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28/09/19

Travessa do Pensa-em-Voz-Alta

Já falei sobre isso com vários amigos portugueses que vivem em França ou que conhecem bem o país: parece que se aceita melhor em França que em Portugal que uma pessoa fale sozinha. Pelo menos, era impressão geral das pessoas com quem falei que é coisa que se vê mais em França e isso deve ser sinal de que é lá mais bem aceite o falar sozinho — ou pensar em voz alta, porque, bem vistas as coisas, é afinal disso que se trata.

Agora, isto são só impressões e se há coisa em que nunca nos devemos fiar são as nossas impressões, mesmo que se lhes chame «experiência», para lhe dar um ar mais fiável. Costumo dizer que o mundo está cheio de maus estudos e más estatísticas, mas mesmo os maus estudos e as más estatísticas são mais fiáveis que as nossas impressões.

Isto a propósito de quê? Ah, pois, de falar sozinho. O que eu queria mesmo era aqui deixar um link para um texto do Toponímia de Lisboa, blogue do Departamento de Património Cultural da Câmara Municipal de Lisboa, onde se fala do nome e da história da travessa lisboeta que dá nome ao blogue: “Do Beco à Travessa do Fala-Só”.


P.S. 1: Uma cantiga a propóito (há sempre uma cantiga a propósito seja lá do que for):
Casey Bill Weldon: “Talkin' to Myself”,1936

 


P.S. 2: Também cantar na rua ou noutros espaços públicos é visto como sinal de pouco juízo (se não se tiver à frente um chapéu para recolher doações, « à votre bon cœur, messieurs dames ! »). Eu faço-o de vez em quando, para grande vergonha de quem me acompanha, sobretudo se forem as minhas filhas.



01/11/18

Rua da Rosa

Na Rinchoa, onde cresci, as ruas têm nomes de plantas – árvores e flores: Avenida dos Choupos, Avenida das Acácias, Rua dos Cravos, Rua das Violetas...

A última rua onde morei em Lisboa foi a Rua da Rosa. Aqui onde moro agora, mesmo aqui ao lado, também há uma rua chamada Rosenvej, que, com boa vontade, se pode traduzir por Rua da Rosa. As Ruas da Rosa são como os chapéus dos palermas: há muitas.

Inspirei-me na Teresa O do blogue Diário de Bordo, que lá faz várias coleções, e resolvi fazer uma coleção de Ruas da Rosa. Já vários amigos contribuíram para a minha coleção e toda a gente pode contribuir, se conhecer ou encontrar uma Rua da Rosa e tiver à mão algo com que fotografar.

(Continua – espero eu...)




Lugares e autores, de cima para baixo e da esquerda para a direita: Rosenvej, Troense, Dinamarca, foto minha; Carrer de la Rosa, Barcelona, Espanha, foto minha; Rua da Rosa, Macau, daqui (obrigado, Joana Sant'Ana); Calle de la Rosa, Madrid, foto: Sofia MarSim; Rua da Rosa, Angra do Heroísmo, foto: Guiomar Belo Marques; Rua da Rosa, Caldas da Rainha, foto: José Silva; Rosensgade, Aarhus, Dinamarca, foto: B. Jorge Leitão; Rozengracht, Amesterdão, daqui (obrigado, Wieke Huizing Edinger)

A Sofia MarSim mandou-me outra foto de uma placa mais recente da Calle de la Rosa em Madrid, com um link para uma página que explica o nome: «La calle del Amparo, la travesía de la Comadre y la calle de la Rosa son 3 populares calles del barrio de Lavapiés en el centro de Madrid. Y las 3 le deben su nombre a una partera, comadrona o comadre: Amparo de Granada. // A principios del siglo XVII, en tiempos de Felipe IV, existía en Lavapiés una buena mujer que se ganaba la vida ayudando a otras a traer a sus hijos al mundo. Se trataba de una partera, comadrona o comadre, pues los 3 nombres reciben las mujeres de este oficio tan necesario y socorrido. Y más en aquellas épocas en que la medicina estaba a oscuras y se daba a luz en las casas.» (Ler mais aqui)

