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08/06/26

Da arrenegação das duplas negativas, uma coisa que agora há


Já uma vez aqui o disse, mas quero agora insistir e desenvolver: essa moda que há agora de defender que as frases negativas só podem ter uma palavra negativa (não, nada, nenhum(ns)/a/as) é simplesmente  sem muitos pés nem muita cabeça. Ao contrário do que pretendem alguns (realço com negrito todas as palavras negativas),

Não fiz nada

não quer dizer «fiz tudo» e a forma correta de negar toda a atividade não é nem

− *Não fiz alguma coisa

que soa a barbarismo, nem

Não fiz tudo,

que obviamente significa outra coisa.

Ao contrário do que pretendem outros

− *Vi nada ou 

− *Conheço aqui ninguém

são simplesmente frases mal construídas. 

Falar e escrever assim é um erro. E não é erro no sentido em que muita gente usa a palavra de «não conforme com a norma culta», até porque eu não escrevo textos a criticar esse tipo de «erros». É erro no verdadeiro sentido da palavra: essa construção não existe em nenhuma variante, seja ela regional ou social, da língua portuguesa; a não ser, claro está, nos últimos tempos, depois de se ter começado a espalhar a ideia estapafúrdia de que a dupla negativa é erro. Começa-se, aliás, a ver essas construções em textos de pessoas que até escrevem bem — o que é bastante interessante, para refletir sobre como se espalham estes fenómenos de pretensa correção... 

O argumento usado para defender estas construções estranhas ao português é pretensamente lógico: duas negações cancelam-se mutuamente, portanto de duas negativas resulta uma positiva: 

− Não vi nada

significaria, assim, «vi alguma coisa» e

Não conheço ninguém

significaria «conheço alguém». Este argumento «lógico» é falacioso, como explicarei mais à frente, e o que eu creio que está por trás dessa recente tomada de consciência de, ai!, uma tão grande falha de lógica! é antes do inglês, cuja norma culta não aceita duplas negativas. 

Em inglês padrão (e noutras línguas germânicas) não é obrigatório um termo negativo antes do verbo em frases negativas e usam-se determinantes, pronomes e advérbios específicos depois do verbo, consoante se tenha ou não usado a partícula de negação antes. Assim, segundo essa norma  

I didn’t see nothing (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi nada»)

é errado, devendo antes dizer-se

I didn’t see anything (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi qualquer coisa») ou 

I saw nothing (palavra a palavra: «Eu vi nada»)[1]

Mas não é o inglês que aqui me interessa, é antes a maneira como se pretende aplicar esta norma ao português. Algumas pessoas, sem grande ideia de como diferentes línguas podem funcionar de diversas maneiras, consideram que a língua deve obedecer ao que eles consideram lógica — algo de que a norma culta do inglês seria bom exemplo — concluindo que as línguas latinas devem seguir o mesmo modelo. 

Vejamos então a questão da lógica. Não se pode dizer que as línguas naturais não sejam lógicas, mas a lógica das línguas é diferente da lógica matemática e de outros tipos de lógica. Essa diferença pode ilustrar-se com exemplos simples e, como não me quero alargar muito sobre o tema, deixo-vos um dos mais óbvios: existem na língua muitas aparentes tautologias, que têm, na realidade, um significado bem diferente de x=x — embora nem sempre seja fácil, mesmo para os especialistas, explicar esse significado. Todos os falantes do português intuem que uma frase como «essa é que é essa» quer dizer algo, mas como descrever o que significa? O mesmo se passa com «um homem é um homem» ou «Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque» ou a famosa frase «um gato é um gato, um cão é um cão, xxxxx é aquilo que os outros não são» (perdoem os xx, mas não quero fazer aqui publicidade...). Uma transcrição desta última proposição que fosse feita hipoteticamente por quem diz que duas negativas dão forçosamente uma positiva poderia ser x=-(-x), o que evidentemente não é de modo nenhum o que a frase diz, até porque, se o dissesse, não seria usada em publicidade...[2] 

Enfim, haveria uma número muito grande de exemplos a dar e muito mais a dizer sobre estas coisas, que são muito interessantes, mas não é essa a intenção do texto. O que eu quero é deixar claro que a lógica da língua não é imediatamente acessível a quem atribua simplesmente um valor determinado a cada forma linguística, em vez de se dotar de instrumentos eficazes para descrever o que se passa de facto quando criamos significado.

Além disso, mesmo para quem insista na lógica matemática, poder-se-ia argumentar, como eu já ouvi a alguém, que as línguas de concordância negativa também têm uma lógica matemática, só que, em vez de ser a da multiplicação, como as línguas germânicas, é a da adição: em inglês é menos por menos dá mais, em português é menos mais menos dá menos. Está bem assim? 

Mas passemos à negativa e à negação. As diversas línguas têm várias maneiras de construir frases negativas. Há línguas em que é obrigatória uma negativa antes do verbo e outras em que não, línguas em que a negativa ocorre quase sempre depois do verbo, outras em que é expressa por uma forma flexional no verbo, etc. Não há nenhuma mais ou menos lógica que outras, todas servem para exprimir as mesmas proposições[3]

Há, pois, línguas em que, como já vimos, a dupla negativa cancela a negação, usando-se geralmente, neste caso, palavras não negativas como objetos do verbo ou com os objetos do verbo, quando este é negado. Estão neste caso, para referir apenas as línguas mais próximas da nossa, a variante padrão do inglês e a maioria das línguas do mesmo grupo, as chamadas línguas germânicas, como o alemão, o neerlandês, o dinamarquês, etc. 

Há outras línguas em que, nas negativas, uma palavra negativa pré-verbal convoca outras palavras negativas também após o verbo: o que se designa como concordância negativa ou negativa enfática. O português é uma das línguas em que se observa este fenómeno (e não há razão nenhuma para deixar de o ser, sim?).

Não quero dar-vos aqui uma lista extensiva das línguas com concordância negativa, até porque não quero dar exemplos em africâner ou farsi, mas podemos ficar-nos pelas línguas mais próximas e mais fáceis de compreender. As línguas latinas têm, em geral, esta característica[4], de maneira que, em castelhano, catalão e italiano tudo funciona como em português. O francês oral moderno é diferente, porque, como desapareceu a partícula ne, não tem obrigatoriedade de negativas antes do verbo, mas o francês padrão escrito (ou falado em situações formais) faz também parte deste grupo. 

Assim, as frases

Não vi nada. Não conheço aqui ninguém 

dizem-se, nestas línguas,

No he visto/ví nada. No conozco aquí a nadie,

No vaig veure res. No conec ningú aquí e

Non ho visto niente/nulla. Non conosco nessuno qui.

Em francês oral, é diferente (J’ai rien vu. Je connais personne ici), mas, em francês escrito, a estrutura é a mesma que nas outras línguas românicas:

Je n’ai rien vu. Je ne connais personne ici.

E porque é assim nas línguas latinas? Era já assim em latim? Não. Em geral, em latim clássico, as duplas negações resultavam numa afirmação, embora haja alguns escritores clássicos que usassem duplas negativas (Plauto: Iura te non nociturum esse homini de hac re nemini, «Jura que não farás, por isto, mal a ninguém.»). 

É interessante constatar que muitas das palavras negativas usadas hoje nas línguas latinas não são as palavras negativas latinas (nemo, nullus, nihil...) e nem sequer são, na origem, palavras negativas. Em português e castelhano, por exemplo, nada vem de [re(s)] nata, «[coisa] nascida»; nadie, «ninguém», em castelhano, vem de nati, «nascidos»; rien, em francês, res, em catalão, e ren, em galego, «nada» vêm de diferentes declinações de rēs, «coisa»; personne, «ninguém», em francês, vem de persona, «pessoa», aucun vem de aliquī unus, «alguém, qualquer pessoa, algo, qualquer coisa», pas vem de pas, «passo», etc. Seria abuso, porém, considerar que a dupla negativa é apenas uma forma cristalizada de palavras originalmente não negativas («não vi nada = não vi coisa nascida [coisa existente]»), porque algumas das palavras negativas, como ninguém em português e nunca em português e castelhano, são negativas à partida. Além disso, uma palavra como nada já não tem hoje, nenhum significado não negativo.

