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10/09/26

De mapas, escalas e territórios


«O mapa não é o território» é um conhecido aforismo de Alfred Korzybski, que se usa às vezes para resumir os princípios da sua Semântica Geral — que não pode, claro, ser resumida numa frase. Já agora, a teoria são as palavras que a formam ou estas apenas a representam?

As palavras representam, tal como os mapas, mas as palavras não representam como os mapas. As palavras representam conceitos, os mapas não. Quer dizer, talvez possamos considerar que um mapa possa remeter para vários conceitos, até porque inclui palavras, mas o que eu quero dizer é que o mapa de Portugal não remete para o conceito «Portugal» como a palavra Portugal remete. 

Não me aventuro mais longe na discussão das diferenças entre várias formas de representação. Acrescento só que a fidelidade da representação é graduável: há mapas que, mesmo não sendo nada parecidos com o território, o representam melhor que outros mapas. Um mapa-mundo baseado na projeção Terra Igual representa melhor a terra que um mapa-mundo baseado na projeção de Mercator. Mas é possível fazer mapas ainda mais rigorosos. Em Sylvie and Bruno Concluded, de Lewis Carroll, encontramos este interessante diálogo (traduzo eu):

− Essa é outra coisa que aprendemos com a vossa nação − disse Mein Herr, − Aprendemos a fazer mapas. Mas levámos essa arte muito mais longe do que vocês. Qual é que vocês acham que seria a escala do maior mapa útil?

− Cerca de seis polegadas por milha.

− Só seis polegadas! — exclamou Mein Herr. – Nós depressa chegámos a seis jardas por milha. Depois tentámos cem jardas por milha. E então surgiu-nos a mais grandiosa ideia! Fizemos um mapa do país, à escala de uma milha por milha!

− Têm-no usado muito? − perguntei.

- Ainda não o desenrolámos — disse Mein Herr. − Os agricultores foram contra: disseram que ia cobrir o país todo.

Jorge Luis Borges, que era admirador de Carroll e que provavelmente conhecia o mapa referido por Mein Herr, refere um mapa à mesma escala num miniconto constituído por uma citação de uma obra imaginária e que, por ser mini, aqui cito à escala 1:1 — e na língua original, que, presumo, os meus leitores não terão dificuldade em compreender. 

Del Rigor en la Ciencia

En aquel Imperio, el Arte de la Cartografía logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, estos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él.

Menos Adictas al Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y los Inviernos. En los desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográficas.

Suárez Miranda, Viajes de Varones Prudentes, Libro Cuarto, Cap. XLV, Lérida, 1658.

Ainda a propósito de escalas, uma curiosidade. Temos numa parede da casa de jantar um grande mapa escolar alemão de 1964. Foi um amigo que no-lo deu. Tinha-o encontrado algures numa arrecadação de uma escola primária onde trabalhava e era para deitar fora. É um mapa de África, com o título África da colonização à independência. Além do mapa principal, um mapa político do ano da edição, inclui outros mapas mais pequenos que dão conta da evolução da partilha colonial de África. O mapa tem, no canto inferior direito, um pormenor curioso: para o público a que se destinava ter uma ideia da magnitude das distâncias, dá o exemplo dos 800 km do Lago Constança a Flensburg e dos 1000 km de Colónia a –– surpresa! –– Königsberg. Ora, em 1964, Königsberg já não era alemã há 19 anos e há 18 anos que se chamava Calininegrado.

10/06/26

Almanaques


Escrevia eu a 5 de março deste ano, numa espécie de diário de viagem que eu tinha:

Quando faço uma viagem longa como esta, quero ter o menos bagagem possível, e, como escolhi criteriosamente tudo aquilo que havia de me fazer falta, decidi que não comprava nada durante a viagem. Mas é uma decisão às vezes difícil de respeitar, sobretudo quando o objeto que nos seduz pesa apenas uns gramas e custa meio euro…

Era ao Almanaque de Bristol que me referia. Esclarece a Wikipédia em espanhol (traduzo eu):

O Almanaque de Bristol, cujo nome completo é Almanaque pitoresco de Bristol, é una publicação da empresa Lanman & Kemp-Barclay & Co. Inc., de Nova Jérsei, EUA, para promover os seus produtos de saboaria e perfumaria. É publicado ininterruptamente desde 1832, sendo muito popular desde princípios do século XX nos países da América Latina, para os quais a empresa faz edições nacionais ou regionais.

Sabões e perfumes! Nunca me teria passado pela cabeça. Interessantes estratégias de publicidade que havia antigamente. Diz também a Wikipédia que o Almanaque é, por isso, gratuito, mas que também se vende às vezes por preços muito baixos — o tal meio euro que paguei…

A página da Wikipédia tem ainda (não há enciclopédia como esta!) uma secção «O almanaque e a literatura», com informação fascinante:

Devido à sua popularidade, o almanaque de Bristol é mencionado por destacados escritores hispano-americanos como parte do quotidiano ou como referência e fonte de consulta comum de personagens de novelas e contos, como é o caso de Gabriel García Márquez nas novelas A revoada e O amor nos tempos de cólera, e nas suas memórias Viver para contá-la. Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares também o mencionam na sua obra conjunta publicada com o pseudónimo H. Bustos Domecq Seis problemas para Dom Isidro Parodi, e o mesmo fazem Miguel Ángel Asturias em Mulata de tal e o escritor salvadorenho Napoleón Rodríguez Ruiz na sua novela costumbrista Jaraguá.

Não me surpreende nada que Borges e Bioy Casares refiram o Bristol. E o parágrafo citado da Wikipédia quase podia também, sem a referência a García Márquez, ser um parágrafo de um conto de Borges… O mais interessante, porém, é o parágrafo seguinte:

O historiador e ensaísta colombiano Germán Arciniegas assinalou que o Almanaque de Bristol teve nele uma profunda influência e diz:

«A minha curiosidade literária, como a de quase todos os da minha geração, não nasceu de me ter ido parar às mãos nem Homero, nem Cervantes, nem Virgílio, mas sim o Almanaque de Bristol.»

O link para a fonte da citação está morto, mesmo no Wayback Machine, mas não duvido de que Arciniegas tenha dito a frase. Mas, se não, façamos de conta que é uma fantástica citação borgiana…

O Bristol é quase igual ao Borda d’Água, o mítico almanaque português, só que este último, se bem que quase centenário, é quase 100 anos mais novo que o almanaque americano: o Borda d’Água é publicado pela Minerva desde 1926. 

Quando vivia em Portugal, comprava todos os anos o Borda d’Água, não sei bem porquê nem para quê… Uma das coisas que me seduzia era o nome. Borda d’Água é um nome muito bonito, com o aquele apóstrofe, B, D´D e G sonoros, o Ó e Á tónicos, tudo muito harmonioso... Quem terá inventado esse nome? Soa misterioso, não soa? Significará algo que eu desconheço? Ou é mesmo só orla, fímbria, litoral? Chama-se assim porque traz as marés? Outro aspeto atraente é o grafismo, que é desusado. Histórico, se se preferir: há coisas que nunca mudam, como os movimentos dos astros e a sequência das estações e dos anos. 

O Borda d’Água traz o mesmo que o Bristol, tirando os anúncios de sabões e perfumes: signos e horóscopos, calendário com feriados, festas e santos dos dias, nasceres do sol e ocasos, marés, fases da lua, datas de nascimento de pessoas célebres, início das estações do ano, eclipses… Deve ser o que trazem todos os almanaques. Mas o Borda d’Água traz conselho para a agricultura, a jardinagem e os animais, que o Bristol não traz; e o Bristol tem recomendações para a pesca e duas páginas sobre cuidados e ter com a água, que o Borda d’Água não tem. Mas como, se ele é que é Borda d’Água? E o Bristol tem uma historieta moral em oito quadros, um texto sobre inteligência artificial (!) e uma página de «frases célebres». Uma dessas frases é atribuída a uma «edição imaginária» do próprio Almanaque de Bristol, outra a uma sua «edição profética» e outra ainda a um «poeta das estrelas». Estas atribuições também são algo borgianas, ao contrário das frases atribuídas, que são demasiado desinteressantes para eu aqui as transcrever.  O Borda d’Água também tem aforismos, mas de autores desconhecidos, os chamados provérbios populares — um para cada mês do ano: «Junho floreiro, paraíso verdadeiro»...

Não é só o grafismo que é doutros tempos, também a informação: já ninguém quer saber dos santos de cada dia, nem de feiras anuais… E, se houver ainda quem queira informação sobre marés, estações e equinócios, ou seja lá o que for, aliás, tem outras maneiras, mais rápidas e mais acessíveis, de a encontrar. Sem o papel finíssimo e o homem de cartola na capa. Se é pena ou não julgará o sentir de cada um, que ser pena, aqui, não é julgamento da razão. 


11/06/25

Duas notas sobre tradução, mais ou menos a propósito do conto «Guayaquil», de Jorge Luis Borges

 

Mais ou menos a propósito do conto de Borges, digo eu. Bom, na realidade, nestas duas notas falo sobretudo da tradução de duas passagens do conto: um excerto de um verso de António Machado citado pelo narrador do conto e uma expressão francesa que aparece duas vezes. 

