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28/10/09

A história de Aleixo Garcia e um conto que eu desisti de escrever

Em 1923, foi publicado em Portugal um livro de Mário Monteiro chamado Aleixo Garcia, descobridor português do Paraguay e da Bolivia, em 1524-1525: glória ignorada em Portugal; em 1998, foi publicado no Brasil A Saga de Aleixo Garcia: o Descobridor do Império Inca, de Rosana Bond, livro este que é apresentado como relatando “os feitos do desconhecido catarinense que, no século XVI, atravessou toda a América do Sul, alcançou a grande civilização peruana antes dos espanhóis, e virou um mito latino-americano”.

Que Aleixo Garcia era português, não haja dúvida de que era, mesmo que se o considere catarinense; também parece certo que tenha sido um dos primeiros europeus a chegar ao que é hoje o Paraguai e a Bolívia (não nos esqueçamos que iam outros europeus com ele na mesma expedição); que é ignorado, também é verdade, e não só em Portugal (mas na Bolívia e no Paraguai é referido nos compêndios de História e até há ruas com o seu nome...); e que seja uma glória, bom, isso já é mais discutível, como é sempre discutível que alguém seja uma glória… Não é certamente ser uma glória portuguesa, porém, o que nele me interessa, que eu não sou muito dado a nacionalismos, mas sim a sua vida invulgar, onde se cruzam maneiras várias de viver, e a grande aventura de que foi protagonista, que E. Salgari, H. R. Haggard ou E. R. Burroughs gostariam certamente de ter tido como material narrativo.

Como eu a vejo, a história de Aleixo Garcia não é epopeia, mas sim tragédia. Não é a aventura de um herói nacional, fundador de nação e linhagem ou conquistador ao seu serviço, é antes o drama do homem que, cortado do seu mundo, tem de criar para si próprio um lugar numa sociedade diferente, e que, seduzido pela visão da riqueza, se lança num empreendimento tão arrojado que dele só pode resultar desgraça – para ele e para todos os outros.

Deixem-me, já agora, explicar que, se esta história aqui aparece agora, é só porque não consegui fazer dela um conto. Tomei conhecimento da existência de Aleixo Garcia, há uns 10 anos, numa História da Bolívia. Descobri depois que tinha saído há pouco tempo um livro sobre ele, no Brasil, e, durante muito tempo, tentei obter esse livro, mas nunca consegui. Fui tomando notas de tudo o que apanhava sobre o assunto, com o propósito firme de um dia escrever um conto ou uma pequena novela em que romanceasse a aventura de Garcia, mas foi projecto que acabou por ficar em águas de bacalhau. Para fazer um conto, precisava de saber palavras e nomes de pessoas guaranis, e precisava de saber como era a vida dessa gente nessa altura, e falta-me, para essa pesquisa, o dinheiro que o tempo é. Decidi então contar a história de Aleixo Garcia em versão apenas enciclopédica, ou quase, só para a apresentar a quem a não conheça:

Na sua segunda viagem à procura da passagem de Ocidente que o levasse às Índias, João Dias de Solis partiu, de perto de Cádiz, a 8 de Outubro de 1515. Essa viagem terminou para ele a 20 de Janeiro do ano seguinte. No sítio que é hoje Ponta Gorda, no Uruguai, Solis foi a terra com um grupo de homens. Os barcos ficaram ancorados perto da costa, de maneira que os homens de Solis o viram ser atacado por índios locais e assistiram à sua morte à mão dos nativos. Os barcos da frota de Solis, comandados pelo seu cunhado Francisco de Torres, regressaram a terras de Espanha a 4 de Setembro do 1516. Ou antes, só regressaram duas das três naves. A galé em que viajava Aleixo Garcia naufragou não longe do que hoje se chama Florianápolis, a ilha de Meiembipe. Salvaram-se, consoante as fontes, entre 11 e 18 marinheiros europeus. Aleixo Garcia era um deles.

[Dizia eu lá atrás que a aventura é mais trágica que épica, mas não deixa, ainda assim, de ter fortes traços de epopeia. Não sei se vos acontece o mesmo, mas, a mim, qualquer náufrago que se salve a nado traz-me logo à mente a imagem mítica de Camões, a nadar só com um braço e com o outro a tentar livrar da salmoura um esboço dos Lusíadas. É que a lenda, mesmo que só lenda, tem pujança, isso não se o pode negar... E claro, fico logo cheio de vontade de aqui fazer aparecer deuses a vociferar em decassílabo heróico e de pôr Vénus a proteger Aleixo Garcia, por ele ser da estirpe do Gama. O enredo podia ser, por exemplo, que, da mesma forma que protegem os audazes, os deuses castigam os cobardes, e que o naufrágio teria sido o castigo de Neptuno para os que decidiram abandonar a empresa gloriosa em que os tinham enviado Fernando e Isabel e fogem a correr para casa, só por terem visto João de Solis ser comido pelos originaios uruguários. Mas, qual o quê, sou um escritor raso e ignorante da beleza clássica, e seria aventura vã meter-me por tão complexos floreios da narrativa…. Fico-me por uma história mais chã.]

