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12/02/21

As músicas e as nações

Com o aumento das quotas obrigatórias de música portuguesa na rádio, ressurgiu há pouco tempo a discussão dessas quotas. Não é isto, porém, que motiva este meu texto, cujo esboço foi iniciado, aliás, há quase cinco anos (!). Quero deixar claro que não tenho nada contra medidas de apoio aos músicos portugueses, e muito menos no atual contexto de pandemia. O que discuto neste texto, porém, tem um âmbito bem mais vasto que a questão das quotas de rádio. 

Tive várias vezes longas discussões com amigos meus que me diziam que era preciso «defender a música portuguesa». Esta ideia da «defesa da música portuguesa» – às vezes também chamada «a nossa música» – é suficientemente antiga para eu sempre a ter conhecido e é uma ideia que tem a força de ser comum a vários setores ideológicos e musicais. Mas é uma ideia que sempre me pareceu pouco clara ou, por vezes, bastante ilógica, assumindo pressupostos que, para mim, não são de modo algum evidentes. 

Uma interrogação que nos surge imediatamente quando começamos a refletir sobre este tema é porquê defender uma música e que música se deve defender? Satisfaz-me a resposta que cabe ao Estado defender os interesses dos seus cidadãos e que, por isso, o Estado deve defender a música feita por esses cidadãos — embora, como argumentarei mais à frente, nem sempre disso resulte a defesa de uma música que todos considerem portuguesa. Mas, aceitando essa primeira premissa, deve então defender-se toda a música de cidadãos portugueses da mesma maneira? A resposta depende, em grande medida, da ideia política de cada um, do papel que cada um atribui ao Estado na nivelação das assimetrias existentes. A resposta que me surge imediatamente é que se deve defender mais a música que mais precisa de ser defendida: a música de qualidade que não pode defender-se a si própria, porque, pelas suas características, não pode ser nunca suficientemente vendável para que dela alguém possa viver. É esse o critério que, nalguns países, leva à atribuição de subsídios a artistas — músicos, poetas ou outros — que trabalham em géneros artísticos não comerciais que se pretende preservar, porque se considera que, embora marginais, são uma parte importante da produção artística de um país. Evidentemente, estas decisões são também difíceis e às vezes polémicas — porque o grande público vê com maus olhos gastarem-se os dinheiros públicos em coisas de que o grande público não gosta nada; e porque é muito difícil arranjar critérios fiáveis e abrangentes para aferir a qualidade. Mas não é normalmente destas músicas que se fala quando se afirma que é preciso defender a música nacional… 

De que se fala então quando se fala de música portuguesa? Como dizia acima, a única definição que me parece aceitável é «música composta por indivíduos de nacionalidade portuguesa[1]». Há outras definições, assentes, por exemplo, não no autor mas sim na própria música, mas não vejo bem como se possa medir a portugalidade de uma música. 

Só não digo que os nomes maiores da música portuguesa promoveram música essencialmente estrangeira, porque não acredito que haja alguma música essencialmente nacional. Carlos Seixas é, dizem os entendidos, um compositor bastante à italiana; Bomtempo tinha em Haydn a sua principal influência e muitos críticos referem que Joly Braga Santos remete para Respighi e Vaughan Williams. Por exemplo… E podia, sem arriscar muito a que me acusassem de delírio, apontar o «estrangeirismo» de outros nomes maiores da música portuguesa. 

Se passarmos da música dita erudita à chamada música popular, a sua portugalidade não é mais fácil de definir. A canção dita ligeira têm óbvias influências estrangeiras. Que haverá de mais popular português que a música pimba que anima de norte a sul o povo português, em bailaricos de verão, patuscadas familiares e jornadas de trabalho? Ora, como outros estilos de canção ligeira anteriores a ele, o pimba e seus congéneres de grande público fizeram adaptações «portuguesas» de música estrangeira — a chamada música schlager internacional[2]. A canção dita «de texto» ou «de autor» tem também influências directas da canção de outros países, talvez sobretudo da canção francesa, como, aliás, os seus autores muitas vezes admitem. O pop-rock português, esse, é frequentemente criticado por ter como modelo a «música anglo-saxónica» (mais uma expressão muito difícil de definir com rigor). Há até dois esquemas clássicos de fado que se chamam o bolero do Machado e o bolero do Zé Inácio… Todos os géneros musicais têm, enfim, muitos modelos estrangeiros e isso é apenas natural: por que razão haveria um músico de recusar absorver o que é feito além-fronteiras? 

É claro que Luís de Freitas Branco tem as Suites Alentejanas Nº 1 e Nº 2, Braga Santos as Variações sobre um tema alentejano, que a música «tradicional rural» influencia também desde a canção ligeira até à canção de intervenção, que o fado de Coimbra é uma das principais influências dalguns dos primeiros e mais influentes cantautores, etc. Mas também a música «tradicional», rural ou urbana (um adjetivo como tradicional cobre coisas muitos diferentes, muitas delas bastante recentes, por tal sinal) é, como todas as outras músicas, o produto de músicas que vêm um pouco de toda a parte, desde a música de origem persa do Califado de Córdoba, provavelmente, até à música litúrgica ou às canções e músicas de dança que, mesmo antes de haver discos, circulavam já com relativa facilidade, por toda a Europa e não só. Toda a música dita tradicional é, pelo menos em parte, fusão de músicas diversas, das melodias às letras e às sonoridades, e vai-se sempre alterando num processo  dinâmico. 

E depois, músicas nacionais são também as músicas nacionalizadas, ou não? Para as pessoas da minha idade e da minha região, a música do canadiano Robert Farnon que abriu durante anos as emissões da RTP é uma música portuguesa, porque é a música da televisão portuguesa; e a música tradicional do Carnaval português... é o samba. 

Músicas puras, enfim, que reflitam de forma inequívoca e trans-histórica a «alma de um povo», desculpem, mas não sei quais sejam, porque essa ideia romântica não corresponde a nada de efetivamente observável. Mas, mesmo sem sabermos bem o que é música portuguesa, podemos voltar ao início da discussão para a concluir com uma constatação simples: se cabe ao Estado proteger os seus cidadãos e, por conseguinte, a música destes cidadãos, são todos os músicos portugueses vivos que o Estado deve proteger, antes de mais — componham ou não «música portuguesa» e em português, e — muito importante — toquem e cantem ou não música portuguesa e em português. Não se garantiria, ainda assim, a resolução do problema atrás referido (apoiar e proteger os que mais precisam de apoio e proteção, por serem menos comerciais), mas já se teria uma definição mais sensata de quem defender: não uma entidade bastante vaga chamada música portuguesa, mas os músicos de nacionalidade portuguesa, mesmo que componham música klezmer ou interpretem Motörhead ou Stravinski.

