Mostrar mensagens com a etiqueta Português. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Português. Mostrar todas as mensagens

13/07/26

Ensimesmamento


A palavra mais esquisita da língua portuguesa deve ser o verbo ensimesmar-se

É certo que nem todas as palavras se formam das maneiras mais canónicas. Parabéns, por exemplo, formou-se de uma preposição e um nome (para bens); e o je-m’en-foutisme francês, que refere uma atitude de desinteresse, de se estar nas tintas para o que se passa,  formado de je m’en fous, «estou-me nas tintas» — dois pronomes, um advérbio e um verbo. Também são palavras um pouco esquisitas, mas ensimesmar-se é muito mais.

Ensimesmar-se é, ao que parece, uma palavra importada do castelhano. Quem terá tido a ideia de a usar em português? E, sobretudo, quem terá tido a ideia de lhe acrescentar a mais anómala conjugação da língua portuguesa, a «dupla flexão pronominal reflexa», que não existe no termo castelhano e que, em português, só existe para este verbo? Em castelhano, ensimismarse, por muito que seja tenha sido formado de maneira incomum, é apenas um verbo regular:  yo me ensimismo, tú te ensimismas, ella se ensimisma, nosotros nos ensimismamos, vosotras os ensimismáis, ellos se ensimisman, etc. O que é mesmo estranho no ensimesmar-se português é o pseudo-radical mudar de pessoa para pessoa: eu emmimmesmo-me, tu entimesmas-te, ela ensimesma-se, nós ennosmesmamo-nos, vós envosmemais-vos, eles ensimesmam-se

Pormenor de um desenho de Cory, J. Campbell, 1911
Wikimedia Commons, daqui.
Pode argumentar-se: «Estranho será; mas é lógico.» Bom, a ser lógico, é só meio lógico, porque o particípio passado estraga tudo: o particípio passado é sempre ensimesmado, o que faz que a pretensa lógica dos tempos simples despareça nos tempos compostos. Seguindo a lógica da tal «dupla flexão pronominal reflexa», podia esperar-se uma frase como 

Depois de me ter *emmimmesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Mas não, não existe. Diz-se e escreve-se 

Depois de me ter ensimesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Não há dúvida: a palavra mais esquisita da língua portuguesa é mesmo o verbo ensimesmar-se


08/06/26

Da arrenegação das duplas negativas, uma coisa que agora há


Já uma vez aqui o disse, mas quero agora insistir e desenvolver: essa moda que há agora de defender que as frases negativas só podem ter uma palavra negativa (não, nada, nenhum(ns)/a/as) é simplesmente  sem muitos pés nem muita cabeça. Ao contrário do que pretendem alguns (realço com negrito todas as palavras negativas),

Não fiz nada

não quer dizer «fiz tudo» e a forma correta de negar toda a atividade não é nem

− *Não fiz alguma coisa

que soa a barbarismo, nem

Não fiz tudo,

que obviamente significa outra coisa.

Ao contrário do que pretendem outros

− *Vi nada ou 

− *Conheço aqui ninguém

são simplesmente frases mal construídas. 

Falar e escrever assim é um erro. E não é erro no sentido em que muita gente usa a palavra de «não conforme com a norma culta», até porque eu não escrevo textos a criticar esse tipo de «erros». É erro no verdadeiro sentido da palavra: essa construção não existe em nenhuma variante, seja ela regional ou social, da língua portuguesa; a não ser, claro está, nos últimos tempos, depois de se ter começado a espalhar a ideia estapafúrdia de que a dupla negativa é erro. Começa-se, aliás, a ver essas construções em textos de pessoas que até escrevem bem — o que é bastante interessante, para refletir sobre como se espalham estes fenómenos de pretensa correção... 

O argumento usado para defender estas construções estranhas ao português é pretensamente lógico: duas negações cancelam-se mutuamente, portanto de duas negativas resulta uma positiva: 

− Não vi nada

significaria, assim, «vi alguma coisa» e

Não conheço ninguém

significaria «conheço alguém». Este argumento «lógico» é falacioso, como explicarei mais à frente, e o que eu creio que está por trás dessa recente tomada de consciência de, ai!, uma tão grande falha de lógica! é antes do inglês, cuja norma culta não aceita duplas negativas. 

Em inglês padrão (e noutras línguas germânicas) não é obrigatório um termo negativo antes do verbo em frases negativas e usam-se determinantes, pronomes e advérbios específicos depois do verbo, consoante se tenha ou não usado a partícula de negação antes. Assim, segundo essa norma  

I didn’t see nothing (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi nada»)

é errado, devendo antes dizer-se

I didn’t see anything (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi qualquer coisa») ou 

I saw nothing (palavra a palavra: «Eu vi nada»)[1]

Mas não é o inglês que aqui me interessa, é antes a maneira como se pretende aplicar esta norma ao português. Algumas pessoas, sem grande ideia de como diferentes línguas podem funcionar de diversas maneiras, consideram que a língua deve obedecer ao que eles consideram lógica — algo de que a norma culta do inglês seria bom exemplo — concluindo que as línguas latinas devem seguir o mesmo modelo. 

Vejamos então a questão da lógica. Não se pode dizer que as línguas naturais não sejam lógicas, mas a lógica das línguas é diferente da lógica matemática e de outros tipos de lógica. Essa diferença pode ilustrar-se com exemplos simples e, como não me quero alargar muito sobre o tema, deixo-vos um dos mais óbvios: existem na língua muitas aparentes tautologias, que têm, na realidade, um significado bem diferente de x=x — embora nem sempre seja fácil, mesmo para os especialistas, explicar esse significado. Todos os falantes do português intuem que uma frase como «essa é que é essa» quer dizer algo, mas como descrever o que significa? O mesmo se passa com «um homem é um homem» ou «Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque» ou a famosa frase «um gato é um gato, um cão é um cão, xxxxx é aquilo que os outros não são» (perdoem os xx, mas não quero fazer aqui publicidade...). Uma transcrição desta última proposição que fosse feita hipoteticamente por quem diz que duas negativas dão forçosamente uma positiva poderia ser x=-(-x), o que evidentemente não é de modo nenhum o que a frase diz, até porque, se o dissesse, não seria usada em publicidade...[2] 

Enfim, haveria uma número muito grande de exemplos a dar e muito mais a dizer sobre estas coisas, que são muito interessantes, mas não é essa a intenção do texto. O que eu quero é deixar claro que a lógica da língua não é imediatamente acessível a quem atribua simplesmente um valor determinado a cada forma linguística, em vez de se dotar de instrumentos eficazes para descrever o que se passa de facto quando criamos significado.