11/02/11

Nomes próprios estrangeiros: um equilíbrio a bem dizer impossível…


A questão da normalização de nomes próprios estrangeiros é complicada. Que eu saiba, essa normalização sempre existiu apenas, de forma eficaz (e seja lá em que língua for) para um número muito reduzido destes nomes. Sempre houve e há-de haver instabilidade na maneira de nomear gente, sítios e instituições várias que são pouco referidos ou só são referidos há pouco tempo, e cujo nome original obedece, ainda por cima, a uma fonética que nos é estranha. Mas eu compreendo, por outro lado, a vontade de arranjar uma norma, sobretudo se a finalidade dessa normalização for fazer que toda a gente se compreenda melhor. E a possibilidade de desentendimento varia muito. Na maior parte dos casos, não há grandes confusões com o nome do país aqui ao lado, escreva-se ele Zimbabwe, Zimbabué ou, como eu prefiro, Zimbábuè (seguindo a norma moçambicana para os topónimos moçambicanos com a mesma terminação*). Mas, claro, entre Chennai e Madrasta a diferença é muita – e é também muita, por isso, a possibilidade de desentendimento…
Não há um organismo que regule estas coisas e, mesmo que houvesse, esse organismo não poderia estabelecer regras para a forma portuguesa de todos os nomes próprios do mundo, até porque há constantemente novos nomes próprios a serem usados na nossa língua. Na falta da comodidade da norma, o que deve prevalecer, digo eu, é o bom senso. Agora, das muitas pessoas que provavelmente concordarão com esta afirmação, nem todas chamarão, porém, bom senso ao que eu chamo bom senso, não é verdade? O que eu quero dizer com isto é que, dê-se ao assunto as voltas que se der, haverá sempre espaço para as preferências de cada um. O meu bom senso (ou uma parte dele, seja, porque só falo aqui de uma parte das questões) é o seguinte:
Acho que, em caso de dúvida, deve optar-se sempre pela forma que já se ouviu ou se ouve mais – se a conhecemos bem, é mais provável que os outros a conheçam. Eu, por exemplo, não hesito em escrever Pequim**e Bombaim em vez de Beijing e Mumbai, porque me parecem formas mais conhecidas.
Está muito bem usar as formas portuguesas consagradas por dicionários e obras clássicas, desde que não tenham caído em desuso e não acabem por dificultar a compreensão. No que respeita a topónimos, não vejo problema em chamar Genebra a Genève e Estugarda a Stuttgart, mas muita gente não compreenderá que a forma clássica Badalhouce, por exemplo, se refere ao que normalmente conhece como Badajoz, nem, pelo menos em determinados contextos, que Cantuária é a maneira portuguesa de dizer Canterbury... Agora, quanto a esta última forma (e, muito provavelmente, relativamente a outras formas, mas não me vem à cabeça agora mais nenhum exemplo), o problema é que parece haver tradições diferentes consoante aquilo de que se fala: ao falar de Chaucer, parece bem falar-se dos Contos de Cantuária, mas ao falar de Robert Wyatt, Soft Machine ou Henry Cow ninguém refere a “cena de Cantuária”…
A questão é mais complicada, acho eu, quando se fala de nomes de pessoas. Quando o nome se escreve originalmente com alfabeto latino, o mais prático é, em princípio, usar o nome da pessoa como ela própria o escreve, ou seja, como se escreve na sua língua e como aparece nos seus documentos. Essa opção, porém, não é sem problemas: obedecendo a esta lógica, deve escrever-se Napoléon em vez de Napoleão, para dar só um dos milhares de exemplos que poderia dar... [E deixo de lado a questão da actualização das grafias, para não complicar mais a coisa…]
Agora, quando não existe um aportuguesamento consagrado e os nomes não se escrevem originalmente com alfabeto latino e há, pois, que os transcrever directamente de outros sistemas de escrita, alfabéticos ou não, as coisa são mais complicadas. Quando existem formas estandardizadas de transcrição (como o pinyin para o chinês e o rōmaji para o japonês, por exemplo), parece mais lógico usar essas formas. Um problema, porém, é que algumas usam diacríticos inexistentes em português, difíceis de encontrar e que confundem o leitor. Se assim for, acho que se pode usar esses sistemas de transcrição oficial sem os diacríticos… Outro problema é