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22/10/26

Ementas gramaticais e emendas gramaticais


«A maior parte das pessoas supõem que a linguagem popular é incoerente, alteração irregular da linguagem culta ou literária: e, contudo, isso é falsíssimo. Se se julga despropósito, por exemplo, o dizer o povo listra, em vez de lista (palavras de origem germânica, a que em alto-alemão antigo corresponde lista), também deve ser tido como tal o dizerem os homens cultos estrela em vez do lat. stella (em ambas as quais formas houve epêntese de r); se é erro dizer-se em linguagem popular, por exemplo, mánica, em vez de máquina, igualmente o é dizer-se em linguagem culta joelho em vez do arc. e pop. geolho, do lat. genuculum deminutivo de genu (em ambas as quais formas houve metátese) (...).»

O excerto é de uma das «Ementas gramaticais» de Leite de Vasconcelos, publicadas na Revista Lusitana, entre 1934 e 1941, mas, peço desculpa, não sei agora data e número exatos.

Isto as palavras e as ideias são como as cerejas e quero recordar-vos que o português é fértil nesta coisa de trocar o lugar dos sons na palavra, não pensem que é só de geolho para joelho. Por exemplo, se compararmos palavras portuguesas com palavras castelhanas muito parecidas, mas com dois sons em sítios diferentes, é quase sempre em português que houve metátese dos sons etimológicos: aipo devia ser *ápio, caranguejo devia ser *cancrejo ou algo parecido, disfarçar devia ser *disfraçar, freguês devia ser *fegrês, gaivota devia ser *gaviota, jogral devia ser *joglar, melro devia ser *merlo, e noivo, raiva e ruivo deviam ser *nôvio, *rávia e *rúvio...

Um dia destes, indignava-se alguém por ter ouvido *desplota em vez de despoleta. Eu compreendo a crítica, e acho bem que se chame a atenção das pessoas para tão grandes desvios à norma, não é isso, mas não vale a pena indignar-se. À maneira de Leite de Vasconcelos, quero notar que o que a pessoa fez ao dizer *desplota foi o mesmo que fizeram milhões de pessoas antes dela, trocar sons a uma palavra, dar-lhe nova forma. Fazê-la evoluir, se quisermos. Como vimos atrás, não tivessem sido esses solecismos de bradar aos céus e o português padrão não seria o que é. Mais concretamente, o que aconteceu foi que despoletar foi primeiro entendido como *despoltar. É natural, sobretudo para quem nunca tenha visto a palavra escrita: o [E] átono normalmente não se pronuncia… Em seguida, houve uma das famosas metáteses que fazem com que a dobra da perna não sejam geolhos: *despoltar passou a *desplotar, que se conjugou regularmente, dando a forma *desplota. Só isso. 

E depois… E depois, mesmo quem diz despoleta e não *desplota não é hoje em dia poupado a críticas veementes, porque, ao que se diz, espoletar é que é a forma correta para «pôr espoleta em» e para significar, por isso, «desencadear». Despoletar seria precisamente o contrário, formado da partícula de negação/privação des- e do verbo espoletar, significando, pois, em sentido figurado, «travar», ou seja, precisamente o significado contrário daquele com que costuma ser usado.  É o que diz o dicionário Porto Editora, por exemplo. Mas eu acho estranho. O contrário de espoletar devia ser *desespoletar, não é verdade? É claro, pode invocar-se uma haplologia, mas não se observa isso em palavras mais erodidas pelo uso, como desesperar, que nunca se tornou *desperar... Será que o Porto Editora segue apenas a multidão que critica o despoletar como «desencadear»? O dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, embora também registe despoletar como antónimo de espoletar, aceita, no entanto, o uso do termo como sinónimo de espoletar...

