusitana, entre 1934 e 1941, mas, peço desculpa, não sei agora data e número exatos.
Isto as palavras e as ideias são como as cerejas e quero recordar-vos que o português é fértil nesta coisa de trocar o lugar dos sons na palavra, não pensem que é só de geolho para joelho. Por exemplo, se compararmos palavras portuguesas com palavras castelhanas muito parecidas, mas com dois sons em sítios diferentes, é quase sempre em português que houve metátese dos sons etimológicos: aipo devia ser *ápio, caranguejo devia ser *cancrejo ou algo parecido, disfarçar devia ser *disfraçar, freguês devia ser *fegrês, gaivota devia ser *gaviota, jogral devia ser *joglar, melro devia ser *merlo, e noivo, raiva e ruivo deviam ser *nôvio, *rávia e *rúvio...
Um dia destes, indignava-se alguém por ter ouvido *desplota em vez de despoleta. Eu compreendo a crítica, e acho bem que se chame a atenção das pessoas para tão grandes desvios à norma, não é isso, mas não vale a pena indignar-se. À maneira de Leite de Vasconcelos, quero notar que o que a pessoa fez ao dizer *desplota foi o mesmo que fizeram milhões de pessoas antes dela, trocar sons a uma palavra, dar-lhe nova forma. Fazê-la evoluir, se quisermos. Como vimos atrás, não tivessem sido esses solecismos de bradar aos céus e o português padrão não seria o que é. Mais concretamente, o que aconteceu foi que despoletar foi primeiro entendido como *despoltar. É natural, sobretudo para quem nunca tenha visto a palavra escrita: o [E] átono normalmente não se pronuncia… Em seguida, houve uma das famosas metáteses que fazem com que a dobra da perna não sejam geolhos: *despoltar passou a *desplotar, que se conjugou regularmente, dando a forma *desplota. Só isso.
E depois… E depois, mesmo quem diz despoleta e não *desplota não é hoje em dia poupado a críticas veementes, porque, ao que se diz, espoletar é que é a forma correta para «pôr espoleta em» e para significar, por isso, «desencadear». Despoletar seria precisamente o contrário, formado da partícula de negação/privação des- e do verbo espoletar, significando, pois, em sentido figurado, «travar», ou seja, precisamente o significado contrário daquele com que costuma ser usado. É o que diz o dicionário Porto Editora, por exemplo. Mas eu acho estranho. O contrário de espoletar devia ser *desespoletar, não é verdade? É claro, pode invocar-se uma haplologia, mas não se observa isso em palavras mais erodidas pelo uso, como desesperar, que nunca se tornou *desperar... Será que o Porto Editora segue apenas a multidão que critica o despoletar como «desencadear»? O dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, embora também registe despoletar como antónimo de espoletar, aceita, no entanto, o uso do termo como sinónimo de espoletar...
A mim, que de granadas não sei nada, parece-me mais natural que despoletar seja uma forma alternativa de espoletar. Como dizia Rita Veloso no outro dia, numa conversa no Facebook sobre os diversos significados de des- em início de palavra, «numa grande parte dos casos trata-se de reanálise do prefixo es- como des-, por haver um significado semelhante ao que des- costuma induzir, como em desvanecer, desfiar, etc. (...) O caso de despoletar é muito irritante, daqueles que já estavam assimilados e veio um purista qualquer chatear... Creio que é dos casos de que falei: espoletar – acionar a espoleta; a malta não militar sabe lá o que é a espoleta e reinterpreta como «tirar a espoleta para ativar a granada», se é que pensa assim tanto! Pode ser simplesmente porque os verbos em des- são muitos e em Portugal a articulação da primeira sílaba mal se distingue...» Exatamente. O uso de despoletar e espoletar como variantes segue um padrão existente em português, em esfiar e desfiar, espertar e despertar, esvanecer e desvanecer, esvair e desvair, por exemplo, em que ninguém insiste, que eu saiba, que os dois elementos do par têm significados opostos.
Enfim, o que diria disto tudo Leite de Vasconcelos?
Nasci na Rua Leite de Vasconcelos, por acaso, ali entre a Graça e os Caminhos de Ferro, em Lisboa. Não há dúvida: estava desde o berço fadado para a filologia ou para a linguística, qualquer coisa assim… Para tentar entender as coisas da língua, em vez de apenas a fiscalizar – embora ache, como já disse, que só faz bem ensinar e cultivar a norma padrão. (Ups, «norma padrão» é capaz de ser uma redundância, não sei se isto se pode escrever...)
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