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Das peças abaixo, quais refletem o património cultural português e as sonoridades e ambientes tradicionais portugueses? Quais se podem considerar música portuguesa? 

Simone de Oliveira, “Amor à portuguesa”, 1959  

Uma canção composta pelo espanhol Enrique Confiner em 1953. Além do original castelhano, tinham já sido gravadas versões em inglês, francês, alemão e italiano antes da versão portuguesa de Simone Oliveira. 

Iris Rautio:  “Benfica”, 1963  

Não sei nada desta canção finlandesa, mas não há dúvida de que fala de Portugal. Se fala de Benfica ou do Benfica, isso não sei, mas, como Iris Rautio era uma cantora pop conhecida, há de ter contribuído para divulgar Portugal na Finlândia, numa altura em que não havia provavelmente muitos finlandeses que viessem de férias a Portugal. 

Conjunto de João Paulo:  “Hully Gully do Montanhês”, 1965  

Não se trata de uma versão. É uma composição de Sérgio Borges e Carlos Alberto Gomes. Hully Gully não é uma expressão portuguesa, mas acho que se pode dizer que a letra é em português... 

Joly Braga Santos: Sinfonia Nº 6, 1972  

Não se trata de uma obra em português, embora tenha um texto de Camões — mas em castelhano… 

Constança Capdeville: Momento I, 1974  

Música bem portuguesa, esta, na autoria e na interpretação (do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, dirigido por Jorge Peixinho) 

Enza Pagliara:  “Pizzicarella”, 2002  

O folclore salentino tem, como outros tipos de folclore europeu, sonoridades semelhantes às de algum folclore português. Contribui para essa semelhança o uso do acordeão, um instrumento inventado na Alemanha há cerca de 200 anos, com base no sheng asiático, trazido para a Europa nos fins do séc. XVIII, que inspirou a criação de vários aerofones de palheta livre. 

César Viana: Land der Brüderlichkeit, 2020  

Land der Brüderlichkeit significa «terra da fraternidade». Trata-se de um «prelúdio coral», que, em vez de se basear num hino luterano, se baseia em “Grândola, vila morena” de José Afonso.



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[1] É claro, uma pessoa pode perguntar-se se a música de Thilo Krasmann era portuguesa antes de este músico ter obtido a cidadania portuguesa, mas deixemos agora essas picuinhices… 

[2] A música que em Portugal se chama pimba e os seus parentes próximos designam-se em várias línguas pela palavra alemã Schlager. Para dar apenas dois exemplos simples de schlager em português, o “Vinho verde” que é do meu Portugal e que faz seguramente parte da música portuguesa que alguns querem defender, é uma versão de uma canção alemã de Michael Kunze e Udo Jürgens, “Griechischer Wein”, de que há também versões pelo menos em croata, finlandês, neerlandês e polaco – e que alguns croatas, finlandeses, neerlandeses e polacos considerarão provavelmente, música sua; e os dois amores de Marco Paulo são uma versão de um tema do músico grego Giorgios Hatzinassisos... 


23/08/11

Crónicas de Svendborg #4 e Inventários #3: Da Dinamarca como país exótico

O exotismo é como a beleza de um célebre ditado inglês*: está nos olhos de quem acha exótico. No caso desta pequena selecção de coisas exóticas dinamarquesas, esses olhos são os meus, claro está. Mas não são os meus olhos de agora. A lista é de coisas que eu achava bastante exóticas quando aqui comecei a viver pela primeira vez, em 2001 – e que hoje já me parecem bastante normais…

- Amargermad, uma sandes de Amager. Não só é surpreendente existir uma sandes assim, uma fatia de pão escuro de centeio sobre um bocado de pão claro, com manteiga ou com um bocado de queijo no meio, como é surpreendente haver uma página da Wikipédia em dinamarquês dedicada a essa estranha sandes. A entrada da Wikipédia explica que “uma teoria proposta é que, a certa altura, era mal visto comer pão branco ao domingo, mas, estando o pão branco por baixo, Deus não o via”.
- Mellemlægspapir, papel para pôr no meio. É um papel absorvente que serve para se pôr entre as sandes (que são normalmente abertas, ou seja, um fatia de pão escuro com qualquer coisa lá em cima, donde a necessidade do papel) na caixinha de plástico que serve de lancheira!
A arte de “barrar merendas”, como se diz em dinamarquês. É entre estas sandes que se põe o tal papel…
- Rygeost, requeijão fumado,. Uma especialidade aqui desta zona. É fumado com palha de cereais e eu por acaso até gosto, mas é uma coisa um bocado especial… Exótica, enfim, com sabor a fumo… Também tem direito a página de Wikipédia

Rygeost, requeijão fumado
- Campeonato nacional de guitarra de ar, que é como quem diz, um campeonato para ver quem é o melhor a fingir que está a tocar guitarra.

 

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* Bom, eu conheço-o como provérbio inglês, “Beauty is in the eye of the beholder”, A beleza está nos olhos de quem olha”, mas, segundo Elizabeth Knowles, em The Oxford Dictionary of Phrase and Fable (OUP, 2005), o dito é muito mais antigo: “O provérbio está atestado em inglês a partir de meados do século XVIII, mas encontra-se nos Idílios de Teócrito (c. 300-260 a.C.), um dito grego do séc. III a.C. relacionado com ele: «Aos olhos do amor, o que não é belo parece muitas vezes que o é».” É claro, pode argumentar-se que é ir longe de mais relacionar a frase de Teócrito com o provérbio inglês, de tão diferentes que são. Agora, pode-se, isso sim (e deve-se, provavelmente), ver no aforismo de Teócrito a origem do provérbio português “Quem feio ama, bonito lhe parece”.