Além disso, mesmo para quem insista na lógica matemática, poder-se-ia argumentar, como eu já ouvi a alguém, que as línguas de concordância negativa também têm uma lógica matemática, só que, em vez de ser a da multiplicação, como as línguas germânicas, é a da adição: em inglês é menos por menos dá mais, em português é menos mais menos dá menos. Está bem assim? 

Mas passemos à negativa e à negação. As diversas línguas têm várias maneiras de construir frases negativas. Há línguas em que é obrigatória uma negativa antes do verbo e outras em que não, línguas em que a negativa ocorre quase sempre depois do verbo, outras em que é expressa por uma forma flexional no verbo, etc. Não há nenhuma mais ou menos lógica que outras, todas servem para exprimir as mesmas proposições[3]

Há, pois, línguas em que, como já vimos, a dupla negativa cancela a negação, usando-se geralmente, neste caso, palavras não negativas como objetos do verbo ou com os objetos do verbo, quando este é negado. Estão neste caso, para referir apenas as línguas mais próximas da nossa, a variante padrão do inglês e a maioria das línguas do mesmo grupo, as chamadas línguas germânicas, como o alemão, o neerlandês, o dinamarquês, etc. 

Há outras línguas em que, nas negativas, uma palavra negativa pré-verbal convoca outras palavras negativas também após o verbo: o que se designa como concordância negativa ou negativa enfática. O português é uma das línguas em que se observa este fenómeno (e não há razão nenhuma para deixar de o ser, sim?).

Não quero dar-vos aqui uma lista extensiva das línguas com concordância negativa, até porque não quero dar exemplos em africâner ou farsi, mas podemos ficar-nos pelas línguas mais próximas e mais fáceis de compreender. As línguas latinas têm, em geral, esta característica[4], de maneira que, em castelhano, catalão e italiano tudo funciona como em português. O francês oral moderno é diferente, porque, como desapareceu a partícula ne, não tem obrigatoriedade de negativas antes do verbo, mas o francês padrão escrito (ou falado em situações formais) faz também parte deste grupo. 

Assim, as frases

Não vi nada. Não conheço aqui ninguém 

dizem-se, nestas línguas,

No he visto/ví nada. No conozco aquí a nadie,

No vaig veure res. No conec ningú aquí e

Non ho visto niente/nulla. Non conosco nessuno qui.

Em francês oral, é diferente (J’ai rien vu. Je connais personne ici), mas, em francês escrito, a estrutura é a mesma que nas outras línguas românicas:

Je n’ai rien vu. Je ne connais personne ici.

E porque é assim nas línguas latinas? Era já assim em latim? Não. Em geral, em latim clássico, as duplas negações resultavam numa afirmação, embora haja alguns escritores clássicos que usassem duplas negativas (Plauto: Iura te non nociturum esse homini de hac re nemini, «Jura que não farás, por isto, mal a ninguém.»). 

É interessante constatar que muitas das palavras negativas usadas hoje nas línguas latinas não são as palavras negativas latinas (nemo, nullus, nihil...) e nem sequer são, na origem, palavras negativas. Em português e castelhano, por exemplo, nada vem de [re(s)] nata, «[coisa] nascida»; nadie, «ninguém», em castelhano, vem de nati, «nascidos»; rien, em francês, res, em catalão, e ren, em galego, «nada» vêm de diferentes declinações de rēs, «coisa»; personne, «ninguém», em francês, vem de persona, «pessoa», aucun vem de aliquī unus, «alguém, qualquer pessoa, algo, qualquer coisa», pas vem de pas, «passo», etc. Seria abuso, porém, considerar que a dupla negativa é apenas uma forma cristalizada de palavras originalmente não negativas («não vi nada = não vi coisa nascida [coisa existente]»), porque algumas das palavras negativas, como ninguém em português e nunca em português e castelhano, são negativas à partida. Além disso, uma palavra como nada já não tem hoje, nenhum significado não negativo.

O único caso em português que não é originalmente uma dupla negativa e que se pode considerar inalterado desde há muito tempo é o de nenhum/ns (a/as), que é de facto sempre substituível pela expressão que llhe dá origem, nem um/ns(a/as)e que há até quem (muito poucas pessoas, eu sei, mas conheci algumas) continue a pronunciar exatamente como nem um

Mas, enfim, a verdade é que não é necessário saber porque é que um fenómeno linguístico é como é para constatar que ele existe. E a dupla negativa é um facto inegável nas línguas latinas desde sempre.

Agora, a minha experiência é que, em geral, é difícil argumentar com pessoas que defendem a estranha ideia que aqui critico, porque não se interessam muito por questões de língua, apenas por impor uma regra que decidiram adotar, vá lá saber-se porquê – até porque ela não figura em nenhuma gramática normativa que eu conheça. Contra essa tão rígida convicção, mesmo a apresentação de abonações de escritores considerados modelares no uso do idioma pode ser infrutífera. Uma vez, quando, após uma busca de poucos minutos, apresentei abonações de duplas negativas por Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão e Luís de Camões, o meu interlocutor rejeitou-as como erros dos escritores. 

Mas, como se trata aqui de insistir, agora, em dois ou três minutos, encontro, nas Viagens na minha terra, de Almeida Garrett,

«O meu novelo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.»

«Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso círio que lá foi fazer a monarquia.»

« … porque Addison não põe nada acima da modéstia»

«… depois desta desgraça não me importa já nada»

« Mas não viu nada: o nobre Marquês sempre soube esconder o seu jogo.»

N’Os Maias, de Eça de Queirós, encontro imediatamente

«Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquela alma meio adormecida e passiva»

«– Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada... Não tem prenda nenhuma

«– O Sr. Baptista não tem gosto nenhum

«Não inspira nenhum respeito pela minha ciência.»

«Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum

− Então não lhe digam nada – gritou o marquês.»

E podia continuar com muitos mais citações destas duas obras e de todas as obras de todos os grandes escritores da língua portuguesa, porque, neste tipo de frases, a dupla negativa é tudo o que há — fora talvez de certas liberdades poéticas que eu não me lembro de ter alguma vez encontrado... Continuo a pedir a quem critique a dupla negativa que me apresente abonações do uso que consideram correto por bons utentes da língua. Até hoje, nunca ninguém me mostrou nem uma frase que fosse (ena, tantas negativas!) de um grande escritor que tivesse escrito algo do estilo de 

– *Uma pessoa não aprende alguma coisa ou

– *Uma pessoa aprende nada,

em vez de 

– Uma pessoa não aprende nada

Já agora — mas porque insistes tu, Vítor, porque insistes tu? — note-se que «uma pessoa não aprende alguma coisa» até é uma frase possível, num contexto como

– Se aprendi alguma coisa com a minha professora? Ora, com uma professora como ela, uma pessoa não aprende alguma coisa, uma pessoa aprende tudo o que há para aprender!.

Da mesma forma, «uma pessoa aprende nada» também é possível, num contexto bastante Zen como

– Com a paragem do diálogo interno, uma pessoa aprende nada, aprende vazio, aprende essência sem substância, a comunhão com o Todo pela anulação da Mente...

Não há nada impossível. Se for mesmo isto que se quer dizer...

E a propósito, nesta frase do parágrafo anterior,

Nãonada impossível

pela tal lógica matemática, deve cortar-se não e im-, que se anulam, e escrever

– Há nada possível?

E já agora, mais algumas perguntas aos detratores da concordância negativa:

– Mais do que nunca, sinto-me incapaz de não dizer senão a verdade

é uma frase negativa ou positiva? Eliminando a concordância negativa, como ficaria? E

Não haverá nunca ninguém que não deixe de se pronunciar sobre coisas de que, por não ter pensado nelas o suficiente, não sabe que chegue para não dizer disparates?

Não duvido que haja quem não tenha nunca pensado no que eu o escrevo, senão não o escrevia ?

Na frase

Não creio que ela saiba nada de negativas,

aceita-se a concordância negativa porque o escopo das negativas é diferente nos dois casos (eu não creio e ela não sabe)? E, se não se aceitar, qual é a lógica disso, se só há uma negativa para cada verbo?

– Se escrevermos as palavras «absolutamente nada» de trás para a frente, obtemos «adan etnematulosba», o que não significa absolutamente nada.  

Como se escreve esta frase com a norma de eliminação da concordância negativa? 

Esta última era a brincar, embora fosse a brincar a sério. Deixei-me levar, não liguem. E notem, porém, que não sou radical ao ponto de recusar construções como (é o que faz o Dicionário Huaiss

– Embora ferida, não recebeu qualquer ajuda da polícia

considerando que, em bom português, tem de se escrever

– Embora ferida, não recebeu nenhuma ajuda da polícia

e nem sequer recuso frases como 

Não estou de forma alguma disposto a pactuar nesta questão

que alguns puristas consideram galicismo, achando que, em português correto, se deve dizer e escrever

Não estou de forma nenhuma (ou nenhuma forma) disposto a pactuar nesta questão

Acho que são construções perfeitamente consagradas pelo uso, ao contrário das que aqui recuso.


Por fim, mais como digressão que conclusão, uma perspetiva diacrónica: naturalmente, a maneira como as línguas exprimem a negativa vai também evoluindo ao longo do tempo. E fá-lo segundo determinados padrões que resultam da diminuição da intensidade articulatória das partículas de negação ao longo dos tempos ou da criação de formas enfáticas de negação que acabam por se tornar as formas standards. Esta proposta de evolução cíclica, mais conhecida na versão do linguista dinamarquês Otto Jespersen, assenta na constatação de uma sucessão de fases que se observa em muitas línguas: 

(I) partícula negativa seguida de verbo; 

(II) partícula negativa seguida de verbo e de segunda partícula negativa; e 

(III) verbo seguido de partícula negativa. 

Roy Bualuan faz aqui (infelizmente só em inglês) um excelente resumo deste «ciclo de Jespersen». 

Quase todas as variantes do português estão atualmente na fase (I), com eventuais construções do tipo (II) para ênfase, como

– Ele não come nada, é um pisco

que não significa que a pessoa em questão não ingere alimentos em absoluto, senão já estaria morto, mas entende-se antes como «ele come muito pouco».

A fase (II) observa-se em variantes brasileiras com o redobro do não após o verbo, como em

Não sei não,

além de cadeias de concordância negativa, claro;

E, embora com menos frequência, observam-se também construções da fase (III), com um único não posposto ao verbo em variantes não-standard brasileiras:

– Dona Rute, aqui na rua? Conheço não, amigo

E, por agora, não tenho mais nada a dizer. 

_________________   

[1] Note-se que, embora não sejam termos negativos, any, anyone, anything, etc., não são termos positivos como o são some, someone, something, e não se usam apenas no escopo de um verbo negado, mas também no escopo de certos verbos não negados como em «he doubted he had seen anyone» — e não «he doubted he had seen someone»  *«I did’t see something» é tão agramatical como a frase que diretamente lhe corresponde em português, *«Eu não vi alguma coisa».

[2] Vejamos então, seguindo um raciocínio lógico, o que se passa quando digo, por exemplo, que

− A minha cadela está farta de saber que não pode trazer os ossos que lhe dou no quintal para dentro de casa, mas insiste, insiste, insiste sempre — não sei para quê, porque eu ponho sempre os ossos lá fora outra vez…

e a minha interlocutora comenta

− O que é que querias? Um cão é um cão, pá!

O que acontece é que uma mesma palavra pode significar várias coisas, por exemplo, referir um ser do mundo real ou a classe de todos os seres do mesmo tipo ou as características que o falante atribui a esse tipo de ser. O que a minha interlocutora diz, obviamente, é que «uma característica da espécie que não pode deixar de se aplicar ao teu cão é querer guardar os ossos no seu território e contra isso não há nada a fazer». As duas ocorrências da palavra cão têm, na sua resposta, significados diferentes.