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Guayaquil é a maior cidade do Equador e foi lá que, a 26 e 27 de julho de 1822, se deu, entre José de San Martín e Simón Bolívar, um encontro tão famoso como misterioso (já que dele não se conhecem pormenores) em que (diz Borges no conto) «o general San Martín renunciou à mera ambição e deixou o destino da América nas mãos de Bolívar».

O conto é sobre outro encontro, este entre dois historiadores: o narrador, argentino e não nomeado, e Eduardo Zimmermann, judeu checo fugido do Terceiro Reich e naturalizado argentino. O enredo, se é que de enredo se pode falar, é que teriam sido descobertas algumas cartas de Simón Bolívar, numa das quais «o Libertador dá detalhes sobre a sua entrevista com o general San Martín», e Zimmermann convence o narrador, que fora encarregado de transcrever e prologar a edição das cartas na Argentina, que é ele, Zimmerman, que o deve fazer. 

Se qualquer resumo de um conto é crime, este ainda mais, por omitir tudo o que de facto nele interessa. Espero, pelo menos, que, se não o conhecem, fiquem com vontade de o ler. Aconselho-vos a leitura do original em castelhano (aqui ou aqui), que não vos deve ser difícil — de preferência, antes de lerem o resto deste texto. É um conto breve, não chega a 2.500 palavras.  


1. Torpe aliño indumentario: um tipo especial de localização

Palavra puxa palavra, é bem verdade; e mais ainda se se fala de Jorge Luis Borges e das palavras que ele puxa com as suas palavras. Neste caso, as palavras de Antonio Machado. Diz o narrador do conto, ao descrever a personagem Eduardo Zimmermann:  

Soy poco o nada observador, pero recuerdo lo que cierto poeta ha llamado, con fealdad que corresponde a lo que define, su torpe aliño indumentario. 

A passagem citada chamou-me atenção, como me chamou a atenção a maneira como o narrador do conto a qualificava: é elogio dizer que uma descrição feia se adequa ao descrito? Descobri em segundos, na Internet, que era António Machado o citado, e mais concretamente o seu poema «Retrato», de 1912 (que podem ler aqui). É, ao que vejo, um poema conhecido; e eu, vejam lá, que gosto de Machado e o li bastante, não me lembrava dele…  

Na mesma busca, surgiu-me também uma curiosa discussão no fórum da WordReference.com. Perguntava alguém, referindo uma passagem de Un Milagro En Equilibrio, de Lucia Etxebarria, como poderia traduzir para inglês aliño indumentario.  

Lucia Etxebarria, ao contrario de Borges, cita diretamente Machado. A passagem é a seguinte: 

El tipo en cuestión llevaba una pinta que llamaba la atención incluso en aquel bar donde hasta el más extravagante aliño indumentario (que diría Machado) resultaba poco vistoso habida cuenta de la infinidad de crestas, pelos de colores, piercings, peinados rastas, minifaldas cinturón, maxifaldas jipiosas, pantalones de comando y monos de pintor que por allí se veían.  

Alguns utentes do fórum sugerem traduções para aliño indumentario: «clothing» ou «apparel», por exemplo. E torna o inquiridor:   

Então a minha pregunta é se a expressão aliño indumentario é algo que, para os espanhóis, imediatamente evoca Machado. Se foi ele o único, ou quase o único, a usá-la, não se pode traduzir apenas como «clothing», porque clothing é uma palavra comum, e não se compreende a referência «(que diría Machado)»…  

Tem, evidentemente, toda a razão. Não é uma simples questão de tradução, trata-se antes de tentar dar a entender uma determinada relação cultural com uma expressão. Das vezes que se me deparou esse problema na minha atividade de tradutor, sempre o tentei resolver da forma proposta por outro membro do fórum:  

O que eu faria seria procurar a tradução do poema de Machado «Retrato», conhecido [em inglês] como «Self-portrait».  

Procurando a frase «ya conocéis mi torpe aliño indumentario», vejo que se traduz como «my poor accoutrement» (Juan Ribó Chalmeta e Irina Urumova), «my rough and ready style of dress» (Patrick H. Sheerin), «my slovenly apparel» (A Z Foreman), «my plain, almost monkish dress» (K Dick), etc.  

Depois, é escolher uma das traduções, de preferência de uma edição não muito obscura — e deixar claro algures (há edições que aguentam mal notas de rodapé…) onde se a foi buscar. 

«E então», pensei eu mais tarde, «como traduziria eu isto para português?» A tradução «torpe alinho indumentário», que encontro na internet, tem um problema: torpe não parece ter, em português, a ideia de «tosco, rude, feio», que tem em castelhano. Mas rude e tosco, precisamente, ficam bem ao lado de alinho indumentário; e mantém-se o ritmo e pouco se altera a sonoridade do original. Que vos parece? 


2. «Mon siège est fait»: das camadas de significado do uso de um provérbio já desusado 

A 26 de junho de 2022, o jornal em linha Infobae publicava um artigo de Patricio Zunini sobre o conto de Borges: «Borges y la Historia: el cuento sobre Guayaquil que tardó 17 años en escribir», que vos aconselho. O artigo, de resto muito interessante, na minha opinião, sofre de um pequeno deslize. Em «Guayaquil», aparece uma vez a frase Votre siège est fait, dita por Zimmerman ao narrador, e como última frase do conto, Mon siège est fait, pensada pelo narrador. E esta última frase é traduzida no artigo como «Mi asedio está hecho». É uma tradução que encaixa muito bem na sensata interpretação do conto que Zunini faz e que, por isso, não se pode dizer que esteja errada... Mas não é isso que a frase quer dizer.  

Qualquer dicionário razoável vos confirmará que asedio é uma das muitas palavras que podem traduzir siège para o castelhano. Em português, siège, com o significado militar de asedio em espanhol, diz-se «cerco». Mas siège também pode ser «assento; banco» (por exemplo, de um carro ou de um comboio, mas não só), pode ser «sede» (de uma instituição ou empresa, etc.), pode ser «lugar; mandato» (por exemplo, de um partido num parlamento), pode ser «centro» (por exemplo, se se diz algo como «o cerebelo é o centro da coordenação do movimento»), pode às vezes ser «Sé» (em, por exemplo, a Sé Episcopal ou a Santa Sé), e pode até ser «nádegas», em contextos muito formais... Pelo menos! — porque siège ainda tem mais significados...  

Mas mon siège est fait não é uma frase criada por Borges, é uma expressão fixa. De facto, é uma frase célebre que se tornou uma expressão fixa. Atualmente praticamente caída em desuso (ah, as antiguidades de Borges...), a expressão significa de facto «a minha opinião está formada e não a alterarei».  

Não deixa de ser verdade, porém, que o siège de mon siège est fait refere originalmente um cerco a uma cidade. O historiador René Aubert de Vertot, conhecido como Abade de Vertot, escreveu, entre outras obras, uma História dos Cavaleiros Hospitalários de S. João de Jerusalém, depois chamados Cavaleiros de Rodes e hoje Cavaleiros de Malta, que foi publicada em 1726. Conta-se que, quando lhe quiseram apresentar documentos novos sobre o cerco de Rodes pelos Otomanos, se recusou a tê-los em conta e a rever a sua versão desse cerco em função da nova informação. «O meu cerco está feito», teria respondido. E a sua frase passou a significar inflexível teimosia. (No fundo, concordarão, não há nada de muito extraordinário na atitude de Vertot, que é, infelizmente, mais comum que a atitude contrária de predisposição a mudar de opinião perante dados factuais ou bons argumentos…) 

Agora, no caso concreto do conto de Borges, a frase de Vertot ganha uma dimensão especial: não apenas porque é um historiador que a diz de outro historiador que acaba por assumi-la, dizendo-a ele próprio, mas também porque um elemento central do conto é, precisamente, o surgimento de um novo documento sobre um episódio histórico. O melhor, neste caso, é mesmo nunca traduzir mon siège est fait, seja para que língua for. Nos textos de Borges, há muitas vezes um deslumbramento acrescido para quem conhecer — ou estiver disposto a pesquisar — as suas frequentes referências literárias, filosóficas, históricas, etc. Pelos vistos, o significado e a história desta expressão francesa fazem parte dos conhecimentos pressupostos no seu leitor ideal.  



Todas as traduções do castelhano são minhas.
Imagem: Estátua de Bolívar e San Martín no Hemiciclo de la Rotonda, em Guayaquil (foto de iam luisao, de utilização livre, daqui). Curiosamente, a estátua deste dois chefes do movimento independentista sul-americano é de um escultor espanhol, José Antonio Homs.

07/12/22

Da pouca fiabilidade da memória e mais

Diz a canção de Caetano Veloso (há canções ricas em filosofia, mas só poucas) que a plenitude e a morte coincidem forçosamente um dia*. Jorge Luis Borges escreveu em 1985 que, «no instante que antecede a morte», a sorte nos libertará «do triste hábito de ser alguém e do peso do universo»**. Escrevi em jovem (onde terei posto isso?) que era bem possível que o nirvana budista não fosse, afinal, senão a morte***: quando se paga com a morte o pecado de ser um, voltamos a ser apenas parte de tudo e atingimos, assim, a perfeição.

É uma ideia que me persegue desde rapaz. Uma maneira de dar à morte algum sentido positivo, será?, de embelezar o maior de todos os pesadelos… É tentador pensar que sou autor de uma ideia igual (?) à de poetas que admiro, mas é bem provável, como me hei de lembrar?, que estivesse apenas a repetir o que deles — ou de outra(s) pessoa(s) — tivesse lido ou ouvido...