21/08/11

Cantar anedotas

Um rei de Espanha, ou então de França tinha um calo num pé. Era no pé esquerdo, penso eu. Coxeava que metia dó. Os cortesãos, gente hábil, esforçaram-se por imitá-lo e, uns com o pé esquerdo, outros com o direito, aprenderam todos a coxear. Depressa se tornaram evidentes os benefícios de uma moda assim e, da antecâmara aos gabinetes, toda a gente coxeava.
Um dia, um nobre da província, esquecendo a seu novo dever, passou diante do rei, firme e direito como fuso. Começou toda a gente a rir, menos o rei que, baixinho, murmurou:
“Senhor, que quer isto dizer? Não vos vejo coxear…”
“Equivocais-vos, Majestade… Tenho os pés repletos de calos, vede! Se caminho mais direito do que os outros, é porque coxeio dos dois pés.”
Contado assim, é uma anedota, não há dúvida nenhuma. Podem achar-lhe graça ou não, mas é óbvio que é uma anedota. O que é curioso é que é, de facto, uma canção, originalmente em quadras, com métrica e rima emparelhada perfeita, mas que eu, para lhe deixar claro o caráter prosaico, resolvi traduzir em prosa [1]. A canção é de Gustave Nadaud, que, segundo uma página do site Dialogus, «foi um cantautor prolífico e muito famoso no seu tempo. Além de romances, ópera e poemas diversos, compôs mais de 300 canções, geralmente ligeiras e divertidas, às vezes sentimentais, muitas das quais foram publicadas em três volumes. Foi o primeiro cantautor a ser condecorado com uma ordem nacional, na altura do Segundo Império. Um dos feitos que lhe trouxe maior fama foi ter feito publicar, em 1884, as obras do communard Eugène Pottier, autor d’“A Internacional”».
Agora, a fama de Nadaud não se manteve até aos nossos dias, e eu nunca teria conhecido esta canção se Brassens não tivesse agarrado na letra (por alguma razão, não quis aproveitar a música…) e a tivesse musicado e cantado.
Georges Brassens, “Le roi boiteux”, 1979

Conheço muitas canções que são verdadeiras anedotas, mas esta é das poucas anedotas cantadas que conheço. Há dezenas de formas relativamente codificadas de canção humorística, mas a anedota cantada é muito rara. Percorram mentalmente o repertório dos cantores ou dos compositores de canções humorísticas que conhecem, e vejam lá se não me dão razão[2]. O que não quer dizer que seja esta a única anedota cantada. Conheço mais umas quantas... 

Em relação a esta do rei coxo, não sei se Nadaud musicou uma anedota que ele conhecia ou se inventou ele a anedota. Há casos, no entanto, em que tenho a certeza de que os autores se limitaram a transformar em canção uma anedota já existente, porque eu já conhecia as anedotas antes de as canções existirem. Um destes casos é o da “Chanson dégueulasse”, de Renaud, que de tão dégueulasse e tão sem graça, me recuso aqui a contar.  Outro é daquela anedota já velha que os Sparks musicaram no álbum Lil’ Beethoven e que eu acho que não produz o devido efeito na minha pobre tradução: Um homem pergunta a um transeunte o caminho para o Carnegie Hall: «Desculpe, como é que eu daqui chego ao Carnegie Hall?» «Pratique, senhor, pratique, é preciso ensaiar muito!», responde o outro. Bom, está bem…

Sparks, “How do I get to Carnegie Hall?”, 2002

Melhor que essas todas é uma canção-anedota nacional de que eu tenho pena de não saber a letra completa para a pôr agora aqui. Era cantada, se a memória me não falha, pelo Duo Humorístico Crispim e é a história de dois grandes mandriões que estão a bater uma sorna à sombra de uma árvore. De repente, um deles acorda excitado e desperta o outro:
«Eh, pá, tive um sonho maravilhoso! Sonhei que tinham inventado uma máquina que, com ela, um gajo já não precisava de fazer nada – era só carregar num botão e aparecia tudo feito!»
«Grande máquina, sim senhor, uma coisa assim dava um jeitão!», responde o outro, ensonado. «Mas ouve lá, não estás a contar comigo para carregar no botão, pois não?»

Há temas de canções mais típicos de certos países que doutros. O louvor da preguiça é, sem dúvida, um tema bem português. Pois, a saudade, pode ser… Mas muita preguiça também. No fundo, a preguiça é também um forma de saudade – saudade daquela Idade de Ouro primordial em que um gajo vivia sem ter de vergar a mola… Ou saudades do futuro, como dizia o outro, do tal futuro perfeito em que terá sido inventada[3] a máquina que faz tudo… carregando-se só num botão!
Pois… Ou, como diz outra canção que há, «O que é que querem? / São os ócios do ofício!»
Agora, para não ficarem a pensar que me levo muito a sério a mim mesmo e que acredito que o louvor da preguiça é mesmo uma particularidade da canção portuguesa, posso dizer-vos que Aristide Bruand, um dos mais importantes cantautores franceses[4], escreveu por volta de 1900 um monólogo chamado Lézard, em que faz a apologia de chular a irmã e o cunhado, em nome do direito a não fazer nenhum: «Uma pessoa ganha hábitos aos quinze anos / depois cresce e já não os perde / E eu gosto é de xonar / e não gramo trabalhar / Trabalhar é uma chatice.»
Tirando isso, houve mais gente boa da chanson, como Henry Salvador (uma vez até em colaboração com Boris Vian) ou Georges Moustaki, a fazer, uns mais a sério  do que os outros a brincar, o elogio do sagrado ripanço…
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[1] Assim mesmo: para lhe deixar claro o caráter prosaico, traduzi-a em prosa. Ou pensavam que era sem querer?
[2] Quando falo de anedotas, não falo de uma piada qualquer, nem sequer de uma letra narrativa humorística, mas sim de uma história com um desfecho que cria um efeito cómico – em princípio, visando provocar a gargalhada, mas, vá lá, no mínimo, um sorrisinho...
[3] Notem que a forma verbal “terá sido inventada” é um futuro perfeito passivo, como convém à conversa…
[4] De Aristide Bruant, muitas pessoas conhecem o retrato feito por Henri de Toulouse-Lautrec, mas desconhecem as centenas de canções que compôs… Pois vale a pena conhecê-las!

28/01/09

Tenho muito orgulho em só ter começado a chover depois de eu ter chegado a casa

Quando estive no Acre, há já alguns anos, ouvi várias vezes a acreanos que eram “os únicos brasileiros por opção”. O Acre fazia parte da Bolívia até ao início do séc. XX e um dia os acreanos fizeram uma revolução para se tornarem brasileiros (a história não é exactamente assim, mas admitamos, para simplificar, que foi assim que as coisas se passaram). Nem por isso os acreanos são brasileiros por opção. Quer dizer, os que fizeram a revolução e tomaram o poder na região, para se juntarem ao Brasil, foram, de facto, brasileiros por opção. Mas isso foi há 100 anos. A partir daí, mais nenhum acreano foi brasileiro por opção.

O que acabo de dizer dos acreanos, posso também dizer da gente de Bornholm (que, a determinada altura, fez uma revolução para deixar de ser sueca e se tornar dinamarquesa) e dos suíços dos diversos cantões (que foram progressivamente aderindo à Confederação Helvética). E dos povos de todas as nações que se libertaram do jugo colonial. Houve moçambicanos que o foram por opção: os que fizeram a luta de libertação, sobretudo, mas também aqueles que, não participando nela directamente, concordavam com ela e, na altura de escolher, preferiram ser moçambicanos a continuarem a ser portugueses. A partir daí, já não houve moçambicanos por opção. O facto é que muito pouca gente escolhe a sua nacionalidade. Quantos portugueses é que o são por opção?