A mim, que de granadas não sei nada, parece-me mais natural que despoletar seja uma forma alternativa de espoletar. Como dizia Rita Veloso no outro dia, numa conversa no Facebook sobre os diversos significados de des- em início de palavra, «numa grande parte dos casos trata-se de reanálise do prefixo es- como des-, por haver um significado semelhante ao que des- costuma induzir, como em desvanecer, desfiar, etc. (...) O caso de despoletar é muito irritante, daqueles que já estavam assimilados e veio um purista qualquer chatear... Creio que é dos casos de que falei: espoletar – acionar a espoleta; a malta não militar sabe lá o que é a espoleta e reinterpreta como «tirar a espoleta para ativar a granada», se é que pensa assim tanto! Pode ser simplesmente porque os verbos em des- são muitos e em Portugal a articulação da primeira sílaba mal se distingue...» Exatamente. O uso de despoletar e espoletar como variantes segue um padrão existente em português, em esfiar e desfiar, espertar e despertar, esvanecer e desvanecer, esvair e desvair, por exemplo, em que ninguém insiste, que eu saiba, que os dois elementos do par têm significados opostos. 

Enfim, o que diria disto tudo Leite de Vasconcelos? 

Nasci na Rua Leite de Vasconcelos, por acaso, ali entre a Graça e os Caminhos de Ferro, em Lisboa. Não há dúvida: estava desde o berço fadado para a filologia ou para a linguística, qualquer coisa assim… Para tentar entender as coisas da língua, em vez de apenas a fiscalizar – embora ache, como já disse, que só faz bem ensinar e cultivar a norma padrão. (Ups, «norma padrão» é capaz de ser uma redundância, não sei se isto se pode escrever...)


19/03/10

Um infinitivo cheio de personalidade

[Depois de uns quantos posts ligeiros, volto a coisas sérias, mas coisas sérias sem importância absolutamente nenhuma: coisas de língua...]

Na sua obra O infinito flexionado português[1], o linguista brasileiro Theodoro Henrique Maurer Jr. recusa liminarmente a proposta de Richard Otto, que defendera[2] que o infinitivo flexionado galego-português podia ter surgido por se ter começado a confundir os pronomes pessoais pospostos aos verbos com desinências verbais: fazer-nos, por exemplo, acabaria por dar fazermos. Maurer não pode aceitar que o infinitivo pessoal, «um tesouro lingüístico de incalculável valor», tenha como origem um «feio solecismo».

Maurer tem toda a razão em recusar a proposta de Otto, que é a pior proposta de explicação que conheço para o surgimento do infinitivo pessoal; mas não deixa de ser curioso que argumente que a forma não poderia nunca ter surgido de um «feio solecismo», porque a própria proposta de explicação de Maurer (que é boa!) se baseia no que, a certos olhos, também pode (deve...) ter parecido um feio solecismo...

O infinitivo pessoal, como decerto saberão, é muitas vezes descrito como sendo uma grande originalidade galego-portuguesa. Por exemplo, a página “Infinitive” da Wikipédia em inglês apresenta o infinitivo português de uma maneira relativamente comum em enciclopédias: “(…) O “infinitivo flexionado” (ou “infinitivo pessoal”) que se encontra em português, em galego e em (algumas variantes de) dialectos sardos tem flexão em pessoa e número. São estas as únicas línguas indo-europeias em que os infinitivos podem ter desinências de pessoa e número”.

Existem duas teorias principais sobre o aparecimento do infinitivo pessoal em português: uma, proposta por Gamillscheg e Rodrigues, entre outros estudiosos da questão, diz que o infinitivo pessoal português deriva de uma forma verbal finita do latim, o imperfeito do conjuntivo, que tem formas semelhantes (do verbo venire, por exemplo: venirem, venires, veniret, veniremus , veniretis, venirent); outra, a tese de Leite de Vasconcelos e de muitos outros linguistas depois dele, diz que apenas se juntaram desinências ao infinitivo impessoal, que podia já, em latim tardio e nos diversos falares romances que dele derivaram, ter um sujeito próprio e pleno, com caso nominativo, exactamente como o sujeito de um verbo num tempo finito. Se a discussão continua é porque, perante uma frase como “et intrarunt in placito testimoniale pro in tertio die darent testes” (“e começaram a audiência para, no terceiro dia, providenciarem testemunhas”, o primeiro infinitivo pessoal atestado!), não se pode afirmar a superioridade de nenhuma das duas hipóteses.
Na leitura da “Teoria Vasconcelos”, o verbo darent está no infinitivo pessoal, pois sofreu um processo de “finitivização”, passando, com isso, a admitir sujeito no caso nominativo como as formas finitas. (...). Na interpretação da “Teoria Gamillscheg-Rodrigues”, a oração subordinada infinitiva [darent testes in tertio die] é, na realidade, uma oração subordinada finita, resultante da supressão da conjunção ut [ut darent testes in tertio die]: o verbo darent está no imperfeito do subjuntivo, terceira pessoa do plural (…).
Esta explicação é de Mathias Schaf Filho, na sua tese de doutoramento, Do acusativo com infinitivo latino ao nominativo com infinitivo português (Univ. de Santa Catarina, 2003), que se encontra online. Quero esclarecer aqui que fui buscar a esta obra muita informação sobre esta questão (nomeadamente a do primeiro parágrafo deste texto) e que, na secção 1.4 (“Hipóteses sobre a origem do infinitivo pessoal português”), de onde é tirada a citação do parágrafo anterior, Mathias Schaf Filho faz um excelente resumo da discussão sobre a origem do infinitivo pessoal. E quero, precisamente, aconselhar a leitura dessa secção da obra a quem queira aprofundar mais o tema, que aqui é forçosamente tratado de forma demasiado resumida (o resto da tese é de leitura mais difícil, sobretudo para quem não esteja familiarizado com a teoria generativista – ou, como dizem os brasileiros, com mais lógica do que os portugueses, gerativista).