*  *  *

Sobre a canção:

Ignorante que sou das coisas da música popular brasileira, sempre pensei que o «Nº 2» de “Janelas Abertas Nº 2” indicasse a versão da canção (muitas vezes, as obras passam por várias versões que os autores numeram), mas descobri agora que não é assim: remete antes para “Janelas Abertas”, uma canção de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes gravada em 1958 por Elizete Cardoso e em 1959 por Sílvia Telles. Caetano Veloso «cita» o início da canção («Sim / Eu poderia…» ) e o início da última estrofe («Mas / Quero as janelas abrir…») dessa “Janelas Abertas” «Nº 1». Também se pode estabelecer uma relação entre «Eu poderia morrer / E me serenizar» da letra de Vinicius de Moraes e «Até que a plenitude e morte e coincidissem um dia» da letra de Caetano Veloso.

A versão original de “Janelas abertas No. 2” é esta, do álbum A tua presença, de Maria Bethânia (ou Maria Bethânia Viana Telles Veloso, como vem na capa do disco), 1971

________________

* “Janelas Abertas Nº 2”: «Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro / Percorrer correndo, corredores em silêncio / Perder as paredes aparentes do edifício / Penetrar no labirinto / Um labirinto de labirintos dentro do apartamento / Sim, eu poderia procurar por dentro a casa / Cruzar uma por uma as sete portas, sete moradas / Na sala receber o beijo frio em minha boca / Beijo de uma deusa morta / Deus morto, fêmea de língua gelada, língua gelada como nada / Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília / Em cada um matar um membro da família / Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia / O que aconteceria de qualquer jeito / Mas eu prefiro abrir as janelas / Pra que entrem todos os insetos»

** “Tríada”, in Los conjurados, Alianza Editorial, 1985: «El alivio que habrá sentido César en la mañana de Farsalia, al pensar: Hoy es la batalla. / El alivio que habrá sentido Carlos Primero al ver el alba en el cristal y pensar: Hoy es el día del patíbulo, del coraje y del hacha. / El alivio que tú y yo sentiremos en el instante que precede a la muerte, cuando la suerte nos desate de la triste costumbre de ser alguien y del peso del universo.»

*** Se analisarmos a palavra nirvana, ela significa originalmente «apagamento, extinção», do sânscrito ni-, nir-, prefixo de cessação, + va- «soprar». A raiz pré-indo-europeia de va- é *we-, «soprar», que chega ao português na palavra vento.



11/08/20

A velhice, mais uma vez


Publiquei aqui na Travessa, há mais de dez anos, um poema meu em que ando às voltas de uma ideia que Jorge Luis Borges apresenta em forma lírica no início do seu maravilhoso “Elogio da la sombra” (traduzo eu):
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo da nossa ventura.
O animal morreu já ou morreu quase.
Restam o homem e a sua alma.
É capaz de ser sobretudo entusiasmo de literato essa ideia de que a velhice (seja qual for o nome que os outros lhe deem) é «o tempo da alma», PORQUE desapareceu já a parte mais animalesca, mais ssssibilante de nós — o anseio de sabores e sexos e toda a classe de satisfações... Não sei se tem muito a ver com a realidade de envelhecer para a maioria das pessoas. Há com certeza velhices assim, em sendo boa a saúde, e é possível que a de Borges tenha sido como a quis, homem e alma, esvaziada de animalidade.

A questão é também como se deve entender alma. Se se entender alma como espiritualidade, ou mesmo como mente, creio que a velhica é muitas vezes ao revés de como Borges a quer: vai-se esvaindo a espiritualidade, se alguma houve, como se esvai tudo o resto: as forças, enfim, a memória, a paciência, a concentração… 

É claro, velhices há muitas. Na velhice que tenho à minha volta, porém, vejo antes simplificarem-se a vida e os seus prazeres: comer, dormir, gozar a inatividade e o calor do sol, se dele se apanha um bocadinho  — o que, por muito que possa soar a demasiado animal, também está muito bem.

Esquerda: Autor desconhecido: Velha dormindo, sem data, gravura, cópia de Rembrandt. The Met, Nova Iorque, daqui. 
Direita: Rembrandt: Velho sentado numa poltrona, 1631, daqui.

28/08/13

Impessoal e transmissível

Em bom rigor, o homem tem tantos eus sociais como o número de indivíduos que o reconheçam e tenham dele uma imagem mental. Ferir qualquer uma dessas suas imagens é feri-lo a ele. Mas, como os indivíduos que têm essas imagens pertencem naturalmente a classes, podemos na prática dizer que ele tantos eus sociais diferentes como o número de grupos distintos de pessoas cuja opinião lhe importa. Geralmente, mostra um lado diferente de si próprio a cada um desses vários grupos. Muitos jovens bastante recatados na presença de pais e professores são malcriados e fanfarrões que nem piratas junto dos seus compinchas “duros”. Não nos mostramos aos nossos filhos como nos mostramos aos nossos companheiros de clube, aos nossos clientes como aos nossos empregados, aos nossos próprios chefes e empregadores como aos nossos amigos íntimos. Daqui resulta o que, na prática, é uma divisão do homem em vários eus; e esta divisão pode ser discordante, quando uma pessoa tem medo de deixar um grupo de conhecidos saber como ela é noutro lugar; ou pode ser uma divisão perfeitamente harmoniosa do trabalho, quando se é terno para com os filhos e severo para com os soldados ou prisioneiros sob o seu comando.
Estas palavras são de William James[1] e todos temos provas sobejas de que são perfeitamente acertadas, mas, se somos capazes de o admitir nalguma folgada discussão de fim de semana, recusamo-nos (porque será?) a usar estes sábios ensinamentos na análise quotidiana do mundo e, no geral, refugiamo-nos na crença fácil de que as pessoas têm personalidade estáveis que carregam sempre consigo de situação para situação, de relação para relação. E os estudos de psicologia, que estão fartos de provar, sei lá, por exemplo, que nem o riso nem a crueldade estão apenas dentro das pessoas, continuam, o mais das vezes, a avaliar traços de personalidade (gentileza, agressividade, criatividade, inovação, etc.) através de questionários simples descontextualizados… Não que uma pessoa não possa ter traços de carácter diferentes de outra pessoa, ou capacidades; mas não creio o que o seu conjunto seja um eu estável, independente de circunstâncias. Por muito que isso choque muita gente, “o meu verdadeiro eu”, “o teu verdadeiro eu”, acho que isso não existe.
Enfim, a questão pode, claro está, analisar-se de vários ângulos. Um deles é o de Jorge Luis Borges em “La Nadería de la Personalidad[2]”.
Não há tal eu de conjunto. Equivoca-se quem define a identidade pessoal como posse privativa de algum repositório de memórias. Quem tal afirma abusa do símbolo que reflete a memória como figura de duradouro e palpável celeiro ou armazém, quando não passa do nome pelo qual indicamos que, entre a inumerabilidade de todos os estados de consciência, muitos voltam a ocorrer de forma esbatida. Além disso, se a personalidade radica na memória, a que posse pretender dos instantes cumpridos que, por quotidianos ou envelhecidos, não gravaram em nós uma impressão duradoura? Empilhados em anos, jazem inacessíveis à nossa ansiosa ganância. E que a memória decantada, de cujas falhas interpondes recursos, evidencia alguma vez toda a sua plenitude de passado? Vive por acaso em verdade? Enganam-se também os que, como os sensualistas, concebem a personalidade como a soma de estados de ânimo alinhados. (...)
Ninguém que nisso medite aceitará que, na conjetural e nunca realizada nem realizável soma das diferentes situações do ânimo, pode estribar o eu. O que não se leva a cabo não existe e o encadeamento dos factos em sucessão temporal não os refere a uma ordem absoluta. Erram também os que supõem que a negação da personalidade, a que, com tão persistente afinco, vou instando, desmente essa certeza de ser uma coisa isolada, individualizada e distinta, que cada qual sente nas profundidades da alma. Não nego essa consciência de ser nem essa segurança imediata do “aqui estou eu” que respira em nós. O que eu nego, isso sim, é que as demais convicções devam ajustar-se à consabida antítese entre o eu e o não eu e esta seja constante. A sensação de frio e de espaçada e grata liberdade que há em mim ao atravessar o saguão e avançar pela quase escuridão da rua não é um acrescento a um eu preexistente nem acontecimento que traga consigo outro acontecimento de um eu contínuo e rigoroso.
[Como puderam seguramente constatar, Borges tinha, na juventude, um estilo bem mais floreado que o que lhe conhecemos depois e eu hesitei muito em traduzir este excerto – que não tenho, aliás, a certeza de ter traduzido como devia (mas confiram vocês próprios).]
Podia – devia, provavelmente – ficar-me pela elegância de Borges para fechar o texto. Mas há outra questão que quero aqui levantar, ainda relacionada com personalidade, mas de teor bem diferente: não se a personalidade é una, mas se a devemos querer una. Quer dizer, se é de louvar, como tantas vezes se louva, o empenho em manter-se permanentemente reconhecível, “igual a si próprio”; se é de louvar a vontade de transferir de uma situação para outra, e uma relação para outra, de um tempo para outro, um conjunto de traços de caráter que cremos – e queremos que os outros creiam – constituir-nos essencialmente. Gostos, maneiras de agir. Diz-se que Borges, por exemplo, gostava muito de arroz com queijo e que, de uma vez que jantou no Maxim’s, insistiu em comer arroz com queijo, imaginem... Há quem, em todas as companhias, afivele o mesmo ar e as mesmas maneiras – que acha que se deve sempre ter. “Eu sou assim”, dizem alguns, “e quem não gostar de mim assim, paciência…” Mas eu tendo a pensar mais nesse ser sempre assim, como defeito, sabem?, uma incapacidade – muitas vezes cultivada, ainda por cima… – de se adaptar a meios novos, de não ver sempre o mundo com os mesmos olhos.
Podemos juntar, neste texto, as crenças ou convicções aos traços de personalidade? Acho que sim. Aliás, nem sempre é fácil determinar onde terminam umas e começam outros. Porque se louva amiúde a coerência de alguém ou, como se diz às vezes, a sua firmeza ou a sua personalidade – mesmo quando não se concorda com aquilo em que o outro é coerente? É claro, se se pode ser coerente tanto com atitudes e crenças louváveis como com atitudes e crenças indesejáveis, a coerência não tem, por si só, nada de louvável à partida. Nem de criticável, é certo… Mas coerência significa, muitas vezes, teimosia, resistência ao outro, às vezes tacanhez. Que não há ninguém que não tenha de mudar, e mudar muito – se aceitar que o que é novo pode ter tanto ou mais valor que o que tem já dentro de si; se não pensar que só é bom aquilo que já é.
________________
[2] In Inquisiciones. Madrid: Alianza.1994. Primeira edição: 1925.