O único caso em português que não é originalmente uma dupla negativa e que se pode considerar inalterado desde há muito tempo é o de nenhum/ns (a/as), que é de facto sempre substituível pela expressão que llhe dá origem, nem um/ns(a/as)e que há até quem (muito poucas pessoas, eu sei, mas conheci algumas) continue a pronunciar exatamente como nem um

Mas, enfim, a verdade é que não é necessário saber porque é que um fenómeno linguístico é como é para constatar que ele existe. E a dupla negativa é um facto inegável nas línguas latinas desde sempre.

Agora, a minha experiência é que, em geral, é difícil argumentar com pessoas que defendem a estranha ideia que aqui critico, porque não se interessam muito por questões de língua, apenas por impor uma regra que decidiram adotar, vá lá saber-se porquê – até porque ela não figura em nenhuma gramática normativa que eu conheça. Contra essa tão rígida convicção, mesmo a apresentação de abonações de escritores considerados modelares no uso do idioma pode ser infrutífera. Uma vez, quando, após uma busca de poucos minutos, apresentei abonações de duplas negativas por Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão e Luís de Camões, o meu interlocutor rejeitou-as como erros dos escritores. 

Mas, como se trata aqui de insistir, agora, em dois ou três minutos, encontro, nas Viagens na minha terra, de Almeida Garrett,

«O meu novelo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.»

«Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso círio que lá foi fazer a monarquia.»

« … porque Addison não põe nada acima da modéstia»

«… depois desta desgraça não me importa já nada»

« Mas não viu nada: o nobre Marquês sempre soube esconder o seu jogo.»

N’Os Maias, de Eça de Queirós, encontro imediatamente

«Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquela alma meio adormecida e passiva»

«– Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada... Não tem prenda nenhuma

«– O Sr. Baptista não tem gosto nenhum

«Não inspira nenhum respeito pela minha ciência.»

«Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum

− Então não lhe digam nada – gritou o marquês.»

E podia continuar com muitos mais citações destas duas obras e de todas as obras de todos os grandes escritores da língua portuguesa, porque, neste tipo de frases, a dupla negativa é tudo o que há — fora talvez de certas liberdades poéticas que eu não me lembro de ter alguma vez encontrado... Continuo a pedir a quem critique a dupla negativa que me apresente abonações do uso que consideram correto por bons utentes da língua. Até hoje, nunca ninguém me mostrou nem uma frase que fosse (ena, tantas negativas!) de um grande escritor que tivesse escrito algo do estilo de 

– *Uma pessoa não aprende alguma coisa ou

– *Uma pessoa aprende nada,

em vez de 

– Uma pessoa não aprende nada

Já agora — mas porque insistes tu, Vítor, porque insistes tu? — note-se que «uma pessoa não aprende alguma coisa» até é uma frase possível, num contexto como

– Se aprendi alguma coisa com a minha professora? Ora, com uma professora como ela, uma pessoa não aprende alguma coisa, uma pessoa aprende tudo o que há para aprender!.

Da mesma forma, «uma pessoa aprende nada» também é possível, num contexto bastante Zen como

– Com a paragem do diálogo interno, uma pessoa aprende nada, aprende vazio, aprende essência sem substância, a comunhão com o Todo pela anulação da Mente...

Não há nada impossível. Se for mesmo isto que se quer dizer...

E a propósito, nesta frase do parágrafo anterior,

Nãonada impossível

pela tal lógica matemática, deve cortar-se não e im-, que se anulam, e escrever

– Há nada possível?

E já agora, mais algumas perguntas aos detratores da concordância negativa:

– Mais do que nunca, sinto-me incapaz de não dizer senão a verdade

é uma frase negativa ou positiva? Eliminando a concordância negativa, como ficaria? E

Não haverá nunca ninguém que não deixe de se pronunciar sobre coisas de que, por não ter pensado nelas o suficiente, não sabe que chegue para não dizer disparates?

Não duvido que haja quem não tenha nunca pensado no que eu o escrevo, senão não o escrevia ?

Na frase

Não creio que ela saiba nada de negativas,

aceita-se a concordância negativa porque o escopo das negativas é diferente nos dois casos (eu não creio e ela não sabe)? E, se não se aceitar, qual é a lógica disso, se só há uma negativa para cada verbo?

– Se escrevermos as palavras «absolutamente nada» de trás para a frente, obtemos «adan etnematulosba», o que não significa absolutamente nada.  

Como se escreve esta frase com a norma de eliminação da concordância negativa? 

Esta última era a brincar, embora fosse a brincar a sério. Deixei-me levar, não liguem. E notem, porém, que não sou radical ao ponto de recusar construções como (é o que faz o Dicionário Huaiss

– Embora ferida, não recebeu qualquer ajuda da polícia

considerando que, em bom português, tem de se escrever

– Embora ferida, não recebeu nenhuma ajuda da polícia

e nem sequer recuso frases como 

Não estou de forma alguma disposto a pactuar nesta questão

que alguns puristas consideram galicismo, achando que, em português correto, se deve dizer e escrever

Não estou de forma nenhuma (ou nenhuma forma) disposto a pactuar nesta questão

Acho que são construções perfeitamente consagradas pelo uso, ao contrário das que aqui recuso.


Por fim, mais como digressão que conclusão, uma perspetiva diacrónica: naturalmente, a maneira como as línguas exprimem a negativa vai também evoluindo ao longo do tempo. E fá-lo segundo determinados padrões que resultam da diminuição da intensidade articulatória das partículas de negação ao longo dos tempos ou da criação de formas enfáticas de negação que acabam por se tornar as formas standards. Esta proposta de evolução cíclica, mais conhecida na versão do linguista dinamarquês Otto Jespersen, assenta na constatação de uma sucessão de fases que se observa em muitas línguas: 

(I) partícula negativa seguida de verbo; 

(II) partícula negativa seguida de verbo e de segunda partícula negativa; e 

(III) verbo seguido de partícula negativa. 

Roy Bualuan faz aqui (infelizmente só em inglês) um excelente resumo deste «ciclo de Jespersen». 

Quase todas as variantes do português estão atualmente na fase (I), com eventuais construções do tipo (II) para ênfase, como

– Ele não come nada, é um pisco

que não significa que a pessoa em questão não ingere alimentos em absoluto, senão já estaria morto, mas entende-se antes como «ele come muito pouco».

A fase (II) observa-se em variantes brasileiras com o redobro do não após o verbo, como em

Não sei não,

além de cadeias de concordância negativa, claro;

E, embora com menos frequência, observam-se também construções da fase (III), com um único não posposto ao verbo em variantes não-standard brasileiras:

– Dona Rute, aqui na rua? Conheço não, amigo

E, por agora, não tenho mais nada a dizer. 

_________________   

[1] Note-se que, embora não sejam termos negativos, any, anyone, anything, etc., não são termos positivos como o são some, someone, something, e não se usam apenas no escopo de um verbo negado, mas também no escopo de certos verbos não negados como em «he doubted he had seen anyone» — e não «he doubted he had seen someone»  *«I did’t see something» é tão agramatical como a frase que diretamente lhe corresponde em português, *«Eu não vi alguma coisa».

[2] Vejamos então, seguindo um raciocínio lógico, o que se passa quando digo, por exemplo, que

− A minha cadela está farta de saber que não pode trazer os ossos que lhe dou no quintal para dentro de casa, mas insiste, insiste, insiste sempre — não sei para quê, porque eu ponho sempre os ossos lá fora outra vez…

e a minha interlocutora comenta

− O que é que querias? Um cão é um cão, pá!

O que acontece é que uma mesma palavra pode significar várias coisas, por exemplo, referir um ser do mundo real ou a classe de todos os seres do mesmo tipo ou as características que o falante atribui a esse tipo de ser. O que a minha interlocutora diz, obviamente, é que «uma característica da espécie que não pode deixar de se aplicar ao teu cão é querer guardar os ossos no seu território e contra isso não há nada a fazer». As duas ocorrências da palavra cão têm, na sua resposta, significados diferentes.