[3] Há quem considere também que há dupla negativa nas frases em que um dos elementos da predicação nega a negação da predicação, como em «isto não está incompleto», em que «incompleto» significa «não completo». Creio que, neste aspeto, todas as línguas funcionam da mesma forma. Neste caso, há dupla negação, o que resulta numa afirmação, mas é duvidoso que haja dupla negativa em sentido estrito. Se admitirmos que «incompleto» é «não completo» e que, por isso, há duas negações na frase, como muitas palavras têm antónimos, mais ou menos perfeitos e mais ou menos graduáveis,  teremos de admitir que há dupla negativa em (i) frases como «esta folhagem não é caduca» ou «ele não está morto» (mas como se determina qual é o valor não negado em pares de adjetivos como «caduco» e «perene» ou «morto» e «vivo»?); (ii) em frases como «ele não é imberbe», por muito que «berbe» não exista; e (iii) em frases sinónimas da frase com a pretensa dupla negativa, por exemplo «isto não está por terminar» em vez de «isto não está incompleto» — e acho que ninguém o faz…

[4] Há até línguas em que tradicionalmente se usam,  sobretudo no discurso mais formal, duas negativas antes do verbo em contextos específicos:

Nada é gratuito, tudo tem um preço e ninguém pode negar que me esforcei

diz-se, em catalão e francês, respetivamente,

Res és gratuït, tot té un preu i ningú pot negar que m’hi he esforçat e

Rien est gratuit, tout a un pri et personne peut nier que j’ai fait un effort,

mas também se pode dizer e escrever (alguns puristas dirão que se deve...) 

Res no és gratuït, tot té un preu. Ningú no pot negar que m’hi he esforçat e

Rien n’est gratuit, tout a un prix. Personne ne peut nier que j’ai fait un effort

O mesmo fenómeno existia em português medieval, em que se documentam frases como «nehūu scapou nen nehūa cousa que na vyla ouvesse» e também em inglês médio (Chaucer: «He nevere yet no vileynye ne sayde», palavra a palavra: «Ele nunca [ainda] nenhuma vilania não disse»).  

Observa-se, curiosamente, uma construção parecida no português de Moçambique, que, não sendo ainda considerada standard, talvez se venham a fixar: em frases iniciadas com nem, com o sentido de «nem sequer», coloca-se um segundo não antes do verbo: «nem dinheiro para o chapa não tenho». 



19/05/26

Diferenças de género entre o português e o castelhano e alguns comentários a propósito

 

É mais fácil aprender línguas mais parecidas com a nossa língua que línguas menos parecidas. Isto dito assim parece uma grande lapalissada, mas há muito quem tente difundir a ideia de que há línguas fáceis e difíceis para toda a gente, de maneira que é sempre bom insistir um pouco no que talvez seja óbvio para algumas pessoas. Agora, mais fácil  não significa «fácil». Nunca é fácil aprender uma língua. E mesmo uma língua tão próxima do português como o castelhano pode ter, para nós, algumas dificuldades. 

O tema deste texto não é uma das maiores dificuldades do castelhano. Mas há umas quantas palavras castelhanas que, sendo cognatas de palavras portuguesas e tendo, por isso, formas semelhantes, são de género diferente. Às vezes, achamos isso estranho, ás vezes engraçado, mas estas diferenças de género existem, enfim, e temos de habituar-nos a elas ao falar castelhano.

Exemplos de palavras comuns femininas em castelhano e masculinas em português são la ducha, la leche, la miella narizla risa, la sal, la sangre, la señal e la sonrisa, e palavras em -umbre que correspondem a palavras portuguesas em -ume, como la costumbre e la legumbre. Vislumbre é uma exceção nesta lista: pode ser masculino ou feminino em castelhano e não há *vislume em português... A palavra portuguesa vislumbre é importada do castelhano e fixou-se no género masculino na nossa língua. 

É de notar também os nomes femininos de várias máquinas terminados em -dora, que têm correspondentes masculinos em português: aspiradoracomputadora, grabadora e secadora

Quanto às palavras masculinas em castelhano e femininas em português, algumas das mais comuns são el análisis, el árbol, el equipo, el estante, el fraude, el frente, el lente, el orden, el origen, el partido [desportivo] e el puente, além das palavras em -aje que correspondem a palavras portuguesas em -agem, como el aprendizaje, el coraje, el garaje, el mensaje, el paisaje, el viaje, etc., e algumas palavras em -or, como el color, el dolor, el honor, etc.

Além disso, há, em castelhano standard, várias palavras que podem ter os dois géneros sem serem comuns de dois. Listo aqui as três mais importantes:

Azúcar é uma das palavras que pode ter os dois géneros. Na Europa, é preferida a forma masculina, na América quase sempre a forma feminina.

Arte também é um caso curioso: a palavra pode ser feminina ou masculina, mas algumas das expressões cristalizadas em que aparece juntamente com um adjetivo são sempre de um ou do outro género. Por exemplo, arte poética, bellas artes e malas artes são sempre femininas; e são sempre masculinas arte abstracto, arte figurativo, arte pop, el arte por el arte e sé(p)timo arte, entre outras expressões.

Mar também pode ter dois géneros, sendo o feminino mais literário ou formal. Há casos, porém, em que mar é sempre feminino, como sejam as expressões alta mar, mar ancha e mar larga, que significam todas «alto-mar», e expressões para descrever o estado do mar, como mar cerrada, mar llana, mar rizada, etc. É claro, a palavra mar em português também seria às vezes feminina se baixa-mar, preia-mar ou praia-mar fossem consideradas pares de palavras separadas, com mar e os adjetivos baixa e preia/praia ...  

Há mais palavras que podem ser ser masculinas ou femininas em castelhano, mas nenhuma delas é muito comum. O fenómeno é raro em português, mas não tão raro como eu pensava até há pouco tempo. Descobri que os dicionários registam apenas o duplo género de componente, avestruz e cólera (doença), mas sei que, na prática, se verifica instabilidade no género de outras palavras, como auto-estrada, diabetes, enzima, grama e derivados (quilo-, hecto-, etc.), e matiz, das que agora me vêm à mente.