que esses sistemas de transcrição podem reflectir lógicas fonéticas estranhas ao português e utilizá-los faz com que as pessoas pronunciem mal as palavras. Um exemplo: A cidade chinesa cujo nome em pinyin é Dézhōu. O uso de zh em português é enganador, porque essa é, na tradição inglesa, a maneira de transcrever o som [ž], para o qual não há letra em inglês, mas que em português se escreve simplesmente com j (ou g antes de e e i). Por isso, Dejou é a grafia que faz sentido seguindo a lógica ortográfica portuguesa – mas não é essa a forma pinyin; e, se usarmos a forma pinyin, as pessoas vão começar a dizer [dêzou] em vez de [dêjou], como deveriam...
Há línguas, porém, para as quais não existe sistema standard de romanização, costumando-se, por isso, fazer transcrições adaptadas à fonética da língua para que se transcreve. O problema é que, na maior parte dos casos, os nomes nos chegam através de transcrições feitas para a lógica de outras línguas. Há, então, que fazer uma escolha, e talvez não se possa pedir mais do que coerência relativamente a essa escolha. Quando se aportuguesa um nome, que se aportuguese por completo e siga-se o mesmo critério para todos os nomes. Vejo, por exemplo, num mesmo texto Al-Arabiyya e Al-Jazira (cadeias de televisão). Qual a lógica de transcrição do árabe? Ou se aportuguesa Al-Arabia como se aportuguesou Al-Jazira (talvez devesse antes ser aportuguesado em Al Djazira…), ou então arranje-se outro critério – mas coerente.
Quero, já agora, chamar a atenção para um facto simples: é relativamente fácil transliterar do cirílico e não há razão nenhuma, a não ser as influências das transliterações para outra línguas, para se ver nomes originalmente escritos com esse alfabeto transcritos de uma maneira tão pouco lógica e tão enganadora relativamente à pronúncia: por exemplo, aceito bem Chostakovitch, Chostakóvitch ou, em última análise, Chostacóvitch, mas não vejo razão nenhuma para Shostakovich nem Shostakovitch.
O objectivo, ao escolher a grafia dos nomes próprios, deve ser conseguir um equilíbrio entre a tradição, a lógica da grafia portuguesa, a inteligibilidade de cada uma formas e a coerência de todas as formas num textos ou no conjunto dos textos de uma instituição. Mas é difícil. Tenho agora um problema concreto, por exemplo, que não sei como resolver e sobre o qual talvez me possam aconselhar: o nome da ilha onde vou morar a partir de Julho próximo.
O nome dinamarquês da ilha é Fyn, que se pronuncia [fyn], isto é, com um som como o do u francês. Ao que vejo, tenho três alternativas: uso o nome dinamarquês Fyn, pronto, ponto, e que cada um pronuncie como lhe apetecer; adiro muito eruditamente à tradição e uso Fiónia, que é nome clássico da ilha em português, mas que ninguém conhece; ou (uma vez que, de todas as formas, a maior parte dos falantes de português que ouvirem de mim a palavra nunca terão ouvido a ilha referida de outra forma) introduzo uma nova designação inventada por mim, que eu ache foneticamente mais adequada, como Fiúne. Que acham? Conto com a vossa colaboração. Com o vosso bom senso, seja.

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* A terminação em E àtono aberto é estranha ao português, mas é comum nas línguas da África Austral, pelo que há, em Moçambique, já desde o tempo colonial, uma tradição gráfica que permite escrever essa sonoridade estrangeira. Assim, existem muitas localidades moçambicanas cujo nome é oficialmente grafado com è final: Alto Molócuè, Guruè, Púnguè, Báruè, Vila Ulônguè, etc. O que faz sentido é estender esta tradição ortográfica a topónimos estrangeiros da região: Zimbábuè, Lilônguè, etc.

**Sobre Pequim: é uma forma foneticamente menos semelhante à pronúncia actual do nome da cidade em mandarim, que se justifica por razões históricas: vem de um sistema de transcrição antigo e de uma pronúncia da época em que foi criada a forma em alfabeto latino – um pouco da mesma forma, digamos, que o n que o nome de Lisboa conserva em muitas línguas vem de antes da queda no n intervocálico em português… Ver informação sobre a questão aqui.

[Ligeiramente atualizado a 29 de julho de 2023 e depois a 10 de dezembro de 2025, sem atualização da grafia.]