[3] Há quem considere também que há dupla negativa nas frases em que um dos elementos da predicação nega a negação da predicação, como em «isto não está incompleto», em que «incompleto» significa «não completo». Creio que, neste aspeto, todas as línguas funcionam da mesma forma. Neste caso, há dupla negação, o que resulta numa afirmação, mas é duvidoso que haja dupla negativa em sentido estrito. Se admitirmos que «incompleto» é «não completo» e que, por isso, há duas negações na frase, como muitas palavras têm antónimos, mais ou menos perfeitos e mais ou menos graduáveis,  teremos de admitir que há dupla negativa em (i) frases como «esta folhagem não é caduca» ou «ele não está morto» (mas como se determina qual é o valor não negado em pares de adjetivos como «caduco» e «perene» ou «morto» e «vivo»?); (ii) em frases como «ele não é imberbe», por muito que «berbe» não exista; e (iii) em frases sinónimas da frase com a pretensa dupla negativa, por exemplo «isto não está por terminar» em vez de «isto não está incompleto» — e acho que ninguém o faz…

[4] Há até línguas em que tradicionalmente se usam,  sobretudo no discurso mais formal, duas negativas antes do verbo em contextos específicos:

Nada é gratuito, tudo tem um preço e ninguém pode negar que me esforcei

diz-se, em catalão e francês, respetivamente,

Res és gratuït, tot té un preu i ningú pot negar que m’hi he esforçat e

Rien est gratuit, tout a un pri et personne peut nier que j’ai fait un effort,

mas também se pode dizer e escrever (alguns puristas dirão que se deve...) 

Res no és gratuït, tot té un preu. Ningú no pot negar que m’hi he esforçat e

Rien n’est gratuit, tout a un prix. Personne ne peut nier que j’ai fait un effort

O mesmo fenómeno existia em português medieval, em que se documentam frases como «nehūu scapou nen nehūa cousa que na vyla ouvesse» e também em inglês médio (Chaucer: «He nevere yet no vileynye ne sayde», palavra a palavra: «Ele nunca [ainda] nenhuma vilania não disse»).  

Observa-se, curiosamente, uma construção parecida no português de Moçambique, que, não sendo ainda considerada standard, talvez se venham a fixar: em frases iniciadas com nem, com o sentido de «nem sequer», coloca-se um segundo não antes do verbo: «nem dinheiro para o chapa não tenho». 



09/02/24

Phrasal verbs, uma coisa inglesa (?)

 

[Este texto não faz sentido para quem não tenha conhecimentos mínimos de inglês, posto que é, precisamente, sobre algum vocabulário dessa língua. Ponho, no entanto, os significados em português das várias expressões e frases, para o caso de o leitor não as conhecer todas.]

Dizia-me há pouco tempo um amigo que uma das coisas que achava mais difíceis em inglês — e que acreditava ser uma das riquezas da língua — eram os chamados phrasal verbs, as combinações de verbos com preposições ou advérbios cujo significado não se pode deduzir do significado dos elementos que as compõem, como put out («apagar», «incomodar», «disponibilizar», «editar», «emitir», «produzir» e mais), put up with («suportar», «aguentar», «aturar») ou put off («adiar», «desencorajar», «desagradar» e mais) — que não se podem deduzir do significado de put, que basicamente significa «pôr». Mas serão os phrasal verbs algo assim tão especial e algo tão idiossincraticamente inglês?  

Quero notar, antes de mais, que phrasal verbs é uma designação muito típica da tradição de ensino de inglês como língua segunda e não tanto da literatura científica, embora haja trabalhos de linguística que abordem o conceito. O dicionário Cambridge define phrasal verb como «um sintagma composto por um verbo com uma preposição ou advérbio ou ambos, cujo significado é diferente do significado das partes separadamente» e dá como exemplos pay for[1] («pagar (por)»), work out («calcular», «resolver», «elaborar», «esgotar», «fazer exercício» e mais) e make up («inventar», «formar», «constituir», «maquilhar», «recuperar», «fazer as pazes» e mais). 

Na secção de gramática que se segue à definição, no entanto, o Cambridge desdiz-se e explica mais em pormenor que (como na sua própria definição acima) a designação se usa muitas vezes para três tipos diferentes de «verbos polilexicais», mas que, com rigor, apenas devia referir um desses tipos, os verbos polilexicais compostos de um verbo principal e uma partícula adverbial, as mais comuns das quais são around, away, down, in, off, on, out, over, round e up[2]. Os verbos preposicionais que selecionam obrigatoriamente uma preposição que os ligue a um objeto não seriam, pois, phrasal verbs em sentido estrito[3]. Exemplos destes «falsos» phrasal verbs são (verbos a itálico e negrito; preposições a itálico e negrito e sublinhadas; e objetos só em itálico) break into (a house), «assaltar (uma casa)»; cope with (a difficult situation), «enfrentar/lidar com (uma situação difícil)»; deal with (a problem), «lidar com (um problema)»; depend on, «depender de», do without, «passar sem», look after (a child), «tomar conta de (uma criança»); look at, «olhar para», look for, «procurar»; look forward to, «ansiar por, aguardar com expetativa», etc. Nestes casos, a preposição vem forçosamente antes do objeto e nunca depois. Tem de se dizer 

Could you look after my bag while I go and buy the tickets? («Pode tomar-me conta da mala enquanto eu vou ali comprar os bilhetes?»)

e nunca

*Could you look my bag after …,

ao passo que os «verdadeiros» phrasal verbs podem ter ou não um objeto e a partícula não verbal do verbo polilexical pode vir antes ou depois do objeto[3]. Eis alguns exemplos, também do Dicionário Cambridge:

She brought up three kids all alone («Criou três filhos sozinha») 

ou 

I brought my children up to be polite («Ensinei os meus filhos a serem bem-educados»).

Normalmente, quando o objeto é longo, vem depois da partícula não verbal:

Many couples do not want to take on the responsibility of bringing up a large family of three or four children. («Muitos casais não querem assumir a responsabilidade de criar uma grande família de três ou quatro filhos»)

Há outras propostas que, seguindo esta ideia, dão definições mais completas e mais restritas de phrasal verb, algumas delas tão completas e tão restritas que excluem da definição uma grande parte das expressões verbais que costumam figurar nas listas comuns destas expressões[4]. A questão não é, pois, nada simples e não tenho vontade nem competência para a desenvolver aqui. Muitas listas de phrasal verbs que por aí circulam, porém, misturam os legítimos e os bastardos sem grande problema — e aceitemos que está muito bem assim…

Agora, o que me parece interessante nas definições mais rigorosas aqui referidas é que são essencialmente morfossintáticas e não semânticas — exceto a definição inicial de que o significado de um phrasal verb «é diferente do significado das partes separadamente». Esta questão interessa-me e quero analisá-la aqui um pouco mais em pormenor, até porque muitos dos exemplos que o Cambridge dá de phrasal verbs não encaixam bem nesta definição. 

Antes de mais quero constatar que o significado de muitos phrasal verbs em sentido estrito decorre muito diretamente do significado do verbo ou do verbo e da preposição ou advérbio que o constitui — mesmo quando isso não possibilita que se os compreenda sem os ter aprendido antes. Mas mesmo esta compreensão é muitas vezes possível. É certo que give up não decorre do sentido de give nem de up, que make out não decorre de make nem de out, mas come out, em qualquer um dos seus sentidos, decorre dos significados de come e de out. O mesmo em relação a go ahead, go after (something), go against (somebody), por exemplo. Take off, no sentido de «despir» decorre também muito naturalmente dos significados dos dois constituintes da expressão – e até no sentido de «descolar» se pode ver uma relação clara do significado da expressão com o significado dos seus elementos constitutivos. Também é duvidoso que o significado de break down, tanto na aceção de «avariar-se» como na aceção de «decompor(-se)», não se possa deduzir do significado dos seus elementos. Na expressão look forward to, embora não se possa deduzir o seu significado dos constituintes, como a definição acima apresentada prescreve, pode claramente ver-se como o seu significado se forma a partir dos seus constituintes. E há muitos mais exemplos. 