__________________________________________________________

Diferenças de género entre o português e o castelhano 

Até aqui, dei só exemplos, mas deixo agora aqui, para consulta, uma lista o mais exaustiva possível de diferenças de género entre o português e o castelhano. É uma lista que comecei há 27 anos e que está em permanente atualização, à medida que vou descobrindo mais.

Nomes femininos em castelhano e masculinos em português

la alerta = o alerta
la altamar = o alto mar. 
la aspiradora = o aspirador
la baraja = o baralho
la brea = o breu
la cárcel = o cárcere
la centésima [de segundo, etc.] = o centésimo
la computadora = o computador
la costumbre* = o costume
la coz = o coice
las cuartas de final [de competição desportiva] = os quartos de final
la cumbre* = o cume
la décima [de segundo, etc.] = o décimo
la diadema = o diadema
la diapositiva = o diapositivo
la(s) dote(s) = o(s) dote(s) na aceção de «dons, qualidades». De resto, a palavra castelhana pode ter os dois géneros. 
la ducha = o duche
la escuadra = o esquadro. Apenas na aceção de «esquadro»; a palavra escuadra corresponde também a esquadra nos outros sentidos.
la espora = o esporo
la grabadora = o gravador
la guía [livro] = o guia. O uso de feminino em português é muito raro e nem está consagrado em todos os dicionários. 
la hectárea = o hectare
la labor = o lavor; o labor
la leche = o leite
la legumbre* = o legume
la lumbre* = o lume
la masacre = o massacre
la miel = o mel
la nada = o nada
la nariz = o nariz
la paradoja = o paradoxo
la pesa  [para balanças, ou em ginástica e halterofilia]= o peso.
la pez = o pez. Não confundir com el pez , «o peixe»
la posguerra = o pós guerra 
la postal = o postal
la protesta = o protesto
la risa = o riso
la sal = o sal
la sangre = o sangue
la secadora = o secador
la señal = o sinal
la sonrisa = o sorriso
la tilde = o til

Nomes masculinos em castelhano e femininos em português

el (psico)análisis = a (psic)análise
el aprendizaje** = a aprendizagem
el árbol = a árvore
el armadijo = a armadilha 
el avestruz = a avestruz. Sei que os dicionários aceitam os dois géneros em português, embora, no meu português, a palavra seja sempre feminina.   
el calambre = a cãibra
el candor*** = a candura
el cassette = a cassete
el centinela [comum de dois em castelhano] = a sentinela [só feminino em português]
el cerco = a cerca. Também se pode usar cerca com o mesmo signficado e  cerco pode corresponder também ao português cerco , p. ex. a uma cidade.
el cólera [doença] = a cólera. Sei que os dicionários aceitam os dois géneros em português, mas creio que o cólera é uma forma caída em desuso
el color*** = a cor
el conducto [de água, por exemplo] = a conduta. A palavra conducta , no sentido de comportamento, é feminina como em português.
el coraje** = a coragem
el dolor*** = a dor
el engranaje** = a engrenagem
el equipo = a equipa
el espesor*** = a espessura
el estante = a estante
el estreno = a estreia
el forraje** = a forragem
el fraude = a fraude
el frente = a frente, nas aceções militar, política e meteorológica. Quando significa «testa» ou «face», a palavra  frente é feminina. 
el garaje = a garagem
el honor = a honra
el insomnio  = a insónia
el iris = a íris
el lenguaje** = a linguagem
el lente = a lente
el maratón  = a maratona
el margen = a margem. A palavra margen , na aceção geográfica, pode ser dos dois géneros, mas, nos outros sentidos, é sempre masculina.
el matiz = a matiz
el mensaje** = a mensagem
el orden = a ordem. Na aceção religiosa ou de «instituição civil ou militar», orden é feminino.
el origen = a origem
el paisaje** = a paisagem
el partido [desportivo] = a partida. Em castelhano europeu, a palavra partida também existe, mas usa-se para o conjunto das várias mãos de uma competição.
el pasaje** = a passagem
el pétalo = a pétala
el puente = a ponte
el rezo = a reza
el riego = a rega
el sino = a sina
el trueque = a troca
el vals = a valsa
el viaje** = a viagem
 
** = Os nomes castelhanos em  - aje , masculinos, correspondem muitas vezes a nomes portugueses em  agem, femininos.
*** = Os nomes castelhanos em -or , masculinos, correspondem a nomes sem género típico em português.

Palavras com dois géneros em castelhano e masculinas em português

azúcar = o açúcar. Azúcar pode ter os dois géneros em castelhano. Na Europa, é preferida a forma masculina, na América ocorre muitas vezes a forma feminina.
dote = o dote
gráfico, gráfica = o gráfico
mar = o mar. Mar é sempre feminino nas expressões alta mar , mar ancha e mar larga , que significam todas «alto-mar», e em expressões para descrever o estado do mar, como mar arbolada , mar cerrada , mar gruesa , mar llana , mar rizada , mar sorda e mar tendida .
terminal [de autocarro]   = o terminal. Em castelhano, terminal pode ter os dois géneros, consoante as regiões, quando se trata de um terminal de autocarros ou de computador. Quando se trata de um terminal elétrico, é masculino.
vislumbre = o vislumbre

Palavras com dois géneros em castelhano e femininas em português

armazón   = a armação
arte = a arte. Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola, são sempre femininas as expressões arte cisoria («arte de cortar carne»), artes mayores, artes menores, arte metálica, arte métrica, arte poética, bellas artes e malas artes e são sempre masculinas as expressões arte abstracto, arte figurativo, arte mobiliar, arte pobre, arte pop, el arte por el arte e sé(p)timo arte .
enzima = a enzima  
frente = a frente, na aceção de «fachada»
margen = a margem. Na aceção geográfica, a palavra 
margen pode ser dos dois géneros, mas, nas outras aceções, é sempre masculina.
vodka = a vodka/vodca



13/05/26

Notas ilustradas sobre algumas palavras do castelhano da América do Sul

 