Conheço a discussão sobre as origens do infinitivo pessoal há algum tempo e, se bem que reconheça que a discussão está longe de se poder dar por terminada, tendo mais para a tese de Leite de Vasconcelos desenvolvida por Maurer. Parece-me extremamente plausível essa lógica evolutiva (infinitivo aparece em orações introduzidas por preposição > o sujeito destas orações ganha caso nominativo > a forma verbal começa a ser entendida como finita e ganha flexão em número e pessoa > expande-se a outras construções o uso da forma, já estabilizada) e parecem-me válidos os argumentos para invalidar a teoria rival (não se vê razão para o imperfeito do conjuntivo latino, que se observa ter sido substituído pelo mais-que-perfeito, ter apenas sobrevivido, sob a nova forma de infinitivo pessoal, num conjunto de usos muito restrito e que dificilmente pode resultar apenas do apagamento de uma conjunção (ut), como propõem os defensores dessa tese).

Parece-me também argumento de muito peso a constatação da existência de variantes dialectais com outras formas não finitas flexionadas, como o gerúndio (“em chegandos lá, telefona”, é o exemplo de Ana Maria Martins[3]) e o particípio (em napolitano antigo). É verdade que, pelo menos nos exemplos que conheço, é uma flexão muito limitada, mas isso pode bem dever-se ao facto de o gerúndio não ter um modelo óbvio de onde “importar” desinências, como o infinitivo tinha no futuro do conjuntivo. Aliás, segundo o filólogo galego Francisco Gondar[4], a razão da não existência de infinitivo flexionado em castelhano é nunca ter havido coincidência entre as formas de futuro do conjuntivo e do infinitivo, porque o futuro do conjuntivo castelhano conservou sempre o -e final, o que não permitiu a “confusão” com o infinitivo e o subsequente desenvolvimento de desinências neste tempo. Aliás, já Leite de Vasconcelos afirmara que o futuro do conjuntivo teria propiciado a difusão do infinitivo pessoal.

O que é certo é que o castelhano, como muitos outros falares neolatinos, tinha herdado do latim a possibilidade de ter infinitivos com sujeito próprio em nominativo – e mantém-na até hoje. Este texto (ou melhor, o ímpeto para o escrever) nasceu esta manhã, de uma canção chilena. Estava a ouvir um disco (Salones y Chinganas del 900, de 1965) da cantora e folclorista Margot Loyola e chamou-me a atenção um refrão de uma canção chamada “Refalosa me has pedido”: «Dime si me quieres, / dime la verdad, / para yo quererte / con seguridad». Não conhecia a estrutura, nem do castelhano de Espanha nem do castelhano da Bolívia e da Argentina, que são os que conheço bem. Para mim, em espanhol, a frase só poderia ser «Dime si me quieres, / dime la verdad, / para que yo te quiera / con seguridad». Ou, se a tinha ouvido, nunca tinha reparado nela. Mas uma busca simples em Google (“para yo”, páginas em espanhol) revelou-me que a construção está longe de ser rara. Surgem milhares de frases como “Quisiera saber si hay algún curso para yo mismo instalar celdas solares en mi casa.”