Aleixo e os seus companheiros foram recebidos pelos guaranis carijós. Aleixo Garcia ambientou-se, aprendeu a língua, casou-se e teve um filho, tornou-se ele próprio um chefe local. Quando ouviu as histórias que os carijós contavam das riquezas imensas dos reinos das terras altas, entre as quais uma montanha toda de prata, Aleixo Garcia pensou em reunir um exército para ir à conquistas desses tesouros. E foi o que fez. Não se sabe ao certo quando partiu. Algumas fontes dizem 1522, outras 1524. Também não se sabe quanto tempo levou a chegar ao império dos incas. Também nisso não concordam os documentos que consultei. Mas todos os textos que encontrei sobre a expedição de Aleixo Garcia estão de acordo numa coisa: o grupo que reuniu era de cerca de 2000 pessoas. E não apenas um exército como o concebemos normalmente, porque havia também na expedição mulheres e crianças.

A expedição de Aleixo Garcia subiu o chamado caminho do Peabiru, uma rota que era já utilizada há muitas centenas de anos. Não foi, claro está, a primeira vez que entraram em contacto os povos das terras baixas e os habitantes do planalto. Sabe-se que os incas desceram até às terras baixas e até é possível que tenham sido os povos do altiplano andino a abrir a rota do Peabiru. [Vem-me à memória uma descrição que li uma vez, que não me lembro de quem era e que não faço ideia que rigor terá, de um exército de soberbos guerreiros incas, invencíveis nas guerras abertas no planalto, a serem aniquilados um por um por zarabatanas de guerrilheiros invisíveis, quando tentaram em vão alargar o império às matas tropicais. Mas enfim, isso foi com certeza noutros lugares mais a Norte… O que é provável, porém, é que, como acontece muitas vezes quando se trata de contactos entre povos, os comerciantes tenham precedido os soldados e se fizesse há muito tempo comércio nesse rota que ficaria depois célebre como trajecto de expedições guerreiras.] Passando, provavelmente, perto do que hoje é Asunción, no Paraguai, e Porto Suárez, na Bolívia, os guaranis de Garcia chegaram às fronteiras do império do Inca Huayna Capac e travaram batalhas com os incas, entre as actuais localidades de Mizque e Tomina, nos departamentos de Cochabamba e de Chuquisaca, respectivamente.

Os guaranis sofreram pesadas baixas, mas parece que conseguiram apoderar-se de algum ouro e prata, antes de serem obrigados a retirar. Para além do exército incaico, os guaranis da costa tinham tido também de enfrentar um clima e uma paisagem desconhecidos, fome e doença. Não devia reinar grande optimismo entre eles quando empreenderam o caminho de regresso. García mandou à frente um pequeno grupo de homens, para irem pedir reforços e deixar a salvo o tesouro conquistado aos incas. O resto da expedição, que tinha tomado no regresso um caminho diferente, fez uma paragem à beira do rio Paraguai e foi aí que Aleixo Garcia morreu. As minhas fontes dividem-se sobre as causas da morte de Garcia: uma versão da história é que o exército de Garcia foi atacado pelos temíveis paiaguás e que Garcia foi uma das muitas vítimas mortais desse ataque. Segundo outra versão (muito mais trágica e que seria, portanto, a que eu adoptaria se tivesse escrito o conto…), Aleixo Garcia teria sido assassinado por um dos seus companheiros europeus.