A questão é também, obviamente, definir o significado de maneira suficientemente abstrata. Os phrasal verbs nasceram muito provavelmente de um significado inicial abstrato dos elementos que os compõem. Isto, aplica-se, aliás, a todos os sentidos «desviantes» de qualquer verbo: uma definição de comer como «ingerir alimentos sólidos» não explica os muitos usos da palavra, mas uma definição mais abstrata como «ser recipiente de» já pode explicar alguns deles. Se se usar antes uma ideia ainda mais abstrata de incorporação, que implique a posse daquilo de que se é recipiente, mais significados podem ainda ser explicados. Mas isto também não é questão que queira tratar de passagem aqui no meio de um texto sobre phrasal verbs… Voltemos a estes.

Muitas vezes, as partículas não verbais dos phrasal verbs parecem funcionar como marcadores de aspeto e modo de processo: não é o significado que muda, é a «temporalidade» (em sentido lato) que se altera[5]. Alguns deles, sobretudo muitos com up, marcam uma conclusão da ação (perfetividade) e outros, com on, marcam a sua continuação (imperfetividade). Poder-se-ia até argumentar que, em certas situações, certas posposições/advérbios parecem funcionar antes como partícula aspetuais/temporais independentes, livres de se aplicar a certos verbos: como se diz go on ou move on, «continuar, prosseguir»,  também se pode construir livremente jam on, «continuar a improvisar [música]» ou dream on, «continuar a sonhar» e muito mais seguindo este modelo.  Também a partícula around pode ser uma marca iterativa que parece ser independente, usando-se para significar que a ação se repete muitas vezes, normalmente com muitas pessoas, como em call around, «telefonar a um grupo de amigos, clientes, etc., (conforme a situação)», ou sleep around, «ir para a cama com muita gente». É certo que estas palavras não se podem usar livremente com todos os verbos e haveria que definir com rigor quando podem ser usadas desta forma, mas isso é trabalho para especialistas da língua inglesa — uma coisa que eu não sou. 

Até agora, falei só do inglês. Mas é importante notar que, com algumas diferenças estruturais e sem um nome específico, existem também phrasal verbs nas outras línguas germânicas. O dinamarquês, que é a única destas línguas que conheço bem, tem muitos, provavelmente mais que o inglês. Não me vou aqui, porém, adiantar na comparação dos phrasal verbs do inglês com os do dinamarquês ou de outras línguas germânicas que a grande maioria dos leitores do blogue não conhece, por interessante que essa comparação possa ser. Mas podemos assentar nisto: por muito que normalmente só se fale de phrasal verbs quando se fala do inglês, eles estão longe de existir só nesta língua.

Nas línguas latinas, tudo é um bocado diferente. As preposições colaram-se aos verbos ainda em latim e nem nos damos conta de que apreender (e aprender), compreender, depreender e empreender[6] são, originalmente, um mesmo verbo com várias preposições, como admitir, cometer, demitirpermitir, ou consistir, desistir, existir, insistir ou persistir — e dezenas de outros casos. Note-se que o mesmo processo de formação existe nas línguas germânicas, em que a preposição se colou ao verbo que a segue. Nalguns casos, como no inglês outbargain («ficar a ganhar numa negociação ou num contrato») parecerá óbvio aos falantes da língua que se trata de bargain («negociar») antecedido de out, mas ninguém pensa em understand («compreender») como o verbo stand (preposicionado — até porque stand under tem outro significado («erguer-se, estar situado debaixo de»)  — e, evidentemente, estes verbos não são considerados phrasal verbs[7]

Feeding%20the%20multitude
«Comer fora»
James Tissot: La multiplication des pains («A multiplicação dos pães»), 1886-1896. Brooklyn Museum, daqui.
Há, porém, casos de verbos nas línguas latinas que parecem ter as mesmas características que alguns dos ditos phrasal verbs ingleses, na sua definição mais alargada e essencialmente semântica: verbo + partícula => significado não inferível dos dois elementos. Alguns têm até uma construção exatamente igual. Eat out, «comer fora», por exemplo, é igual em inglês, português, castelhano e italiano[8] e count on (something or someone), «contar com (alguma coisa ou alguém)», tem exatamente a mesma forma em francês, compter sur (quelque chose ou quelqu'un), e italiano, contare su (qualcosa ou qualcuno), e formas muito semelhantes em português e castelhano. É claro, pode considerar-se exagerado incluir verbos como eat out nas listas dos phrasal verbs, por muito que ele lá se encontre. A definição de phrasal verb é, como se viu, algo vaga, mas trata-se aqui de mais um exemplo de um verbo com um advérbio cujo sentido decorre bastante diretamente do sentido individual dos elementos que o compõem. É certo que eat out não se refere normalmente a jantar no quintal ou na rua (embora em certas situações até possa referir isso, situações em que, presumo, os dois elementos não são já considerados um phrasal verb…), mas é de comer fora do espaço definido como seu ou como habitual. Se considerarmos eat out um phrasal verb, então comer fora também o é. 

Mas há outros casos mais curiosos, a que parece poder aplicar-se uma definição mais restrita de phrasal verb — desde que não se a limite à presença de um advérbio: correr com («expulsar»), estar para («ter vontade de»), levar com («ser atingido por; ser alvo/vítima de; ter de aturar, aguentar»), olhar por («vigiar, tomar conta de»), passar por («ser tomado por»), poder com («conseguir levantar ou transportar» ou, na negativa, «aguantar»), sair a («herdar características dos progenitores»), para dar alguns exemplos óbvios, mas há mais.   Vejamos o caso de dar, que é, creio, o mais prolífico em português. Assim, (ir/vir) dar a é «conduzir a», dar com é «encontrar, descobrir», dar em é «tornar-se» (restrito a predicações de caráter negativo), dar para pode significar «servir para», «ser suficiente para» ou «ser possível», dar + dativo + com pode significar muitas coisas desde «bater» (deu-lhe com um pau) a «ingerir» (dei-lhe com uma bela feijoada), dar + dativo + para indica o surgimento de uma vontade, estado de espírito ou hábito e dar por significa «notar, aperceber-se de» ou «considerar». 

Mas, mesmo que nos atenhamos à definição restrita de phrasal verb com uma partícula adverbial, ainda somos capazes de encontrar casos em português, além do já referido comer fora: por exemplo (mas há mais), deitar/mandar abaixo, «derrubar» ou «dizer mal de»; ir atrás de, «acreditar em alguém; obedecer a alguém», andar atrás de, «tentar seduzir»; ficar atrás de, «ser de qualidade inferior»; andar em cima de, «vigiar de perto» ou «perseguir, controlar insistente e abusivamente», estar/ficar por dentro, «ficar a saber/saber de algo»; ir dentro, «ser preso», botar/deitar/mandar fora, «desfazer-se de», ir/chegar longe, «ter sucesso»; e ir-se abaixo, «perder forças, físicas ou psíquicas», «deixar de trabalhar (um motor)».

Conclusões? Não há. Isto era mais a gente a conversar como quem conversa à mesa do café, sem preocupações de chegar a algo de muito definitivo… A não ser que os tais phrasal verbs ingleses não parecem ser, afinal, nada de tão idiossincrático como os querem, às vezes, fazer parecer…

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Eis um link para uma lista abrangente de phrasal verbs, uma das muitas que se encontram na Internet.: 

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[1] Se vos parece estranho que pay for seja exemplo de phrasal verb, agradar-vos-á saber que pay for não faz parte da lista de phrasal verbs da entrada pay do dicionário Cambridge. Note-se que a minha intenção não é de modo algum apontar as incoerências deste dicionário, que escolhi ao acaso, mas antes apontar as naturais incoerências de um conceito vago como phrasal verb

[2] A categoria advérbio é difícil de definir. De facto, não conheço nenhuma definição abrangente, a não ser talvez «palavra invariável que não introduza um sintagma» e, mesmo essa, é pouco clara. Alguns dos advérbios que formam phrasal verbs têm as mesma forma que preposições: around, away, down, in, off, on, out, over, round e up (embora a designação de down, off e up como preposições seja muito discutível). 