Isto vem a propósito de orgulho. As identidades étnico-nacionais, regionais, etc., parecem ser aquilo em que mais comummente se tem orgulho. Pelo menos, se googlarem “tenho orgulho em ser” vão deparar com uma maioria de ocorrências de um gentílico depois do ser. Mas o que é isso de ter orgulho numa identidade? Ou pode até fazer-se uma pergunta mais abrangente, para começar: o que é que significa, ao certo, ter orgulho nalguma coisa?

O meu dicionário não ajuda nada: diz que orgulho (excluindo as acepções de “conceito exagerado que alguém faz de si próprio”, “vaidade” ou “soberba, altivez”, que obviamente não são as que tem a palavra quando se afirma, por exemplo, o orgulho na sua identidade) é “dignidade, brio, pundonor”. É óbvio que não é verdade, porque não se pode dizer “tenho dignidade/brio/pundonor em ser rinchoense”. Se procurar orgulhar-se, que é o mesmo que ter orgulho no sentido que aqui me interessa, encontro “envaidecer-se”, “ufanar-se”, “gloriar-se”. Não me serve, fico na mesma... Já o Concise Oxford dá uma definição de pride (“orgulho”, em inglês) muito mais interessante. A tradução não é perfeita, mas é qualquer coisa como “um sentimento de exaltação ou satisfação perante realizações ou qualidades ou posses, etc., que dão bom nome a alguém”.

Muito bem, não há dúvida de que é isso. E o que me incomoda é precisamente que coexistam na mesma definição “realizações” e “qualidades”; que o orgulho possa resultar tanto da percepção de se ter realizado uma acção positiva como da percepção de se ser depositário de uma característica que se considera positiva; porque, se geralmente há mérito nas boas realizações, nas boas características não há quase nunca mérito nenhum. Que mérito há em ser bonito, elegante ou inteligente? Que mérito tem uma vaca em dar leite? Mérito implica controlo e temos, no geral, muito pouco controlo sobre o que somos – e nenhum sobre a nossa nacionalidade.

Sempre tive muita dificuldade em compreender que alguém possa ter orgulho em ser português ou moçambicano ou dinamarquês (ou em ter olhos azuis, ou em ser alto, ou em ser dotado para a matemática, ou em “viver a mocidade / dentro desta geração*”…). Em última análise (em última análise…), posso admitir que uma pessoa tenha orgulho nas coisas que ela própria considera louváveis e que ela própria decidiu fazer ou ser. Agora daquelas em que a sua vontade não foi chamada para nada (acasos, acidentes…), digam-me lá, que orgulho é que se pode ter?

Soa apatetado o título deste texto, não soa? Ora, bem vistas as coisas, entre só ter começado a chover depois de eu ter chegado a casa e eu ter nascido num determinado lugar, num determinado tempo ou com determinadas características, que diferença é que há em termos do controlo que tenho desses factos? Absolutamente nenhuma. E é assim, exactamente como o título deste texto, que me soam as afirmações de orgulho numa identidade qualquer.


P.S.: Uma das evoluções naturais da democracia deveria ser – talvez venha a ser, espero que seja – a possibilidade de se escolher cada vez mais a sua nacionalidade. Chama-se a isso empowerment**, no jargão do desenvolvimento: capacidade de decidir mais sobre a sua vida.
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* A famosa cantiga não diz orgulho mas sim vaidade: «(…) mas tenho grande vaidade / em viver a mocidade / dentro desta geração». É óbvio, no entanto, que vaidade, de que os dicionários que consultei dão apenas uma definição claramente negativa, é aqui sinónimo perfeito do orgulho de que aqui trato.
** Empoderamento, eis como a palavra inglesa se traduz normalmente aqui em Moçambique. Bem formada ou mal formada, a palavra é já um facto – nada a fazer contra ela…

17/11/08

Lendas portuguesas: rosas húngaras e amendoeiras andaluzas

A lenda das rosas

Havia em Paris (talvez ainda haja...) um bar chamado Lèche-Vin, que era todo decorado com imagens de santinhos e santinhas, excepto a casa de banho, cujas paredes eram forradas a fotografias pornográficas. Uma noite, enquanto saboreava uma bière de garde, chamou‑me a atenção uma das santinhas na parede mesmo ao meu lado. Ou melhor, o que me chamou a atenção não foi tanto a santa mas o texto que tinha por baixo: “Há muito tempo, transformaram-se bocados de pão em rosas nas pregas do vestido de Santa Roseline, padroeira dos Cartuxos”.

Vim a saber mais tarde, à leitura de um romance de Somerset Maugham sobre uma parte da vida de Maquiavel (Then and now) que (traduzo eu) “[Isabel da Hungria,] proibida pelo seu cruel marido de acudir aos necessitados, encontrou-o na rua um dia em que levava com ela pão para os pobres. Suspeitando que ela estava a desobedecer às suas ordens, ele perguntou‑lhe o que levava no cesto e ela, assustada, disse-lhe que eram rosas. Ele arrancou-lhe o cesto da mão e quando o abriu constatou que ela tinha dito a verdade. Os pães tinham-se milagrosamente transformado em rosas de cheiro doce.” Não sei se isto se terá passado com o marido, como conta a lenda, ou antes com o cunhado, porque foi o cunhado que, depois da morte do marido, a acusou publicamente de andar a gastar o dinheiro das propriedade da família deles, na Turíngia.

Seja como for, acho que perceberam onde é que eu quero chegar: estas histórias são iguais entre si e iguais à lenda que todos conhecem e que se conta de Isabel, esposa do nosso rei Dinis. Seguindo um critério cronológico, a milagreira original deve ser Isabel da Hungria e não a de Portugal, já que a santa húngara, tia-avó da portuguesa, viveu umas quantas décadas antes dela. E mesmo Santa Rosaline de Villeneuve (1263-1329), a outra candidata ao milagre das rosas, é ligeiramente mais velha do que Isabel de Aragão (1271-1336); e, sobretudo tendo em conta que o milagre das rosas que se lhe atribui se deu na sua juventude, também o pão se lhe transformou em rosas no regaço antes de o mesmo extraordinário acontecimento se ter dado com a Isabel de D. Dinis...

