Dizem que não devemos nunca voltar aonde fomos felizes. A Karen e eu não fomos especialmente felizes nos dois anos que passámos em Malacate, mas também não fomos especialmente infelizes. Foram sobretudo tempos intensos, disso não há dúvida. Voltámos a Malacate em 2026, para rever pessoas e sítios, para voltar a ver os desfiladeiros de rocha vermelha e as velhas casas de adobe à beira do rio. Queríamos saber o que tinha mudado.
A rua principal continua aparentemente igual, com as mesmas lojas sem horário, barbearias, pequenas mercearias, vinho e aguardente, fotocópias e encadernações. Mas só aparentemente. Faltam as pessoas que já lá não estão.
Susana, a dona do mais famoso bar da vila — era uma das melhores cantoras da província, dizia-se sem exagero nenhum — morreu o ano passado.
Fechou o café da D. Lucha, que servia os melhores lomitos da zona. Também morreu há uns anos, coitada, ainda relativamente jovem.
Falta a velha camioneta Dodge de D. Edgar, chofer de mudanças e de tudo, e especialista em churrascadas. Também já não está entre nós.
A D. Abel, que tinha vindo da capital para trabalhar para Malacate num programa agrícola, decidiu por lá ficar, comprou terra e se lançou em vários pequenos e bem-sucedidos negócios, levou-o o covid, dizem que por só ter procurado ajuda tarde demais.
D. Clotilde, a mulher dele, morreu seis meses depois dele de uma morte estúpida: engoliu mal qualquer coisa que estava a comer e que se lhe entalou na garganta, asfixiando-a antes que ela tivesse tempo de pedir ajuda.
D. Cristóbal tem agora 98 anos, que é uma idade a bem dizer impossível na região. Passa as tardes sentado no jardim à entrada de casa e saúda quem passa com um sorriso distante. Se alguém o cumprimenta e se apresenta explicando-lhe quem é, D. Cristóbal, se consegue localizar o interlocutor na sua memória, começa a chorar. De alegria.
D. Rosa, a sua mulher, um pouco mais nova que ele e ainda de cabeça clara, diz que, depois da morte do filho, o ano passado, vive à espera da morte do marido, e depois da sua, porque é assim que as coisas são.
D. Carlos, Carlitos para os amigos e para quem lhe conhece a fama de guitarreiro, está demasiado velho para os impecáveis ponteios em zambas, cuecas e tonadas. Está a morrer, dizem os seus antigos companheiros de descantes e guitarrear.
A estrada foi talvez o que mais mudou. Já não existe a velha estrada de terra batida, mortal em vários trechos, que ligava Muñecas a Belgrano. As velhas cruzes a assinalar acidentes mortais, normalmente despistes em ribanceiras de dezenas de metros, centenas às vezes, ainda lá estão à beira da estrada, mas a estrada é agora asfaltada e as seis horas que se levava até Muñecas ou Belgrano foram reduzidas a metade.
A vila cresceu, como seria de esperar, e está mais bonita. Há várias pracetas novas, floridas e bem cuidadas, e foram arranjadas muitas das casas antigas que estavam à beira de ruir. O mercado também se alargou, no espaço e nos produtos disponíveis, e tem agora um edifício com comedores populares. E há dois terminais ferroviários, um para autocarros de longo curso e outro para os minibuses que saem a toda a hora para Muñecas e Belgrano.
E houve também quem conseguisse melhorar a sua vida.
D. Isabel conseguiu transformar num bonito hotel a casa grande que tinha na vila. Fez as obras com o dinheiro que foi juntando a alugar quartos aos trabalhadores da estrada, aquando da sua construção há uns anos.
Félix foi a única pessoa que, nos dois anos que passámos em Malacate, nos convidou a almoçar em sua casa. E claro, convidou-nos outra vez durante a nossa visita. Rimo-nos e cantámos e recordámos episódios de há 25 anos. Está para abrir um restaurante. Diz que vai finalmente haver um sítio em Malacate onde se coma bem.
D. Jaime e D. Luzmila continuam a dar aulas, apesar de terem já idade para a reforma. Quando conheci D. Luzmila, ainda não era professora, começou o magistério depois de ter a segunda filha há 26 anos. D. Jaime e D. Luzmila começaram também um negócio de doces e compotas, vai já para 20 anos, e passam todos os fins de semana nas cidades mais próximas, a vender os seus produtos. Dizem que foi o que os safou, porque só os salários não chegavam para muito e assim lá conseguiram aumentar a casinha e pagar a educação das filhas, que têm agora cursos superiores. Nunca ninguém da família de nenhum deles tinha tirado um curso superior.
As pracetas da vila, tanto as novas como as que eu já conhecia, homenageiam aristocratas e militares do início do século XIX. Faltam monumentos aos atuais heróis da nação: gente como D. Jaime e D. Luzmila.Há coisas em Malacate que parecem não querer mudar. E porque haviam de mudar em 25 anos, quando não mudaram em centenas deles? Continua a servir-se porco assado no forno ao fim de semana nalgumas fazendas centenárias à beira-rio. Os bêbedos continuam beber dias e noites sem parar e as velhas famílias de proprietários continuam a achar que el honor os impede de trabalhar e queixam-se de que os campos estão cada vez mais abandonados porque não há quem queira trabalhar pelo que eles lhes querem pagar; e trabalhar é o que mais faz quem não é, como eles, dono das melhores terras.Os imponentes desfiladeiros de rocha vermelha e o rio verde acastanhado continuam iguais, e as velhas mansões de adobe nos arredores da vila cada vez mais em ruínas.
Não vale a pena procurarem no mapa a vila de Malacate. Ela existe, mas não é Malacate que se chama. A fotografia é de outro sítio. Todos os nomes próprios do texto foram alterados e também algumas descrições das pessoas, para não se poderem reconhecer a vila e as pessoas reais de que falo. Quem me conhece saberá de que terra se trata e quem conhecer essa terra é bem capaz de descobrir a quem se referem estes nomes que aqui pus.

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