Outra questão é como definir verbos polilexicais. Se se considerar polilexical um verbo quando seleciona como complemento um sintagma preposicional, o mundo está cheio de verbos polilexicais… Por exemplo: olhar, ao contrário de ver, seleciona sempre um complemento introduzido por uma preposição — embora às vezes ele não seja expresso. Há alguma diferença fundamental das sequências look after a bag e look at a bag, por exemplo, relativamente às sequências correspondentes em português, olhar por uma mala e olhar para uma mala? Devem considerar-se look at/olhar para e look after/olhar por verbos polilexicais? 

[3] Quando o objeto é pronominalizado, porém, vem sempre depois do verbo e antes da preposição/advérbio.

I’ve made some copies. Would you like me to hand them out? («Tirei cópias. Quer que as distribua?»)

e não 

*Would you like me to hand out them?

[4] Numa tese de mestrado de 2004, em que analisa os phrasal verbs em inglês, dinamarquês e alemão, Elisabeth Ingeborg Kaalund lista «as características definidoras de um phrasal verb que se aplicam aos três idiomas», que incluem, entre outras, a possibilidade de nominalização, de passivização e de mobilidade da partícula adverbial, podendo esta ser colocada à direita do verbo (uma questão também referida, como indiquei, na definição mais estrita do dicionário Cambridge). É uma definição de muito maior rigor e que reduz muito o número de phrasal verbs. Redu-lo tanto que, segundo esta definição, algumas combinações normalmente consideradas phrasal verbs não o seriam de facto. 

Vejamos a questão da nominalização. Se analisarmos alguns exemplos de phrasal verbs referidos neste texto, é certo que de bring up se pode fazer upbringing e de put out se pode fazer output apenas num dos muitos sentidos da expressão, tal como make-up só se refere a maquilhagem e nunca a invenção. De make up não se faz *upmaking, nem de take on se faz *ontaking (embora existam intake e outtake). 

Além disso, a possibilidade de passivização não parece ser um bom teste do facto de o phrasal verb ter as mesmas propriedades que um verbo simples, pelo menos em inglês: há verbos, como look after, que embora não sendo, como vimos, «verdadeiros» phrasal verbs, admitem passivização (frase daqui): 

There are a number of reasons why a child may be looked after by the local authority. 

A tese de Kaalund pode ser consultada em linha: Kaalund, E. I. (2004). Phrasal Verbs in English: a comparison with German and Danish. [Candidatus, Copenhagen Business School].   

[5] Uma vez, li num fórum da internet um comentário de alguém que considerava que os chamados prefixos aspetuais das línguas eslavas eram como alguns phrasal verbs. Para explicar de uma forma muito simplificada o que são estes prefixos, dou-vos um exemplo do russo: há dois verbos  читать e прочитать, pronunciados [tchitat] e [pratchitat], para dizer «ler» (muitas vezes, trata-se da mesma forma sem prefixo e com prefixo, como neste exemplo, mas nem sempre), conforme se fale de ocorrência de leitura sem referir o seu completamento («ontem, li/estive a ler depois do jantar») ou completamente de leitura («ontem, li um texto sobre Amelia Earhart»). Ora, de facto, muitas vezes a partícula up do inglês funciona como uma marca de perfectividade, ou seja, completamento: he didn’t eat entende-se como «ele não comeu», ao passo que he didn’t eat up não significa que não tenha comido, mas que não acabou de comer.

[6] Em surpreender, o sur- é o sobre francês, língua de que nos vem a palavra. 

[7] Em dinamarquês, embora um verbo com uma preposição fixa muitas vezes signifique uma coisa completamente diferente do mesmo verbo com uma posposição solta (påtage, «assumir, comprometer-se» vs  tage på, «engordar», ou opstå, «surgir» vs stå op, «levantar-se»), há também muitos verbos que podem ter uma preposição anteposta ao verbo e colada a ele ou a mesma preposição solta depois do verbo sem mudar de significado: underskrive ou skrive under significam ambos «assinar», medtage ou tage med signficam ambos «levar», etc. — podia aqui dar muitos mais exemplos. O único caso de que agora me consigo lembrar nas línguas latinas é o de sobrevoar em português (ou de survoler em francês, igual), que também pode ocorrer como voar sobre

Estamos a sobrevoar Paris 

ou

Estamos a voar sobre Paris

significam a mesma coisa. 

[8] Já em francês não se pode dizer *manger dehors com o mesmo significado.


07/07/15

Ambiguidade e ordem das palavras


[Homonímia e ambiguidade]
Dizia-me alguém, numa discussão sobre o acordo ortográfico, que a homonímia de ato (do verbo atar) e ato (ação) podia causar ambiguidade em certas frases. Se for verdade, é preciso dar muitas voltas à cabeça para encontrar um caso em que isso possa acontecer; e eu, que até tenho jeito (gaba-te, cesto…) para descobrir este tipo de curiosidades, não consigo inventar uma frase com uma ambiguidade que resulte de uma coisa dessas. Imaginem o que seria se se confundissem de alguma forma calo e calo, coma e coma, falo e falo, mato e mato, nada e nada, rio e rio, saia e saia… e os outros milhares de casos em que há uma forma verbal e um nome com a mesma forma fonética e gráfica (é um jogo engraçado, vejam lá quantas homónimas deste tipo conseguem encontrar).

Eu diria antes que, em princípio, nunca há ambiguidade entre homónimas de categorias morfológicas diferentes – que não podem, por isso, ocorrer no mesmo contexto. Mais provável seria a ambiguidade criada por homónimas da mesma categoria ou, como é mais comum, palavras que podem referir vários entes ou objetos, ou que podem deles predicar várias qualidades, estados, atividades, etc., como corrente, mangueira, número, esperar, comer, etc. Mesmo para estas palavras, porém, é preciso dar muitas voltas à cabeça e não vejo bem, por exemplo, em que situação alguém fique na dúvida, quando ouve falar de gatos, se se trata de felinos domésticos, de enganos nas contas, de grampos, ou de pieira…

Significa isto que não existem frases ambíguas? De modo algum. É claro que existem frases ambíguas!, mas são outras as causas da verdadeira ambiguidade – ou anfibologia, como só agora descobri que também se pode chamar. A ambiguidade mais comum, estou eu em crer, resulta da maneira como se ordenam na frase certos elementos – de não se poder decidir se uma expressão modifica, por exemplo, a frase toda ou um sintagma apenas. Dou-vos um exemplo tirado de um e-mail que recebi um dia destes:
Havemos de descobrir como fazer o pagamento antes de ele começar o trabalho.
Sem mais informação, uma pessoa não sabe se a ideia é fazer o pagamento adiantado ou apenas descobrir antes do início de trabalho como será feito o pagamento (era este último significado que se queria dar à frase.)

[Posição livre e posição fixa de advérbios nas frases]
Não vos vou maçar agora com uma lista de exemplos de ambiguidades, há dezenas de páginas na Internet sobre o assunto. Quero só referir uma coisa curiosa, a propósito da posição dos advérbios e locuções adverbiais nas frases: ouvi dizer várias vezes, algumas delas a mim próprio, que, nas línguas latinas, a posição dos advérbios é livre, ao contrário do que acontece em dinamarquês (e creio que várias outras línguas germânicas, mas só conheço bem o caso do dinamarquês). Mas isto nem sempre é verdade. E nem sempre é só para resolver ambiguidades que o advérbio tem de estar, em português, numa determinada posição. É certo que, como declaração simples, tanto faz dizer Amanhã vou a Copenhaga como Vou amanhã a Copenhaga como Vou a Copenhaga amanhã, mas Sempre vou a Copenhaga nas férias é diferente de Vou sempre a Copenhaga nas férias e tanto ?Vou a Copenhaga sempre nas férias como ??Vou a Copenhaga nas férias sempre são fases muito estranhas, se não claramente agramaticais.