E é esta a história da história que não escrevi. Nas notas que tinha para o conto, gosto das palavras que queria pôr na boca de um guerreiro carijó que, após uma terrível derrota frente a um exército incaico, quer convencer um Aleixo Garcia obcecado pelo ouro e pela prata a abandonar a empresa e a voltar para casa:

“Os campos celestes onde repousam os guerreiros existem só nos olhares que os homens e as mulheres e as crianças levantam ao céu quando os tentam imaginar algures lá em cima. A glória eterna existe só no coração de quem no-la atribui e na memória de nós. Se morrermos todos, se não ficar ninguém para contar a nossa coragem nem ninguém para a recordar, é sem valor essa coragem e é vã a morte do maior guerreiro.”
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Fontes: Li todos os textos que encontrei online com referências a Aleixo Garcia e ao caminho do Peabiru, mas, para simplificar as coisas e evitar redundâncias, digamos que este pequeno delírio foi montado a partir das entradas Aleixo Garcia e Juan Díaz de Solís da Wikipédia, de três artigos de jornal sobre a obra de Rosana Bond quando ela saiu (um artigo de Etoile Shaw, “Jornalista refaz caminho do descobridor dos incas”, no Estado de 13 de Agosto de 1998, que já não se encontra online; um artigo de Maurício Oliveira, “O verdadeiro descobridor dos incas” em A Notícia, de 28 de Julho de 1998, que também já não se encontra online no sítio original, mas que se pode ler num blogue de Ozias Alves Jr.) e a Historia de Bolivia de José de Mesa, Teresa Gisbert e Carlos Mesa Gisbert (La Paz: Ed. Gisbert, 1999). Também consultei o blogue Peabiru Calunga, que tem mapas do caminho do Peabiru.
Aqui ficam, também, para quem queira aprofundar o assunto, as referências bibliográficas dos dois livros que menciono logo no início e que não tive, infelizmente, possibilidade de ler:
MONTEIRO, Mário. Aleixo Garcia descobridor português do Paraguay e da Bolivia, em 1524-1525: glória ignorada em Portugal. Lisboa: Livraria Central de H. E. G. de Carvalho, 1923, 69 págs.
BOND, Rosana. A Saga de Aleixo Garcia: o Descobridor do Império Inca. Florianápolis: Editora Insular, Fundação Franklin Cascaes, 1998, 86 págs.
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Notas um bocado patetas:

Tentações a que, infelizmente, não soube resistir:
os originaios uruguários: Não é gralha, não senhora, é mesmo assim… E esteve quase para ser “os originaios canibários uruguais”…
um conto ou uma pequena novela em que romanceasse a aventura de Garcia: eu bem sei que é uma contradição romancear seja lá o que for num conto ou numa novela, mas é de propósito, acreditem em mim… E também, o que é que eu aqui podia pôr? Contar aqui não me serve e novelar não existe, pois não?

Tentações a que, felizmente, soube resistir:

Na versão anterior à minha auto-censura, onde se lê
João Dias de Solis partiu, de perto de Cádiz, a 8 de Outubro de 1515 lia-se
João Dias de Solis partiu, não do porto de Cádiz mas sim de perto de Cádiz, a 8 de Outubro de 1515
e onde se lê
seria aventura vã meter-me por tão complexos floreios da narrativa lia-se
seria aventura vã (uma avãtura, seria…) meter-me por tão complexos floreios da narrativa – e não porque tenha complexos relativamente a tais floreios…

Para que vocês vejam…

21/05/08

Aquele que sabe ler os quipus: comentários bem reais sobre o Peru dos incas

Se há sociedades com tradição de serem idealizadas, o império inca é com certeza uma delas. Desde as Cartas de uma peruana, de Madame de Graffigny, até ao livro que ando agora a ler (um “policial histórico” passado no império inca), tem-se insistido em fazer do império inca um ideal de organização, justiça e desenvolvimento. Um mito que, por um lado, sempre me fascinou; e que, por outro lado, como sou hostil a mitos, sempre me empenhei em combater.

Muito provavelmente, há que procurar no Inca Garcilaso de la Vega, autor de Comentarios reales sobre el Peru de los Incas, a origem da idealização dos incas. Garcilaso de la Vega diz que pretende, ao escrever os Comentários… que se “veja distintamente o que eram antes da chegada dos Espanhóis tanto as cerimónias da vã religião dos seus habitantes como o governo dos seus reis em tempos de paz e de guerra, e tudo o que se possa dizer dos Índios desde os mínimos exercícios dos sujeitos até aos mais altos topos da coroa”, mas uma leitura atenta da obra deixa claro, no entanto, que o projecto de Garcilaso de la Vega é antes o engrandecimento da cultura inca perante os europeus; e este engrandecimento não pode ser feito senão de uma maneira: tornar os incas iguais a eles... É impossível saber o que há de consciente e/ou de inconsciente neste projecto, e pouco importa. É provável que Garcilaso, nascido no Cuzco de uma princesa inca e de um nobre espanhol acredite em muito do que escreve e que deve corresponder, em parte, à própria maneira como os últimos nobres do império concebiam a sua própria história. Mas também é possível que tenha omitido propositadamente o que, como os sacrifícios humanos, encaixasse mal nos valores europeus.