27/09/11

De Mary Read e outras três Marias

[I Introdução]
Beijo de Mulata publicou há coisa de duas semanas uma definição de loucura de António Cunha em D. Maria, a Louca:
«A loucura não é uma porta que se fecha mas muitas janelas que se abrem, só que todas ao mesmo tempo...»
Tem visos de verdade.
Agora, diz o dito que há mais Marias na terra. Na História também, há muitas Marias. E juntar muitas Marias da História num texto só é capaz de ser como demasiadas janelas abertas – uma loucura. Ou uma maluquice, seja, que a loucura é capaz de não chegar … Mas enfim, seja uma coisa ou outra, há de ser algo que não convém à História, que é, em princípio, assunto sério. As histórias que conto a seguir, porém, sobretudo porque são de rainhas, são História a reinar…
Tudo nasceu de um acaso, já lá vai uma dezena de anos:
Um dia, quando acabei de reler a Historia Universal de la Infamia, decidi ver o que dizia a minha enciclopédia eletrónica dos heróis desse livro de J. L. Borges. Dos dois primeiros contos, a enciclopédia não conhecia nem protagonistas nem personagens secundárias. Chegado ao terceiro conto, “La viuda Ching, pirata”, antes de escrever no motor de pesquisa da enciclopédia o nome do malogrado marido da pirata, resolvi procurar a Mary Read que aparece na introdução à história. E já não procurei mais, porque fiquei fascinado com o resultado da pesquisa.
O nome da capitã de piratas era referido apenas uma vez na entrada “Dame Flore Robson”, como título de uma peça levada à cena no West End de Londres em 1934. Sabendo que a Historia Universal de la Infamia foi escrita entre 1933 e 1934, pode especular-se se J. L. Borges terá ou não assistido à peça e se não será dela que lhe veio a ideia de que, traduzo, “a palavra corsárias corre o risco de despertar uma recordação que é vagamente incómoda: a de uma já descolorida zarzuela, com as suas teorias de evidentes criadas, que faziam de piratas coreográficas em mares de notável cartão”.
Quanto aos outros artigos propostos, nenhum deles continha, de facto, o nome Mary Read, mas sim uma série de outras estranhas associações do nome Marie ou Mary com uma série de palavras que têm em comum apenas o começarem por “read…”. É dessas associações – e de outras de que a enciclopédia não dá conta – que trata o texto que segue. 

[II Maria Tudor]  
Como a maior parte de vocês saberá, Maria Tudor ou Maria I de Inglaterra, nasceu em 1516 e aos 37 anos tornou-se rainha de Inglaterra. No ano seguinte, casou-se com Filipe II de Espanha, que tinha 27 anos e tinha sido já casado com outra Maria. O casamento católico de Espanha com Inglaterra foi tão mal recebido pelos ingleses que houve logo quem armasse uma revolta para tentar pôr no trono, em lugar desta vendida Maria, a sua meia irmã Isabel. E não deixavam de ter alguma razão os revoltados: por causa da aliança de Maria I com Filipe II, a Inglaterra juntou-se a Espanha na guerra em que esta estava metida contra França, o que valeu àquela perder Calais, se é que me faço entender. 
Diz-se que, quando os generais da Tudor voltaram, desanimados, empoeirados e sedentos, da terrível batalha em que os franceses tinham recuperado o enclave inglês, a rainha perguntou, com voz gelada, cortante, a um dos chefes do seu exército: “Então, Calais?” E que, provavelmente para tentar aligeirar um pouco a atmosfera pesada do salão, este se teria rido, com um riso forçado, pateta, e teria respondido, abrindo os braços e virando para cima a palma das mãos, “Pas de Calais!”, o que lhe valeu, a partir de então, o cognome de O Belga (The Sprout) no seio do exército britânico. 
Maria Tudor respondeu séria, mas mais triste que despeitada, ignorando a idiotia do comandante das suas tropas: “Pois bem, quando eu morrer e me abrirdes o coração, aí encontrareis Calais!” Mas nem com a tirada teatral o povo inglês a desculpou… Não lhe perdoou Calais nem as perseguições religiosas que matrocinou. O vodka com sumo de tomate existe para no-lo recordar. 

[III Maria Rainha dos Escoceses]
A outra Maria a seguir é a Maria que os escoceses tiveram, que aos 16 anos e no ano da morte da Maria anterior, se casava, para cumprir um contrato que tinham feito por ela à nascença, com um Francisco de 14 anos que viria a ser Francisco II de França no ano seguinte..
“Father, dear father, you have done to me great wrong / You’ve married me to a boy who is too young…”
Assim conta uma canção que a jovem rainha se teria queixado, em inglês, a seu pai. E a mesma canção diz que o pai lhe respondeu como segue:
“Daughter, dear daughter, I have done to you no wrong / I married you to the French King’s son!”
A canção deve ter tido grande sucesso na época, a julgar por dois factos: um, o de ter chegado aos nossos dias, se bem que numa versão ligeiramente modificada; outro, o de serem conhecidas não apenas uma mas três versões portuguesas, com pequenas variações entre si, que não serão provavelmente muito posteriores ao original e das quais a mais famosa é a seguinte: 
“Pai, querido pai, tanto mal que me fizeste / Quando por esposo uma criança me deste… / Minha filha linda, sei quem por esposo te dei / Jovem será, mas também filho de um rei!”
Não se sabe se para contentamento de Maria ou não (é bem provável que se divertissem, apesar de tudo, a brincar um com o outro), Francisco II morreu no ano a seguir à coroação.
Sabe-se que foi feita na época outra canção, esta em francês, em que a rainha se queixa, mas agora da perda do seu jovem par. Esta canção não teve a fortuna da canção em inglês anteriormente referida e, ao contrário dela, não chegou aos nossos dias, fosse em que forma fosse. Se se sabe que ela existiu é porque existe uma tradução portuguesa dos finais do séc. XVI em que é referido um original francês com o título “Ballade de la Jeune Reyne Marie d’Escosse”. Além disso, o facto de esta canção portuguesa estar escrita num verso bem pouco comum entre nós, o de oito sílabas, parece confirmar que se trata de uma tradução de um original francês, língua em que essa medida é normal. A versão portuguesa, extensa demais para a transcrevermos aqui na íntegra, começa assim:
“Meu pai deu-me um rei por marido / Que me queria, mas que eu não quis / Mas agora que o hei perdido / Como sou, Deus meu, infeliz…”
Um famoso estudioso português da cultura portuguesa, que escuso de nomear aqui, recriou, a partir da tradução, o original francês. Era uma coisa que ele gostava muito de fazer (apesar de não conhecer bem a língua francesa...), sobretudo em ressacas de grandes bebedeiras que apanhava com os amigos, aos fins de semana, numa quinta que tinha ali para os lados da Várzea de Colares. Uma pessoa bem se pode perguntar como é que ele chegou dum texto ao outro, mas enfim, estranhos são os desígnios de alguns intelectuais…
“Mon père, vous m’avez fait grand tort / En me mariant à ce jeune roi / Dieu merci, le voilà qui est mort / Et je ris et chante de joie”
Quando lhe aconteceu essa desgraça de se ver assim viúva aos 18 anos, pobre Maria!, achou ela que o melhor era deixar aquela França onde tinha sido criada e voltar à Escócia de que era rainha desde o berço, mas a que nunca tinha dado muita importância… Depois de muitas voltas e reviravoltas – que dariam, como deram, textos bem mais interessantes do que este –, Maria foi, em 1567, presa e forçada a abdicar do trono. Podia ter tudo acabado aqui, mas ela era uma mulher de armas: fugiu da prisão e juntou um exército de 6.000 homens. Desafortunadamente, derrotada e obrigada a fugir para Inglaterra. E a Isabel que era lá rainha nesta altura – a que sucedeu à Maria da história anterior –, em vez de dar asilo à rainha dos escoceses, deu-lhe antes prisão perpétua. Maria dos Escoceses era maior do que ela própria, como acontece a muitas estrelas da música pop e a ídolos de outras áreas. Havia quem achasse que não devia ser só dos escoceses e que devia ser rainha dos ingleses também. É claro, perante isto, Isabel fez, como todos nós fazemos constantemente, o que as circunstâncias lhe mandavam fazer. Maria foi executada a 8 de fevereiro de 1587 em Inglaterra. Tinha 45 anos e uma exuberante cabeleira postiça vermelha, sobre a qual muito se tem especulado.