Como se passam as coisas nas línguas em que há uma posição fixa dos adverbiais? Não pode isso também criar ambiguidades? Quando comecei a aprender dinamarquês, achava muito estranho, por exemplo, que se fizesse obrigatoriamente a negativa de verbos de opinião e afins e nunca das suas completivas. Não se pode, por exemplo, construir uma frase com a estrutura que corresponde diretamente a Acho que ele não tem razão, tem obrigatoriamente de usar-se a estrutura correspondente a Não acho que ele tenha razão. Pode pensar-se que a questão da negativa simples é outra história, mas, se substituirmos não por nunca ou sempre, a regra continua a aplicar-se. A verdade é que, por muito que a frase Acho que ele nunca tem razão não seja, stricto sensu, o mesmo que Nunca acho que ele tenha razão, não há, na prática, diferença nenhuma entre as duas frases e há que dar algumas voltas à cabeça para encontrar uma frase em que a negativa da principal produza um sentido diferente da negativa da completiva. E o mesmo se pode dizer em relação a um advérbio como sempre: Acho sempre que ele toca bem é, na prática, o mesmo que Acho que ele toca sempre bem.

Mas é sempre assim? Bom, a frase, Acho que ele não é muito inteligente, por exemplo, é já claramente diferente de Não acho que ele seja muito inteligente, se esta última frase se usar para negar a superior inteligência de alguém sem lhe negar inteligência – que é o que se faz com a primeira frase: nega-se-lhe a inteligência, precisamente. Mais complicadas também são frases como Penso às vezes que ele é uma pessoa atormentada e Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, que são bem diferentes uma da outra, não é verdade? E então, como resolvem isto as línguas de posição fixa do advérbio? No primeiro caso, a ambiguidade desfaz-se normalmente com seleção de palavras diferentes: para negar a inteligência de alguém, dir-se-á o que, diretamente traduzido, corresponde a Acho que ele não é especialmente inteligente; e, para negar que alguém é tão inteligente como se afirma, usa-se a estrutura corresponde ao português Acho que ele não é [assim] tão inteligente; e em nenhum caso a frase com muito inteligente é bem aceite pelos falantes. No segundo caso, como se trata de desfazer realmente uma ambiguidade, aceita-se o que nos outros casos não se aceita, e pode passar-se a locução adverbial às vezes para a completiva. Como é mesmo necessário, pode dizer-se Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, com a locução adverbial na subordinada.

Tudo isto para concluir que se deve ter confiança nas línguas, porque elas desenvolvem naturalmente maneiras de evitar as ambiguidades. As ambiguidades são raras e nunca resultam de defeitos do léxico ou da sintaxe, apenas de alguns usos abstrusos (a cacofonia é propositada) das possibilidades que as línguas nos dão.

[Uma digressão: modificadores apositivos e modificadores restritivos]
A propósito de ambiguidades e de línguas germânicas, uma pequena excursão. Saio do domínio da língua e passo para o da escrita. Problemático, por causar frequentes ambiguidades (aqui, podia ser também “por causar frequentemente ambiguidades”, com modificador do verbo, sem alteração do significado) é o uso da vírgula gramatical, à maneira alemã ou dinamarquesa, que obriga a delimitar todas as subordinadas e não distingue, por exemplo, relativas apositivas de relativas restritivas – isso cria ambiguidade:
As associações da região que integravam o projeto receberam formação sobre variedades híbridas.
Com uso obrigatório de vírgulas a delimitar a relativa, ficamos sem saber se receberam formação apenas as associações que integravam o projeto e as outras não (frase acima), ou se todas as organizações da região integravam o projeto e receberam por isso formação, que é o que diz a frase com vírgulas em português:
As associações da região, que integravam o projeto, receberam formação sobre variedades híbridas.
Esta história também tem uma moral: como na escrita se eliminam muitas redundâncias e se usam estruturas normalmente ausentes do discurso oral, podem criar-se na escrita ambiguidades que nunca surgem na oralidade. 

[Ambiguidade ou deselegância?] 
Mas voltemos às ambiguidades causadas pela má ordenação dos elementos da frase, para rematar. É de notar que muitos dos exemplos apresentados quando se fala de ambiguidade são um pouco exagerados. Quer dizer, são frases de facto textualmente ambíguas, mas o contexto ou o senso comum do interlocutor resolve a ambiguidade.

Veja-se, por exemplo, a frase O José falou com o Rui deitado no chão. Vi uma frase semelhante referida como exemplo de anfibologia e é, de facto, uma frase ambígua, mas só se não houver mesmo contexto nenhum, e uma frase assim costuma fazer parte de uma narrativa. Vi algures outro exemplo do tipo O homem disparou sobre o assaltante de pijama. Bom, neste caso, mesmo que não haja contexto nenhum, é difícil imaginar um ladrão de pijama, não vos parece?

O mesmo em relação a estas duas frases curiosas:
Durante o julgamento, a defesa protestou contra o uso de algemas pelo traficante, alegando que ele feria decisão do Supremo 
e
Resgatada mulher sequestrada após passar 21 anos em uma cova
Também é certo que, sem mais contexto, cada uma delas tem duas leituras possíveis, mas uma das leituras é tão estranha que a recusamos imediatamente: o que seria um traficante ferir uma decisão do Supremos e isso ser motivo para recusar o uso de algemas? E não seria azar a mais ser sequestrado depois de passar 21 anos numa cova? Ambiguidade? Em última análise, sim, mas, na prática, é mais de deselegância, de falta de estilo, que se trata nestes três últimos casos, não vos parece?, que propriamente de ambiguidade…

20/04/14

Águias, sintaxe e água fria [Crónicas de Svendborg #20]

Temos uma amiga que sabe os ninhos todos de águias-rabalvas aqui na ilha de Tåsinge e na ilha vizinha de Langeland.
Foto: Wikimedia Commons
Por estranho que possa parecer quando se começa a reflectir sobre ele (parece que devia ser antes de todos os ninhos”, não era?), é possível este uso transitivo de saber, consagrado, por exemplo, num conhecido poema de Miguel Torga. (O’Neill também sabia transitivamente, mas sabia seios em vez de ninhos. Como uma pessoa pode aninhar-se no(s) seio(s) de outra, é capaz de não haver, bem vistas as coisas, grande diferença entre os objetos do saber de Torga e de O’Neill…)

A amiga que sabe ninhos de águias é banhista de inverno. Temos vários amigos que são banhistas de inverno e alguns deles começaram tarde, já depois dos 60 anos. Quem sabe se, em chegando aos 60, não me vem também a vontade de fazer buracos no gelo, em janeiro, para me enfiar nas águas refrescantes do Estreito de Svendborg? Uma das minhas filhas diz que vai experimentar ser banhista de inverno agora durante o verão e depois logo vê se continua. O meu filho experimentou ontem à tardinha. A experiência não faz dele banhista de inverno, mas banhista de água muito fria já é com certeza: a temperatura da água aqui devia andar pelos 7º.


P. S. Vimos anteontem algumas faias já com folhas. No lago ali em baixo, o barulho é ensurdecedor em todas as épocas do ano: cisnes, patos e gaivotas de vários tipos, galeirões, corvos-marinhos, uma festa.



05/06/08

Deve-se dizer “deve dizer‑se” ou deve dizer-se “deve‑se dizer”? (2)

É curioso: quando uma pessoa acaba de me conhecer e descobre que sou professor de português, arranja sempre maneira de me fazer alguma pergunta sobre se se diz assim ou se se diz assado, e fica sistematicamente desiludida quando eu discorro sobre o fenómeno em vez de lhe dar uma regra. As pessoas, não sei por quê, aceitam mal que se encare a língua como objecto de reflexão. Preferem que seja apenas objecto de regulamentação. O que não deixa de ser curioso. Ninguém imagina, por exemplo, já não digo um botânico, mas, vá lá, um jardineiro a discutir se uma planta deve ser de uma determinada cor ou ter ou uma determinada forma… A língua, porém, ninguém a quer ver como um ser natural…

Bom, não quero dizer com isto que haja uma ruptura definitiva entre a reflexão técnica, digamos assim, sobre a língua e a sua “regulamentação” – até porque se pode sempre rebater de um ponto de vista técnico as razões apresentadas para que determinada coisa “deva” ser de determinada maneira, que é o que eu faço neste texto. Quero dar-vos dois exemplos de “erros” que eu acho que é impossível provar que o são, embora sejam considerados como tal pela quase totalidade de gramáticos e gramáticas.