Abarrotes

Uma mercearia é, nalgumas zonas da América Latina, uma tienda de abarrotes. Abarrotes são os produtos que a mercearia vende, comestíveis e não só. Se estabelecem intuitivamente uma relação entre abarrotes e o verbo português abarrotar, está a vossa intuição a funcionar bem. Mas a relação não é uma pessoa ficar a abarrotar por comer muitos abarrotes — não é bem essa a história das expressões… 

Joan Coromines   explica : barrote vem de barra; e de barrote vem abarrotar, que significava originalmente fixar a estiva (a primeira carga a entrar no porão) «enchendo os espaços vazios, primeiro com barrotes e depois com qualquer objeto, em especial artigos alimentícios, que ocupavam pouco espaço, donde abarrotes como nome destes fardos e, na América, dos artigos que eles continham, importados de Espanha na época colonial». O verbo abarrotar alarga depois o seu significado de «encher os espaços do porão, fixando a carga» para «encher completamente». 

Em português, é tudo muito semelhante. Alguns dicionários de português dão para abarrotar o significado «colocar barrotes; cobrir ou segurar com barrotes» e o de «encher completamente, atafulhar», que é o mais comum. Outros, porém, referem também o significado mais antigo da linguagem náutica: «atulhar os vãos da estiva com carga miúda», «encher os porões até às escotilhas». 

Ou fomos buscar o termo abarrotar ao castelhano (que é o que me parece mais provável e o que propõe Antenor Nascente no seu dicionário etimológico) ou eles a nós, ou evoluiu da mesma maneira nas duas línguas, que é o mais improvável. O que é certo é que, se de facto importámos abarrotar, não importámos o nome abarrotes — não se encontra em português. 

Empastado e empanadas

Em castelhano, pasta podia designar um tipo de encadernação (ver aqui, aceção nº 7), e empastar significava encadernar desta maneira; mas o significado do verbo alargou-se e acabou por se tornar sinónimo de encadernar em geral. Empastados são, pois, encadernações  — no caso da fotografia à direita de fotocópias de livros de estudo.

Empanada (cartaz do rés-do-chão) significa «empada» e até aí não há nada a dizer. É uma das diferenças gerais entre português e espanhol, a falta de uma sílaba na nossa língua, resultante da queda de uma consoante entre vogais e posterior fusão das duas vogais em hiato, como em, por exemplo, panadaria > paadaria > padaria com o primeiro a aberto. Mas o que se perde, creio eu, com esta evolução portuguesa, é a imediata ligação de empada a pão. Num caso como padaria, isso importa pouco, porque uma padaria é o sítio onde se vende pão, de maneira que a ligação está presente na cabeça dos falantes. Mas, em empada , não se ouve imediatamente que é algo que é metido dentro de pão. É claro, existe panar com uma relação óbvia [?] com pão, mas é uma coisa diferente. Curiosamente, no Brasil, ao que sei, empanar designa o que nós chamamos panar, envolver em pão ralado, e não fazer empanadas … Agora, haveria que perguntar aos falantes do castelhano se «ouvem» em empanada o pão que lá está dentro. «Ouvimos» nós o pão em panar ? Não sei…

Llanta 

A história da palavra llanta é curiosa: a palavra veio do francês jante, tal e qual como a palavra portuguesa jante 😊 E, como vem de jante, podemos ser levados a pensar que deveria ser antes yanta e que llanta seria o resultado de um erro natural e muito comum, a confusão das grafias de y e ll — já que, na grande maioria das variantes do coastelhano, se pronunciam da mesma maneira. Mas não. A ter sido erro, foi há tanto tempo que já ninguém se lembra dele e llanta é mesmo a forma considerada correta. Agora, houve sítios em que llanta, de designar a jante, passou a designar o que lhe está por fora, o pneu [!] — como talvez já tivessem percebido pela fotografia, porque furar jantes seria uma ameaça muito estranha… 

Já agora, jante, em francês, vem do latim tardio *gambita. Poder-se-ia supor que fosse alguma forma diminutiva de gamba, «jarrete do cavalo», que foi a palavra que deu  jambe, «perna» (e gâmbia, em português...) e que se tivesse feito alguma analogia entre as rodas dos carros e as pernas dos animais. É com estas suposições que nascem muitas falsas etimologias e, por isso, é sempre necessário ir ver o que escreveu quem estudou mesmo o assunto. De facto, a palavra gambita parece vir antes do gaulês cambita, que significava, precisamente… «círculo de madeira formando a periferia da roda»! 

Mistela

Mistela é uma daquelas palavras que, com variações mínimas, se encontra em todas as línguas mais próximas da nossa, incluindo o inglês, mas com um significado que não parece ter em português: o de «mosto de uva a que se adiciona aguardente». Aparentemente, a diferença entre uma mistelle como o Pineau francês e vinhos fortificados como o Porto, o Xerês, o Marsala ou o Madeira, entre outros, é que, na mistela, o sumo de uva não chega a começar a fermentar. Em francês, mistelle parece ser sinónimo da designação mais oficial vin de liqueur. Parece que a origem do termo é o italiano mistella, de origem óbvia (de misto) e que é através do castelhano que se espalha para as outras línguas. (É estranho: o CNRTL diz que a primeira atestação em castelhano é de 1914 , mas Coromines diz que é de 1822 ...)

Além deste primeiro significado, os derivados de mistella parecem ter, em castelhano, catalão e português, pelo menos, o significado de «bebida resultante da mistura de água, açúcar e temperos a uma base de vinho ou aguardente».

Não é difícil entender como, dos significados anteriores, deriva o significado mais comum em português atual, de «bebida de mau sabor e/ou de má qualidade, zurrapa» e desse o significado mais geral de «mistura desagradável, mixórdia». Muitos portugueses (como eu até muito pouco tempo) só conhecem estas duas últimas aceções do termo, pelo que não deixariam provavelmente de sorrir, se vissem uma mistela comercializada com esse nome.