[IV Maria de Médici] 
14 anos antes, mudando agora de assunto, tinha nascido outra Maria – florentina de nascimento, mas não de costumes, para usar uma fórmula com que Dante se apresentou uma vez... Esta Maria era da família Médici, que mandou em Florença durante séculos, e foi rainha consorte de Henrique IV de França. Foi ela a responsável da escalada política de Richelieu, esse cardeal que faz papel de mau nos filmes de capa e espada e que, um dia, virou de repente a casaca de cetim e veludo e deixou de ser amigo dos espanhóis amigos da Maria. Maria montou uma intentona para o afastar do poder, mas o golpe falhou e foi ela que acabou por ser deportada o resto da vida. Nos últimos anos de exílio, poderia ter pensado assim, um pouco como uma cortesã que recordo de um velho poema chinês:
“Florença estava magnífica no último verão que lá passei…
Há quanto tempo foi isso? Não sei, já não sei…
Sei que nessa altura não fazia ideia do que era ter poder,
nem de quanto poder viria a ter.
E para, Deus meu, o quê?, afinal, para acabar aqui
a imaginar o que não fiz e o que não vi
desse mundo que deixei passar ao meu
lado, na tonta ilusão que era eu
que o fazia girar, pelo menos em parte
pela minha – como o cri eu? – estratégia, arte?
Devia ter amado antes, que me cantassem
como à rainha escocesa, que se lembrassem
de mim, arrebatada e triunfante,
mais que como rainha como amante…
Mas perdi de meia vida o tempo, e agora
nem os prazeres me restam de outrora
com que enfeitar em sonho a solidão,
a velhice e o exílio… E tempo não
tenho já para transformar em tempo de vida
o tempo que me resta pouco… Ofendida,
é assim que me sinto, mas não p’lo cardeal,
ou p’lo meu filho… Porquê?, se o mal
que me fizeram é menor que o que me fiz
ao não querer da vida apenas ser feliz…
Não, se me sinto ofendida é só por mim
própria. E espero ofendida o meu fim.”
[V Remate] 
Do ponto de vista do estilo, esta última parte do texto é claramente de inspiração arcádica, o que é estranho porque o estilo arcádico há muito que não inspira ninguém… Chamam-se também Três Marias às três estrelas em linha que se encontram no centro da constelação de Orion, por muito que elas se chamem de facto Mintaka, Alnilan e Alnitaka…  
Mas Três Marias há muitas...