Mas enfim, o que mais me interessa nesta história é analisar com que tipos de atitudes compactua Deus, se assumimos que o milagre é produto da intervenção divina: O marido (ou o pai, no caso de Roseline de Villeneuve) não quer que a santa pratique a caridade; e quando o homem aparece, a santa, em vez de assumir o bem que faz, tenta disfarçá-lo, submissa ao poder masculino. O milagre devia ser, acho que estamos nisso todos de acordo, cair do céu um martelo em cima da cabeça do homem, e que lhe abrisse um fenda no crânio por onde o Espírito Santo pudesse entrar, começando então o ex‑sovina a contribuir voluntariamente do seu bolso com qualquer coisinha para os mais desfavorecidos – e já não digo instituir um sistema social justo nos seus domínios, que, mesmo para milagre, é pedir demais a Deus… Mas, não! O que Deus faz, milagre dos milagres, é ajudá‑la a mentir para se safar de um raspanete do pouco caridoso marido (ou pai).

A lenda das amendoeiras

Dispenso‑me de comentar a moralidade deste nosso criador e passo antes a traduzir do inglês um texto que encontrei num “livro de factos” das Selecções do Reader’s Digest (AAVV, Reader’s Digest Book of Facts. Cape Town: Reader’s Digest Association of South Africa – Printbak Books, 1989, p.63.)
Um rei árabe mandou uma vez plantar com amendoeiras toda a encosta de uma colina – para agradar à sua esposa favorita. Este rei, Almotamid, que reinou na região à volta de Sevilha em meados do século XI, quando Espanha era, em grande parte, uma colónia moura, mandou fazer esta plantação perto de Córdoba, porque a sua mulher – uma escrava cristã chamada Itimad – nunca tinha visto neve. Na Primavera, as pétalas caídas das flores das amendoeiras cobriam de branco as encostas, o mais parecido como neve que se conseguia no clima temperado do Sul de Espanha.
Esta versão da história diverge, pois, da que nós que conhecemos como “portuguesa” e como “A lenda das amendoeiras” por não se passar no Algarve (embora, de facto, o reino de Al-Mutamid abrangesse também o Algarve) e no pormenor importante de que Al-Mutamid quer mostrar a I’timad que aspecto tem a neve, ao passo que na versão portuguesa (pelo menos, como eu a conheço) o rei mouro não identificado quer, com a “neve” artificial, matar as saudades que a sua nórdica esposa sente das paisagens de Inverno da sua terra natal. Na minha opinião, esta versão da história é muito mais bonita. Agora, a história é provavelmente tirada do Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de Don Juan Manuel. Se assim for, a versão original, que vem em pouco mais de um parágrafo do “Exemplo XXX” desta obra, não é bem nem como a do livro das selecções do Reader’s Digest nem como a que eu aprendi na escola (traduzo eu), mas mais próxima desta do que daquela:
(…) um dia, estando em Córdova no mês de Fevereiro, caiu uma neve; e quando Ramaiquía a viu, começou a chorar. E perguntou-lhe o rei por que chorava. E ela disse-lhe que porque nunca a deixava estar em terra onde visse neve. E o rei, para lhe agradar, mandou pôr amendoais por toda a serra de Córdoba; para que, como Córdoba é terra quente e não neva aí todos os anos, em Fevereiro aparecessem floridos os amendoais, que parecem neve, para lhe fazer perder os desejos da neve.
Agora, pergunto eu, por que é que Al-Mutamid não levou I’timad à Sierra Nevada, que fica ali perto? Apaixonado, talvez, mas de paixão preguiçosa.

Para terminar, como as palavras são como as ginjinhas, e a propósito de origens desconhecidas de histórias conhecidas, uma curiosidade: Sabiam que foi ao Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de que eu falava aí atrás, que H. C. Andersen foi buscar a história, que toda a gente pensa que foi ele que inventou, de um rei que andava nu convencido de que andava bem vestido?

21/05/08

Aquele que sabe ler os quipus: comentários bem reais sobre o Peru dos incas

Se há sociedades com tradição de serem idealizadas, o império inca é com certeza uma delas. Desde as Cartas de uma peruana, de Madame de Graffigny, até ao livro que ando agora a ler (um “policial histórico” passado no império inca), tem-se insistido em fazer do império inca um ideal de organização, justiça e desenvolvimento. Um mito que, por um lado, sempre me fascinou; e que, por outro lado, como sou hostil a mitos, sempre me empenhei em combater.

Muito provavelmente, há que procurar no Inca Garcilaso de la Vega, autor de Comentarios reales sobre el Peru de los Incas, a origem da idealização dos incas. Garcilaso de la Vega diz que pretende, ao escrever os Comentários… que se “veja distintamente o que eram antes da chegada dos Espanhóis tanto as cerimónias da vã religião dos seus habitantes como o governo dos seus reis em tempos de paz e de guerra, e tudo o que se possa dizer dos Índios desde os mínimos exercícios dos sujeitos até aos mais altos topos da coroa”, mas uma leitura atenta da obra deixa claro, no entanto, que o projecto de Garcilaso de la Vega é antes o engrandecimento da cultura inca perante os europeus; e este engrandecimento não pode ser feito senão de uma maneira: tornar os incas iguais a eles... É impossível saber o que há de consciente e/ou de inconsciente neste projecto, e pouco importa. É provável que Garcilaso, nascido no Cuzco de uma princesa inca e de um nobre espanhol acredite em muito do que escreve e que deve corresponder, em parte, à própria maneira como os últimos nobres do império concebiam a sua própria história. Mas também é possível que tenha omitido propositadamente o que, como os sacrifícios humanos, encaixasse mal nos valores europeus.

Uma das invenções de Garcilaso que teve uma fortuna especial foi fazer dos quipus, as cordas com “nós falantes” que os incas usavam para a contabilidade do império, um sistema de escrita prático do tipo da nossa. Os quipus eram efectivamente um sistema de registo de tropas, mantimentos, dados de população e inventários de diversos tipos, mas (embora tenha sido já aventada a polémica hipótese de poderem conter de facto informação fonética) nada indica que com eles se pudesse escrever textos, como as cartas literárias da heroína Zilia de Madame de Grafigny ou as mensagens relativamente complexas do romance que agora estou a ler.

