28/05/26

Recordações de infância: o amolador


A nostalgia coletiva é um fator de identidade. Um dos nossos vários círculos identitários é constituído pelas pessoas com recordações de juventude semelhantes às nossas: «E lembras-te de quando apareceram os iogurtes, naqueles boiões de vidro?»

Bem vistas as coisas, talvez não seja exatamente um círculo, mas sim vários, porque algumas destas recordações são muito locais («Lembras-te daquelas grandes tardes de futebol ali na praceta»?), outras são um bocadinho menos locais («E os homens que vendiam bolacha americana, lembras-te?»), e, no mundo moderno, outras são até bastante mais globais: «E do Bonanza, lembras-te? E do Santo?» «Perfeitamente. E do Ironside? A minha avó chamava-lhe «homem das rodas», não conseguia dizer Ironside.» 

E depois, há recordações que tendemos a considerar locais, quando na realidade podem ser partilhadas com gente de muito longe do território da nossa infância. A última vez que vi um limpa-chaminés, que, para mim já só existia nas minhas nebulosas recordações de infância, foi em Copenhaga há cerca de 25 anos. Já são raríssimos em todo o lado e podem recordar-se com a mesma nostalgia com que se recordam as primeiras calças à boca de sino.

Outro exemplo de algo que se pode recordar em conversas nostálgicas com alemães, italianos ou argentinos da nossa idade («Lembras-te?...») é a figura do amolador, uma figura que foi já comum em todo o mundo e que em todo o mundo está em vias de extinção, quando não está mesmo extinta... E que é o tema deste muito breve artigo, em que pouco mais faço que juntar aqui algumas fotografias e alguns vídeos. Não há nada mais irritante que lâminas que não cortem, não é verdade?

Evidentemente, os amoladores não foram sempre iguais em todos os tempos e lugares — e não se anunciaram, nem anunciam, todos com o mesmo som. O som é, curiosamente, o que primeiro me vem à cabeça quando penso num amolador. E o som que eu associo ao amolador da minha infância, a escala ascendente e depois descendente numa flauta de Pã de plástico, parece ser comum, com muito pequenas variações, aos amoladores de línguas ibéricas, dos Pirenéus à América Latina. 

Em França, ao que consegui descobrir, os amoladores de antanho anunciavam a sua passagem não com uma flauta de Pã, mas sim com um sino. E andavam, como em muitos outros países, com carrinhos de mão. Quase de certeza também em Portugal, antes do meu tempo, mas não sei..

Também nunca tinha ouvido falar, antes da pesquisa que fiz para este texto, de carrinhos de amolador puxados por cães, que parece que eram comuns nalguns países.

As pessoas da minha geração de vários países, porém, provavelmente já só se lembram de amoladores de bicicleta, motorizada ou furgoneta. A minha mulher, dinamarquesa, diz que os da juventude dela andavam de ciclomotor.  Uma enciclopédia sueca em linha, por exemplo, diz que, antigamente, os amoladores «tinham geralmente equipamento móvel, frequentemente sob a forma de uma bicicleta adaptada em se que acionava a pedra de amolar com os pedais» — exatamente com os que eu conheci em Portugal. 

O verbo português amolar não perdeu o l intervocálico latino, como perderam , moer ou moinho, que são parentes próximos. As palavras para designar o amolador são semelhantes à portuguesa em várias línguas romances e têm todas relação com (mola- , em latim), como em português: amolador ou amolanchín existem em espanhol, a par do mais comum afilador; em catalão diz-se esmolet, esmolaire ou esmolador; em occitano  amolaire ou amoulaire; mołeta em véneto; ammulatóre em tarentino; ammuola forbece («amola-tesouras») em napolitano; e ammola/ammula cuteddi («amola-facas») em siciliano. Em galego, porém, que é a língua mais próxima do português, amolador diz-se afiador

É interessante notar, a propósito, que encontrei em vários sítios a informação de que, em Espanha, os amoladores vinham quase sempre da província galega de Ourense.  A Wikipédia em galego também dá conta deste fenómeno (traduzo eu): «O ofício consolidou-se com especial intensidade na Galiza interior, documentando-se a presença de amoladores ambulantes pelo menos desde finais do século XVII. A maioria procedia de zonas rurais da província de Ourense, onde o trabalho de amolador funcionava como estratégia económica complementar à agricultura.»

Os amoladores galegos chegaram até a criar um calão profissional, o barallete, para não serem compreendidos pelas outras pessoas. 



P. S. 1: É interessante constatar que ainda há quem decida lançar-se com entusiasmo numa profissão que geralmente se considera condenada a desaparecer. É o caso de Gaël Charlot, na província francesa dos Altos Alpes. Não posso inserir aqui o documentário sobre este jovem amolador, mas podem vê-lo no YouTube  (só em francês, sem legendas disponíveis).

P.S. 2: Também há canções sobre amoladores. Deixo aqui três, uma argentina, uma italiana e uma francesa. A primeira é uma valsa ranchera de 1932, pela «voz romântica do tango», Agustín Magaldi; a segunda é de Luciano Tajoli e foi editada em 1951; e a terceira é de 1952 e é cantada por André Claveau.

P.S. 3: O mais completo repositório de imagens sobre o ofício de amolador que encontrei é 12 Eeuwen Scharensliep («12 séculos de amoladores»), um vídeo de quase uma hora. Infelizmente, as legendas explicativas são só em neerlandês. O vídeo é feito com uma sequência de fotografias, pinturas e desenhos de várias épocas e vários sítios, e mostra todo o tipo de amoladores, fixos ou ambulantes, incluindo carrinhos de vários tipos. A partir de 30:00 e até 43:40, é intercalado um filme alemão (também só com legendas em neerlandês) que mostra o processo tradicional de fazer uma pedra de amolar. 

P.S. 4:  A página da Wikipédia sobre o ofício existe em 23 línguas, com quantidades de informação variáveis. A página em inglês é a mais completa.

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As fotografia são Wikimedia Commons. 1. Amolador em Amersfoort, Países Baixos, 1909: 2. Amolador em Marselha, s.d., início do séc. XX; 3. Amolador e cliente, Alemanha, 1939, foto de Richard Peter; 4. Amolador com carrinho puxado por um cão, França, postal de 1908; 5. Bicicleta de amolador e menina turista, Caorle, Itália, 1958, foto de Karl Oppolzer.









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