13/05/26

Notas ilustradas sobre algumas palavras do castelhano da América do Sul

 

Abarrotes

Uma mercearia é, nalgumas zonas da América Latina, uma tienda de abarrotes. Abarrotes são os produtos que a mercearia vende, comestíveis e não só. Se estabelecem intuitivamente uma relação entre abarrotes e o verbo português abarrotar, está a vossa intuição a funcionar bem. Mas a relação não é uma pessoa ficar a abarrotar por comer muitos abarrotes — não é bem essa a história das expressões… 

Joan Coromines   explica : barrote vem de barra; e de barrote vem abarrotar, que significava originalmente fixar a estiva (a primeira carga a entrar no porão) «enchendo os espaços vazios, primeiro com barrotes e depois com qualquer objeto, em especial artigos alimentícios, que ocupavam pouco espaço, donde abarrotes como nome destes fardos e, na América, dos artigos que eles continham, importados de Espanha na época colonial». O verbo abarrotar alarga depois o seu significado de «encher os espaços do porão, fixando a carga» para «encher completamente». 

Em português, é tudo muito semelhante. Alguns dicionários de português dão para abarrotar o significado «colocar barrotes; cobrir ou segurar com barrotes» e o de «encher completamente, atafulhar», que é o mais comum. Outros, porém, referem também o significado mais antigo da linguagem náutica: «atulhar os vãos da estiva com carga miúda», «encher os porões até às escotilhas». 

Ou fomos buscar o termo abarrotar ao castelhano (que é o que me parece mais provável e o que propõe Antenor Nascente no seu dicionário etimológico) ou eles a nós, ou evoluiu da mesma maneira nas duas línguas, que é o mais improvável. O que é certo é que, se de facto importámos abarrotar, não importámos o nome abarrotes — não se encontra em português. 

Empastado e empanadas

Em castelhano, pasta podia designar um tipo de encadernação (ver aqui, aceção nº 7), e empastar significava encadernar desta maneira; mas o significado do verbo alargou-se e acabou por se tornar sinónimo de encadernar em geral. Empastados são, pois, encadernações  — no caso da fotografia à direita de fotocópias de livros de estudo.

Empanada (cartaz do rés-do-chão) significa «empada» e até aí não há nada a dizer. É uma das diferenças gerais entre português e espanhol, a falta de uma sílaba na nossa língua, resultante da queda de uma consoante entre vogais e posterior fusão das duas vogais em hiato, como em, por exemplo, panadaria > paadaria > padaria com o primeiro a aberto. Mas o que se perde, creio eu, com esta evolução portuguesa, é a imediata ligação de empada a pão. Num caso como padaria, isso importa pouco, porque uma padaria é o sítio onde se vende pão, de maneira que a ligação está presente na cabeça dos falantes. Mas, em empada , não se ouve imediatamente que é algo que é metido dentro de pão. É claro, existe panar com uma relação óbvia [?] com pão, mas é uma coisa diferente. Curiosamente, no Brasil, ao que sei, empanar designa o que nós chamamos panar, envolver em pão ralado, e não fazer empanadas … Agora, haveria que perguntar aos falantes do castelhano se «ouvem» em empanada o pão que lá está dentro. «Ouvimos» nós o pão em panar ? Não sei…

Llanta 

A história da palavra llanta é curiosa: a palavra veio do francês jante, tal e qual como a palavra portuguesa jante 😊 E, como vem de jante, podemos ser levados a pensar que deveria ser antes yanta e que llanta seria o resultado de um erro natural e muito comum, a confusão das grafias de y e ll — já que, na grande maioria das variantes do coastelhano, se pronunciam da mesma maneira. Mas não. A ter sido erro, foi há tanto tempo que já ninguém se lembra dele e llanta é mesmo a forma considerada correta. Agora, houve sítios em que llanta, de designar a jante, passou a designar o que lhe está por fora, o pneu [!] — como talvez já tivessem percebido pela fotografia, porque furar jantes seria uma ameaça muito estranha… 

Já agora, jante, em francês, vem do latim tardio *gambita. Poder-se-ia supor que fosse alguma forma diminutiva de gamba, «jarrete do cavalo», que foi a palavra que deu  jambe, «perna» (e gâmbia, em português...) e que se tivesse feito alguma analogia entre as rodas dos carros e as pernas dos animais. É com estas suposições que nascem muitas falsas etimologias e, por isso, é sempre necessário ir ver o que escreveu quem estudou mesmo o assunto. De facto, a palavra gambita parece vir antes do gaulês cambita, que significava, precisamente… «círculo de madeira formando a periferia da roda»! 

Mistela

Mistela é uma daquelas palavras que, com variações mínimas, se encontra em todas as línguas mais próximas da nossa, incluindo o inglês, mas com um significado que não parece ter em português: o de «mosto de uva a que se adiciona aguardente». Aparentemente, a diferença entre uma mistelle como o Pineau francês e vinhos fortificados como o Porto, o Xerês, o Marsala ou o Madeira, entre outros, é que, na mistela, o sumo de uva não chega a começar a fermentar. Em francês, mistelle parece ser sinónimo da designação mais oficial vin de liqueur. Parece que a origem do termo é o italiano mistella, de origem óbvia (de misto) e que é através do castelhano que se espalha para as outras línguas. (É estranho: o CNRTL diz que a primeira atestação em castelhano é de 1914 , mas Coromines diz que é de 1822 ...)

Além deste primeiro significado, os derivados de mistella parecem ter, em castelhano, catalão e português, pelo menos, o significado de «bebida resultante da mistura de água, açúcar e temperos a uma base de vinho ou aguardente».

Não é difícil entender como, dos significados anteriores, deriva o significado mais comum em português atual, de «bebida de mau sabor e/ou de má qualidade, zurrapa» e desse o significado mais geral de «mistura desagradável, mixórdia». Muitos portugueses (como eu até muito pouco tempo) só conhecem estas duas últimas aceções do termo, pelo que não deixariam provavelmente de sorrir, se vissem uma mistela comercializada com esse nome.



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