Outro mito inca com sucesso é o do socialismo inca, altamente organizado, com sistemas eficazes de segurança e de justiça social. Se bem que seja pouco provável que o imperio quíchua alguma vez tenha tido um nível de organização como aquele que é descrito na novela que estou a ler, não parece haver dúvida de que o “império dos quatro horizontes” tenha tido de facto uma estrutura de tipo estatal e a funcionar com eficiência. Ir além disso e querer fazer dele um modelo de justiça e igualdade é, provavelmente, ir longe demais. As injustiças e os abusos de poder por parte das elites aristocráticas não foram, com certeza, menores no império inca do que qualquer outra sociedade feudal; a expansão colonial não foi mais suave do que outras expansões coloniais; e não nos esqueçamos que uma das cruéis instituições coloniais espanholas que o vice-rei Francisco de Toledo no então Vice‑reinado do Peru e dos Charcas não é senão o restabelecimento da mita inca (isto é os impostos de quatro meses de trabalho anuais)…

Uma outra característica da idealização dos incas é a crença num avanço científico e tecnológico dos incas maior do que o que eles de facto tinham. Sabe-se, por exemplo, que foram esquecidas, com a queda de Tiahuanaco alguns séculos antes da expansão inca, técnicas sofisticadas de irrigação e cultivo, cujos vestígios foram em parte destruídos pelos incas, que obviamente as não compreendiam. Mas já encontrei muito quem atribua aos incas esses conhecimentos que lhes são, de facto, anteriores. Também a arquitectura inca, por exemplo, é frequentemente idealizada. A técnica de construção com grandes blocos de pedras é impressionante, de facto, sobretudo pela dificuldade de carregar, cortar e polir perfeitamente blocos assim, mas o Machu Picchu [de passagem: um sítio que é considerado umas das maiores maravilhas do mundo… porque o é de facto!] não é, do ponto de vista propriamente arquitectónico, nada que se possa comparar com, sei lá…, as catedrais de Amiens, Reims ou Chartres, que são dois séculos mais antigas…

O que a novela que estou a ler e a sua idealização do império inca me vieram recordar, para além do que fui investigando sobre a utopização do império do Cuzco, foi a conversa dos guias turísticos no Peru. São muitos e contam todos as mesmas histórias, e devem estar habituados a lidar com gente fácil de convencer dos mitos incaicos (é o adjectivo espanhol correspondente ao nome inca). É natural que os incas tenham tido, de facto, conhecimentos de astronomia relativamente desenvolvidos, como parece provar a orientação de certos edifícios, mas estes guias exageram um bocado:

“Está a ver aqui esta janela neste muro? Se olhar por aqui, ao pôr-do-sol, verá que o sol se põe exactamente do alinhamento da janela com aquela pedra grande lá ao fundo, está a ver? Que foi lá posta pelos incas!…”

Numa zona de pedras como aquela, entre qualquer janela e qualquer ponto cardeal é impossível que não haja uma pedra qualquer – que deve lá ter sido posta pelos incas… Mas está tudo muito bem, quem sou eu para contrariar agora o senhor guia? A justiça, a superior organização, os conhecimentos arquitectónicos, em tudo o que é idealização do inca, os guias turísticos peruanos batem aos pontos Garcilaso de la Vega, Madame de Graffigny e as modernas novelas de detectives no reinado de Pachacuti

No fundo, nem tenho nada contra isso... Afinal de contas, é o que nós fazemos aos estrangeiros que apanhamos a jeito, com grandes histórias de Viriato e dos lusitanos, da sobre-humana aventura dos descobrimentos, da grandeza dos nossos poetas, das nossas palavras só-nossas e da nossa singular nostalgia musical… E isto sem sermos guias e sem ganharmos, portanto, nada com isso. Sim, que a idealização dos incas, pelo menos, sempre vai dando alguma coisa…

26/01/08

Alpondras, saudosismo e traduzibilidade: como é que se diz châssis em francês?

As palavras portuguesas que traduzem stepping stone (“uma pedra elevada, normalmente fazendo parte de uma fileira de pedras semelhantes, para ajudar a travessia de um riacho, de uma área lamacenta, etc.”), aprendi eu noutro dia, são alpondra, pondra e poldra. Pouco tempo depois de aprender isto, apareceu-me numa tradução a frase “The awareness building deriving from poor people’s participation in local consultations will act as a stepping stone for sustainable empowerment” e eu fiquei desiludido com o meu novo conhecimento: “A consciencialização resultante da participação das pessoas pobres nas consultas ao nível local servirá de alpondra a um empoderamento sustentável” [desculpem o empoderamento, sim?, de que eu também não gosto, mas é a palavra que se usa em Moçambique neste jargão da cooperação para o desenvolvimento…]? Parece que alpondra não serve bem quando a expressão stepping stone não é usada no seu sentido “primeiro”, mas antes no seu sentido “abstracto” ou “metafórico”. Uma busca simples em Google, no entanto, usando o sintagma “a stepping stone” (com artigo, para evitar nomes de instituições, livros, etc.), mostra que esse sentido “metafórico” é que é, afinal, o seu sentido primeiro – e o outro é relativamente marginal. Acontece...

Serve este pequeno delírio para introduzir de maneira descontraída os temas sérios da tradução e da traduzibilidade. O texto que se segue insere-se numa campanha que eu ando a fazer há muito tempo contra os mitos das palavras intraduzíveis. Estes mitos nacionalistas são um fenómeno mais espalhado do que possa pensar-se. Só para ficar pelas línguas mais próximas, há alemães que defendem a intraduzibilidade de Sensucht (“saudade”), finlandeses que dizem que não há tradução para o seu sisu (“resistência, capacidade de aguentar, de suportar”) que traduz a “alma finlandesa”, dinamarqueses que dizem o mesmo do seu hyggelig (“acolhedor, cómodo, aconchegadinho, confortável”), e holandeses do seu gezellig, que, curiosamente, corresponde ao hyggelig dinamarquês... A mim, portuguesinho que sou, agasta-me sobretudo o nosso mito da “intraduzível saudade” e é esse o tema mais imediato do texto panfletário que se segue.

O mito da intraduzibilidade de saudade é um disparate, mas é um disparate de sucesso – provavelmente até de maior sucesso que muitos outros mitos do mesmo tipo. Vejam a página Saudade da Wikipédia em inglês, por exemplo. Que os operadores turísticos e as editoras de novo fado queiram vender a saudade, eu percebo. Mas estas pessoas que fazem estas páginas da Wikipédia, o que é que aquilo lhes deixará? O mais assustador é a (forte) possibilidade que há de eles acreditarem mesmo no que dizem! A questão é esta: a boa-fé desculpa a falta de bom senso? Se sim, estão todos perdoados. Até Teixeira de Pascoaes.