11/04/11

Angelus Silesius, a poesia e a essência desabitada e silenciosa de Deus

Não é nada esotérico, até vem na wikipédia: Numa conferência que deu sobre poesia em 1977, Jorge Luís Borges afirmou que se podia resumir tudo o que acabava de dizer a uma frase de um relativamente obscuro autor seiscentista (traduzo eu, como traduzo, neste texto, tudo o que está em português a castanho):
Vou concluir com um alto verso do poeta que no século dezassete tomou o nome estranhamente poético, real, de Angelus Silesius. Vem a ser o resumo de tudo quanto disse esta noite, com a diferença de que eu o disse por meio de raciocínios ou de simulados raciocínios: di-lo-ei primeiro em espanhol e depois em alemão, para que o oiçam: “La rosa [es] sin porqué, florece porque florece. / Die Rose ist ohne warum; sie blühet weil sie blühet.” [Trata-se do dístico I. 289 da obra O Peregrino Querubínico[1]: “A rosa é sem porquê, floresce porque floresce”]
Quem era este poeta místico daSilésia? Chamava-se Johannes Scheffler de seu nome de baptismo, e nasceu em Breslávia (Wrocław), em 1624. Teve uma educação luterana, e foi cientista e médico, e homem de grande cultura. Convertido ao catolicismo em 1653, tornou-se dois anos mais tarde médico imperial-real da corte do Imperador Fernando III. Abraçou o sacerdócio em 1661, tendo-se tornado coadjutor do Príncipe-Bispo de Breslávia, e foi no mosteiro de S. Matias da sua cidade que veio a falecer em 1677.
Segundo Carlos García[2], Silesius foi um dos místicos alemães que fascinou Borges. E é fácil compreender este fascínio, porque, no poema referido como em muitos outros, parece um poeta à frente do seu tempo. O Peregrino… foi publicado em 1657. Ainda vinha longe
…a rose is a rose is a rose,
que Gertrude Stein escreveu 256 anos mais tarde.
Agora: sabemos, por Carlos García, que a referência a Angelus Silesius que mencionei no início do texto está longe de ser a única na obra de Borges e que «o topos da “rosa sem porquê” é um dos «motivos vindos de Silesius (…) que são recorrentes em Borges». A leitura que Borges faz deste dístico de Angelus Silesius, porém, vai variando ao longo do tempo (ou talvez antes consoante a estratégia favorecida para provocar estranhamento no leitor…). Se, na referida conferência de 1977, o apresenta como resumo do seu próprio pensamento sobre a poesia, em 1933 tinha-o apresentado como o exacto oposto da sua filosofia.
Die Ros ist ohne Warum, a rosa é sem porquê, lemos no livro primeiro de O peregrino… de Silesius. Eu afirmo o contrário, eu afirmo que é imprescindível uma tenaz conspiração de porquês para que a rosa seja rosa.
Num discurso de 1963, o verso de Angelus Silesius não aparece como reflexão sobre a poesia, mas como exemplo da metamorfose que o discurso analítico tem de sofrer para ser ele próprio poesia:
Imaginemos, por exemplo, que um poeta dizia que a beleza é inexplicável. Não teria dito nada. Mas se esse poeta, que seria o grande poeta alemão Angelus Silesius, disser “Die Rose ist ohne warum”, (“A rosa é sem porquê”), já está criando poesia.
No ano seguinte, o mesmo verso serve-lhe de máxima anti-analítica:
Die Rose ist ohne warum (“a rosa é sem porquê”), é a famosa frase de Angelus Silesius no livro primeiro do seu Peregrino…; a sentença do místico adverte-nos da possível profanação que encerra toda a análise do belo.
Não sei, sinceramente, por que fui buscar Borges para introduzir Angelus Silesius. De facto, não me lembro de ter visto alguma vez nos textos de Borges referência ao místico polaco. O meu encontro com Angelus Silesius, que se deu nem há um mês, não tem nada a ver com Borges. Nem sei, aliás, como fui parar a um texto de Angelus Silesius, só sei que texto era: uma tradução em inglês de Stephen Mitchell do dístico 25 do livro I de O peregrino…, que diz assim
God is a pure no-thing, concealed in now and here:
the less you reach for him, the more he will appear.
Soa bem a tradução, como também soa muito bem esta outra de Julia Bilger, que traduziu O peregrino… em 1944 (atente-se na sequência nothingness  – knoweth – now e na aliteração em gr- de grope e grow, além das assonâncias em [o] e [ow] que percorrem todo o dístico):
God is all Nothingness, knoweth not here nor now;
The more we grope the more elusive will he grow.
God is an utter Nothingness, / Beyond the touch of Time and Place:
The more thou graspest after Him, / The more he fleeth thy embrace.
Lauter Nichts, eis como aparece no texto original o mais surpreendente sintagma do poema, este “puro Nada”. Aqui fica a minha pobre tradução (literal que não literária, peço desculpa…), para quem não compreenda o inglês:
Deus é puro Nada, para além do agora e do aqui. / Quando menos O procurares, mais Ele aparecerá.
Muitos poemas de Angelus Silesius soam assim, como se dissessem alguma verdade tão fundamental que só pode ser dita como o é. O que significa, para um cristão, que Deus é puro Nada que se revela quando O não buscamos? Ao ler um poema como
Sei que Deus nem uma hora sem mim pode viver. / Morra eu e o próprio Deus a sua preciosa vida há-de render. (I. 8:JB[3])
parece que estamos diante de uma asserção ateísta, em que se apresenta Deus como uma entidade unicamente existente na mente do crente. Mas tal interpretação só pode resultar de uma incompreensão do misticismo de Angelus Silesius, que pressupõe uma identificação essencial de Deus e do crente.
Nenhum caminho leva à Luz em que Deus vive; / Terá de se tornar essa Luz quem não quiser que dele Deus se esconda. (I.072:JB&CF)
Nada pode nunca em Deus ser conhecido: um e um apenas, / eis o que Ele é. Para O conhecer, o Conhecedor e o Conhecido têm também de ser um. (I.285:CF)
A Enciclopédia Católica insiste que, embora “um pequeno número destas estrofes pareçam ter um travo de quietismo ou de panteísmo”, “devem ser interpretados num sentido ortodoxo, pois Angelus Silesius não era um panteísta. Os seus escritos em prosa são ortodoxos; “O Peregrino Querubínico” foi publicado com o Imprimatur eclesiástico, e, no seu prefácio, o próprio autor explica os seus “paradoxos” num sentido ortodoxo e repudia qualquer interpretação panteísta que dela venha a ser feita.” É bem possível, como é bem possível que o prefácio com a interpretação ortodoxa do autor tenha sido condição para o Imprimatur… Seja como for, panteísmo nem sequer foi o conceito que me veio à mente quando li O peregrino… É certo que, por vezes, os dísticos de Angelus Silesius dão conta de uma reflexão mística que, embora sofisticada, não se afasta sobremaneira da linha de pensamento de outros filósofos cristãos: uma platónica visão de Deus como a eterna matriz de Tudo
A rosa que hoje contemplas com o teu olhar exterior / Floresce e floresce em Deus durante toda a eternidade (I.108:JB&CF).
ou uma visão da eternidade não como um eterno prolongamento do tempo, mas antes como algo que é essencialmente diferente dele
Lá na Eternidade, tudo acontece ao mesmo tempo. / Não há antes nem depois, como aqui no reino do Tempo (V.148:CF)
ou quando propõe, como outros místicos cristãos, que o caminho mais curto para Deus é o amor, não a razão:
O Amor, sem ser anunciado, mais depressa será recebido por Deus. / A Inteligência e o Engenho muito tempo na corte terão de esperar. (5.307:JB)
Outras vezes, trata-se de um misticismo que, sui generis que possa ser,  não parece incompatível com a busca (também cristã, entre outras…) de estados de comunhão com uma divindade transcendente:
Difícil tarefa, a de viver o amor; não devemos / amar apenas, mas sim tornarmo-nos amor, como Deus é. (I.071:JB)
Deus não está aqui nem está ali. Ao procurá-Lo /, que tenhas presas as mãos e os pés, presa a alma e preso o corpo. (I.171:JB&CF)
Vai onde não podes ir, vê onde nada se pode ver, / Ouve onde não há som que se oiça: estarás onde Deus fala. (I.199:JB&CF)
Deus é, mas só como Ele é. Não ama nem vive / como tu ou como eu ou como do mundo os outros seres. (II.055:JB&&CF)
Sai tu — e entrará Deus; morre para ti próprio – começaste assim / A viver para Deus; Não sejas – Ele é; Não faças nada – e estará assim feito o que ele manda. (II.136:CF)
Deus não prevê nada – é o teu senso frouxo e atarantado / Que o veste com o atributo da Providência. (V.92:CF)
Deus não pensa. Pensasse Ele / e poderia hesitar, o que é, para Ele, impensável. (V.173:JB&CF)
Deus – uma força eterna que alcança tudo o que quer, / Nunca deixando de ser como é: sem forma, sem propósito, sem vontade. (5.358:JB&CF)
Outras vezes, porém, Angelus Silesius surpreende por o seu misticismo (ou deve antes dizer-se a sua poesia?) parecer tão pouco ocidental e tão próximo do pensamento oriental. Esta generalização abusiva pensamento oriental, que noutras circunstâncias evitaria, não me parece, no presente contexto, despropositada para referir algumas constantes de vários pensamentos asiáticos: refiro-me, concretamente, a um ideal de suprema objectividade – conhecer, aceitar o mundo como ele é – alcançável pela obliteração de si, pela interrupção ou aniquilação da mente. Não é o único caso em que um místico cristão se aproxima da mística asiática, é certo, e vieram-me à mente, quando li Silesius, alguns versos do “Monte de Perfección” de San Juan de La Cruz (um poeta de que gosto muito) que aqui vos deixo no castelhano original:
1
Para venir a gustarlo todo
no quieras tener gusto en nada.
Para venir a saberlo todo
no quieras saber algo en nada.
Para venir a poseerlo todo
no quieras poseer algo en nada.
Para venir a serlo todo
no quieras ser algo en nada.
2
Para venir a lo que gustas
has de ir por donde no gustas.
Para venir a lo que no sabes
has de ir por donde no sabes.
Para venir a poseer lo que no posees
has de ir por donde no posees.
Para venir a lo que no eres
has de ir por donde no eres.
3
Cuando reparas en algo
dejas de arrojarte al todo.
Para venir del todo al todo
has de dejarte del todo en todo,
y cuando lo vengas del todo a tener
has de tenerlo sin nada querer.
[…]
Mas são, convenhamos, casos raríssimos, muito excepcionais. Além do texto através do qual conheci Angelus Sibelius e que já referi atrás, eis outros fascinantes dísticos aparentemente muito pouco católicos deste budista de Breslávia:
Se algo és para ti próprio, se algo amas e queres, / Se algo sabes e tens, continuas a transportar a tua carga. (I.024:CF).
Sem nada querer nem nada buscar, Deus é paz eterna: / se como ele não desejares nada, será igual à dele a tua paz. (I.076:CF)
Quem se tornar deus deve ser diferente de tudo o resto. / Deve livrar-se se si próprio, libertar-se de toda a queixa. (I.084:JB).
Quem for como se não fosse, nem tivesse chegado a ser, / tornou-se — ó Felicidade!—pura divindade. (I.092:CF).
Quanto mais de ti de ti próprio conseguires verter e deitar fora / tanto mais, cada vez mais, Deus fluirá em ti com a sua mente divina. (I.138:CF).
Pudesse o Diabo abandonar o seu ser-ele, e logo / o Diabo verias sentado no trono de Deus. (I.143:CF).
Oramos: seja feita a Tua vontade. / Mas vede: Deus não tem vontade, ele é apenas imutável quietude. (I.294:JB&CF).
Liberta-te de ti próprio, liberta-te de toda a criação. / Deus enxertará então em ti a sua natureza divina. (II.057:CF).
O nada leva-te além de ti próprio / tão seguramente como a anulação de ti: / Quanto mais te conseguires anular / mais há em ti de divindade. (II.140:CF).
Deus, cujo maior prazer é viver contigo, prefere vir / a tua casa quando tu lá não estás. (V.033:CF).
Se Deus procuras, Homem, deves / perder primeiro a identidade de ti próprio, / e nem nunca voltar a encontrar de novo o rasto do teu Eu em toda a eternidade. (V.220:CF).
E, finalmente, tirado da ordem do livro para lhe dar o lugar de destaque que acho que merece e a que se costuma chamar chave de ouro: 
O abandono leva a Deus: / Mas o supremo abandono, / que poucos há que compreendam, / é abandoná-lo a Ele também. (II.092: CF)
Esta é a mais radical e mais surpreendente de todas as sentenças: dá um sentido novo a todas as outras, ao precisar um fim último da busca mística que implica passar para além de qualquer ideal de perfeição anulando-se assim a própria busca. Zen?
Não sei se arriscaria afirmar que é esta a lição de toda a poesia, pois que há poesia de muitas categorias e de variados intentos; mas é, desculpem repeti-lo, esta a grande lição da poesia de Angelus Silesius: se diz assim o que diz, se não pode fugir ao estranhamento e à (pelo menos aparente) contradição, é porque o que diz não tem outra forma de ser dito. Silesius vai até onde as palavras o deixam, digamos assim. Depois disso, o que há a (não) dizer é só silêncio, já não palavras. Podermos considerar que diz isto mesmo várias vezes ao longo da obra, e de várias maneiras, mas di-lo mais explicitamente, de uma forma mais conclusiva, mais brutal, no último dístico do texto: A conclusão que tanto fascinou Borges e que tanto fascina, sem dúvida, todos os que se aventurarem na sua invulgar visão mística, só pode ser a que apresenta no último dístico de O Peregrino (VI.263), é a seguinte, no alemão original:
Freund, es ist auch genug. Im Fall du mehr willst lesen,
So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen.
JB dá-nos do dístico a tradução
Friend, I have said enough. If thou wouldst read still more,
Then go thou and thyself become the script and lore.,
e CF uma tradução ligeiramente diferente,
Friend, it is now enough. Wouldst thou read more, go hence,
Become thyself the Writing and thyself the Sense.
Borges também traduziu o dístico. Em 1960 (e desta vez não é certo que tenha sido ele, pode ter sido Bioy Casares, o co-autor do Livro do Céus e do Inferno, onde a tradução aparece, ou podem ter sido os dois em conjunto), traduziu-o da seguinte forma (destaque meu):
Ya basta amigo. Si quieres seguir leyendo, transfórmate tú mismo en el libro y en la doctrina.
Em 78, porém (agora sem dúvida Borges, só ele), já propõe outra tradução (de novo o meu destaque):
Amigo, ya basta. En caso de que quieras seguir leyendo, sé tú mismo el libro y tú mismo la esencia.
É melhor, esencia traduz mais directamente que doctrina o Wesen original. E, se tenho razão na minha proposta de que se trata aqui de versos que muitas vezes nos soam estranhos – paradoxais, ou até incómodos – porque são a única maneira de dizer certas coisas, só uma tradução literal faz sentido. Carlos García, que nos conta a história, propõe ele a sua própria tradução ainda «mais literal» (destaque meu), que é a que prefiro e que escuso de traduzir, por óbvia para qualquer falante do português:
Amigo, ya es bastante. Si quieres más leer / Ve y transfórmate en el libro y en el ser.
_______________
[1] A obra publicada pela primeira vez em 1657, chamava-se originalmente Geistreiche Sinn- und Schluss-Reime, que não me atrevo a traduzir. Em 1674, foi publicada uma segunda edição com o título Cherubinischer Wandersmann, "O Peregrino Querubínico". Neste texto, para simplificar a referência, o livro será sempre referido como O Peregrino….
[2] Ver o ensaio de Carlos García Borges y el misticismo alemán, de onde foi retirada muita da informação necessária para escrever este texto. Na minha opinião, trata-se de um ensaio de leitura obrigatória para todos os amantes de Borges. Todas as referências de Borges a Angelus Silesius são retiradas do texto de García.
[3] A indicação entre parênteses no fim das minhas traduções dos dísticos de Angelus Silesius indicam: em númeração romana, o livro – a obra divide-se em 6 livros; em algarismos árabes, o número do dístico no livro; as iniciais JB ou CF indicam de que traduções inglesas traduzi para português, se das de Julia Bilger ou das de J. E. Crawford Flitch (em http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/alex/index.htm e http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/scw/index.htm, respectivamente) – ou se usei traduções de ambos, quando assinalo JB&CF.