Uma das invenções de Garcilaso que teve uma fortuna especial foi fazer dos quipus, as cordas com “nós falantes” que os incas usavam para a contabilidade do império, um sistema de escrita prático do tipo da nossa. Os quipus eram efectivamente um sistema de registo de tropas, mantimentos, dados de população e inventários de diversos tipos, mas (embora tenha sido já aventada a polémica hipótese de poderem conter de facto informação fonética) nada indica que com eles se pudesse escrever textos, como as cartas literárias da heroína Zilia de Madame de Grafigny ou as mensagens relativamente complexas do romance que agora estou a ler.

Outro mito inca com sucesso é o do socialismo inca, altamente organizado, com sistemas eficazes de segurança e de justiça social. Se bem que seja pouco provável que o imperio quíchua alguma vez tenha tido um nível de organização como aquele que é descrito na novela que estou a ler, não parece haver dúvida de que o “império dos quatro horizontes” tenha tido de facto uma estrutura de tipo estatal e a funcionar com eficiência. Ir além disso e querer fazer dele um modelo de justiça e igualdade é, provavelmente, ir longe demais. As injustiças e os abusos de poder por parte das elites aristocráticas não foram, com certeza, menores no império inca do que qualquer outra sociedade feudal; a expansão colonial não foi mais suave do que outras expansões coloniais; e não nos esqueçamos que uma das cruéis instituições coloniais espanholas que o vice-rei Francisco de Toledo no então Vice‑reinado do Peru e dos Charcas não é senão o restabelecimento da mita inca (isto é os impostos de quatro meses de trabalho anuais)…

Uma outra característica da idealização dos incas é a crença num avanço científico e tecnológico dos incas maior do que o que eles de facto tinham. Sabe-se, por exemplo, que foram esquecidas, com a queda de Tiahuanaco alguns séculos antes da expansão inca, técnicas sofisticadas de irrigação e cultivo, cujos vestígios foram em parte destruídos pelos incas, que obviamente as não compreendiam. Mas já encontrei muito quem atribua aos incas esses conhecimentos que lhes são, de facto, anteriores. Também a arquitectura inca, por exemplo, é frequentemente idealizada. A técnica de construção com grandes blocos de pedras é impressionante, de facto, sobretudo pela dificuldade de carregar, cortar e polir perfeitamente blocos assim, mas o Machu Picchu [de passagem: um sítio que é considerado umas das maiores maravilhas do mundo… porque o é de facto!] não é, do ponto de vista propriamente arquitectónico, nada que se possa comparar com, sei lá…, as catedrais de Amiens, Reims ou Chartres, que são dois séculos mais antigas…

O que a novela que estou a ler e a sua idealização do império inca me vieram recordar, para além do que fui investigando sobre a utopização do império do Cuzco, foi a conversa dos guias turísticos no Peru. São muitos e contam todos as mesmas histórias, e devem estar habituados a lidar com gente fácil de convencer dos mitos incaicos (é o adjectivo espanhol correspondente ao nome inca). É natural que os incas tenham tido, de facto, conhecimentos de astronomia relativamente desenvolvidos, como parece provar a orientação de certos edifícios, mas estes guias exageram um bocado:

“Está a ver aqui esta janela neste muro? Se olhar por aqui, ao pôr-do-sol, verá que o sol se põe exactamente do alinhamento da janela com aquela pedra grande lá ao fundo, está a ver? Que foi lá posta pelos incas!…”

Numa zona de pedras como aquela, entre qualquer janela e qualquer ponto cardeal é impossível que não haja uma pedra qualquer – que deve lá ter sido posta pelos incas… Mas está tudo muito bem, quem sou eu para contrariar agora o senhor guia? A justiça, a superior organização, os conhecimentos arquitectónicos, em tudo o que é idealização do inca, os guias turísticos peruanos batem aos pontos Garcilaso de la Vega, Madame de Graffigny e as modernas novelas de detectives no reinado de Pachacuti

No fundo, nem tenho nada contra isso... Afinal de contas, é o que nós fazemos aos estrangeiros que apanhamos a jeito, com grandes histórias de Viriato e dos lusitanos, da sobre-humana aventura dos descobrimentos, da grandeza dos nossos poetas, das nossas palavras só-nossas e da nossa singular nostalgia musical… E isto sem sermos guias e sem ganharmos, portanto, nada com isso. Sim, que a idealização dos incas, pelo menos, sempre vai dando alguma coisa…