Pascoaes merece aqui um destaque especial porque foi ele, como se sabe, um dos principais obreiros, se não o principal obreiro, do mito da intraduzibilidade de saudade, sobretudo na sua Arte de Ser Português [citações abaixo da edição Delraux, Lisboa: 1978]. Bom, quando saudade, para ele, significa “fusão do princípio naturalista ou ariano e do princípio espiritualista ou semita … sua unidade sentimental … desejo (parte sensual e alegre – ariana, portanto) e lembrança (face espiritual e dolorida – semita), lembrança que inclui ausência de uma coisa ou de um ser amado que adquire presença espiritual entre nós… desejo [que] é esperança assim como é lembrança pela dor” é verdade que é muito difícil de traduzir essa palavra – até para português… Aliás, Pascoaes vai tão longe na sua obsessão de intraduzibilidade que chega até a afirmar que “para além deste aspecto definido e revelado da saudade, existe ainda a sua feição misteriosa, vaga e indefinida, que devemos perscrutar [sublinho eu] em outros vocábulos intraduzíveis como remoto, ermo, oculto, luar, nevoeiro, medo, sombra, etc.”.

Evidentemente, ideias assim tão estapafúrdias não podem deixar de causar alguma indignação em pessoas com menos tendência para o delírio metafísico. António Sérgio, por exemplo, além de desancar no saudosismo pascoaesiano, apresentou logo uma lista de traduções de saudade em sete línguas [“Epístola aos saudosistas”, in A Águia, vol. 4, 1913, p. 97 e seguintes]:
Muito ao contrário do que Pascoaes afirma, a palavra saudade é traduzível. Várias nações a representam por um termo especial: o galego tem soledades, soedades, saudades; o catalão, anyoransa, anyoramento; o italiano, desio, disio; o romeno, doru, ou dor; o sueco, saknad; o dinamarquês, savn; e o islandês, saknaor… Eles, porém, menos iluminados que nós outros, apesar de terem Ibsens, Ardigos, Höffdings, não se lembraram de construir a filosofia definitiva e surprema do anyoranismo, do desiismo, do doruísmo, do saknadismo, do savnismo, do saknaorismo…. Saknaorismo é catita! Meus queridos amigos, meus confrades, meus irmãos da renascença: é o que vocês são em islandês: saknaoristas!
A lista de António Sérgio é capaz de não ser muito rigorosa, pelo menos relativamente a saknaor, mas não tenho a certeza – o verbo sakna pode, de facto, significar “ter saudades de”, mas o meu corrector ortográfico de islandês não reconhece a forma saknaor, além de que uma busca de saknaor em Google em páginas em islandês não me dá nenhum resultado. Algo aqui não bate certo…. Mas enfim, rigorosa ou não, a lista também não é muito completa. É possível acrescentar muito mais termos à lista de Sérgio. A referida página da Wikipedia propõe alguns e eu, com um bocado de trabalho, poderia provavelmente acrescentar centenas – se fosse esse o meu jogo… Sem sair das sete línguas que Sérgio menciona, poderia acrescentar morriña e señerdá em galego, længsel em dinamarquês e, para as saudades da terra, hjemve também em dinamarquês e Heimweh em alemão. Notem, no entanto, que nem todos os termos aqui propostos para traduzir saudade, embora possam perfeitamente servir para tal em determinados contextos, lhe correspondem directamente. É que saudade tem uma restrição semântica que não se aplica a alguns deles: só se pode ter saudades do que se conhece.

Mas isso importa pouco. O que importa é que, se palavras “intraduzíveis” são palavras sem correspondência biunívoca com um item lexical de outra língua, que é o que parece querer dizer muitas vezes quem postula que essas palavras existem, praticamente todas as palavras de todas as línguas são intraduzíveis – excepto, talvez, nomes de objectos físicos, mas, mesmo o caso dos nomes das coisas não é tão simples como pode parecer à primeira vista. , dar ou comer são altamente intraduzíveis nesta acepção de intraduzibilidade. E ainda que, afrouxando um bocado o conceito de intraduzibilidade, seja considerada intraduzível a palavra que não tem palavras que lhe correspondam directamente (embora não biunivocamente) na mesma categoria lexical noutras línguas, continua a haver em português palavras com muito mais probabilidades de serem intraduzíveis do que saudadepingarelho, por exemplo. Discutir se as palavras são ou não traduzíveis, porém, é já uma maneira errada de abordar a questão.

Quando se postula a “intraduzibilidade” de um palavra, o que se faz é ignorar a regra de base da tradução: o que se traduz não são palavras, mas frases (uso a palavra frase para simplificar). E uma palavra ou expressão, como vimos na introdução com stepping stone, pode ter de se traduzir, em frases diferentes, por palavras ou expressões diferentes. Além disso, uma ideia que numa língua é expressa só por um verbo, por exemplo, pode ter de ser, noutra língua, dita com um verbo não predicativo mais um nome ou um adjectivo (“I’m freezing” = “Estou cheio de frio”/“Tenho muito frio”). Etc., etc., etc. Deixemo-nos então de palavras (stepping stone é uma palavra ou duas? E couve-flor?) e pensemos em termos de frases. Curiosamente, a tradução de frases com a palavra saudade não costuma colocar ao tradutor problemas por aí além (sobretudo comparando com frases com a palavra pingarelho..). “Tenho saudades da minha tia” (ou “…de ti, meu amor” ou “…da Mari’ Francisca”, é irrelevante) é uma frase que se traduz com uma perna às costas. Um texto como o daquela cantiga que há “ai, que saudades da minha piquena aldeia / ai, que saudades, saudades da luz da candeia” pode facilmente traduzir‑se para qualquer língua, se bem que, sinceramente, não veja bem que interesse isso possa ter (traduzir uma cantiga assim, quero eu dizer)... “Sentiu a saudade devorar-lhe o peito” já é mais difícil, mas, com o contexto a ajudar (é preciso saber de que é a saudade, ou de quem) também se lá vai sem passar muitas noites em claro… Intraduzibilidade? Ora, sejamos sérios!

Para terminar, há uma falta de seriedade indesculpável no postulado da intraduzibilidade de uma determinada palavra, seja de que língua for: é que para afirmar que uma palavra não tem tradução, há que o ter verificado em todas as línguas existentes (entre 3 e 6 mil, depende de como se contam…)!... Que é para ter a certeza, por exemplo, de que hiraezh em bretão ou watukuy em quéchua não são bons candidatos à tradução de saudade... Vale a pena sublinhar que os defensores da intraduzibilidade de uma palavra nunca se dão a esse trabalho?