A continuação da busca revelou-me que se trata de uma construção criticada. No resumo de um estudo de George De Mello[5] vejo que «o uso de preposição e sujeito com o infinitivo» é uma construção que não se costuma mencionar nas gramáticas de espanhol», mas que «é tão comum nalgumas regiões como é inaceitável noutras, uma situação que dá origem a controvérsias». E fico também a saber que «alguns linguistas crêem que esta construção ocorre mais entre pessoas com menos educação». Reflectindo melhor e chegando à conclusão que a estrutura se manteve, de facto, desde o latim tardio, diria que é uma forma tão criticada como renitente… Há muitas assim, tão fundas na língua, que não há críticas que dêem cabo delas. E que se podiam, facilmente, ver antes como um tesouro linguístico e não como um feio solecismo, se se quisesse…(Eu, provavelmente, por ser falante do português, acho mais leve a frase final criticada do que a sua correspondente com conjuntivo, que é a considerada correcta e é incomparavelmente mais comum…)

Não sei se havia quem criticasse as orações infinitivas com sujeito nominativo quando elas apareceram, mas é provável que assim fosse, porque isso ia claramente contra a construção clássica. O que é muito provável, porém (se formos, como eu, adeptos da tese de Leite de Vasconcelos e seus seguidores) é que é esse erro que vai resultar no nosso infinitivo pessoal. Ou, para o dizer mais uma vez com palavras de Mathias Schaf Filho: «(…) O infinitivo latino, embora fosse avesso à flexão número-pessoal, admitia sujeito próprio e diferente da oração regente. Essa característica permitiu, presumivelmente, criar variações no latim vulgar falado nas diferentes províncias romanas quanto ao emprego de infinitivo impessoal e pessoal. Essa “pessoalidade virtual” do infinitivo pode ter sido um dos fatores que abriu as portas para o licenciamento de sujeito nominativo, e a subseqüente oscilação entre o emprego [de concordância número-pessoal ou não] do infinitivo no latim vulgar medieval e em fases posteriores». Mas, mesmo que defendamos a derivação directa do infinitivo pessoal do imperfeito do conjuntivo latino, e que não consideremos um grande “erro” o apagamento da conjunção ut, temos de admitir que a expansão da nova forma para estruturas que lhe eram completamente estranhas pode bem (e deve) ter sido considerada um feio solecismo… Há sempre alguém, aliás, a achar que é um feio solecismo qualquer inovação introduzida numa língua, porque há, em todos os tempos, quem considere que a língua chegou à forma definitiva e não queira que ela mude mais. Deve ser tão humano como errar, porque é sempre assim…

Para terminar, um facto que eu creio que muita gente desconhece: O infinitivo pessoal não é uma originalidade apenas galego-portuguesa. Já vimos, na citação que fiz da Wikipédia, que se refere muitas vezes a existência de um infinitivo flexionado em certos dialectos sardos, mas há outros falares românicos em que se deu ou se dá o mesmo fenómeno. O mirandês, por exemplo, também o tem; Maurer refere que há documentos que provam a sua existência no napolitano do séc. XV e em romeno antigo; e Maria Cristina Egido Fernández demonstra a sua existência em leonês antigo. No seu artigo “Infinitivos conjugados en documentos leoneses del s. XIII”[6], depois de analisar 1300 documentos leoneses, sobretudo do séc. XIII, conclui que «pelo menos no antigo romance leonês se conhecia e utilizava esta forma verbal», e que «é possível admitir que o infinitivo conjugado se desenvolvesse, em épocas passadas, em todo o território do Noroeste da península, se bem que com desigual intensidade».

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[1] São Paulo: Cia. Editora Nacional-USP, 1968
[2] “Der portugiesische Infinitiv bei Camões”, in Romanische Forschungen 6, 1889
[3] “On the origin of the Portuguese inflected infinitive”, in Historical Linguistics 1999, Amsterdam: John Benjamins, 2001
[4] O infinitivo conxugado en galego, Univ. de Santiago de Compostela, 1977
[5] “Preposición + sujeto + infinitivo: "Para yo hacerlo", disponível online.
[6] In Revista Contextos, Vol. X, Universidad de León, 1992