Quando faço uma viagem longa como esta, quero ter o menos bagagem possível, e, como escolhi criteriosamente tudo aquilo que havia de me fazer falta, decidi que não comprava nada durante a viagem. Mas é uma decisão às vezes difícil de respeitar, sobretudo quando o objeto que nos seduz pesa apenas uns gramas e custa meio euro…
Era ao Almanaque de Bristol que me referia. Esclarece a Wikipédia em espanhol (traduzo eu):
O Almanaque de Bristol, cujo nome completo é Almanaque pitoresco de Bristol, é una publicação da empresa Lanman & Kemp-Barclay & Co. Inc., de Nova Jérsei, EUA, para promover os seus produtos de saboaria e perfumaria. É publicado ininterruptamente desde 1832, sendo muito popular desde princípios do século XX nos países da América Latina, para os quais a empresa faz edições nacionais ou regionais.
Sabões e perfumes! Nunca me teria passado pela cabeça. Interessantes estratégias de publicidade que havia antigamente. Diz também a Wikipédia que o Almanaque é, por isso, gratuito, mas que também se vende às vezes por preços muito baixos — o tal meio euro que paguei…
A página da Wikipédia tem ainda (não há enciclopédia como esta!) uma secção «O almanaque e a literatura», com informação fascinante:
Devido à sua popularidade, o almanaque de Bristol é mencionado por destacados escritores hispano-americanos como parte do quotidiano ou como referência e fonte de consulta comum de personagens de novelas e contos, como é o caso de Gabriel García Márquez nas novelas A revoada e O amor nos tempos de cólera, e nas suas memórias Viver para contá-la. Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares também o mencionam na sua obra conjunta publicada com o pseudónimo H. Bustos Domecq Seis problemas para Dom Isidro Parodi, e o mesmo fazem Miguel Ángel Asturias em Mulata de tal e o escritor salvadorenho Napoleón Rodríguez Ruiz na sua novela costumbrista Jaraguá.
Não me surpreende nada que Borges e Bioy Casares refiram o Bristol. E o parágrafo citado da Wikipédia quase podia também, sem a referência a García Márquez, ser um parágrafo de um conto de Borges… O mais interessante, porém, é o parágrafo seguinte:
O historiador e ensaísta colombiano Germán Arciniegas assinalou que o Almanaque de Bristol teve nele uma profunda influência e diz:
«A minha curiosidade literária, como a de quase todos os da minha geração, não nasceu de me ter ido parar às mãos nem Homero, nem Cervantes, nem Virgílio, mas sim o Almanaque de Bristol.»
O link para a fonte da citação está morto, mesmo no Wayback Machine, mas não duvido de que Arciniegas tenha dito a frase. Mas, se não, façamos de conta que é uma fantástica citação borgiana…
O Bristol é quase igual ao Borda d’Água, o mítico almanaque português, só que este último, se bem que quase centenário, é quase 100 anos mais novo que o almanaque americano: o Borda d’Água é publicado pela Minerva desde 1926.Quando vivia em Portugal, comprava todos os anos o Borda d’Água, não sei bem porquê nem para quê… Uma das coisas que me seduzia era o nome. Borda d’Água é um nome muito bonito, com o aquele apóstrofe, B, D´D e G sonoros, o Ó e Á tónicos, tudo muito harmonioso... Quem terá inventado esse nome? Soa misterioso, não soa? Significará algo que eu desconheço? Ou é mesmo só orla, fímbria, litoral? Chama-se assim porque traz as marés? Outro aspeto atraente é o grafismo, que é desusado. Histórico, se se preferir: há coisas que nunca mudam, como os movimentos dos astros e a sequência das estações e dos anos.
O Borda d’Água traz o mesmo que o Bristol, tirando os anúncios de sabões e perfumes: signos e horóscopos, calendário com feriados, festas e santos dos dias, nasceres do sol e ocasos, marés, fases da lua, datas de nascimento de pessoas célebres, início das estações do ano, eclipses… Deve ser o que trazem todos os almanaques. Mas o Borda d’Água traz conselho para a agricultura, a jardinagem e os animais, que o Bristol não traz; e o Bristol tem recomendações para a pesca e duas páginas sobre cuidados e ter com a água, que o Borda d’Água não tem. Mas como, se ele é que é Borda d’Água? E o Bristol tem uma historieta moral em oito quadros, um texto sobre inteligência artificial (!) e uma página de «frases célebres». Uma dessas frases é atribuída a uma «edição imaginária» do próprio Almanaque de Bristol, outra a uma sua «edição profética» e outra ainda a um «poeta das estrelas». Estas atribuições também são algo borgianas, ao contrário das frases atribuídas, que são demasiado desinteressantes para eu aqui as transcrever. O Borda d’Água também tem aforismos, mas de autores desconhecidos, os chamados provérbios populares — um para cada mês do ano: «Junho floreiro, paraíso verdadeiro»...
Não é só o grafismo que é doutros tempos, também a informação: já ninguém quer saber dos santos de cada dia, nem de feiras anuais… E, se houver ainda quem queira informação sobre marés, estações e equinócios, ou seja lá o que for, aliás, tem outras maneiras, mais rápidas e mais acessíveis, de a encontrar. Sem o papel finíssimo e o homem de cartola na capa. Se é pena ou não julgará o sentir de cada um, que ser pena, aqui, não é julgamento da razão.


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