08/11/07

O fado: do ganga, perdão, da ganga ao terylene e ao 100% algodão

Perguntaram-me outro dia
se eu sabia o que era o fado.
E eu disse que sim, sabia,
mas ninguém fiqu’admirado
se a minha concepção
daquilo que o fado é
for contra a definição
de Aníbal Nazaré:

O fado não são almas vencidas, nem noites perdidas, nem sombras bizarras; nem cinza nem lume nem dor nem pecado. O fado é uma forma de música popular urbana, que se define por um número relativamente limitado de estruturas rítmicas, harmónicas e melódicas (em princípio, só há três fados, dizem alguns especialistas…). Há uma tradição de uso no fado de guitarra portuguesa e guitarra (e guitarra baixo, às vezes), mas já houve e continua a haver fados com muitos outros tipos de acompanhamento instrumental. Quanto à forma das letras, embora predomine, como em toda a canção popular portuguesa, a quadra em redondilha maior, também não há padrão fixo de versificação: há estrofes e versos de variados tamanhos. Nas últimas 6 décadas, há também uma predominância de certas inflexões vocais distintivas, principalmente nas intérpretes femininas, mas também isto não caracteriza todo o fado – quem conhecer um bocadinho a história do fado sabe bem que a vocalização das fadistas até aos anos 50 era muito diferente, e nada impede que o continue a ser, se a fadista quiser.

(Como as notas de rodapé entram mal no formato blogue, abro aqui um longo parênteses: É curioso notar que não são as estruturas musicais que fazem algumas pessoas reconhecer uma canção como sendo fado ou não, mas antes, precisamente, a maneira de cantar, por muito que a música em si não encaixe nas formas de base do fado. Quer dizer que, como todas as outras formas “fixas” da música popular, a forma fixa do fado não o é por aí além, e a fronteira do conceito depende dos conhecimentos e/ou preconceitos da pessoa que oiça o fado: para mim, é óbvio que a música dos Madredeus não é fado, mas é como fado que é apresentada e compreendida em certos círculos da chamada world music; para mim, é muito duvidoso que “Aquela janela virada para o mar” ou “Partir é morrer um pouco”, para referir exemplos conhecidos, sejam fados, mas há muito quem os considere assim; para mim, é óbvio que “Oiça lá ó senhor vinho” ou “Formiga bossa-nova”, da Amália (e vários outros temas dela) não são fado, embora ela os cante com os trejeitos do fado…, mas quando tento explicar por quê a alguém que tenha com o fado uma relação menos íntima, falho sempre…)

Escusado será dizer que, como todas as formas de música, popular ou não, o fado está em permanente mudança. E não sou eu, com certeza, que me vou pronunciar contra a evolução do fado. Não acho que a tradição tenha valor pelo simples facto de ser tradição e, embora haja coisas tradicionais que me agradam, não defendo nunca que as formas “mais puras” são superiores às “menos puras”. Até porque, bem vistas as coisas, formas puras não há; e defender a conservação inalterada de uma forma é condená-la à morte – tudo o que nós sabemos das coisas humanas e não humanas nos diz que só sobrevive o que evolui. Acho então muito bem que o fado se transforme. Posso gostar mais ou menos das formas que possam ir surgindo, mas isso é outra questão…

E então, depois de uma introdução assim tão assertiva, o que é que vai daqui sair? Bom, não julguem que vou aventurar-me nalguma dissertação de fôlego sobre a arte e preceito de escrever ou cantar o faduncho com jeito, até porque não tenho estaleca para tal. O propósito deste texto é muito mais modesto: quero só (só) dar conta de um fenómeno que tenho observado na evolução do fado: a sua liricização.

Não vou negar que a vertente lírica sempre foi muito importante no fado – talvez até a predominante. Mas coabitou durante muito tempo com várias outras que também tinham a sua importância. Sendo uma forma de música popular urbana, o fado partilha (ou partilhava…) as temáticas das outras formas de canção popular urbana que lhe estão culturalmente próximas. Em toda a canção, popular ou não, os textos líricos, principalmente de temática amorosa (e, dentro do tema do amor, o do sofrimento amoroso…), são predominantes, e o fado segue, naturalmente, essa tendência geral. Mas nem só de amor fala o fado. E nem só no falar de amor ele se aproxima de muitos outras forma de canção. Senão, vejamos:

Como muitos outros tipos de canção (vejam a java parisiense, por exemplo), o fado é bastante auto-referencial: muitos fados falam do fado, da sua “história”, incluindo os fadistas e guitarristas míticos, tentam definir o espírito fadista, descrevem o ambiente do fado e defendem, às vezes, o “verdadeiro” fado contra os “falsos fadistas”.

E outra temática fundamental do fado é, naturalmente, Lisboa. A cidade no seu todo ou partes específicas da capital. Também isto é pouco idissincrático: a canção de Roma fala de Roma, a de Amesterdão de Amesterdão, a de Copenhaga de Copenhaga. A canção urbana fala da urbe onde pertence. E como fala da urbe, fala dos seus lugares, da sua gente e das actividades desta gente. Talvez não haja a Tendinha, a igreja de Santo Estêvão, a Senhora do Monte, a Mariquinhas, a tia Macheta, o Malhoa, tipóias e esperas de gado nas canções urbanas de outras cidades, mas há sempre tabernas e prostíbulos e a descrição de personagens urbanas, umas só conhecidas nas canções que as cantam, outras famosas fora delas, com as suas biografias ou fatias apenas de vida.

Descrições e histórias: era aqui que eu queria chegar. Sempre houve também no fado essa vertente narrativa/descritiva que é, também ela, comum a toda a canção urbana ocidental. Ora o que se passa a partir dos anos 60 e se acentua com o chamado “novo fado” é aquilo a que eu chamaria um afunilamento lírico: a vertente narrativa/descritiva desaparece e o fado torna-se essencialmente lírico. É principalmente em Amália Rodrigues – e nas suas experiências de trazer para o fado outro tipo de poesia, nomeadamente de poetas consagrados – que está provavelmente a origem desta tendência. Pelo menos, é certo que é ela o principal modelo de todas as modernas fadistas, tanto em termos de estilo vocal como de canções a reinterpretar.

Os resultados deste monopólio das temáticas “sérias” e “poéticas” no fado são um mau e outro bom. O mau resultado é que, com o império do liricismo fadista, tipos importantes de fado estão a desaparecer: fados humorísticos, já não nos há; e nem a contar os trinta e uns em que a malta continua a meter-se; e nem sequer histórias simples da gente simples que continua a haver nos nossos bairros. O resultado bom é que, marketizado como sendo a forma essencial da música portuguesa e insistentemente associado à “intraduzível” saudade (que patetice!) e à alma nostálgica e marinheira do povo português (nunca conheci nenhum povo que se interessasse tão pouco por andar de barco…), o fado começou a ser bastante conhecido no estrangeiro – e a vender-se bem! Internacionalizou-se e, para se internacionalizar, provavelmente não podia continuar a falar de canjirões, rambóia, pampilhos, piaras e novilhos de tenta… É a vida…

A propósito, já ouviram uma húngara cantar o fado?