17/02/10

Tipologias, interjeições e outras complicações

No texto “El idioma analítico de John Wilkins”, incluído em Otras inquisiciones, Jorge Luís Borges refere uma enciclopédia chinesa, o Empório celestial de conhecimentos benévolos, segundo a qual se poderia dividir os animais em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães soltos, h) incluídos n[aquela] classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de partir o jarrão e n) que de longe parecem moscas.

Parece evidente à maior parte das pessoas que é uma tipologia concebida para causar estranhamento no leitor e que é por isso que se alinham ao mesmo nível categorias em princípio sem relação entre elas. O que é interessante é que não é só nos devaneios literários borgianos que se encontram tipologias deste tipo. Quando, há muitos anos, analisei a Poética de Aristóteles para a reduzir a um quadro (é possível!), afigurou-se-me óbvio que a obra – um tratado muito influente em toda a reflexão ocidental sobre língua e literatura! –, está, às vezes, organizada com uma desorganização do mesmo tipo da da enciclopédia chinesa de Borges. Por exemplo: os mitos dividem-se, quanto às partes que os compõem, em catástrofe, peripécia e reconhecimento, e os reconhecimentos dividem-se em reconhecimento por sinais, reconhecimento urdido pelo poeta, reconhecimento pelo despertar da memória; reconhecimento que provém de um silogismo; ou reconhecimento combinado com um paralogismo [!].

Longe de mim querer discutir aqui Aristóteles ou propor regras para elaboração de tipologias. Isto é só uma introdução demasiado grande e talvez um bocadinho despropositada ao tema das interjeições. O que se encontra na maior parte das tipologias de classes gramaticais, desde a Wikipedia até à Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, é uma divisão em dez categorias de base, seis variáveis (substantivo, artigo, adjectivo, numeral, pronome, verbo) e quatro invariáveis (advérbio, preposição, conjunção e interjeição). A interjeição é, pois, normalmente considerada uma classe de palavras. Será... Mas, então, uma classe de palavras algo estranha, difícil de definir...

Se querem uma tipologia senão mais surrealista pelo menos tão ilógica (ou desorganizada, seja…) como a da enciclopédia chinesa de Borges, vejam a entrada "Interjeição" da Wikipédia. Fica-se aí a saber que “[a]s interjeições são palavras invariáveis que exprimem estados emocionais, ou mais abragentemente: sensações e estados de espírito; ou mesmo, servem como auxiliador expressivo para o interlocutor, já que permite a ele a adoção de um comportamento que pode dispensar estruturas linguísticas mais elaboradas”, o que, tirando estar assim escrito exactamente como aqui ponho [tudo sic, foi copy & paste...] não difere muito de outras definições de interjeição mais bem escritas.

Vejamos alguns dicionários. O Priberam online diz que interjeição é “voz, palavra ou locução que exprime com energia os afectos/afetos do ânimo”. O Porto Editora diz que interjeição é “vocábulo ou expressão de carácter sugestivo usada para traduzir um sentimento ou reacção súbita (dor, alegria, admiração, etc.), para dar uma ordem, para chamar a atenção ou ainda para imitar um som; exclamação”. O dicionário da Real Academia Espanhola define interjección como sendo uma “classe de palavras que exprime alguma impressão súbita ou um sentimento profundo, como assombro, surpresa, dor, arrelia, amor, etc. Serve também para apelar ao interlocutor, ou como fórmula de saudação, despedida, acordo, etc.; por exemplo, eh, olá”. Como se pode ver, a definição é muito semelhante à da Porto editora, com a vantagem de referir só palavras, não expressões nem locuções, e ter lá os exemplos de eh e olá no fim. Já o Oxford Concise define interjection apenas como “uma exclamação, especialmente como parte do discurso” (entendendo-se parte do discurso como “categoria morfossintáctica de base”, “classe de palavras”), que é uma definição muito mais elegante, mas, dos dois exemplos que dá, ah! e dear me!, é difícil aceitar que o segundo corresponda a um componente mínimo do discurso. Enfim… Já a definição de interjeição do Houaiss, que também me parece confusa, acrescenta uma coisa que acho importante e que sublinho: “palavra invariável ou sintagma que, com entoação particular, geralmente sem combinar-se gramaticalmente com elementos da oração, formam, por si sós, frases que exprimem uma emoção, uma sensação, uma ordem, um apelo, ou descrevem um ruído (p. ex. psiu!, oh!, coragem!, meu Deus!)”.

Essa ideia de que a interjeição é uma frase é partilhada por diversos autores (a minha casa aqui em Chimoio é um vazio de livros, terão de me desculpar, só posso citar o que consigo apanhar online, mas acho que chega…), como Mattoso Câmara, que, no seu Dicionário de Linguística e Gramática, afirma que a interjeição é uma “verdadeira palavra-frase, pela qual o falante, impregnado de emoção, procura exprimir o seu estado psíquico num momento súbito, em vez de se exprimir por uma frase logicamente organizada,” e Jean Dubois, que diz, no seu Dicionário de Linguística, que “[se chama] interjeição a uma palavra invariável, isolada, que forma uma frase por si mesma”. Aliás, até a tal confusa página "Interjeição" da Wikipedia reconhece, a certa altura, que “a interjeição é considerada palavra-frase, caracterizando-se como uma estrutura à parte” e que a interjeição “não desempenha função sintática”.

Na minha opinião, o que torna problemático encaixar a interjeição nas “classes de palavras” ou nas “categorias morfossintácticas” ou nas “partes do discurso” ou lá como queiram chamar aos componentes mínimos de frase é que, às vezes, parece de facto fazer mais sentido considerar uma interjeição uma frase completa (sintética, se se quiser, porque cristalizada ou truncada), mas, noutros casos, apenas um tipo de predicador. Uma amiga minha, professora de português, contou-me de um aluno, não sei se dela se de quem, que tinha certa vez defendido que ai era um verbo, porque se conjugava: ai de mim, ai de ti, ai dele, etc. É muito provável que a maior parte das pessoas ache cómica a afirmação, mas o facto é que o rapaz tinha uma intuição linguística apurada e estava muito próximo da verdade: numa frase como “ai de ti, se voltas a fazer isto!”, ai é claramente o núcleo de predicação da oração principal, ou seja, desempenha a função mais comummente desempenhada por um verbo!

Embora compreenda a dificuldade de classificação das interjeições, não posso aceitar que se misturem tanto os critérios classificatórios (ou que se misturem tantos critérios classificatórios…): se se define interjeição como classe de palavras, há que a definir através das suas propriedades morfossintáticas (invariabilidade ou não, posições sintácticas em que pode ocorrer, antes e depois de que outras classes, etc.); se se considera que o que conta para a definição de interjeição é o que ela exprime (emoções várias, ordem, encorajamento, etc. etc.), então interjeição é uma noção semântica (uma categoria modal?) e aí sim, podem facilmente pôr-se ao mesmo nível palavra isoladas e frases longas. O artigo "Interjeição" da Infopédia ([Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-02-15], para o citar como me indicam que devo) afirma que “[a] proposta trazida pela gramática tradicional de classificação das interjeições segundo a emoção por elas expressa aguarda revisão e esclarecimentos à luz da análise do discurso e da pragmática”; e eu acrescento que também à luz de uma proposta de classificação mais rigorosa das classes de palavras…

Digamos assim: Quando uma pessoa está mesmo aflita, como eu às vezes fico, ai, ai, ai, sem saber onde arrumar uma palavra, paciência, aceita-se que lance mão da pasta de arquivo interjeição. Não me choca que se classifiquem assim um Hmmm... ou um Eh, eh, eh! Também não me satisfaz, mas enfim, na falta de melhor… Que se classifique assim algum uso específico e relativamente anómalo de palavras com outra classificação morfossintáctica, como Bem... Ou Bolas!, eis outra coisa que eu também, na falta de melhor, não só aceito como chego a praticar. Mas que não se exagere, ok?, porque se se cair em definições como uma da Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Cunha e Cintra, segundo a qual as interjeições são “uma espécie de grito com que traduzimos de modo vivo as nossas emoções”; se se seguir a lógica que faz classificar “silêncio!” como interjeição; e se se admitir, como há muito quem faça, a existência de locuções interjectivas, eh pá, acabamos por encaixar na categoria uma expressão como “Valha-me Santo Euplúsio de Catânia e mai-los santinhos todos dos céus, então mas eu fiz algum mal a alguém para estar agora a levar com isto, não querem lá ver?”.