23/04/26

De bainhas e vagens


Gosto às vezes de fazer textos assim: pegar numa palavra ou num molho delas e, já que as palavras são como as cerejas, ir dizendo o que me venha agarrado a essa ou essas palavras. Desta vez, o molho de palavras é o das derivadas do latim vagina, porque acho curiosa uma derivação tão produtiva, com tantos descendentes tão diferentes (?) uns dos outros.

***

A palavra latina vagina significava originalmente «bainha, estojo de faca ou espada», significado que se alargou para «estojo, capa, proteção» de qualquer coisa (casca de grão, vagem, vagina, etc.). A palavra tem muitos descendentes, sobretudo nas línguas românicas, mas também em línguas célticas. Em português deu bainha, vagem e a forma não standard vage/bage, e a forma culta vagina

E também deu baunilha, que não deriva diretamente do latim, mas sim do castelhano vainilla, diminutivo de vaina, «vagem», palavra essa que deriva, essa sim, diretamente de vagina. Será que se pode considerar «uma vagem de baunilha» um pleonasmo? 😊

Os axónios dos neurónios são revestidos por uma  bainha de mielina,
que os protege e acelera a propagação dos impulsos nervosos. 
Imagem: Creative Commons, daqui

Bainhas

Não deixa de ser curioso assinalar, que, nas línguas latinas mais próximas, há vários cognatos de bainha com o significado original de «estojo de arma branca [1] », mas o significado de «dobra cosida para rematar uma peça de vestuário» só se desenvolveu em português [2]

Note-se, já agora, que não são só as armas brancas que têm bainhas: as unhas retráteis dos felinos também. 

Além dos usos mais comuns, bainha tem ainda usos técnicos e científicos muito específicos que não vou listar aqui, mas que têm sempre a ideia de capa, invólucro, proteção.


Vagens

A evolução de vagem é curiosa: paralelamente a vainha/bainha, vagina evoluiu também, no romance do noroeste ibérico, para vaginha/baginha, que foi depois interpretado como diminutivo de vage/bage, tendo-se então «reconstruído» uma forma que nunca existira[3]. Quando digo «interpretado» não falo de uma interpretação consciente, mas de uma interpretação inconsciente pelo programa mental, digamos assim, dos falantes da língua. Isto acontece muitas vezes e é o que se chama reanálise.

Além do seu significado geral mais comum de «fruto em forma de cápsula, com muitas sementes lá dentro», a palavra vagem designa também, nalgumas regiões de Portugal, uma vagem específica, a do feijão, quando se come inteira antes de os feijões se desenvolverem — o que, nas outras regiões se chama feijão verde[4]

Agora, não é só a vagem do feijão que se pode comer inteira: as vagens de ervilhas e favas também são comestíveis. Ver, por exemplo, aqui, aqui, aqui e aqui.


Vagens de baunilha, ilha da Reunião
A baunilha é a mais cara de todas as vagens. O preço varia muito conforme a sua qualidade, mas vi agora online que as vagens de baunilha de qualidade superior podem custar algo como 2€/grama, para quantidades pequenas. A baunilha é uma orquídea domesticada na zona que é hoje o México e o seu cultivo é bastante trabalhoso, implicando nomeadamente polinização feita à mão, com uma técnica descoberta por Edmond Albius, um rapaz escravizado da ilha da Reunião. Edmond Albius tinha só 12 anos quando descobriu o método que veio revolucionar a produção de baunilha.


Uma vagem muito saborosa (ou melhor, a polpa branca que a reveste interiormente) é o pacai (Inga feuilleei). Em inglês, o pacai chama-se ice cream bean, o que dá uma ideia da textura e sabor da polpa. 

________________

[1] Entre outros, vaina em castelhano, gaine em francês, guaina em italiano, beina em catalão e vaíña em galego.

[2] Por exemplo, ourlet em francês e orlo em italiano, cognatos do português orla; dobladillo em castelhano e doblec em catalão, ambos de origem óbvia; e basta em galego (que também existe em castelhano com o significado de «alinhavo», que confusão!), de origem germânica. 

[3] A nasalização no fim da palavra surge depois por analogia com palavras que a tinham naturalmente por derivarem de termos latinos terminados em -ine, como margem ou origem .

[4] Em vários falares hispano-americanos, usa-se também vaina, «vagem», para designar o feijão verde.  



22/04/26

Três breves notas sobre etimologias não muito claras

Caiar

[* significa forma hipotética, não atestada]

O Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, diz que caiar vem do latim canāre , «tornar branco», passando pelas formas * cãar e * cãiar [1] . A etimologia proposta por José Pedro Machado parece-me estranha, porque não faz derivar de cal o verbo caiar — e caiar é cobrir de cal , pelo que seria muita coincidência vir de uma palavra não relacionada com cal com os mesmos sons iniciais. Além disso, não encontro outras palavras com uma evolução semelhante à que José Pedro Machado propõe...

O Aulete faz a mesma proposta, mas com menos convicção: propõe que talvez venha de canāre . O Priberam prefere considerar que o termo é de «etimologia duvidosa». O Porto Editora propõe em alternativa canāre ou caleāre , «estar quente», mas com interrogação. O Dicionário da Academia das Ciência de Lisboa propõe apenas o latim * caleāre , por calēre , «estar quente». Antenor Nascentes no seu Dicionário Etimológico Resumido concorda que «a base deve ser cal», mas acha que «a parte fonética está difícil de estabelecer», porque «* caleare daria * calhar e não caiar » [2] . O Aurélio também propõe em alternativa duas hipóteses, canāre ou a forma portuguesa [e galega, acrescento eu] calear , que vem obviamente de cal . Esta última hipótese de vir de outro verbo, deverbal de cal , parece-me bem mais convincente do que a de vir do clássico caleāre , «estar quente». 

Agora, não sei se a evolução de calear (e) levaria forçosamente a * calhar e não a caiar . Vejamos o que aconteceu com bailar . É normalmente aceite que bailar vem do latim tardio ballare , nalgumas propostas através do provençal balar , mas Antenor Nascente diz que «o i é inexplicado». Nunca vi nenhuma explicação sobre o i no bailar português, mas há uma boa hipótese sobre a evolução em espanhol que explica esse mesmo i : ocorre primeiro uma passagem do ll latino a li e depois uma metátese de * baliar a bailar . Em português, está atestada a forma balhar , que parece confirmar uma forma * baliar anterior, e bailar bem pode provir também da metátese de * baliar a bailar postulada para o castelhano. A ser isso certo, balhar foi uma das evoluções de * baliar , a outra foi bailar . Podemos ainda ir mais longe e constatar que, pelo menos no Brasil, se regista a forma baiar , que não sei onde nem quando se formou. 