Começo por um “erro” só da escrita, que é pôr uma vírgula entre o sujeito e o verbo. As regras admitem esta vírgula em circunstância especiais que não vou aqui discutir, mas dizem que, no caso de uma oração em que sujeito o seja só daquele verbo, nunca se pode. Mas nunca porquê? Eu digo que, às vezes, essa vírgula tem razão de ser. Não digo que a uso ou que deve ser usada, apenas que é, no mínimo, muito discutível que esteja mal:

Se em francês ou em inglês se usa o chamado pronome enfático, ninguém tem dúvidas em colocar uma vírgula depois dele, entre esse pronome e o sujeito do verbo: «moi, j’aime le music hall» ou «me, I’m only the piano player». Se «j’aime le music-hall» se traduz por «gosto de music-hall” e “I’m only the piano player” por “sou só o pianista”, as frases com pronome enfático traduzem‑se por «eu (cá), gosto de music‑hall» e «eu (cá), sou só o pianista». Só que este pronome dito enfático tem, em português, uma forma igual à do pronome sujeito. Há muito boas razões teóricas para defender que este eu não é o sujeito imediato do verbo, digamos assim, ou seja, que não está ao mesmo nível na hierarquia dos enunciados, mas eu não quero meter-me por estas questões técnicas adentro. Quero apenas explicar que a vírgula que alguns põem instintivamente em contextos deste tipo está assim justificada.

Evidentemente, é muito mais difícil pensar em questões como: Qual é a diferença entre «eu, gosto de music‑hall» e «gosto de music‑hall»? Em que contextos de comunicação ou de expressão se utilizam as duas formas? Haverá uma terceira possibilidade, um «eu gosto de music‑hall» em que o eu não seja um pronome enfático e que, portanto, não corresponda a uma frase com moi em francês ou me em inglês? Etc. É muito mais fácil decorar numa gramática “nunca se põe uma vírgula entre o sujeito de um verbo e esse verbo”, pronto!, sem se interrogar nunca sobre o que é de facto o sujeito de um verbo... E pode argumentar-se, claro está, que é essa a “vantagem” da regra…

Como a tradição não é e não foi sempre a mesma em todo o lado, vamos encontrar escritores consagrados a usar vírgula entre sujeito e verbo. Em princípio, a regra é a mesma em espanhol, francês, ou inglês, pelo que passo agora a dar um exemplo de John Stuart Mill, que usa várias vezes vírgulas entre o verbo e o sujeito, sem que isso roube nenhuma lógica ao seu discurso: «The aim, therefore, of patriots, was to set limits to the power which the ruler should be suffered to exercise over the community; and this limitation was what they meant by liberty.» [“O objectivo, pois, dos patriotas, era estabelecer limites ao poder que se admitisse ao governante exercer sobre a comunidade; e este limite era para eles o significado de liberdade”]. É de notar que, em línguas como o inglês, o que acontece neste tipo de frases na oralidade, em contextos informais, é, precisamente, introduzir um “segundo sujeito” it depois da vírgula “errada” de Stuart Mill: «Well, you see, the aim of patriots, it was to set limits to the power…» E note-se até que, em francês, o uso de um “segundo sujeito” ce (« le but des patriotes, c’était de… ») neste tipo de frases não se limita de modo algum a registos informais. Que justificação haverá para tal fenómeno? Fica aqui mais matéria de reflexão para quem se interesse por mais do que regulamentar apenas.

Além disso, já vi várias vezes tolerado, que nunca obrigatório, o uso de uma vírgula a separar o sujeito do verbo quando o sujeito é muito longo e é bem provável que, concordando-se ou não com esta prática, testes empíricos de legibilidade confirmem o bom senso da proposta.

Mas passemos agora a um outro alegado “erro” que não é só da escrita, senão podem acusar‑me de estar a fazer batota: ter que em vez de ter de.

Porque deve dizer‑se «tenho de comprar esparguete» e não «tenho que comprar esparguete», como muita gente diz? A argumentação comum é que só de é que é preposição, e que que não o é; e que ter que se utiliza numa situação completamente distinta, como em «não posso sair hoje, porque tenho que fazer», em que a última oração é parafraseável por «porque tenho coisas para fazer». Muito bem! Então, digam‑me lá:

Se em castelhano só se pode dizer tener que e não existe tener de, será porque o que castelhano tem características fundamentalmente distintas do que português? Ou será que são os infinitivos em espanhol que têm características diferentes dos infinitivos das outras línguas e aparecem depois de outras categorias que não sejam as preposições? Muitos responderão que sim, que o que espanhol é diferente do que português. Eu tenho muitas dúvidas, mas aceito a contra-argumentação, porque é possível que assim seja. Mas insisto de outra forma:

Numa frase como «há que esperar mais um bocadinho», pela mesma lógica, também tem de se utilizar um de – «*há de esperar mais um bocadinho» –, não é? Ou este que é do mesmo tipo do que em «tenho muito que fazer»? Bom, não se vê bem como é que a frase com haver que se pode parafrasear por «há coisas para esperar mais um bocadinho»...

É verdade que tento escrever de acordo com as normas dominantes, mas é pela mesma razão que uso gravata em certas ocasiões: por estratégia, para tomarem atenção ao meu conteúdo e não à minha forma. De resto, não acredito em nenhuma superioridade essencial da norma em relação ao resto. Da mesma forma que um fato com gravata não é, em absoluto, melhor do que outra roupa qualquer, também o padrão de uma língua não é, em absoluto, melhor do que as formas não standard. O que se pode dizer é que, da mesma forma que andar de calções no Inverno é, objectivamente, vestir-se mal, também não dizer bem o que se quer dizer é, de facto, usar mal a língua. Para mim, falar ou escrever mal é dizer uma coisa que não é o que se quer dizer ou dizer uma coisa que se pode entender de várias maneiras, ou simplesmente dizer uma coisa que não se percebe. É um erro técnico, mas de um tipo diferente dalguns que criticam desapiedadamente os puristas. É mais como desequilibrar-se ou tirar uma fotografia tremida. E é de evitar ser mal entendido ou não ser entendido, mesmo que as frases que não se percebem sejam frases sem erro nenhum, como muitas que eu ganho a vida a traduzir: «Para contribuir da forma não só mais eficiente mas também mais simples e eficaz para o desenvolvimento metodológico neste campo, foi decidido criar-se um fórum que orientasse o processo e facilitasse a aprendizagem de todas as partes interessadas, plataforma essa cujas tarefas mais importantes vieram a ser a concepção e a implementação de um sistema actualizado e funcional de controlo do desempenho dos intervenientes no programa, a capacitação ao nível regional e o apoio à elaboração de sistemas de monitoria adequados para projectos temáticos específicos, além do desenvolvimento de um conjunto de padrões e indicadores quantitativos e qualitativos a serem usados em avaliação globais que procuram aferir as mudanças registadas não só ao nível do contexto em que a intervenção se insere como no próprio interior das estruturas que a coordenam». O quê?

É de evitar isso e pegas no paleio. Quando todos nos entendemos, vale mais discutir o que se diz do que discutir como se diz. Não sou eu, com certeza, que vou perder tempo a corrigir alguém que escreva: «Nós, temos é que acabar com essa mania que há de atacar a forma em vez de discutir conteúdo…».

04/06/08

Deve-se dizer “deve dizer‑se” ou deve dizer-se “deve‑se dizer”? (1)

Uma das questões mais vezes colocadas em consultórios linguísticos e mais discutidas entre gramáticos e especialistas de bem-dizer e bem-escrever é a da colocação do pronome objecto em orações em que há dois ou mais verbos, o primeiro, naturalmente, conjugado (“auxiliar” ou não) e o(s) outro(s) em formas não finitas. Para quem ficou um bocado na mesma depois desta definição abstracta da problemática, a questão que eu trato aqui pode sintetizar‑se da seguinte forma: deve-se dizer “deve dizer‑se” ou deve dizer-se “deve-se dizer”?