Interjeição? Pois, eu percebo… mais ou menos, mais ou menos..., onde se quer chegar. Mas não sei o que é…Uma coisa é certa (agora para terminar mais ou menos onde comecei): embora a pouco rigorosa classificação tradicional das classes de palavras tenha na Poética de Aristóteles uma das suas origens principais, precisamente, pelo menos a ele ninguém o pode acusar de ter incluído as interjeições nas “classes gramaticais”, já que, para ele, as “partes” em que se divide a “elocução” são: letra, sílaba, conjunção, nome, verbo, artigo, flexão e proposição. Mais uma tipologia muito estranha, mas de que não fazem parte nem as interjeições nem os advérbios, que são outra categoria polémica, se não claramente abusada… Mas os advérbios ficam para outro dia.

17/01/10

Areia, mar e sol, tradução e espanhol…

Como disse ontem, li nas férias 2666, de Roberto Bolaño. Nas últimas férias, tinha lido The pope’s rhinoceros, de Lawrence Norfolk (comprado, vejam lá vocês ao que chegou a globalização, numa livraria de uma dinamarquesa na Ilha de Moçambique…). Só nas férias é que se pode ler romances assim, de muitas (muitas!) centenas de páginas. Agora, que recomecei a trabalhar, comecei a reler o que tenho de Borges cá em casa, que são 4 livros de contos. Um formato mais adequado à quotidiana falta de tempo: um conto hoje, outro amanhã…

Ignacio Echevarría disse uma vez de Los detectives salvajes (o penúltimo romance de Bolaño, imediatamente anterior a 2666) que era “o romance que Borges teria escrito” [se tivesse escrito algum romance] (ou “o tipo de romance que Borges teria acedido a escrever”, já vi diferentes citações das palavras de Echevarría...). Com todo o respeito que devo ao senhor Echevarría, e sem ter lido Los detectives salvajes, acho que não faz grande sentido pensar que Borges, que sempre se recusou, ponto!, a escrever romances (“Desvario laborioso e empobrecedor, o de compor vastos livros”, dizia ele), os escreveria assim ou assado se os quisesse escrever… Mas não é ele o único, essa é que é essa, a relacionar os dois escritores. A malograda Aura Estrada (só encontro a tradução inglesa do seu ensaio sobre “Borges, Bolaño e o retorno do épico”, na revista online Words without borders), embora concorde que “Borges pura e simplesmente não é o precursor que nos vem naturalmente à ideia quando lemos Bolaño”, considera que os une o facto de verem ambos na épica a essência do literário.

Assim à primeira impressão (só li uma obra de cada autor), tendo mais a comparar a escrita de Roberto Bolaño com a de Lawrence Norfolk, sobretudo pelas digressões fogosas, às vezes capazes de deixar o leitor literalmente ofegante, e pela mistura de registos, em que o calão e outras formas menos cerimoniosas de linguagem convivem com uma “literariedade” que revela um domínio convincente de muitas linguagens literárias. Por outras palavras, a feliz expressão bawdy baroque-punk prose of marvellous fluency, “prosa barroco-punk impudica de maravilhosa fluência”, que William Dalrymple, um crítico de The Independent usa para descrever a escrita de Norfolk pode aplicar-se, acho eu, à escrita de Bolaño – pelo menos, às vezes... E se no caso de Norfolk, tudo isto é, como diz Dalrymple, “recoberto com uma camada lustrosa de grande erudição, que abrange tudo desde obscuras práticas sexuais renascentistas até às minúcias do direito canónico” com “apartes eruditos sobre a enxertia de rainhas-cláudias, os movimentos de glaciares e o simbolismo sagrado do camaleão”, um livro de Bolaño pode, por exemplo, revelar, com a mesma amplitude de erudição, “conhecimentos de medicina legal, Panteras Negras, divisões do exército alemão, cultura das prisões, ficção científica soviética, boxe, algas marinhas e formas obscuras de adivinhação” – e eu acrescentaria ainda fobias (há uma impressionante enumeração de medos patológicos em 2666) a esta lista de Natasha Wimmer, tradutora das duas últimas obras de Bolaño para inglês.

Jorge Luis Borges acreditava na tradução. Afirmou-o peremptoriamente ainda jovem, em 1926 [“Quanto a mim, creio nas boas traduções de obras literárias (das didácticas e especulativas, nem falemos) e opino que até os versos são traduzíveis” (Textos recobrados 1919.1930)] e, ao que eu sei, nunca mudou de opinião ao longo da vida. Para ele, mais do que um mal necessário, a tradução era um bem necessário e uma das componentes da literatura.

Chegou até a afirmar que as suas próprias obras podiam ganhar ao ser traduzidas para outras línguas, porque o castelhano era, às vezes, uma língua pobre. E dava o exemplo de pesadilla, que não passa de “um pequeno peso”, ao passo que palavras como cauchemar ou nightmare são muito mais expressivas, mais cheias de significados. Desculpar-me-ão eu não vos dizer onde é que Borges afirma isto, mas não consigo encontrar esse texto em lado nenhum. Lembro-me bem de o ter lido e lembro-me até de que era em francês, porque me lembro de que Borges explicava a ideia da palavra pesadilla como “une petite lourdeur”, mas claro, sem encontrar o texto, como podemos, eu e vocês, ter a certeza de que eu não sonhei isto? Uma coisa é certa, porém: Se sonhei, não foi um sonho irrealista por aí além, porque Borges diz (e isto, sei onde: no seu ensaio “La pesadilla”, incluído em Siete Noches) que “o nome espanhol [do pesadelo] não é muito afortunado: o diminutivo parece tirar-lhe força. Noutras línguas, os nomes são mais fortes.”

[É claro, tudo depende da palavra a que se dê importância: mancuernillas, por exemplo, a maravilhosa palavra centro-americana para botões de punho, mesmo com o diminutivo na cauda é centenas de vezes mais expressiva do que boutons de manchette ou cufflinks, que não são, precisamente, mais do que cuff links…]

Já Lawrence Norfolk desconfia dramaticamente da tradução: “Os leitores acreditam na tradução. Para os escritores, no entanto, o processo é mais complicado”, escreve ele em “Being translated, or the Virgin Mary's hair”. E continua o autor de Lemprière's dictionary: “Eis, à laia de ilustração, uma lista de livros que eu não escrevi: Lemprière's Wörterbuch, Le Dictionnaire de Lemprière, Slownik Lemprièra'a, Lempriere's Ordabók, Lemprières Lexicon, El Diccionario de Lemprière, A Lemprière-lexicon, Het Woordenboek van Lemprière, Kabbalin Kulta (porque Lemprière é impronunciável em finlandês), Dictionarului Lemprière, Lemprière's Ordbog e diversas outras variações em línguas (hebreu, cantonês, coreano, russo, japonês) cujos alfabetos são, pelo menos para mim, ilegíveis.”

A mim, parece-me mais produtivo afirmar muito simplesmente que traduzir nem sempre é fácil e que há obras muito mais difíceis de traduzir do que outras. No geral, concordo muito mais com Borges do que com Norfolk, mas às vezes tenho de dar o braço a torcer ao pessimismo deste último. Há que aceitar que, na literatura ou fora dela, se há muitos textos que se traduzem sem grandes problemas, também há, paciência!, coisas literalmente intraduzíveis.

Do que pensava Bolaño da tradução literária em geral e, mais especificamente, da tradução da suas próprias obras, não faço ideia. Mas eis o que pensa a sua tradutora e o que pensei eu quando li 2666: Diz Natasha Wimmer que “tanto Los detectives salvajes como 2666 colocam óbvios desafios ao tradutor. Los detectives salvajes é o romance mais coloquial de Bolaño, narrado nas vozes de mais de cinquenta personagens e cheio de calão, real e inventado, seleccionado em vários países.” Pode bem ser que 2666 tenha menos coloquialismos e mais vocabulário especializado do que Los detectives…, mas tem, ainda assim, essa mesma característica interessante (tanto nos coloquialismos como nas formas não coloquiais), que o torna, nalguma medida, intraduzível, que é estar escrito naquilo em que se poderia chamar pancastelhano, o tal espanhol “seleccionado em diversos países”: há espanhol europeu e centro-americano, sobretudo, mas também bocadinhos de espanhol sul-americano. Como faz quem traduza, por exemplo, para português? Mistura na tradução português europeu e português americano, conforme traduza expressões de espanhol europeu ou de espanhol americano? É uma possibilidade, provavelmente menos emprobrecedora do que outra qualquer…, mas haverá tradutor disposto a fazê-lo – e capaz de o fazer de forma competente, convincente?

O melhor, acho eu, é ler 2666 em castelhano. Aliás, ler em castelhano os livros originalmente escritos nessa língua é o que deviam fazer todos os falantes do português. Ou talvez não, não sei… Mas é uma aventura que eu recomendo – mesmo a quem não conheça esse idioma!...