Por fim, das palavras diretamente relacionadas com cal , não é só na palavra caiar que surge o i  . Há também caieira , que coexiste com caleira para significar «forno de cal»; e caieiro que, como caleiro , refere o homem que fabrica e/ou vende cal [3] . Estas formas são fáceis de explicar (cal+eiro=caleiro>caeiro>caieiro) e devem ser considerada na discussão de caiar . O que eu não sei é se tiveram uma difusão tal que se possa considerar que caiar se possa ter formado por influência delas...

Serralheiro e cerrajero  

Serralheiro, séc. XV (Wikimedia Commons, 
ver mais informação aqui .)
Pode surpreender que a palavra espanhola para serralheiro seja cerrajero , porque é fácil associar serralheiro a serra e cerrajero a cerrar , «fechar». Mas como é que duas palavras tão semelhantes não são cognatas? 

Quando se pesquisa, porém, chega-se à conclusão que as duas palavras são de facto cognatas, porque vêm ambas, em última instância, do verbo latino serāre , «fechare». O Dicionário da Real Academia Espanhola dá como étimo imediato de cerrajero o termo cerraja , «fechadura», derivado de seracŭlum , do latim tardio serāre , «fechar» [de sĕra , «tranca de porta»]. Os dicionários portugueses dão antes como étimo o latim serracŭlum , «leme». Já agora — e isto é também interessante — todos os dicionários que vi concordam que é o latim tardio serāre que está na origem de cerrar e encerrar.

Há aqui vários mistérios: 

Na proposta espanhola dos étimos seracŭlum para cerraja e na proposta de todos os dicionários de serāre para cerrar , como é que o r intervocálico latino se transforma em rr ? De facto, a oposição entre r e rr entre vogais é clara em todos os falares ibéricos e parece manter-se inalterada desde o latim aos falares modernos. 

Quanto à distinção entre c e s , se é verdade que ela hoje está anulada em muitos falares ibéricos, ela manteve-se até hoje na maior parte do castelhano de Espanha, uma parte do galego, e persiste ainda, embora moribunda, em falares do norte de Portugal. É certo que se anulou na maioria das zonas de falas ibéricas (castelhano andaluz, canário e americano, português moderno excetuando os dialetos já referidos), mas foi clara até relativamente tarde. Será que cerrar já foi serrar ? É claro, na proposta dos dicionários portugueses de serracŭlum para base de serralheiro , a questão do rr não se põe, mas... como se chega de leme a serralharia?

Há algo nestas questões que merece maior esclarecimento…

Sobre a questão do rr , diz Antenor Nascentes que cerrar vem do latim serare , «fechar com fechadura», «influenciado por serra , serrare , como atestam muitas glosas». O latim serrāre tinha já o mesmo significado que serrar , «cortar com serra».

Antenor Nascentes assinala, para a etimologia de serralharia e serralheiro , que vêm de «um primitivo perdido, derivado do lat. vulg. serraculu , «fechadura», tirado de serrare (pelo clássico serare , e conservado em espanhol, italiano, provençal e francês)»

Se a proposta de interferência de serrar na história de cerrar me parece perfeitamente plausível, é ainda mais plausível, pela proximidade semântica, uma influência de serrar na história de serralheiro . E é certo que esta interferência pode, nos dois casos, ter levado à adoção de um rr onde a etimologia não o justifica. Assim, o mais lógico é que o étimo seja  seracŭlum , «fechadura», como propõe a Real Academia Espanhola, mais tarde transformado pela influência de serra , e não o leme serracŭlum . E o lógico é que o primitivo perdido, que se encontra noutras línguas, seja, em português, * serralho ou * serralha , com o sentido de «fechadura».

Vaipe

Descobri agora que alguns dicionários já registam a palavra vaipe (Porto Editora: «mudança súbita de comportamento; reação inesperada; impulso»), mas não propõem nenhuma etimologia. A mim, a origem sempre me pareceu óbvia, mas uma pessoa nunca se deve fiar muito nas suas intuições, de maneira que despromovo a minha certeza a tímida proposta: creio que vaipe é uma deturpação, feita na gíria jovem angolana dos anos 60/70, do inglês vibe , abreviatura, na gíria juvenil da década de sessenta, de vibration . A confusão entre [b] e [p] não surpreende, pelo que a única coisa que falta explicar é o género masculino, já que, sendo vibration um cognato facilmente identificável de vibração , a sua abreviação seria naturalmente feminina em português. A atribuição do género feminino acontece de facto, quando se usa o empréstimo vibe(s) no discurso em português, que eu creio que é algo posterior e que mantém o significado da expressão inglesa. Se pensarmos, porém, que a importação anterior, que deu vaipe , foi feita por pessoas com poucos conhecimentos de inglês, é provável que não houvesse consciência da relação entre vibe e vibration . Essa falta de domínio da língua de origem da palavra pode também explicar o desvio semântico: em vez de descrever « o ambiente de um lugar, de uma situação ou estado de espírito, disposição de uma pessoa, etc., e a maneira como nos fazem sentir », vaipe passa a descrever o surgimento de uma disposição ou estado de espírito.



_______________

[1] A edição a que tenho acesso diz que  canāre  passou a «* cãar que se tornou * caiar e, depois, caiar ». Presumo que a repetição da forma seja gralha e que a segunda forma intermédia seja antes * cãiar .   

[2] Dependendo do período em que se proponha a evolução de caiar a partir de calear , pode dizer-se o mesmo desta proposta que da proposta de um caleare latino: também devia dar * calhar

[3] A. M. Galopim Carvalho inclui na lista de derivados de cal os caios , «ilhas rasas, feitas de areia calcária, dos mares recifais das Caraíbas», mas é palavra que não encontro em dicionários.