E começo com uma resposta de José Neves Henriques (professor aposentado, membro do Conselho Científico e director do boletim da Sociedade da Língua Portuguesa) a uma pessoa com uma ciberdúvida [foram notas que eu tomei há anos, já não está a resposta online] sobre se é mais correcto dizer e escrever «Vou-te dizer uma coisa» ou «Vou dizer-te uma coisa»:
«Vejamos estas duas frases:

(1) Vou-te dizer uma coisa.

(2) Vou dizer-te uma coisa.

Ambas estão correctas, mas a frase (1) soa melhor.

Há, até, quem ensine erradamente, dizendo que só é correcta a 2.ª frase, porque o te pertence a dizer e não a vou. Pois pertence. E na frase (1) também pertence. Está ligado a vou, não porque pertença a vou, mas porque a ele se liga na pronúncia. Como pertence a dizer, os brasileiros escrevem não raro assim, suprimindo o hífen: Vou te dizer uma coisa.»
É evidentemente discutível que a frase (1) soe melhor. Isso de soar melhor, pelos vistos, depende muito dos ouvidos de cada um, pelo que era preferível José Neves Henriques ter escrito «soa-me melhor». Mas, quanto ao resto, ele tem toda a razão: Tem razão quando diz que muita gente (puristas, sobretudo) considera que «Vou dizer-te uma coisa» é a única opção correcta; e tem razão quando diz que não se pode inferir da posição do pronome nenhuma ligação a outro verbo que não seja aquele a que ele está naturalmente ligado. Por outras palavras, o facto de o pronome não estar posposto ao verbo não significa que não continue ligado a ele. Se tomarmos qualquer frase só com um verbo em que haja anteposição do pronome, o pronome vem antes do verbo e continua a “pertencer” ao verbo: «Não me lembro de nada». Aliás, este argumento da ligação ao verbo é muito pobre. Quando se diz ou escreve «ela tinha‑me dito», ninguém argumenta que deveria dizer‑se ou escrever‑se «*ela tinha dito‑me» (só porque isso nunca se diz...), mas poderia argumentar‑se que também nesta situação não é ao verbo ter que o pronome pertence, mas antes ao verbo dizer. Ora, qual é de facto a diferença entre dois marcadores temporais/aspectuais como ter e estar (a) [já para não questionar a diferença entre estes e marcadores modais como querer e poder, ou outros verbos, como saber, tentar, etc.]? A questão é interessante, sobretudo, quando muitas pessoas preferem «está‑se fazendo» a «está fazendo‑se» (esta última forma creio que é muito pouca usada hoje em dia), mas, em frases que lhes são directamente correspondentes, tanto semântica como sintacticamente, preferem «está a fazer‑se» a «está‑se a fazer». Estranho!

Se a questão já é complexa em frases do tipo das que aqui analisei, mais complexa se torna em frases em que o sintagma verbal está numa situação em que há normalmente anteposição do pronome. Há muito quem defenda que, nesse caso, se o sintagma verbal for do tipo composto que aqui nos importa, a anteposição “normal” fica sem efeito e o pronome se mantém depois do verbo. Ou seja, todos concordam que é «como se diz» e nunca «*como diz‑se», mas «como deve dizer‑se» é, para alguns, preferível a «como se deve dizer».

É complicado. As regras existem, entre outras coisas, para facilitar a vida de quem acha que é opção demasiado vaga, em caso de hesitação, seguir apenas o seu instinto de falante da língua. Muito bem. O que parece é que mesmo os defensores mais acérrimos da posposição do pronome ao infinitivo não deixam de hesitar em determinadas frases. Por exemplo, uma frase como «ela parece capaz de se opor» não é sempre preferida a «ela parece capaz de opor‑se»? E não é também preferível «ninguém pode acusar‑me de me estar a submeter» a «ninguém pode acusar‑me de estar a submeter‑me»? Talvez não, talvez não... «Como se aceitam tantas coisas pode, sem dúvida alguma, aceitar‑se submeter-se a esta decisão» ou «como se aceitam tantas coisas pode‑se, sem dúvida alguma, aceitar submeter‑se a esta decisão»? A segunda é errada, segundo alguns, mas soa muito melhor aos meus ouvidos... «Volta‑se sempre a descobrir o que já se sabia» ou «volta sempre a descobrir‑se o que já se sabia»? Prefiro, de longe, a primeira, não sei do vosso lado (como dizem os moçambicanos). E haverá alguém que, para ser coerente com a preferência de «pode dizer‑se» a «pode‑se dizer», prefira«pode dizer‑se-o» a «pode‑se dizê‑lo»?

Que confusão! Consultemos os mestres.

Pero Vaz de Caminha escreve que, no Brasil, “a terra é de tal maneira graciosa que, querendo‑a aproveitar, dar‑se-á nela tudo”. É verdade, Pero Vaz de Caminha não é mestre nenhum. E é português de há muito tempo, ainda de antes desta nossa modernidade.

Posso citar antes o Padre António Vieira, esse sim um mestre incontestado. Escrevia ele: “Com uma candeia pode‑se ver o que há em uma casa, mas não se pode ver o que há em uma cidade”. , Mas o Padre António Vieira também é de um período longínquo do português, há-de haver quem o não queira aqui como juiz…

Já Eça de Queiroz é autoridade não só reconhecida como moderna: “Quando viesse a monção de sudoeste, a chuva cairia, a colheita seria rica, podia‑se esperar”. E ainda, por exemplo: “Mas a isto pode‑se dizer que aos gregos tem faltado uma oportunidade de revelar as suas qualidades industriosas, sagazes, activas, expansivas”.

Entre antigos e modernos, a hesitação parece vir de longe, porque nestes autores encontram‑se também os pronomes pospostos ao infinitivo em contextos do mesmo tipo. A “instabilidade” na posição do pronome em português é tão antiga que já nem parece muito sensato falar de instabilidade – a regra que temos na cabeça deve ser de um tipo a que poderíamos, só para simplificar, chamar “flexível” (de facto, não há regras flexíveis e uma regra deste tipo é forçosamente mais complexa do que uma regra que obrigue o pronome a ter uma posição fixa determinada).

Para voltar ao princípio, que é também chegar ao fim, se deixarmos de lado o hífen, que é apenas uma convenção ortográfica, e não marcarmos na escrita a relação das partículas átonas com o segmento não átono anterior, o que temos numa frase como «deve se dizer» é uma anteposição do se relativamente a dizer exactamente como a do me na frase «foi-se embora sem me dizer»*. Por outras palavras ainda, a discussão nunca pode passar por um hífen que é uma marca usada de forma perfeitamente arbitrária.

«Pois, conversa tens tu muita, mas a gente fica na mesma: deve-se dizer “deve dizer‑se” ou deve dizer-se “deve-se dizer”?»

Eu respondo-lhe já, em redondilha maior a fingir que prosa: Não há, p’ra mim, que se deva nem deixe de se dever. Que cada qual fal’e escreva o que bem lhe parecer. Eu digo bem o que digo, se o disser com’eu quiser. Car’amiga ou car’amigo, diga como lh’aprouver!
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* Nota a 13 de março de 2014: Até hoje, o texto tinha aqui a seguinte frase:
Se quisermos marcar essa ligação fonética, muito bem, escrevamos então «deve-se dizer», mas a lógica obrigar-nos-ia então a escrever «foi-se embora sem‑me dizer». 
Como um leitor anónimo teve a gentileza de notar, em «foi-se embora» deveria implicar igual procedimento em «sem‑me dizer», mas [esqueço-me] de que "foi" é um verbo e "sem", uma preposição", pelo que, se é possível escrever foi-se, é completamente impossível escrever *sem-me, já que, na ortografia portuguesa (e nas outras...), não se podem ligar com hífen pronomes a preposições, nem a palavras de outra categoria que não sejam verbos. Era, por isso, uma proposição disparatada, que resolvi eliminar. Os meus agradecimentos ao leitor que fez o reparo.

Além disso, esta frase levanta, reparo agora, uma questão interessante: as preposições, são em princípio, itens átonos, como se pode observar pelo timbre das vogais, que é sempre o de vogais átonas, mas parece haver contextos (estarem seguidas de outro elemento átono, como aqui) em que se tornam portadoras de acento. Mas não refleti ainda sobre o assunto, é uma observação surgida agora mesmo.